revista bula
POR EM 17/11/2008 ÀS 04:41 PM

E se fosse pela última vez

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Às vezes, sexo é assunto engraçado. Não vou dizer que seja gozado, até para evitar duplo sentido, safadeza nas entrelinhas. Tenho o hábito de ler os jornais por inteiro, exceto os encartes promocionais que só propagam o consumismo e alimentam o lixo. É a chamada leitura dinâmica, em que os olhos e a mente pescam nas manchetes os assuntos que interessam. Nem sei por que cargas d’água vasculho até os classificados. Talvez o faça na ingênua esperança de ali encontrar um rumo na vida, o lenitivo à minha angústia, as respostas às questões mais inquietantes da existência. Sei lá.

Outro dia vi um anúncio curioso num jornal de menor expressão, onde havia a foto de uma modelo nua com uma bolota vermelha no meio das pernas (um providencial tapa sexo da gráfica...) e os seguintes dizeres em negrito: “Sexo ao vivo com a participação do público”. Ingênuo como um adolescente virgem num bordel, fiquei especulando que tal participação teria o público num “show” de sexo explícito. Aplausos e palavras de incentivo? Ovação ou afagos nos ovos? Trombadas testiculares? Palavrório de baixo calão? O despejo de vaselina sobre um casal performático? Cuspir, emprestar saliva aos coitos? Arriar as próprias calças  e esperar a sua vez? Sexo com revezamento? Orgia com pessoas estranhas que parecem assim tão familiares? Fiquei intrigado com o anúncio, mas, nem por um instante desejei conhecer a espelunca.

Sexo, vital e fisiológico como beber água ou defecar, pode ser dramático. Há alguns dias acompanhei um amigo que seria submetido à extirpação da próstata, importante órgão da genitália masculina, e que tem papel fundamental da função sexual e na micção. De acordo com o médico, a cirurgia poderia deixar seqüelas, como impotência sexual (30% dos casos) ou incontinência urinária (5% de chance). O câncer até que não preocupava tanto, mas a possibilidade de nunca mais enxergar o próprio pênis ereto quase o fez desistir do procedimento e se deixar corroer pelo tumor. Transou com a namorada na véspera, pensando que talvez fosse pela última vez.

Sem imaginar uma forma mais eficaz para consolá-lo, eu arrisquei uma anedota. Ora, amigo, havia outras formas de se obter prazer sexual na vida. Afinal de contas, sobravam a ele os dez dedos das mãos, outra dezena nos pés, a língua e, em último caso, na bacia das almas, o próprio ânus. Ele gargalhou como a concordar com a piada, e foi levado pela enfermeira bonita que ele nem pôs reparo. A cirurgia teve total êxito.

Sexo, para muitas pessoas, não faz mais nenhum sentido. Foi Dona Matilde quem me contou. Outro dia ela chegou a sua casa de supetão e flagrou a neta rebolando pelada defronte a tela de um computador. A octogenária senhorinha, ao contrário da moçoila, não perdeu o rebolado e a repreendeu: “que bobagem é esta, criatura?”. A moça ficou constrangida, catou as roupas esparramadas pelo assoalho, e justificou que se tratava de um presente para o namorado que viajara para a Austrália. Dona Matilde, que não entende nada de internet e informática, achou tudo aquilo muito besta, sem serventia, e ficou se perguntando se compensava a moça ficar rebolando nua na frente de uma máquina por causa de um homem que talvez nem mais voltasse para o Brasil, ou mesmo já estivesse se ocupando com as mulheres australianas. Com a chegada da senilidade, chegam o reumatismo e a teimosia, mas também, a sapiência.

Sexo vira arma nos afazeres infames dos estupradores e adultos que abusam de crianças. Na maioria das vezes, os algozes são os próprios pais, parentes ou amigos da família que se aproveitam da confiança dos menores para impetrar o horror. Êxtase e prazer de um lado, sofrimento e lembranças abjetas do outro. Quanto mal pode um ser humano infligir à vida de alguém? Parece algo ilimitado. São estórias terríveis muitas vezes escondidas durante existências inteiras. Dramas jamais revelados, senão em desabafos sobre os divãs (àqueles poucos que podem bancar o próprio tratamento), ou nos leitos de morte, no apagar das luzes, nas confissões chocantes, nas derradeiras palavras, no último suspiro, uma chance final para se revelar a verdade antes que o coração pare e a vida suma para sempre. Assim como a dor há tempos ocultada.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 11:32 AM

O mundo já era

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Sob uma enorme tenda branca armada para a missa campal, os pais, familiares e convidados espremiam-se, suavam em bicas e reclamavam do calor. Quem seria o responsável pelas altas temperaturas daqueles dias? Reclamar: eis um dos nossos talentos natos. Não bastasse o mormaço, o padre que conduzia a cerimônia, apesar de jovem e novato no ofício, também reclamava e repreendia os presentes, cobrando assiduidade e compromisso com a santa igreja. Nós funcionamos muito à base da pressão, da ameaça e do medo.

Estratégias de céu e inferno. Até para não delongar mais o evento, todos concordaram com o padre mocinho opressor e prometeram dedicação, envolvimento e presença nas missas dominicais a partir daquele dia. Sim, senhor. Com toda certeza.

Dentre tantas crianças angelicamente trajadas com mantos brancos e coroas de flores, lá estava Júlia, na grandeza de seus dez anos de idade. No seu rosto alvo desenharam-se rubras roséolas, resultado do calor e da dilatação das veias. “E então, que sabor tem a hóstia, filha?” eu perguntei. “É meio sem graça. Tem gosto de papel”, ela brincou e sorriu como de praxe. Sorte nossa o padre não ter ouvido...
 
O ambiente quente e abafado incomodava ao extremo, distraía. Impaciente, um tanto desatento aos rituais da Primeira Comunhão daquele grupo de crianças, minha mente foi invadida pela imagem da menina de nove anos assassinada em Curitiba. Compará-la com Júlia foi sofrido e inevitável. Fiquei sabendo do crime através dos noticiários. Seu corpo fora encontrado dentro de uma mala (de novo, uma mala assombrando nossas vidas...), embaixo da escadaria de uma rodoviária, e apresentava sinais de esganadura e violência sexual, segundo relatos da polícia. Ofício de besta fera. Não se pode imaginar que o criminoso seja um demente qualquer tratável com remédios, lobotomia ou eletro-choque. Mais respeito com os mentecaptos, por favor! Os doidos não escondem os seus atos. Ao contrário, quando se tornam violentos nos labirintos da paranóia e da alucinação, deixam provas cabais, não se ocupam com a mentira e com as artimanhas para esconder a gravidade dos seus erros. Loucos não pertencem mais a este mundo, o que não deixa de seu uma enorme vantagem para eles.

A ignorância me aborrece. O que leva um adulto a ludibriar uma criança pelas ruas da cidade, capturá-la e cometer covarde violência física, obtendo, além disso, prazer sexual com o sofrimento e com a morte? Há muito tempo tenho declarado o meu apreço e admiração aos bichos, animais de comportamento previsível, compreensível e aceitável. Dos bípedes pensantes, ando por demais descrente.

Exemplos de vocação para a violência e a maldade, como o cometido contra esta menina de nove anos, tendem a cair logo no esquecimento. Em breve, um crime ainda mais hediondo e cruel será noticiado pela imprensa, fazendo com que a audiência suba a níveis ainda mais altos, e nos esqueçamos dos horrores pregressos, das crianças atiradas pelas janelas dos prédios ou arrastadas sobre o asfalto da cidade.

Talvez, o fenômeno de banalização da violência se deva à velocidade da informação em nossos dias. Hoje, ficamos sabendo de tudo que ocorre em todos os cantos do planeta, as coisas boas e as coisas ruins, graças ao alcance da televisão e da internet. A maldade sempre permeou a mente das pessoas. Basta ler a história da humanidade. A diferença fundamental é que hoje dispomos da informação ágil, imediata, sem censuras. Basta clicarmos no mouse do computador ou ligarmos a TV. A barbárie está bem ali, vívida na nossa frente. Matanças, abusos, estupros e torturas existem desde que deixamos de ser macacos e passamos a pensar. Quando teria acontecido esta trágica transformação?!

O que me parece relevante e vergonhoso é que, apesar de dotados da tecnologia, das facilidades da vida moderna e do conhecimento adquirido ao longo de tantos séculos, persistimos imersos na estupidez e na mais completa ignorância. A despeito do legado de erros e acertos dos nossos ancestrais, continuamos criaturas ávidas, cruéis, individualistas ao extremo, animais meticulosamente absortos na mentira para o benefício próprio ou do seu clã. Para mim, já deu o que tinha que dar: este mundo já era.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 05:41 PM

Quem é vivo aparece

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Ele é um autêntico “homem de lugar nenhum”
Sentado em sua “terra de lugar nenhum”
Fazendo todos os seus “planos de lugar nenhum”
Para ninguém

(Nowhere Man, The Beatles, 1965)

No filme trash, “A volta dos mortos vivos”, a defuntada torna à vida colocando em polvorosa a comunidade local, ao se alimentar com seus miolos. “Brain! Brain!”, clamam os zumbis. O filme, é claro, não mete medo em ninguém. Gente morta não faz o mal ou o bem a quem quer que seja. A não ser quando deixa dívidas impagáveis, mentiras de uma vida dupla, ou fortunas que provocarão disputas e ranger de dentes nos herdeiros. Há quem morra ou mate por dinheiro. Coisas da natureza humana.

Seria mesmo divertido se os mortos se rebelassem e escapulissem dos sepulcros, todos ao mesmo tempo, fazendo o povaréu vazar apavorado. Dentro do barraco, no outro lado da rua, o homem matutava se protegendo do sol escaldante de novembro, observando o formigueiro de gente que entrava e saía. Sobre a calçada, em quase todo o perímetro do cemitério, ambulantes se espremiam num mercado a céu aberto, faturando uns trocados na venda de um quase tudo: vasinhos de flores, botões de rosas, santinhos de barro, velas de todas as cores e tamanhos, água benta, água fluidificada, água imantada, e água que passarinho não bebe de jeito nenhum. O feriado de Finados caiu no domingo, e ninguém é de ferro, sabe como é?! Não tem Lei Seca que segure um brasileiro com sede.

O comércio informal era agressivo e farto. O famoso sanduíche de lombo de porco, alimento dos mais profanos para a ocasião, também fazia muito sucesso nas bocas dos famintos que se habilitavam a homenagear os mortos. Muitos faziam questão de prestar reverências à beira do túmulo, onde podiam sentir as vibrações e a presença do falecido (?!). Não se deve caçoar da fé alheia. Tampouco da falta de fé de uma minoria resignada.

Homem é um bicho danado. Alguns malandrões despitavam as esposas e se demoravam na degustação dos espetinhos de carne e da cerveja profanamente gelada. Mulheres bonitas vestidas com roupas de domingo desfilavam no meio da multidão fiel. Pernas depiladas, coxas retesadas, peitos siliconados, barriguinhas lipoaspiradas. Nunca o culto à estética corporal esteve tão em alta para uma gente com baixa estima, que valoriza mais a carcaça do que o conteúdo. Embora o local não fosse propício, havia quem paquerasse no portão de cemitério. Como diria o meu amigo-filósofo José Galinha _ modernamente classificado pelo SUS como um paciente viciado em sexo _: “Caiu na área é pênalti”.

Do seu observatório improvisado, o homem vigiava o povo. Apesar das gozações dos amigos e colegas de trabalho, não se importava em morar defronte ao cemitério. Ateu, não cria em alma, em anjos, em santos, em reencarnação, em políticos honestos. Não cria em quase nada, a não ser que a vida parecia sem sentido.

Indignado com o dinheiro auferido com artimanhas e trapaças de muitos líderes religiosos, afastou-se dos templos. Era um sujeito de cultura mediana. Conhecia bem a História da Humanidade, as mazelas das igrejas, as mortes, abusos e barbaridades cometidas no passado por gente que se dizia fiel a Deus. Sua religião era a bola. Nas peladas de final de semana, juntava os companheiros no campo de várzea e puxava um padre-nosso que era rezado em voz alta, num ritual a selar o pacto pela vitória. Nestas horas,  poderia até rezar um poema do Mário Quintana ou do Drummond, mas preferia o Pai Nosso, por mais paradoxal que aquilo parecesse provindo de um agnóstico como ele.

A fumaça do churrasquinho dissipava no céu deixando o quarteirão engordurado. O cheiro de carne assada misturava-se com o olor das flores e das velas queimadas, uma combinação odorífica que o deixou nauseabundo e atordoado. Sentiu os lábios anestesiados. As pernas bambearam. Talvez tivesse bebido mais que a conta. Apoiou o corpo na mureta da varanda, mas a vertigem piorou. Foi invadido por uma tristeza e melancolia que há muito não sentia. A varanda da casa estava agora bastante enevoada. Sentiu faltar o fôlego.

Ficou agitado ao pressentir que morria. Há poucos dias fizera um checape completo. Tudo normal, de acordo com o médico. Mas também, esses médicos de hoje em dia não sabiam bulhufas. Nem mesmo colocavam as mãos na gente. Será que era nojo ou a medicina andava moderna demais ao ponto de dispensar o contato médico-paciente? Ou será que o doutor tinha preguiça dele porque seu plano de saúde era fajuto? Ainda teve prazo para reflexões infrutíferas.

Moveu-se estabanadamente, derrubando o copo com cerveja pelo meio. De tão tonto nem sentiu os estilhaços de vidro perfurarem os pés descalços. Caminhou miseravelmente. Fitou a multidão, um vai e vem de gente que não acabava mais. Pobres, ricos, brancos, negros, seres humanos agarrados à fé como se fora um lenitivo, um antídoto para que não enlouquecessem, a única resposta plausível que os confortava. Ficou com a vista embaçada. Balbuciou, bêbedo. Quis gritar, acenar para uma criatura que o salvasse daquele mal súbito, do inédito medo da morte. Não tinha mais forças. Tombou sobre o piso vermelhão salpicado de cacos. O sangue escorreu, deixando o chão ainda mais rubro. 

Só acordou no dia seguinte, uma baita segunda-feira, com a gritaria da faxineira. Que ele bebia muito. Que parasse de uma vez por todas com aquilo. Que procurasse uma igreja. Que era coisa do demo. Que se levantasse logo do chão. E fosse tomar um banho. E tomasse também uma aspirina. E o café da manhã. E um rumo definitivo na vida, ora essa!


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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:07 PM

A bolsa ou a vida?

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Os urbanóides somos uns pobres diabos. Quando inseridos na paisagem silenciosa do campo, apenas duas atitudes nos são factíveis: ou contemplamos a natureza com um ar apalermado (os ribeirinhos, então, riem-se de nós), ou ansiamos voltar correndo para o purgatório das cidades com seus shoppings e lojas de conveniências edificados com os mais caros e frios mármores. A maioria de nós, ainda que escravos do trabalho e do dinheiro, segue a primeira opção e se entrega à calmaria do verde, absolutamente aliviados da correria enlouquecedora do cotidiano.

Brasileiro adora feriado. No último deles, estive em Corumbazul, um pacato lugarejo situado no interior de Goiás, perto da cidade de Buriti Alegre (que sorte ter um nome assim...). Tudo ficará belo para sempre? Enquanto navegava pelas águas sossegadas do Lago das Brisas, fiquei absorto em reflexões que, embora dramáticas, não me tornaram mais amargo do que o habitual. Assim como a minha auto-estima, o nível da água era baixo, resultado da longa estiagem, das mudanças climáticas profundas e irreversíveis que, sim, tudo indica estejam em voga. Quando o lago artificial foi criado, cobriu centenas de hectares de terra, deixando submersa toda a flora e parte da fauna que não conseguiu escapulir das estripulias humanas. Galhos e troncos de árvores mortas esticam-se fora d’água como esqueletos, vestígios da mortandade impingida por uma causa coletiva maior (será?!).

Pássaros de várias espécies faziam vôos rasantes sobre mim. Um pica-pau picotava um tronco seco em busca de larvas e outros insetos. Sorte a minha ele não ter me enxergado, eu, verme servil da cidade grande. No barranco árido, uma seriema, ave símbolo do cerrado, piou com formosura. Leitor, você já teria ouvido, além das buzinas e das sirenes industriais, o canto de uma seriema? Ele se parece com uma gargalhada, pode acreditar. E aquela ave ria de mim, tive a certeza.

Meus amigos me perguntaram se eu não queria saltar ali mesmo, no meio do lago. Companheiros de agonia, ainda não quero me matar, eu lhes disse. Estranhei a proposta, afinal, a profundidade do lago passa de cem metros, em vários pontos. Iam me arrastar por uma corda, como um reboque, um esquiador sem esqui. Não tinha perigo, não senhor. Podia vestir o colete salva-vidas, pular n’água e segurar na ponta da corda que me puxariam com o maior cuidado, devagar, e que o efeito da brincadeira seria semelhante ao de uma hidromassagem. Aceitei a provocação da turma e tibum! Lancei meu corpo magro dentro do lago. Por segundos, eu me recordei daquele menino que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro atado ao cinto de segurança por um bando de facínoras.

Procurei me desvencilhar da inconveniente comparação. Pensei então nos rios e ribeirões que cortam a minha cidade. São cursos de água pútridos e sem peixes. São líquidos aberrantes que, após submetidos às decantações e técnicas de tratamento com produtos químicos potentes, transformam-se na água supostamente potável que escoa pelas torneiras, gargalos e goelas de Goiânia. Esforcei para não me lembrar de outras sandices da cidade. Tarefa fácil quando se é arrastado por uma lancha dentro de um lago azul com água refrescante.   

Gente gosta de por defeito em tudo. Somos assim mesmo. Nem tudo estava nos conformes. O visual era lindo. O clima, agradável. Contudo, por mais que eu tentasse, não consegui fisgar um só peixe.

Enquanto pelejava para esquecer a vida tola que levo, troquei a vara, mudei o molinete, tentei uma carretilha, experimentei uma linha mais fina, uma linha mais grossa e anzóis de todos os modelos e tamanhos. Nada. Nem mesmo uma beliscadinha. O fracasso da pesca esportiva não me diminuiu. Na roça, reconheço, sou quase um alienígena.

Retornei com os amigos para a sede da chácara construída às margens do lago. Já era noite e um gourmet se esmerava no preparo de um arroz-de-carreteiro. Pude sentir o cheiro da carne de sol fritinha que se mesclava aos aromas do cerrado. O teto negro sem lua estava salpicado de estrelas, planetas e, garantem os cientistas, satélites enxeridos que imitam estrelas e bisbilhotam nossas vidas. Quantas delas há no espaço? Milhares? Milhões? Há mais estrelas no céu do que moedas evaporadas nas desventuras das bolsas de valores mundo afora? As constelações possuem mais estrelas que os bilhões derramados pelos vários governos em reações apavoradas? O céu infinito, mesmo sem o adjutório da lua, não condizia com crise alguma, a não ser as existenciais, como a minha. Duas estrelas caíram do teto escuro. Seguindo a tradição, fiz dois pedidos, um para cada estrela.  

Há anos não fazia um passeio tão bucólico. Vi e ouvi tantos passarinhos que quase me perco. Muitos vociferam pela preservação do meio ambiente, dos mananciais de água, da fauna e flora que ainda resistem a tantas matanças e devastações. Trata-se de um tema atualíssimo, principalmente em cenários onde a vida moderna degradou as reservas naturais de forma irreversível, como os países industrializados e as grandes cidades brasileiras. Nosso comportamento é um lixo difícil de ser reciclado.

Felizmente, as novas gerações estão crescendo muito mais conscientes, no que tange à educação ambiental e cidadania. Aprendem estas coisas desde pequeninos nas escolas, através internet e até na TV, quando as emissoras fazem tréguas nas suas programações imbecilizantes. Do ponto de vista pedagógico, nada me parece mais eficaz do que catar fruta no pé, pisar em bosta de vaca, pescar no corregozinho ou tomar banho de rio. Dá até pra se esquecer do dinheiro que os investidores desperdiçam nas bolsas de valores. Pode crer, ele vale bem menos que um por do sol no Lago das Brisas.
 


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POR EM 20/10/2008 ÀS 06:35 PM

Plantar uma árvore, escrever um livro

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...e ter filhos. Completa-se desta forma a missão de todo ser humano na face da Terra. Diz-se. Livros, filhos e árvores são sementes lançadas. Frutificarão? Tornarão melhor a vida no planeta? No que tange às árvores, sim, não há dúvida que o verde é cenário ímpar do qual não prescindimos. Quanto aos demais, nem sempre.

Li no jornal de hoje que estão muito mais facilitadas e baratas as publicações de livros em Goiás. Nos últimos anos, motivada pela concorrência, a confecção de livros nas gráficas teria barateado, permitindo que centenas de escritores novatos realizassem os seus sonhos de, finalmente, publicarem um livro. Se o dinheiro compra tudo, por que não compraria um livro, ora bolas?

É fato que avalanches de livros soterram-nos impiedosamente. Haja olhos para tantas preciosidades...

Semanalmente, deparamo-nos com lançamentos em vários redutos da cidade, muitos deles salões elegantes que nada condizem com o mirrado conteúdo das publicações. E quase sempre os coquetéis servidos nestas ocasiões são indigestos, como os livros. Cerveja quente, empadinhas frias. Extrair boa seiva das publicações é como tirar água de pedra. Pior que tudo é tolerar os discursos das “autoridades” que enaltecem a pseudo-genialidade dos escritores festeiros.

O que fazer com tantos livros ruins? Felizmente, muitos deles encontram nas prateleiras empoeiradas o seu merecido jazigo, poupando os leitores do engodo e da chateação. Ademais, a distribuição de livros independentes em nosso meio praticamente inexiste. Isto frustra os escritores, especialmente os medíocres, que ousam torrar as suas economias bancando a própria vaidade. A maioria deles fica só no primeiro milheiro. Depois de vender cinqüenta exemplares na noite de lançamento, restam mais novecentos e cinqüenta para se enfiar dentro dos armários e das despensas. Cria-se um problema caseiro. Não há espaço onde socar tantos pacotes. As empregadas domésticas reclamam, ficam indóceis, e muitas pedem demissão ao terem que lidar com tamanho encalhe. Só as traças e ratos comemoram. É comida garantida para muitos anos.

Portanto, o simples fato do número de publicações ter crescido pouco representa, senão a pujança, competência e crescimento da indústria gráfica. Bom para ela, pior para as florestas. Desperdiça-se muito papel e tinta com bobagens. Publicar um livro, desde que se tenha algum dinheiro parado no banco, é mole. Duro mesmo é fazê-lo chegar às mãos dos leitores. Publicações independentes não têm espaço em livrarias. Não há prateleiras suficientes para tantos autores desconhecidos, e nem disposição para se apoiar os inéditos.

O grande dilema do autor é conseguir que uma editora leia a sua obra e se interesse em publicá-la e distribuí-la. O exercício da mendicância intelectual é extenuante. Façamos o exercício contrário. No contexto capitalista não há espaço para prejuízos. É natural que ninguém queira perder dinheiro. Por que uma editora deveria publicar um bom autor inédito, se ela pode publicar as memórias de uma ex-prostituta famosa que vão vender mais do que xoxotas em cabaré? Quando o mercado consumidor cisma em consumir porcaria, sai da frente, meu irmão. Ninguém segura.

Qual a saída, então, sabichão?! Muitos dos leitores me perguntariam, em tom de provocação. Ora, incrementar o número de concursos literários e publicar os melhores livros seria um caminho. Os concursos idôneos legitimam as boas obras e revelam autores competentes. Não me refiro, é claro, às disputas fajutas, arranjadas, arquitetadas maquiavelicamente.

As leis de incentivo à cultura (Rouanet, Goyazes e Municipal de Goiânia) também são ferramentas importantes à produção literária, mas colocam os seus usuários na mesma desconfortável situação: uma vez com os livros prontos em mãos, como fazer que cheguem aos leitores?

Certamente, as academias e associações de escritores poderiam fazer mais do que enviar pelos correios os boletos da anuidade, ou reunir os seus associados para saraus tediosos e chás-da-cinco.

Quem sabe, um conclave com os escritores goianos fosse útil para discutir o assunto e apontar as soluções. O problema não é só dos novatos, mas também dos veteranos, que amargam as faltas de espaço e de reconhecimento.Um festival anual de literatura também seria útil para fomentar debates e projetos. Virou moda nos últimos anos: há dezenas de festivais de gastronomia em Goiás. Por que não um evento de literatura?!

Num mundo onde o poder do dinheiro e o consumismo são tão peçonhentos, fica cada vez mais remoto o acesso ao bom livro. Primeiro porque os livros estão muito caros. Segundo porque há verdadeiras arapucas escondidas atrás das capas e orelhas. Quem vê capa, não vê coração. A mim parece que boas mesmo são as coleções de livros de bolso, publicações com acabamento em miniatura, com preços honestos, clássicos da literatura nacional e mundial. Outra opção é visitar os sebos do centro da cidade, como fazem regularmente os mofos e os bolores. Portanto, caros leitores, muito cuidado com as listas dos 10 mais vendidos. A próxima vítima poderá ser você. Afinal, livro ruim também faz mal à saúde, principalmente à saúde do seu bolso. Enquanto o cenário não muda, a gente vai usando mesmo a praga da internet para ler os textos inéditos. Sempre com aquela íntima convicção que nada substitui a tez e o cheiro de um bom livro.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:13 PM

Médicos escritores?

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Quando passei pela faculdade, há vinte anos, fiquei conhecendo um acadêmico de medicina fora dos padrões. Seu apelido era Jotinha. Dentre tantas esquisitices, certo dia o sujeito apareceu lá no Hospital das Clínicas com um álbum de fotografias enfiado no sovaco. Eram fotos da noiva vestindo um biquíni de oncinha num ensaio, digamos assim, sensual. Saltava aos olhos a naturalidade da moça, provavelmente, uma profissional das lentes e das gaiolas. O “book” fez um sucesso danado no meio estudantil. Muito estranho o Jotinha ficar expondo a noiva daquela forma, mostrando suas curvas, cicatrizes e celulites. Mas se ele, que era o maior interessado, não estava nem aí com a paçoca, por que haveríamos de nos preocupar com as questões morais?!

Dizia-se, à boca miúda, que o sujeito, mesmo sendo estudante, já atendia em consultório médico, fazia uma grana com prática do aborto clandestino e, de vez em quando, abusava sexualmente da clientela.

Como é que o povo ficava sabendo daquelas coisas eu nunca soube. Boataria?! A verdade é que o Jotinha formou-se, caiu no mercado de trabalho e foi preso há poucos dias por prática de pedofilia, estupro, atentado violento ao pudor e favorecimento à prostituição infantil. Pau que nasce torto, até as cinzas são tortas... É difícil aceitar que uma entidade pública educacional de nível superior libere um profissional com este perfil psicológico no mercado. Por causa de seu estilo bizarro, Jotinha não fez amigos na faculdade, era discriminado pelos colegas, e gastou quase dez anos para se formar em medicina (o curso normal tem seis anos de duração). Esconderijos da mente humana ou negligência dos educadores?!

Mas, falemos de coisas boas... No mês de outubro, como parte das comemorações do Dia do Médico (dia 18), acontecerá um evento na Associação Médica de Goiás chamado FESTMEDICO. Trata-se do maior evento artístico e cultural brasileiro destinado a médicos e acadêmicos de medicina. É muito provável que não exista nada igual no restante do planeta. Durante o festival, os doutores debulharão seus talentos além das pinças e dos bisturis, nas modalidades: canto, música instrumental, literatura, dança e artes visuais (fotografia, pintura e escultura). Nada mal para uma classe que tem fama de “sangue frio”. O evento encontra-se na sua sexta edição e é organizado pela seccional goiana da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores), uma associação sexagenária presente em quase todos os estados brasileiros, e que reúne médicos e estudantes de medicina adeptos das artes em geral, com especial ênfase em literatura, literatura não científica. O festival, dentre outras coisas, visa ao congraçamento da classe médica, tão esculhambada nos últimos anos por causa de escândalos como os do Jotinha, dos planos de saúde mercantilistas, das avalanches de processos ético-legais (a maioria deles uma imoral caça ao dinheiro), da desvalorização do trabalho médico e da insuficiência de investimentos na saúde por partes dos nossos governantes.

Tem um punhado de médicos escritores (ou escritores médicos) com destaque na literatura universal, como Guimarães Rosa, Pedro Nava e Arthur Conan Doyle, para citar apenas três. Se a SOBRAMES nos brindará com algum novo ícone literário, é uma incógnita. Mas também, se isso não acontecer, não tem problema algum. Em seu estatuto, a entidade não almeja a fama e glória dos associados. Aqueles doutores querem apenas deixar bem claro à sociedade que têm sangue correndo nas veias, e não é frio, não senhor. É pura ebulição.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:09 PM

Votem em mim, pelo amor de Deus!

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Crásss!!! Perdi as estribeiras vendo “as pernas de louça da moça que passa e eu não posso pegar”. Pimba! Pancada. Abalroei o carro da frente. No vidro traseiro, um adesivo em letras garrafais advertia: “Propriedade de Jesus”. Putz! Ia me haver com o próprio Cristo! Tremi, ainda apavorado com a colisão por causa de um par de pernas desconhecidas. E agora, Chico Buarque de Holanda?!

Do carrão importado apeou uma mulher de idade incerta, pois era notório que a mesma já tinha se submetido ao estica-e-puxa da cirurgia plástica, uma lanternagem e pintura meio desastrosa. Brigar contra o tempo é uma tarefa humana para lá de ingrata. A motorista descarregou todo o seu repertório chulo que por pouco não me fez rir. Eis ali uma mulher em seu momento de fúria cega. Tensão pré-menstrual ou pura falta de educação mesmo?! Dentro do veículo, o cachorro da matrona latia para mim. Lati de volta.

O trânsito parou atrás de nós. O chilique daquela senhora, não. A pancada não tinha sido tão forte assim. Amassou um pouquinho o pára-choque do meu carro, por causa daquela pelota de aço dependurada na traseira da picape. Antigamente, este dispositivo era usado para rebocar carretas; hoje em dia, o objetivo é proteger o veículo de motoristas desatentos como eu.  A vontade de ir embora para casa era grande, mas a mulher estava transtornada. Catou o telefone celular e chamou o marido, a perícia, o pessoal do seguro, o resgate (quem mais estava ferido por ali, além dos meus brios?), a polícia, um amigo que era jornalista, e um outro, advogado da família. Se a estratégia visava a me coagir, falhou. Sentei na calçada. Desisti da conversa. Apreciei o caos do trânsito com a resignação de um desgraçado. Esperei pela trupe. Só não acendi um cigarro porque não fumo. Mas que deu vontade, deu. De tanto latir comigo, o pequeno animal lambuzou o vidro com baba.

Não sou bobo. Não entro nesta seara de discutir preferências no futebol, na política e na religião. A cidade onde moro é uma das metrópoles brasileiras onde mais circulam veículos. Os carrões nacionais e importados entopem as ruas e avenidas, infernizando a vida de todo mundo, deixando o ar a cada dia menos respirável, as pessoas esquisitas e as relações humanas ainda mais escrotas.

Tenho constatado uma prática curiosa nas ruas. Muitos automóveis ostentam adesivos com dizeres fazendo apologia religiosa. Anotei alguns deles: “Propriedade de Jesus”, “Este foi Deus quem me deu”, “Pertence a Jesus”, “Rastreado por Deus”, “Cristãos a bordo”, “Sou católico graças a Deus”, “Eu amo a minha igreja”,  “Eu amo a minha família”, “Eu amo a minha esposa” e por aí vai. Só não vi ainda “Eu amo a minha sogra”, “Eu curto a minha amante” ou “Eu adoro pagar impostos” porque daí já seria loucura, o final dos tempos.

Que tipo de padre, pastor ou líder religioso estimularia uma ação tão tosca por parte de seus fiéis seguidores? Vários, imagino. O mundo está mesmo de cabeça para baixo. Tudo parece às avessas. São evocações materialistas que não condizem com altruísmo, fraternidade e caridade. Na minha infância remota, em leituras religiosas obrigatórias do colégio, alunos eram ostensivamente vigiados por um professor pedófilo (que ela arda no fogo do inferno, caso exista algum!!). Não me recordo de nenhuma passagem da Bíblia (embora eu tenha pulado vários versículos) em que seja apregoado o acúmulo de bens materiais como camelos, escravas, vasos e outros badulaques preciosos daqueles tempos cascudos. Não sei quem cuida do marketing das igrejas (a cada dia mais agressivo), mas ele me parece claramente equivocado. Jesus Cristo e outros homens bons que habitaram o planeta não o avalizariam. Não foi mesmo o filho de Deus quem bradou e distribuiu pernadas nos mercadores (camelôs da antiguidade) que montaram as suas barraquinhas dentro dos templos? Não vou gastar as minhas pedras atirando-as em carros de madames e nem riscar suas latarias com o prego das chagas de Cristo. Mas vou escrever esta crônica. Ah, vou sim.

Sou calado e observador. Esquisitices dos nascidos sob o signo de virgem (não, eu não acredito em astrologia). Assisto pela TV aos templos lotados de gente histérica (sim, várias religiões compraram emissoras de rádio e televisão) e mais me convenço da necessidade premente (da minha necessidade premente) de me manter afastado deles e das igrejas chiquérrimas, a não ser que se trate de um passeio para apreciar arte sacra. Nos últimos anos, os dirigentes de várias religiões têm lançados candidatos para concorrerem em campanhas eleitorais por todo o país. Muitos deles são seus próprios familiares, ovelhas escolhidas a dedo sob o patrocínio e proteção da igreja. Nesta semana, quase apanhei de uma colega de trabalho por causa de um debate no qual ela defendia um pastor que lançou o próprio genro como candidato a vereador. O filho dele fora eleito deputado no último pleito. Para a moça, o pastor acerta ao apostar as fichas da igreja no genrão e na prole. Questão de confiança, ela diz. Dá pra confiar neste clã?!

Melhor deixar as coisas como estão. Esta mescla de política e religião virou um guisado indigesto. Gastei uns reais para desempenar o reboque da picape grã-fina daquela “socialite”. Estou rodando no meu carro com o pára-choque dianteiro amassado, sem raiva nenhuma, só um pouco mais pobre que o usual. Afinal, dentre tantas recomendações humanistas, Jesus Cristo pediu que nós nos amássemos, e não que nos amassássemos. Depois de mais um trocadilho idiota, encerro aqui esta crônica. Que ninguém me perdoe. Aleluia, irmãos.


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POR EM 29/09/2008 ÀS 02:56 PM

O bombardeio formidável

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Amanheceu, finalmente, depois de uma noite de sono agitado. Sentia-se exaurido. No espelho de bordas mofadas, enxergou-se muito mais velho que o habitual. Era um homem judiado pelo tempo e pelo estar vivo. Sintonizou o rádio. Um tal de “Toninho da Ambulância” pedia voto aos eleitores bradando em português errado. A safra de candidatos a vereador naquele ano estava de lascar. O que poderiam o Toninho, sua ambulância, e outros candidatos com alcunhas igualmente toscas fazer pelo bem estar daquela cidade? Mesmo mal humorado, deixou o rádio sintonizado na propaganda eleitoral obrigatória.

Encurvado sobre a pia, o homem escovava os seus dentes. E a língua também. Aprendera recentemente na TV que urgia escovar a língua, esconderijo de palavras e de micróbios. A televisão vai salvar a humanidade. Ou dizimá-la. Deslizava a escova dentro da boca. Pensava na vida assim, logo cedo. Tinha muitas preocupações pela manhã. Era isto, certamente, que o deixava ainda mais velho a cada dia. Um fenecer além da conta, sabe como é?

Com o rádio ligado no último volume procurava manter-se aceso. Às vezes ria um riso trancado e espasmódico de quem está com a boca cheia, ocupada. Abriu os olhos e enxergou formigas. Dezenas delas em desorganizada correição na lisura do mármore. Os insetos garimpavam, frenéticos, partículas adocicadas nos vestígios de comida da noite anterior. Com freqüência, comia no banheiro, valendo-se da condição de homem solteiro, independente e desleixado.

A invasão formigável, ou melhor, formidável o irritou. Suspendeu a escovação na metade (apenas a arcada superior esta limpa e ok, tinha certeza disto). Inspirou fundo. Prendeu a respiração. Deu uma cusparada fluida e volumosa, esvaziando todo o conteúdo de espuma, baba, resíduos alimentares e, é claro, milhares de micróbios. Morram, formigas! Ficou assistindo ao afogamento coletivo. Sorria vitorioso. Sentia-se muito melhor depois daquele bombardeio. Espremeu o tubo de creme dental sobre a língua. Preparou mais munição. Salivou até não poder mais. Matou tantas formigas que ficou com uma sensação de que o dia estaria a salvo na ambulância do Toninho.


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POR EM 22/09/2008 ÀS 05:29 PM

Por que fede a água ?

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Goiânia vive os derradeiros dias de uma estiagem que já perdura por quatro meses. O ar seco judia dos olhos e gargantas. As altas temperaturas equiparam o clima da cidade ao ambiente desértico. As diferenças são os camelos - preferimos os bois - e a poluição crescente soprada pelos escapamentos dos veículos e pelas queimadas provocadas onde antes havia o cerrado (há quem prefira as tempestades de areia...). Dizem que na capital goiana, uma das metrópoles onde mais se vendem carros novos, há um veículo para cada dois cidadãos. O transporte coletivo capenga e a descarga de milhares de automóveis nas ruas deixam o trânsito congestionado, a atmosfera insalubre e os motoristas à beira de um ataque de nervos. Seria até inconfessável: quando dirijo pela cidade tenho instintos bestiais... 

Há vários dias convivemos com um inédito drama: estaria potável a água que chega até as nossas casas? Acontece que o elemento vital que flui pelas torneiras estaria com cheiro e sabor diferentes, desagradáveis. Água: líquido incolor, insípido e inodoro? Não. Nas estações de tratamento o mau cheiro é notável, remete à carniça. Inclusive, correu um boato que funcionários teriam encontrado dois corpos putrefatos submersos nos tanques de decantação. Os defuntos eram fictícios, mas o aroma pestilento da água é bem realista.

A empresa responsável pelo tratamento da água da capital se defende garantindo que a mesma mantém as suas qualidades e pode ser consumida sem receios, pois atende todas as exigências da legislação vigente. Quer dizer, mais do que pura, boa e gostosa, a água atende aos critérios vigentes, ainda que não seja palatável. A empresa explica que o odor cadavérico se deve à proliferação de algas azuis nos reservatórios, resultante do baixo volume de água decorrente da seca, e da alta incidência de poluentes despejados pelas indústrias e pela população nos leitos de rios e córregos que ousam irrigar a cidade. Todos atiram os seus podres n’água (e não são poucos). Enfim, temos a água que merecemos e ponto final.

Gente abonada aquece o mercado local comprando litros e mais litros de água mineral. Estocam o precioso líquido em suas casas a fim de garantirem o consumo aos seus entes queridos. Mais uma vez, é a força do dinheiro mandando ver... Muitos têm nojo da água que escorre pelas torneiras. Eu tenho asco é da gente mesmo.

Com a goela seca, o corpo ensebado e o humor profundamente comprometido eu creio que estamos mesmo à beira do caos. As remanescentes reservas naturais do mundo nunca estiveram tão ameaçadas. A polêmica sobre a água fedorenta suscitou em mim várias reflexões. A principal delas: e se a água se tornasse, definitivamente, conforme a previsão feita pelos ecologistas ao longo das décadas, um produto raro, escasso, motivador de demandas, atritos, guerras e atrocidades? Escassez de água implica em escassez de comida. Afinal, as sementes, assim como nossos corpos, dela não se abstêm para frutificar.

Os negros que apanham, batem, matam e barbarizam por causa da fome em regiões pobretonas da África são um exemplo do quanto podemos nos tornar ensandecidos e mortíferos quando é primordial zelarmos da própria subsistência. Imagens de seres humanos se atracando por migalhas de comida chocam, envergonham, indignam e escancaram uma situação bizarra que pode ser uma amostra do que o futuro no globo nos reserva. Guerrearemos e mataremos, não pelo petróleo, gás, diamante e demais riquezas subterrâneas, mas pelo pão e pela água potável. Dá medo só de pensar. Quem pôs filhos neste mundão véio e sem porteira pensará “que porqueira que eu fui fazer...”.

Mudanças nos hábitos de vida nunca foram tarefas fáceis. Cada qual estabelece a sua fronteira, o limiar para se indignar. Muitos já mudaram suas rotinas no sentido de preservarem o meio ambiente. Evitam o plástico. Reciclam lixo. Consomem menos. Abandonam seus carros nas garagens, optando pelo uso do transporte coletivo (trens, bicicletas, metrôs), ainda que se perca mais tempo (o que nos importa ele?) e seja desconfortável. Contudo, o egocentrismo ainda impera na maioria das cabeças. Apesar da escassez de água e da ameaça de racionamento, muitos se julgam intocáveis, ignoram o bom senso e desperdiçam o líquido lavando ruas e calçadas em plena estiagem, numa demonstração clara de ignorância ou prepotência. O pior de tudo é que quem precisava dar o exemplo se esquiva. Numa de minhas andanças pela cidade presenciei funcionários lavando o extenso calçadão de pedras de uma repartição pública federal. O prédio é moderno e imponente, assim com a insensatez dos seus dirigentes.

Em regiões longínquas e hostis do continente africano, crianças de tribos rivais são capturadas e feitas prisioneiras. Os meninos servem ao trabalho escravo e à guerrilha. As meninas, à escravidão sexual. Ter conhecimento que barbaridades desta natureza ainda vigoram nalguns cantos do planeta sem que a ONU ou alguma nação livre (?!) se manifeste e interfira para coibi-las, apenas corrobora aquela sensação tristonha muito interior de que o mundo não tem mais jeito. Vale mesmo é o mais forte sobrepujando o mais fraco, no muque, no canhão ou no dinheiro. Como já disse o poeta: quem viver chorará?


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POR EM 15/09/2008 ÀS 05:08 PM

O diabo no meio do redemunho

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Nunca imaginei que aquilo pudesse acontecer comigo, até que um dia...

Esta frase mais parece o início de um conto erótico de magazine. Não é. É que eu fui preso à bala pelos policiais. Foi assim: eu voltava para casa no final de mais um dia de trabalho. Quando me aproximava do semáforo, fui fechado por um carro de cor prata que cruzou e parou na minha frente.

Nossas reações frente ao perigo são reflexas, impensadas e quase sempre perigosas. Observei que havia dois homens dentro do carro. Imediatamente, o motorista abriu a porta e saltou para fora empunhando uma arma. Miserável morador da cidade grande, eu pensei: seqüestro ou roubo? Espiei pelo espelho retrovisor que não havia outros veículos atrás de mim. Engatei a ré, pisei fundo no acelerador e subi pela avenida fritando borracha no asfalto. O incógnito algoz perseguiu-me a pé, descarregando a pistola na minha direção. Chuva de balas. Ouvi os muitos pipocos. Alguns metros de fuga depois, avistei o carrinho azul e branco. Era uma viatura da polícia que descia a rua. Senti um profundo alívio. Certamente, os homens da lei deteriam aquele marginal que me perseguia. Cruzei por eles. Parei. Desliguei a chave e fiquei encolhido que nem tatu sob o volante, esperando recursos. Para a minha surpresa, fui retirado de dentro do meu carro, puxado pelo braço com alguma grosseria. Mãos sobre o carro! Abre as pernas! Fica quieto aí, estelionatário!

Cabisbaixo, vi que o pneu traseiro fora atingido por um tiro proveniente da viatura, providência para que eu parasse, extinguisse a fuga. De forma debochada, o meu caçador comentou com os demais: maldita pistola, não acertei um só tiro!  De fato, o sujeito era um policial civil vestido à paisana. O carro prata sem a logomarca ou sirene da polícia era um veículo utilizado para se fazer as diligências, ferramenta de trabalho da polícia para combater o crime e capturar os delinqüentes. O bandido ali no caso era eu.

Logo juntou muita gente para apreciar o desfecho daquele “pega”. O povo adora uma baixaria. Nem lhe conto. Apavorado com aquele equívoco, temendo uma asneira ainda maior por parte daqueles homens, eu gritei várias vezes, em alto e bom som, para que todos os curiosos presentes ouvissem: o meu nome, onde eu trabalhava, e o telefone lá de casa. Contrariado, rendido, fui algemado, colocado dentro do carro e conduzido até uma delegacia para “maiores esclarecimentos”. Em momento algum, os policiais atenderam os meus reclames para que checassem os documentos. A caminho da chefatura, os trapalhões iniciaram uma tortura psicológica que funcionou direitinho comigo: tive medo sim de apanhar, ser torturado e morto pela polícia. Não confessei nada porque desconhecia o que era para ser confessado.   

Mais tarde, no distrito, o delegado constatou a “operação lambança” dos seus comandados. Eu fora capturado por engano. Passando no lugar errado, na hora errada. “Sinto muito, senhor. Foi mal.” Ele se desculpou comigo, com os três advogados que rapidinho apareceram por ali (êita, povo ágil...), e com a multidão de familiares e amigos que, não custou muito tempo, chegaram ao local. Delegacia, cemitério, hospital... Quantos lugares indesejáveis neste mundo. Quanto mais rápido deles saímos, melhor. O doutor delegado orientou que eu procurasse a tal corregedoria de polícia, caso estivesse me sentido prejudicado ou constrangido com a ação estabanada daqueles homens. Alguém sugeriu que eu processasse o Estado, que pedisse uma indenização milionária, uma compensação financeira por danos morais, que eu deixasse de ser bobo e tirasse proveito daquela trapalhada para fazer algum dinheiro. É... sempre tem um espírito de porco para atazanar.

Felizmente, para mim, o mal sofrido era psíquico. Não apanhei. Se isto ocorresse, de fato, não haveria como relevar o episódio. Eu teria que os denunciar e permanecer firme para suportar as conseqüências. Desaconselhado pelos amigos e parentes, e ainda mais descrente nas pessoas, eu me calei e fui embora pra casa. Na época, eu morria de medo da polícia. Hoje, ainda não confio nela.

A Polícia Militar publicou notas nos jornais da capital desculpando-se pela ação estapafúrdia de um dos seus integrantes que fuzilou, há duas semanas, um jovem cidadão quando este voltava para sua casa. O policial defende-se alegando que foi provocado pelo rapaz, que teria “dado cavalos-de-pau em via pública”, forçando-o a atirar no “pneu do automóvel”. Por sorte, havia testemunhas no local e elas asseguram que não havia motivos para que disparos de arma de fogo fossem efetuados. Não pude deixar de associar a tragédia daquele moço com o episódio comigo ocorrido cerca de doze anos atrás.

A polícia, ao que parece, não mudou. Onipotente, ela continua temida por bandidos e pelos cidadãos de bem. Seria assim uma “over-police”. Ironicamente, há poucos dias, comandantes promoveram um singular evento para aproximar a comunidade da corporação. Crianças e adultos tiveram a oportunidade de conversar com os policiais, conhecer suas rotinas, romper a desconfiança e até passear dentro dos camburões comendo algodão doce. Iniciativa louvável para que a comunidade conheça o cotidiano de trabalhadores que labutam diuturnamente contra o crime. O ofício é insalubre.

Lidar com a violência e com a maldade, embrenhar-se nelas, confunde e brutaliza. Lamentavelmente, o ato impensado e irresponsável de um soldado aniquilou um inocente e feriu para sempre seus familiares. Uma atitude imperdoável que mantém a polícia apartada do coração da gente. 

Bem o disse Guimarães Rosa, médico, escritor, conhecedor das mazelas e fraquezas humanas: “viver é muito perigoso, é o diabo na rua, no meio do redemunho...”.


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