revista bula
POR EM 23/03/2009 ÀS 08:50 PM

Então me excomunga

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Há tempos o sexo é assunto tabu para o ser humano. Exceto quando moramos nas cavernas, época em que não havia diálogo, tolerância, dores de cabeça, e as preferências sexuais eram decididas no muque. Enxertavam as mulheres no cio os machos mais fortes e ardilosos. Carecia enganar a concorrência, ferir e matar (se preciso fosse) para perpetuar a espécie.

Não havia lei, moral, educação autoritária e religiões pedantes a ditarem as regras, criarem limites e assombrarem os viventes. Ainda que ninguém soubesse ler e escrever, a humanidade crescia e se multiplicava, seguindo à risca, no mais puro instinto animalesco, as recomendações que um dia alguém colocaria nas Escrituras. Nem precisava pedir, Senhor.

Há dias um ex-padre goiano foi notícia no Brasil inteiro por ter sido “demitido” pela Igreja. Eu nem sabia que padres eram passíveis de demissão. Não importa. O Vaticano cortou o barato do religioso porque ele flertou, namorou, casou e teve filhos com uma ovelha do rebanho.

A Igreja, de forma atrasada, mandou avisar à comunidade local (quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça!) que todos os eventos e celebrações feitas pelo mesmo durante aqueles anos estariam, a partir daquela data, extintos, anulados.

Crianças que foram batizadas pelo padre deveriam fazê-lo novamente. Casais que tinham se casado sob a sua benção que se considerassem descasados perante Deus e providenciassem as providências para acertarem os ponteiros com a Providência Celestial.

Eventuais enfermos ungidos pelo padre em seus leitos terminais deveriam requisitar a presença de outro representante de Deus, caso ainda não tivessem ainda desencarnado. Se já houvesse partido desta para melhor (ou seja, para o nada), livres destes e de outros debates tão infrutíferos, que os familiares se ocupassem dos trâmites religiosos legais para que os seus entes queridos repousassem tranquilos na mansão dos mortos.

O celibato na igreja católica sempre foi um tema polêmico, mesmo na Idade Média, época em que os religiosos mandavam ver em festas de arromba, orgias e outras recreações libertinas. Não vou me aprofundar no tema, até porque os homens do Vaticano não vão considerar meu ponto de vista.

Eles nem ao menos abençoam o uso da camisinha, artefato de látex importantíssimo na prevenção de doenças sexualmente transmitidas e das gravidezes não planejadas. O Papa Bento XVI está fazendo um “tour” pela África, o continente mais pobre e miserável do planeta, onde a AIDS campeia como se fora gripe, com enorme prevalência. Parece uma provocação do santo homem. 

Até entre os profissionais, o sexo é assunto desconcertante. Comenta-se que, entre os ginecologistas, são corriqueiras a preguiça e o desinteresse em conversar com as pacientes a respeito das suas queixas sexuais. Muitos médicos, durante os questionamentos clínicos (às vezes, cínicos), pulam, evitam perguntas a respeito de sexualidade. Velhacos, eles sabem que dessa moita saem coelhos e outros bichos. Mais prudente, então, aguardar pelas manifestações espontâneas das pacientes. Inseguras, muitas mulheres preferem se omitir.

As revelações incomodam. São situações difíceis de serem resolvidas porque envolvem preceitos íntimos de difícil acesso aos profissionais de saúde. Dizem que alguns doutores fingem-se de surdos e não dão seqüência no assunto. Não tem pílula azul que dê jeito nos grilos e recalques dos médicos e da clientela. O alívio só advém com a palavra, o estudo e o entendimento. Terreno da psicoterapia.
 
Sexo, portanto, é papo corriqueiro nos mais diversos ambientes, desde igrejas e cemitérios, até prostíbulos e mesas de boteco. Na semana passada, um amigo, visivelmente animado depois de entornar a quinta tulipa de chope, contou o quanto era supimpa uma “clínica de massagens” que descobrira nos últimos dias, valendo-se de uma viagem da esposa.

As profissionais do reduto, moçoilas entendidas do baralhado, ofereciam um cardápio variado de “massagens”. Machadinho ficou especialmente interessado numa tal massagem sensual, modalidade em que a contratada esfregava seu corpo nu no corpo do cliente, de tudo que era jeito, antes azeitando, untando o sujeito com ungüentos, óleos aromáticos e outros apetrechos culinários, sem, contudo, consumar-se a divertida conjunção carnal. Animado, Machadinho, que goza (perdoem-me pelo trocadilho) de uma saúde de ferro, descrevia a “clínica” com empolgação de adolescente.

Nós. O sexo. Um padre lascivo. Prostitutas disfarçadas de massagistas. Quanta fantasia... Para se obter prazer é fundamental que ela exista. E fantasia não tem limites. Nem as mentiras que contamos os têm. Vale tudo para perpetuar a espécie, ainda que estas peripécias frequentemente redundem nalgum grau de sofrimento. Também pudera. Não é público e notório que amor e ódio caminham de mãos dadas?  Pois então...


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POR EM 16/03/2009 ÀS 05:06 PM

Notícias quentes direto do inferno

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Em meados dos anos 80, um sujeito contratou um helicóptero na minha cidade e mandou despejar milhares de pétalas de rosas sobre a casa da ex-namorada, a fim de tentar reconquistá-la, se é que seja mesmo possível reacender uma velha chama.

Eu não sei se o protesto perfumoso daquele jovem da alta casta fez com que a moça reatasse o namoro. Pouco me importa. Ficou gravado na memória, contudo, que ele foi o primeiro e único homem a promover uma chuva de flores sobre a cidade. Mesmo os ricos, frequentemente apalermados com efeito de suas fortunas, podem ter boas idéias.

Mais ou menos na mesma época, outra precipitação atmosférica (desta feita, bem mais pobre) chamou a atenção dos goianos. Um grupo de “novos escritores”, do qual eu fazia parte, promoveu um evento denominado Chuva de Poesia. Se não me falha a memória, a iniciativa foi da União Brasileira de Escritores (UBE-GO).

Da mesma forma que o mancebo das flores, um helicóptero lançou sobre o centro da cidade milhares de panfletos com poemas impressos. A chuva, na verdade, foi um chuvisco. Praticamente, uma garoa, considerando-se a longa estiagem literária. A sede por literatura de qualidade já dura anos. Pior de tudo é que o marasmo e a pasmaceira intelectuais perduram. Parece que tão cedo não choverá na nossa horta. E dá-lhe poesia de Cora Coralina!

Ora, cada um tem o ataque suicida que merece... E chuvas de aviões, também. No dia 11 de setembro de 2001, dois deles — dentre outros que se espatifaram em solo norte-americano — colidiram nas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, no maior e mais espetacular atentado terrorista já visto, filmado e reproduzido pela internet (isso sem contar as matanças de guerra, é claro).

Milhares de pessoas, partidárias ou contrárias ao então Presidente Bush, morreram soterradas pelos escombros de concreto e ferro retorcido, um acontecimento que, lembro muito bem, fez-me crer começasse ali, finalmente, o anunciado fim do mundo, a dizimação completa da humanidade, precipitada pela chuva simultânea de bombas e mísseis atômicos com alto poder destrutivo. Pensei que fosse mais fácil destruir o planeta, mas isto não aconteceu.

Nesta semana, Goiânia voltou aos noticiários nacionais e internacionais. Há sempre uma boa má notícia a nos difamar. Temos escândalos para todos os gostos (e desgostos). E olha que a mídia inconveniente não se deveu, desta feita, às mulheres que torturavam crianças, padrastos que fornicavam enteadas, namorados que estripavam namoradas. Um sujeito desequilibrado (mais um, dentre tantos de nós na corda bamba) cometeu uma série de atrocidades dignas de um “tour” pelo inferno de Dante.

Ele atacou e violentou uma criança de 13 anos, espancou gravemente a esposa com um extintor de incêndio (quanta criatividade...), raptou a filha de 05 anos, roubou um pequeno avião monomotor e o lançou sobre o estacionamento lotado do maior e mais movimento shopping da cidade. Só faltou explosão, fogo e nuvem de fumaça.

O inútil atentado homicida/suicida deixou a cidade em polvorosa. Por pura sorte (será?), ninguém em terra morreu. Passado o susto, as discussões agora recaem sobre um velho e maldito assunto: dinheiro. Quem vai pagar a conta dos prejuízos?  Vinte e três carros ficaram destruídos no desastre. Previsão de duradouros embates jurídicos.      
  
 Entendendo que o buraco fica mais embaixo, algumas pessoas sofrem e se afligem tentando compreender o que leva um ser humano a cometer tantas atrocidades, num espetáculo grotesco de insensatez e maldade.

Aqueles que acreditam num ser supremo a monitorar em silêncio as nossas existências terrenas repetem que “falta Jesus no coração dessa gente”.

Os estudiosos da mente humana teorizam que foi apenas mais um surto psicótico, fenômeno comuníssimo na claudicante sociedade moderna, hoje marcada pelo egoísmo, individualismo e culto ao supérfluo. Ou seja, faltam terapia e psicotrópicos nas veias.

Os profissionais da polícia, bravos homens de coração anestesiado, desconfiam que a barbárie se deva a mais uma mente deteriorada pelo corrosivo submundo das drogas ilícitas. Quer dizer, faltam maiores investimentos em Educação e Segurança Pública.

Tolo e simplista como um jovem poeta que, um dia, eu fui, penso mesmo é que nos falte amor. Ou seja, no fundo, no fundo, não é nada de mais.
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 10:30 PM

É só cinco real

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Teodorico é sapateiro e trabalha com seu irmão, cujo nome desconheço, numa minúscula oficina que conserta, não apenas sapatos, mas bolsas, cintos, malas, maletas, frasqueiras, e outros itens do vestuário humano, único animal do planeta que se veste, mente e questiona a divindade. Ele só não conserta mesmo os dilemas existenciais, porque daí a vida perderia toda a graça.

A oficina dos irmãos é feia, desorganizada, mal iluminada, um verdadeiro mistério para mim. Magricelos, os dois trabalham, cada qual num canto da obscura sapataria, encurvados, concentrados nas suas tarefas, monossilábicos e econômicos nos gestos, como sempre.

Enquanto eu aguardava um derradeiro reparo no par de tênis, perguntei ao Teodorico se ele tinha assistido ao noticiário de ontem à noite. Não me dirigi ao seu anônimo irmão, pois ele nunca fala comigo, nem ao menos levanta a cabeça salpicada com cabelos grisalhos para colocar os olhos na freguesia.   

Velhaco, ele me fez lembrar do carpinteiro Gepeto, criador e pai do Pinóquio, ambos personagens de Walt Disney, sorriu sem mostrar os dentes. Ele tinha visto, sim. Dentre tantas notícias ruins, das quais os telejornais se fartam, uma delas pareceu promissora e dizia respeito a um recente fenômeno vivido em terras norte-americanas. Atolados numa profunda crise financeira, os americanos experimentam mudanças substanciais em seus hábitos de vida. O reino da fantasia e do entretenimento parece ter se esgotado.

Teodorico ouviu com satisfação o apresentador contar que os sapateiros da América do Norte estavam se havendo muito bem naquele contexto economicamente crítico. Ao invés de simplesmente descartar os seus sapatos, coisa que os americanos sabem fazer muito bem, não somente com seus pisantes, mas com quase tudo aquilo que usam cotidianamente, como eletrodomésticos, computadores, pessoas e roupas, eles agora os levam para serem reformados.

Nossos irmãos abonados descobriram que seus sapatos, assim como os felinos, podem ter sete vidas, desde que devidamente zelados por um competente sapateiro. Desta forma, além de economizar muitos dólares, evita-se o simples descarte e acúmulo de lixo, um outro problema seriíssimo com o qual já estamos nos defrontando. É tanta sujeira que não tem mais tapete pra encobrir. E não adianta atirar as porcarias dentro de um rio. Funciona que nem remorso: chega uma hora que a coisa bóia e tudo vem à tona.

Ou seja, apesar do contexto inóspito da economia americana (e mundial), as sapatarias estão repletas de clientes interessadíssimos em cortar gastos. Na sua peculiar timidez, o meu sapateiro comentou que jamais ficou sem serviço, e que tem uma clientela “boa demais da conta graças a Deus”.

Teodorico, que é fraco em posses e estudo, como ele mesmo diz, jamais aplicou outra coisa na bolsa, senão cola e presilhas. Da Bolsa de Valores ele nada entende, e nem faz questão de aprender. Talvez, ele se sinta mais seguro lidando com as suas clientes, mulheres detalhistas, do que com um mercado financeiro complexo e irracional.

Por um instante, Teodorico se equivocou, ao chamar Barack Obama, o Presidente dos EUA, de Osama Bin Laden. Todos dentro da oficina riram com desprendimento, inclusive o seu enigmático irmão, que exibiu os dentes marcados de preto e amarelo por conta vício do tabaco. De Osama, não se sabe o paradeiro. Na verdade, nem ao menos se pode garantir que o facínora ainda respire nalgum recanto do planeta. Quanto ao presidente negro, o primeiro da história daquele país, milhões de pessoas depositam as suas fichas e esperanças. Para quem se apega ao Superman e outros salvadores da pátria, Barack Obama parece ser “o cara”.

Com o par de tênis tinindo nas mãos, perguntei quanto fora o serviço, já sabendo a resposta. “É só cinco real”. Trocar o zíper da bolsa. Colar a sola do chinelo. Costurar as bordas de um cinto. Qualquer serviço ou providência: “cinco real”. Paguei. Agradeci. Despedi-me só de Teodorico, já que o seu irmão sem nome escapulira para fumar outro cigarro. Saí dali convicto de que a vida devia mais ser feliz e simples, como parecia ser o caso do Teodorico, o melhor sapateiro destas bandas.
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:33 PM

Vamos todos chutar o pau da barraca!

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Estou lendo o livro “Elogia da Loucura”, escrito por Erasmo de Rotterdam, no século XVI. Considerado um clássico da literatura mundial, a obra é mesmo surpreendente. Narrado na primeira pessoal, a personagem “Loucura” toma vida própria e se gaba o tempo inteiro por estar presente no cotidiano de homens e mulheres. Ironia e sarcasmo são freqüentes no texto, tornando a leitura intrigante e deveras divertida.

Deboches ao casamento, à velhice, aos religiosos, cientistas, artistas e políticos fazem rir e pensar o quanto o assunto soa atual. Ainda não terminei de ler os escritos de Erasmo, mas, se a temática não mudar até o final, estou certo que será um dos melhores livros que já terei lido, fazendo jus à própria fama. Eu, convicto que a humanidade seja majoritariamente demente em muitos de seus atos, encontrei no autor alento e uma cumplicidade singular. Senão, vejamos.

Nos primeiro dias de 2009, o assunto mais palpitante tem sido a famigerada crise do mercado financeiro, a qual, por mais que eu tente, não consigo compreender de jeito nenhum. Não entendo nem a bolsa da minha mulher, quem dirá a complexidade da bolsa de valores... Submetidos que estamos às câmaras de tortura dos meios de comunicação, a todo instante noticia-se centenas, milhares de demissões de funcionários pela indústria brasileira e de vários países do globo.

Quem será a bola da vez? Por onde a lâmina da degola experimentará o seu fio? Quem dormirá empregado e amanhecerá no chamado olho da rua? Fico me perguntando quem se beneficia com a propagação de tanto medo e insegurança. Afinal, o que mais podemos fazer além de levantar todas as manhãs, trabalhar e conter a esdrúxula gastança com o supérfluo? Com tanta frivolidade, fica difícil ter certeza do que seja realmente supérfluo. Não parece mesmo uma coisa de louco?

Escrevo estas linhas nos últimos dias de fevereiro. Goiânia ficou agradável e vazia com a debandada dos foliões. Ruas tranquilas. Trânsito decente, educado. Trégua na delinquência. Estatísticas policiais favoráveis por causa da falta de gente na cidade... Confesso: nunca gostei de carnaval. Nunca gostei, assim, de verdade, do carnaval. Dançar, sambar, pular, jogar confetes e serpentinas, extravasar alegria, cantar as velhas marchinhas ou canções medíocres com letras de significados dúbios e maliciosos.

Na adolescência, eu  e os amigos curtíamos o carnaval nas cidadezinhas do interior de Goiás com um objetivo principal bastante claro: transar. Fazer sexo com as moças desinibidas, numa época em que a camisinha era artigo de luxo dos ricos ou excêntricos, superava o prazer pelo ócio puro e pela bebida (que era regrada). Feios, tímidos e sem dinheiro, quase sempre as incursões amorosas fracassavam e a nossa comitiva (que não comia ninguém) retornava invicta para a capital.

Hoje, embora o rebuliço da massa nos desfiles e festejos de rua pareça um vídeo-tape dos últimos anos, fica aquela sensação que o carnaval, mudou um bocado a sua essência (é incrível, mas estou me sentindo um velho escrevendo assim...). Muitos jovens buscam na festa de Momo, além da prevalente e fisiológica fuleiragem sexual (até aí, tudo normal, não fosse o exagero), os labirintos perigosos das drogas lícitas e ilícitas.

Beber em demasia, tomar todas até cair desmaiado, virou tema de música e motivo de graça e orgulho. Se fosse apenas borrifar o lança-perfume, artifício utilizado com certa ingenuidade nos anos 50 e 60, ainda dava pra entender... Contudo, a moçada mergulha fundo mesmo é no uso da cocaína, do ecstasy, do crack, do LSD, e outras porcarias usadas para se desconectar da vida real. Não é mesmo uma loucura, meu caro Erasmo?!
 
Nada desanima o folião brasileiro e a mídia. Nem a crise, nem a crase, nem o trema ou a falta dele, nem as dúvidas existenciais e aquelas suscitadas pela derradeira reforma ortográfica. Em fevereiro, tem carnaval, e pronto. O resto do mundo que nos aguarde. Nem mesmo os mortos e acidentados nas estradas esburacadas por causa dos motoristas bêbados e dos despreparados nos intimidam.

A violência urbana que inferniza o nosso cotidiano atrapalha, mas não impede a farra. Uma bala perdida acertou o olho de uma adolescente de quatorze anos, numa quadra onde havia ensaio de uma escola de samba. O sangue vazou. A moça está morta. É mesmo uma pena, mas a vida continua, meu irmão. O transe é coletivo. Fica assim combinado: só vamos falar de problemas na quarta-feira de cinzas.

Ai, Erasmo... Será que estou apenas me tornando velho e chato? Esta crônica mais se parece com a balada de um louco...
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 05:07 PM

O que havia de comum entre o Wando e os Beatles?

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Em quem você atiraria os seus tamancos ou alpercatas? Ah, se a moda pega... Do jeito que brasileiro é criativo, sabe-se lá que objeto utilizaria como arsenal de protesto. Ovos chocos e tomates podres são coisas do passado. Tortas na cara já perderam a graça. Eu, por exemplo, cria rasteira do cerrado goiano, usaria como munição caroços de pequi ainda dentro da casca. A pelota verde bem serviria para atingir o alvo com mínima chance de erro, sem baixas civis pelo fogo amigo.

Antes das eleições norte-americanas um jornalista iraquiano, valendo-se de nato talento bélico, arrancou do pé o sapato e o arremessou na direção do então Presidente George W. Bush. Gritando cobras e lagartos contra a autoridade americana, o hábil manifestante ainda teve tempo de sacar o outro pisante para uma segunda tentativa (afinal, todos têm direito a uma segunda chance...). Ambos os projéteis de mocassin passaram raspando pelo estupefato presidente. Demonstrando estar em boa forma física, Bush balançou o corpo duas vezes, desvencilhando-se com sucesso do ataque surpresa (parecia Sugar Ray Leonard no ringue). A cena hilária, apesar de grave, percorreu o mundo todo. Muita, mas, muita gente mesmo lamentou que as sapatadas tivessem errado o alvo. Bush foi um cara mau...

Na semana passada, inspirado no episódio iraquiano, um sujeito valeu-se do surrado tênis para tentar ferir o Primeiro Ministro chinês Wen Jiabao, quando este palestrava na Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha. Os seguranças logo se jogaram sobre o rapaz, cujo nome não foi revelado. Não se sabe ao certo o que motivou o ataque. A ousadia do atirador de tênis fez o Premier chinês arregalar os olhos de espanto.

Na bela canção “Geni e o Zepelim”, Chico Buarque de Hollanda (o bom) conta que uma cidade apavorada se quedou paralisada, pronta pra virar geléia, frente ao ataque surpresa de um Zepelim gigante. Todos, contudo, foram salvos por Geni, o travesti que, heroicamente, aceitou dormir e se lambuzar com o comandante da estranha nave. Após a partida do algoz misterioso, ao invés de gratidão, Geni ouviu do povo o enfático refrão: “Joga a pedra na Geni / Joga a bosta na Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni!”. Entre Geni, Bush e Jiabao, fico com o travesti. Sim. Conforme a letra da música, Geni cativara outro forasteiro: eu.

Wando era um sortudo. Ou não. Quando ídolo da mulherada (casada ou solteira, não havia limites para a libidinosa paixão...), estando no auge de sua carreira artística, o cantor teve o palco alvejado inúmeras vezes por calcinhas vermelhas (em sua maioria) atiradas por fãs ensandecidas. Reza a lenda que o cantor guarda baús lotados com peças íntimas de todas as cores e matizes, novas ou usadas, limpas ou marcadas com corrimento. Explorando o universo brega, Wando deixava as mulheres enlouquecidas e os maridos preocupados. Hoje, longe do charme meloso daqueles anos, o cantor pode se vangloriar da sorte. Embora o mau cheiro seja equivalente, antes sofrer uma chuva de calcinhas do que sapatos, ou cuecas...

No auge da beatlemania, nos primeiros anos da década de 60, os quatro garotos de Liverpool, embalados por sucessos contagiantes e nevrálgicos como “She loves you” e “I want to hold your hand”, sofriam com o arremesso de jujubas, balinhas, gomas de mascar e outros docinhos atirados pela legião de fãs tresloucadas que lotavam os auditórios da Inglaterra e dos Estados Unidos. Equivocadamente, as fãs buscavam, daquela forma, homenagear os carismáticos roqueiros. Em suas memórias, os Beatles relatam que repudiavam o assédio açucarado das moçoilas que algumas vezes provocaram tombos e outros acidentes no palco. Foram doces aqueles anos em que a música funcionava como instrumento de mudança social. Hoje em dia...

Quando já não existem mais entendimento e diálogo nas relações humanas, abre-se um campo funesto para a agressividade, atitudes como aquelas que envolveram os atiradores de sapatos. Para protestarem, para se fazerem ouvidos, muitos radicalizam ficando nus em público, abrindo faixas com palavras de protesto, quebrando protocolos, ofendendo o status quo. Durante o Movimento Hippie na década de 60, a juventude protestava deixando as cabeleiras crescerem, não tomando banho, transando como animais que eram (e somos), e se empanturrando de maconha, LSD e heroína.

Cada qual sabe onde lhe dói o calo. Cada qual emprega as armas que têm. Há que se tirar proveitos dos incidentes, como os ocorridos com Bush e Jiabao. Que os políticos jamais se afastem do povo, fazendo-se de surdos aos seus clamores mais legítimos, sob risco de se transformarem em alvos ambulantes. Wando e os Beatles foram exceções e gozavam de algo em comum: o amor incondicional dos fãs.


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POR EM 02/02/2009 ÀS 06:07 PM

Crise

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A água que bebemos das torneiras de casa deve estar envenenada. Penso que andamos tão afetados emocionalmente que esta hipótese até seria plausível. Por onde passo encontro gente triste, descrente com as coisas do viver, à beira de um colapso nervoso. “Vou levando”. “Tô na briga”. “É como Deus quer”. Amiúde, é o que se ouve nas ruas.

Com esta estória então de “crise econômica globalizada” não se fala noutra coisa senão nas desgraças iminentes. Não há quem se abstenha em reclamar. Parece que vivemos um muro das lamentações generalizado. Pessimistas convictos esperam o pior. “Você vai ver só”. Alguns garantem que a crise já está entre nós e vai piorar muito... “Só não enxerga quem não quer”. Cegos de medo, miramos o perigo com lunetas premonitórias. Nunca estivemos tão acovardados.

Talvez, o maior responsável pela atmosfera negativista que paira sobre as cabeças seja Gutenberg. Sim, Gutenberg, o alcunhado “Pai da Imprensa” (ou, pelo menos, o “Pai da tipografia”...). Desde a difusão das primeiras notícias, a humanidade avançou em todas as áreas. O poderio dos meios de comunicação é monstruoso e não encontra par na sociedade. A confusão é grande: informação e manipulação se mesclam numa combinação repugnante. Inferir da notícia o que ela guarda em essência é inviável à maioria de nós. Para uma comunidade iletrada, então, vale o que está dito ou escrito, literalmente.

Felizmente, pouco tenho assistido à televisão. Quando o faço, sintonizo os noticiários que hoje em dia mais parecem o diário do capeta. Tragédia pouca é bobagem. É difícil filtrar uma notícia promissora. Fica sempre aquela amarga impressão (talvez, realista demais) que o mundo é uma desgraça absoluta. Cinicamente, os editores reservam um tempo ridículo ao final dos noticiários para amenidades como receitas gastronômicas, dicas de moda, futilidades futebolísticas, idolatria barata a um popstar e outras tapeações para “quebrar o gelo”. É uma prática tacanha à altura da subserviente audiência.

Quem sabe se o culpado pelo baixo astral seja eu próprio. Outro dia, uma amiga telefonou muito preocupada. Leitora assídua das minhas crônicas pela internet, a moça podia jurar eu estivesse depressivo, dado ao sabor amargo das mesmas. Amiga, não se preocupe. Sinto-me feliz com a sua leitura e zelo. Você captou bem, mas não quero tomar raticida (ainda). Tão somente ando cético com o ser humano, criatura vil.

Enfim, alguma coisa está fora da ordem. Se o problema não está na água das torneiras, na saga de Gutenberg e seus sucessores antiéticos, ou na minha repelente aura, onde estaria? Quem sabe, um impensável raio-trator emitido por naves alienígenas esteja nos deixando alterados em doses homeopáticas. Quem sabe, um complô universal advindo de criaturas de outras galáxias esteja em curso a fim de frear o ímpeto destruidor da humanidade sobre o meio ambiente e sobre si própria.

Sei lá, toda bobagem merece algum crédito. Encontramos no sobrenatural e no esoterismo a tábua da salvação, muito embora não consigamos nos abraçar sem desconfiança. Talvez o mundo seja assim mesmo e pronto: plural e ilógico. O diferencial é que na atualidade contamos com a rapidez dos meios de comunicação que difundem as virtudes e as malfadadas ações dos homens a todos os rincões do planeta. Amostragem viciada? Somos assim mesmo tão ruins?

Talvez, a constatação do quanto somos hipócritas esteja nos corroendo por dentro e nos tornando ensandecidos, consumidores contumazes de cápsulas e comprimidos tranqüilizantes, um bando de gente assustada e sem perspectiva de melhoria nas relações humanas.

Quem sabe, não seja nada disso, e as minhas aflições sejam infundadas, e eu esteja apenas carecendo de um competente psiquiatra. Ou de um ombro amigo. Ou de um copo de uísque. Ou de todas estas coisas juntas. Deve ser isto...


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POR EM 26/01/2009 ÀS 02:28 PM

1001 motivos para continuar vivendo antes de morrer

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Freqüentar livrarias produz em mim o mesmo efeito que as lojas de doces e brinquedos produzem nas crianças. Ou seja, prazer e bem estar. Um derrame de endorfinas nos cursos de veias e artérias. Da mesma forma que nem toda guloseima agrada ao paladar, há livros ilegíveis. Aos desavisados, o risco de se cair nas armadilhas de capas bonitas e luxuosas, ou títulos impressionantes, é real e constante.
 
Estão na moda as publicações que remetem aos “100 Mais”, aos “1000 Mais”, aos “1001 Mais”... É a necessidade humana de comparar e medir talentos. Por exemplo: “1000 Lugares Para Você Conhecer Antes de Morrer”; “1001 Livros Para Você Ler Antes de Morrer”; “1001 Filmes Para Você Assistir Antes de Morrer”; e por aí vai...

Embarcando na descartável nau das milhagens, tive vontade de escrever algo a respeito das “1001 Mentiras Pra Se Contar Antes de Morrer” ou das “1001 Crenças Nas Quais Se Agarrar Antes de Morrer”. Mas acabei ficando mesmo com “1001 Motivos Para Continuar Vivendo Antes De Morrer”.

Se algum leitor se der ao trabalho de contar os motivos citados, vai constatar que não somam um milheiro. Aliás, passam bem longe disto. Não sei ao certo porque não contei. Tão somente saí escrevendo e pronto; atento ao limite de caracteres imposto pelo editor desta revista. Técnica de “brain storm” (tempestade cerebral ou tempestade de idéias). Adianto-lhes que não redigirei uma “ crônica Parte II” e dedico esta minha lista aos que se angustiam ao buscar compreender as razões (se é que elas existem) pelas quais vivemos. Ei-la, pois:

Freqüentar livrarias, sebos e lojas de brinquedos. Ler à exaustão. Brincar. Comer docinhos. Gozar do pleno exercício dos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Ser bem quisto pelo sexto sentido das mulheres (além dos outros cinco). Reunir idéias e as materializar no papel ou no computador, escrevendo. Ter os seus textos lidos, principalmente, por desconhecidos, e neles incutir reações fisiológicas as mais diversas.

Abandonar a cidade. Isolar-se. Ser um ermitão. Acordar com um raio de luz do sol no rosto, que se espreita pela fresta da janela. Abrir a taramela desta janela e enxergar um rio. Rir sozinho. Nadar num dia calorento. Deitar-se na rede. Assistir à chuva. Matar tempo com requintes de crueldade. Pescar apenas um peixe para o jantar. Perder-se na contagem de estrelas. Ficar assim meio perdido sem saber o que fazer da vida. Andar descalço. Carpir a terra e dela fazer parte, antes da própria morte. Sujar-se com o barro. Catar fruta no pé. Lambuzar as mãos com manga. Pedalar sem rumo.

Mentir só as mentiras inofensivas. Não provocar dor nem com as mãos nem com as palavras. Dominar um auditório lotado. Fazer-se ouvido. Mudar a vida de alguém com o que se fala. Recriar. Reinventar. Convencer. Fazer boa história.

Abraçar quem se gosta. Repelir os chatos. Fingir-se de morto, se preciso for. Ficar sozinho sem enlouquecer. Fazer loucuras inócuas.

Comer. Comer alguém sob expresso consentimento e desejo. Fazer sexo quando tiver vontade. Não fazer sexo, se preferir. Ter orgasmos. Mesmo feio, sentir-se o mais belo exemplar na face da Terra. Amar, posto que o amor é chama. Ler a poesia de Vinícius, Drummond e Mário Quintana. Decorar um poema. Invejar versos e rimas. Emocionar-se profundamente ao ler um belo texto.

Sentir saudades de um lugar ou pessoa. Matar saudade sem misericórdia. Ouvir música e estremecer. Solar instrumentos imaginários. Ouvir uma canção e viajar no tempo. Crer que Deus possa mesmo ser uma combinação de notas musicais. Cantar em banheiros e outros cômodos da casa.

Ter como patrimônio invejável tão somente um lar. Possuir algum dinheiro. Pagar a quem se deve. Quitar uma última prestação do financiamento. Fazer do dinheiro apenas um instrumento. Ser solidário com os desesperados e lhes dar guarida.    

Visitar gente velha. Abandonar os relógios à própria sorte. Atrasar-se. Ser escravo de si mesmo. Seguir apenas as regras mais básicas da sociedade organizada. Questionar a intransigência do síndico, do prefeito ou do presidente da república. Votar num cidadão decente. Ser delicado em reuniões de condomínio.

Sair andando de um hospital. Tomar analgésicos. Tomar um chope. Tomar banhos de chuva. Tomar a noite como parceira. Mandar um canalha tomar no cú. Tomaras-que-caiam para todos os gostos. Urinar, cuspir e defecar.

Ler filosofia. Buscar a verdade. Questionar os dogmas. Fazer um padre chorar com tantas dúvidas. Ter uma crença que lhe acalme os nervos. Abominar agremiações religiosas. Descrer dos céus e infernos. Não confiar tanto assim na reencarnação. Viver a vida como se fosse a sua única chance. Vencer o tédio. Acordar com vontade de vestir uma roupa limpa e enxergar a luz da rua. Sentir paz. 
 


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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:36 PM

Pensamentos contaminados

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O calor insuportável parecia fundir os miolos. Tanto assim que pensamentos desconexos e ilógicos brotavam na minha mente feito um surto. Eram duas horas da tarde. Trânsito louco parado à minha frente. Motoristas estáticos, estressados, músculos fermentados com adrenalina, peles suadas em visgo apesar do ar condicionado ligado no último pique.

“Jogue suas mãos para o céu / e agradeça se acaso tiver / alguém que você gostaria que / estivesse sempre com você / na rua, na chuva, na fazenda / ou numa casinha de sapé”.

Dentro daquele contexto tão insalubre, a canção antiga do Hyldon parecia a trilha sonora mais apropriada. Tanto assim que aumentei o volume do rádio, batuquei os dedos no volante e cantarolei, dando uma pausa à própria angústia. O motorista do carro ao lado, companheiro de prisão temporária, balançou a cabeça em sinal de desaprovação. É assim mesmo, vivemos para por defeito na felicidade dos outros. Impaciente enfiou a mão na buzina tentando fazer o congestionamento à sua frente evaporar. É claro que a apelação não fez o trânsito andar, mas contribui com o caos.

Há cenas do cotidiano que ainda me surpreendem. Surgido assim do nada, um homem passou entre os carros carregando uma enorme harpa sobre o ombro. De tão surreal, a imagem até parecia uma tela de Salvador Dali.  Não enxerguei o seu rosto, escondido atrás do instrumento. Logo, não pude precisar que idade teria. Eu sabia que era homem por causa das roupas que trajava. Pelo caminhar fazia supor tratar-se de um homem mais velho, um idoso, quem sabe. Em vão, estiquei o pescoço na tentativa de visualizar o seu rosto, mas ele dobrou a esquina.

Quando a gente observa detidamente o comportamento das pessoas nas ruas e calçadas de uma cidade grande como Goiânia, ficamos ainda mais convencidos do quanto vivemos uma rotina tola. A terrível sensação de representar um quase nada no contexto metropolitano dá margem ao desvario.

Hoje em dia, nos principais semáforos da capital, há sempre um bando de gente distribuindo panfletos. A Prefeitura Municipal tentou coibir a ação dos panfleteiros, mas não deu conta. Liberou geral. Espírito natalino ou incompetência? É papel à beça. Folders muito bem produzidos para convencer as pessoas a comprarem aquilo que nem precisam. Movidos pelas metáforas alvissareiras do Presidente Lula, que pediu para o povo comprar e comprar e comprar, a onda consumista está aí, com ou sem enxurradas, com ou sem bolsas quebradas.

Nas vésperas das festas de final de ano, então, ficamos endemoninhados para demonstrar o nosso amor gastando dinheiro, presenteando as pessoas que gostamos (e até aquelas que nem gostamos tanto) como se fora um pedido de desculpas por termos sido tão negligentes de carinho durante o ano inteiro. É mais fácil dar um panettone do que um abraço.

Eu até preferia estar na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapé. Mas não dava. Dos versos do poeta, acabei ficando mesmo foi com a rua. O povo anda tão demente que eu chego a me perguntar se o problema não está na água que chega até as torneiras dos moradores. Quem sabe, um veneno diluído, resultante de reações químicas impensáveis nas estações de tratamento de água, esteja deixando todos fora de juízo.

Não conheço as estatísticas, mas tenho convicção que nunca estivemos tão mentalmente adoecidos. Síndrome do pânico, transtorno bipolar, depressão. Doenças sem germes. Micróbios que não se enxergam com lupas e microscópios. Quisera nossas neuroses fossem tumores palpáveis, factíveis da compaixão de pinças e bisturis. Pudera cortar o mal pela raiz e sermos felizes. Se não pela busca da felicidade, por que estaríamos penando neste planeta?  

Já fazia dez minutos que estava preso no congestionamento. Os delírios, sim, continuavam bem soltos. Algum acidente teria bloqueado o trânsito mais adiante. Que fosse, ao menos, um acidente grave, com vítimas fatais, uma tragédia que justificasse tamanho transtorno à cidade. Tanta raiva sentida por causa de uma batidinha besta? Apenas danos materiais? Ah, não... Isso não. Merecíamos coisa pior. Corpos mutilados sobre o asfalto quente. Sangue na sarjeta. Pedestres curiosos assistindo às vítimas agonizantes. “_Ninguém toca nos corpos até a chegada do resgate!”, alguém teria alertado.

Aproveitando a sede e a desordem, ambulantes formigaram vendendo água mineral falsa e bilhetes de loteria. Ah, seu eu ganhasse o Primeiro Prêmio... Empanturraria os bancos com dinheiro. Porque, este sim, é provedor de segurança e felicidade. Só não traz mesmo a paz de espírito, porque aí já seria pedir demais.

Por onde andaria aquele misterioso homem e sua harpa?


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POR EM 01/12/2008 ÀS 06:08 PM

Temores submersos

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O que mais ficou submerso no dilúvio que se abateu sobre o Estado de Santa Catarina, além dos cadáveres de animais e pessoas, dos móveis, carros e utensílios? O que mais a água e a lama encobriram além da matéria viva, dos erros e dos acertos, dos sonhos dos flagelados?

Assisti recentemente ao “Ensaio sobre a cegueira”, um filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago. Aconteceu de novo: gostei mais do livro que do filme. Suspeito que esta sensação seja freqüente quando assistimos aos filmes baseados em obras literárias.  

Após a sessão, na saída do cinema, notei que muitos acharam o filme agressivo, deprimente, nojento, um completo exagero, enfim. Associações de deficientes visuais em várias partes do mundo manifestaram indignação com a trama, supostamente preconceituosa com os cegos. A película gerou tolas polêmicas. Quase sempre é assim: muitas pessoas se limitam a discutir e polemizar a superfície, o invólucro, caindo na armadilha do viés, divagando no vácuo, deixando de captar a essência.

No Vale do Itajaí, em Santa Catarina, câmeras e lentes registraram o caos provocado pela chuva além da conta. No conforto e na secura da minha sala de estar, dá para imaginar (e temer) o sofrimento de quem teve a casa invadida ou devastada pelos turbilhões de água. O drama é, sem dúvida, maior para os moradores dos bairros pobres, que não têm onde se refugiar, não têm parentes importantes e vivem no interior (eu furtando versos do compositor cearense Belchior). Eles não possuem reservas bancárias, nem guardam dinheiro dentro dos colchões agora encharcados pela chuva. Choram, rezam, lamentam, aguardam adjutório dos governos e de Deus.

A imprensa flagrou, por outro lado, os saques perpetrados pelos desabrigados ao comércio local. A multidão não visava apenas à água potável, roupas e alimentos. Muitos surrupiavam televisores, aparelhos de som e outros eletrodomésticos que, dentro daquele contexto dantesco, certamente não teriam a menor valia. Faltam energia elétrica e água potável. Alguns também penam com a falta da fé no poder público e na divindade.

A comparação foi imediata: aquelas cenas remeteram-me, imediatamente, ao surreal filme de Fernando Meirelles. Uma coisa puxa outra: lembrei também da literatura fantástica do pouco reverenciado escritor goiano José J. Veiga, no seu inesquecível “A hora dos ruminantes”. A estória do livro é igualmente dramática e aterrorizadora. Estimulado ao extremo, passei a ruminar pensamentos hipotéticos...

De que forma cada um de nós reagiria à desordem e à anarquia? As tragédias impostas pelas guerras e pelos fenômenos naturais (chuvas, terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis) colocam em teste definitivo o comportamento humano. Arruína a calma da gente imaginar como nos comportaríamos sob tais circunstâncias.
Quão rígidos seriam os nossos escrúpulos frente à fome, à sede, ao frio ou à grave desesperança no futuro?

Quantos de nós, alcunhados cidadãos de bem, roubariam ou feririam mortalmente para garantir sobrevida aos filhos e a si mesmo? Qual o meu, o seu limite? Quantos buscariam na morte o alento para os sofrimentos físico e moral? Quem mataria por amor ou misericórdia?

Ler os livros de Saramago e Veiga, assistir aos filmes de Meirelles e outros bons cineastas, tudo mexe com o imaginário das pessoas. Alguns preferem não fazê-lo, com medo dos pensamentos decrépitos. Muitas vezes pensamos coisas horríveis em nossas mentes que mais parecem masmorras. O cérebro humano, elo entre o viver e o desaparecer, é mesmo um órgão misterioso, indomável. Felizes daqueles que passam pela vida sem sucumbir às dúvidas existenciais.

O cenário apavorador do “Ensaio sobre a cegueira”, apesar de fictício, parece uma ameaça em nossos calcanhares. Basta reparar nos danos proporcionados pela humanidade ao meio ambiente. Temperaturas globais crescentes, calotas de gelo derretidas, chuvas demais ou de menos, escassez água potável, racionamento de comida...

Recomenda-se não menosprezar o potencial virulento do ser humano. Tomara que as tragédias inventadas pela literatura e pelo cinema jamais vivifiquem. Afinal de contas, estamos muito mal acostumados aos finais felizes.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:49 PM

Fico feliz por te ver assim tão triste

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“A minha vida está se desmoronando, e as pessoas estão se divertindo muito com isto. Mas eu não perco a dignidade. Continuo trabalhando.” Li esta declaração de uma jovem atriz brasileira que anda metida numa série de problemas pessoais, fartamente explorados pela mídia. Lembrei-me do que disse o cantor e compositor John Lennon, numa fase da sua vida em que nada parecia dar certo: “Ninguém o ama quando você está por baixo e por fora”.

Não é preciso ser filósofo nem antropólogo para teorizar a respeito do viver e do fenecer. Até mesmo os crápulas, nas suas ínfimas pausas de maledicência, devem fazê-lo. John fez parte da cultura pop em sua época, deu o seu recado e nos legou boa música e mensagens humanitárias que muitos menosprezam ou insistem em não captar. Quando foi baleado na porta do Dakota Hotel, o ex-beatle pagou com a própria vida o preço pela incompreensão e pela intolerância.   

Com vocação para a inveja e a crueldade, nós crescemos interessados nos revezes uns dos outros. Não foi assim na infância? Nos embates e estripulias com os vizinhos de rua? Nas disputas disfarçadas e humilhações dentro nas escolas? Zombamos do menino quatro-olhos, da menina dentuça, dos gorduchos e dos orelhas-de-abano. Insistimos nas troças até fazer chorar. Sorrimos do sofrimento alheio com semblantes apalermados, comemorando, intimamente ou de forma indisfarçável, o mal que recaía sobre terceiros. Em matéria de maldade, somos bons demais da conta.

O espetáculo da dor e do fracasso presta-se ao regozijo de muitos. Não é por acaso que as revistas que publicam os escândalos dos famosos vendem aos borbotões, enriquecendo seus editores, alvoroçando a energúmena massa. O febril interesse pelas tragédias é surpreendente, mórbido, digno da imersão de psicólogos e demais estudiosos da mente e do comportamento humanos. Para a maioria de nós é prazeroso assistir às autodestruições. Um cantor viciado. Uma atriz alcoólatra. Um pastor pedófilo. Habitantes do fundo do poço. Palhaços que somos gostamos mesmo é de ver o circo pegar fogo.

 Durante a vida crescemos adestrados sob padrões e regras, a fim de nos adaptarmos à convivência social sadia e, digamos, normal. Há muitos vieses. Aprendemos a valorizar o supérfluo como se ele fora o essencial. Com aguçados cinco sentidos, reparamos em defeitos e imperfeições aos quais nos julgamos imunes. Valorizamos com tal exagero as aparências que a vida vai ficando assim superficial e sem sentido. Apegados aos bens materiais, tocamos a vida como se fosse uma viola faltando algumas cordas. O som fere os ouvidos, no entanto, acreditamos fazer um concerto e tanto.

A frivolidade e a devoção ao dinheiro são ensinadas dentro e fora dos lares, por pais ausentes e as maravilhas da tecnologia, naquele esforço colossal para suportar a desunida família e manter as aparências. Não é à toa que a filantropia é ofício de uns poucos abnegados. Gastar o próprio tempo ajudando estranhos parece pouco atrativo. Muitos, julgando-se baluartes da benevolência e do desprendimento, desprendem sim algumas moedas nas mãos miseráveis dos mendigos e pedintes que lotam as portas das igrejas e os semáforos das cidades. Entregamos as quirelas por piedade ou por medo?

Para se sentirem melhores, alguns cidadãos abonados fazem doações vultosas às entidades carentes, como se elas carecessem apenas de dinheiro. Os milionários fanfarrões, que garantem preferir o anonimato, salpicam sobre os desafortunados as migalhas de seus quinhões, ao invés de “desperdiçarem tempo” ouvindo, dando atenção sincera, ensinando, aprendendo a viver.

Nas minhas divagações de escritor, e nas incursões silenciosas de um ser vivente, eu me esforço para entender a condição humana no planeta. Tudo parece uma equação complexa e sem um fim que a justifique, aquela mesma sensação que me afligia nas aulas de física e matemática da infância. O professor, criatura boníssima das mais injustiçadas no Brasil, acabava dando uma forcinha e chegávamos a um resultado. A conta era exata e sempre fechava. Mas agora é diferente. Meu antigo professor já nem existe mais, senão em fotografias e na memória dos seus familiares, amigos e ex-alunos, como eu. Quem vai então se apiedar de mim e revelar uma valiosa dica?


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