revista bula
POR EM 07/05/2008 ÀS 10:03 AM

Religião, xenofobia, sexo e literatura

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Quando me contenho, me tenho; quando me solto, sou óbvio.

(Chico Perna)
 

Esta semana, aqui na Bula, tivemos apaixonadas discussões sobre os mais variados temas, a começar pelo da existência ou não de Deus. Outro papo foi um texto - dito “xenófobo” pelo Angelini - escrito pela minha amiga Cássia Fernandes. Também presenciamos um mini diálogo - entre o Braz e o Flávio Paranhos - versando sobre a arte do elogio nas terras goyazes. Um espaço riquíssimo, digno das boas cabeças que aqui vêm, mesmo que seja para tratar de amenidades.
 
Apesar dos temas profundos aqui tratados, nesta edição particular, questões metafísicas deram o tom da conversa, exaltaram os ânimos, até porque discutir religião, como estamos cansados de saber, sempre traz opiniões apaixonadas. Tudo bem, cada um na sua, ou quem sabe, dependendo dos embalos noturnos, na dos outros.
 
E por falar na dos outros, quem diria, o Ronaldo, o grande astro das estrelas, foi logo se envolver com meteoros, e olha que meteoros. Agora o Rapaz está deprê, perdendo alguns contratos, sem coragem sequer para processar quem quer que seja. Ao Fantástico, disse que se fosse processar alguém se auto-processaria. Boa, né? Mas boa mesmo é a do travesti que terá sua autobiografia lançada por algum maluco, o que não é de assustar ninguém, porquanto neste país qualquer medíocre vira celebridade. Perdemos o senso! E ele, o fenômeno, perdeu a sorte: nem o trevo de quatro folhas na virilha pôde salvá-lo. Aliás, deu azar, já que o seu algoz disse ter beijado várias vezes aquelas folhinhas.
 
Mas a notícia do Ronaldo não foi a pior, ele tem dinheiro, tem poder e a mídia. Não sofrerá tanto. Agora, o duro são as crianças maltratadas e mortas aqui e fora do Brasil, como o caso daquela austríaca que viveu sob o jugo do pai-monstro, por muitos anos. Dura é a condição subumana das pessoas que dependem de barcos para o seu transporte na Amazônia. Duros são os bebês no freezer daquela mãe em Wenden, Alemanha.
 
Dizem que a vida imita a arte, podem até dizer, mas há muito que a arte não é mais referencial para nada. A vida tem sido muito dura e cruel, perdeu-se o senso de tudo. Mata-se sem dó e com requintes de uma crueldade que não imaginamos. Tortura-se com a maestria de quem educa. Roubam-nos a esperança, a alegria, o entusiasmo para acreditar que as coisas podem melhorar.
 
Tudo parece desmoronar, até ouvirmos a história de Esaú e Jacó. Não a história bíblica, nem a machadiana, mas uma história de seres reais: dois meninos pobres em recursos materiais, mas ricos em espírito e determinação, nos provando que as dificuldades podem, sim, ser vencidas, quando se tem o apoio da família. Que o estudo é e será sempre uma possibilidade de melhoria de vida, um caminho para o desenvolvimento humano. Esaú, Medicina; Jacó, Ciências Sociais.
 
Esaú foi aprovado em primeiro lugar no vestibular de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco. Anda meia hora a pé, para pegar um ônibus, e, depois, de ônibus, anda mais uma hora, até chegar à Universidade. Jacó, da mesma forma, também empreende essa jornada, para cumprir os créditos no curso de Ciências Sociais.
 
Esses meninos são mais do que reais, são filhos de país que lêem, pais que valorizam o conhecimento, que sabem, como diz meu amigo Pedro Luzt, referindo-se à sua mãe, “que uma caneta pesa bem menos do que uma enxada e pode mudar vidas”. É o que estamos vendo. Quando a família é consciente da importância da leitura, valoriza a educação, os estudos, certamente os filhos herdarão esse gosto, saberão, também, legar aos seus filhos essa corrente redentora da mediocridade humana.
 
Pois bem, experiência como a dos garotos de Recife não são solitárias. Na Bahia, mais precisamente no sertão, um professor de Literatura, ex-professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, preocupado com o desenvolvimento das pessoas de sua cidade, não hesitou em levar para lá todo seu acervo literário, mais de cinco mil livros, que estão transformando o cotidiano da cidade, transformando vidas, possibilitando aos seus pares a possibilidade de também se tornarem leitores críticos do mundo.
 
Em Natal, o inusitado, o juiz Mário Jambo, da 2ª Vara Criminal da Justiça Federal do Rio Grande do Norte, sentenciou que Paulo Henrique da Cunha Vieira, Ruan Tales Silva de Oliveira e Raul Bezerra de Arruda Júnior terão de estudar para continuar em liberdade provisória. Os três foram presos durante a Operação Colossus. Em agosto de 2007, quando a Polícia Federal prendeu 18 pessoas acusadas de integrar uma quadrilha especializada em roubar senhas de correntistas de bancos pela internet e falsificar cartões de créditos. Os acusados terão de ler três livros de literatura e, a cada três meses, eles terão de entregar um resumo de dez laudas dos livros indicados pelo juiz. As primeiras obras a serem lidas são A hora e a vez de Augusto Matraga, último conto do livro Sagarana, de Guimarães Rosa, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
 
Três experiências maravilhosas - os pais de Esaú e Jacó, o professor de literatura e o magistrado de Natal - que fazem a diferença, que nos levam a refletir sobre o caminho da leitura, e que dariam uma bela discussão aqui na Bula - para lá da metafísica.      

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POR EM 02/05/2008 ÀS 05:27 PM

O Rio Tocantins engoliu meu Avô

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Os rios, naturalmente, correm. É da natureza deles o livre curso. Não tem nada que os impeça, rompem qualquer obstáculo que se lhes apresente. Não fazem distinção de tempo e leito, não consideram castas nem poder, retumbam os gritos ancestrais; não param nunca, mesmo quando lhes desviam o curso, mesmo quando desembocam no mar.
 
Pelos rios, os homens descobriram outras terras, alimentaram descobertas e distâncias. Neles, depositaram esperanças, viram-se refletidos e morreram inúmeras vezes, como o meu avô, Manoel de Sales Perna, um exímio nadador, a quem o rio não deu guarida, engolido pelo Tocantins ao salvar a minha prima, Maria Úrsula, bem próximo à cidade de Carolina, no Maranhão.
 
As pessoas morrem, os rios são perenes. A qualquer tempo, estão em movimento. Nunca se repetem, sempre impressionam, seduzem e devoram. Água não tem cabelo, professam os antigos, e se tivesse, sem hesitar, diria que o meu avô teria vivido um pouco mais, a tempo de me conhecer e poder falar um pouco sobre a sua vida, suas origens, e da afeição pelos índios Krahô.
 
Dele sei pouco, mas sempre pude imaginá-lo, quando não pelas histórias contadas pelo meu pai, Francisco Nolêto Perna, pela fotografia ampliada que o meu tio, Tito Perna, traz emoldurada na sala de sua casa e, mais recente, sendo redescoberto, por obra da ficção, pelo escritor Bernardo Carvalho, no premiado “Nove Noites”, Companhia das Letras (2003), quando o engenheiro Manoel Perna, que na vida real era barbeiro, pôde contar a história d o antropólogo americano Buell Quain, discípulo de Ruth Benedict da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que se suicidou em 1939, aos 27 anos, poucos dias após deixar a aldeia Krahô, a caminho de Carolina, no Maranhão, para se encontrar com o meu Avô. Fato que, embora sirva à ficção de Carvalho, aconteceu na vida real, como atestam os documentos e o testemunho do meu pai.
 
Apesar de não ter podido conhecê-lo em vida, vejo-o sempre em meu pai, em mim, nos meus filhos e irmãos. Vejo-o no rio que o engoliu, pois passou a fazer parte dele, uma vez que o seu corpo nunca foi encontrado. Eternizou-se nas suas corredeiras, imortalizou-se no seu remanso, como na mitologia: os rios da eternidade.
 
Vejo-o sempre quando vou a Miracema do Tocantins, quando miro o rio do Porto do Padre, da Praia de Areia, do Flutuante do “Seu” Manoel, da Praia do Urubu, da Usina do Lajeado. Muitos desses lugares, que agora citei, já não existem mais, mas vivem na minha memória, como o meu avô, que, pela obra da ficção, virou personagem e “zombou” do rio que o engoliu. 

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POR EM 08/04/2008 ÀS 10:38 AM

Signos em rotação

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Até bem pouco tempo, professor era aquele que professava algo, tinha o que dizer, valia-se da sua cátedra para incutir conhecimentos, semear o bem, os mais edificantes ensinamentos. Tempo de Mestres, não somente de títulos, mas de fato, e de artes, ser universal, de uma alma grande e profícuo conhecimento.
 
O que aconteceu com tão valioso ser? Praticamente inexiste. Sobraram poucos e esta geração quase não teve ou tem a oportunidade de conviver com um desses, uma vez que a nossa realidade acadêmica é caótica, já não comporta os grandes mestres: magister, os que aí estão, quase sempre, não passam de oportunistas de um mercado em ascensão, já que não deram certo nas suas profissões originárias, descambaram para uma área, que, à primeira vista, parece tudo acolher, daí a tragédia em que vivemos.
 
Se por um lado não existem mais os mestres, certamente não há razão para existência de discípulos, muito mais ainda num tempo de muita exaltação midiática e pouco aprofundamento nas questões essenciais, como pensar o outro, a solidariedade, a ética, o meio ambiente, sem falar na nossa rica e preciosa Língua Portuguesa, que de tão maltratada e vilipendiada, perdeu força e prestígio, um exemplo claro disso está nas universidades, mais especificamente nos cursos de comunicação social.
 
Como vemos, se não há uma valorização da Língua Portuguesa, nem mesmo nos cursos em que ela é de fundamental importância, como jornalismo e publicidade e propaganda, quem dirá nos outros cursos, onde ela “não é tão importante assim.” Mas tudo bem! Dirão uns. - Tudo isso faz parte da modernidade, vivemos na era da imagem, precisamos dominar a técnica, e acabou! Vociferarão outros. Ninguém sentirá falta da Língua, muito menos dos grandes Mestres, uma vez que não se pode sentir falta daquilo que não se conhece.
 
A realidade é dura e triste, mas o que me dá um dó danado é ninguém fazer nada, é deixar gente tão incompetente, sem conhecimento mínimo das questões básicas, como ensino e aprendizagem, movidos apenas pela vaidade e a ganância do mercado, passar-se por mestre, por dono do saber, conduzir pessoas, destinos, desconsiderando a própria ignorância.
 
Como dizem: a vida é cíclica, e, por isso, talvez, ainda venhamos, nas gerações pósteras, a reaver os mestres que se foram, reformados no ânimo e no sangue dos vindouros homens de bem, e aí, um outro ser, que também sou eu, numa crônica como esta, não lamentará ausências, mas falará de feitos e bondade, de respeito e solidariedade, tudo isso escrito em bom Português.
 
*Título tomado de empréstimo ao escritor Mexicano Octávio Paz.

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POR EM 28/03/2008 ÀS 02:52 PM

O Silêncio dos Inocentes

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A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar 
Que salta aos olhos igual a um gemido calado     
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar          
Moinho de homens que nem girimuns amassados         
Mansos meninos domados, massa de medos iguais          
Amassando a massa a mão que amassa a comida   
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

(Raimundo Sodré)


 
Uma das coisas mais abjetas praticadas pelo ser humano é a tortura, seja ela física ou psicológica. Ato desumano, covarde, perverso e indigno. Atenta contra o que há de mais caro ao ser humano, sua liberdade.
 
Pelo menos é praxe na história universal que a torturas atendam a fins vários, mas, primordialmente, o que se sobressai é a de retirar do torturado confissões sobre algo que ele sabe ou que supostamente poderia saber sobre pequenos delitos ou sobre crimes mais graves.
 
Os métodos são vários, utilizados desde muito pela humanidade, como o fez a igreja Católica naquilo a que chamou de santa inquisição - na Idade Média - quando utilizou toda forma de aparelhos de tortura, como alicates, tesouras, garras metálicas para destroçar seios e mutilar órgãos genitais, barras de ferro aquecidas e chicotes. Os métodos eram vários, o que importava era a eficácia para obter informações sobre bruxaria, satanismo e outras loucuras inimagináveis. Tudo em nome de um deus que não era o nosso.
 
Há notícias de que o padre dominicano Bernardo Guy (Bernardus Guidonis, 1261-1331) escreveu o livro Liber Sententiarum Inquisitionis (Livro das Sentenças da Inquisição) no qual descreve vários métodos utilizados para obter confissões dos acusados, tanto físicos como psicológicos, dentre os quais o de obrigar a vítima a ingerir urina e excrementos. 
 
Se na Idade Média as práticas beiravam ao rudimentar, na modernidade ganharam sofisticação, como as câmaras de gás ou os campos de concentração, criados pela bestial figura de Adolf Hitler. Nas ditaduras espalhadas pelo mundo, milhares de pessoas sucumbiram nas mãos carniceiras de hediondas figuras. No nosso País não foi diferente, milhares de estudantes, pais e mães de família foram maltratados, torturados e mortos em nome de um regime de exceção.
 
Dos métodos utilizados pelos torturadores brasileiros, alguns chocaram e ainda chocam a todos, como seguem: Choque elétrico, Pau-de-arara, Cadeira de dragão, Afogamento, Telefone, Palmatória, Espancamento, Esbofeteamento, Empalamento, Queimadura com cigarros, Geladeira, Mordida de cachorro, Coroa de Cristo, Violação sexual, Arrancamento de dentes, Injeções de éter subcutâneas, Arrancamento de unhas, Soro da “verdade” (Pentotal), Fuzilamento simulado, Ameaça de morte (à própria pessoa, filhos, companheiros etc), Assistir à tortura de companheiros, Aplicar torturas em companheiros, Desorganização temporo-espacial.*
 
Como se vê, a bestialidade humana se supera a cada tempo, às vezes nos pega de surpresa, nos deixando estarrecidos, como foi o caso da menina L. de 12 anos, torturada aqui em Goiânia pela “empresária” Sílvia Calabresi, 42, que, sem sombras de dúvidas, conhecia muito bem os métodos medievais de tortura descritos acima. O que choca, além do ato covarde da tortura, é a frágil figura torturada, sozinha, indefesa, obrigada a toda forma de humilhação e dor.
 
O que choca é saber dos gritos silenciosos desta criança, das dores da alma que persistirão por toda vida. O que choca é a indiferença de tantas pessoas à dor desse ser tão fragilizado. Oh, Deus! Pelo menos o que se tem lido sobre tortura é que os torturadores buscam, a qualquer preço, a confissão de suas vítimas, confissão de algum delito, de alguma trama. E dessa pobre criancinha, que confissão ela buscava obter?
 
Fora brutalmente maltratada, alijada do que se tem de mais caro, o direito à infância e à liberdade. Não estudava, passava dias sem comer, trabalhava até 1h40 da madrugada, retomando o trabalho doméstico às 5h. Viveu todo tipo de humilhação, inclusive métodos medievais, como ingerir fezes e urina de cachorro. Era constantemente amarrada, queimada com ferro elétrico, tinha as unhas mutiladas, a língua mutilada, era amordaçada, sendo obrigada a ficar por horas com um pano, dentro da boca, embebido por pimenta, a mesma que lhe era aplicada nos olhos.
 
Como deve ter sofrido esta menininha, meu Deus. Como deve ter clamado por socorro, silenciosamente. Uma coisa me chamou atenção, o paradoxo do ato: ao mesmo tempo em que torturava, que buscava não sei que tipo de confissão, tapava a boca da menina, não permitindo que ela falasse. Arrancava-lhe pedaços da língua. Por pouco não tivemos mais um serial killer, pela forma como vinha agindo, consciente dos seus atos, já havia torturado outras crianças, agora era só intensificar as sessões de tortura, até não se contentar mais com a dor física, buscando a morte.
 
Transtorno? Transtornados ficamos nós, ao assistirmos boquiabertos ao sadismo dessa besta, dessa psicopata, que, ajudada pela empregada doméstica, Vanice Maria Novaes, 23, cometera tamanha brutalidade. O que impressiona é que a empregada doméstica em vez de defender a criança das atrocidades da patroa, age contrariamente, e também passa a torturar a sua igual, o que nos remete a Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no Capítulo LXVIII / O Vergalho[1], quando um ex-escravo, Prudêncio, açoita outro em praça pública e, questionado pelo antigo patrão sobre o porquê daquele ato, recebe com resposta: “É um vadio e um bêbado”, a essa fala, segue a seguinte reflexão de Brás Cubas:
 
(...)Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!(...)
 
Recorremos à ficção na tentativa de uma compreensão do real, mas não há compreensão quando os casos se multiplicam, como os maus tratos do aposentado Ovídio Martinelli, de 93 anos, que sofre do mal de Alzheimer, e foi espancado pelas suas “cuidadoras” Rosângela Pereira Coutinho, de 44 anos, e Patrícia Santos Alves, de 25. Cenas chocantes que nos deixam indignados, estarrecidos, sofridos, principalmente quando são cometidas contra seres tão frágeis e indefesos e, por se saber que os atos não são praticados por estranhos, mas por pessoas tão próximas, que ainda ousamos chamar de próximos e sempre oferecemos a outra face.
 
O título deste texto foi tomado de empréstimo ao filme (Silence of The Lambs, The, 1991), dirigido por Jonathan Demme. 

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POR EM 24/03/2008 ÀS 02:27 PM

Espelhado de céu muito sereno

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Depois de morar em São Luis do Maranhão, Cuiabá, Palmas, Goiânia e Fortaleza, Jádson Barros Neves voltou à sua pequena cidade, Guaraí-TO, para uma jornada de intensas leituras e escritas.
 
Leitor de William Cuthbert Faulkner, estudioso contumaz das nossas Letras, traz na alma, um tanto quanto inquieta, os causos, lendas e mitos da Região Norte, principalmente do sul do Pará, onde trabalhou como vendedor de secos e molhados, juntamente com seu pai, já falecido.
 
Jádson, ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, vem construindo um trabalho de fôlego na narrativa contemporânea brasileira, mais particularmente na categoria conto. Detentor de diversos prêmios literários, tanto no Brasil, como no exterior, valendo destacar o Concurso Guimarães Rosa/Radio France Internationale.
 
Enquanto o primeiro livro não chega (ainda é para este ano) Jádson vai se firmando como escritor, conquistando novos leitores e novas premiações, como recentemente o fez, nos 40 anos da UNICAMP, quando teve o seu conto “O Funil” incluído no livro “CONTOS – UNICAMP ano 40” (Editora da Unicamp,2007).
 
Ambientado num vilarejo qualquer, às margens de um rio qualquer, da memória do autor, o conto nos fala de companheirismo e perdas. Conta a história de Suzana, viúva de Orlando, e a do seu cunhado, José, na incansável busca para encontrar o irmão que fora tragado pelo rio quando nadava de volta para canoa, após recuperar a sua vara de pesca que caíra na água.
 
Narrada em terceira pessoa, intercalada por idas e vindas, irrompendo, às vezes, o discurso direto e o discurso indireto livre. O tempo narrado compreende quatro dias na vida dos personagens, desde a Sexta à tarde, quando Orlando caiu no rio, o Sábado e Domingo de buscas, até Segunda feira, quando o corpo foi encontrado.
 
Já de início, pode-se ver a força narrativa de Jádson, as belas imagens com que trabalha, consubstanciadas pela força lírica do seu texto. Como se pode conferir neste trecho:
 
“José havia remado a tarde inteira, por mais de dez quilômetros, rio abaixo, e também havia procurado ao longo do delta, nos baixios e nos remansos e agora estava exausto. Subia a ladeira que dava no vilarejo, onde uma lua gorda, amarela, nascia atrás da colina da igreja. Quando passava, as pessoas olhavam-no em silêncio, e José as cumprimentava e baixava a cabeça e as pessoas também baixavam a cabeça. Era um coro só, o coro do silêncio. José vinha adoecido daquele crepúsculo rápido e sangrento, daquele fim de inverno chuvoso, que ainda repercutia no horizonte em forma de relâmpagos esparsos.(...)”.
 
Com assomada capacidade perceptiva Jádson Barros Neves consegue, pela plasticidade de suas imagens, compor a atmosfera propícia para o fato narrado, como quando descreve a velha casa onde moram José e Suzana e, outrora, Orlando:
 
“A casa onde ela morava era velha, pintada de um amarelo corrompido pela ação das intempéries e descascada pelo sol. Esquecida, quase abandonada há anos, suas duas portas, suas três janelas fechadas, com fendas na madeira, guardando o silêncio e a poeira de muito tempo de esquecimento”.
 
Assim como a descrição encimada, muitos outros belos trechos são marcadamente inesquecíveis, como o que segue: 
 
“Ela concordou mais uma vez com a cabeça e José foi fechando os olhos lentamente, contemplando a imensa lua amarela que sangrava perto da janela e lembrando do quanto era bonita a chuva no delta. Vira-a à tarde, uma cortina escura, que cavalgou escurecendo o horizonte”.
 
Percebe-se aqui, pelas passagens lidas e superficialmente analisadas, o pleno domínio da narrativa curta por Jádson Barros, a primazia com que tece as tensões nas suas histórias, sempre carregadas de muita reflexão e humanidade. Um voltar-se sobre si mesmo, revelando e encobrindo, causando no leitor a vontade de seguir adiante, como bem nos ensina Wendel Santos:
 
“O conto forma-se sob o anseio de duas tensões: o de revelar e o de encobrir. Tais tensões podem compor-se de modo o mais diverso. Há o conto que alterna revelação e encobrimento; há o conto que, de início, revela um mínimo suficiente para despertar a curiosidade leitora e, em seguida, numa ordem de crescimento constante, encobre seu objeto até o ponto em que é necessário outra vez revelá-lo(...)”
 
Jádson sabe muito bem do que fala Wendel Santos. Ele tem pleno domínio da técnica e da arte da escrita, sem falar no seu apurado senso estético. Adentrar a sua obra é permitir-se participar desse jogo, dessas tensões, para uma jornada de acontecimentos. O leitor está convidado a conhecer mais de perto o poder criativo deste autor tocantinense, que, sem medo de errar, faz parte do que de melhor há na Literatura Brasileira. Boa leitura!.
 
 

*Título tomado de empréstimo

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:00 PM

Ascensão e queda

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O que leva um indivíduo a expor o filho ao vexatório papel de se transformar na bola da vez na imprensa nacional, ainda mais se pensarmos que este filho tem apenas oito anos, e que tal atitude poderá marcá-lo negativamente para o resto da vida? Dizem as más línguas que tudo foi arquitetado pelo pai, que é candidato a vereador e queria um tempo na mídia. Não sei se devo acreditar nisso. Seria patético admiti-lo, mas vindo do “ser humano”, tudo é possível. 

É difícil julgar, e acho que não devemos fazê-lo, mas o caso tornou-se público e merece as nossas considerações. De que lado estamos? Ou será que não devemos tomar partido e proceder de uma perspectiva de quem vê e se indigna, mas se cala? Não sei, sinceramente, não sei. Talvez para compreendermos um pouco mais como tudo isso funciona, precisemos compreender a lógica do mercado, do capital.
 
Por Deus, eu já sofri muito sendo professor universitário, principalmente quando indivíduos ali chegam cheios de sonhos, de promessas e de ilusão. Caem de pára-quedas e ali permanecem, como o quadro, a carteira, o giz, para lembrar o contundente ensaio do professor Nilton Mario Fiório, “Ser ou estar, eis a questão?”, em que reflete sobre o aluno histórico e o aluno geográfico.
 
Como no ensaio, pude conviver com tantos indivíduos que não sabiam por que estavam ali, não liam, mal escreviam e, ainda por cima, se davam ao luxo de querer boas notas. Triste, muito triste. Tristíssimo! Principalmente se pensarmos que eles conseguiram legalmente ingressar na universidade – via “vestibular” – e ali se descobriram incapazes, despreparados, enganados,  mas aí já era tarde, tarde da noite, uma noite sem perspectiva de amanhecimento.
 
O caso da criança, transformada em gênio no primeiro momento pela imprensa, para depois ser motivo de chacota, de execração pública, como é costume por estas plagas, nos leva a uma retrospectiva e nos faz lembrar o caso Avestruz Máster tão disputada pela mídia, por políticos e empresários, até descobrirem a farsa, o rombo, os arranhões na imagem de quem dela esteve próxima.
 
Com a criança não foi diferente, apesar de o pai querê-lo como um gênio e lutar para isso, em nenhum momento pensou na exposição do filho, muito pelo contrário, fez questão de apresentá-lo a todos, mas tudo começou a desmoronar, quando a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o Conselho Estadual da Educação se mostraram preocupados e cobraram providências, para que, posteriormente, o MEC prometesse fazer uma devassa nos métodos utilizados pelas universidades particulares  - nos seus propalados “vestibulares agendados”. Paralelo a isso, o jornal Diário da Manhã publicou um texto escrito pelo futuro “acadêmico” de Direito, o que demonstrou algumas deficiências gramaticais do garoto, natural para sua idade, porém relevantes para um universitário e, ao mesmo tempo, revelou a aberração de algumas faculdades e/ou universidade para cooptar alunos, não se importando se eles usam fraldas ou não.
 
Antes tarde do que nunca, diz o ditado. Eu também penso assim. Mesmo tarde este caso vem reforçar aquilo que vínhamos dizendo ao longo desses últimos anos, a irresponsabilidade de alguns empresários que tratam a educação como um produto qualquer, movido pela ganância, pela possibilidade do lucro fácil, quando não encontram algo mais rentável para investirem os seus milhões. Educação é coisa séria, feita de erros e acertos e envolve uma parcela grandiosa de humildade de quem ensina e de quem aprende, e sensatez de quem nela investe.  

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POR EM 04/03/2008 ÀS 03:56 PM

Ouvindo a própria voz

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Tudo foi muito estranho e engraçado, lembro-me bem, eu estava na rodoviária de Miracema do Norte, não posso precisar o ano, década de 70, quando vi pela primeira vez um gravador e ouvi a gravação que dele saia, fiquei encantado. Como seria possível aquilo?

Cheguei em casa deslumbrado com o novo conhecimento, com a nova tecnologia. Meses depois, meu Pai foi a Goiânia e nos presenteou com um belo gravador, último tipo, genuinamente japonês, uma maravilha. Passamos a gravar todos os sons que encontrávamos, que fazíamos acontecer, desde batidas em latas, até o som da descarga do banheiro, tudo com muito entusiasmo e graça.

Passamos a gravar as nossas conversas, as conversas dos vizinhos. Brincávamos de espiões, cantávamos e nos dizíamos cantores, artistas. Enquanto isso, uma montoeira de fitas K-7 ia se acumulando nas estantes da casa, compondo a nossa coleção. O certo é que éramos puro entusiasmo, a mesma que tínhamos pelos inúmeros livros da minha infância.

São agradáveis lembranças, mas, o mais agradável, o inusitado, o puro estranhamento, deu-se na fazenda Caridade, do meu avô materno, quando, à noite, nas reuniões que fazíamos, sob a luz dos candeeiros e lamparinas, no pátio da casa grande, o meu pai, Francisco Nolêto Perna; meus avós, vovô Antônio Nolêto e vovó Euzébia Nolêto; minha mãe, Adalgisa Nolêto; meus irmãos; meus amigos que levávamos; os vaqueiros; e os trabalhadores da fazenda estávamos conversando e, depois de muita conversa, após termos ouvido o pífaro de taboca do seo Tonhão, meu pai pediu silêncio. Todos silenciaram, e ele, meu pai, apertou o PLAY do gravador para ouvirmos as nossas falas, as conversas ali travadas, o som ancestral do seo Tonhão. Foi o êxtase total, uma cena indescritível, se considerarmos o rosto, o deslumbramento de cada um. Deus ali se manifestara, o mito, a cosmogonia, os espíritos ancestrais orquestravam aquele evento.

Talvez, se fosse hoje, nada de extraordinário aconteceria, ainda mais por se tratar de ouvir a própria voz, uma simples gravação não causaria tanto entusiasmo, numa época de instantaneidade, de tecnologias que capturam a voz, a imagem, os movimentos e, para muitos, a aura de cada um.
 
As lembranças da infância são para sempre, não se apagam, boas ou ruins, estarão sempre presentes, como podemos ver no filme O Caçador de Pipas (The Kite Runner), Direção de Marc Forster, baseado no romance do afegão Khaled Hosseini (2003), que conta a história de Amir (Khalid Abdalla), um garoto Pashtun rico de Wazir Akbar Khan, distrito de Cabul, que é atormentado pela culpa de ter traído seu amigo de infância, Hassan, filho do empregado do seu pai, Hazara Uma história comovente, de perdas encontros e desencontros.

Falo do filme, porque foi ele que me fez reviver este fato do gravador, uma história não de tristeza, mas de alegria, de boas lembranças, quando silenciávamos para ouvirmos a nossa voz, amparados pela luz das lamparinas, do candeeiros e, muitas vezes, da lua cheia que nos acompanhava. Uma lembrança gostosa de descoberta e aprendizado. 


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POR EM 27/02/2008 ÀS 08:58 AM

Deformidades

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Goiânia, vira e mexe, sempre tem se destacado como notícia nacional. No passado, foi o Césio; há pouco, a febre amarela, que levou a população ao desespero, todos em busca da vacina, inclusive eu, que, um mês após receber a dose, contraí dengue, passei maus bocados, pelo menos estava tranqüilo com relação à febre amarela, caso contrário, teria enlouquecido, porquanto alguns sintomas são muito parecidos.

Passado o surto da febre, um caso inusitado aconteceu:  um casal que se dizia “fugindo das FARC” chamou a atenção da mídia nacional, o casal relatou que havia percorrido - a pé - milhares de quilômetros, da Colômbia ao Brasil, passando pela Venezuela, pela Amazônia, até chegar a Goiânia, depois de ter perdido um filho para aquela organização terrorista. Mais tarde, veio-se a descobrir, após a morte da esposa (que morrera de malária) a verdade: o casal fugia não das FARC, mas da pobreza do seu país. Procuravam melhores condições de vida. Mas como mentira tem pernas curtas, o rapaz será deportado, ficando apenas a imagem de um casal sonhador, abrigado no Hospital de Doenças Tropicais, guarnecido pela força policial goiana.

Mas as más notícias não param por aí, principalmente quando envolve o erário, como aconteceu recentemente, o desvio de mais de 900 mil reais dos cofres do Ibama, supostamente desviados por uma funcionária que cuidava das finanças - segundo declarações do Procurador da República em Goiás - e que teria gastado boa parte desse montante numa clínica de estética. Tudo muito bem maquiado, bem urdido, um atentado à flora e à fauna brasileiras. E haja beleza! Quase um milhão de reais, dividido entre filhos e outras laranjas, laranjas da terra, que agora, depois de despencarem do talo, amargarão por longos anos.

Agressão à fauna, à flora, desvio de conduta, tudo tem marcado o nosso País e, claro nossa grande Goiânia, como a trágica história de uma senhora, de 48 anos, que teve o útero retirado, após ser confundida com uma outra paciente. Segundo relato da própria vítima, ela fora internada para fazer uma reconstituição do períneo, mas começou a achar tudo muito estranho:  “Eu senti que algo estava repuxando, perguntei ao médico o que ele estava fazendo e ele respondeu: estou retirando o seu útero.” O mais grave de tudo isso, a mulher que teve o útero retirado fazia tratamento para engravidar, estava na  fila de espera do Hospital das Clínicas, para se submeter a inseminação artificial. Trágico, não?

Mas as notícias não param, às vezes trágicas, como o caso da retirada do útero da senhora acima; às vezes hilária, como a história do padre de uma paróquia em Goiânia que proibiu às mulheres, principalmente nas cerimônias matrimoniais, de comparecerem à igreja trajando vestidos decotados, costas nuas, para evitar, segundo o pároco, um mal estar entre os fieis. Pois, segundo ele, as beldades não se vestem decentemente, não usam sutiã, deixando os seios eriçados, à mostra. O padre deve ter lá suas razões, talvez seja preferível proibir a se autoflagelar, principalmente quando se tem uma visão tão apurada.  Às mulheres, uma saída: mudar de igreja ou de vestido.
 


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