revista bula
POR EM 26/01/2009 ÀS 07:15 PM

Lupa

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Sorve. Seus lábios na minúscula taça, sorriso amarelo e a mania boba dos designs pós século XX de estampar objetos. Sua boca, carcomida pela volúpia de dizer sempre sim para a vida. O nome dela, Silvana. Silvaninha para os malucos de plantão da cidade. Eu, confortavelmente entorpecido de mim mesmo e Silvaninha sorvendo um minúsculo licor me pediu para sentar ao seu lado. Foi minha perdição! Dias e dias ao seu lado. Sempre fui muito bom em falar com os loucos. Minha especialidade maior. A loucura me arregimentando, desmoronando minha oficialidade conjugal, familiar, materna, paterna e o caralho de assas. Todas aquelas picas aladas que Mariana desenhava em meu caderno no colegial. Mas esqueçamos Marianinha que também perdeu o juízo e se defenestrou junto com as obras completas do Veríssimo, o filho.

Silvaninha me lembra uma vaca com medo, um medo sem horizontes, um medo sem medo, um misto de pavor e contestação. O certo é que usei toda a minha canalhice e não consegui arrastar Silvana para a cama. Sua pele branca permanece virgem para as minhas mãos de escritor fodido. Zerei minha poupança, Silvaninha consumiu todo o estoque do bar e sua bunda confessional permaneceu intacta.

Digo que isso é uma crônica, digo que minha louca de plantão (é só ligar para o seu celular que vou correndo para os seus braços) tem três filhos e um ex-marido que lhe fodia a boca, a mesma que sorvia o licor, a mesma que me pediu para sentar ao seu lado.

Os olhos nunca disseram porra alguma, o que diz mesmo é a inflexão corporal, o dedo atolado no nariz, o palito na boca, os culhões em algum lugar do espaço, bem ao lado da Jornada Nas Estrelas.

Quem sou eu para falar de esquizofrenia? Eu que engabelei um monte de palavras e depois do porre sempre constato que Raul tem razão: "o maluco sou eu!".

Silvaninha, apesar de você ser bem mais esperta e lúcida e ter levado todo o meu dinheirinho, perdão, o maluco...


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POR EM 10/11/2008 ÀS 12:16 PM

Crônica para lembrar o centenário de patativa

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Em 2009 Patativa do Assaré faria 100 anos. Comemoro a data transcrevendo os principais trechos da entrevista que dei por telefone a jornalista Fernanda Guerra, do interior de São Paulo, em virtude do lançamento da antologia Melhores Poemas de Patativa do Assaré, que organizei para a Global: 

“A identidade entre os textos é a da sensibilidade, não há temática pré-determinada. Fui selecionando o que me tocava, me sensibilizava, seja despertando raiva, incompreensão, amor. A marca é da emotividade”.

"Quis mostrar que a poesia é sempre poesia e deixar transparecer o que há de comum entre elas. Toada, cordel, tudo é, no fundo, a mesma coisa. Todas são extremamente musicais, mas também simples, diretas, falando de temas que estavam ao redor do poeta".

"Apesar de ter frequentado a escola por pouco tempo, Patativa era um autodidata. Ele lia poemas de Olavo Bilac, Guimarães Passos e Castro Alves, seu autor predileto, e dominava tanto a poesia culta quanto a cabocla".

"Ele era extremamente engajado. Foi contra a ditadura militar, participou das 'Diretas-já', denunciou o caráter político da seca, defendeu a reforma agrária e levantou a voz para mostrar a beleza do sertão".

"A imagem de poeta iletrado e inculto foi perpetuada pela mídia, que procurou o meio mais fácil e sensacionalista para falar dele, explorando a imagem de agricultor rural analfabeto, que diz versos iluminado por Deus. Hoje as pessoas sabem o nome, mas não sabem quem é o poeta, sua história de vida”.

"O aprendizado popular tem tanta validade quanto o acadêmico, o científico e o religioso. Entre o erudito e o popular não existe maior ou melhor, ambos têm o mesmo peso, o que difere é a forma e o conteúdo".

"Sou cearense também como ele foi, mas sou da capital, enquanto Patativa é do interior. Ele cultivou a roça dele, fazendo aquela poesia popular, observando o próprio mundo. Sou apenas um poeta contemporâneo e urbano olhando um dos maiores poetas populares do mundo".


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:20 PM

Rebate de pares 1980

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Em setembro de 1980, o departamento de teoria literária da Unicamp, reuniu um grupo de poetas para fazer o balanço da década anterior. Em pauta, a última vanguarda brasileira: A Poesia Marginal. O Encontro foi chamado de Rebate de Pares. Partes das gravações do encontro são transcritas nesta edição

Os anos oitenta foram retratados pelo pop-rock. Setembro de 1980. Unicamp. Mesa redonda no departamento de teoria literária. Em pauta a poesia. E não poderia ser outra, senão a marginal. Os anos setenta foram retratados na poesia marginal.

Tinha inicio uma nova década. A anterior vivera o aparecimento de experimentações poéticas as mais diversas e latentes. A poesia encabeçou as manifestações de cunho políticas que mapearam a segunda fase da ditadura militar brasileira, revelando-se um caleidoscópio de possibilidades estéticas e semânticas.

Essas possibilidades exigiam do poeta um posicionamento de campo de batalha. E a poesia fazia-se presente nas universidades (não como elemento de estudo, mas como vanguarda), grafites, planfletos, cartazes, leituras coletivas e passeatas. Em decorrência desse posicionamento do poeta, nasciam grupos literários, formas de produção, edição e distribuição, imprensas marginais no contrafluxo independente ao mercado editorial, que também, implementou bastante no tocante à editoração de poesias em livros, revistas, coletâneas e jornais. Uma das grandes heranças que os poetas atuantes dos anos 1970 deixaram foi o caminho aberto as grandes editoras. Tanto é que muitos deles foram, e continuam no caso de alguns, editados nos 1980 e 1990. Todavia, há hoje, um redargüir contrário aos novíssimos poetas.

Sensível às manifestações da poesia ao longo dos anos 1970, a Unicamp organizou uma mesa redonda de dois momentos. No primeiro, os poetas fundamentais (em todos os níveis) da geração 1970. No segundo, críticos ligados à universidade que analisaram (na medida do possível) a produção dos poetas.

A intenção do departamento de teoria literária da Unicamp em promover o rebate de pares, em setembro de 1980, era, começando uma nova década, fazer o balanço da anterior. Recortar e registrar a última vanguarda brasileira: A Poesia Marginal.

São mais de vinte horas de gravação (possuo as fitas), onde os poetas — (Glauco Mattoso, Roberto Piva, Régis Bonvicino, Cláudio Willer, Lúcia Villares, Antônio Carlos de Brito (Cacaso), Alcides Villaça, Ulisses Tavares) — apresentam-se, falam de suas poesias e discutem vanguarda. Por sua vez os críticos — (Alfredo Bosi, Benedito Nunes, Boris Schnaiderman, João Alexandre Barbosa) — abordam a poesia desde a "República de Platão" no século V a.c à "Inventário de Cicatrizes" de Alex Polari de Alverga, poeta que esteve preso durante muitos anos e que foi condenado duas vezes à prisão perpetua. "Inventário de Cicatrizes" foi publicado em 1980, quando o poeta ainda estava preso.

Transcrever mais de vinte horas de gravação seria impossível. Não ouso sequer cogitar a façanha. Intenciono mostrar alguns trechos das gravações dos poetas. Poetas que, por uma feliz coincidência de compreensão, são os que acredito verdadeiramente percussores da geração atual.

Glauco Mattoso: Então, eu poderia estar fazendo palavras cruzadas ou montando quebra-cabeça, preferi mexer com poesias. Mas mexer com poesia de maneira pouco ortodoxa, porque acho que se é possível dizer que a propriedade é um roubo, a propriedade intelectual seria um roubo, e então, a expropriação é um legítimo direito. Eu parto do princípio de que sou um plagiário, e que não respeito a propriedade intelectual de ninguém. Esse é o meu ponto de partida. Como plagiário, eu mexo com coisas minhas e dos outros. Pouco importa se a idéia é minha ou de outrem. Eu ponho o meu nome em baixo de coisas que não são minhas e ponho o nome de outras pessoas em coisas que são minhas. Então, partindo disso, comecei a fazer um jornalzinho. Quando me referi a palavras cruzadas e quebra-cabeças, estava falando sobre diversão, passatempo. É assim que eu encaro a poesia: uma maneira de passar o tempo e me ocupar. Não que eu tenha tantas horas vagas assim. Mas, eu sento na máquina de escrever, coloco uma folha bem maior do que essa, e vou batendo à máquina. O alfabeto para os cabeçalhos é composto de pontinhos feitos com a letra o minúscula da máquina de escrever. Então, a partir de uma informação que vem desde o dadaísmo, surrealismo, movimento modernista, poesia concreta - uma coisa bastante antropofágica - eu vou mexendo com idéias que não são minhas. O resultado é esse aqui. Um jornalzinho em que todos os números são números 1. Composto só de frente e verso, a frente chama-se sempre "Jornal Dobrábil". Inclusive eu não respeito o sistema ortográfico. Pratico a ortografia anterior à reforma de 43. Então, no verso, alternadamente, em cada número, sai o Jornal Dadarte ou Galeria Alegria ou o Zero la da Esquerda. O Zero la da Esquerda seria uma brincadeira política ou politizada e Galeria Alegria seria gay. Tudo mexendo um com o outro. Quer dizer, eu fico meio em desvantagem se for o caso de ler poema, porque nem todos os poemas são legíveis. Alguns são visuais, outros, concreto. Eu poderia ler um que está neste número e que eu já declamei num concurso de poesia falada na "Revista Escrita". Não sei por que, deram o primeiro lugar. Fala em merda do começo ao fim. Talvez seja por isso.

Manifesto coprofágico

Mierda que te quiero mierda

Gárcia Loca

“a merda na latrina daquele bar da esquina tem cheiro de batina de botina de rotina de oficina gasolina sabatina e serpentina bosta com vitamina cocô com cocaína merda de mordomia de propina de hemorróida e purpurina merda de gente fina da rua francisca miquelina da vila leopoldinade teresina de santa catarina e da argentina merda comunitária cosmopolita e clandestina merda métrica palindrômica alexandrina ó merda com teu mar de urina com teu céu de fedentina tu és meu continente terra fecunda onde germina minha independência minha indisciplina és avessa foste cagada da vagina da américa latina”

Roberto Piva: Publiquei o "Paranóia", um livro editado pelo Wesley Duke Lee em 63, o "Piazza" em 64, depois só em 76, naquela Feira de Poesia e Arte no Teatro Municipal, o "Abra os Olhos e Diga: Ah!". Todos esses livros, inclusive "Coxas" de 79, estão esgotados. Vou ler para vocês algumas coisas recentes, e um poema do livro "Coxas".

Histeria Nº 1

“A confraria reacionária Unidos em Série promovedora de festivais de telenovelas nas fábricas jogou uma substância criadora de histeria CBK7 no reservatório de água de um colégio de freiras e as alunas peidaram 3 dias e 3 noites sem parar e depois se flagelaram e crucificaram.”

Lúcia Villares: Tenho alguns poemas em "Contramão" mais eu preferia ler outros poemas de meu novo livro, praticamente pronto, e que vai se chamar "Papos de Anjo". Eu queria ler o primeiro poema, que é bem antigo, 68, eu acho, e que se chama "Papo de Anjo".

Papo de anjo

“Aceita-me e acolhe-me
se pouca que sou
me quero dar.
Acalma teus olhos inquietos
e deixa-me contemplá-lo.
Quero perceber em ti
lascas da carne que te ofereço.
Guarda tua mão sobre meu corpo
para que teu calor penetre fundo
e envolva quente
meu sangue frio.
Sê homem cansado e triste
e aceita prá te acariciar
mãos trêmulas e frias
e deita entre meus seios
pobres e planos
que urgem em te cobrir de calor.
Deixe-me te dar
mesmo pouco e fugaz
o líquido amor que me preenche
o magro corpo que me envolve.”

Ulisses Tavares: Eu estava me lembrando, enquanto o pessoal lia poemas, de uma coisa que estava lendo no ônibus, quando estava vindo para cá. É assim uma reportagem de revista, um papo quase eufórico, em cima da linguagem das novelas. O pessoal agora está começando a dizer palavrão em novela, o Chico Buarque usando "bosta" na música, quer dizer, isso tudo está chegando; evidente que por um motivo político, pela censura que nós tivemos até agora. Mas eu queria registrar só a primazia da poesia em relação ao palavrão. Me parece que é um pioneirismo que não se tira da poesia, principalmente da poesia que se faz de uns 10 ou 15 anos para cá, no Brasil. Sempre que li poema de amigos meus, o palavrão estava lá, mesmo numa época em que o palavrão se refugiava dentro da casa das pessoas. O meu primeiro contato com a poesia tem haver com isso. Comecei a fazer poesia porque eu não sabia como colocar as contradições de minha vida. Até hoje não sei, então continuo fazendo poesia. Mas, naquela época (eu tinha 10, 11 anos de idade), eu fazia porque achava uma coisa, assim, bonita, achava uma coisa legal. Não sabia que poesia podia ser, inclusive, perigosa. Senti que ela podia ser perigosa quando saiu o primeiro poema meu e o editor do jornal foi mandado embora. Aquilo me assustou, na época, porque eu achava uma coisa assim tão normal, quer dizer, eu usava aquilo que aprendi em casa.

Eu continuei praticando poesia, publicando, participei de uma porrada de movimentos que aconteceram por toda essa época. Agora, das coisas mais recente, o mais importante foi o jornal que fizemos em 77, de que participaram a Lúcia, o Cacaso, etc. Acredito que tenha sido a primeira experiência ampla no sentido de aglutinar todos os poetas, os poetas que faziam poesias independente, os poetas que estavam distribuindo poesias de mão em mão. O jornal se chamava "Poesias Populares", fazendo um jogo em cima do "Notícias Populares", quer dizer, um jornal sangrento, mas só com poesias. Um recurso para chamar atenção. Esse jornal começou com um livro meu, que saiu como edição extra, lançando a proposta. Continuamos por um bom tempo. Depois disso, montamos um núcleo, que é o núcleo Pindaíba, com quatro poetas, porque descobrimos que é quase impossível trabalhar com cem poetas juntos. Quer dizer, juntando dois já é muito difícil, que dirá com cem. A coisa se tornou totalmente inviável. Algumas experiências até foram engraçadas, algumas delas deram certo. Por exemplo, Iniciativa Privada: sete mil cartazes colados atrás das portas dos banheiros, então, o cara sentava lá, ficava numa boa, lendo o poema. Tinha um lugar para a participação do cara que esta lendo: Rabisque aqui o seu poema. Eu não tenho mais nada disso, porque um artista plástico levou, disse que ia fazer um trabalho e sumiu. Essa foi uma experiência que fizemos há 3 anos. Depois fiz um livro: dez mil exemplares, que foram vendidos de mão em mão.

Régis Bonvicino: Eu acho esse assunto muito confuso, porque, como já disse, a poesia não é uma forma socialmente privilegiada, ela não flui, não tem consumidores, fica restrita a pequenos grupos mesmo. Acho que falar sobre vanguarda, hoje em dia, não tem muito sentido. O que é vanguarda? Vanguarda é uma coisa muito relativa. Acho que o que tem sentido é fazer as coisas, se divertir, como disse o Glauco, e deixar que o tempo faça da sua cor, não é? Deixar que o tempo filtre. Essa coisa de vanguarda coloca muito em alta definição as coisas. Não estamos num momento de alta definição.

Público: Quando você fala em vanguarda, está contrapondo vanguarda a qualquer outra coisa?

Régis Bonvicino: Não, o que eu quero dizer é o seguinte: a idéia de vanguarda, de um grupo ou grupos sistematizarem propostas formais, conteudísticas, estéticas, etc., está falida, para mim. Acho que a gente tem que viver uma saudável anarquia em relação à poesia. Poesia e anarquia são filhas de Maria. Deixar ir para rua, deixar solto no ar, está tudo solto na plataforma do ar. Não vejo sentido em ficar querendo definir as coisas, arquivar manifestações que ainda nem foram consumidas, nem foram decodificadas.

Cláudio Willer: Eu não concordo! Acho que a gente tem que aprofundar o conceito de vanguarda e tentar entender bem o que é. Em poesia, acho que uma parte da rejeição ao conceito de vanguarda, entre o pessoal mais novo, é decorrente dos mal-entendidos entre vanguarda e modernidade. Numa dada altura dos acontecimentos, aqui no Brasil, começaram a se associar os dois conceitos: a poesia que fosse mais moderna que as outras ou que tivesse alguma característica de atualidade serie de vanguarda. O conceito de modernidade é um conceito característico da nossa civilização. Tem muito de capitalista. Uma poesia para ser de vanguarda, não precisa ser moderna. Octávio Paz faz umas considerações muito felizes a respeito disso num livro dele chamado "Los Hijos del Limo", que infelizmente ainda não foi traduzido para o português. Aí ele mostra que o que o poeta questiona em primeira instância é a própria noção de tempo, em nome de uma busca de um tempo primordial, ou de uma outra forma de sentir o tempo. Nesse sentido, o Romantismo, no século XIX, era vanguarda justamente por estar recuperando a Antigüidade, recuperando a idade média, recuperando ritmos e formas de poesia que não eram aquelas usadas naquele tempo. Então, ele, aparentemente, parece voltado para o passado, parece saudosista e, ao mesmo tempo, tem uma atuação progressita. O Surrealismo faz exatamente a mesma coisa. Então, a vanguarda é muito mais do que uma inovação em sí, mesmo porque, o novo, em si, dificilmente existe e ocorre em poesia: é uma recuperação do poético. Voltando a veicular a poesia após um longo período de silêncio, de 68 para cá, estamos exercendo uma atividade intrinsecamente vanguardística.

Público: Pelo que você disse, toda recuperação ou toda oposição é vanguarda, nesse caso, fica fácil: tudo é vanguarda, até o Parnasianismo...

Régis Bonvicino: Só queria colocar uma coisa. O que o Willer falou a respeito de ditadura militar, concordo que foi uma coisa terrível, uma coisa que sufocou, que matou, que torturou, mas nem por isso as pessoas deixaram de fazer suas coisas. Eu acho que período ditatorial não significava necessariamente impotência poética ou impotência criativa, entende? Poderia dar milhares de exemplo na área da poesia, da música popular...

Público: Isso mesmo. De repente, a ditadura serve de desculpa para tudo: falta de criatividade, pobreza do imaginário... E agora que a mordaça parece está mais afrouxada, quais as novidades?

Régis Bonvicino: Então, essa recolocação da poesia no panorama, essa coisa de distribuir de mão em mão, já existia desde o modernismo. Veja-se Oswald de Andrade, com suas "Poesias Reunidas". Tirou trezentos exemplares e os distribuiu por aí. Octávio Paz tem uma colocação importante em relação a isso: "a poesia não tem existência real", quer dizer, não é uma coisa que existe na realidade. Diante do mundo industrial, do mundo eletrônico, do império, do deus-mercúrio, do comércio, a poesia fica fora, não é um valor de troca. Então, ela inexiste na realidade capitalista. E o papel dos poetas é resistir, e fazer aquilo que incomoda.

Ulisses Tavares: E, nessa medida, passa a ser vanguarda.

Régis Bonvicino: Mas o que eu quero dizer é que a idéia de vanguarda, como sistematização de princípios, como programa, é ultrapassada. É melhor deixar tudo solto. Um cara que assume a sua bissexualidade num país machista é vanguarda.

Ulisses Tavares: Exato, mas nesse sentido é que a poesia da resistência, mesmo, é o refúgio da vanguarda.

Régis Bonvicino: O cara que queima fumo na rua é vanguarda. Liberação é vanguarda de um modo geral, e poesia sempre foi liberação.

Ulisses Tavares: A diferença é que o poeta queima fumo e conta para todos. Essa me parece ser a diferença fundamental.

Régis Bonvicino: Mas é que poesia também não é só isso...

Ulisses Tavares: Evidente que não é só isso, mas isso é que é coisa viva.

Régis Bonvicino: Sim, mas a poesia também existe num plano sintático, semântico, pragmático, existe como forma, como conteúdo...

Ulisses Tavares: Ah, sim! Mas aí nesse plano, ninguém tem saco para discutir.

Régis Bonvicino: Não, acho que essa coisa de alta definição que você diz que ninguém tem saco para discutir, realmente não é o momento.

Lúcia Villares: Com relação a programa, acho que hoje há outras formas de assumi-lo: chamar o público, fazer recitais e, como por exemplo, o pessoal do "Nuvem Cigana", no Rio, montar aquelas artimanhas, aqueles espetáculos... Quer dizer, eu acho que o poeta, agora, tem que assumir não só escrever, quanto inventar maneiras dessa poesia sair. Eu não acho que a poesia não é real, ela só não é real enquanto o poeta não a fizer real. Hoje, para se conhecer um poema é quase necessário se conhecer o poeta também...

Régis Bonvicino: É, mas no mundo capitalista, a poesia não entra num sistema de trocas...

Lúcia Villares: Entra. O Ulisses vendeu não sei quantos "Pega-Gente". Entra! Estamos vivendo uma época em que escrever não é uma ato solitário. Para mim, foi uma descoberta saber que havia toda uma geração fazendo o mesmo trabalho que eu. Esta é a marca que se evidencia em nossos projetos conjuntos de distribuição de poesia.

Ulisses Tavares: É, nunca houve tantos fazendo tudo. Evidente que só pode ser de uma maneira caótica, anárquica, como é a própria vida... Me parece muito mais espontâneo, muito menos literário. Quer dizer, os poetas, os poetas estão, me parece que pela primeira vez, de corpo inteiro na vida. Se jogando mesmo.

Cláudio Willer: Eu acho o trabalho do Glauco seríssimo, porque de uma parte ele é filho de Lautréamont, já que sua obra é toda de plágios, paródia, criada em cima do texto dos outros. Coloca-se aqui ainda a questão da intertextualidade. Na verdade, o que o Glauco está fazendo é uma espécie de jogo aberto do que o poeta realmente faz. Quer dizer, nenhum poeta está escrevendo um texto realmente dele. Não existe uma autoria isolada do texto. A gente está sempre reescrevendo.

Ulisses Tavares: É, me parece que essa dicotomia vem sendo discutida ao longo dos tempos, e cada vez ela está ganhando mais corpo. Quer dizer, até que ponto somos pessoas jurídicas ou somos pessoas físicas? Até que ponto somos meramente autores de uma série de palavras que se alinham e que nós denominamos poesia, e que podem ser lidas de uma maneira e de outra? O que me parece indiscutível é que todo mundo que escreve, hoje, está tentando trazer mais para perto de si aquilo que esta fazendo. É uma mudança de postura não encarar simplesmente o nível da "elaboração literária", digamos assim, mas o nível muito mais amplo que é o da vida, da urgência da vida, seja em qualquer sistema, e principalmente no nosso. Isso é tão novo que eu não tenho reposta nenhuma para dar. É a primeira vez que eu vejo as pessoas tentando se aproximar tanto do que fazem. É a própria alquimia física do poeta no cotidiano.

Cláudio Willer: Não sei, não... A gente teve um período de valorização de um determinado tipo de espontaneísmo. O termo até já apareceu aqui. Uma poesia muito coloquial, muito voltada para o cotidiano, muito direta, aquele negócio do ouvido da rua, e tal. Agora, eu acho que a gente já está num segundo momento, o de pensar criticamente tudo isso. Quer dizer, não se pode aceitar o espontaneísmo como modelo do processo criativo, e nem sequer como uma tendência que a poesia esteja assumindo...

Cacaso: O que existe hoje, na poesia brasileira são as tendências acadêmicas e aquelas que se autodenominam vanguardas. Muitas coisas estão acontecendo. Mas o que interessa saber é quem tem força para criar. Às vezes, o que é inovado vem disfarçado com roupagens antigas. Roberto Schwarz num ensaio sobre o Paulo Emílio mostra que o que tem no autor de vanguarda, vem disfarçado em coisas arcaicas. Na música acontece o mesmo. O que agente costuma chamar de vanguarda é coisa de publicidade. Colocar de novo o tema é uma maneira de sustentar verbalmente um cadáver que não tem mais sentido, que os fatos superaram, que a dinâmica do processo social jogou para trás. O que interessa é ver quem tem força criadora. Eu gosto de ver coisa original, coisa que minha mãe não viu. País que passou por colonização tem que formular o original, ser arbitrário ao extremo e ter força criadora. É isso.

Régis Bonvicino: Eu concordo com o que ele disse, era mais ou menos o que queria dizer quando me referi à vanguarda: deixar que o tempo faça tudo de sua cor, não é? Agora eu queria lançar uma provocação: acho poesia escrita, na nossa geração, ou de dez, quinze anos atrás, uma coisa careta, uma coisa chata. O quente está na música popular mesmo: Caetano, Gil, Walter Franco, Cartola, Nelson Cavaquinho, eu acho que isso é o quente. Poesia é uma coisa careta. Eu sinto assim. Não dá mais tesão, não dá mais nem muita vontade de fazer, entendeu?

Ulisses Tavares: Acho que essa sua posição é consumista. Não só colonizada, como com a cabeça feita pelos meios de comunicação, que você renega. Isso é altamente reacionário. Você está dando razão ao Cacaso, porque ouve o rádio, a TV. Aquilo que se faz como antigamente, contra o sistema você acha uma chatice. Quer dizer, - você não consegue nem mais captar que a vida explode de todos os lados.

Régis Bonvicino: Talvez você tenha razão, e eu tenha coração.

Roberto Piva: Voltando a questão da vanguarda, quero lembrar aqui uma passagem de William Blake em "Casamento do Céu e do Inferno" que diz mais ou menos: assim como o lagarto escolhe, para pôr seus ovos, as folhas mais verdes, o padre coloca suas maldições nas nossas mais belas alegrias. Até hoje é vanguarda, porque continuam vivas as forças que oprimem, que amaldiçoam as nossas mais belas alegrias. Não só os padres, como todo o sistema de repressão vigente.

Régis Bonvicino: Homero também é vanguarda...

Público: Esse negócio de vanguarda está uma cartola de mágico. Cada hora sai uma diferente. E tudo vira vanguarda. Só falta dizer que a Bíblia é vanguarda também.

Alguns trechos do material publicado nesta edição saíram originalmente no jornal “Diário de Fortaleza”, em 2002.


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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:18 PM

O contador

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Com aquele a soma iria para 853.82. Esqueceria tudo. O número de brochadas. Seu lado feminino.

Bebendo whisky a 37. O número que pegara Vanda com outro.

Vanda nada representa. Foi bom para você significa o mesmo que segue hoje, nos guinches dos correios. Precisa parar de perguntar. Afinal, conhece bem Vanda e os correios.

Agora a soma é 890.82. Todas as lembranças na mesma película. Pára no filme de terror da noite passada.
          
O massacre da serra elétrica. Mais comédia que terror. Braços e pernas decepados em extrato de tomate. Lembra aquele deputado que cuidava dos inimigos baseando-se no roteiro do filme.

Passa a pedir cauboy. O gelo doía-lhe o fígado. 927.82. Quanto havia no bolso? Uma camisinha do Flamengo. Vermelho carmim na glande. Vanda tentando imitar Garganta Profunda. Não conseguia
metade.

Pontos na boca. Quantos? 1, 2, 3... Como poderia esquecer, os removera um a um. Cinco! Três no lado direito, dois no esquerdo. Nem a chuva tem a boca tão pequena. Ou seriam as mãos?
     
964.82. Esquecera a carteira no cesto de roupa suja. Bebia para esquecer. 1001.82, 1038.82, 1075.82, 1112.82, 1149.82. Esquecer o escritório, a agência dos correios vizinha à funerária... Vanda!
          
37 brochadas. A última, um Michelangelo dentro de uma calcinha de renda vermelha. Ela chega. Com aquele a soma é 1186.82. O carteiro entrega a conta. A boca pequena:
          
- Quanto?      


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POR EM 20/10/2008 ÀS 04:15 PM

Carnavalha

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“Ô jardineira por que está tão triste /mas o que foi que aconteceu?”. Uma enorme massa disforme se revolvia no pequeno sofá-cama. Sábado de carnaval, dez da manhã. E aquele ectoplasma (coincidência ou não, a TV estava ligada justamente no desenho dos Caça-fantasmas) se mexia no sofá, procurando não escutar as marchinhas de carnaval que se repetiam todos os anos e que acabara de acordá-lo.

“Foi a Camélia que caiu do galho /deu dois suspiros /e depois morreu”. Trezentos e setenta e oito kilos, o rei Momo mais pesado e simpático do Rio de Janeiro. Mas hoje era sábado de carnaval e seu reinado se esfarinhara havia anos. Há anos que não atirava pó, farinha nos foliões cariocas.

Tudo começou na repartição daquele bendito jornal. Ele então com os seus cento e cinqüenta e dois kilinhos. Saiu direto da seção do horóscopo para as ruas do carnaval carioca. Foi eleito, por unanimidade, pela redação do jornal, o mais elegante rei Momo do Rio. Pedia licença até para atirar farinha.

“Vem jardineira /vem meu amor”. Tinha então vinte anos quando começou a estagiar no “Correio do Brasil”. Era um menino, um menino bobo e gordo. O sorriso mais alvo do carnaval carioca. Seus melhores anos. Duas décadas e meia de coroa, cetro e muito samba no pé. Vinte e cinco anos onde alegria e obesidade mórbida sambavam na “Marques de Sapucaí”.

“Não fique triste /que esse mundo é todo seu”. Engordava a cada reinado. Dos cento e cinqüenta e dois kilos do primeiro ano de Momo aos trezentos e vinte e oito do último ano. O ano mais trágico de sua vida. O ano em que foi flagrado enrabando a rainha do carnaval carioca. Onde estava com a cabeça? Melhor! Por que fora enfiar seu pinto na bunda da rainha? Tanto lugar para acomodar seu piu-piu, seu pintinho blasé, que, a bem da verdade, nem tinha certeza onde se metia.

“Tu és muito mais bonita que a Camélia que morreu”. Seus trezentos e vinte e oito kilos o impediam de ver seu piu-piu. Sua gorda mão pegava em seu pinto e ele lhe parecia de brinquedo. Fora por isso que a bela e jovem rainha do carnaval não resistira aquele alvo sorriso, aquele pintinho da Estrela. E já na quarta-feira de cinzas, não respeitaram nem as cinzas, sua foto enrabando a rainha estampavam todas as bancas de revistas do país. A rainha, só ganhou com isso, era seu primeiro reinado. Agora ele, o rei Momo mais festejado do Rio, em seu vigésimo quinto ano de rei, encerrava ali sua carreira. A cidade não o perdoara e jamais o perdoaria.

“Ô lalaôôôôô /Atravessei o deserto do Saara”. Manhã de sábado de carnaval e nosso querido Momo teria que aturar até quinta todas as possíveis marchinhas carnavalescas do país. “O sol estava quente e queimou a minha cara”. Esse era o sexto ano seguido que seu vizinho, um magro e simpático velhinho, lhe torrava o saco (de brinquedo) com aquelas infernais marchinhas. “Chegou, a turma do funil”. Trezentos e setenta e oito kilos se levantam com dificuldade do sofá-cama e se olham no espelho. Vêem apenas massa disforme, uma geléia de ectoplasma, de seu alvo sorriso restou somente uma podridão amarela.

“Todo mundo bebe”. Que mal há em enrabar, com um brinquedinho inofensivo, o rabo de uma pobre e triste rainha de um carnaval carioca qualquer? “Mas ninguém dorme no ponto”. Afinal, a diferença entre cagar e dar o cu é meramente vetorial. “Ninguém dorme no ponto!”. Tirou da gaveta a velha e enferrujada navalha que herdou do pai barbeiro e passou com força no pulso esquerdo. “Se você pensa que cachaça é água”. A velha, enferrujada e cega navalha só deixou em seu pulso uma marca vermelha. “Cachaça não é água não!”. Passou novamente com mais força...


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:19 PM

Roteiro do domingo de uma família verde e amarelo

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Um dia sem nuvens no céu, sem risco de chuva. Há quanto não chove? Mas ele estava feliz por hoje não chover. Acordou às cinco da manhã. Hoje é domingo. Para que acordar tão cedo? Mas hoje é um dia especial, dia de Formula I. Ah, sim! Hoje sim, hoje tem Copa do Mundo, jogo do Brasil na TV. Escancarou a janela, sentiu o doce aroma do esgoto a céu aberto. Respirou fundo, olhou pra rede, a mulher ainda dormia:

    - Acorda, mulher!
    - Porra homê, me deixa!
    - Acorda! Brasil, Brasil, acorda!

A mulher, cansada de passar roupa até tarde, não acordava. Resolve fazer um café. Na sala, rede pra tudo quanto é lado, passa por aqui, por acolá, chega à cozinha e é aquele mexe-mexe:

    - Pam! Pam! Prac! Pam!
    - Diabos, não tem pó!

Aquilo não o deixou desanimado. Bebe um copo d’água barrenta e sai mundo afora. Sete horas aquela confusão. Mijo de criança no meio da sala, choradeira, gritaria:

    - Mãe, tô com fome!
    - Não tem nada, menino!
    - Mãe, tô com fome!
    - Já disse que não tem nada, diabo ruim!

Meio-dia. Todo mundo já se roendo de fome, quando pinta na porta da casa aquele espigão de homem com um kilo de farinha e três rapaduras debaixo do braço. Lá pras tantas, todo mundo com a pança cheia de rapadura e farinha, é ligada a única coisa condigna daquela família, cujo pai tinha o maior orgulho. Uma televisão colorida, último modelo, controle remoto e tudo. A qual foi comprada em sete suaves prestações; como entrada usou seu fundo de garantia.

    Todo mundo sentado no chão:

    - Sai do meio, barriga de lama – grita o pai pro filho
           menor.
            
    “E rola a bola em Berlim...”.

Nesse domingo Felipe Massa ganhou na Formula I e a seleção brasileira ganhou de 5X0 da Alemanha. E nossa prezada família, o pai, o herói dessa crônica, sua esposa e seus nove filhos, dormiram sem jantar, adormeceram em suas redes saciados com as glórias do Brasil.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:37 PM

Wally Salomão

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Estava no embarque, com a Patrícia Pilar logo a minha frente sendo paparicada por fãs, do aeroporto internacional Pinto Martins, aqui de Fodaleza, quando soube da viagem, só de ida, do Waly Salomão para outras paragens. De súbito, saquei a caderneta de anotações e fiz, como se não tivesse ninguém ao meu entorno, o poema abaixo. Lembro que quando concluí o poema e guardei a caderneta, a Patrícia Pilar olhava para mim com curiosidade. Mal sabe ela que fui tocado pelo anjo-demônio da poesia:

                                                                                  
                                                                        a Wally Salomão

           não vou cheirar meca por Wally
           caiu uma Aliá em minha cabeça
           e daí?
           não vou ser engraçadinho
           e me candidatar ao posto
           vago
           apesar,
           de passar com
           o
           piano
           nas costas
           várias vezes por Alí
           não,
           não vou chorar por Wally
           ele não queria
           vou mais é
           dançar um rock
           me procurar
           sambar com Wally
           porque agora
           quero sim
           minha outra
           face
           rindo pra mim.


*meca é uma gíria para cola de sapateiro


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POR EM 29/09/2008 ÀS 05:47 PM

Belém - Brasília

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“A brevidade é irmã do talento”
Anton Tchékhov

Deu branco? Bota num prato! A tremenda carreira olhava pra mim e eu olhava para o monitor do notebook. Estava como o personagem-escritor do filme Joguem a mamãe do trem. Não sabia se a manhã estava fria, se a noite quente ou se a tarde ensolarada. Estava prestes a desistir do notebook e cair de venta. “Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu brincar com meu nariz”. A canção dos Los Hermanos preenchia o ambiente.

Corta! Vamos refazer!
Atenção. Cena Um. Claquete!

Nos olhamos. Meu bigode lhe causou espanto. Seus peitões me chamaram atenção. A relação era de paciente e psiquiatra. Então você escreve pra esquecer? Seus peitões falavam mais que ela. O que disse? Você escreve pra esquecer? Não, escrevo pra comer. Imprimo tudo e engulo com suco de limão. Já tomou suco de peitão?

Corta!
Atenção. Cena Um. Claquete!

O que é ficção? Uma linha tênue separa ficção da realidade. Talvez nem exista essa linha. A leitura é um prazer orgânico. Necessário. Quando se lê ficção a ficção não existe. Falando como ficcionista, tudo que eu posso fazer é ficção. Uma ficção que nunca será totalmente ficção. Bernardo Carvalho? Até o nome é de escritor do século XVIII.

Corta!
Cena Um. Claquete!
Adicção é o mal do século XXI...

Corta!
Cena Um. Claquete!

 “Qual é a relação com a água?”. A interrogação de Yoñlu causava riso geral em sala de aula...

Corta! Passional.
Cena Um. Claquete!

A História se repete. Amy Winehouse é o estandarte. O que fazer com o talento bruto? Ou se morre por ele ou dá o braço a torcer...

Corta! Corta! Corta! Corta!
Cena Um. Gravando! Claquete!

O cheiro de perfume barato e cigarro desencavou uma memória banal. O carro andava e o olhar da menina me perseguia seguindo o trajeto do automóvel. O veículo distanciava e o olhar não se despedia, não se despediu, se despiu e apresentou um corpo magro, uma penugem rala e muita fina...

Corta! Corta! Corta!
Cena Um. Claquete! Gravando!  

Estiquei uma Belém-Brasília sobre o cacete e dei pra putinha amiga do MM, clone tupiniquim da Amy, aspirar...

Corta! Corta! Tirem o palhaço daí! Corta!


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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:32 PM

Chupa que é de uva

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O amor é tão velho feito um enlatado americano. Hollywood inventou o amor. Aprendi tudo o que sei sobre o amor na Sessão da Tarde. Meu dicionário de frases feitas, engraçadas e espertinhas é fruto de películas americanas. Nos ensinam também sobre a antítese do amor. Eva fala no microfone. Lotearam o amor e os americanos são latifundiários. Grito para dentro do paraíso perdido de Eva: “Chupa que é de uva!”. A voz cavernosa soluça um choro de criança esquecida com o pirulito na boca. Chupa que é de uva, porra! Eu te amo! Assistiu Sessão da Tarde demais! Chupa, chupa que a maçã virou uma camisinha sabor uva. Chupa amor, chupa que é de uva! 
 
Senta que é de menta 
 
Estou emaranhado num montão de fios, ou na falta deles, da tecnologia. Meti meu cacete num buraquinho e a glande saiu no Japão. O computador bateu o cachorro, é o melhor amigo do Homem. Eva continua fazendo arte, pelou a cabeça e pendurou um piercing no clitóris. A Bicha louca, amicíssima de Eva, se esparrama pela mídia. Dizem que a mídia é a imprensa marrom de outrora. Cuidado para não confundir a Bicha-louca- literária-da-mídia e a Louca da aldeia que não são a mesma pessoa. A da aldeia é o escritor comilão que não come ninguém. Vive de autofagia e de meter o pau em todo mundo, nada de literal. Dialogam e fingem que são inimigas. Uma não existe sem a outra. Dependem uma da outra para que seus textos façam sentindo. Uma dança Frevo. A outra faz pinta de iconoclasta limpando bem os óculos. Batem punheta uma na outra. Brecho pela fechadura e assopro: “Senta que é de menta!”. Sentam malucas que é de menta. Senta, senta que é de menta!

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POR EM 22/07/2008 ÀS 01:32 PM

Collagem

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nasci no ano da chegada da televisao em cores no brasil e estou em vinte e oito de junho de mil novecentos e noventa e seis deitado numa rede lendo mario quintana que me diz nasci no ano da descoberta do gas neon alguns leitores diante disto compreenderao a inocuidade de mais esclarecimentos da descoberta do gas neon em 1906 a chegada da tv em cores no brasil em 1972 se vao sessenta e seis anos sessenta e seis longos anos que sem duvida separam estilos porem esses anos todos nao apagam marcas literarias nao separam o autoidentificarse pois a literatura e imortal nos ensinam isso nas salas das universidades so o tempo e mortal e imutavel o resto a poesia essa e uma questao de talento de confraternizacao humana falo de alquimias humanitarias de palavras criadas para tocar a pele nao a tecla de um computador domingo 25 de maio todos os governos sao erguidos sobre mentiras todas as organizacoes sao erguidas sobre mentiras as mentiras podem ser inofensivas como a mentira da droga milagrosa a metadona que supostamente remove o desejo de heroina a droga surgiu em meio a mentiras explicadas a mim por um dos primeiros medicos a metadona e a primeira sintese bem sucedida da molecula de morfina em tanger tive um habito de dois anos de metadona injetavel que era droga pura quem sao os malucos antidrogas de onde vem fato a canabis e uma das melhores drogas para combater a nausea aumenta o apetite e o bemestar tambem estimula os centros visuais cerebrais ja tive tantas imagens otimas conseguidas com cannabis na minha epoca de saladas eu usava so ela e que realizacoes consegui e que acasalamentos como exclamou um critico frances admirado algumas tragadas na teta verda e consigo enxergar multiplas saidas e caminhos entao porque tanta repressao a essa substancia inofensiva e prazerosa quem e voce para quem a verdade e tao perigosa o que e a verdade algo imediatamente percebido como sendo a verdade allen abriu rombos na grande mentira nao apenas com sua poesia mas com sua presenca sua verdade espiritual autoevidente ultimas palavras dois a cinco meses os medicos disseram disse allen mas eu acho que vai ser muito menos depois ele me disse achei que ficaria apavorado mas estou totalmente feliz suas ultimas palavras a mim eu me recordo de falar com ele pelo telefone antes do diagnostico fatal e ja estava ali em sua voz distante fraca entao eu soube tenho dois diplomas universitarios e ganho r$ 5 000 00 por mes exatamente para poder ficar disponivel porque so sei escrever poesia na total desorganizacao e irresponsabilidade o confronto com os bem comportados me deixa louco por isso me senti obrigado em 72 a fazer um striptease em cima de uma mesa num ginasio estadual para alunos da oitava serie em que a caretice formada pela musica pop gracava alguem uma vez em eldorado me disse que tudo isso e uniao da shell do vaticano que produziu a musica pop para embrutecer as pessoas e eliminar o problema da morte de seu quotidiano isso esta bem explicito no ultimo tango em paris onde o cara pega uma menina de cuca pop e arrebenta com o coreto dela em ultima estancia nos sabemos que essa gente nos assassina como a moca faz com o personagem do filme entao me senti obrigado a fazer um striptease em cima de uma mesa numa escola de suburbio no pior periodo da repressao no periodo medice falei olha gente o problema e o seguinte voces tem quinze anos mas e como se tivesse noventa eu nao aguento mais o bom comportamento de voces eu estou enlouquecendo alias escrevo poesia para nao enlouquecer diariamente tenho que escrever alguma coisa e jogo fora depois para nao ficar louco voce ai sergio jordao voce tem coxas lindissimas eu vejo voce passar de bicicleta que e que voce faz com essas coxas a nao ser sentar nessa bunda e ficar vendo tv ou usar essas coxas para jogar futebol que e tambem uma forma de deterioracao do corpo praticada tambem pelos milicos convivemos diariamente com a loucura nos poetas nao podemos perder isso de vista eu estou doido tenho que mudar de uma casa para um apartamento e isso e uma tragedia para mim que nao sei como lidar com o cara que faz mudanca tenho que chamar os adolescentes la com quem eu trepo o meu me ajuda aqui pelo amor de deus poe isso aqui que livro eu ponho ali vivo numa total negacao do principio de realidade sou realmente um aliado do inconsciente contra o principio da realidade entao isso e terrivel nao saber toda essa cupula esse inferno de opressao levando a gente para o tiro final na cabeca eles nao vao me pegar e brutal a gente lida com pessoas altamente careteadas conformistas conformismo absoluto a poesia tem que tirar as pessoas desse inferno qual e o meu publico meus amantes metalurgicos que comentam comigo essa historia de dizer que operario tem so necessidades primarias economicas e uma visao facista mussoline dizia isso manter as massas enquanto massas eles tem mais e que discutir shakespeare que vai ser um poeta popular na medida em que a cultura for socializada nao no sentido de cuba de todos esses paises parafacistas de onde os poetas estao exilados ou sao suicidados tipo maiakovski e no caso de cuba o severo sarduy que vive em paris a gente lida com esses elementos delicadissimos que podem nos levar a loucura eu lido o dia inteiro com o problema da morte para me levantar da cama todo dia tenho que desatar um no de cascaveis para poder dizer porra hoje vou continuar vivendo caralho entao quase sempre ja amanheco bebado ja emendo porque dai da aquela falsa euforia e consigo empurrar mais um dia isso e anarquia vivida no quotidiano e o quotidiano anarquico entao eu nao consigo mais empregos os editores a esquerda a direita o centro o alto o baixo todo mundo me arrebenta com a cabeca porque realmente eu sou uma ameaca para eles fisica e isso o que eu tinha a dizer

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