revista bula
POR EM 08/09/2008 ÀS 08:56 PM

Gravidez atrapalhada

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Em Mundocaia acontece cada coisa que só mesmo sendo ali, um lugar onde as forças do mundo enguiçaram ou realizam novas experiências. Talvez não seja desprovidas de verdade a conclusão de Francino, um pensador local, ao conjecturar que a Terra é o estômago do universo, onde tudo está em permanente digestão.
           
Filosofia à parte, um dos últimos acontecimentos esquisitos foi a da gravidez atrapalhada de Ethelvina Matia de finado Osório. O bochicho correu a cidade e chegou até a zona rural: Alguém havia embuchado a filha de finado Osório. Quem seria o monstro para fazer uma coisa daquelas? A moça era lesa das idéias e tinha uma aparência horrível. Só mesmo sendo uma besta para fazer uma coisa daquela, dizia-se.
           
As autoridades compraram as dores do malfeitio. Sujigaram a pobre moça a revelar a autoria. Fizeram exames, audiências, seções de psicólogos e nada. Não retiraram dela uma cedilha de revelação.
           
Outros acontecimentos foram tomando o lugar, até que a gravidez de Ethelvina caiu no esquecimento. E ela foi se adaptando a seu jeito de grávida: vergou a espinha pra trás em busca de um ponto de equilíbrio, vestido curto na frente, comprido na traseira. A barriga cresceu até se estabilizar. No entanto, ninguém mais estava se ligando praquela gravidez.
           
Nisso se passaram dezoito anos. Ethelvina caiu no esquecimento e perdeu até o nome. Quando alguém se referia a ela a tratava por A Buchuda. Como se sua gravidez tivesse alcançado a perenidade.
           
Mas por último começaram as contrações e as dores do parto. Ela foi levada à maternidade pública. Novamente o interesse reacendeu. A comunidade médica entrou em alvoroço. Todo mundo queria ser o seu parteiro que daria a conhecer ao mundo, quando a mídia viesse com sua ânsia de novidades. 
         
Dr. Salviano, diretor da maternidade, avocou o caso pra si. Mandou o assessor de imprensa da prefeitura fazer um release e convocar a imprensa. Na hora do parto faltava espaço para tanto holofote. Dr. Salviano estava assanhado como um piolho de luz. As contrações de Ethelvina eram fortes demais, próprias de uma gravidez de dezoito anos. Seus urros eram ouvidos nos arrabaldes mais remotos e faziam tremer os objetos mal acomodados nas prateleiras.
           
De parto normal, finalmente veio ao mundo uma menina. Mas não era um bebê convencional. Era uma pessoa adulta com tamanho de bebê. Se fosse vegetal, era um bonsai. Mas logo após o nascer ela teve crescimento acelerado, a olhos vistos. A pele estalava em estrias na tentativa de acompanhar.  Antes que terminasse o resguardo a menina tinha o tamanho da mãe e a mesma aparência. Feita uma bateria de exames, a nova moça estava grávida.

Mais uma vez Munducaia esteve nas páginas do mundo. Dr. Salviano também, com sua tese bizarra de que a cria de Ethelvina e a de sua filha eram na realidade todas irmãs univitelinas. Não paralelas, mas embutidas em série, uma na outra.   


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POR EM 19/08/2008 ÀS 10:35 AM

Não é de hoje...

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Não é de hoje que o correio perdeu o remorso e nos entrega sem pudor aqueles panfletos infames alardeando eventos de engambelo à melhor idade. Não é de hoje que nossos olhos pegaram essa neblina feroz ou nos fazem ver como quem olha por canudos de PVC. Que nossos passos perderam o elástico da caminhada, que começamos a gaguejar com as pernas e nossas vozes pegaram tropeços até nas sílabas mais singelas.

Não é de hoje que nossas mãos vão ficando aduncas, como se fôssemos nos tornando descendentes de alguma de ave de rapina. Não é de hoje que nossas mãos ressecas e nossos dedos nodosos perderam o traquejo para os manuseios do carinho e do amor. Que nossas vértebras num apego inquebrantável ao chão vão se organizando em forma de arco romano. Seria um preparo para o espírito sair de nós em triunfo? 

Não é de hoje que as garotas das recepções e dos caixas nos chamam de Senhor e quando se irritam com nossa demora de ação ou de entendimento se referem a nós como Meu Tio... Não é de hoje que ao sairmos como o filho pequeno do último casamento as pessoas corteses exclamam: Nossa, seu netinho é uma graça! Não é de hoje que, por nós, apenas sorriríamos, mas nosso caçula irado retruca: Não é meu avô não, viu? É meu pai. Não é de hoje que diante dessas situações inusitadas as pessoas trocam olhares marotos, como quem diz: Tem pai que não se enxerga!...

Não é de hoje que o rock ‘n roll deixou de ser a voz da gerações e a trilha sonora de uma época de sonhos sem limites. Por falar em sonhos, não é de hoje que nossos sonhos desvaneceram e o que deles sobrou está secretamente escondido em alguma gaveta do coração, mas com aparência de fantasma e um cheiro terrível de naftalina. Nosso slogan de “paz e amor” ficou pelo caminho, como pétalas esmagadas pelos pés dos elefantes.

Não é de hoje que desistimos de mudar o mundo com acordes de guitarras mal afinadas e rasgados relinchos de jovens loucos ao romper da madrugada. Não é de hoje que a era de aquários ia chegar trazendo coisas novas, como uma profecia que se cumprisse abruptamente, rachando o chão, bem ali ao alcance da mão, na estação propícia.

Não é de hoje que um tempo novo de realizações alvissareiras, como uma semente de humanidade ou espiritualização ia acordar de sua dormência ante a primeira chuva, à luz dos relâmpagos inaugurais. Não é de hoje que as normalistas do Sacré-Coeur se alvoroçavam ao nos ver e nos chamavam de “pão”. Não há mais normalistas do Sacré-Coeur,  a palavra pão perdeu aquele significado e em nós o que era pão agora é só bolor.                                               

Não é de hoje que somos esses dinossauros falando um idioma fóssil que já nem cabe na boca das gerações da era dos bites, porque a nossa é a dos Beatles e dos Beatiniks.

Não é de hoje esta sensação de ter rompido o elo que nos atava à fauna do homo sapiens, habitante de um planeta amigável, de clima ameno, inserido num plano superior rumo a glorioso destino. Não é de hoje que a palavra “futuro” deixou de designar coisas grandiosas e possíveis apesar de distantes guardadas em papel azul  nos cofres do porvir.

E não é de hoje que nossos corações insistem em nos dizer que nada disso está acontecendo. Que é tudo superstição. Que nós temos a idade de nossos sentimentos.

Ah, meus Deus, não é de hoje que são iludidos nossos pobres corações! 

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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:43 PM

Um prego entre enamorados

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Muito tímido o Olavo. Tinha já 18 anos quando iniciou na arte de namorar. Deixara Mundocaia no ano anterior e era estudante secundarista na Capital. Num daqueles retornos à cidade natal pra rever a mãe e os amigos começou, meio sem jeito, a namorar Gabriela. Uma menina alta, de uns dezesseis anos, muito bonita. Talvez magra demais. Olavo suspeitou que Gabriela lhe sobrara, por ser magra demais. Mas esses sentimentos negativos logo foram trocados por outros de melhor extração.

Apesar da timidez e da falta de experiência, Olavo até que mandou bem. Tomaram refrigerante no Cassino Gardênia, dançaram separados nas músicas de batida e agarradinhos nas músicas lentas. Deu em Gabriela uns arrochos em regra, uns esfregões de coxas e umas bicotas de jeito, a ponto de ser elogiado pelos beijos. Levou-a em casa, a pé pelas ruas desertas e pouco iluminadas, com direito a amassos no portão, antes de entregá-la ao refúgio do lar.

Combinaram que no próximo fim de semana Olavo viria da Capital novamente e outra vez haveriam de se encontrar nas dependências do Cassino Gardênia. Assistiriam ao show dos Radicais Livres, uma banda de rock remanescente dos anos sessenta. E o namoro seguiria engrenado como teria de ser.

Desde então o jovem enamorado se sentia outro. Mais adulto, mais confiante, mais homem, mais ele. E neste estado de espírito foi que concluiu consigo mesmo que Gabriela de fato era a mulher de sua vida. Formou convicção de com ela se casar.

No sábado seguinte, Olavo assistiu às aulas com a desatenção dos condenados. Pegou o primeiro ônibus após o meio dia para Mundocaia e foi levitando. Desceu antes da cidade, no sítio da mãe viúva. A mãe preparou janta, passou a roupa enquanto o filho tomava banho de bacia, lambrecava-se de perfume ordinário e até passou umas minâncoras da mãe pelos braços para aplacar o fubá da pele.
 
Olavo vestiu a melhor roupa, moldou com glostora o penteado diante do espelho de mão à luz de vela de sebo, conferiu na carteira o retrato 3 x 4 que daria a Gabriela e ensaiou mentalmente umas palavras galantes. Calçou os sapatos já de solados derruídos, pegou um pedaço de trapo para retomá-los da poeira quando alcançasse o asfalto.

A noite escura, os esbarrões em ramos empoeirados, a distância do sítio à cidade nada haveria de lhe quebrantar o coração festivo que levava no peito. Mas um prego traiçoeiro, preso de um lado numa ripa, atraiu o pé de Olavo. Atravessou a sola já bem débil, passou a pele, a carne. Varou vasos. Trespassou o pé.  Teve que se sentar no chão para arrancá-lo. O sapato encheu de sangue. Sua vertigem de amor se converteu em vertigem de esgotado. Sem jeito de avisar à namorada, retornou pra casa e a mãe lhe preparou um emplasto para atalhar a sangria.

Com Olavo roendo a corda, Gabriela começou a namorar Alfredo, mais por vingança que por afeição. Trinta anos depois, Olavo ainda carrega no peito essa certeza doída de que sua vida teria sido outra, não fora aquele prego maldito.  

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POR EM 05/08/2008 ÀS 10:43 AM

O salvador dos algozes

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Marx Vance conseguiu notoriedade na função de repórter policial. Tinha uma coluna diária no segundo maior jornal, um programa diário de rádio e ainda participava de um noticiário dominical na televisão. Seu trabalho sempre era o da crônica policial.

Marquinhos, para os íntimos, era conhecido também pela ambígua alcunha de Boca-de-Bueiro. Uns diziam que o apelido vinha de sua falta de papas na língua. Os mais pragmáticos não tinham dúvidas: o apelido vinha mesmo era de seu hálito pestilento. O mau hálito dele era tão feroz que quando aparecia na TV ou sua voz saía no rádio, chegava junto o cheiro insuportável de curtume. Sei lá se pelo hálito ou pela personalidade de ouriço, era de pouco amigos. Muitos admiradores e inimigos mais ainda.

Poucas semanas antes dele morrer nas circunstâncias escabrosas que não me cabe relatar, me convidou para um chope, na antiga Praça da Cirrose, quando ali se reunia a fina flor da nata do lixo.

Quando nos encaminhávamos já na calçada da praça, para nosso destino etílico, o carro da ronda com seus lampejos circulares passou por nós. O Cabo da viatura gritou Ô, Boca-de-Bueiro, e parou. Os quatro policiais desceram e eu só não me assustei por que sabia do bom relacionamento de Marquinhos com a polícia.

Marquinhos chamou o Cabo de Tenente, vi pela divisa. Saquei logo que era uma estratégia de valorizar o amigo, elevando sua patente. Falaram de coisas diversas, mas sempre dentro do métier, num jargão fechado.

O que pude entender é que a patrulha trazia no camburão uma dupla de meliantes, pegos em suas atividades corriqueiras. O Cabo abriu a traseira e nos mostrou o que ele chamou de presuntos. Como não estavam mortos, deduzi que chamá-los de presuntos seria o mesmo que dizer que iam leva-los para algum arrabalde, tirar-lhes a vida e desovar num despenhadeiro qualquer. Foi o que pensei, mas não fiz perguntas.

Marquinhos olhou os sujeitos e falou pro Cabo: Tenente, pode soltar esses dois aí. É gente nossa. É o Tonelada e o Zé da Pampa.

O Cabo sem pestanejar, ali mesmo mandou os dois descer, abriu as algemas, não sem antes aplicar um potinho de humilhação. A patrulha seguiu seu itinerário. Sentamos à mesa. Perguntei a meu amigo quem eram Tonelada e Zé da Pampa e ele me disse: Sei lá. Inventei na hora. Fiquei com dó daqueles dois manés.

Depois da meia noite, quando íamos pegar o carro a uns dois quarteirões, saíram das sombras dois sujeitos, nos deram vós de assalto e levaram nossas carteiras com nosso rico dinheirinho, cartões e tudo. Passado o entrevero eu disse: Aqueles dois não eram o Tonelada e o Zé da Pampa que você acabou de inventar?

 Eram , sim. Ele me disse. Mas se eu os reconhecesse, eles nos apagavam.

Psicologia de repórter policial.

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POR EM 29/07/2008 ÀS 08:47 AM

Lenda suburbana

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Antônia, depois de desesperados tratamentos, no ocaso da fertilidade, teve uma filhinha. Menina linda, carinhosa, olhos verdes, cabelo bom, uma graça a Ana Maria.

Mas como nem tudo são flores, o marido morreu vítima de emboscada de cheiradores de cola aos dois anos da filha. Biscateiro, não deixou pensão. Antônia teve de trocar o emprego de meio expediente por um de período integral, para dar conta do conforto que ela queria dar. Aquelas coisas que ela própria não teve, mas para a filha...  Mesmo sendo uma viúva de subúrbio, já se cozinhando no banho-maria do climatério e se enfeixando em rugas.

Agora deixava a filhinha de manhã na escola. Ia para o trabalho do outro lado da cidade. Não almoçava em casa, ai meu Deus, que pesar! Ao sair da escola, a filha ficava na casa de uma tia, irmã do falecido pai, até a mãe retornar, com os assombros da noite.

À tarde a menina vivia o seu trivial. Brincava com os primos maiores, ajudava a tia numa coisinha ou outra. Lavava um prato, varria um cômodo, enxugava talheres e, principalmente, fazia as tarefas de casa. Às vezes via televisão ou escutava música. Sonhava ser bailarina, como sonha toda normal menina.

Na quinta-feira o programa era diferente. Era o dia de ir com a tia chegava até a horta do seu Dodô Ladainha e comprar frutas, verduras, tubérculos e legumes fresquinhos para a semana. Ana Maria adorava. Seu Dodô tinha cabras, galinhas, frutas de colher com a mão. Tinha netos seu Dodô e sua quinta era uma festa, além do próprio seu Dodô que era uma alegria só.

Mas a fatalidade parecia espreitar Antônia e sua adorada filhinha de olhos verdes e cabelo bom. Naquela tarde de quinta, como era de costume, foi com à tia buscar as coisas na horta de seu Dodô Ladainha. A tia pegou a sacola pesada: mangarito, mandioca, batata-doce, tomate, feijão-de-vagem, jiló, pepino, as frutas da estação.

Para a menina passou a sacola com as folhagens: alface, chicória, acelga, rúcula, couve e almeirão, além das folhas de chá como, alecrim, hortelã capim-de-cheiro, alfavaca.

No caminho de volta, Ana Maria reclamou pra tia que a sacola estava dando choque. A tia achou graça da pilhéria e falou que ela estava puxando à família da mãe, que é um povinho moroso e deitado com a carga.

Ana Maria foi murchando como as folhas retiradas do ramo, foi ficando pra trás com o pretexto de que a sacola estava dando choque. E a tia arengava com exclamações: deixa de moleza, menina!

Mas Ana Maria caiu no chão, desfalecida. A tia veio correndo. Vieram os vizinhos. O braço da menina estava roxo e a mão cheia de pares de pequenos furos. Um vizinho encontrou entre as folhas de alface uma serpente cascabulho, de mais ou menos um palmo e meio. Era tarde demais para a busca de qualquer socorro à futura bailarina de olhos verdes e cabelo bom.  

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POR EM 22/07/2008 ÀS 05:05 PM

Supertições e crenças

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Não me venha agora dizer que nada disso mais importa, que a memória (e o esquecimento) para a vida está plenamente morta. Que há um prodigioso chip no mercado que, se instalado bem de jeito, vai botar no chinelo aquele velho cérebro desgastado e obsoleto.

Não me venha agora dizer que o passado não importa mais, que a nova tecnologia poderá, num futuro não distante, reformular o passado inteiramente, em termos muito mais nobres e elegantes, e que aquelas tardes de privações sem vitória que povoaram minha infância podem ser por um recall, ou numa operação de upgrade,  trocadas por instantes de fartura e glória.

Não me venha agora dizer que estas flores de antúrio, escandalosamente abertas em fálicos simbolismos, nada mais dizem às meninas impúberes, com a vida fervilhando a mil na calha dos ossos, e a ânsia criando bojos na composição do corpo de novas mulheres.

Não me venha agora dizer que Deus não está vivo, nem morto, mas anestesiado.

Que estamos vivendo o fim da história e que, neste contexto, as corporações comerciais detêm mais influência que os estados soberanos, que a vida de uma nação inteira tem menos importância que o balanço anual de uma montadora de carros coreana.

Não me venha agora dizer que não damos a mínima àquela aurora desatada sobre o verde da campina, que o superávit primário conta mais do que os rios perenes de água cristalina, mais do que uma temperatura amena em todas as estações do ano, mais do que um vento sem alarde todas as horas do dia, mais do que uma paisagem macia onde possamos repousar as vistas ao sol fatigante das quatro da tarde.

Não me venha dizer agora que somos fera, que somos o cróis, o bicho feroz de outra esfera e que, se a firma tiver lucro, respira até atmosfera de ácido sulfúrico. Que não importa o ouro em veludos matinais que em minha infância havia nos cerrados de Goiás chegavam chutando rebotalhos de noite como quem retira do caminho as aves de mau agouro.

Não. Não me venha dizer agora que o odor dos jasmins de maio poderá ser recriado por um software específico e que, se a firma estiver bem em Wall Street, poderemos simular o hálito das manhãs com uma química brutal de calcário dolomítico e solução de Furadan.

Não. Não me venha dizer isso agora. Sou velho demais para cair nesse conto de vigário.

Não. Definitivamente não creio nas superstições monetárias que elegeram o mercado como Deus, e o marketing como seu mensageiro absoluto.

Creio sim é no humano, no humano ser e no seu fazer libertário, como por exemplo, o seu engenho literário.


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POR EM 19/07/2008 ÀS 10:12 AM

Estreito horizonte

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                                     Nenhum menino salta
                                     De minha vida para restaurá-la.
                                    
Carlos Drummond de Andrade, Versos à boca da noite


Eis o momento dramático: as vitórias mudam de rota e a derrota vem de atropelo. E não se trata de uma derrota qualquer. É derrota de lavada, de dez a zero.

É a privação do vôo, o estreitamento das coronárias, o ídolo que engordou demais e tudo desdiz o que antes afirmara. É um amigo que se vai porque morreu, porque desuniu pela distância, porque está entretido demais com suas dores lombares suas estrelas de metástase, sua úlcera maior, ou porque não acredita mais na assepsia de seus elevados propósitos.

São os filhos partindo, um a um, como os dentes que se rebelam, até que o último levanta os arcos de seu mundo particular e autônomo, em que você é recebido pelo lado de fora, ou quando muito de pé na ante-sala de estar. Para seus filhos você não é mais o herói, nem é prestável como exemplo.

Sua musculatura se converte em flácida gordura fora do lugar, seus ossos agora têm a consistência de uma cana de isopor, os nervos à flor da pele (devastada flora) e nas vísceras é só dor, o que era antes pleno prazer.

Suas mãos aduncas perderam a seiva da aurora e não buscam pela manhã que em outros tempos havia. Não há esperança de nova namorada. Nenhum rebento se irrompe de se seu corpo provecto.

Nenhuma proposta de emprego, nenhum convite para uma festa no sábado, nenhum elogio à sua mecha de cabelo na testa –coisa banal assim– porque nem cabelo na testa você tem mais para ser elogiado, ou voar ao vento das manhãs de abril.

Aliás, você perdeu aquelas manhãs de abril com aquele azul de rima óbvia, porque seus olhos já turvos pelo velame das cataratas maduras mal vislumbram os vultos em sépia, no horizonte estreito. E nenhuma bala perdida o libertará nessa hora de canhestros desígnios.

Triste hora, essa em que a companheira olha pra você de revés, triste hora! E exuma fatos consumados e pelo olhar lhe diz –quando não em palavras grita– que essas décadas de suposta cumplicidade não passam de um equívoco, uma desdita, uma aposta errada num pangaré perna-de-pau.

E por pouco é que não lhe indaga se você continua pelo menos pagando em dia aquele bendito seguro de vida, que parece não sinistrar jamais. Triste hora essa, ó meu Deus, triste hora em que a contabilidade do negócio busca o zero convencional do balanço.

Ó, triste hora essa! Triste hora! Pelo menos fosse possível voltar atrás e de outro ponto recomeçar!...

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POR EM 11/07/2008 ÀS 12:00 PM

Os azares de Nazeno

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Quando Nazeno instalou seu pitidog naquele arrabalde de Munducaia, jamais podia imaginar que um empreendimento tão miúdo pudesse lhe trazer tamanhas dores de cabeça. 
 
Primeiramente foi o fiscal de postura do município que, sem compostura nenhuma, lhe extorquia o rico dinheirinho, toda semana, em suposta operação fiscalizatória.
 
Recorreu a um vereador representante do bairro e conseguiu os documentos que supostamente lhe faltavam e o fiscal achacador deu uma trégua. Mas o que ele não esperava é que o vereador passasse a ser uma pedra no seu sapato. Volta e meia mandava alguém pegar um balaio de cachorros-quentes, refrigerantes e latinhas de cerveja. E pagar que era bom, neca.

Mas o pior de tudo ainda estava por vir. Tomezinho, o chefe da boca-de-fumo da área, resolveu fazer ponto na porta de seu estabelecimento. Não bastasse o desconforto de ter um traficante azedando o ambiente, o malfeitor ainda resolveu cobrar dízimo pela proteção.
 
Por último, a ronda policial resolveu dar um bacolejo nos malas da região. Quando Tomezinho viu que o pau ia pegar, achou por bem dar uma de esquerdo. Enfiou-se no estabelecimento, guardou junto com os pertences de Nazeno os seus petrechos: uma pistola automática de uso exclusivo das forças armadas, buchas de maconha, pedras de craque, papelotes de cocaína, além de umas latinhas de merla.

E ainda ameaçou o proprietário: “Os meganhas não vão achar. Mas se achar é tudo seu.” Imediatamente avançou num sanduíche que estava saindo para outro cliente e começou a comer disfarçadamente.

O ardil de Tomezinho não vigorou. Um policial a paisano viu tudo e os fardados chegaram e não pegaram apenas a tranqueira. Primeiro algemaram o traficante, depois pegou as muambas sem maiores aborrecimentos ao comerciante.
 
Foi então que Tomezinho ameaçou Nazeno: “Uma classe de gente que não merece viver é cagueta. Quando eu sair você me paga.”
 
Nazeno é um cara do bem, mas medroso que péla. E maior que o medo em si é o medo de deixar o medo transparecer. Ante a ameaça não teve coragem de contar pra ninguém. Sofria sozinho. O medo vinha em ondas. Começava como uma dor de dente, descia pro queixo. Fazia o queixo bater. Descia depois para o intestino, para se esparramar por fim para todos os nervos do corpo. E tremia feito um maleitoso.

Mas o tempo amenizou aqueles surtos e ele quase esquecia que era um homem jurado de morte. Mas ontem a justiça relaxou a prisão de Tomezinho, o que foi o mesmo que assinar a sentença de morte de Nazeno. A mãe do comerciante, que inesperadamente veio lhe visitar, mal teve tempo de aparar o corpo, para que o filho morresse em seus braços, vitimado por cinco tiros a queima-bucha, desferidos pelo malfeitor.

 

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POR EM 01/07/2008 ÀS 06:08 PM

Mãe tem cada uma...

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Mãe é capaz de cada coisa que só mesmo sendo mãe. Mãe-Zulmira teve treze filhos, afora os que nasceram mortos ou morreram logo ao nascer. Cada qual escolheu um lugar pra defender a vida. Escolheu é força de expressão. A família se espalhou feito folhas ao vento e cada qual achou um jeito de ir se engarranchando ali e acolá. A não ser o caçula, que é faltoso das idéias e permanece em casa, a lhe fazer companhia.

Viúva, com pensão de salário mindinho, Mãe-Zulmira nem pensa em visitá-los. Cada um que apareça, quando quiser, se quiser. Torce pra que não venham muitos de uma só vez. O barracão não tem aba para mais que meia dúzia. Que venham de poucos para pouco demorar. Senão o mantimento não dá e ainda corre o risco de perder a gratuidade da luz e da água, por consumir acima do limite de isenção.

A família vai vivendo o seu normal de pobreza. Irmãos não se visitam. Só vêem a mãe de vez em quando. A mãe não passeia na casa dos filhos. 

No entanto, agora recente, ela foi tomada de súbita inquietação. Levantou mais cedo, deixou o caçula dormindo, bateu na janela da vizinha sua comadre, e lhe avisou que estava partindo pra Mundocaia. Justificou que precisava chegar urgente, a tempo de ver o Nazeno vivo. Nazeno é um dos filhos meões que se estabeleceu em Mundocaia, com um pitidog precário, na praça poeirenta de um bairro de periferia.

Pegou o primeiro coletivo da manhã rumo à rodoviária. Falou ao motorista, aperta o pé, seu moço. Preciso chegar a tempo de ver o Nazeno vivo. No burburinho, o motorista jogou aquela conversa no balaio das doideiras, e tocou sem alterar o ritmo.

Com afobação de mãe caduca, atropelou a fila do bilhete, a fila do embarque pra Mundocaia e começou a azucrinar o motorista: Vamos pegar a estrada, seu moço, que eu preciso ver o Nazeno vivo. Quando partiu, a todo instante irrompia o grito lá do fundo: Aperta o pé, motorista. Preciso ver o Nazeno vivo. Depois do terceiro ou quarto grito, começou a tirar gargalhadas dos passageiros. Ninguém alcançava o desespero daquele bordão: Aperta o pé, motorista. Preciso ver o Nazeno vivo.

Mal encostou o ônibus na rodoviária de Mundocaia e ela saiu tropeçando pelo corredor. Pegou um táxi, deu as referências e ordenou: Aperta o pé. Preciso ver o Nazeno vivo.

Ao chegar à praça do arrabalde, havia uma aglomeração. O motorista foi informado de que tinham acabado de atirar em alguém. Mãe-Zulmira desce do carro ainda em movimento, sai correndo com as forças que lhe restam, abrindo brechas na multidão a golpes de empurrões e dá licença. Ofegante, chega ao pitidog a tempo de ver e ouvir o filho Nazeno balbuciar: “ó, minha mãe!” e desfalecer, vítima de um crime fútil pelas mãos de um malfeitor.

Só mesmo sendo mãe...  

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POR EM 24/06/2008 ÀS 09:55 AM

Obelisco inverso

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Cerotônio é furador de cisternas. Um sujeito orgulhoso e apaixonado pelo que faz. Não vê maior nobreza em quem escala andaimes, sempre caminhando para o alto, como quem campeia estrelas. Ele vê isso como atividade menor, indigna, de gente sem estatura moral. A verdadeira ascensão é cavar um buraco, perfeito cilindro, de modo que nenhum compasso, por mais preciso que seja, venha encontrar defeitos.

Ir cavando de picareta, de enxadão. Retirando cada montinho de pá. Tudo ferramenta de cabo bem curtinho. O cheiro da terra nunca antes revolvida, suas cores diferentes a cada camada, a terra argilosa, a cascalhenta, a piçarra, a lama. Ir colocando no balde e o sarilheiro lá em cima puxando numa espiral de galáxia. E seus pés a caminho do centro da terra, ao núcleo do planeta, até encontrar o lençol de água pura para manter o verde do jardim, matar a sede dos animais e dos homens. Para suster a vida, enfim. Isto sim, é trabalho com nobreza.

Ao final do árduo dia, Cerotônio sai do buraco imundo como um tatu. Ninguém seria capaz de dizer de que cores são suas roupas. Nem sua pele é passível de distinção. Não é branca, não é negra, não é amarela. Cerotônio não tem raça. Ou melhor, ele é todas as raças fundidas no interior da terra como um tubérculo semovente, um tubérculo orgulhoso de si mesmo, da profissão que o escolheu.  Que o escolheu, sim. Por que não se lembra quando se tornou cisterneiro. Talvez seja uma coisa de nascença. Seu pai era cisterneiro, seu avô era cisterneiro, seu bisavô, sabe-se lá... Talvez o que não tenha acontecido com seus antepassados é o fenômeno da reflexão. Talvez seus antigos furassem cisternas como quem apenas fura buracos.

Mas não é o caso de Cerotônio. Para ele, cada cisterna que esfuraca é um obelisco que edifica. Um obelisco invertido, é bem verdade. Mas, por isso mesmo, mais cheio de triunfos e glórias do que aqueles obeliscos espetando o céu, que governos corruptos ou despóticos, muitas vezes despóticos e corruptos, elevam nas praças para demarcarem seu tempo, os feitos de sua administração. Para serem lembrados pelas gerações vindouras, quando deles ninguém mais guardar feições. Meu obelisco celebra a essência, o deles a vaidade.

Estava lá ele entranhado na terra, entregue às suas reinações de cavador pensativo, na construção de mais um obelisco inverso e que, além de monumento, tem a serventia da água potável. Animado pelo espírito de realização e grandeza que seus pensamentos em sim mesmo inoculavam, feito um veneno do bem.

Absorto em reflexões metacisternais, não percebeu que o sarilheiro em ação irrevogável rodou o mecanismo, chamando o balde à superfície, sem que a carga estivesse pronta. Tampouco percebeu quando o gancho pespegou-lhe a capa do olho e o puxou irremediavelmente, na fisga, até fora do chão, como um peixe bizarro. Por sorte, havia uma equipe de TV fazendo imagens nas imediações, que fez o flagrante.  Naquele dia, Cerotônio se tornou o primeiro e único homem a ser retirado de uma cisterna fisgado pela capa do olho. Virou celebridade mundial. Embora seu sonho fosse apenas o de edificar anônimos obeliscos invertidos.     

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