revista bula
POR EM 08/09/2008 ÀS 06:46 PM

De médico e louco...

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Amo a humanidade. Odeio a humanidade. Sob a tempestade de raios e conflitos, vou me arrastando nesta vida cada vez mais descrente na raça humana, no caráter das pessoas, em mim mesmo. Sou um sujeito confiável?

Morbidamente, eu suspeito dos sorrisos, afagos, e ombros oferecidos para um consolo, um choro ou desabafo. Jamais diga a verdade como se fosse natural e lógico. A vítima, mais tarde, poderá ser você. Portanto, pare, pense, cale e ouça. Senão, um trem de mágoa e ressentimento o atropela.

Recentemente, os médicos de Goiânia disputaram o comando do CRM (Conselho Regional de Medicina, seção de Goiás). Como jamais visto na recente história do Estado, a contenda entre os discípulos de Hipócrates foi homérica e deseducada, expondo à sociedade uma chaga há tempos disfarçada: a classe médica é desunida, está doente. Não dá pra compreender claramente por que o embate pelo controle da entidade inflamou e virou guerra. Na sua essência, o CRM zela pela prática correta e ética da medicina. É um órgão fiscalizador em que os seus conselheiros, na maioria das vezes, acolhem denúncias de má prática da medicina, julgam os seus pares, punem ou absolvem. Quem abdicaria de seu tempo livre para oficio tão espinhoso como julgar colegas, condená-los, e adubar inimizades? Altruísmo, idealismo ou interesses inconfessáveis? A corrida pelo poder do Conselho foi tão contundente e nociva que, até o momento, está indefinido se a eleição valeu ou não, uma vez que a chapa perdedora denunciou fraude no pleito. Supostamente, urnas de votação teriam sido adulteradas. Seriam os doutores capazes de tamanha falcatrua?! Recapitulemos: se há padres pedófilos, pais torturadores e filhos matricidas, por que não um médico bandido? Coisas de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, criaturas de Robert Stevenson, escritor escocês no clássico “O médico e o monstro”. Não me cabe julgar. A pendenga rola na justiça e terá um final em breve intervalo de tempo, não sem deixar cicatrizes e seqüelas entre os homens de branco.

Entretanto, o que me moveu a escrever esta crônica foi o comportamento de alguns dos médicos candidatos ao CRM, com os quais me encontrei esta semana, dentro de uma cooperativa médica. Todos eles, antes cordiais e camaradas durante o pleito, trataram-me com uma frieza de fazer inveja ao mais eficiente carrasco. Os afagos calorosos e tapinhas nas costas foram substituídos por acenos de mão recatados, à distância. Os sorrisos largos e artificiais da campanha foram trocados por risinhos amarelos burocráticos. Quando cheguei à Associação Médica para votar (sim, sou médico, leitores) senti-me como se estivesse em Hollywood, tamanha a produção local: gente bonita, colorida, carros alegóricos, cantoria, foguetório, confete e serpentina... Pela primeira vez na vida, tive a sensação prazerosa de ser tratado como um popstar. Eu sabia que aquela bajulação seria fugaz e artificial, logo, procurei me desvencilhar dos cabos eleitorais o mais rápido que pude. Manifestações interesseiras não me interessavam.

Voltando a minha experiência constrangedora: um dos médicos da cooperativa chamou-me no canto da sala e segredou: “...soubemos que tu apoiaste o outro lado, rapaz... estão todos magoados contigo...”. Gozado. Não revelei o meu voto a ninguém. Não manifestei apoio a nenhuma das chapas concorrentes. Não sou besta. Sei que os homens são criaturas ciumentas, rancorosas, ingratas e não confiáveis. A declaração do colega me deixou aziado. Perdi o dia. Perdi a paciência. Enfim, senti-me muito mal. Estou me penitenciando até agora por ter correspondido com cortesia aos pedidos veementes de voto durante a campanha, em especial, naquela manhã carnavalesca na Associação Médica. Devia ter ficado em casa, acordado mais tarde, abdicado do voto. Pagar a multa fuleira prevista pelo estatuto do CRM ser-me-ia menos aborrecedor que ter passado pela vingança (?!) silenciosa daqueles sujeitos.

Esta tem sido uma semana deprimente aos que trabalham na área da Saúde. Há poucos dias, o jornal mais lido da cidade publicou em suas páginas policiais o indiciamento de três médicos por homicídio culposo de uma jovem vitimada por complicações na gravidez. O diário expôs os nomes dos doutores envolvidos, embora ainda não se saiba se tiveram culpa ou não pela tragédia. O CRM estuda, esmiúça o caso, como precisa ser, e ainda não concluiu a sindicância. A justiça, tão criticada pela sua morosidade, não julgou os profissionais. Contudo, independente disto, o jornal se reservou no direito de identificar os médicos, uma atitude vil, velhaca e antiética. Se os doutores forem inocentados nos fóruns devidos, será que o jornal os redimirá?! Até lá, que sofram na pele os miseráveis... Ora, bolas: quem é que cuida dos jornalistas irresponsáveis e levianos?

As eleições municipais se aproximam. Candidatos a vereador invadem nosso cotidiano com seus semblantes encerados e muitas promessas inexeqüíveis. Há que se ter todo cuidado na escolha do candidato, avaliarmos o seu passado, buscarmos compreender, ainda que às custas da psicologia e da macumba, o seu real interesse ao pleitear o cargo, para que prevaleça a verdade. Porque a mentira mora na alma da gente, e dela se alimenta, como um cupim. Portanto, leitores eleitores, muito cuidado com as manifestações extemporâneas de carinho e apreço, quando elas partem de quem menos se espera. Os crápulas travestem-se nelas, como demônios. E para exorcizá-los, só quatro anos mais tarde...


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POR EM 26/08/2008 ÀS 08:32 AM

A culpa é do Galvão?

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Raciocinar com ingenuidade, enganar-se. Eis um dos piores equívocos. Falar, comentar, caluniar, opinar a respeito do que não conhece, ou conhece muito pouco, ou imagina que conhece. Não somos assim, sabedores de um quase tudo, nós, os donos da razão?

Os Jogos Olímpicos são um evento grandioso e, desta vez, têm-nos aplicado algumas lições. As Olimpíadas representam a glória para qualquer atleta de competição do planeta. Sonho de muitos. Pesadelo e frustração de alguns. Meio fora-de-forma, esparramado no sofá da sala, entregue à preguiça e ao universo bestializante da televisão, ouvi o locutor vociferar que perdemos outra disputa. Fracassamos. Amarelamos na decisão. Por que os atletas brasileiros arrebataram minguadas medalhas em Pequim?

Agarrado às aparências, eu lamentei o fato de o país ter apresentado resultados tão ruins (?!) nos jogos da China. Porque, nas palavras alvissareiras de muitos analistas esportivos, parece que somos notáveis em quase todas as categorias da disputa. Como dizem os locutores boçais: “...é o velho talento brasileiro de volta, o swing, a raça verde-amarela...”, e outras ladainhas. Contudo, na hora agá, no frigir dos ovos, vem a decepção, a derrota, o escárnio, a gozação (aliás, somos bons neste último quesito; menosprezar o esforço de outrem é um dos afazeres prediletos do ser humano).

Tolo, cheguei a pensar que as medalhas não choveram em nossos peitos e hortas por culpa do Galvão. Será que o sujeito dá mesmo azar como dizem? Exagerados criaram até um blog na internet para cultuar o ódio e desprezo a este profissional. Não. Apesar de repudiar a transparente prepotência do Galvão, é claro que ele não tem culpa nenhuma, a não ser deixar irritados os seus ouvintes com comentários muitas vezes descabidos a antagônicos.

É costumeiro que persigamos os culpados dos nossos fracassos, correndo caninamente atrás dos próprios rabos. No universo do esporte, diz-se que o Brasil é o país do futebol. Não há um só rincão no território nacional onde não se encontre um campinho de grama, quadra de cimento ou um terrão (ah... as canchas de terra são maravilhosas...). A devoção ao futebol começa cedo, nas escolas e campos de várzea onde a molecada sua a camisa e fomenta a precoce paixão pela bola. A questão, portanto, é cultural. Como esperar que os atletas brasileiros atinjam resultados de ponta nas outras modalidades esportivas, num país onde o futebol as sobrepuja de forma tão avassaladora? Quantos pais optam por inscrever os seus filhos diletos em esportes impopulares como atletismo, pólo aquático ou handebol? Não almejamos sempre o melhor para os nossos filhos, que se dêem bem na vida, que sejam sempre vitoriosos e que não sofram como nós sofremos?! Colocá-los para dar cambalhotas e piruetas sobre um tablado, na pequenez dos nossos mundinhos, não seria uma prova de desamor? Incultos e egoístas é exatamente desta forma que a maioria de nós pensa e age ao decidir qual esporte as crianças vão praticar.

Apesar de escolhermos mal os nossos representantes políticos (reparem como a oferta de candidatos nestas eleições municipais está sofrível...), o Brasil segue claudicando rumo ao futuro. Devagarzinho, ainda que patinando na lama da corrupção e da inépcia, estamos melhorando. O senso de cidadania, aos poucos, vai mudando os nossos hábitos de vida e se arraigando no subconsciente da sociedade. Na medida em que lemos mais e nos educamos, finalmente compreendemos, por exemplo, que futebol não é toda a comida, mas, apenas mais um item do cardápio. Faltam praças e centros esportivos populares, onde os filhos de famílias pobres possam se dedicar a toda gama de atividades físicas. É primordial que os municípios propiciem o acesso das crianças ao esporte. Fala-se muito em aparelhar o Estado para o combate ao crime e à violência urbana. Essencialmente, retirar meninos e meninas da ociosidade das ruas e do abandono tem muito mais eficácia do que comprar pistolas e construir presídios. Haja bala e cadeia pra todo mundo. É, amigo... o ser humano é mau... Não estou escrevendo nenhuma novidade, reinventando a roda; há vários projetos não-governamentais bem sucedidos, gerados no cerne de comunidades pobres Brasil afora. Afinal, alguém tem que fazer o serviço limpo, porque o sujo já tem muita gente do governo fazendo...   

Seria conveniente que a mídia esportiva maneirasse na mistificação de futebolistas. Esta estória de melhores do mundo, gênios da bola, talento nato, emburrece e já deu o que tinha que dar. Ninguém mais acredita. Aliás, nossos adversários não só desacreditam, como debocham de nossa presunção. Comendo pelas beiradas, esportes menos reconhecidos como o vôlei, a natação e o judô vão conquistando espaço.

A ditadura da bola caiu. Haverá um tempo em que o esporte e a cultura farão parte das nossas vidas, não como arroz e feijão, mas, melhor que isso, feito oxigênio, elemento vital à educação e cidadania. É preciso descer do podium ilusório das nossas frustrações e nadar, remar, pedalar e nos divertir. Excetuando os muito bem remunerados jogadores da seleção olímpica de futebol (e seus soberbos comandantes), parabéns a todos os atletas brasileiros que competiram na China em 2008. Não é que o amor vence mesmo no final?!

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POR EM 19/08/2008 ÀS 10:39 AM

A ridícula morte

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Tem uma ladeira comprida perto do local onde eu moro. É freqüente que skatistas por ela deslizem, sempre à noite, sob a iluminação potente dos postes. Os aventureiros equilibram-se sobre as quatro rodinhas, serpenteando, ziguezagueando, radicalizando desprovidos de qualquer paramento de segurança pessoal. Confiantes, eles não usam capacetes, joelheiras e outros acessórios para amortecer os tombos inevitáveis. Estes skatistas são jovens. E jovens são seres destemidos, corajosos, beiram a insolência. É possível que isto seja visto como qualidade... A juventude adora teimar com os padrões e brincar com a morte. O derrame de adrenalina nas veias deixa a vida muito mais eletrizante, embora a aproxime do caos.

Pois é. Já cruzei algumas vezes por estes paladinos da taquicardia. Certa noite, como uma turma de adolescentes fizesse manobras arriscadas à minha frente, ultrapassei-os com cuidado e estacionei o carro logo abaixo. Desci. Aguardei a chegada do grupo para uma conversa, chamar-lhes a atenção, recomendar mais cuidado. Estou ficando velho. Passaram por mim, sem hesitar. Não atenderam aos meus acenos. Aliás, esbravejaram palavras que não entendi. Sorte a minha. Um deles sorriu para mim (ou sorriu de mim, sei lá...). Entrei no meu carro, resignado, acionei o motor e acabei de chegar em casa.

A morte, fenômeno natural, porém, abominável para a maioria dos seres humanos, às vezes, ocorre de maneira tão surpreendente que nos deixa a todos desentendidos, inconsoláveis, implorando com ingenuidade que o tempo retroceda. Simplesmente, não dá pra acreditar. Não é assim mesmo que falamos? Não é assim que nos mostramos indignados na busca de respostas um pouco mais sensatas e que nos dêem conforto imediato? Senão, vejamos.
 
O primo Lucas morreu de raio na fazenda, enquanto tratava dos porcos num domingo chuvoso. O acidente foi uma porcaria. Um político famoso, que prefiro não nomear a fim de evitar processo e indenização dos familiares, apagou, sucumbiu, morreu fazendo sexo com a secretária na mesa do gabinete. Seria este um mandato popular?! Aline, uma menina de doze anos, embora não devesse, trabalhava como babá numa casa de família. O bebê chorava. Quarenta graus de febre. Telefonou para a patroa. O que fazer? A mãe orientou que lhe desse dipirona. A menina, que deveria estar brincando ou aprendendo coisas na escola, colocou na boquinha da criança de nove meses um comprimido da droga. O bebê, tão acostumado aos líquidos e papinhas, morreu asfixiado com o comprimido preso na laringe. Simone era corajosa e vivia insistindo com o pai para se atirar no bungee-jump, aventura na qual a pessoa pula das alturas presa a um enorme elástico. Com a insistência, o pai acabou cedendo. Foram ambos para o alto de uma ponte, de onde ela daria o seu salto inaugural cheio de radicalismo. A platéia estava excitava. Havia até um cinegrafista amador para registrar a façanha. Arquivos familiares, sabe como é. Todos vibraram quando a moça mergulhou no espaço azul. Pássaro sem asas. Coisa mais linda. O elástico, entretanto, material inerte, inanimado e sem sentimento, rompeu. O vídeo foi desligado, e só se ouviram gritos apavorantes. Maria lavava as roupas da família no tanque. Lavava, varria o terreiro, fazia o almoço, labutava tudo ao mesmo tempo, naquelas correrias incessantes das donas de casa. Largou a bateção de roupa e entrou na cozinha do barraco para checar a comida no fogo. O filho de dois anos, caçula de uma ninhada de sete rebentos, curioso, desavisado dos riscos desta vida, desequilibrou-se e caiu dentro de um balde d’água, cabeça para baixo. Não custou muito, estava morto. A roupa ficou por se lavar. O feijão queimou. A mãe até hoje peleja para não endoidar. Afonsinho, o sujeito mais engraçado da turma, engasgou com um pedaço de frango no refeitório da faculdade. No início, muitos pensaram que era mais uma das brincadeiras do moço. O povo não sabia como proceder, como desobstruir o Afonsinho, o piadista, o cara mais hilário e popular de todo o campus universitário. O funeral não teve graça nenhuma. O doutor Benitez era um médico com uma cara assim meio ajaponezada, como dizia o povo (na verdade, sua origem era boliviana), e praticava uma medicina humanista que é bastante rara nos dias de hoje, por uma série de motivos sobre os quais um dia ainda quero discorrer. Pois, então. O bom doutor tinha umas terrinhas no interior de Goiás, e levou ferroada de marimbondo-cavalo no beiço, advindo um choque anafilático que o liquidou em poucos minutos. Nem deu tempo de chegar à capital para os recursos de salvamento. Agora, quer coisa mais dramática que morrer de parto? É. Ninguém espera, mas acontece. Foi assim com a Denise, arrebatada nos trâmites misteriosos de se dar a luz. O recém-nascido chorou fraquinho após o nascimento, mas vingou. A família da moça chora até hoje com raiva de Deus, do médico e do desconhecido. Haja consolo pra essa gente.

Nesta semana, quando chegava em casa, deparei com a rua interditada. Viaturas da polícia militar e uma ambulância do resgate. Multidão nervosa. Gente chorando. Alguns querendo briga. No asfalto morno da noitinha, um corpo jazia debaixo de um saco preto. Pedaços de um skate esparramados na via. Um tênis fora do pé. Pessoas fora de controle. Enfim, muito, muito sofrimento por causa do atropelamento de um rapaz por uma camionete importada bonita à beça. Estaria o motorista bêbado? Era a dúvida que dominava as conversas. Eu, lá e aqui, matutando sobre as artimanhas dessa vida, tenho outros questionamentos ainda mais significativos, de se tirar o sono e escassear a fé. Quisera eu cresse na alma e outros fenômenos imateriais. Acorrentado à razão, no calabouço das horas não dormidas, desejo que todos _ cada qual na sua hora (?!) _ tenham uma boa morte.

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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:32 PM

Trouxa é o senhor!

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“Já pensou? Se acontecer um tumulto por aqui, do jeito que está cheio, vai morrer gente pisoteada”, comentei, atrelado ao meu tradicional pessimismo, com um sujeito na minha frente. Falei no seu pé-de-ouvido, quase um sussurro, confissões de um medroso no meio da multidão, um covarde a poucos metros da entrada do estádio Serra Dourada. “Vamos pensar positivamente...”, repreendeu o sujeito, com cara ruim, claramente irritado, aniquilando no nascedouro o colóquio, incomodado, talvez cismando que eu _ no fundo, no fundo _ o estivesse assediando, tirando proveito do empurra-empurra, do corpo-a-corpo, do contato sudoreico de nossas peles masculinas, para entabular um papo, digamos assim, gay. Não, estranho. Eu não sou gay. Precisava dividir com alguém o meu temor. É que eu estava muito tenso, preocupado com a multidão, um mar de gente pra lá de exaltada, um formigueiro de homens e mulheres, expectadores de um esporte feiticeiro chamado futebol.

Eu me sentia um otário, um cidadão menor e inculto, porque me sujeitava àquela corrida deseducada para adentrar o estádio, onde digladiariam Goiás e Flamengo. Que aquela estória que torcer pro Flamengo fosse uma espécie de religião parecia mesmo verdade. De que outra forma explicar a presença de milhares de torcedores rubro-negros _ cerca de vinte mil deles _ em pleno território inimigo, a maioria uniformizada com o tradicional “manto sagrado”?

Foi a terceira vez que passei sufoco no estádio por causa do Flamengo (com direito a banho de mijo, na primeira delas). Brasileiro de memória curta, eu fui seduzido pela mídia esportiva.  Não me contive e vesti, sim, o uniforme verde e branco do meu time preferido, e fui assistir à peleja com empolgação de menino, como se o futebol brasileiro fosse organizado, como se a minha vida dependesse dos números finais daquele confronto, como se aquele esporte em que vinte e dois homens corriam atrás de uma bola fosse mais importante que um prato de comida ou uma transa sensual _ valendo-me do verso do compositor Belchior. O raciocínio de um fanático é distorcido: ora, se tem gente no mundo que se apraz com rinha de galo, vale-tudo, tourada e caça à raposa, por que não posso gostar de futebol?!

Combinamos assim, enquanto eu garimpava um espaço para estacionar o carro, meu filho mais velho seguiria na frente para garantir os assentos. Coisa mais tola: um homem sai de casa, enfrenta trânsito congestionado, compra o ingresso como se disputasse comida num campo de refugiados, e, se vacilar, assiste ao jogo em pé, durante os noventa minutos da peleja. Não há sensatez nisto...

Apavorado com a avalanche de torcedores, confesso que quase entrei em pânico. Arrependi, primeiramente, de ter enviado o próprio rebento para o front da batalha. Receei que ele se ferisse, que fosse pisoteado caso um estouro ocorresse, bombas de fabricação caseira, brigas de gangues, arremesso de entulhos, uma tragédia, enfim (eu, de novo, sofrendo com criatividade de um pessimista). Na hora do aperto, já que não sei rezar, eu só penso em coisa ruim.

Uma vez sentado, mirei o estádio com a sua lotação máxima. Centenas de pessoas buscavam espaço para se acomodarem. Muitos, muitos deles assistiram, em pé, ao “espetáculo”. Espetacular mesmo era se sujeitarem a tamanho desrespeito. Pensei: “Sorte a minha, que já tenho um banco só pra mim...”. Eu travava um debate interior silencioso e egoísta que irritou o meu querido acompanhante. “Não, meu filho, não quero amendoim, e não quero balas e nem picolé... Pra falar a verdade, nem sei o que estamos fazendo aqui?”, eu me perguntava, indignado. “Ê ô ô vida de gado / povo marcado ê / povo feliz...” lembrei da canção de Zé Ramalho, que bem refletia o cenário. Eu soube, no dia seguinte: dois mil penetras entraram no estádio valendo-se das famigeradas carteiradas, artifício imoral para entrar sem pagar ingresso. “Cambada de ignorantes é o que somos...”, cogitei. Eu podia ter ficado em casa, e lido um livro, ou escrito um poema, ou rascunhado uma crônica, e tocado violão, e rolado na cama com a mulher. Não. Não o fiz. Ali estávamos engrossando uma massa de fanáticos por futebol, seguidores de um esporte que atrai pessoas de todas as raças, crenças, descrenças e classes sociais: trabalhadores assalariados, intelectuais, desempregados, podres-de-rico, bandidos em noite de trégua, corruptos, corruptores, todo o povo, enfim. Gregos e goianos vibrando, cantando músicas sem criatividade, palavras chulas, ofensas ao trio de arbitragem (cambada de safados é o que são!), levitando num transe deveras surreal. A fumaça verde que provinha da torcida organizada, direto para nossas narinas, seria canabis sativa?!

Em 2014 o Brasil sediará a Copa do Mundo de Futebol. Goiânia está pleiteando uma vaga como cidade sede dos jogos. Se formos escolhidos, preparem-se para o futuro. A capital jamais será a mesma. Uma avalanche de investimentos em infra-estrutura vai transformar a cidade. Dinheiro jorrando por todos os lados. Progresso. Um pouco mais de corrupção também. Novos hotéis, restaurantes, hospitais e viadutos. Melhorias no transporte coletivo, segurança pública, assistência médica. Um estádio Serra Dourada reformado, moderno, com assentos numerados, reservados, banheiros limpos e acesso facilitado aos visitantes. Ou seja, há muito trabalho até 2014. Missão difícil será educar milhões de brasileiros em apenas seis anos... Portanto, a mudança de atitude dos gestores de futebol brasileiro deve ser imediata. Ora, e se, de repente, a gente decidisse freqüentar somente os cinemas e os teatros? Como é que os senhores iriam se virar sem os nossos surtos de frivolidade?!

Aos quarenta e seis minutos do segundo tempo, veio o gol, um achado, um presente inesperado. O meu time venceu. Então, me convenci: futebol não é religião, é negócio. Portanto, espera-se dos seus gestores um tratamento mais respeitoso a nós, os trouxas que ainda vão aos estádios.    

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POR EM 05/08/2008 ÀS 11:26 AM

O mar, amar, a mala

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Meias, cuecas, camisas, calças, bermudas, lenços... (lenços?! quem os colocou aqui? eu jamais uso lenços!). Enquanto guardava na mala os meus pertences, fiquei matutando a respeito do horrendo crime a ocupar os noticiários nacionais e internacionais: o assassinato brutal, seguido de esquartejamento, de uma adolescente inglesa, em Goiânia, por um brasileiro com nome de estrangeiro (coisa mais besta...). Atraída pelo namorado (é verdade... antes só que mal acompanhada...), um psicopata brazuca que vadiava por Londres, a moçoila veio conhecer o Brasil, conferir se esta terra era mesmo “warm and beautiful”, além de habitada por um povo acolhedor, solidário e temente a Deus acima de tudo. Viciado, fantoche no submundo das drogas, o canalha confesso trucidou a inglesinha, dissecou o seu corpo com ofício de um cirurgião dantesco. Depois da mórbida dissecação, o crápula escondeu parte do corpo da vítima dentro de uma mala, ocultando os pedaços menores em sacos plásticos para lixo. O jovem assassino, ele sim, verdadeiro lixo humano, personagem assíduo das sarjetas foi rapidamente identificado e preso pela polícia goiana (viva a polícia do bem!). Hoje, enquanto seu sorriso endiabrado circula em noticiários de todo o planeta, a polícia procura o restante do corpo da moça (peças de boneca?). O besta-fera traz em seu corpo repugnante, dentre tantas tatuagens, aquela do Chuck, o boneco assassino do cinema trash... Culto à maldade ou simples ironia?! Apenas o tronco da britânica, também marcado com tatuagem, foi identificado. Cabeça, braços e pernas foram atirados pelo verme covarde em locais diferentes da cidade, com a ajuda de um comparsa ainda desconhecido. Montar quebra-cabeças insalubres: eis um dos papéis da polícia.
 
O hábito que alguns temos de empurrar a sujeira debaixo do tapete pode tomar proporções inimagináveis. Mentir, mentir, mentir... Condição humana, uma necessidade quase fisiológica, como amar. Na História da Maldade e nas crônicas policiais, vários criminosos já fizeram uso de malas ou sacolas, não para viajar, mas para tentar esconder as suas vítimas mutiladas. O Museu do Crime da Academia de Polícia Civil de São Paulo reúne documentos e réplicas dos instrumentais empregados nos crimes que mais abalaram a sociedade brasileira nos últimos anos. Um dos mais famosos deles, e que alimenta nossa curiosidade mórbida, aconteceu em outubro de 1928. Giuseppe Pistone, imigrante italiano, foi preso pela polícia paulista acusado de ter matado, esquartejado e ocultado o corpo da própria esposa, a também italiana Maria Fea, de 21 anos. O criminoso tentou despachar a mala macabra pelo Porto de Santos, com destino à França, para endereço fictício. O mau cheiro que exalava da bagagem chamou a atenção dos tripulantes, que acionaram a polícia. Junto com o corpo putrefato da moça, foi encontrado um feto de seis meses, provável aborto pós-mortem. Interrogado pelas autoridades da época, o monstro italiano justificou que matara a patroa por ciúmes. Amar, uma sede que não tem fim.
 
Da janela do hotel, eu enxergo o mar lambendo a areia, num vai-e-vem que diverte os adultos e as crianças, seres miúdos que brincam lá embaixo. O mar, o sol, a praia, as pessoas, o domingo... Tudo parece perfeito, exceto eu, preparando para a partida a própria mala, enquanto reflito sobre a crueldade humana. Organizo a roupa com esmero e cuidado inéditos, tudo devidamente dobrado e empilhado, caprichos de mulher eu diria. Distraído com tantos pensamentos ruins, incompatíveis com o visual praiano, vou organizando uma mala de viagens, como jamais fizera em toda a minha vida. Alguém bate na porta. Desperto do transe. É o mensageiro. Vim buscar a bagagem, senhor. Zip! Lacro a mala. Dou uma última espiada pela janela. O domingo tem cara de domingo. Apartamentos em frente ao mar são mesmo ótimos. É justo que me cobrem mais caro. Entrego a mala ao rapazinho. Ele me cumprimenta com simpatia exagerada. Não estou para conversas. Estabanado, ele joga a minha mala sobre o carrinho, de forma desastrada, provocando um estrondo, um baque irritante. Impaciente, repreendo o mancebo. Ele segue a minha frente, conduzindo a bagagem em seu carrinho. Fala, freneticamente, como se eu o ouvisse, como se eu me interessasse por seus assuntos bem humanos. Cabisbaixo, enxergo um filete líquido escoando pelo fundo da mala. O vazamento vai deixando um rastro vermelho no corredor do hotel. Pare bem aí, seu moço!! Meu Deus, sangue?! Não, eu não enlouquecera. Com a pancada, com o auxílio rude daquele homem, a compota de doce quebrou e vazou. Foi só isso. Ou nem isso. O mar. Amar. A mala. É tudo imaginação? A vida não me parece tão agradável como doce de caju.

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POR EM 29/07/2008 ÀS 07:57 PM

Um saco de pancadas

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A mente humana é uma engenhoca etérea capaz de executar façanhas incríveis, muitas delas conhecidas e explicadas pela ciência atual, e outras tantas a serem descobertas e compreendidas por nós mortais, os insaciáveis. Enquanto isto não acontece, vamo-nos apegando às crendices e teorias oníricas a fim de justificar o que parece injustificável. Não será por acaso que os templos e igrejas do planeta estão abarrotados de gente. Tradição? Medo? Ignorância? Lazer? Interesses políticos e materiais? Desesperança? Tédio? O desejo sincero de se fazer o bem? Parece que buscamos nas agremiações religiosas apaziguar um sentimento de vazio e desesperança agarrados a rituais coletivos que mais funcionam como cargas para bateria. Batem em nossos peitos pilhas recarregáveis? Com uma fé supostamente inabalável, vamos cavando os dias, como se fossem túneis para fugirmos de nós mesmos (ou seria para nos encontrarmos?). Aprisionados a momentos de fraqueza, seguimos cavoucando.  

O assunto é palpitante e quase sempre fomenta debates ardorosos. Há mesmo quem trucide e mate por convicções religiosas. São doidices só encontradas no veio da civilização. Esquisitices abundantes, matéria-prima para cientistas, estudiosos do comportamento humano. Inspiração para gurus e outros charlatães antenados. Nossa covarde apatia é campo fértil aos aproveitadores. Que malandro nunca sonhou em criar a sua própria seita?

Quem estuda as doenças psicossomáticas sabe, acredita que o pensamento e o humor possam interferir na carne, órgãos e tecidos do corpo humano, desde as unhas até o cérebro, berço de toda dor. O estresse emocional é um dos maiores vilões que se conhece em nossos dias, condição capaz de molestar um ser humano ao extremo, ao ponto de deixá-lo insano, fisicamente lesionado, e até matar. As preocupações excedidas, incontroláveis, judiam do corpo, podendo nele produzir morbidades de toda ordem, inclusive o câncer. Tristeza e infelicidade matam. O mal viver abrevia os dias. A má querência faz adoecer. A maledicência é um ímã que só atrai a desgraça.

Cada um de nós possui o seu órgão alvo, o escolhido para o açoite, o eleito para o abate, um insidioso e surrado saco de pancadas. O corpo responde ao estresse e ao sofrimento com mais dor, desta vez, física. Da nossa infelicidade persistente advêm a enxaqueca, a gastrite, a úlcera estomacal, as diarréias nervosas, as úlceras e bubões da pele, a calvície, as acnes, espinhas e rugas, a impotência sexual, a anorgasmia, a enurese noturna (urinar-se na cama), a dispnéia (falta de ar), a angina (dor no coração), infarto do miocárdio (entupimento de artérias coronárias e necrose do músculo cardíaco) e tumores os mais variados. Feito a ferrugem, vamos corroendo o próprio corpo, como se a ele não pertencêssemos. Exorcizarmos os equívocos, eis a tentativa para se viver melhor.

Tenho um amigo chamado Goiás. Em conversa rápida de corredor, eu contei a ele que vinha trabalhando em demasia, me esforçando além da conta, e que estava me sentido exaurido, estressado, sem energia. Enfim, fiquei reclamando da vida, já que ela de mim ela não reclamava.

Goiás, que não é sábio, mas que também não é bobo, riu de mim. Cômico, ele me alertou que caixões não possuem gavetas. Eu sei que o Goiás é proprietário de rancho num barranco do Rio Araguaia, recanto no qual se refugia de tempos em tempos. Goiás é um cinqüentão solteiro, mora de aluguel, cuida de seu pai septuagenário e demente, não dirige automóveis (porque tem medo) e só ganha o suficiente “pro fumo, pra pinga, e pras moças” (conforme ele mesmo diz, em tom de brincadeira; Goiás não fuma, não é um beberrão e nem promíscuo). Meu amigo trabalha, ganha seu dinheiro e gasta tudo, sem reservas, no seu ranchinho lá no vale do Araguaia. Ali pesca, limpa, frita e come os seus peixes, mata cobras invasoras, toma uma branquinha (sem o atrevimento de bafômetros), assiste aos espetáculos lunares, se preocupa com quase nada, e volta. Volta sempre pra capital, quando o dinheiro termina.

Goiás, meu singelo amigo, me responda: o que é felicidade, então?! 

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POR EM 22/07/2008 ÀS 10:39 AM

Bolero de Ravel na Praia do Jacaré

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Quando tomados de forte emoção ou embebedados (minhas sinceras escusas aos abstêmios), ficamos mais suscetíveis a dizer e fazer bobagens, além de desatar alguns nós da memória e revelar as nossas verdades interiores a respeito de terceiros. Estas subitâneas revelações, geralmente, surpreendem, ferem e magoam pessoas. São equívocos muitas vezes incorrigíveis. Máximo cuidado com as armadilhas das palavras.
  
Há alguns anos, um famoso futebolista brasileiro que tinha a alcunha de “Animal”, fez uma declaração irada a uma emissora de televisão, após uma partida de futebol, criticando duramente o árbitro da partida e o chamando de “paraíba”, como se o adjetivo fosse obsceno e depreciativo. O arrogante atacante imaginava agredir o sujeito que era nascido num estado do Nordeste que não me recordo agora. A declaração do craque foi uma canelada e fez mais estrago na sua imagem do que no árbitro. Ninguém aprovou a asneira. Felizmente, poucos se solidarizam com manifestações discriminatórias.
  
Aproveitando o vultoso cachê da Revista Bula (risos...), fiz a matula e, hoje, escrevo a minha crônica semanal, não de Goiânia, mas de João Pessoa, a capital da Paraíba. Ao contrário de milhares de goianos, não fui me esbaldar, nem alimentar os mosquitos-pólvora, nas praias do Rio Araguaia neste mês de julho. Elegi o nordeste brasileiro.

Estou surpreso com a beleza da cidade e seus arredores. Fiquei, especialmente, muito impressionado com a simpatia dos paraibanos, com a consciência ecológica da comunidade e, por que não dizer, das autoridades locais (em geral, os administradores públicos negligenciam cuidados e reparos ao meio ambiente). O zelo com a natureza é observado em vários pontos da cidade. A limpeza das ruas e praias surpreende. Uma lei municipal proíbe a construção de prédios acima de quatro andares, o que assegura menor impacto ao meio ambiente, além de propiciar que a forte brisa do mar avance sobre o continente e refresque a vida dos cerca de seiscentos e quarenta mil moradores da metrópole paraibana. Foi didático para mim ficar bem pertinho da África, ao visitar a Ponta do Seixas, o extremo mais oriental do Brasil. Esticando o pescoço, tentei, em vão, enxergar uma girafa ou um antílope na savana. Avistei um mar azul turquesa de beleza invulgar.

Entretanto, o que me impeliu a escrever esta crônica colegial (quase burocrática) tipo “minhas férias de julho” foi um inesquecível evento que presenciei na Praia do Jacaré, às margens do Rio Paraíba que ali desemboca. Naquele local, há vários anos, o músico Jurandy do Sax repete a interpretação do Bolero de Maurice Ravel, deslizando dentro de uma silenciosa canoa sobre as águas do rio, durante o por do sol que acontece por volta das cinco horas e vinte minutos da tarde (o mais precoce do país). A bela cena emociona. Em geral, Jurandy, o criador do ritual tupiniquim, conclui as últimas notas musicais em seu sax, ao mesmo tempo em que os derradeiros raios de sol penetram o horizonte. Bares lotados, olhares atentos, bocas caladas. Uma platéia silenciosa preenche a bucólica paisagem. Qualquer expectador, com o mínimo de sensibilidade, fica extasiado com o espetáculo, que mais parece uma oração. O solo de sax, envolto em misticismo, é bonito, inesquecível, absolutamente recomendável a todos, sem restrição de idade ou credo. Trata-se de um dos passeios mais marcantes da cidade, quase uma marca registrada, dado à originalidade.

Concluindo, caros leitores, quem ainda não conhecem a Paraíba, sugiro que o faça. Dentre óbvios motivos, quem visita João Pessoa fica pertinho do Pernambuco e do Rio Grande do Norte, a meio caminho deles. Dá pra conhecer três Estados nordestinos aproveitando o mesmo pacote turístico e economizando uma grana.

Portanto, craque Animal, abaixo o preconceito e viva a Paraíba!

Boas férias e, sempre que puderem, conheçam o Brasil. Somos interessantíssimos.

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POR EM 16/07/2008 ÀS 10:45 AM

Tomai, mas não bebei, todos vós!

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Não é piada de boteco, não. Vigora em todo o território nacional a chamada “Lei Seca”. Tolerância zero para a combinação bebidas alcoólicas e direção. A nova regra foi imposta pela força da caneta presidencial. Quem diria... Esse mundo dá mesmo as suas voltas... Logo ele, autoridade máxima recentemente achincalhada por parte da imprensa nacional e internacional, devido uma suposta predileção pelos destilados (e não se tratam dos bio-combustíveis, não). Tomador social de biritas, eu até me absterei das degustações, mas não, das discussões.
 
A hipocrisia é um defeito humano enervante. “Faça o que eu digo, e não faça o que eu faço”.A campanha de marketing governamental e a ação das polícias nos Estados acabaram declinando, substancialmente, os acidentes automobilísticos, as baixarias domésticas, a violência urbana, e as ocorrências médicas envolvendo bebuns mortos ou feridos. Os discípulos de Bacoestão apavorados. Quem se abstém do álcool está comemorando. Os moderados, que bebericam, mas não se embriagam, estão indignados com a lei, que é uma das mais rígidas do planeta, e nivela os bebedores comedidos com os beberrões irresponsáveis que se atrevem a pilotar.

Alguns prefeitos já proibiram que bares e restaurantes funcionem a partir de determinado horário da noite, para diminuir a criminalidade. E ela deve ter diminuído mesmo, afinal, com todo mundo preso em casa... No ritmo em que as coisas vão, eu temo que sejam implantadas no país outras leis e medidas esdrúxulas. É como cortar o pescoço do paciente para curar sua dor de cabeça. Um exagero. Fruto da impotência e do imediatismo, daqui a pouco decretam “toque de recolher” às dez horas da noite: após este horário, ninguém mais circularia pelas ruas das cidades, senão policiais, médicos, e indigentes (que não há mesmo lugar nesse mundo para colocar “essa gente”, não é verdade?!). Já que as autoridades não conseguem enquadrar os bêbados, que se puna toda a sociedade. Azar da maioria, ora bolas!

Outro dia detiveram um juiz de direito pilotando embriagado. Será que o ilustre magistrado continua preso? E aquele médico do Exército, que mesmo entupido de cachaça, conseguiu furar e fugir do cerco policial ao longo de vários quilômetros da rodovia? E o padre que foi flagrado no bafômetro após rezar a missa dominical? Como explicar ao intransigente policial que o vapor etílico tratava-se apenas de uma dose caprichada do sangue de Cristo, ingerida durante a eucaristia? E a mocinha de família que foi detida ao volante porque comeu três bombons recheados com licor que o namorado lhe presenteara?

Fico divagando, imaginando como será, por exemplo, o próximo Carnaval (não gosto de carnavais...) no Brasil, se sobrevivermos a tamanha avalanche hipócrita... A folia será regada a sucos, energéticos e refrigerantes? Se não for dessa forma, haja táxis para carregarem tantos foliões “alcoolizados”... E os casamentos? Os noivos que providenciem furgões, vans ou ônibus para levarem os convidados em casa, após os festejos do casório. Factível? E a senhorinha do Clube da Melhor Idade, que mesmo aos setenta e tantos anos de idade, ainda dirige o seu velho fusquinha, mas adora tomar uma taça de vinho tinto antes do almoço (para desentupir as veias...), e um cálice de vinho do Porto depois (para auxiliar na digestão...). Será que a polícia algemaria uma frágil vovozinha?! Se houver uma câmera por perto, certamente. Lobo Mau é o que não falta na face da Terra. Muitos garantem que a lei vai fomentar a prática do “cafezinho pro Sr. Guarda”. Eu prefiro não cogitar tal hipótese. Ainda existe gente honesta no mundo, embora muitos até se envergonhem disso, como previu Rui Barbosa, o Águia de Haia.

Enfim, o que soa intolerável é a criação de mais uma lei para encobrir a incompetência dos gestores públicos: fiscalização capenga, pífios investimentos em infra-estrutura, e a corrupção que solapa a administração pública (com tanta gente pilhando o erário de uma só vez, não sobra dinheiro público para investir, por exemplo, em educação no trânsito). Não bastava fazer valer a legislação anterior, que já pune quem dirige embriagado? Basta de hipocrisia e enganação. Ninguém que defenda a vida, a ordem e a cidadania haverá de apoiar que se dirija embriagado. Portanto, que os órgãos fiscalizadores se ocupem do fundamental ofício de punir os detratores da lei. Mas, uma lei digna e sensata. Uma lei sem pirotecnia e aberrações. Por favor, senhores, deixem em paz as vovós, os padres, as namoradas chocólatras e os motoristas conscientes! Não é justo tratar um cidadão do bem como se fosse bandido. Portanto, do jeito que a lei está, eu não concordo.

 


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POR EM 11/07/2008 ÀS 11:59 AM

Reprimendas a um jovem suicida

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Penso em ti. No teu jeito de falar. Nos solos imaginários da tua guitarra invisível. Na tua imitação caricata, divertida e espontânea do David Gilmour, ex-líder da extinta banda Pink Floyd. No teu pileque divertido que um dia nos enganaria, acendendo em ti o pavio da indispensável coragem para te vingares do mundo, da gente, de ti mesmo. Bebida, gatilho de dor e sofrimento. Ingrediente de um coquetel que apagou a tua chama, interrompendo ao meio um concerto surreal chamado vida.

Nem a estratégia canalha do funcionário da funerária, ao nos apresentar o teu corpo nu em estado deplorável, chocou mais do que o teu próprio ato. A providência safada do papa-defuntos para nos impressionar e extorquir dinheiro foi marota e grotesca. Ao invés de comoção, a artimanha daquele pobre crápula suscitou em mim e num dos teus filhos que acompanhava o “reconhecimento do cadáver” um desejo tão bruto e primitivo que não compensa confessar publicamente. Nunca se sabe, às vezes, podemos tomar condutas “irreconhecíveis”, não é o mesmo?! Pagamos o malandro. Não havia outro jeito. Afinal, o manual da vida urbana impede entregarmos diretamente os corpos dos nossos mortos queridos ao apetite generoso da terra ou dos rios. Urgia cumprir os trâmites malvados dos funerais e recompensar com dinheiro o apetite abjeto dos profissionais da morte.

Conversando com um homem da lei, delegado de polícia, este segredou que a estatística oficial não pode ser revelada, que os números não devem ser divulgados, pois vão gerar estarrecimento e pânico na sociedade. Contudo, é preciso frisar que o índice de suicídios cresce a cada dia, como um termômetro a medir a temperatura, o calor da descrença e do vazio. Ao que parece, o Brasil está mesmo deixando de ser um país de terceira categoria. Morremos de diarréia e dengue, sim, mas morremos também de desamor e angústia. Coisas de primeiro mundo ou final dos tempos? A prática nefasta do suicídio é corrente nos países ricos, com “PIBs” elevados e analfabetismo zero. Aprendemos a ler e escrever, mas não aprendemos a viver. Somos analfabetos de alma.

A curiosidade é um defeito humano que mal conseguimos disfarçar. Todos os presentes perguntaram o que houve, por que tu te mataste. Se havia um amor mal resolvido. Se fora um vício ou dívidas irreparáveis. Uma doença incurável, quem sabe. Um sentimento de culpa pesado demais para suportar nos ombros. Tua aparente alegria, em absoluto, não combinava com nenhuma das alternativas. Daí, a surpresa, a notícia inimaginável, a incredulidade, os lábios paralíticos e o pânico afinal (triunfo da maldade).

Até agora, ainda não derramei qualquer lágrima por tua causa, apesar dos espasmos dolorosos na garganta, dos olhos embaçados, e da tremura nervosa que balança todos os músculos. Não sinto pena de ti por teres te matado. O sentimento que se assenta no meu peito é antagônico e quase inconfessável. Sinto uma raiva contida. Raiva de ti e da nossa ignorância, porquanto teus convivas mais queridos. Como não percebemos a tua tristeza mais profunda, os teus sinais camuflados em atos subliminares, os teus sussurros de alerta, tua trilha sonora repleta de blues e solos tristes de guitarras?

Amigo, tu nos pregaste uma última peça. Seu eu fosse Deus, não te perdoaria. Como sou apenas um homem ignorante, não ousarei fazer julgamentos, senão desabafar palavras indóceis nestas linhas e cantar músicas de se fazer chorar, seguindo a multidão que conduz o teu corpo grande judiado entre canteiros muito floridos e cantos de passarinhos. Hoje faz uma tarde de céu azul, sem nuvens. O cenário está belo e tranqüilo. A paisagem bucólica e calma também não combina com o teu derradeiro ato. Amigo, se tu pudesses me ouvir eu diria: por que nos mataste assim?

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POR EM 02/07/2008 ÀS 09:48 PM

Quer que vigia, moço?

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Quando o sujeito ouviu da bocarra do flanelinha que, se ele não pagasse os “cinco real” quando retornasse do restaurante, encontraria arranhada com um prego toda a lataria do seu carro, largou as mãos da esposa e da filha e saltou como uma cobra em bote certeiro no pescoço do marmanjão atrevido. Os dois homens tombaram no calçadão da bonita praça mantida pela Prefeitura e rolaram, daqui pra lá, de lá pra cá, que nem briga de cachorro grande, ambos usando de força descomunal, salivando à beça, imbuídos em ferir mortalmente o adversário, num combate brutal e dantesco, próprio dos gladiadores de todas as épocas, sob a gritaria de uma esposa histérica e a vibração cretina dos lavadores de carro que assistiam ao pega-pra-capá, sem tomar nenhum partido, sem apartar os brigões. Que se acabem na pancada! (diziam).

Hoje, não há um só local nesta moderna cidade onde se estacionem veículos, que esteja livre da ação desinibida dos chamados “flanelinhas”, supostos vigias atentos aos atentados dos ladrões fuleiros que furtam antenas, rodas, calotas, e arrebentam vidros dos carros para surrupiarem bolsas, aparelhos de som, badulaques de pouco valor ou, simplesmente, para se divertirem com a adrenalina que o incorreto derrama nas veias. Há quem garanta que a ação dos informais virou uma verdadeira sarna, uma praga, ervas daninhas esparramadas em todos os cantos da cidade. Ninguém mais tem sossego. É descer do carro, lá vem mais um deles com a ladainha “quer que vigia?!”, como se o cidadão tivesse o direito de escolha. Ai daquele que se nega a debulhar moedas em suas mãos encardidas...

Muitos atribuem a proliferação dos vigias de rua à falta de vagas no mercado formal de trabalho, à política ultra-assistencialista do Governo, e à inércia do próprio Cristo (ora, há que se imputar a culpa dos desacertos a alguém!...). Carece mais cuidado ao se analisar os fatos. Façamos o sempre razoável uso da aritmética, ciência que quase nunca nos trai. Hoje, o salário mínimo no Brasil é de 415 reais (permitam-se usar os numerais). Ou seja, cada dia do mês é remunerado a 14 reais (arredondando as quirelinhas). Vamos às contas: se um flanelinha “vigiar” 20 carros ao dia, ali no seu perímetro dominado, cobrando 2 reais de cada “vítima” (este é o preço médio que se ouve nos quatro cantos da capital), o empresário marginal faturará a bagatela de 40 reais ao dia. Se o sujeito cumprir expediente de segunda a sábado, ou seja, 26 dias, colocará no bolso 1040 reais ao final do mês, líquido, sem descontos para o INSS (e outros impostos daninhos). Putz! Que receber salário mínimo que nada! É uma baita grana, considerando que o grau de qualificação exigido para o exercício da coerção em via pública se aproxime de zero. Afinal, basta ao subempregado que ali permaneça, fale e estenda um de seus braços para recolher o vil metal. Apesar do sol na cara, e do sereno na cabeça, o negócio é atrativo. Além do mais, não há serões, patrões, e nem relógios de ponto. É o paraíso, meu brother! Por outro lado, demanda um pouquinho de boa vontade, ousadia e tolerância para não se enfezar com os insultos e as caras feias dos motoristas indignados. Apregoam os muito bem vendidos livros de auto-ajuda: para se dar bem na vida, há que se engolir alguns sapos e administrar o talento com alguma dose de indecência. No final das contas dá tudo certo (ao menos, nos epílogos desses famigerados best-sellers...).

O ser humano é um animal que facilmente se adapta ao meio (frio, calor, seca, guerra e desgraças naturais), principalmente ao caos das grandes cidades. Diz um provérbio que a gente se acostuma com tudo nessa vida, até com as coisas ruins, como o medo, a fome, a falta de vergonha na cara dos políticos (há exceções) e a extorsão engendrada pelos flanelinhas. Apesar da desordenada vida que levamos nas metrópoles, não arredamos os pés nem à custa de reza. Nóis inverga, mais num quebra... Poluição, trânsito congestionado, assaltos nos semáforos, seqüestros relâmpagos, balas perdidas... Tem-se a impressão que estamos juntos nessa, mas a distância é grande. Pior de tudo, não há como responsabilizar o acaso, o destino, Deus, o sobrenatural ou criaturas de outros planetas. Não adianta inventar. Os inimigos somos nós. Persiste, pois, uma tênue diferença. Ao que servimos: ao bem ou ao mal?

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