revista bula
POR EM 25/06/2012 ÀS 11:40 PM

Um sorriso emoldurado

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A foto é um instante eternizado de ausências. O recorte de um momento para ser dividido com quem não participou da celebração ou do luto por motivos importantes, mesquinhos ou corriqueiros. Uma viagem, doença, trabalho ou até mesmo porque ainda não nos conhecia ou preferia esquecer. De qualquer forma, a revelação de um genuíno altruísmo e também a acusação venenosa de vingança: não estávamos lá.

É impossível descobrir o desenrolar e o prelúdio do ápice. Ficamos restritos àquele fragmento congelado de tempo. O vestido branco eternamente imaculado, os lábios vermelhos emoldurando o sorriso de comercial, enquanto a renda nos braços esconde com o trançado translúcido dos fios a pele exposta no decote das costas. Olhando com mais atenção, talvez uma solitária pinta no emaranhado de pixels. 

No mais, apenas dúvidas. Talvez o vestido tenha manchado com o vinho, o batom borrado com o beijo e as costas arranhadas pelas unhas. O registro é a perpetuação de um instante em uma vida efêmera e muito mais rica, mas o suficiente para despertar certezas nos protagonistas e interrogações na audiência.


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POR EM 19/12/2011 ÀS 02:39 PM

A enfermeira histérica e a nação infantiloide

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O estado patriarcal deste início de século XXI transformou o homem moderno numa massa uniforme de insegurança. O isolamento predominante nas grandes metrópoles modificou o caráter social do ser humano, despertando uma carência afetiva que precisa ser alimentada no mingau ralo dos substitutivos emocionais. A internet e os animais de estimação acabaram assumindo o papel de companheiros matrimoniais. Não é de se espantar a onda de indignação que varreu a grande rede após a divulgação de imagens de uma enfermeira espancando até a morte um cachorro da raça Yorkshire, em Formosa, no Estado de Goiás, na sexta-feira, 16.

O filósofo Janer Cristaldo abordou a estranha relação entre homens e animais no livro “O Paraíso Sexual Democrata”, uma ácida análise da social democracia na Europa e especificamente na Suécia. Ele cita a legislação alemã como um exemplo de desvirtuação proporcionada pelo politicamente correto no estado de bem-estar social. “A lei dispõe que um cão pastor necessita de 12 m² para habitar, enquanto um imigrante necessita de apenas 8 m²”. Citando o zoólogo Desmond Morris, o livro toca no ponto central do drama infantiloide vivenciado pela população dos países desenvolvidos e em ascensão econômica: “Afeto todos têm a oferecer, o problema é recebê-lo. O cão aceita incondicionalmente toda ou qualquer manifestação afetiva, sadia ou neurótica, expressada em pontapés ou afagos. Daí seu status”. A quebra dos laços sociais alçou os animais de estimação à categoria de senhores absolutos. Não se aprende mais lições de vida com iguais, mas com cachorros e gatos, como atestam best-sellers como “Marley & Eu” e a incontável soma de genéricos da mesma lavra que tomaram de assalto as prateleiras das livrarias nos últimos anos. Cães e gatos muitas vezes recebem uma fatia maior do orçamento familiar do que os próprios filhos, isso quando eles não são completamente substituídos pelos seres de cauda. 


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