revista bula
POR EM 17/11/2008 ÀS 04:48 PM

A dinastia

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Dava gosto vê-los trabalhar. Ao nascer do sol, puxado pelo pai, seu Adão, o grupo de nove chegava ao pé do eito como quem chega para um espetáculo de dança ou ritual de fé. Um ao lado do outro, por ordem de idade e tamanho, ferramenta no ombro esquerdo. Com a mão direita, retirava o chapéu e o retornava à cabeça, olhando pro céu com gravidade. Protegia o rosto com um escudo de sinal da cruz e balbuciava umas palavras de subserviência a Deus. Tudo em uníssono. E mandava ver.

Seu Adão e os filhos eram afamados no Vale do Bingueiro, a ponto de serem chamados de A Disnatia. Não tinha serviço ruim para eles. Dizem que cobravam caro, mas o coronel Betúlio, seus contratante mais freqüente, achava que era o caro que saía barato: serviço a tempo e a hora.

Seu Adão buscou o nome dos filhos na genealogia de Cristo: Abraão, Davi, Jacó, Jessé, Salomão, Josafá, Ozias, José e Messias. Por ser o caçula, franzino, a rapa da tacha, se diz, Messias ainda não ia pro eito. Quando completou 10 anos, idade boa, Messias teve um troço, um desmaio que assustou todo mundo. O pai fretou um Jipe e o levou para tratar em Mundocaia. Abaixo de Deus, a Medicina lhe deu jeito. Mas Messias voltou com a cabeça virada: queria ser médico.

Seu Adão achou um disparate. Se nem o coronel Betúlio deu conta de ter um filho médico. Ele então!... Mas a idéia foi contaminando a família, como praga ou erva daninha. Os outros filhos, com tato e jeito, acabaram por convencer o pai a mandar o filho pra Munducaia estudar. Se nove não sustentar um, o mundo tá perdido, diziam.

 O filho franzino tinha para o estudo a mesma desenvoltura que os outros para a foice e a enxada. Não demorou para que Messias fosse o agente de idéias da cidade. Em poucos anos estavam todos contrariados com o estilo de vida que levavam. Pior. Perceberam que não havia mais lugar no mundo para gente que vivia como eles.

O mesmo ano em que deixamos o Vale, seu Adão, dona Eva e os filhos com nomes da Bíblia, se mandou pra Munducaia, atrás do sonho de ter uma vida melhor  um filho médico.

Rapidamente, cada qual arranjou uma ocupação. Serviço tosco, mas o bastante para continuar sustentando o sonho de ter um parente médico. Alguém a quem pudessem recorrer em caso de doença, de um ataque, de um acidente. Só lamentavam que o grupo havia esfacelado, cada qual prum canto, por sua conta e risco.

Quando o Messias se formou foi uma festa. A família reunida não cabia em si de justificado orgulho. “Coronel Betúlio não conseguiu ter um filho médico”, a vaidade comichava no íntimo do pai.

Agora Messias tem três empregos e pouco tempo para dar atenção ao pessoal que lhe foi tão bacana. Mas mês passado ele excedeu na displicência. Ao final de seu plantão, no pronto-socorro municipal, veio a notícia de um ancião anônimo atropelado.  Messias alegou que o outro plantonista, quando chegasse, cuidava do caso.

Só na manhã seguinte, Messias soube que o homem atropelado era seu velho e comovido pai. Mas agora era tarde demais.   


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POR EM 10/11/2008 ÀS 12:10 PM

Os desatinos de um nome

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Antes mesmo de nascer, o pai determinou: se for menina vai se chamar Desdêmona. A família não tinha informações de quem era Desdêmona na tragédia de Shakespeare, nem na ópera de Verdi, tampouco que o nome vem do grego e significa mulher de má sorte. Eh, o velho bardo gostava dos tais nomes falantes.

O restante da família achou o nome meio atrapalhado, mas ante a teimosia do pai durão, ninguém ousou demovê-lo. Como não havia ultra-som para revelar o sexo do rebento ainda no cerne da mãe, os familiares torciam para que viesse um menino, para quem o  pai escolhera um nome que não desagradava tanto: Iago. A sogra arriscou perguntar: por que não Tiago? A senhora é ignorante. Então fique calada! Disse o pai arrotando pretensas erudições.

Para descontentamento dos demais e gáudio do pai, veio uma robusta menina. Pai normalmente quer um filho-homem por amor de seu narcisismo. Mas ele se apegara tanto ao nome, que desejava ferrenhamente uma filha para lhe atribuí-lo. Então lá estava ela, a Desdêmona.

Antes que algum impedimento irrompesse, correu ao cartório para o registro. Quando declinou o nome, o escrivão perguntou se tinha certeza. Irritado o pai quis saber por quê. Desdêmona tem Demo no meio, disse o escrivão indiferente. Bobagem, retrucou o pai em sua convicção irremovível.

A menina tinha realmente alguma coisa de extraordinário. Quando a enfermeira foi tirar o sangue para o teste do pezinho, a agulha rejeitou a pele e derreteu que só cera morna. Trouxeram mais agulhas, e nada. Assombrada, a enfermeira desistiu do teste.    

Outras coisas estranhas começaram a acontecer. A enfermeira deu um berro e desmaiou ao adentrar o berçário e ver a pequena levitando meio metro acima da borda do berço.

Quando todo mundo já começa a acostumar com as esquisitices, ela deu de andar pelo rodapé das paredes. Depois evoluiu para as caminhadas pelo teto, de cabeça pra baixo, que nem uma lagartixa branca, falando coisas confusas com voz de caverna. Deu para olhar para os semáforos e as luzes se confundirem. Muita gente se acidentou com as confusões por ela provocadas. A lembrança do Demo no meio do nome assaltou o pai que, já meio assombrado, contou a todos.

A mãe fez novena, já não para a filha sarar. Mas para morrer e livrar a todos daquela tribulação, que julgavam ser a presença do demo. Certo dia, quando ela flutuava entre um bloco e outro do condomínio onde moravam, parece ter perdido a estabilidade e se estatelou no chão. O IML a deu como morta. Velório foi feito, mas, para espanto geral, na hora de fechar o caixão para ser enterrada, ela se levantou lepidamente e falou: mamãe, quero água.

Como tinham o atestado de óbito, acharam por bem considerá-la morta e registrou o nascimento de outra filha, como o nome que a mãe queria: Renata. E todos os problemas desapareceram e a ex-Desdêmmona é agora uma garotinha dócil e amigável. A mãe acredita que sua alma foi trocada.
 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:19 PM

Borboleta de plástico

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As novas gerações convivem com o plástico de forma tão natural como se ele fosse um elemento primitivo da natureza, sempre fazendo parte da vida do homem, como o fogo, a água a terra e o ar.

Mas o pessoal da minha geração, que mal passa do meio século de existência, sabe que somos mais velhos que o plástico. Mais velhos pelo menos que o uso corrente do plástico.

Me lembro bem da primeira vez que vi algum artefato do miraculoso produto. Era no final dos anos 50.  Meu primo Londino voltara de uma viagem a Iporá e de lá trouxera um pente de bolso que, num esforço cuidadoso, fazia um aro, topando as pontas. É claro que o proprietário do novel objeto não deixava a gente pôr a mão. Era só ele que realizava o prodígio, nos deixando pensar que o pente era de chifre ou de pau e que de repente o Londino tinha virado mágico.

Foi meu pai que o desmascarou, revelando que um amigo seu, o afamado sanfoneiro Zé do Dimas, que andava tocando por todo o país acompanhando duplas sertanejas, já lhe mostrara um pente daqueles, e que o tal produto tinha o enigmático nome de “matéria plástica”.

Meu segundo contato com o dito material foi um pouco mais traumático. No ano seguinte, meu pai voltava do giro da Folia de Reis, no início de janeiro, e trouxe um pedaço de pano de plástico. Do mesmo que era usado para proteger os instrumentos da chuva. Disse que o pano era para estender como uma tolda acima do meu catre, para proteger-me das goteiras, que eram abundantes na palhoça mal vedada.

Apesar das boas intenções de meu pai, o bendito toldo quase me leva a pro além. Na primeira chuva forte depois de instalado, minha mãe acendeu a lamparina para conferir a eficácia do artefato. Inavisadamente, deixou a labareda lamber a beira a barrado. Foi o bastante para que a chama se espalhasse rapidamente. Minha mãe mal teve tempo de me subtrair do incêndio. A palhoça só não queimou inteira porque a chuva, como bombeiro natural, evitou a pior.

Acho que a primeira e frustrada tentativa de usar o plástico em calçados foi no início dos anos 60. Comparado com os de couro era bem barato. Comprei um par de sapatos preto. Na hora que experimentei, com o plástico esticando, não percebi que estava apertado. Mas depois de um mês de uso, além do queimor sem tanto, ele me criou um calo crônico em forma de calando ao longo da sola de meu pé, que ainda ostento, mais de 40 anos depois.

Minha tia Francelina, na mesma ocasião, comprou umas sandalinhas pretas, enfeitadas por uma borboleta amarela por cima. Isso a deixou envaidecida. Mas na primeira vez que foi à escola com a novidade, ela rasgou em pleno recreio, deixando-a constrangida. Até com vontade de suspender os estudos.

Outro dia, andando pelos monturos do quintal da velha casa de meu avô, eis que me deparo com uma das borboletas amarelas das sandálias de minha tia. Estava íntegra, colorida, quase a ponto de voar. Com força bastante para abrir uma janela em minha alma para um mundo terno, cheio de nostalgias e recordações. 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:24 PM

O estranho

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Não dormiu por toda a noite. Ou pelo menos teve a sensação de não haver dormido. Fora tomado de sensações estranhas. Tudo começou com uma noção equivocada de desnível. De todo jeito que deitava, mesmo que com a cabeça apoiada numa pilha de travesseiros, Cairo se achava de cabeça pra baixo. Junto a isso vinha uma bola no estômago e uma perturbação na boca, como se os dentes tivessem se convertido num misto de algodão e pedregulho.

Não tardou para começar uma espécie de flutuação. O fato de morar na décima laje de um edifício de apartamentos parecia lhe retirar a firmeza. Mas o incômodo avançou. Era como se ele equilibrasse mal e mal numa quilha remota da Via Láctea. Sentia-se num mundo-de-corda-bamba-sobre-abismo.

Suspenso por escoras precárias e que a qualquer momento fossem desabar, arrastando-o para o fundo sem fundo de um buraco.

Cairo tentou pensar em coisas firmes e concretas para se recuperar daquele torpor. Mas suas tentativas surtiram efeito contrário. Seu corpo que apenas boiava sobre o abismo começou também a se diluir como um gás, até esparramar-se por completo a ponto de não haver mais noção de unidade.

Tentava mover-se, mas estava completamente paralisado. Não bolia um dedo sequer. Era como se seu coração e seus pulmões houvessem dissipado. Estava sem pulso e sem fôlego. E a noção de ser-em-si, ainda que vaga, talvez se desse agora por um processo extracorpóreo.  Estaria Cairo morto?

De manhã, o toque do despertador conseguiu reuni-lo outra vez. Mas era como se na urgência do reagrupamento ele tivesse sido refeito num arranjo diferente. Com as células colocadas em locais inadequados, formando órgãos com funções novas e desconhecidas. E porque não dizer, inúteis para a vida cotidiana.

A ver-se no espelho da pia, era como se visse, não um-outro, mas um não-ser.  Era ele mesmo, mas sem legitimidade para existir. Sua cara tacanha. Seus braços de cipó, suas mãos de barbatana, seu tronco de munguba, suas pernas de galho invertido ostentando na forquilha um cacho escroto.

Onde estaria o Cairo assertivo e focado, o executivo pitbull, o eficaz diretor de produção de uma multinacional? Suas mãos se apresentavam inábeis para as coisas mais comezinhas e tudo parecia inadequado, esbarrando nos objetos ou deixando-os caírem. Achou o dentifrício nojento, a escova esquisita e ao tentar escovar os dentes machucou as gengivas com gravidade, a ponto de tirar sangue.

Ao vestir-se não achava a ordem correta. A cueca sobre a calça, as meias sobre os sapatos. Foi um custo para ordenar essas coisas antes tão banais. Mas dar o nó gravata não foi possível. Por fim atinou de usar uma que já vem com o nó feito e é só puxar um fecho ecler. A muito custo arrumou-se. Pegou o elevador, o carro no subsolo e, achando-se um bicho de outro bioma, estranhou o sinal vermelho, avançou e envolveu-se num acidente de graves conseqüências.

 


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:56 PM

Batismo de fogo

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Belmiro sempre foi um menino bom. Nunca se deixou contaminar pelas mazelas da invasão, onde vivia com a mãe. Porque o pai, não. Este sim. Sujeito mala que se deixou envolver pelos negócios nebulosos dos traficantes e morreu cedo em condições suspeitas.

E, de boa índole que era, jurou pra mãe que com ele haveria de ser diferente. Jamais sujaria as mãos com as podridões do mundo em que seu pai se meteu até o pescoço. Haveria de estudar, pegar uma carreira honesta e decente. Ganhar a vida sem fazer mal a ninguém. Quem sabe um dia poderia bater no peito com justificado orgulho e dizer: tive tudo pra me perder na vida, mas aqui estou, honrado, honesto e feliz, para desmentir a todos esses que justificam suas mazelas pelas agruras da rua.

A mãe compartilhava desse sonho. Era questão de tempo: subir daquele buraco embrejado, sair da muvuca e ir morar numa casa de conjunto ou num apartamento de bairro decente. A duras penas mantinha o pequeno Belmiro na escola, só estudando, sem trabalhar, sem ir para a esquina onde pudesse dar curso a atividades ruinosas.

Belmiro escolhia os amigos. Optava sempre por aqueles que também alimentavam sonhos de engrenar na vida, mudar de sorte, encontrar um outro patamar, um jeito de viver e usufruir das coisas boas que a vida oferece, mas pede muita dedicação, firmeza e sacrifício em troca. Assim, um de seus raros amigos era o Toninho Zebu, junto com quem ia à escola, fazia tarefas de casa e descolou as primeiras minas. Um verdadeiro brother.

Ele estava firmemente determinado a seguir o figurino das pessoas de bem, daquelas que trilham pelo bom caminho sem se importar se há tempestade, se há cantos de sereia, se há tentações quase irresistíveis. Quando chegou a hora de trabalhar, Belmiro subiu pra cidade e bateu de porta em porta.

Semeou currículos a vento como as plantas jogam seus polens na primavera. Depois de meses, nenhuma resposta positiva. Foi quando restou a oportunidade de prestar concurso para o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar.

Belmiro nunca pensou em ser polícia, muito menos do BOE. Porque eles é que são chamados quando a situação entorna o caldo. Belmiro não era medroso, mas não queria ganhar a vida usando de coragem violenta.

Pela contingência da vida, fez a inscrição, e passou na prova. Comeu o pão que o diabo amassou naqueles treinamentos escrotos. Envenenou a índole o quanto pôde. Jurou defender a corporação contra quem quer que fosse. Jurou matar bandido como se mata rato no ninho ou se pisa em barata.

Ontem foi o batismo de fogo do novo oficial do BOE. Sua missão era, num bacorejo trivial, quando o comandante apontasse o dedo para um suspeito aleatório, Belmiro lhe aplicaria uma saraivada de balas. Simples assim. Foi então que o comandante apontou o dedo.  Justo para Toninho Zebu. Seu brother. 

 


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:00 PM

As torres em setembro

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Das imagens que compartilhamos, a mais terrível de todas é sem dúvida a das torres gêmeas desabando no coração de Manhatan, como um simples castelo de areia ou um edifício da construtora Sersan do deputado Sérgio Naya. Um inferno de Dante com os efeitos especiais da animação.

Tragédia requer gritos, estrondos, sussurros, movimentos, cores, ritmo. Tecnologia em débâcle, mas com certa coreografia.

A propósito de tal imagem, não tardou para que os moldadores do acontecido identificassem um rosto por trás da tragédia: bin Ladem. Uma cara humana, terrivelmente doce, a ponto de ser messiânica.

Precisamos disso: um rosto. Até às forças cósmicas, que desde sempre dominam o cenário, atribuímos um nome e uma cara.

Mas o maior desastre ainda estava por vir. E como não poderia deixar de ser, teria de vir em setembro. É também na primavera que desabrocham as flores do mal.

Foi então que desabaram os pilares do mundo. Do mundo capitalista. Os senhores do universo estão mais tontos que um bêbado atropelado na noite escura.

E desta vez, pelo menos até agora, os moldadores do acontecido não acharam um rosto por trás das causas. Elas estão no próprio sistema. Há uma curuba secreta na canela do sistema e ele ruiu na surdina, sem que houvesse por trás um louco barbudo, comandando um batalhão de fanáticos embutidos em blusões de bombas, nem uma esquadrilha de aviões furiosamente atirados contra os pilares do sistema. Dessa vez o mal desabrochou em suspenso. Uma flor no ar. Sem ramos que a sustentasse. Sem tronco, sem raiz. Uma conseqüência sem causa. Um milagre estuporado.

Mas me foi dado conhecer dessas coisas antes que elas viessem a furo. Só não sabia exatamente como seria. Mas que seria uma desgraça de monta eu já sabia. Pois exatamente na tarde de 11 de setembro, o dia fatídico da história pós-moderna, eu esgueirava pelo cruzamento da Av. T-4 com a T-63.

Certa moça agazelada, peitos altivos, nádegas abundantes, sensual e confiante atravessava na faixa, convertida em passarela. O mundo pára pra ver. Até o vento faz reverência. Mas quando a moça se acha no meio da rua, no ponto crucial, o taco de seu salto 15 solta, cepilhando no asfalto. As pernas gaguejam, mascando o discurso do próprio caminhar.

Num desgoverno medonho, as pernas espetaculares se digladiam, dão golpes nervosos, em falso, como lanças de alguma luta marcial. A moça se debate feito um bicho de muitas pernas e braços. Num instinto de proteção ainda atira o lep-top pro céu. Nisso se passa um tempão, como se uma força oculta a mantivesse pendurada no ar. Finalmente estatela-se na faixa, no meio da rua, já desprovida do temperamento forte, da dignidade arrogante de que são dotadas as mulheres bonitas.

O tombo da moça foi apenas o estopim que detonou a hecatombe financeira. Pelos princípios da física quântica, a força que a derrubou, ampliada exponencialmente pelos golpes que desferiu no ar, reverberou sem clemência pelo mundo, implodindo os mercados e outros valores da superstição humana.  Pressenti difusamente tudo isso quando vi a moça caindo.
 


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:21 PM

Certas incertezas

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Que farei quando tudo arde?

António Lobo Antunes

O que faremos quando o sol da era que vem vindo derrete os gelos polares e os circuitos impressos de nossos engenhos e caem por terra a pátria do urso branco e as pontes que nos davam acesso a mundos virtuais ou paralelos? A propósito, pra onde irão os mundos paralelos e virtuais, quando o mundo real se reduz a seus elementos primitivos?

O que faremos quando o deserto invade vales e outeiros, fazendo gaguejar os rios que até bem antes conduzia seu fluvial discurso com fluência e flâmula de orador bíblico, incendiado pela centelha divina?

O que faremos quando o pelame verde do campo, que floria na primavera, fica tão ressecado que nem o verde do dólar consiga sobreviver? E se sobreviver algum dólar, o que ele haverá de comprar se o sol, este monstro de ouro em brasa, estará bebendo de canudinho as últimas gotas de água de nossos ossos sobre a Terra?  

Nessa hora, o que serão de nossas filosofias, de nossos regimes políticos, de nossa gula econômica, de nossas preferências pessoais, de nosso orgulho bobo, de nossa ambição sem freio, de nossos delírios santos, de nossas línguas secretas, de nossas utopia de reino eterno?

O que serão dos sonhos do João que queria ter filhos e netos para serem felizes sobre um planeta salubre?  O que serão dos sonhos da Maria que até havia trançado em crochê (sua pobre epopéia de fios ordinários) os sapatinhos de seu rebento que viria no fragor da primavera?

O que serão dos gatos, dos cães de estimação, dos pássaros que calavam no verão e cantavam na primavera, do gado zebu que caminhava calmamente pelo pasto sem saber que sua caminhada era um ensaio ministrado por belzebu, com vistas ao matadouro se aproximando?  O que serão doa ratos, das formigas, dos carrapatos, dos sapos da lagoa, das borboletas, dos peixes que voavam sob as águas, das baratas, dos cupins que apenas queriam ser felizes quando implicavam com as traves de madeira sem lei  da choupana que acolheu minha infância?

Nessa hora por onde andarão meus colegas de infância, quando pescávamos no Rio Claro (que ainda era claro de fato), ouvindo contar histórias de peixes monumentais e diamantes escandalosos de grandes? Por onde andarão meus colegas de primário e de sonho, lá do Grupo Escolar Israel de Amorim, daquele Iporá antigo, de palha e taquara, (quase uma Macondo de Garcia Márquez), poeira e erosões sem fim?

Numa hora assim, de que valerão minha certidão de nascimento, meu batistério amarelado, minha carteira da Ordem, meu diploma de honra ao mérito, minha placa de bons serviços prestados, minha medalha de comendador e os velhos retratos de família, que guardo no fundo do cofre como se fossem ações do Banco do Brasil?

Francamente, numa hora assim, de que valerão estas linhas que escrevo? 


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POR EM 29/09/2008 ÀS 02:30 PM

Salmo da primavera

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Eu te saúdo, Primavera, como um ser de encantamentos e mistérios, que vem trazendo na bagagem o refrigério de um dia claro, sem as fumaças de agosto, sem este mormaço sufocante que nos deixa em letargia, a tal ponto de nem sabermos se vivos ou mortos estamos.

Eu te saúdo, Primavera, como a mão amiga que embrulha o toldo nefasto e nos devolve a visão das estrelas, que nos repõe a umidade do fôlego, que nos restaura a plena vontade de viver já um tanto exaurida pela sequidão inclemente.

Eu te saúdo, Primavera, como um ser seráfico, denso e de amplo espectro, que vem semeando ao vento a boa nova sobre os campos. Campos estes que hão de sentir-se regenerados e prenhes, como deveriam ser nos primeiros dias da criação, antes mesmo da malícia da peçonha da serpente, antes das garras ferozes do leão, antes da sanha gulosa dos arados.

Eu te saúdo, Primavera, como a força mágica que vem lançando seu discurso hídrico sobre a terra poenta, emendando num fluir sereno a fala dos riachos já gaguejantes, devolvendo a força de viver aos rizomas adormecidos, estimulando os grãos displicentes a brotarem, espargindo perfumes de vida nova pelos ares, enverdecendo planícies, vales e outeiros e ordenando às caraíbas para que acendam seus fachos de flores radiantes no horizonte.

Eu te saúdo, Primavera, como a viração da tarde, amena e doce, em que o Senhor passeia de bicicleta com os meninos em debandada, estirando ao vento as fraldas de suas camisas azuis e os cabelos em torvelinho. E depois, ainda na companhia dos meninos, trepa na árvore frondosa e salta de ponta-cabeça no poço do riacho de água transparente.

Eu te saúdo, Primavera, como a sonoridade límpida da música plena, pelo cantochão sem oscilações de notas, quem vem das cigarras ao cair da tarde até o anoitecer, pelo concerto de percussão dos sapos no brejo palpitante de vida, pelo violino das ervas do vento ao amanhecer.

Eu te saúdo, Primavera, pelo cheiro de coisa inéditas que tu antecipas no ar, que nem sei direito o que sejam, mas já as reputo alvissareiras e dignas de meu dicionário de coisas indizíveis, de minha agenda de fatos imprevistos.

Meu corpo, Primavera, alheio às dores e achaques de velho, expandirá em toda a extensão do horizonte, como um anjo de gás, e se sentirá irmão das rochas, das ervas, das árvores, dos rios, dos pássaros cantando na edificação de seus ninhos nas faldas dos ventos e o resquício de poeta que ainda resta em mim, há de sair por aí recitando inflamados madrigais.

E minha alma, Primavera, revigorada pelo teu sopro, há de pairar sobre a paisagem idílica, como o gavião quiriquiri sobre as ondas térmicas das tardes mansas, embevecida de si mesma e de toda energia que sustém o cosmos pairando no útero universal, num átimo de eternidade.


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POR EM 22/09/2008 ÀS 05:36 PM

Um datilógrafo dentro da noite

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No meio da madrugada tenho um sonho auditivo. Ouço de algum apartamento da vizinhança, de algum lugar o toc-toc ritmado e frenético de um datilógrafo.

Aquele tamburilar, agora nostálgico, me conduz no tempo e no espaço. Sou magicamente levado à minha mocidade em Iporá. Não demora para que meu sonho ganhe tato, visão e cores. Até olfato me vem.
   
Me pego no cartório do primeiro ofício. E no sonho eu teria passado ali por curiosidade. Para ver em atividade uma das funções que mais se parece com a de escritor, que é a de escrevente. Em mim já manifestava, ainda que de forma difusa, a vontade de vir a ser escritor. Teria passado ali especificamente para ver o Cairo de Sousa Castro datilografar uma certidão.
   
Cairo não era um mero datilógrafo. Era um virtuose da datilografia. Ele colocava sua velha Olivetti, não de frente como é de praxe. Mas de lado, num método só dele. A mão esquerda meio que sobre a direita e o inteiro teor do incunábulo gigante a ser transcrito paralelo ao teclado. O ritmo e a velocidade impressionavam.

Uma certidão que coubesse numa lauda saía de um fôlego, num piscar de olhos. Era aquela tempestade no teclado e sua mão direita quase que secretamente empurrando com frenesi a alavanca de tração da folha. Seu olhar passava eventualmente na página a ser copiada. Sobrava tempo para ver a cara embasbacada dos circunstantes ou dos que ali acorriam especificamente para vê-lo em atividade. Ao fim, a folha saltava espetacularmente e ele a pegava no ar, num gesto formal, retórico e grandioso. Cairo era um ponto turístico daquele Iporá arcaico.

No meio da madrugada me desperto, não de todo, mas o suficiente para me lembrar que estive recentemente em Iporá, numa solenidade em que fui carinhosamente homenageado. Lá encontrei o Renato, filho do Cairo, que me falou que seu pai deixara pelo menos dois livros de contos ainda inéditos, fora o Peneiras & Bateias que saiu pouco antes de ele ser ceifado por um câncer feroz. Talvez meu sonho adviesse desses fatos. Cairo não era apenas o melhor escrevente da era da mecanografia.
Era também um escritor de talento. Embora não tenha tido tempo de explorar bem esta faceta.

Mas no meio da madrugada, entre o sono e a vigília, ouço o som furioso de máquina de escrever. Agora não é sonho. É real. Seria Olivetti? Mas o que estaria produzindo aquele datilógrafo deslocado, aquele dinossauro da escrita, neste pleno agosto, deste século 21, já em franca corrida?  Como alguém conseguiria ser tão exímio datilógrafo neste tempo em que nem se acha mais implementos para máquinas de escrever? Quem encomendaria serviços a um datilógrafo, quando nada que não seja informatizado é aceito?

Estaria ele psicografando mensagens do próprio espírito, com a fúria dos incorporados?  Fico perdido nessas lucubrações entre a realidade imediata e a realidade de minha juventude, tão distante no tempo. O som do datilógrafo logo se mistura ao barulho da cidade que vai acordando para o seu normal. Abro a cortina e vejo o horizonte incendiado.

Este ano a chuva chegará mais cedo.


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POR EM 15/09/2008 ÀS 05:11 PM

A herança de D. Jorja

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D. Jorja foi na vida o que se poderia chamar de poupadora mórbida. Nasceu pobre e viveu miserável, mas ao morrer deixou um patrimônio respeitável para os padrões do lugar.

Ficou viúva ainda jovem, com três filhos pequenos e nenhum amparo do falecido. Patrimônio, pensão, seguro, nada. Aliás, deixou umas dívidas de armazém que apareceram depois na caderneta do Zé do Bolicho. D. Jorja achava que eram inventadas, mas para continuar tendo crédito pediu prazos e condições e pagou tudo.

Foi nessa época que ela começou o ofício que exerceria a vida inteira. Saía pelos sítios da região, engalfinhando uma velha bicicleta cargueira, que adquiriu a crédito. Comprava queijos, ovos, frangos, doces caseiros, mantas de carne, o que achasse. Depois vendia tudo pelas ruas da cidade. Os filhos ficavam em casa, obedecendo aos comandos da mãe durona. Se alguém desobedecesse, os próprios filhos delatavam uns aos outros e as chibatadas por tais contravenções desanimavam reincidências.

A vida era dura e frugal. D. Jorja andava descalça pelos sítios e poupava as alpercatas para a cidade. Se o pneu a bicicleta furava, ela tinha solução mais barata do que pagar um remendo. Ela mesma enchia o pneu velho com capim, até que rasgasse todo. A alimentação dos filhos era espartana: farinha de mandioca, com rapadura raspada e água. De vez em quando um luxo: arroz com feijão e carne de franco que eventualmente morria antes de ser levado à venda.

Mas quando, aos 40 anos, foi colhida por um infarto letal, D. Jorja deixou duas casas de aluguel na cidade e um sítio produtivo nos arredores, tocado pelos filhos e onde moravam. Deixou um pacote de dinheiro enterrado, já sem valia.

Os filhos, que sempre viveram sob a aba da mãe, agora se viam livres para voar. Nem tiveram paciência de fazer inventário para dividir os bens. Um advogado propôs comprar os direitos de sucessão e herança dos herdeiros pra ele próprio regularizar a situação. Movidos pela cupidez de pegar logo a grana, os filhos aceitaram logo a primeira proposta e cada qual a seu modo, saiu pelo mundo para finalmente curtir a vida.

Marcelo, o mais velho dos quatro, passou logo numa concessionária de veículos e com a metade de seu dinheiro comprou um Maverick, oito cilindros, zero km. Arranjou uma garota de programas, manhosa e linda e foi pra Caldas Novas. Passou trinta dias num hotel de luxo torrando dinheiro e curtindo o êxtase de beata ao adentrar o céu.

Com o dinheiro já escasso, ao retornar numa noite chuvosa, atropelou uma vaca e capotou em seguida. Vendeu o que sobrou do Maverick para pagar o tratamento da moça que se escangalhou. Ele mesmo saiu ileso. Os outros irmãos trilharam caminhos diferentes, mas com resultados semelhantes.

Marcelo, sem dinheiro, sem nada, imediatamente comprou a prazo uma bicicleta cargueira e correu pra ver se salvava pelo menos a freguesia que a mãe deixara. 


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