revista bula
POR EM 02/03/2009 ÀS 06:29 PM

O voo da rainha

publicado em

Vai, rainha, cruza os caminhos circulares de tua infância, atravessa o rio da aldeia pela ponte de pedra sobre as águas turbulentas. Se não tiveres o sofrimento de alcançar a ponte, podes atravessar a nado o poço do remanso e buscar os horizontes imponderáveis.

Vai, rainha, pega o teu par de asas, esse que os sonhos te deram ainda cedo, instala-o em teu dorso de beldade e alça teu voo panorâmico na brisa dos primeiros alvores do amanhecer. Faze teu último revoo sem pesar nem dor sobre a aldeia que te viu nascer, que assistiu a teus primeiros passos, que viu brotar em ti as primeiras brotoejas desses sonhos desabridos. Depois, rainha, segue teu destino sem olhar para trás, porque é lá no azul sem fim da distância que teus sonhos encontrarão a argamassa e os secantes propícios para se tornarem concretos em tua vida.

Vai, rainha, busca teu horizonte maior. Vai pegar carona em tua carruagem encantada no arco-íris de mil cores, pegar a lua de prata, obter o tão almejado verniz de luz, adentrar o teu éden sonhado, fruir as maravilhas do sétimo céu que se esconde nos outeiros para além da visão embaçada dos mortais comuns. 

Vai, rainha, por entre os campos de lírios, daqueles que nem Salomão em toda a sua pompa se vestiu como um deles. E nos prados de pleno encanto, rainha, colhe os lírios que houver, faze a tua mágica corbeille para entregar a ti mesma como troféu de tuas mais acalentadas conquistas.

Vai, rainha, correr mundo na trilha incandescente de teus eflúvios juvenis. Vai pegar com a mão o fogo sagrado dos deuses, os pavios das manhãs vindouras, as mechas das auroras boreais que virão de soslaio a cada conquista, acenando com mais incenso, se mais desempenho tiveres para dar.

Vai, rainha, conquista mundo e clarimundo e se por ventura te bater aquela solidão que costuma afetar as estrelas de brilho próprio, lembra-te que na vida tudo tem um preço. Então levanta os olhos e parte imediatamente para novos mundos conquistar.

Mas se um dia, rainha, tuas pernas se cansarem irremediavelmente, tuas asas se amolecerem, se teu voo perder altura e governo, se o verniz de tua tez se enfeixar em rugas, se a clarividência de teus olhos finalmente anuviar e o horizonte se fechar em muralhas de ardósia, podes voltar, rainha, que estarei te esperando. Serei o mesmo que era antes (descontados os estragos do tempo) pronto para cumprir as promessas que te fiz.

Sei que, por ora, rainha, me faltam estratégias e cabedais para manter-te nos fechos de meus domínios, por isso, vai viver a força plena da aventura, mas quando queimares a lenha que mantém o fervura de teus sonhos, volta, volta sem detença, ó rainha, que estarei em meu posto de espera.

Serei o poço do remanso em que poderemos fruir as aventuras de um amor maduro e sereno. Serei a ponte de pedra, sobre a qual poderemos olhar lá em baixo a turbulência das águas turvas que levam tudo de roldão. Serei tua felicidade verdadeira, rainha, que buscaste no mundo todo, mas que estava bem ali no mais íntimo de teu coração.  
 


leia mais...
POR EM 16/02/2009 ÀS 09:37 PM

Batalha simbólica

publicado em

No primeiro domingo de fevereiro de 2009, fui com minha mulher à missa das oito, na Basílica de Trindade. Como de costume, a igreja estava abarrotada de fiéis e o celebrante vendia fé em forma de entusiasmo.
 
Lá pelo meio da missa, um fato conseguiu diluir minha atenção, fazendo-me esquecer parcialmente da homilia. É que sem mais nem menos uma pomba, dessas ordinárias, adentrou a nave por uma porta lateral, na ponta de um voo tumultuado e buliçoso, quase se chocando contra as pilastras. Sem perda de tempo, procurou amoitar-se detrás de uma caixa de som. Pelo o que eu via, estava ofegante e trêmula.
 
Logo me ocorreu que na Teologia Cristã, em que Deus é uno e trino, a pomba representa o Espírito Santo. Então meu pensamento derivou. E se aquele pássaro não fosse apenas um símbolo criado pela imaginação humana, mas o próprio Espírito Santo na sua rotina de correria, tentando equilibrar as contas para não deixar a humanidade sucumbir aos próprios desatinos? Pelo estresse do pássaro a situação estava feia.
 
Antes que meu pensamento seguisse por caminhos ainda mais tortuosos, é revelada a causa de tanto apavoramento. Um falcão-do-cerrado, ou melhor, um gavião-quiri-quiri, que entrou de assalto pela mesma porta, com uma determinação demoníaca de agarrar o seu alvo, como é próprio das aves de rapina.
 
O tal gavião pousou estrategicamente na cabeça da grua, junto da câmara que colhia as imagens da missa para a televisão. A grua fazia seus movimentos de sobe e desce, seus semigiros de 180 graus e o gavião ali em cima, se equilibrando firme, direcionando seu ávido olhar para todos os lados.
 
Em seguida, salta da grua e empreende um voo panorâmico, dentro da nave, indo e vindo em revoo sobre os fiéis, não sem antes emitir um grasnido ameaçador. Suponho que para levar a presa ao desespero e se mexer.
 
Aí me distraio completamente da missa e minha imaginação galopa sem freios. E se a pomba for de fato o Espírito Santo e este falcãozinho, o Demônio, almejando um petisco dos filés divinos?  Estaríamos assistindo de camarote, ao vivo e a cores à luta entre o Bem e o Mal, entre o divino e o profano.
 
Se o gavião agarra a pomba, a crise que se abateu sobre o mundo então se aprofundará irremediavelmente. Pois o Espírito Santo seria o nexo, a coesão, o equilíbrio de todas as coisas. Ele representa desde a gravitação universal que mantém as esferas celestes rodando, equilibradas no espaço, até os elétrons em suas parábolas, ao redor do núcleo dos átomos. Sem o Espírito Santo, o universo seria um monturo, uma bagaceira só.
 
Se a pomba consegue escapar, então ganharemos sobrevida, pelo menos até a batalha seguinte, até a próxima crise.
 
Nisso, a celebração termina, o padre deseja que vamos em paz e que Deus nos acompanhe. O gavião desiste da caça e num vôo rasante vaza por um dos umbrais da basílica. A pomba sai do esconderijo e se restabelece sobre a caixa de som. Exultante, arrulha e abre as asas como a consagrar os fiéis. Fiéis esses que, aliás, nem suspeitam que uma batalha sobrenatural aconteceu bem ali, diante dos olhos de todos que têm olhos pra ver. 


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 06:12 PM

Uma noite memorável

publicado em


Naquele janeiro desolado, deixou para trás a mulher e os três filhos na cabana dos pais já velhos, na pobreza plena de trabalhadores sem trabalho, às margens do ribeirão Bingueiro, e se mandou pra Mundocaia, em busca de melhores dias.
 
Mas Mundocaia foi decepção total. Carlindo Raleado não achou o jeito da cidade. Ela parecia selada, por fora e por dentro, para gente sem beira nem algibeira como ele. Tentou de tudo – servente, segurança, catador de papel, amolador de facas, limpador de quintal, chapa de caminhão – mas de tudo que tentou a cidade lhe foi hostil. Cedo ainda concluiu que a cidade não gostava dele. Que aquilo era uma terra amaldiçoada, caprichosa, habitada por gente sem piedade e sem coração.

Na primeira oportunidade enviou um bilhete à mulher por intermédio de um motorista a da Viação Marrequinho. Estava deixando para sempre a cidade maldita para se aventurar em Goiânia. Não sabia por que, mas acreditava que na Capital ele se daria bem. Talvez porque teria ouvido no rádio que Goiânia estava precisando de muitos trabalhadores para o desenvolvimento de websites e que essa atividade estava dando um dinheiro lascado.

Praticamente dois anos se passaram sem que a família tivesse notícias do aventureiro e vice-versa. Já era tempo suficiente para Carlindo Raleado ir se raleando na memória dos seus. A esposa ainda nova, em plena posse de suas chamas uterinas, de vez em quando não hesitava em olhar para homens ocasionais com olhos de arpão.

Mas agora em dezembro, nas reticências do dia com a noite, Carlindo apareceu de chofre. O filho mais novo gritou: tá chegando um homem aí. O pai, já meio caduco, proclamou: é o fantasma de meu filho!

Sem ao menos esperar a surpresa esvaecer, Carlindo foi avisando: só vim buscar minha família. Tenho obrigações em Goiânia e com obrigações não se brinca. A cada um deu um presentinho à-toa, que seus caraminguás permitiram. Na madrugada juntou a mulher, as crianças e os trapinhos, jogou tudo na Viação Marrequinho, rumo a Mundocaia. Lá embarcou num busu para Goiânia, onde chegou no fim do dia.

Com a família deslumbrada, que ninguém tinha visto cidade grande, Carlindo saiu da rodoviária direto pra cooperativa de catadores de papel. Vestiu os varais da carroça que o esperava, orientou mulher e filhos a segurar nas laterais contra os perigos da cidade e saiu todo lampeiro, exibindo sua habilidade por entre os carros.

Quando chegou ao cruzamento da T-4 com a T-63, esmolou os passantes, alegando o passadio fraco da família. Com o dinheiro amealhado, comprou uma pizza grande, um refrigerante idem, e se encaminhou para o viaduto da 85, recém-inaugurado. Alojou-se sob a rampa magnífica, no local onde vai ser um espelho-d’água. Ali, entre as estrelas, as taças, as luzes e o foguetório do Natal, cearam aquele maná divino, que a família desconhecia.

O filho mais velho, orgulhoso do pai, disse: um dia, papai, quero ter um carro assim, que nem o senhor. Ao que o pai respondeu comovido, num gesto largo, mostrando a cidade e suas luzes: tudo isso filho, até onde a vista alcança, um dia será seu!    


leia mais...
POR EM 26/01/2009 ÀS 02:24 PM

Livro dá azia?

publicado em

Se nos pedissem uma das feições do brasileiro, poderíamos responder, sem medo de errar: a aversão à leitura.
           
Tive a honra de participar como entrevistador da última entrevista do saudoso professor, magistrado e escritor Modesto Gomes, no programa Raízes – Jornalismo Cultural, do jornalista Doracino Naves, na Fonte TV. Ele narrou uma história emblemática da relação do brasileiro médio com o livro. Na juventude, em sua Paraúna natal, ele (Modesto) costumava passar longas horas entregue à leitura. E na vizinhança corria a maledicência de que o filho do Floriano não ia dar em nada. Exatamente porque era portador do hábito de ler.
           
Os murmúrios contra Modesto ocorreram há cerca de 60 anos. E desde então a coisa não só não melhorou como deve ter piorado bastante. Naquela época, ainda nem estava na moda o orgulho de ser toupeira. Nenhum político havia subido ao supremo cargo aos prantos por seu primeiro diploma ser o de Presidente da República. Presidente não costumava fazer apologia da ignorância, nem alardeava que não lia jornal nem livro, porque leitura dá azia.
           
Recente pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA, coloca o Brasil em último lugar entre 32 países avaliados quanto à capacidade de leitura, assimilação e interpretação de texto. Neste quesito nossa escola bombou feio. (Bombar aqui é no sentido antigo, de ser reprovado).
           
Noutra pesquisa feita com adultos, o fracasso não é menos acachapante. Um terço da população é constituída de totalmente analfabetos ou de analfabetos funcionais (lê mas não entende). O pior é que entre os adultos que dominam a leitura, apenas um de cada três lê livros. A pesquisa não revela, mas pelas listas dos mais vendidos, podemos concluir que esses leitores escassos, em grande parte, estão lendo porcaria. Ficamos num incômodo 27º lugar entre os trinta países pesquisados. A pesquisa revela ainda que, mesmo os que leem, leem pouco. Menos da metade do que lê um americano ou europeu.
           
Nossa ojeriza pelo livro tem raízes históricas e profundas. O Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravatura, com isso a educação do povo foi solenemente negligenciada séculos a fio. O ensino primário só foi universalizado na década de 90 do século XX, ou seja, há menos de 20 anos. No entanto, o rádio já estava presente desde os anos 30. A televisão desde os anos 50. Por incrível que pareça, a comunicação eletrônica chegou antes da escrita na sociedade brasileira. É como se alguém cometesse a distorção de aprender o canto anteriormente à fala. 
           
Leitores potenciais alegam que não lêem porque não têm tempo, no entanto, não lhes faltaria tempo para passar horas e horas num botequim ou diante de um tubo de TV. Outros alegam que o livro é muito caro. Em média 10% do salário mínimo. Porém, uma televisão média custa de três a quatro salários mínimos. Nem por isso os lares brasileiros são desprovidos de televisão. Para ter o que ler, bastaria comprar um livro e fazer permutas sucessivas com os vizinhos e amigos. O que falta na verdade é hábito. Valorização social da leitura.           
           
E quem seria o responsável pela formação do hábito? Outra vez a bomba vai cair no colo do governo. É muito comum no Brasil a existência de cidades progressistas, com mais de 100 mil habitantes, largas avenidas, indústria instalada, comércio vigoroso, feira disso e daquilo, festas e convenções diversas, mas nenhuma livraria, nenhuma biblioteca decente. E bares? Dezenas! Centenas! E até milhares!
           
O poder público ainda não conseguiu acertar o passo na relação com o livro. Um estudante é capaz de ir do jardim-de-infância ao pós-doutorado sem ter que entrar numa livraria. Assim como o bar é o ambiente propício para se desenvolver a convivência com o álcool, a livraria (ou biblioteca) é o ambiente propício para se desenvolver a convivência com o livro.
 
Ao longo do tempo, o governo vem desenvolvendo estratégias equivocadas na distribuição dos livros didáticos e paradidáticos. 25% de toda indústria editorial no Brasil é voltada para os livros escolares. A título de economia, os livros no ciclo básico são entregues nas escolas públicas.
 
Se o aluno vai para a rede privada, a própria escola lhe repassa os livros com fornecimento direto das editoras. No segundo grau, as escolas fornecem apostilas customizadas. Na graduação e pós não se recebem livros, mas as indefectíveis xérox de capítulos a serem trabalhados.
 
Além de a escola brasileira ensinar mal, não vem dando oportunidade ao aluno de conviver afetivamente com o livro em seu “habitat”, de ver novas obras, de afeiçoar-se ao objeto que é a maior invenção do homem, a forma mais segura de acumulação e transferência de conhecimento.
 
Uma sociedade que esnoba a educação, que não faz da leitura um hábito natural e salutar, fatalmente formará pessoas insensíveis, que não conseguem captar o mundo em sua essencialidade, nem entender a vida em seu todo. E assim acabam elegendo o consumo como o deleite supremo, a ignorância como identidade nacional e a estupidez como motivo de orgulho. 

leia mais...
POR EM 10/12/2008 ÀS 09:49 AM

Ciúmes, Viagra e tiros dentro da noite

publicado em

Meus amigos nunca entenderam. Meus pais nunca aceitaram. Até bem pouco, eu mesma nunca chegara a compreender direito quais forças me arrastaram para o núcleo trágico da vida do Coronel Ubiratan.

Aparentemente não temos nada em comum: nasci de uma família bem-estruturada, num bairro grã-fino, ele de uma família em ruínas, numa periferia lascada. Tive educação esmerada na Europa, ele se ralou na caserna. Nem à mesma geração nós pertencemos. Sou 23 anos mais nova que ele. Nada temos a comungar, a não ser esta pulsão fatal e incontrolável pela tragédia.

Meu analista diz que fui atraída por ele em razão de sua aura de poder violento, que ele passou a empunhar depois que apagou tantas vidas de uma só vez. E o mesmo motivo que provocou a minha aproximação me levou a matá-lo, pois era como se eu tomasse para mim a força poderosa que nele eu via. Pode até ter uma certa lógica, mas não tem nada de verdadeiro.

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, como disse o bardo inglês, com muita propriedade. No fundo, o que existe é um liame secreto e inquebrantável. Ocorre que, desde muito cedo, eu soube que minha vida seria regida pelo número 11, que é a plenitude do 10+1, o transbordamento, a desmesura, o viver em seu teor máximo, no limite, na raia da ruptura, já alcançando a falha universal, entre o factível e o fugaz.

Agora há pouco, porém, numa pausa que construí no meio desse burburinho, peguei lápis e papel e levantei alguns dados sobre o Coronel Bira e eu nessa situação aberta em escâncaras. Pude constatar o que eu já desconfiava: que a vida dele, assim como a minha, está toda entremeada pela exuberância do número 11.

Senão vejamos: Coronel Bira, como é tratado na intimidade, tem 11 letras. Ele nasceu no mês 4 do ano de 43, cuja soma dá 11. A marca maior de seus feitos são os 111 mortos sob seu comando, no episódio que ficou conhecido como a Chacina do Carandiru.

Vejam só: o número 111 carrega a fatalidade potencializada. É como se fosse um 11 entrelaçado com outro 11, com o algarismo 1 do meio servido aos dois numerais, numa conexão nefasta, em seu máximo grau.

O tumulto que desaguou no massacre foi iniciado pelos líderes de duas facções internas rivais. De um lado o “Barba”, de outro o “Coelho”, cuja soma das letras dá 11. A situação fugiu do controle às 14h51, na qual a soma é 11. A invasão foi comandada por 1 coronel (Ubiratan) mais 325 soldados, números que tendo seus algarismos adidos redundam em 11. A hora provável do tiroteio foi às 18h20, que é igual a 11. O número de disparos contabilizado pela perícia foi de 515 (5+1+5=11). O massacre, propriamente, aconteceu no pavilhão 9, portão 2, um local conflagrado pelo número 11.

Seu julgamento pelo massacre começou no dia 20/6/2001, com a soma resultando em 11. No primeiro júri foi condenado a 632 anos de reclusão (6+3+2 = 11).

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino.

Quando nos aproximamos, fomos conduzidos pelas forças ocultas do número cabalístico, que é ao mesmo tempo divino e libidino, sacro e escroto. Nós nos conhecemos num evento militar em que eu representava minha mãe, no dia 1/7/2001, data que, somada em seus algarismos, resulta em 11. Ubiratam + Carla Cepovilla tem exatamente 22 letras, que, divididas por dois titulares, dão a parcela de 11 para cada um. Inicialmente marcávamos nossos encontros no “clube de tiro”, que tem 11 letras.

Essa coincidência de número 11 segue numa sucessão tão assombrosa quanto enfadonha.

Com esta breve demonstração eu quis apenas dar uma pista de que nem o Coronel Bira nem eu temos qualquer culpa ou dolo em toda essa sucessão de tragédias. Tudo já estava desenhado pelos propósitos do além. Forças descomunais e irresistíveis impuseram as situações, apontaram as armas e premiram os gatilhos. Fomos instrumentos involuntários de desígnios insondáveis.

Quem tem um mínimo de cultura teosófica sabe que o número 11 é o desequilibrador dos elementos constitutivos do universo, determinante de suas doenças e erros. É esse número cabal o símbolo da luta interior, da rebelião, do extravio, do pecado original, da revolta dos anjos, enfim.

Se nem os anjos, que são assessores diretos de Deus, puderam resistir a seus efeitos desagregadores e decaíram, como poderíamos nós, simples mortais, resistir à imposição desse império?

Saibam todos que, visto de um modo superficial e simplista, fui eu quem matou o Coronel Bira, quando ele disse que não ia mais desperdiçar Viagra comigo, que determinada fulana fazia melhor e tal. Mas se olharem a realidade mais profunda, como deve ser, como rogo que façam, tanto o coronel, na realização do massacre, quanto eu, no seu assassinato, não tivemos culpa nem dolo. Fomos, repito, apenas instrumentos de uma determinação superior, simbolizada pelo número 11, à qual ninguém é dado resistir.

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino

 

leia mais...
POR EM 09/12/2008 ÀS 11:47 PM

O rumo inesperado de madame Liólio

publicado em

Ela, sim. É que era mulher feliz. Pelo menos era invejada por dez de cada dez mulheres de Mundocaia.

Consuelo Abadia Liólio, mulher de empresário monopolista, mãe de quatro filhos saudáveis e inteligentes, patronnesse das mais badaladas festas do hight society. Era o que  Ibrahim Sued convencionou chamar de “locomotiva”. Por onde ia, arrastava todo mundo, ditando a tendência da moda. Só pra se ter idéia da força de sua liderança, certo dia ela apareceu a uma festa com um rasgão acidental na meia, na perna direita. Na festa seguinte, - pasmem! - suas súditas, sem exceção, circulavam galhardamente, ostentando suas meias rasgadas,  a lá madame Liólio.

No tempo devido, os filhos, um a um, foram se casando, como uma coisa natural. Na mesma ordem em que nasceram. Obviamente com as moças mais cobiçadas. Não do lugar. Tinham o capricho de importar as mais belas beldades da Capital, que Munducaia talvez não tivesse moçoilas à altura de seus rapagões.  Cada enlace, um acontecimento, uma festa de arromba de ficar na memória pro resto da vida.

No entanto, cada filho que ganhava o mundo era um pique apertando as correias das percepções do existir. A noção de refúgio vazio, de vida sem sentido aterrava sua alma com a força dos deslizamentos de terra. As festas, que antes lhe proporcionavam alegria, eram agora verdadeiros tormentos.

Ao mesmo tempo em que as emoções eram esburacadas pela tristeza sem conta, os hormônios cuidavam de redistribuir suas carnes e banhas em proporções nada complacentes. As ancas bem esculpidas foram se esvaziando, subindo para a corcunda, as omoplatas e os úberes. A barriga avolumou-se com banhas vindas sabe-se lá de onde.

Foi então que chegou a vez da filha caçula se casar. Para aumentar o desgosto já reinante, ela enoivou-se com um empregado subalterno de uma das empresas do pai. O sujeito pardavasquinho, sem eira nem algibeira, trabalhava no curtume, na lida de couros, e deles portava o fedor impregnado.

Madame Liólio tentou de tudo para remover da filha o propósito de desposar-se com o camaradinha. Mas para ela, nada servia, a não ser o casório, no dia e lugar já combinado, com o sujeito com odor de curtume e tudo. Mas na noite da véspera, a mãe chamou o que era pra ser genro e com ele teve uma conversa reservada, em local neutro, fora da vigilância familiar. Ninguém sabe exatamente do que trataram.

Só se sabe que na noite seguinte, convidados a postos, festança preparada, o noivo não compareceu, nem madame Liólio foi vista. Sem genro, sem sogra, sem casório, a euforia da festa foi se convertendo em lágrimas, decepção e tititi. Para sorte dos azarados, os quitutes e acepipes foram servidos no outro dia em abrigos de idosos e crianças enjeitadas.

Tempos depois, correu a assombrosa notícia de que a ex-futura sogra foi vista com o ex-futuro genro levando vida selvagem nas cavernas, entre morcegos e bichos ferozes, na região de montanhas e cânions, da reserva de Bamberra.


leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 05:50 PM

O relatório Ayres Brito

publicado em

Na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que visa impedir as pesquisas com células-tronco embrionárias, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito teve uma atuação impecável.  Nesta que é uma das ações mais importantes que já ocorreram na história da Suprema Corte, Ayres Brito foi diligente em tudo. Pela primeira vez o STF valeu-se do instrumento de representação popular chamado Audiência Pública, para colher as mais representativas opiniões sobre o assunto. Ainda não houve a decisão final, mas o relatório do ministro é uma peça que vale a pela de ser lida até como obra literária. Não bastassem a qualidade técnica, o embasamento científico, a articulação lógica dos assuntos, o texto foi composto num estilo elegante, claro e cativador, digno das melhores peças literárias. Leia alguns trechos do relatório, que tem 72 laudas, e confirme.   

 
 
Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito
 
Excertos: artigos 29, 30, 31

Não estou a ajuizar senão isto: a potencialidade de algo para se tornar pessoa humana já é meritória o bastante para acobertá-lo, infraconstitucionalmente, contra tentativas esdrúxulas, levianas ou frívolas de obstar sua natural continuidade fisiológica. Mas as três realidades não se confundem: o embrião é o embrião, o feto é o feto e a pessoa humana é a pessoa humana. Esta não se antecipa à metamorfose dos outros dois organismos. É o produto final dessa metamorfose. O sufixo grego “meta” a significar, aqui, u’a mudança tal de estado que implica um ir além de si mesmo para se tornar um outro ser. Tal como se dá entre a planta e a semente, a chuva e a nuvem, a borboleta e a crisálida, a crisálida e a lagarta (e ninguém afirma que a semente já seja a planta, a nuvem, a chuva, a lagarta, a crisálida, a crisálida, a borboleta). O elemento anterior como que tendo de se imolar para o nascimento do posterior. Donde não existir pessoa humana embrionária, mas embrião de pessoa humana, passando necessariamente por essa entidade a que chamamos “feto”. Este e o embrião a merecer tutela infraconstitucional, por derivação da tutela que a própria Constituição dispensa à pessoa humana propriamente dita.
 
Essa pessoa humana, agora sim, que tanto é parte do todo social quanto um todo à parte. Parte de algo e um algo à parte. Um microcosmo, então, a se pôr como “a medida de todas as coisas”, na sempre atual proposição filosófica de Protágoras (485/410 a.C.) e a servir de inspiração para os compositores brasileiros Tom-Zé e Ana Carolina afirmarem que “O homem é sozinho a casa da humanidade”. E Fernando Pessoa dizer, no imortal poema “TABACARIA”:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo”.
 
Por este visual das coisas, não se nega queo início da vida humana só pode coincidir com o preciso instante da fecundação de um óvulo feminino por um espermatozóide masculino. Um gameta masculino (com seus 23 cromossomos) a se fundir com um gameta feminino (também portador de igual número de cromossomos) para a formação da unitária célula em que o zigoto consiste. Tal como se dá com a desconcertante aritmética do amor: um mais um, igual a um, segundo figuração que se atribui à inspirada pena de Jean Paul Sartre.
 
Não pode ser diferente. Não há outra matéria-prima da vida humana ou diverso modo pelo qual esse tipo de vida animal possa começar, já em virtude de um intercurso sexual, já em virtude de um ensaio ou cultura em laboratório. Afinal, o zigoto enquanto primeira fase do embrião humano é isso mesmo: o germe de todas as demais células do hominídeo (por isso que na sua fase de partida é chamado de “célula-ovo” ou “célula-mãe”, em português, e de “célula-madre”, em castelhano). Realidade seminal que encerra o nosso mais rudimentar ou originário ponto de partida. Sem embargo, esse insubstituível início de vida é uma realidade distinta daquela constitutiva da pessoa física ou natural; não por efeito de uma unânime ou sequer majoritária convicção metafísica (esfera cognitiva em que o assunto parece condenado à aporia ou indecidibilidade), mas porque assim é que preceitua o Ordenamento Jurídico Brasileiro. Convenhamos: Deus fecunda a madrugada para o parto diário do sol, mas nem a madrugada é o sol, nem o sol é a madrugada. Não há processo judicial contencioso sem um pedido inicial de prolação de sentença ou acórdão, mas nenhum acórdão ou sentença judicial se confunde com aquele originário pedido. Cada coisa tem o seu momento ou a sua etapa de ser exclusivamente ela, no âmbito de um processo que o Direito pode valorar por um modo tal que o respectivo clímax (no caso, a pessoa humana) apareça como substante em si mesmo. Espécie de efeito sem causa, normativamente falando, ou positivação de uma fundamental dicotomia entre dois planos de realidade: o da vida humana intra-uterina e o da vida para além dos escaninhos do útero materno, tudo perfeitamente de acordo com a festejada proposição kelseniana de que o Direito tem a propriedade de construir suas próprias realidades. 

clique para ler o relaório integralmente

 


leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 04:56 PM

Operação Solta & agarra

publicado em
Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin
 
 

Não é de hoje que a fauna ictiológica nacional vem experimentando os privilégios do período de defeso, ou da piracema. Nessa fase, como o próprio nome já diz, a pesca é vedada. A não ser a pesca esportiva, do tipo agarra&solta. A Polícia Federal agarra e o Supremo Tribunal solta.

Nos últimos dias o noticiário nacional deu conta de uma tarrafada espetacular promovida pelo barco pesqueiro da Polícia Federal. Numa só operação trouxe enredados em suas malhas peixes tão importantes quanto aquela proporcionada pelo milagre de Jesus Cristo aos apóstolos no mar da Galiléia.

Dentre os peixes fisgados, três chamaram especialmente a atenção, por se constituírem verdadeiros representantes das espécies mais preciosas encontráveis nas águas do mercado sócio-financeiro nacional.

Numa escala crescente de importância e sofisticação, temos Celso Pitta, uma espécie de cascudo tosco que chafurda o lodaçal dos pântanos, por onde são usurpadas quantias vultosas dos recursos públicos, por meio de ocupação de cargos eletivos, com votos da massa ignara. É uma evolução (ou seria degenerescência?) de um outro cascudo emérito chamado Paulo Salim Maluf.  

Acima dele, vem Naji Nahas, uma espécie de piranha do Nilo, com agilidade e faro especial para negócios excepcionais, além de dentes afiados para grandes bocadas. Eventualmente nada pelo lodo das verbas públicas, mas seu habitat preferencial são as águas turvas das informações privilegiadas. Com essa habilidade leva de roldão verbas públicas e privadas, quebrando bolsas, engrossando fundos, transferido de mãos, de uma hora pra outra, riquezas monumentais.

Já o terceiro, e ocupante do topo da linha evolucionária, está o tubarão iluminado Daniel Dantas, um monetarívoro voraz com aptidão para descolar sua presa em qualquer habitat existente. De lamas sulfurosas a águas translúcidas. Como aquelas bactérias hipertermófilas que toleram ambientes que vão da panela de pressão ao botijão de nitrogênio. Ou seja, em busca de uma oppotunity, trafega com desenvoltura tanto pelas panelas de pressão da patuléia, quanto pelos gélidos botijões do governo.

Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin.

Os demais peixes apanhados são bagres, lambaris, rêmoras, raias-miúdas e outras espécies parasitárias que sobrevivem exclusivamente dos detritos dessas espécies dominantes das águas monetárias brasileiras.

O mais curioso é o método pesqueiro inaugurado nesta mais recente operação, que evoluiu do agarra&solta do defeso clássico para o solta&agarra (do Sânscrito Satiagraha). Obviamente para outra vez soltar. Inauguramos uma espécie de defeso heterodoxo. Talvez o método se justifique porque uma das características marcantes dos peixes é ter o apetite maior que a memória. Minutos depois de morderem uma isca e serem apanhados e soltos, são capazes de morder a mesma isca outra vez.

O método não é do IBAMA, mas tem se mostrado extremamente eficaz enquanto instrumento de preservação de nossa fauna peixeira.

A persistir este jeito de pescar, ou seja, esta prática na administração da justiça, podemos ter confiança de que nossas espécies mais representativas estarão a salvo da extinção. Nem mesmo o aquecimento global terá poder de colocá-las em risco.   

leia mais...
POR EM 01/12/2008 ÀS 05:16 PM

Flagelados da chuva

publicado em

Chovia. Chovia. Como chovia! Como se a chuva quisesse apagar a memória de um clima ameno, quando era possível viver confortavelmente naquele recanto de vale. Agora o rio era mar, a rua era rio e a enxurrada derrubava tudo feito horda de bárbaros enfurecidos. Estávamos num dilúvio sem arca.

Em suspenso, como se amparando apenas nos mútuos apoios, a gente se acotovelava sobre os móveis mais altos, dentro da casa, dentro do mundo, fora da proteção civil, clamando pelos céus. E chovia, como se a chuva agora fosse o dom natural do tempo.

Pela fresta da janela vi quando veio uma onda, desgarrada do cimo da serra em busca do Vale do Rio Itajaí. Nossa casa, pobre casa! – não haveria de resistir àquela vergasta. Num berro de alerta mobilizei minhas forças e minha família. Num átimo saltamos dentro da chuva rumo a um local mais seguro. Antes que alcançássemos o morrote ali nas cercanias, a onda nos pegou. Nossa casa desceu moída.

Fomos arrastados pelo turbilhão. O rugir das águas sujas se misturava aos nossos gritos desesperados. Fomos ancorados por uma pedra abaixo. Minha mãe já não requeria cuidados: estava morta. Meus filhos estavam escoriados, mas alertas e prontos para se defenderem, até a cima dos limites de suas forças. Minha mulher, coitada, grávida de oito meses, parece que teve antecipadas as dores do parto.

Deixando minha mãe para trás, começamos a empreender nova caminhada rumo à área menos vulnerável. Demos apenas alguns passos transversais, – passos difíceis, atolados, escorregadios.  Foi quando vi que nova onda descia em nossa direção. Meu coração desabalou, mas não era possível imprimir maior velocidade em nossa fuga.

A onda agora era mais densa, quase um barro é que era. Como um azorrague, ela nos bateu sem piedade. Gritei por Deus. Minha mão escapou da mão de minha mulher. Minha mulher, com nosso filho dentro e nosso casal de filhos de fora, foram arrastados como se fossem detritos na fúria das ladeiras. Surfei a onda de barro como um surfista improvisado. A onda amainou-se muitos metros abaixo.

Pude perceber que minha família ainda se debatia e lutava pela vida, tentando erguer-se do visgo da terra. Comecei a cavar com as unhas, com as forças do desespero. Cheguei até descobrir o rostinho de minha filha, que deu um grito de sinal de vida.

Aí, sem que eu visse, é que veio a terceira onda. O arremate da tragédia. Um carregamento de terra que desamarrou-se da encosta e veio deslizando furiosamente, recobrindo tudo o que as ondas anteriores haviam colocado por terra.

Minha família ficou soterrada. Eu, como estava mais na superfície, fui empurrado aos trambolhões. E não vi mais nada. Só vi quando já estava aqui neste quarto de hospital. Dizem que, por um milagre, fui salvo por um bombeiro.  

Eu só sei que tinha planos, eu tinha sonhos para meus filhos e minha mulher amada, o amor da minha vida. A gente já havia comprado roupinhas para o filho que ia nascer. Escolhido o nome. Ia ter o nome do avô. Agora nem sei...    


leia mais...
POR EM 24/11/2008 ÀS 08:35 PM

Deus e os ovos no porta-malas

publicado em

As atitudes de rebeldia foram chegando com a adolescência, devagar, quase que imperceptivelmente. Uma roupa mais corajosa hoje, uma resposta mais dura amanhã, um gesto mais abusado, um prego na língua ou um tatoo nas cadeiras depois. Atitudes que os pais jogavam na conta das inquietações da idade. Um indicador seguro era o boletim da escola, que mantinha níveis aceitáveis para o histórico da família.

Mas quando Analisa descobriu que havia a noite e que na noite havia a balada e que na balada havia... Aí, sim.

Caiu num deslumbre endiabrado. Acabou o tempo para a escola e a família. Passava o dia na internet, alimentando comunidades, atualizando o blog, combinando com a galera sobre a balada que empreenderiam à noite. Duas coisas a tiravam do computador: baladas e compras. Adquiria os modelitos de grife, cada vez mais arrasantes, tanto pelo preço, quanto pela extravagância. Eram, como se diz, roupas de andar pelado.  

E no embalo, de balada em balada, Analisa foi selecionando um grupo maneiro de amigos irados. O tititi que rolava é que ela pertencia mesmo a uma galera da pesada.

No dia em que visitou seu blog, a mãe levou um choque e teve de ser internada. Logo na primeira página estava lá sua filinha querida, sensualmente despachando uma fila enorme de marmanjos mal-encarados, numa seção coletiva de beijos na boca.

Nas páginas seguintes desfilava uma alegoria de horrores. Analisa, com uma malícia medonha, se apresenta fazendo roleta-russa com um revólver prateado. Na seguinte, puxando um brau. Depois, cafungando um carreirão de cocaína sobre um espelho ordinário, desses com moldura cor de cenoura. Na próxima, braço na chincha, recebendo na veia uma dose cavalar de outra droga qualquer.

Mas quando a mãe entrou na área pornô, caiu desmaiada, logo ao ver um piercing animal trespassado nas partes. Nem chegou a ver as orgias tipo hardcore que a pequena fazia e jogava na rede, daquelas de deixar Calígula rodopiando na catacumba.

Quando a mãe se recuperou do choque, juntou-se com outros familiares e orelhou a filha e a internou numa clínica de drogados, ou de malucos, não sei.

Semanas depois, quando finalmente teve alta, a turma já estava esperando Analisa para o retorno à mesma vida de antes. A mãe desesperou-se, mas antes que o marido e outros parentes chegassem para ajudá-la na operação de impedimento, a filha pegou o carro da mãe na garagem, pôs a galera pra dentro e acionou o portão para novamente mergulhar no mundo.

Sem mais a fazer, a mãe entrega ao sobrenatural: vai com Deus, minha filha.

- O carro já tá cheio, mãe. Se Deus quiser ir, só se for no porta-malas.

 Aquela noite Analisa bateu o carro. E bateu feio. Todos morreram. Ficaram irreconhecíveis nos destroços.

Mas, no que sobrou do porta-malas, a mãe encontrou uma cartela de ovos, esquecida ali na última compra. Por incrível que pareça, estavam intactos. A mãe acha que foi um capricho de Deus.  


leia mais...
‹ Primeiro  < 8 9 10 11 12 13 14 15 16 > 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio