revista bula
POR EM 06/10/2008 ÀS 07:38 PM

A orquídea e o punhal

publicado em


I

Ora dirás (Orq): - Quando? 

Eu (Pun): - Sempre! Tua boca na minha, a brusca tensão dos corpos, um sobre o outro, chama! Ardência em numes de lusas esferas, sob castiçais e a extrema ternura dos beijos das partes se tocando, na ávida loucura dos querubins se possuindo entre a escuridão dos céus e a estranha luz dos infernos.
 
II
 
Ora, direi(Pun): - Queres?
 
Tu (Orq): - Sim! Com toda força, volúpia, ardor e sangue de tua boca, teu corpo, sinuosa serpente percorrendo suavemente os labirintos meus. O jardim, a muralha, o estóico arbusto de minha Casa.
 
III
 
Ora indagarei (Pun): - Amas-me?
 
Tu (Orq): - Por toda eternidade! E o éden redivivo da concha, do milagre escuso de minhas entranhas; Não, não somente assim, mas muito mais com o veludo e os pêssegos de minha língua sobre a tua pele, o intimo pais de teu incêndio! Sobretudo com minhas alvas mamas roçando tua face de cerâmica chinesa, teus lábios, tua Casa, a máscula extensão de teu império.
 
IV
 
Ora dirás (Orq): - Tens amor?
 
Eu (Pun): -Muito, como ninguém! Às vezes, como nunca alguém teve em toda a existência humana sobre a Terra! Como nunca mortal algum ousou ter; Assim, talvez, como um bicho, um animal selvagem lambendo sua cria, sua voraz e sacra sensibilidade anímica!
 
V
 
Ora direi(Pun): - Virás?
 
Tu (Orq): - Sim! Pelas manhãs bordadas em sangue, em girassóis luminosos, pelas manhãs derramadas em uvas em sangria de trompas romanas enchendo de sopro o ar, a danura dos arcanjos louros, da escandinava possessão de Deus e o Diabo!
 
Virei pelas manhãs de teus deuses ou teus demônios, sempre! Como a serpe e a sua sapiência milenar, corrompida pênsil a sua frágil tentação; E não haverá nessa a ausência senil do fogo, da tara, dos pêlos. Mais que isso, haverá muita sede, vontade e loucura abismal; E o fôlego dos súcubos com certeza dominará minha alma, Far-se-á sobre a sede medieval de minha carne minha natureza aberta, nua recendendo a figos, a cheiro da terra, servida, pois a teu jantar, e não haverá retorno e não haverá receio e não haverá suspeita; Apenas o teu corpo e o meu subirão aos céus, ao delírio ad-mortis do gozo, do prazer eterno!
 
VI
 
Ora dirás (Orq): - Quem?
 
Eu(Pun): - Aqui! Sempre eu, meu amor, minha divina escuridão de tua luz! Canto noturno, ò Orquídea, quebrando o cristal da infância de tua explosão carnal, teu infinito desejo!
 
VII
 
Ora direi (Pun): -Tesão?
 
Tu (Orq): - Chama! Fogo! Explosão de amor! Luxuria, queda, estrondo de pássaros, de asas se partindo, se arrastando nos parapeitos das janelas nos vitrais, nas correntes das águas inundando vales, os canais do coração!
 
VIII
 
Ora diremos (Orq e Pun): - Vamos! Entreguemo-nos! Tu e eu, Orquídea e punhal, nesta noite, neste tempo onde sombras, então perdidas nos lodos dos barrancos dos rios dardejam (em fúria) suas tempestades, seus pecados, a sórdida dor de suas taras rangendo sob as lunetas da tarde e suas alucinações!
 
IX
 
Ora dirás (Orq): - Até quando?
 
Eu (Pun): - Até sempre! Por toda a existência! Lado a lado, corpo a corpo pela maldita e divina ansiedade de nossas entranhas, de nós mesmos o Alfa e o Omega de nosso êxtase!
 
X
 
Ora diremos (Pun e Orq): - Sim, vamos! No ar, na obumbra luz deste amor terroso! Desta glória, ao sublime instante, agora! Ouve ò Orquídea nos aros da tempestade suas brigas de vento incendiadas, Noturno numero 2! Ouve, ò candura, é Chopin! Sim, é Chopin! Só mesmo Tu, ò clara natureza podes compreender este encanto, este inferno de prazer! Só mesmo tu!
 
Não, não tão rápido não somente assim; Ao contrário, muito mais do que nos entregarmos deste modo um ao outro melhor perpetuar o prazer, a caldeira descomunal de nosso desejo, aquela em que Deus num momento de insana “claridade” empurrou para sempre Lúcifer!
 
Melhor, sobretudo é sabermos.

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POR EM 19/08/2008 ÀS 11:55 AM

Os mortais

publicado em

Chega um tempo em que as ervas medram, crescem como praga invadindo o quintal, o pátio, trepando, com fôlego, nos muros, nos vãos e caibros da casa; e é nesse tempo que as flores, e suas pétalas, murcham e mais parecem faces chupadas, secas em covos de melão, exalando, no pó do ar ferroso, seu aroma de pudim retraído, regado a louros de um sopro que, pastoso e ferido, aderna à lágrima dos arvoredos em chumaços de chapéus sombrios; chega um tempo em que o existir é o inexistir, em que o real, de tão real, real não nos parece, em que, em suma, em nossa porta ouve-se o soar do bater do punho de um espectro visível, cruel e insensível em seu modo, em sua troupe de arcanjos agônicos; e é nesse tempo, justamente nesse tempo, que a angústia nos toca, nos sangra, inaugurando em nós, a farsa do abandono, dos dias sem sol, sem chuva; e é por isso mesmo, nesse tempo, que a dor de estar ausente, embora apensa aos “slides” das horas, à vida em libélulas de som, nos visita, com sua legião grega e seus soldados precisos em suas lanças, em seus elmos, em suas cnêmides; e não nos é concebível a lâmpada de elidir o que de ruim nos é imposto, ainda mais e quando elas, as urtigas, povoam nosso corpo e em nós fazem vibrar a nênia de uma raça primitiva, oriunda, é certo, dos confins da Mongólia; e é aí, meu Deus, que o ser não sabe ser e, por ser o que já não sabe, passa ser a força e os elos da serpente do Nilo, a naja, talvez, ou a víbora que, por Marco Antônio, um dia mordeu Cleópatra. Chega um tempo em que a nossa casa é pura teia e nossos móveis, abandonados, frouxos no escuro de suas formas, encostam-se pelos cantos, e não há viv'alma que ali não pressinta o defluir da vida, do que pensa ou pensou; chega um tempo em que tudo é vácuo, e nada é explicado a nada; e fora, ou é, nesse tempo que se encontrava eu, Pedro, Ana , minha irmã, e Thiago, meu pai; e fora muito antes desse tempo que Maria, minha mãe, deixou de existir, se é que existir era estar ali, era estar aqui, era “nascer” para além do sol, do abstrato em que nossos olhos cabem; e fora, ainda, por esse tempo afora que meu pai, juntamente comigo e Ana, pôs-se a ruir na faúlha do que naqueles dias se alongava; e vendo ele que as teias, as traças, os escorpiões, a tudo cobriam, e sentido, no peito, o vazio se erguendo, se construindo, à sonata empírica dos bruxos, das sombras em estado grávido, entendeu que a nós fora dado o direito livre de escolha, entre existir e inexistir.
 
Crente, então, nessa fé, e diante de tamanho desespero, desceu conosco àquelas terras vermelhas, por dentro da mata vermelha, à espera de ali encontrar a grande fonte, ou seja, o verdadeiro sentido de existir; e ficamos, assim, vagando em círculo; e, quanto mais andávamos, mais a mente se nos apagava, se nos diluía. Vagamos durante vários dias até que, de repente, nos vimos debaixo da porta, da gigantesca porta que dava entrada para o vale, o fantástico vale de luz e ilusões, que mais parecia um pulmão se inflando, se aquecendo, num processo de inspiração e expiração.
 
À medida que avançávamos, à medida que o tempo chegado ficava para trás, em nós o coração se encantava, enraizava-se com sopro de flautins dourados. Com muito susto, assombro que aos deuses desperta, flagramo-nos no colo daquele reino, daquele vale enunciado em framboesas e alfazemas, onde, carregadas, as jabuticabeiras pendiam-se frouxas, sedosas, e as parreiras, enquanto verdes e molhadas, exsudavam em seu suor, em seus pêlos de cachos copuliformes, sensíveis, enfim, ao vento amaciando as têmporas, os figos, num estremecer de espumas oleosas; a luz, naquelas bandas, era dócil, tênue como a face de um deus; e era dela, de sua aura esmagada em ponches de maçã, do ventre de seus fios em marfim, que a Grande Mão se edificava e em salmos de sangue proclamava a aurora com sabor de pêssegos carnudos; e fora lá nesse tempo, muito longe do tempo chegado, que encontramos a fonte da magia ocidental, dos pífaros aguados em percucientes de brisa, a jorrar a água que deifica e fortalece a herança da alma na Terra; e fora dela, do esguicho de suas águas em arco-íris e, terminantemente, à poeira luminosa vazando as asas das crisálidas em festim, que bebemos, saciamos nossa sede; mas, como no espaço se concebia, se determinava, não nos era permissível assentar morada por lá, uma vez que, depois de estarmos alimentados, aquele vale se inchava, se inflava, feito balão, pressionando-nos, fazendo com que nos evadíssemos, fugíssemos de seu interior; então, depois de havermos matado nossa sede, reativado nossa força, a este tempo chegado voltamos; e, passado algum tempo, tudo dentro deste plano se nos voltava a violar, e nos fazia arder em lenhos de resinas incendiadas.
 
Dia-após-dia, retornávamos à fonte, logo que nos víamos de novo enfraquecidos. Como sempre, ela nos dava de beber, expelia do espírito de suas entranhas; e, assim, meu pai, naquele vale, erguia, primeiramente, suas mãos em forma de cuia e dela recebia o alento, enquanto eu também o seguia, acompanhado de perto por Ana; e vários dias ficamos voltando àquele reino de magia ocidental.
 
Um dia, não me lembro quando, sei que corria no céu uma fumaça escrita em cuneiforme, retornamos à fonte; mas ela, em sua sabedoria transcendental, não mais verteu de sua água a meu pai.
 
Depois de levantar as mãos em cuia, muitas e muitas vezes, ele, enfraquecido e estonteado, recuou comigo e minha irmã àquele tempo chegado.
 
Noutro dia, pela mesma hora,volvemo-nos a essa fonte; no entanto, nada de água, alento, para meu pai; jorrou ela apenas para mim e Ana; mais enfraquecido, meu pai retrocedeu a este tempo chegado; e, ocorridos os dias, mirou-se ele no espelho empoeirado da sala sufocada de ervas; porém, sua imagem não se refletiu; abatido, destituído de energia alguma que pudesse faze-lo resistente, olhou para nós com olhos de sabão em pó, empacotados e brancos, indo, em seguida, em direção à porta, ao tampo-de-abertura deste tempo chegado; como quem é apagado pela borracha da mão se achando no erro, desapareceu, esquivou-se entre as sebes do lugar, e nunca mais o vimos!
 
Uma semana depois, quando Ana e eu (ao voltarmos daquela fonte ocidental) estávamos sentados à porta da casa tomada por ervas, uma pomba luminosa veio e pousou no parapeito da janela ardida em feixes, em aros de estanho vil, e, ali, como se nos conhecesse há muitos anos (e seus olhos muito se assemelhavam aos de meu pai), ficou a nos observar, vigiando, atenta, nossos gestos, nossos movimentos; era bastante suave seu ruflar, bater de asas e, no seu vôo de luzes, preocupou em estar sempre perto de nós; mas os fluídos emitidos de sua aura, do eixo de seu ser, não lhe premeditavam que em si Sat era sadia, que em si Ananda ainda era leve, frágil como casca de ovo.
 
Chega um tempo em que a desolação é total, em que nunca sabemos se já estamos, ou estamos, em que nos vem o pensar de onde viemos e até quando iremos; e fora por este tempo, e devido a ele somente, que íamos todos os dias àquela fonte ocidental, numa eternidade que só o Céu e a Terra hão de provar; e, por não compreendermos este fato, ansiávamos o ápice da existência, mesmo que fosse por um segundo, mesmo que nos fosse árduo o instante de admitirmos que não estarmos vivendo e, por imaginarmos assim, dessa maneira tal, é que fomos à fonte, naquele meio-dia de setembro, com o intento de lá sorvemos o alento; para nossa tristeza, nossa desilusão, ela não mais jorrou para Ana e, como espectadores do Infinito, postamo-nos ante ela estáticos, e mudos, na persistência, ou espera, do ato de Ana, de sua mão pênsil em forma de cuia; a fonte naquele dia jorrou apenas para mim; desencantados, retornamos à tarde a este tempo chegado.
 
Voltamos, noutro dia, à fonte, àquele mundo de fascínio e encanto, mal o sol surgira; no entanto, ela, a fonte, jamais jorrou para Ana; e não me era possível ceder de meu alento, ou seja, do que ela me ofertava, à minha irmã, pois o que me era dado era dado rapidamente, e, rapidamente, eu deveria bebê-lo; não havia tempo para ceder a ela; e Ana, então, uma semana após, quando esgotada na sala da casa em ervas, mirou-se no espelho em que meu pai antes se mirara, e sua imagem também sequer se refletiu; sentindo-se abatida, feito um elefante que, pressentindo a morte, a vida, chegando, caminha no rumo de seu cemitério, ela desapareceu, sumiu na névoa, no calor das tabocas ardendo.
 
Vencidos os dias, outra pomba, voando em tênues raios de luz, pousou no parapeito das janelas em ervas, e ali permaneceu, o coração pulsando na pele iluminada do peito; eram, agora, duas pombas em luz sutil; e uma delas, se estou certo, tinha o perfil igual ao de Ana; aquilo me fez pensar no que era existir.
 
Chega um tempo em que tempo é de repensar, e é deste tempo que ora falo; a quem interessar, deixo escrito no pano de algodão branco da mesa: há dias vou àquela fonte ocidental, e ela até hoje nunca me negou seu alento e em mim, por mais que eu não queira, Ananda é forte, vibra como lírios no campo, enquanto Sat se me soa ininterruptamente; por mais que eu procure, não compreendo ainda o que é existir, sobretudo porque Thiago e Ana já não se fazem mais presentes, e a solidão, por cá, é abismo, ferrete imóvel no ar, entre os vãos dos caibros; e nada é mais triste do que não ter alguém pra conversar, dizer alguma coisa, a não ser aquelas duas pombas, sobre o parapeito da janela, que não sei se são ou se realmente são; e o pior de tudo é ter, ainda, a amarga certeza de que aquela fonte ocidental jamais me negará seu alento!
 

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POR EM 24/06/2008 ÀS 12:06 PM

O automóvel

publicado em

Durante anos Alfredo Lisboa cuidou daquele automóvel negro, como se fosse algo profundamente seu. Durante anos não fizera outra coisa senão lavar, limpar e amar aquele carro daquela funerária de Balsas. Era um homem solitário, de pouca conversa. Andava sempre vestido de preto, embora não acreditando que a morte e seu enigma fossem apenas passagem para o outro lado da vida. Tinha suas crenças, sobretudo a de entender que a morte do ser humano era como a de qualquer outro animal, ou seja, quando se morre, acaba-se de vez. Tinha ele uma figura esquelética, corcunda, retraída e amarelada pelos linhos do Tempo, lembrando às vezes a de um sacerdote de um templo egípcio. Fumava muito e, de quando em quando, perdia-se por entre os uivos dos cães, as sombras e os açoites dos ventos noturnos, bebendo aqui e ali, de boteco em boteco. O que se sabia dele era que não tinha um parente sequer naquela cidade. Chegara ali numa jardineira antiga, ocre, GMC, como que fugindo de si mesmo, de algum trauma. Quem conta isso é o barbeiro Olício, tido por todos como confessionário, espécie de desabafo. Sabe-se que tivera sua família, mas a abandonara, a esposa lhe traíra com o jovem açougueiro Leônidas, e o filho, único por sinal, fora morar atrás das grades. Motivo: tráfico e estelionato. Agora, quase não tinha amigos.Tinha, no entanto, enquanto troca de palavras, apenas a presença do Dr. Elias Barreto, dono da única funerária daquelas bandas.
 
Quando pegou aquele emprego, fora por ser bom motorista, naturalmente pelo fato de que ninguém em Balsas tinha a ousadia de guiar aquele estranho Cadillac negro. Assim que alguém falecia, lá ia o Dr. Elias à casa de Ermidas, no outro lado do rio, solicitá-lo, por obséquio, que fosse dirigir aquele auto, levar o defunto à cova, à fome da terra.
 
Muitos diziam coisas sobre aquele automóvel. Até o lojista Anastácio, último a guiar o veículo, dizia que, numa noite, estacionado à porta de sua casa, quando dentro do mesmo, alguém soprou, às suas costas, na orelha sua, seguido, ainda, de uma gargalhada e um arroto. Em suma, havia muitas supertições acerca do Cadillac. Ele mesmo nunca vira nada. Sossegado guiava, sossegado falava, sossegado dormia nos fundos da funerária, junto aos ataúdes. O esquivo Alfredo era, na certa, uma espécie de sombra. Nunca tivera doença alguma que soubesse. Não tinha hábitos comuns, sequer freqüentava a casa das mulheres de vida “fácil”. Se gozava, se tinha prazer de orgasmo, talvez fosse lá no silêncio da funerária, atrás dos ataúdes, fumando seu cigarro-de-palha, masturbando-se, repensando na fazer de sua mulher e o jovem açougueiro.
 
Um dia, Alfredo Lisboa amanheceu frio, duro, amarelo feito açafrão, caído no fundo da funerária. E agora? Quem, uma vez que seu único irmão solicitara o corpo, iria levá-lo à sua antiga cidade, distante dali a uns quarenta quilômetros?, pensou Dr. Elias.
 
Apressado, Dr. Elias foi até o outro lado do rio. Lá chegando, soube que Ermidas viajara, não estava. A solução foi convocar dois amigos, Pedro e Thiago. Thiago era gay, mas corajoso. Pedro era tímido e sofria do coração, apesar de metido a macho.
 
O fúnebre automóvel avançou pela estrada barrenta rumo à cidade do irmão de Alfredo. Fazia um frio enorme. A noite descia escura e fechada. O vento zumbia nas copas das árvores. O silêncio cortava feito navalha. O ataúde, então semicerrado, com a tampa destravada, guardava o corpo de Alfredo. A noite já ia alta, quando aquela tampa do caixão rangeu e o velho Alfredo, que sem jamais saber que sofria de catalepsia, colocou a mão para fora do ataúde, afastando a mesma. Apático, sem compreender, bateu com a mão fechada no vidro transparente da cabina, aquele que fica atrás do motorista, dizendo meio fanhoso: “Que houve? Aonde vamos?” Num repente, Thiago largou a direção e saiu em desesperada carreira, enquanto Pedro, olhando atrás de si, estufou os olhos, começando a entrar em pânico, esticando-se todo, bufando, o coração uma mola propulsora, a boca entortando, e tic e toc e tac e fim.
 
O velho Alfredo nada pôde fazer senão sair do ataúde e colocar o corpo, ainda quente, morto, de Pedro, no interior do mesmo.O dia estava quase raiando, assim que aquele Cadillac negro entrou de volta na principal avenida de Balsas.

 

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POR EM 17/06/2008 ÀS 09:45 AM

Os mortais

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Chega um tempo em que as ervas medram, crescem como praga invadindo o quintal, o pátio, trepando, com fôlego, nos muros, nos vãos e caibros da casa; e é nesse tempo que as flores, e suas pétalas, murcham e mais parecem faces chupadas, secas em covos de melão, exalando, no pó do ar ferroso, seu aroma de pudim retraído, regado a louros de um sopro que, pastoso e ferido, aderna à lágrima dos arvoredos em chumaços de chapéus sombrios; chega um tempo em que o existir é o inexistir, em que o real, de tão real, real não nos parece, em que, em suma, em nossa porta ouve-se o soar do bater do punho de um espectro visível, cruel e insensível em seu modo, em sua troupe de arcanjos agônicos; e é nesse tempo, justamente nesse tempo, que a angústia nos toca, nos sangra, inaugurando em nós, a farsa do abandono, dos dias sem sol, sem chuva; e é por isso mesmo, nesse tempo, que a dor de estar ausente, embora apensa aos “slides” das horas, à vida em libélulas de som, nos visita, com sua legião grega e seus soldados precisos em suas lanças, em seus elmos, em suas cnêmides; e não nos é concebível a lâmpada de elidir o que de ruim nos é imposto, ainda mais e quando elas, as urtigas, povoam nosso corpo e em nós fazem vibrar a nênia de uma raça primitiva, oriunda, é certo, dos confins da Mongólia; e é aí, meu Deus, que o ser não sabe ser e, por ser o que já não sabe, passa ser a força e os elos da serpente do Nilo, a naja, talvez, ou a víbora que, por Marco Antônio, um dia mordeu Cleópatra. Chega um tempo em que a nossa casa é pura teia e nossos móveis, abandonados, frouxos no escuro de suas formas, encostam-se pelos cantos, e não há viv'alma que ali não pressinta o defluir da vida, do que pensa ou pensou; chega um tempo em que tudo é vácuo, e nada é explicado a nada; e fora, ou é, nesse tempo que se encontrava eu, Pedro, Ana , minha irmã, e Thiago, meu pai; e fora muito antes desse tempo que Maria, minha mãe, deixou de existir, se é que existir era estar ali, era estar aqui, era “nascer” para além do sol, do abstrato em que nossos olhos cabem; e fora, ainda, por esse tempo afora que meu pai, juntamente comigo e Ana, pôs-se a ruir na faúlha do que naqueles dias se alongava; e vendo ele que as teias, as traças, os escorpiões, a tudo cobriam, e sentido, no peito, o vazio se erguendo, se construindo, à sonata empírica dos bruxos, das sombras em estado grávido, entendeu que a nós fora dado o direito livre de escolha, entre existir e inexistir.
 
Crente, então, nessa fé, e diante de tamanho desespero, desceu conosco àquelas terras vermelhas, por dentro da mata vermelha, à espera de ali encontrar a grande fonte, ou seja, o verdadeiro sentido de existir; e ficamos, assim, vagando em círculo; e, quanto mais andávamos, mais a mente se nos apagava, se nos diluía. Vagamos durante vários dias até que, de repente, nos vimos debaixo da porta, da gigantesca porta que dava entrada para o vale, o fantástico vale de luz e ilusões, que mais parecia um pulmão se inflando, se aquecendo, num processo de inspiração e expiração.
 
À medida que avançávamos, à medida que o tempo chegado ficava para trás, em nós o coração se encantava, enraizava-se com sopro de flautins dourados. Com muito susto, assombro que aos deuses desperta, flagramo-nos no colo daquele reino, daquele vale enunciado em framboesas e alfazemas, onde, carregadas, as jabuticabeiras pendiam-se frouxas, sedosas, e as parreiras, enquanto verdes e molhadas, exsudavam em seu suor, em seus pêlos de cachos copuliformes, sensíveis, enfim, ao vento amaciando as têmporas, os figos, num estremecer de espumas oleosas; a luz, naquelas bandas, era dócil, tênue como a face de um deus; e era dela, de sua aura esmagada em ponches de maçã, do ventre de seus fios em marfim, que a Grande Mão se edificava e em salmos de sangue proclamava a aurora com sabor de pêssegos carnudos; e fora lá nesse tempo, muito longe do tempo chegado, que encontramos a fonte da magia ocidental, dos pífaros aguados em percucientes de brisa, a jorrar a água que deifica e fortalece a herança da alma na Terra; e fora dela, do esguicho de suas águas em arco-íris e, terminantemente, à poeira luminosa vazando as asas das crisálidas em festim, que bebemos, saciamos nossa sede; mas, como no espaço se concebia, se determinava, não nos era permissível assentar morada por lá, uma vez que, depois de estarmos alimentados, aquele vale se inchava, se inflava, feito balão, pressionando-nos, fazendo com que nos evadíssemos, fugíssemos de seu interior; então, depois de havermos matado nossa sede, reativado nossa força, a este tempo chegado voltamos; e, passado algum tempo, tudo dentro deste plano se nos voltava a violar, e nos fazia arder em lenhos de resinas incendiadas.
 
Dia-após-dia, retornávamos à fonte, logo que nos víamos de novo enfraquecidos. Como sempre, ela nos dava de beber, expelia do espírito de suas entranhas; e, assim, meu pai, naquele vale, erguia, primeiramente, suas mãos em forma de cuia e dela recebia o alento, enquanto eu também o seguia, acompanhado de perto por Ana; e vários dias ficamos voltando àquele reino de magia ocidental.
 
Um dia, não me lembro quando, sei que corria no céu uma fumaça escrita em cuneiforme, retornamos à fonte; mas ela, em sua sabedoria transcendental, não mais verteu de sua água a meu pai.
 
Depois de levantar as mãos em cuia, muitas e muitas vezes, ele, enfraquecido e estonteado, recuou comigo e minha irmã àquele tempo chegado.
 
Noutro dia, pela mesma hora,volvemo-nos a essa fonte; no entanto, nada de água, alento, para meu pai; jorrou ela apenas para mim e Ana; mais enfraquecido, meu pai retrocedeu a este tempo chegado; e, ocorridos os dias, mirou-se ele no espelho empoeirado da sala sufocada de ervas; porém, sua imagem não se refletiu; abatido, destituído de energia alguma que pudesse faze-lo resistente, olhou para nós com olhos de sabão em pó, empacotados e brancos, indo, em seguida, em direção à porta, ao tampo-de-abertura deste tempo chegado; como quem é apagado pela borracha da mão se achando no erro, desapareceu, esquivou-se entre as sebes do lugar, e nunca mais o vimos!
 
Uma semana depois, quando Ana e eu (ao voltarmos daquela fonte ocidental) estávamos sentados à porta da casa tomada por ervas, uma pomba luminosa veio e pousou no parapeito da janela ardida em feixes, em aros de estanho vil, e, ali, como se nos conhecesse há muitos anos (e seus olhos muito se assemelhavam aos de meu pai), ficou a nos observar, vigiando, atenta, nossos gestos, nossos movimentos; era bastante suave seu ruflar, bater de asas e, no seu vôo de luzes, preocupou em estar sempre perto de nós; mas os fluídos emitidos de sua aura, do eixo de seu ser, não lhe premeditavam que em si Sat era sadia, que em si Ananda ainda era leve, frágil como casca de ovo.
 
Chega um tempo em que a desolação é total, em que nunca sabemos se já estamos, ou estamos, em que nos vem o pensar de onde viemos e até quando iremos; e fora por este tempo, e devido a ele somente, que íamos todos os dias àquela fonte ocidental, numa eternidade que só o Céu e a Terra hão de provar; e, por não compreendermos este fato, ansiávamos o ápice da existência, mesmo que fosse por um segundo, mesmo que nos fosse árduo o instante de admitirmos que não estarmos vivendo e, por imaginarmos assim, dessa maneira tal, é que fomos à fonte, naquele meio-dia de setembro, com o intento de lá sorvemos o alento; para nossa tristeza, nossa desilusão, ela não mais jorrou para Ana e, como espectadores do Infinito, postamo-nos ante ela estáticos, e mudos, na persistência, ou espera, do ato de Ana, de sua mão pênsil em forma de cuia; a fonte naquele dia jorrou apenas para mim; desencantados, retornamos à tarde a este tempo chegado.
 
Voltamos, noutro dia, à fonte, àquele mundo de fascínio e encanto, mal o sol surgira; no entanto, ela, a fonte, jamais jorrou para Ana; e não me era possível ceder de meu alento, ou seja, do que ela me ofertava, à minha irmã, pois o que me era dado era dado rapidamente, e, rapidamente, eu deveria bebê-lo; não havia tempo para ceder a ela; e Ana, então, uma semana após, quando esgotada na sala da casa em ervas, mirou-se no espelho em que meu pai antes se mirara, e sua imagem também sequer se refletiu; sentindo-se abatida, feito um elefante que, pressentindo a morte, a vida, chegando, caminha no rumo de seu cemitério, ela desapareceu, sumiu na névoa, no calor das tabocas ardendo.
 
Vencidos os dias, outra pomba, voando em tênues raios de luz, pousou no parapeito das janelas em ervas, e ali permaneceu, o coração pulsando na pele iluminada do peito; eram, agora, duas pombas em luz sutil; e uma delas, se estou certo, tinha o perfil igual ao de Ana; aquilo me fez pensar no que era existir.
 
Chega um tempo em que tempo é de repensar, e é deste tempo que ora falo; a quem interessar, deixo escrito no pano de algodão branco da mesa: há dias vou àquela fonte ocidental, e ela até hoje nunca me negou seu alento e em mim, por mais que eu não queira, Ananda é forte, vibra como lírios no campo, enquanto Sat se me soa ininterruptamente; por mais que eu procure, não compreendo ainda o que é existir, sobretudo porque Thiago e Ana já não se fazem mais presentes, e a solidão, por cá, é abismo, ferrete imóvel no ar, entre os vãos dos caibros; e nada é mais triste do que não ter alguém pra conversar, dizer alguma coisa, a não ser aquelas duas pombas, sobre o parapeito da janela, que não sei se são ou se realmente são; e o pior de tudo é ter, ainda, a amarga certeza de que aquela fonte ocidental jamais me negará seu alento!

 

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POR EM 11/06/2008 ÀS 10:32 PM

Toc

publicado em

O balde d'água estava encostado no canto da sala de jantar. As orquídeas, emurchecidas e arroxeadas, então no colo do vaso tosco e postado sobre a mesa de ébano, exalavam um cheiro peculiar a morte. O relógio da parede, com seu pêndulo e seus algarismos romanos, executava um acorde de tempo e sonolência, ou seja, ruminava as horas.
 
E Roque estava ali, coxo e capenga como sempre. Limpava a sala. Esfregava. Esfregava o rodo contra o assoalho, num coxear insistente. Eram Roque e o toc, toc e o Roque. Roque, tocando seu rodo, rodava pela sala adentro. Era bobo e babava. Tinha uma perna besta, abobalhada como ele mesmo. Seu semblante denotava uma estupidez bem maior do que o maior e o maior dos mistérios.
 
Naquela manhã de maio, cinzenta e fria, eu me postara, naquele canto da sala, a observá-lo. Parecia não existir. Era como um ente, um gnomo. Como pode? Como? O bobo nem está morto nem está vivo: é um susto no tempo (...).
 
Margarida me contara seu sonho. O vulto surgira, dizia ela, unicórnio e loucura revestidos de negra túnica, fogo, língua ardente queimando o espaço, à procura de seu corpo, no meio do vento e do campo anuviado. Margarida me confiara. O campo, segundo o sonho, bem como o ar, recendiam a flor, e se moldavam nas ondas da névoa, ao bafor empírico e plástico. Ela me dissera. O sonho acontecera justamente um dia depois que o bobo lhe ofertara aquele ramalhete de margaridas. Com a baba escorrendo pelo canto da boca, hálito afumado comendo o beiço, ele chegara, como a dizer “margaridas para Margarida”, dando a entender o seu desejo.
 
Margarida confirmara. O bobo surgira, monstrengo de negra túnica, expondo uma gana de quem muito deseja. Ele a possuíra durante o sonho: incubo?
 
Estávamos à porta do hotel. O frio nos tocava levemente na tarde baça. Margarida nada sabia sobre o bobo. Não sabia de onde viera, por que viera, nem como viera. Um dia apareceu por aqui, falava. Chegando, ajeitou-se neste hotel – andrajos e bobeira solitária. Já acostumamos com a sua figura esquisita e seu idiotismo, dizia.
 
Eu estava de passagem. Era caixeiro-viajante. Não entendo o motivo, mas, naqueles dias, momentos em que passei na cidade de Caldas, ele se me afeiçoara, grudara a mim. De vez em quando, punha-se resmungando para o meu lado, exprimindo sílabas desconexas, como se estivesse roncando, ganindo. Sacudia, balouçava os ombros, baba escorrendo no canto da boca, quando me chamava a atenção.
 
Algo que nunca me saiu da cabeça era aquele seu jeito e costume de dizer-me, numa convulsão estúpida, que, se morresse, voltaria para ver-me. “Eu volto”, repetia, continuamente, com sorriso lacônico. Era quase incompreensível. Às altas horas da noite, estando em meu quarto, eu o escutava arrastando os móveis, manquejando na escuridão do sótão. Claudicava. Era toc, toc, toc.
 
Eles se foram na madrugada de sábado, em direção àquela pescaria. Eram quatro: três irmãos e o bobo. “Eu volto”, disse-me antes de sair. Levaram canoa, material suficiente, para um bom momento às margens do Corumbá. “Eu volto”.
 
###
 
Toc. Toc. Toc. Ei, Roque? Roque? Novamente toc. Ah, você está aí, hein? Levantei-me da cama. A luz do quarto permanecera desligada O coxear no sótão cessara. Sentado na cama, ouvidos e olhos atentos, fiquei alerta. Ei, Roque? Você não está pescando? Ei?!
 
O hotel era só silêncio. De repente, o manquejar desceu, pelo corredor, em sentido ao meu quarto. Toc. Toc. Toc. Era o bobo? A porta estava encostada. O manquejar achegou-se. Ei, Roque? É você, hein? Eu refletia. Ela se abriu. A luz frágil, tênue, pôs-se no vão, enquanto uma lufada fria, violando a luz suave, assoviou por entre a porta.
 
Os corpos foram encontrados. Todos os irmãos. Fazia quase uma semana que haviam ido. A canoa virara. Os corpos foram encontrados, menos o do Roque.”Eu volto”.
 
Depois de uma semana, após o acidente, ele aparecera. Estava imundo, maltrapilho. Ao retornar. Deixou-me encabulado e pensativo. Morrera ou não? Telebulia ?
 
A chuva fina, e fresca, caía sobre a cidade. Eu já estava de saída. O menino chegou gritando: “Ei, o bobo voltou! Ele está aqui!”
 
Deparei-me com ele no corredor do hotel. Fedia.Com os olhos assustados, sorriso lacônico no beiço (havia um quê em seu interior), disse-me, ganindo e revirando a cabeça, ao sibilo do infustamento das palavras: “Eu volto”.

 

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POR EM 18/05/2008 ÀS 03:26 PM

A orquídea e o punhal

publicado em

I

Ora dirás (Orq): - Quando? 

Eu (Pun): - Sempre! Tua boca na minha, a brusca tensão dos corpos, um sobre o outro, chama! Ardência em numes de lusas esferas, sob castiçais e a extrema ternura dos beijos das partes se tocando, na ávida loucura dos querubins se possuindo entre a escuridão dos céus e a estranha luz dos infernos.
 
II
 
Ora, direi(Pun): - Queres?
 
Tu (Orq): - Sim! Com toda força, volúpia, ardor e sangue de tua boca, teu corpo, sinuosa serpente percorrendo suavemente os labirintos meus. O jardim, a muralha, o estóico arbusto de minha Casa.
 
III
 
Ora indagarei (Pun): - Amas-me?
 
Tu (Orq): - Por toda eternidade! E o éden redivivo da concha, do milagre escuso de minhas entranhas; Não, não somente assim, mas muito mais com o veludo e os pêssegos de minha língua sobre a tua pele, o intimo pais de teu incêndio! Sobretudo com minhas alvas mamas roçando tua face de cerâmica chinesa, teus lábios, tua Casa, a máscula extensão de teu império.
 
IV
 
Ora dirás (Orq): - Tens amor?
 
Eu (Pun): -Muito, como ninguém! Às vezes, como nunca alguém teve em toda a existência humana sobre a Terra! Como nunca mortal algum ousou ter; Assim, talvez, como um bicho, um animal selvagem lambendo sua cria, sua voraz e sacra sensibilidade anímica!
 
V
 
Ora direi(Pun): - Virás?
 
Tu (Orq): - Sim! Pelas manhãs bordadas em sangue, em girassóis luminosos, pelas manhãs derramadas em uvas em sangria de trompas romanas enchendo de sopro o ar, a danura dos arcanjos louros, da escandinava possessão de Deus e o Diabo!
 
Virei pelas manhãs de teus deuses ou teus demônios, sempre! Como a serpe e a sua sapiência milenar, corrompida pênsil a sua frágil tentação; E não haverá nessa a ausência senil do fogo, da tara, dos pêlos. Mais que isso, haverá muita sede, vontade e loucura abismal; E o fôlego dos súcubos com certeza dominará minha alma, Far-se-á sobre a sede medieval de minha carne minha natureza aberta, nua recendendo a figos, a cheiro da terra, servida, pois a teu jantar, e não haverá retorno e não haverá receio e não haverá suspeita; Apenas o teu corpo e o meu subirão aos céus, ao delírio ad-mortis do gozo, do prazer eterno!
 
VI
 
Ora dirás (Orq): - Quem?
 
Eu(Pun): - Aqui! Sempre eu, meu amor, minha divina escuridão de tua luz! Canto noturno, ò Orquídea, quebrando o cristal da infância de tua explosão carnal, teu infinito desejo!
 
VII
 
Ora direi (Pun): -Tesão?
 
Tu (Orq): - Chama! Fogo! Explosão de amor! Luxuria, queda, estrondo de pássaros, de asas se partindo, se arrastando nos parapeitos das janelas nos vitrais, nas correntes das águas inundando vales, os canais do coração!
 
VIII
 
Ora diremos (Orq e Pun): - Vamos! Entreguemo-nos! Tu e eu, Orquídea e punhal, nesta noite, neste tempo onde sombras, então perdidas nos lodos dos barrancos dos rios dardejam (em fúria) suas tempestades, seus pecados, a sórdida dor de suas taras rangendo sob as lunetas da tarde e suas alucinações!
 
IX
 
Ora dirás (Orq): - Até quando?
 
Eu (Pun): - Até sempre! Por toda a existência! Lado a lado, corpo a corpo pela maldita e divina ansiedade de nossas entranhas, de nós mesmos o Alfa e o Omega de nosso êxtase!
 
X
 
Ora diremos (Pun e Orq): - Sim, vamos! No ar, na obumbra luz deste amor terroso! Desta glória, ao sublime instante, agora! Ouve ò Orquídea nos aros da tempestade suas brigas de vento incendiadas, Noturno numero 2! Ouve, ò candura, é Chopin! Sim, é Chopin! Só mesmo Tu, ò clara natureza podes compreender este encanto, este inferno de prazer! Só mesmo tu!
 
Não, não tão rápido não somente assim; Ao contrário, muito mais do que nos entregarmos deste modo um ao outro melhor perpetuar o prazer, a caldeira descomunal de nosso desejo, aquela em que Deus num momento de insana “claridade” empurrou para sempre Lúcifer!
 
Melhor, sobretudo é sabermos.

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POR EM 06/05/2008 ÀS 11:31 AM

Comédia profana

publicado em


A esta hora da noite, não quero a doçura dos vinhos legados a tonéis de carvalho adormecidos à sombra de adegas soturnas; tampouco, anseio os abismos de negros girassóis acendrados na alquimia dos sustos, que dos céus caem. Meu comento, nesta hora, sabe-se à mudez de esfinge em desertos de áridas palavras, à espera de sua líquida pronúncia, algo tão impossível e leve que não se deixa pesar, senão pela leveza e o vazio de sua tentação. Não busco o que me busca nesta hora de procura em que me abrigo. Estou só e me faço multidão no vazio dos sentidos. Nunca nesta hora acendo de alarido o que, tão baixo, me confessa a grandeza dos perigos. Sou só, como sempre fui no meu jeito de ser; e não me acresço além do preço de viver o que me rói o amor que em si constrói, às lonjuras dos vazios: estou só e nada faço no que me nado e me levam as águas do rio minando, de fora pra dentro, o fôlego de seu rebento

                        derruído; e isso é uma forma de amar,
                                   sem ser traído.
 
   O amor,
que em si se dói,
tal uma agulhada no coração,
há que fazer-se fundo, nunca raso,
                 em sua solidão.
 
Às vezes, a vida me vem por dentro,
quando, enfim, me sigo afora.
E nada me é tardio, além do que me vem,
      assim que vou embora
 
      de mim comigo...
 
À esta hora,
sangra-me em girassóis de Van Gogh
a aurora
 
do que me anoitece
o desencanto de estar vivendo;
e nada me acontece
      - por nunca ser –
      senão sendo
 
uma ave de Prometeu
a bicar o fígado do que me foi
                 e se perdeu,
 
ao encontrar-se sem saída;
e isso é outro estigma, e sua morte,
anunciando nova vida.
 
Vivo esta hora, por viver descomedido, à espera do que nunca há de me chegar, além do que se foi e está arrependido,
            como um rio e suas águas de desencontros triviais.
 
            A esta hora da noite, não quero a fobia do inesperado. E, por estar tão apressado, busco chegar, não muito tarde, ou atrasado,
                                               à tempestade do Caos.
 
Uma lanterna de atropelado encanto, minha palavra.
            Um risco de vento e seu ancinho
                        o que me lavra
 
            as horas em divina comédia profana.
                        Um sibilo, o lírio
                  e o espelho de Narciso
                        esmagados na lama
 
                    em que me moldo.
 
Há dias que temo em encontrar-me, onde nada se encontra.
                        Há dias que me ergo no que se destói,
                         assim que tudo se desmonta
 
                         à luz dos infernos.
            Meu destino, sim, um grito (enjaulado)
                        no silêncio dos meus berros.
                        A esta hora da noite, nada quero de querer.
                             E aquilo, que me encontra,
                                   se perde no meu ser
                                               achado,
                        como a flor de nenhum bosque
                         e o corte do machado
 
                        recendendo a seiva
                        no jardim dos esquecidos.
                                   O dia, sim,
                        Um gotejar de conhaque ingerido
 
                                               a me dizer
                                               que é preciso estar
                                                  sem nunca ser
 
                                                     imortal.
 
A esta hora da noite em que não há quase ninguém nas ruas, no mundo, pego-me a descer pela memória de esquecer o desencanto profundo,
                        que ora me cresce no estaleiro dos enganos;
                           por isso, procuro mais ser menos,
                                   entre sacro e profano.
 
Eu sei, não é hora de hora nenhuma
            esta hora:
               e do que me atira aos abismos dos escombros
               segue a me achar, ante gemidos e pouco ar
                                   dos assombros
                                                           que sou.
Dante e seu inferno me guiam,
                        às sombras do eterno,
            que ora excomungo comigo; e a comédia, que represento,
                                   no seu pó viola meu jazigo
 
                        cheio de coisas ruins;
                         e isso é meu princípio,
                             sem ser, no entanto,
                              meio sem fim.
            Uma palavra dita por Spinoza e Borges,
             a sangria do que me lasca a carne
               e nas minhas veias corre,
 
               como um rio de corpos mutilados
                 caminhando pra lugar nenhum.
                    Na verdade, não sou dois,
                       sou um
                           ser
                       atirado às intempéries do vento,
                         quando o dia em suas juntas inaugura
                                                         seu comento
 
                                                   mais ordinário possível!
 
A esta hora declamo, sob meu cismar, alguma poesia de Baudelaire em sua profana licitude; e aquilo, que me declara, em sua palavra se aclara, quando a nada se alude
 
em seu spleen.
 
Eu sou o que sou: nem passo, nem vou: apenas invento a ousadia de acender estrelas no acender do dia!
 
Uma tragédia de Virgílio e Homero, a Eneida que mais quero
 
nua,
     despida de vez
em seus seios arfantes de desejos.
   A noite, sim, um arpejo
 
pra nunca mais!
 
Não sou digno de mim, imagino; e o pecado, que me salva o espírito, leva-me à guilhotina dos juízos, e isso é meu inferno perdido em estranhos paraísos
                                               de ser,
                                                  a esta hora da noite,
                                                   nada mais que berros,
                                                    delírios e açoite!
Tudo o que me devora, e consome, há que se achar em si, à sombra de seu nome,
            isto é, um auto de baixa estima e pouca fé.
A minha vontade, agora, é de beijar na boca, tocar mamilos, acariciar os trigais do ventre
                                   numa orgia tão louca,
                                                   humana,
                                        feito fosse a flor do púbis
                                    a paisagem mais divina e profana!
 
Sim, que me venha a doçura dos desejos, sem paraíso nenhum; Que me venham a água de fogo e seu hálito de rum. Que me venha a ternura dos sábios e inocentes,
                                   a luz dos infernos
                                    e a fala das águas ardentes
 
                                                           em luz.
 
                        Eu sou Abgail,
                         o arcanjo negro
                            que enfim desceu
 
                                   c
                                      ai
                                         u
 
                                   pra sempre,
                             pra nunca mais voltar!
 
Em suma, a esta hora da noite, nada mais quero, além de uma cerveja bem gelada
e o som de um bolero –
La Barca,
talvez..

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POR EM 01/04/2008 ÀS 10:29 AM

Insustentável tentação de amar

publicado em

 

  1.Beija-me com os beijos de tua boca
Porque melhor é o teu amor
do que o vinho.
 
Cântico dos Cânticos

 

Naqueles dias,
 
houve de cismar bromélias
à luz das esferas incandescentes, entre o murmúrio e o estremecer do poente,
recolhido; e muito mais que tímido, posto que vero,
era o fôlego do meu ser no que venero, tardiamente. Houve de repensar
amores e o aroma dos licores de então, desfigurado, para além do meu querer
e o sonho desastrado. Houve, por bem, meu permanecer, codificado, buscar no futuro os resquícios do passado
que sou
                                                           em tinos e tílias; por isso, andei a procriar nos
caminhos armadilhas
de feitura, como se nos becos dos meus feitos houvesse mais ternura,
finalmente; e isso fora um gesto no futuro, tão de repente!
Era para ser esquiva minha tentação de amar o gomo mais ácido do limão
                                                                                                                       em ru(s)gas
de faces sofridas; e isso era de no arado lavrar a terra mais doída, chamada coração, cuja sístole do hoje sangra nos dias do Ontem
                        os vãos
vazios
das hordas e cordas
e cios
                                                     vividos.
Houve de mim, há muito emigrado, fôlego do amor consumado em tâmaras,
caramelos, de eivados segredos, aquém, muito aquém, dos meios e seus
medos
 
sangrados em fugaz alegria; e toda noite tem na sombra o claro de seu dia
                                                                            natural: mente semeada
 
de luz em gorjeios de nozes sob capins molhados e cheiro de hortelã; assim,
então, o orvalho da noite e o branco da maçã pelos campos e a leveza do
cerrado
de amar; e infrutífero era meu ser de árvore esquecida
à paisagem da paixão mais retraída. Quem sabia de mim, meu pedaço de meio
sem fim,
     senão
a mais sublime leveza do coração?
 
Quem sabia do amor os cacos
                                                       a paixão
de eternamente amar a outra forma mais doce de salgar
a ilusão? Era noutros dias, das causas mais graves e sua poesia, a sina
de lavorar, em raro sabor, os campos minados do amor
                                                                                     no país do coração.
Era enorme mistério
             e luminosidade
a chama do que me subia no peito das idades. Era mito, mais que
insustentável tentação,
o urdir nas teias do imaginar o que de fogo n’água incinera o ar, levemente.
Como todo pássaro, era no vôo o repente! Era, assim,
um rastro de carroça se arrastando para o fim
 da estrada, à procura do que se leva e não se chega a nada. Era nesse
arrastar e seguir o que não me vinha e chegava, ao partir, dilacerado, sob
berros e ternura de um amor desesperado!
Era e fora essa natureza
o amor do meu peito em fraqueza.
 
               Era e fora assim,
                  espécie de não ter meio
                         ou
                        fim
                                                de amar      
             aos cumes do enlouquecer
             o que de amor não se acha
             e se perde por viver
sangrando de tanto amor!
ab initio.
 
                                   Era.
Agora, depois de tanta dor por dentro, me arrasto ao relento, afora,como se,
não indo,
fosse embora
de mim, pelo gosto de amar assim, perdidamente, o que de amor só me acha
e me sangra, tão de repente! Mas amo, ainda que de amor não possa eu achar
outra saída que não amar por toda vida, desesperado, o amor mais perdido & achado no coração; e isso é uma forma de se entregar à tentação, cônscio de
que nenhum amor se erra senão pelas águas e as raízes da Terra
em construção
de desejos e loucura, imensa loucura!
                                       E amo, pois, a Vida, os campos,
                 as planícies,
                 a lida
de lidar com os moinhos e a lâmina do instrumento, depois de inábil lavra e a
fala dos inventos
                                   que comino em meus dias,
             à busca de tanta graça e poesia!
Sim, sei, vim, (só) lido em poemas de grãos, folhas e ira de vinhas feridas,
como aquele que, não querendo mais vir, pudesse chegar no susto das lidas
de meu Deus; e todos gestos, naquela hora, foram meus,
como diamante no carvão esbranquiçado, sob a pedra e o gemer da casca
                                                                                               no jeito mais ilhado!
Não se comenta, nem de pedra medra a mente da brasa sob a brisa
                                                                        das manhãs
sangrando em mim a carne das maçãs
petrificadas,
 ao soluço de tamanha sutileza;
e cada verde tem no outono sua madureza,
se não me engano. Não se comenta. E para que possa eu comentar, nada
faço senão me calar ante a luz, que por dentro se deflagra,
para ímpeto e força das águas
em sal; e isso aclara o que de bem faz o mal, infinitamente, semeado de luz
em xaxins de latente sangria, a bem da vida e suas crias, ad infinitu.
E por que das raízes e fala da Terra viceja, ao céu, telúrica energia, aclaro do
meu cântico o escuro do amor
que tardia,
não como um carro que, na lonjura do caminho, tem seu farol apagado,
mas como do sublime o beijo mais irado;
por isso então este meu amor
            re-
     traído
                   à sombra das quaresmeiras
acendendo nas tinas o lilás de vida inteira,
                                                    a prior
 
É de fato insustentável tentação este mar de amor me levando ao fim da ventura,
como o som, que no Tempo tece, sem os fios da tessitura
                                                                  final; e todo bem
                               tem no amor
                               a brancura
                               do sal,
       em verdade.      
 
Houve de palavras outras lavras de pá
a cavar no amor minha súbita cova, sob a lua e a boa nova
de sobreviver, como Sísifo e a pedra
de seu ser,
                         longitudinalmente
                   encantado de amor.
 
Houve. Mas agora nada mais há de haver, senão por estar e acontecer
no meu coração profanu, naturalmente nestes dias em que os meses são mais
longos e mais lerdos que os anos
               deixados para trás; e tudo isso
é uma forma de no pouco ser demais,
 
             muito mais:
                  o amor, sobretudo
               em tentação, divina tentação! 

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