revista bula
POR EM 24/06/2008 ÀS 12:58 PM

Amores farsantes

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A porta fechou-se atrás deles. Enfim, sós. Ele, o noivo. Ela, uma prostituta arrebanhada assim de última hora. Por precaução, não se deveria chegar tão tarde aos bordéis. Ora, todos os usuários o sabem... Ao fundo ouvia-se o burburinho do povo que lotava o estabelecimento divertido, homens casados ou solteiros em busca de distração, aventura e alguma dor de cabeça também. O quarto estava à meia luz e era mal ventilado. Um cheiro forte de mofo denunciava as condições precárias do prostíbulo. Trôpega, a mulher caminhou pelo recinto, puxando o cliente pela mão, como um cachorrinho. Correu para o pequeno banheiro da suíte. Foi urinar, lavar o rosto, espantar o sono, fazer o último enxágüe da vagina, ajeitar-se para o milenar ofício. Uma luz débil, amarelada, fincou a penumbra do quarto. O rapaz estremeceu. Casar-se-ia amanhã à noite. Apesar do compromisso, ali estava ele, prestes a se deitar com uma estranha embriagada, parcamente remunerada pelos companheiros de farra.


No fundo, no fundo, não tinha vontade de fazer sexo com ninguém naquele lugar. Foi para o puteiro com os amigos, movido tão somente pelo prazer da farra. Despedida de solteiro. Freqüentara os cabarés da cidade pouquíssimas vezes. Além de se sentir meio intruso, era um medroso. Tinha medo das pessoas. Tinha medo das doenças também. Tinha mais medo das pessoas que das doenças, pois estas se resolviam com remédios e ungüentos. Apreciava mesmo era a fuzarca dos companheiros, a algazarra, as performances de mulheres bonitas ou não, novas ou não, e que se despiam sobre as mesas e tablados em requebros às vezes sensuais, às vezes grosseiros. Apesar do ambiente convidativo, não tinha vontade de se deitar com nenhuma delas.


Acostumara-se com a noiva. Até gostava dela. Carinho. Fraternidade. Solidariedade. Interesse também. Pensou nos preparativos do casório. Muito dinheiro a família já havia gastado com o evento. Casar estava mesmo se configurando um compromisso social deveras dispendioso. As mãos pálidas pingavam um filete de suor gelado. Quis recuar. A mulher entrou no quarto trajando uma farda apropriada, embora de cor vulgar, espalhafatosa. Desajeitada, empurrou-o. O rapaz desabou sobre o colchão de molas. O balanço provocou uma leve vertigem no mancebo. Deitado no lençol puído, o noivo mirou o teto onde um empoeirado ventilador girava vivo. Enxergou a mancha escura do mofo que rodeava a luminária sem lâmpada. Goteiras, com certeza. Pensou: uma telha quebrada... Pensou na noiva. Pensou nos amigos. Pensou que aquele encontro estava sendo, por demais, inconveniente. Pensou em dizer a verdade a todos, em acabar com aquela farsa de uma vez por todas.


Sobressaltado, o moço sentou na beirada da cama barulhenta, com as calças arriadas no meio das canelas. Desculpou-se. Vestiu-se. Novato que era, ele tremia. Abriu uma garrafa de água e ofereceu um gole à mulher. Ela recusou, queria mesmo era tomar uma vodca. Estava bêbada, os olhos em brasa, a voz empastada. Constrangido, pagou a moça (de novo). Atou o cinto. Solicitou sigilo, providência até desnecessária, pois ela desmaiou embriagada. Foi-se embora aliviado, ao menos, por enquanto. Restavam ainda o enlace matrimonial e as demais mentiras do amanhã.


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POR EM 23/06/2008 ÀS 10:43 PM

Cuecas e sutiãs

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dedicado ao Alípio Bordalo

Quando as mulheres descobrirem que, sim, são elas sim senhor que mandam no mundo, estaremos os homens sujeitos a uma vivência muito mais promissora e pacífica do que aquela que temos levado. Alguém aí, por acaso, de supetão, se lembra do nome de uma déspota carniceira da História da Humanidade que tenha desejado invadir países e conquistar o mundo?! Citem-me um só nome de uma bárbara sanguinária que tenha promovido um genocídio. Estou certo que um profundo silêncio revela a mais singela verdade: as mulheres são melhores do que nós. Sem qualquer demagogia. Não preciso de dinheiro emprestado. Não sou candidato a vereador. E não estou à caça de amores fáceis. Só rindo...

Nos anos sessenta, a norte-americana Betty Friedan, ícone das causas feministas, dentre tantos feitos relevantes, como ter tido coragem de se separar do marido e retirar o seu sobrenome, queimou sutiãs em praça pública e criou a NOW (National Organization for Women) que, confesso, nem sei se existe mais. Não importa. Agora, eu procuro homens dispostos para fundar a tupiniquim NEVER (Núcleo Especial de Varões Estressados e Raivosos), uma ONG (Organização Nada Gentil) destinada ao associativismo de homens adultos, casados ou solteiros, apavorados e dispostos a queimarem suas cuecas em logradouro público, por uma causa para lá de nobre: frear o ímpeto das mulheres. Companheiros, assim como cantou o Elvis, eu os conclamo à luta: “It´s Now or Never!!”.

Brincadeiras à parte, outro dia, afirmei numa crônica que no passado as mulheres eram felizes e não sabiam. Uma anônima leitora respondeu-me, indignada e impiedosa, que aquela fora uma frase infeliz, preconceituosa e machista. Eu a escrevi de coração, moça. Creia-me. Não havia a intenção do duplo sentido, estratégia que muito me agrada, característica dos escritores cínicos. Eu, realmente, suspeito que a liberalização feminina teve lá as suas desvantagens.

Nos dias atuais, as mulheres acumulam atribuições primordiais, tais quais: gerar, parir e criar os seus filhos; trabalhar em demasia; estudar e aperfeiçoar conhecimentos (investimento na carreira profissional); gerenciar o próprio lar; fazer sexo com o companheiro, de preferência, atingindo orgasmos. São tarefas extenuantes, ainda mais, quando combinadas. Não é por acaso que as doenças cardiovasculares (pressão alta e infarto) estão acometendo, igualmente, homens e mulheres, em especial, após a quarta década de vida. É o preço que se paga pela correria e estresse da vida moderna. As queixas de disfunção sexual, principalmente, a falta de desejo e a anorgasmia, são corriqueiras nos consultórios médicos, geralmente, disfarçadas noutros sintomas, tais como a dor e a depressão. Enfim, o corolário de encrencas é variado. Será que vale a pena?

Como qualquer coisa nessa vida, o exagero é sempre pernicioso. São indubitáveis os avanços que as mulheres conseguiram no decorrer das últimas décadas, desde o direito ao voto eleitoral, até o direito ao orgasmo e ao mercado de trabalho. É fato, contudo, que as melhores vagas e salários estão nas mãos dos homens. Creio que não por muito tempo. Comendo pelas beiradas, as mulheres estão ocupando espaço nas câmaras municipais, nas assembléias, no Congresso Nacional e Senado. Em suas vidas privadas, estão cada vez mais decididas e confiantes, e não suportam parceiros egoístas, presunçosos, relapsos ou promíscuos. Uma vez que elas também detêm o poder (leia-se, dinheiro), não dependem da boa vontade dos seus pares e pensam poucas vezes antes de chutar os seus traseiros e tocarem a vida adiante. Assim como faz a polícia de Nova Iorque em relação à criminalidade, a tolerância delas com os parceiros problemáticos é zero. Pisou na bola, dançou.

Que ninguém se engane: a luz que se avista no fim do túnel deve ser uma lanterna nas mãos de uma mulher. Quem sabe, quando elas detiverem, majoritariamente, o poder decisivo na sociedade, nossas vidas possam experimentar outros rumos, com menos indiferença à fome e à pobreza dos povos, menos guerras e violência, menos degradação do meio ambiente, menos corrupção, enfim, a paz plena e universal. Não custa nada imaginar. Afinal de contas, apesar de ser apenas um homem, tenho lá os meus sonhos. Sabem como é... coisas de mulher.
 

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POR EM 16/06/2008 ÀS 12:24 PM

Um brinde ao morto

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Como pode um escritor se valer da morte de alguém para redigir uma estória tão picaresca? Calma lá. Não é que a morte se preste, dentre outras coisas, ao humor negro; a vida é que anda meio sem graça.

Quando acordou de manhã, a mulher estranhou o fato de o marido ainda estar deitado na cama, pois o sujeito tinha por hábito dormir e acordar com as galinhas, como se diz na roça daqueles que se recolhem na boquinha da noite e levantam muito cedo, com o dia ainda escuro. A mulher, tomada por uma indisfarçável impaciência, cutucou o ombro do companheiro, que nem aluiu, nem resmungou. De fato, ele parecia nem respirar. Apavorada, ela abriu a cortina para que a luz entrasse. Seu rosto era a palidez. Correu até o banheiro, buscou um espelho e o posicionou bem próximo à face do homem, para conferir se havia vapor fluindo pela boca ou pelas narinas. Meu Deus, ele morreu! O laudo cadavérico esclareceu, mais tarde, que ele fora fulminado por um infarto extenso do miocárdio que o atingiu, sem alarde, mas com uma mórbida eficácia. Nesses casos, dizem os entendidos em doenças, a vítima mal tem tempo para chiliques, desespero e mensagens finais, como aquelas que a gente sempre via nos antigos filmes de western, quando o mocinho era baleado pelo homem mau. Tudo se resume a um ruído sufocado, mais o breve espasmo de toda a musculatura, uma derradeira articulação do corpo em falência. O acidente vascular cardíaco é bruto e capital, muitas vezes, ceifando a vida da pessoa sem direito à repescagem, num abrir e piscar de olhos. A vítima sonhava com o quê?!

Durante os rituais de despedida, entre tantas conversas de insuportável mau gosto que surgem quando o velório já se prolongou em demasia, deixando toda gente exausta e sem assunto, a viúva comentava com certa resignação o fato de ter dormido ao lado de um cadáver, sabia-se lá, quantas horas. Afinal, o corpo do ex-marido já estava gelado e rígido àquela hora da manhã, embora fosse verão. A aparência matutina do defunto fazia crer que fora arrebatado pela asfixia letal do músculo cardíaco, nas primeiras horas da noite. Quem bom que não fizeram sexo naquele dia. Sorte a dela, não ter se insinuado. Ela, a sempre resoluta esposa, não se perdoaria, imaginando que os esforços orgasmáticos pudessem ter precipitado uma crise vascular severa, a ponto de estuporar o peito do companheiro, abreviando a sua existência. E se tivessem transado com muita entrega e emoção, como há muito ela não sentia, e a morte a surpreendesse durante a conjunção carnal, já nos finalmentes, durante a melhor parte do embate sexual, quando se tem a impressão que o ventre vai implodir e o corpo levitar? Deus Todo Poderoso sabe o que faz, pensou. Os presentes comentavam, em surdina, que a mulher estava muito abalada, que seria o efeito dopante dos remédios ingeridos, por isto, não dizia mais coisa com coisa, por isto, tinha preocupações tão irrelevantes e esdrúxulas, por isto, mais parecia uma mentecapta do que uma viúva recentemente abandonada. O povo não perdoa. Os comentários maliciosos, embora repreensíveis, são freqüentes e animam conversas vazias. 

Uma das coisas mais tediosas em funerais são os testemunhos saudosistas e enaltecedores que alguns fazem a respeito do morto. Aquela estória que ninguém conhece ainda, pois aconteceu só com ele o pobre coitado. Aquele episódio derradeiro compartilhado com a vítima, ainda ontem mesmo. Ele parecia tão bem e feliz, não é verdade? Putz!!... No último final de semana, entornamos várias latinhas de cerveja, e ele parecia gozar plena forma física. Um dos maiores caras que já conheci na minha vida. Vai fazer muita falta. Uma perda irreparável. E por aí vai...

Na verdade, esta personagem foi um colega de trabalho. Seu desaparecimento, da forma que ocorreu, foi tão surpreendente que acabou me inspirando esta crônica, da qual muitos haverão de comentar, com relevante propriedade: não tem a menor graça, além do mais, o mau gosto e a falta de assunto são repreensíveis, inconvenientes, antiéticos. Eu nem ligo. Quem diz tudo o que quer, ouve o que não quer, e eu estou sempre preparado para os embates. Contudo, continua cada vez mais clara para mim, a premissa de se viver intensamente cada dia como se fosse o último, conforme apregoam os poetas, criaturas de percepção sobressalente. Tarefa difícil é me lembrar desta recomendação no dia-a-dia, quando os afazeres modernos emparelham a insanidade. A vida está um porre. Ex-amigo, eu lhe ofereço mais um gole. Tim-tim.

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POR EM 02/06/2008 ÀS 04:56 PM

Política, futebol, religião e outras causas intolerantes

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Com a fé das pessoas não se brinca, muito embora, alguns povos até digladiem e se matem por causa dela (nunca pela falta dela). As organizações religiosas, dentre outros objetos, têm a fundamental missão de promover o congraçamento e a paz entre os seres humanos. Muitas vezes, elas falham feio, sendo usadas como ferramenta de discriminação e intolerância. Eu, que já perdi alguns amigos para os dogmas e os preceitos ortodoxos, ando descrente com corporações redentoras e donas da verdade. Ora, não sabemos nada.

Petrônio nasceu num povoado no interior de Goiás, lugar remoto e atrasado que teimava em não aderir ao tecnicismo e às facilidades da vida moderna, o que, convenhamos, a rigor não significa defeito, porque a modernidade também pode fomentar a tolice de muitos. Foi então que, vestido pela mãe e pela irmã mais velha com uma túnica de linho branco cosida à mão, o pirralho foi batizado na única igrejinha do lugar. Viveu naquele fim de mundo a sua meninice. Obrigado a fazer a tal catequese, viu-se um dia, frente a frente, e a sós, com o padre americano na véspera de sua Primeira Comunhão.

Acuado pelo manda-chuva celibatário, o menino Petrônio foi convencido a confessar um monte de bobagens, traquinagens que todo moleque da sua idade fazia mesmo, caso contrário, ficaria desautorizado a degustar o pão sagrado e arderia, com toda certeza, eternamente, nas labaredas do inferno. Aquele autodenominado (ou seria, endemoninhado?!) homem da igreja revelou-se surpreendido: como é que uma criança em tão tenra idade poderia carregar em suas costas tantos pecados hediondos, como responder mal à mãe, dizer palavrões, bater no irmão caçula e cometer pequenos furtos no pomar do vizinho? O castigo era inevitável, e as regras, bastante claras: que decorasse de uma vez por todas os Dez Mandamentos, que rezasse vinte padre-nosso, vinte ave-maria e o salve-rainha, caso contrário, seria reprovado por ele e pelo Pai (do qual se apresentava como procurador e chapa), ficando assim impedido de participar da missa dominical, das novenas e das quermesses. Apavorada, subjugada, a criança beijou o anel do malvado e cumpriu a penitência à risca.

Passaram-se os anos e Petrônio, finalmente, escapuliu daquela comunidade poeirenta. Tornara-se um homenzarrão desengonçado e feio, contudo, ansioso em tentar melhor sorte na capital dos goianos, local onde, com certeza, arrumaria um emprego supimpa, uma namorada supimpa, que seria uma noiva e uma esposa pra-lá-de-supimpas. O mancebo caipira conheceu uma moça de família, conforme se dizia à época, ao se referir a uma moçoila invicta da conjunção carnal, religiosa e proveniente de família respeitável. Não demorou muito e o precipitado casal contraiu núpcias. Foi assim a estória: Petrônio e a noiva foram ter com o padre da comunidade local, a fim de providenciarem o matrimônio, pois a moça fazia questão de casar na igreja, trajando véu e grinalda, ao som de um violino, um órgão e um coral cantando a Ave Maria. No vigoroso interrogatório aplicado aos noivos, o padre (que mais parecia um promotor ou policial) perdeu a paciência com os ingênuos nubentes e ficou mesmo muito irado quando Petrônio, católico negligente, confessou que não era muito de freqüentar as missas e demais eventos eclesiásticos. Pior de tudo, digno de toda a indignação paroquial, o rapaz não tinha sido crismado, conforme rezava a tradição. Depois de esculachar o casal, ao ponto de fazer a moça chorar copiosamente, o vigário deu-se por satisfeito e concedeu o alvará para que os noivos efetivassem o enlace na sua paróquia, entretanto, que não houvesse atrasos, que a trilha sonora do casamento fosse previamente submetida ao seu crivo rigoroso, e que a moça nem pensasse em abusar no decote dos seios, senão já viu... Seria _ não duvide, mocinha! _ enxotada do altar.

Petrônio casou-se, mas foi ficando invocado com aquele tipo de imposição e contrariedade. Sentia-se uma ovelha desgarrada dentro dos dogmas e preceitos católicos. Foi então que, com o aval da já desinibida esposa, passou a freqüentar o templo dos evangélicos, os quais ele chamava “crentes”. Ficou tão imbuído com a novidade que não admitia que os amigos saíssem com aquela anedota da “crente do rabo quente”. Brigou com uns três companheiros por causa dos chistes. Freqüentava o templo três vezes por semana. Parecia ter, enfim, descoberto a religião ideal. Foi assim durante um ano inteiro. O encanto, contudo, foi-se esvaecendo aos poucos. Uma vez que era um assalariado, e a mulher não trabalhava fora de casa (naqueles tempos, as mulheres eram felizes e não sabiam...), raramente colaborava na coleta do dízimo. Passou a ser mal visto e criticado pelos companheiros e líderes da comunidade religiosa. Queria colaborar de outras formas, desde que não fosse com a grana suada de seu salário, mas não colou. Boa vontade não enche a capanga de ninguém. Num certo domingo, foi chamado às favas pelo pastor, aquele mesmo que não desgrudava os olhos do corpo da sua Gracinha (Maria das Graças, leitores, era o nome da sua esposa), desfaçatez que já o vinha incomodando fazia tempo. Deu uns tabefes no sujeito e cascou fora daquela agremiação.

Petrônio queria ir pro Céu, mas não queria morrer. Sentia uma falta danada dos cultos, das rezas, dos encontros, das ladainhas, dos sermões, das penitências brandas, de estar misturado com os demais convivas pecadores de toda estirpe. Homem intimamente desajustado foi tentando outras coisas: umbanda, espiritismo, ufologia, piramidologia, parapsicologia, naturismo, o santo daime, o budismo, consciência racional, etc. Não funcionava com ele. Nada preenchia o vazio que insistia dentro do peito. A esposa, cada dia mais assanhada, era companheira de todas as horas, solidária, mística e partícipe. Hoje, depois de peregrinar por várias tendências e filosofias, e escrever livros esotéricos durante muitos anos, Petrônio encontrou um veio que, talvez, seja o seu definitivo: ele apregoa o ateísmo e viaja por toda América Latina, vendendo palestras e promovendo os seus livros para auditórios quase sempre lotados. Enfim, os negócios engrenaram de vez, e vão mesmo muito bem, graças a Deus. Agora, no fundo, no fundo, a dúvida permanece, embora, as suas dívidas tenham sido todas sanadas.     

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POR EM 25/05/2008 ÀS 05:56 PM

Traumatismo craniano

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Fui despertado pelo som estridente de um animal que, à primeira vista, pareceu-me uma vaca. Mas, uma vaca em plena cidade?!

Remexi sobre a cama. Espreguicei, mergulhado na escuridão do quarto. Que horas seriam? Senti um aroma forte de tabaco. Fumaça de cigarro. Cigarro de palha, sem dúvida nenhuma. Nunca fumei, senão na meninice, em pescarias amadoras, para espantar pernilongos nas beiras dos córregos e dos grotões. Infância longínqua, porém viva, como aquela dor que me incomodava na nuca e na parte de trás da cabeça.

Apesar de levemente entorpecido, sentia-me feliz naquele dia. Estiquei o corpo. Estalei as juntas. Juntei um restinho de atenção que brotava na manhã e ouvi outro som peculiar, dissociado do ambiente urbanístico. Goteiras de água no chão. Chovia? Ora, eu morava num prédio populoso, quatro apartamentos por andar, três torres com dezessete andares cada uma, uma multidão de estranhos que se cruzavam pelos corredores e elevadores como se fossem invisíveis. É claro, esta sensação se dissipava durante as assembléias dos condôminos, quando a agressividade dos moradores ficava explícita nas palavras, nos rostos e nos gestos. Portanto, como eu poderia supor que ouvisse a pingadeira da água no terreiro, se eu morava nas alturas?! Não. Aquele tombo do dia anterior, a pancada na cabeça fizera-me muito mal.

Mergulhado no cenário duvidoso, fui invadido por outras recordações melancólicas. Um aroma suave do café entrou pelo quarto. Senti saudades da minha avó, mulher ignorante e sem estudo, do seu cafezinho coado no bule esmaltado sobre a trempe do fogão caipira. Sonhando acordado, quase podia enxergar o seu corpo senil e franzino pondo sobre a mesa os bolinhos, biscoitos e demais guloseimas que, pura impressão, só as avós o fazem. Ofício pra lá de nobre. Lembrança fundida na minha memória, como um prego na tábua. Pedaços de mim amontoados naquela manhã tão surreal.

Apesar da preguiça e da dor no pescoço (eu caíra, sim, fortemente, com a cabeça sobre o piso, entretido em peripécias futebolísticas pouco recomendáveis a minha idade), criei coragem e levantei. O breu do quarto, de tão denso, poder-se-ia tocá-lo. Tropecei em coisas. Sempre fora um desajeitado. Abri a janela, escotilha do inferno. Afinal, eu morava numa das capitais mais promissoras do mundo, uma moderna metrópole edificada no interior do Brasil e que dizimou alguns hectares de cerrado, se é que alguém ainda se surpreenda com dados tão devastadores. Devastadora mesmo foi a minha visão do lado de fora: carros buzinando, o trânsito parado lá embaixo, o corre-corre dos transeuntes nas calçadas, um formigueiro humano, o chamado caos urbano. O céu estava plúmbeo, misto de poluição e neblina. Afinal, resta pouca atmosfera limpa a se respirar neste mundo de teimosia e equívocos globalizados.

É claro, eu não enlouquecera. Não chovia. Tão somente pensamentos confusos relampejavam na minha mente. Cérebro, gelatina de neurônios chacoalhados com a minha queda. Nem sinal de vacas e outros animais, senão um sujeito que esbravejava com o outro numa fútil discussão de trânsito. Minhas sensações matinais definharam. Não, não chovia mesmo. Não havia café sobre a mesa. Minha avó morrera há anos. Enfim, era apenas o cotidiano que se abria para mim. Era a cidade e os homens. Era só a insana cidade e uma dor de cabeça interminável.

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POR EM 17/05/2008 ÀS 12:42 PM

No meio das pernas tinha uma coisinha

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No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
 
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra 

Quando estudante do ginásio uma professora de português pediu aos alunos que escolhessem um poema do Drummond para decorar e declamar em sala de aula. Julgando-se sabidos, mais da metade da meninada elegeu “No meio do caminho”, um pequeno, singelo e gostoso poema do Carlos Drummond de Andrade, o meu poeta preferido de todos os tempos. Confesso que escolhi o poema não por preguiça, mas por causa do tamanho. Nunca fui bom em decorebas. Memorizar textos e os recitar era (e ainda é) uma tarefa sofrível e extraordinária para mim. O nervosismo embota as sinapses dos neurônios, que nem são tantos assim (a maior parte deles, malditos preguiçosos e ineficientes, dorme em meus miolos).

O poeta Drummond era tímido e avesso à exposição sensacionalista e às entrevistas, principalmente as televisivas. Portanto, o seu legado fez-se única e exclusivamente devido à sensibilidade poética e à capacidade magistral de escancará-la em versos e estrofes imortais. O escritor mineiro tinha lá os seus pecadinhos (que ninguém é de ferro, nem mesmo ele, nascido em Itabira, Minas Gerais, região abundante em minério). Contudo, da vida pessoal do escritor à época quase nada se sabia. O homem não possuía um RP (Relações Públicas), ou um porta-voz eloqüente, ou um empresário a cuidar da sua carreira e de seus interesses, e nem namoradas popozudas-salientes a surrupiarem o seu dinheiro. Também, pudera... Quem conhece um poeta rico que levante o seu dedo!
 
O que sobra de dólares no patrimônio de algumas celebridades, falta-lhes de massa cinzenta, de sensatez, de discrição. Deu na TV, nas rádios, revistas, jornais e, sobretudo nos bares, botecos e demais espaços coletivos, o imbróglio sexual envolvendo um famoso jogador de futebol brasileiro e uma trinca de travestis num motel do Rio de Janeiro. Suponho que todos os leitores saibam de quem se trata...

Dengoso _ porém, livre da dengue fluminense _, o craque das quatro linhas (e das enfermarias também) cismou em dar uma esticadinha na farra que se iniciara numa boate da cidade maravilhosa. Saiu do local por volta de quatro horas da matina, abordou e contratou os favores de uma profissional do sexo (que no meu tempo de juventude transviada a gente chamava de puta mesmo), escolhida a esmo numa esquina qualquer do baixo meretrício. Dizem as más línguas que as línguas operaram ali mesmo dentro do carrão de luxo, a caminho de um motel mequetrefe no qual muitos amantes jamais arriscariam repousar os seus corpos calientes. O craque teria mau gosto ou seria um sovina?!

“_Enfim, sós”
teria dito a gatona matreira ao seu ilustre cliente, com uma voz rouca e ambivalente. “Que tal convocarmos mais duas reservas para a peleja” sugeriu o centroavante matador, com a bola cheia, ou melhor, com as bolas cheias de amor pra dar. Como negar o pedido de um ídolo brasileiro que garantiu uma Copa do Mundo pra gente?! Futebol é um esporte onde jogam onze atletas de cada lado. Portanto, que mal haveria em se fazer uma peladinha a quatro?! Treino é treino; jogo é jogo. Ora, tudo de bom... Assim foi feito, e a meretriz-surpresa convocou duas colegas de última hora. Àquela altura do campeonato, material de primeira não pintaria na área, mas... Fazer o quê?! Com excentricidade de gente famosa não se brinca. O cliente tem sempre razão. E mais: em caso de vitória convincente, o cachê seria farto, e pago em dólares!!

Experiente nas pelejas prostituídas, o acompanhante do camisa nove (que já se munia com um pacote inteiro de camisinhas) providenciou que o ambiente da suíte permanecesse à meia-luz. O rádio foi ligado e sintonizado no FM. Um hit funk ecoou, ajudando a compor o ambiente trash. O apito estrilou. Rolaram as bolas e os corpos também. Entretanto, lá estava ele: o tão temido elemento surpresa. Aquele sujeito que entra por trás, enfiado, como quem não quer nada, e quando menos se espera: pimba!! Uma jogada que quase sempre surpreende os zagueiros e resulta em gol, objeto maior do jogo denominado futebol, esporte-paixão dos brasileiros.

“_Estou impedido”
teria confessado o artilheiro, visivelmente surpreso com a jogada ensaiada pelo trio de farsantes. “_Mas a bandeirinha nem subiu ainda, meu craque...” insistiu a morena boa de ginga, capitã da bizarra equipe. Inconformado com a jogada desleal do trio, começou o empurra-empurra e o craque chutou o pau da bandeira, ameaçando tirar o time de campo. Arrancou da sua carteira italiana um chumaço de dólares legítimos e distribuiu em partes iguais para as ex-beldades que, àquela altura do campeonato, com o sol já ardendo lá fora, mais se pareciam com uma linha de três zagueiros truculentos do futebol de várzea do interior.

Corruptos, como qualquer brasileiro normal, os transtornados travestis chiaram uma barbaridade. Um deles, capitão daquele tosco e mal escalado time, ameaçou o craque, partindo para a extorsão, como se fora um conclave de pessoas com os rabos presos (o que, evidentemente, não era o caso). Faltou fair-play: seriam cinqüenta mil dólares nas mãos ou a boca no trombone (no sentido não literal, diga-se). Pior que carrinho por trás, aquilo já era pura apelação. O affair terminava ali mesmo. O telefone celular (invenção maldita que só pode ser obra do capeta) funcionou. A polícia veio e, com ela, os paparazzi, os repórteres e as câmeras de TV. O resto da história todo mundo já sabe. Afinal de contas, quem não se regozija com a desgraça alheia, ainda mais quando o entrevero envolve um famoso em apuros... A curiosidade é mórbida; e a comoção, falsa.

O célebre protagonista deste rachão mal sucedido declarou, publicamente, o arrependimento com toda a trama. Afinal, “são fraquezas, são coisas que acontecem com qualquer pessoa... todos estamos sujeitos a isso...” e coisa e tal. Enfim, muito dinheiro, meias verdades, falsos amigos. Assim vivem os ricaços atados a tanto dinheiro e mediocridade. “E agora, José, para onde?!” Viva, o Carlos Drummond de Andrade!

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POR EM 12/05/2008 ÀS 09:11 PM

Inquietações

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Júlia tem dez anos. Nesta semana, durante um precioso e raro colóquio entre pai e filha, a danada veio assim toda indignada, cheia de razão, com a testa franzida, sobrancelhas levantadas, a voz enfezada, tirando satisfação comigo e com o resto do mundo, invocada em saber o que é mesmo que estava acontecendo com os adultos, que estórias eram aquelas de bater, maltratar, judiar, arremessar menina pela janela do prédio, estuprar, esganar, enterrar criança no fundo do quintal, por que tanta maldade assim. Sem piedade, a menina disparou uma metralhadora giratória de inquirições constrangedoras.

Júlia não é boba. Ela percebe bem quanto os adultos estamos perdidos. Vivemos, tolamente, como zumbis modernos correndo desembestados que nem estouro de boiada, com muita pressa e pouca direção. Aliás, ignorantes que somos seguimos rumos que nem mesmo traçamos. Na prática, fazemos parte de uma engrenagem social escrota que nos impele a inúmeras sandices, como trabalhar tresloucadamente e muito além da conta, abarrotar as tulhas do governo com o pagamento de impostos, construir patrimônios tão sólidos que não resistem a um simples interrogatório infantil.

É desconcertante que seres minúsculos como a Júlia tenham que conviver com dramas e atribulações desta magnitude. Pior que tudo, não há como desconversar, como tapeá-la, como fugir do embate, ou colocar o abacaxi no colo de Deus (não sou tão covarde a este ponto...). Mesmo uma criança pode notar que os princípios morais e éticos que regem a sociedade atual estão deteriorados, principalmente em países com educação e cultura parcas, como é o caso do Brasil. A meninada de hoje, experimentada em tecnologia, não teme os bichos-papões, os ciganos raptores, os mendigos bandoleiros com seus sacos encardidos, malfeitores invisíveis e outras lorotas. Os reais inimigos da infância têm rosto, nome e sobrenome. Em muitos casos, eles dormem sob o mesmo teto de suas vítimas, campeiam por corredores escuros de casas e casebres, produzindo terror, feridas físicas e emocionais que cicatrizam nunca.

A maldade tem alcance cosmopolita, fala todas as línguas. Ainda esta semana, mais uma notícia escabrosa garantiu elevados índices de audiência em emissoras do mundo todo. Um austríaco de setenta e três anos foi preso sob a acusação de ter mantido reclusa a própria filha durante mais de vinte anos. Com ela, na marra, o desqualificado senhor teve seis filhos, todos mantidos em cárcere privado, no subsolo de uma residência acima de qualquer suspeita. Pelo que foi noticiado, o tarado senil manteve a esquisitice em segredo dos vizinhos e até da esposa. Que roteiro para um thriller esta tragédia não daria...

Pedi um tempo a Júlia. Não sabia o que dizer, de que forma responder seu questionamento torturante. Não poderia confessar que desacredito num futuro de paz e harmonia entre os homens. Aliás, nem sei que sobrevida resta ao planeta, depois de tanto lixo e devastação promovidos pela humanidade desde o advento da Revolução Industrial. Júlia é uma criança esperta, e é muito arriscado que leia em meus olhos toda a desesperança disfarçada. De resto, poderei garantir a ela e ao seu irmão, crias que ajudei a colocar neste mundão desvairado, um amor irrestrito. Esta mea culpa seria o suficiente para amainar seu sofrimento tão prematuro?!

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POR EM 05/05/2008 ÀS 12:17 PM

Palavra, ferramenta do diabo

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Segundo o dito popular, em boca fechada não entra mosquito. Em tempos de violência explícita carcomendo o cotidiano, há que se lembrar do poderio imensurável das palavras, para o bem e para o mal. Palavras atiradas a esmo podem proporcionar estragos duradouros e, muitas vezes, incorrigíveis. A força do verbo é tão relevante que muitos o utilizam, covardemente, disfarçados em pseudônimos ou anonimato. Jornais e internet, por exemplo, estão infestados com este tipo de coisa: gente que têm opinião, mas não têm rosto, nem nome. São almas pequenas que, à espreita, se regozijam em caluniar, ferir, maltratar, tornar a vida um pouco pior.

Portanto, carece ter cuidado com o que se diz, porque, o que se pensa, por enquanto, permanece privativo e seguro dentro de cada cabeça (benza, Deus!). Foi um amigo quem me contou a seguinte estória: 

_ Nossa!!, Você está grávida? comentou, acariciando o abdômen.

_ Não. Estou com câncer.

Diante de uma resposta tão inusitada partindo da boca de uma jovem mulher que ele jamais suporia doente, não houve como manter a pose. Empalideceu e mostrou um sorriso singular e chocho, muito próprio dos descuidados. Tentou consertar a gafe emitindo um comentário altruísta. Julgava-se ágil em improvisos.

_Você vai ficar bem. A medicina está muito avançada. Fazendo o tratamento direitinho, logo, logo, você vai estar curada e...

_O doutor me deu três meses de vida.

Sentindo-se cada vez mais desconfortável com a moça, a qual muitas vezes beijara sob juras de amor eterno, dentro do carro velho, pelas ruas insones da cidade, ele respirou fundo, perguntando ao próprio umbigo o que é que faria agora seu imbecil. Mesmo desiludida com a vida, percebendo que deixara o ex-namorado encabulado e sem ação, ela se apiedou dele e disse, finalmente:

_Me desculpe por falar desse jeito, mas... É que eu vou morrer rapidinho e isto tem incomodado demais, ainda que eu tenha morrido muitas vezes, você sabe, como aquela em que a gente se separou. Aliás, fiquei sabendo que você se casou. Como é o nome da vítima? perguntou, tentando ser engraçada.

_Luzia. Ela se chamava Luzia.

_Ah, é?!... Então vocês já se separaram?!

_Bem... Sim. Quer dizer... Mais ou menos. Ela morreu. De câncer.

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POR EM 26/04/2008 ÀS 02:48 PM

Notícias indigestas

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As más notícias dos telejornais de ontem à noite fomentaram em mim um sono agitado. Também pudera... Já viu notícia feliz aumentar a audiência da televisão?! Uma menina que foi, garante a polícia, estrangulada e arremessada pela janela de um prédio pelos próprios pais. O desmatamento ganancioso e incessante da floresta amazônica. A disparada dos preços dos alimentos no Brasil (óleo de soja, arroz, feijão, trigo, carne). O risco dos bio-combustíveis piorarem a escassez de alimentos no mundo. As invasões, ataques truculentos e vandalismo dos chamados “homens sem-terra”. Enfim, muitos ingredientes para um agitado pesadelo estavam todos na minha cama naquela noite...

Sentados na varanda da casa, os quatro entreolharam-se em silêncio. Sobre a mesa, uma jarra com água até a metade. Água amarelada, barrenta, que o pai roubara agorinha mesmo do reservatório do vizinho. Quase foi desmascarado e capturado pelos algozes. É certo que um flagrante resultaria na sua morte antes da hora. Arrastou-se na relva, esgueirando-se feito cobra pelo quintal mal zelado, repleto de pragas. O volume d’água seria sim suficiente para que todos ingerissem os comprimidos. De acordo com seus cálculos (ele era médico), as duas crianças deveriam tomar cinco comprimidos cada, de uma só vez. O casal, o dobro da dose. Em pouco tempo, todos sentiriam um sono incontrolável, seguido de vertigem, desmaio e uma parada respiratória imperceptível, altamente eficaz, fatal, sem dúvida nenhuma. Após o banquete farmacológico, a morte adviria em seis ou sete minutos, sem dor, sem sofrimento, sem desespero, sem testemunho ou remorso.

Escolheram, em comum acordo, efetuar o plano durante o dia, quando dispunham da luz natural, embora o céu estivesse tomado de uma fumaça densa e plúmbea. A atmosfera poluída, carregada de metais pesados, dava a falsa impressão que o dia estivesse nublado. Antes fosse mesmo um prenúncio de chuva. Poderiam banhar-se nela, lamberem as poças d’água no chão, como animais sedentos que estavam. O blecaute já durava quase três meses. Nada de energia elétrica. Nenhum tipo de luz artificial, nem ao menos fósforos ou velas de cera. Os estoques de álcool, querosene e outros combustíveis tinham expirado. Não havia mais nada inflamável que pudesse garantir luz na escuridão daqueles dias. Os shoppings, hipermercados, vendinhas, todo o comércio de gêneros alimentícios estava saqueado e revirado de cabeça para baixo. Alimentos e água eram negligenciados, surrupiados, furtados, ou tomados com brutalidade, ainda que fosse preciso matar.

A família dispunha de alguns alimentos enlatados escondidos no fundo do quintal. Todos eles fizeram parte do bando que arrombou a venda do Seu Gaspar. A ação dos famintos foi meteórica. Em poucos minutos, as prateleiras ficaram vazias. Tudo o que era comestível foi levado pela multidão faminta. Gaspar, um homem gentil que, até então, gozava de popularidade e da amizade dos moradores do bairro, foi esmagado pela avalanche humana porque teimou em abrir as portas do estabelecimento e entregar os produtos de livre e espontânea vontade. O povo desfilou seus pés sobre ele e sobre o cão de guarda que mal tinha força para latir, quanto mais para proteger seu dono e morder alguém.

Havia um lampejo de felicidade entre o quarteto. Resquícios de esperança brilhavam nos olhos embaçados. Os pequenos criam mesmo que se reencontrariam num céu sem fome, sem sede, sem medo. Arrasada, a mãe rogava perdão a Deus, numa prece silenciosa e convulsa. O que fariam naquela tarde seria o pior dos pecados. Sim, ela tinha noção disso, mas não tinha outro jeito. A cidade, o país, o planeta todo estava entregue à barbárie e ao caos. O pai, ateu de longa data, esboçou uma efêmera fé nos últimos dias. Mesmo sem perceber, passou a crer em deus, pois tinha muita raiva dele, dele ou daquilo que fora responsável pela criação da raça humana. Diante da catástrofe que finalmente se abatera sobre a humanidade, ele entregou os pontos e clamou por misericórdia. Não havia mais lei, nem ordem, nem solidariedade, nem confiança. Cada qual defendia os seus suprimentos da forma que podia, servindo-se de sedução, trapaças, ameaças ou violência. Daquele clã, restavam apenas os quatro: um casal com dois filhos. Em pé, abraçaram-se no centro da cozinha, como se fossem atletas de futebol prestes a entrarem em campo para um jogo decisivo. A mãe principiou uma derradeira reza e foi seguida pelos filhos. O homem de silhueta miserável mordeu os lábios até sangrarem. Chorou de ódio. Então, eles mearam os copos com a única água da qual dispunham. Dividiram os comprimidos e cada qual deglutiu a sua fração, todos juntos, de uma só vez, sem vacilar. Tudo transcorreu conforme o planejado. Sobrevieram o sono, a moleza, o desfalecimento, o final. No entanto, houve um lapso que acabou se tornando mais um equívoco, dentre tantos cometidos (se bem que, na altura dos acontecimentos, não fazia mais nenhuma diferença...). Esqueceram do cachorro, também morador da casa. Apesar do corpo e das mandíbulas enfraquecidas, o pestilento animal fartou-se de carne humana durante dois dias consecutivos, antes que os corpos deteriorassem. Daí por diante, o banquete foi ofício de larvas e micróbios.

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POR EM 21/04/2008 ÀS 09:47 PM

Armadilhas virtuais

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Internet tem cada coisa... Presta-se como fonte de pesquisa, ferramenta de trabalho, correio elegante para tímidos e encalhados, arma para crimes virtuais, dentre outras coisas. Um assustado amigo enviou-me um e-mail cujas orientações eram bastante claras e dramáticas: se eu não repassasse aquela mensagem para outras vinte pessoas, no prazo máximo de quarenta e oito horas, uma desgraça abater-se-ia sobre a minha carcaça magra. Câncer, falência, morte em família, impotência sexual, o fim de um namoro, a perda do emprego, um pênalti desperdiçado aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo... Senti-me tão ameaçado que fui dormir.

Outro companheiro internauta mandou para mim um vídeo tosco no qual uma lasciva morena fuma um charuto utilizando a sua vagina (a dela), um exercício de pompoarismo que me deixou mais impressionado que excitado. Sem dúvida, uma estripulia sexual das mais perigosas. O risco de queimaduras em taras pirotécnicas é iminente. Aliás, as fantasias sexuais podem ser perigosas. Certa vez conheci um sujeito que quase ficou cego num cabaré ao ser atingido por uma bola de sinuca arremessada por uma streeper também adepta do estranho halterofilismo genital. 

Um espírito de porco, criatura cética, encaminhou-me uma mensagem eletrônica, na qual garantia: o homem jamais pisou na lua. Tudo invenção da NASA, dos “americanos imperialistas”, da televisão. Aquelas cenas dos astronautas saltitando com leveza sobre o solo lunar nada mais seriam que truques de filmagem, atores incógnitos flutuando em estúdios da Universal ou coisa que o valha. Pura enganação. Efeitos especiais. Ora, o sujeito deve até ter razão. Pois, nalgumas capitais brasileiras, em pleno século vinte e um, meninos e meninas garimpam nos lixões de aterros sanitários à caça de restos de comida, latas de alumínio, garrafas plásticas e outras tranqueiras recicláveis que valham algum dinheiro. Ali disputam a sorte com urubus, micróbios e demais seres microscópicos, como a indiferença humana. Não. O homem não deve ter pisado sobre a lua. Se assim fosse, aqueles pequenos miseráveis deveriam estar sentados nos bancos da escola, banhos tomados, unhas aparadas, estômagos saciados. A lua pode esperar.

Tem muita gente desconfiada nesse mundo usando a internet, mesmo não sendo “mineirinhos”. Através da web, eles apregoam que a AIDS, doença ainda incurável na atualidade, seria uma farsa. Quem sabe, haveria ali a participação maquiavélica dos mandatários da igreja para fazer valer, nem que fosse à marra, a monogamia, o cumprimento fiel do sétimo mandamento, os seus dogmas mais rigorosos. A igreja já fez tantas barbaridades... Uma a mais, uma a menos...  

Outros têm certeza que o vírus da imunodeficiência adquirida foi criado e replicado em laboratório para, mais tarde, ser disseminado, de forma proposital e criminosa, por todo o mundo. Um golpe baixo para disseminar o pânico na população, vender remédios e camisinhas, enriquecer a indústria farmacêutica... Talvez, estes incrédulos fanfarrões internautas tenham razão em suas elucubrações aberrantes. Afinal de contas, nas últimas semanas, milhares de brasileiros padecem de dengue em todos os recantos do Brasil, especialmente, na cidade do Rio de Janeiro (sempre o Rio, saco de pancadas verde-amarelo). São hospitais, clínicas, postos de saúde abarrotados de gente doente que não tem onde sentar, quem dirá onde cair morta. Faltam macas. Faltam medicamentos. Falta soro na veia. Faltam médicos. Faltam saneamento básico e educação. Faltam investimentos dos governos em saúde e infra-estrutura. Falta conter a proliferação de bairros clandestinos, favelas desprovidas de água encanada e rede de esgoto. Falta que não se roube o erário. Falta que nos indignemos com os desmandos e a corrupção. Como deter o avanço da AIDS, se nem ao menos conseguimos controlar a incidência da fajuta dengue no país? É preciso combater o mosquito, a falta de saneamento básico e a ignorância de um povo. Banco de escola é vacina.  

Então, o Brasil está, a cada dia, se rendendo à praticidade e modernidade que a informática proporciona. Os lares, as escolas, as empresas, as repartições públicas, a maioria deles está munida de computadores. Navegar pelo mundo virtual pode ser útil e divertido, mesmo aos intolerantes. Mais uma vez, na história da humanidade, religiosos conservadores querem exorcizar os demônios da ciência. Hoje, eles condenam as pesquisas mundiais em favor das células-tronco, avanços que poderão trazer alento e cura para diversas doenças degenerativas que atingem o homem. Eles bradam, esperneiam e, sobretudo, rezam para que cessem as pesquisas ou que elas resultem fracassadas. Fazem discursos inflamados que apenas cabem nas bocas daqueles que não têm um parente definhando por causa de uma moléstia grave.

Por fim, os usuários da internet devem ter lá as suas precauções, a fim de não caírem nas armadilhas virtuais, que podem resultar em encrencas bastante realistas, como ter o dinheiro do banco surrupiado por hackers. Carece o uso de eficientes programas anti-vírus que identifiquem e detenham as pragas invisíveis que assolam a rede mundial. Infelizmente, ainda não existem programas para filtrarem mentiras e tolices. Apertemos os cintos, ativemos os nossos anti-vírus, os anti-spam, os anti-trojans e, sempre que possível, os neurônios. Ah, ler um bom livro, de vez em quando, também se recomenda. Nada substitui o aroma da tinta no papel.

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