revista bula
POR EM 22/07/2008 ÀS 11:20 AM

Seres da Recepção

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Depois de vencer a oralidade, que foi fundamental para nos dar conta de um passado remoto, com seus ritos iniciáticos e escatológicos, suas crenças e mitos, o homem empreendeu pesquisas, as mais diversas, sempre buscando a melhor forma de expressão, que culminaria com a invenção da escrita pelos sumérios e egípcios, e evoluiria até o ano de 1522, com a publicação do primeiro caderno de caligrafia pelo italiano Ludovico Arrighi, para chegar aos nossos dias com as tecnologias mais avançadas.
 
Foram séculos de oralidade até esta maravilhosa invenção: a escrita e, posteriormente, as várias formas de publicação, de impressão. De lá para cá, o homem levou anos para aperfeiçoá-la, procurou compreender o seu tempo, comparar épocas, atitudes e comportamentos. Conheceu estilos, imitou-os, para depois desenvolver o seu. Um processo lento e solitário.
 
O percurso de uma construção escrita é, muitas vezes, complicado. E mbrenha-se em matas densas, sentenças várias, tratados e aparentes irresoluções. Há de se buscar o melhor ângulo: ponto de vista, para chegar aonde se quer chegar. Escrever é necessário, principalmente quando se tem o que dizer, porquanto requer concentração, conhecimento, insistência e persistência, mesmo para o factual.
 
Escreve-se hoje para repercutir amanhã, um amanhã tão impreciso quanto aquilo que virá a ser fato. Um amanhã que se reportará ao hoje, que já será ontem e, mais uma vez, um outro fato, muito mais importante, ganhará status de novidade e tornar-se-á providencial para matar a sede de leitura (ou de informação) dos carentes leitores de uma vida sem graça: seres da recepção.
 
"Nenhum texto é gratuito", já disseram, mesmo porque as impressões que carrega refletem a intenção de quem o escreve, ou para quem se dirige. Afinal, toda impressão traz um ponto de vista e, ao leitor, cabe refazer os caminhos, buscar o foco, aceitar ou refutar o dito. Mas, para isso, há de se compreender o escrito, o que, de certa forma, proporciona a quem se aventura por esse campo, o da leitura, uma ampliação das coisas, dos fatos.
 
Escrever por vocação quase sempre é prazeroso. Mas não se pode deixar enganar ao acreditar que talento é tudo. Ledo engano, talento facilita, mas nada substitui o conhecimento pela leitura, pelo estudo. Escrever, como navegar, ao contrário de viver, deve ser preciso, caso contrário, corre-se o risco de ser abatido ou trombar em uma grande rocha da incompreensão.
 
Muitos tentam dizer, mas, infelizmente, patinam e não saem do lugar. Outros falam, falam; ou melhor, escrevem, escrevem e não dizem nada, obra da tautologia, do despreparo. Uns citam, citam e se perdem em remorsos. Quanto papel é depositário do lixo gerado à mercê da cola, da cópia, do sem-sentido. Quantos fantasmas perambulam à espera de algum endinheirado com vontade de “ser lido”. Pois, escrever, também é forma de imortalidade. Não é preciso ter talento – como nos fazem crer as academias.
 
Depois de tanto caminhar, inquietar-se, procurar a melhor forma de expressão, vive-se, agora, a glória da instantaneidade, da precisão tecnológica, mas, ao mesmo tempo, parece haver um desinteresse pela matéria mais densa, pelo estudo mais aprofundado. As pessoas têm pressa em dizer, em viver, estão fartas de informação e fofoca, mas ausentes de criticidade e reflexão. Tropeçam na língua, na linha e morrem às margens do texto.

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POR EM 15/07/2008 ÀS 04:11 PM

Eu jamais imaginara a dor da alma

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Quando eu era pequeno, ficava horas deitado no colo da “Mamãeninha” a ouvir o barulho sonolento e longínquo dos barcos a vapor, que cruzavam o Tocantins, precisamente em Miracema do Norte (Tocantins, até então, era só o rio), e ficava ali, na mais pura inocência, contemplando as estrelas, quando ela me fazia cafuné e me contava histórias, que iriam me marcar para sempre.
 
Quantas e quantas vezes, ali, naquela meia-lua de cimento, em que eu me sentava e deitava no seu colo macio (ela sentada em tamborete) eu pude vê-la chorar, sem entender o que se passava, o que de fato ela estava sentindo. Eu era muito jovem para compreender o universo, e chorar, para mim, era apenas algo exterior, eu jamais imaginara a dor da alma.
 
O tempo passou, eu cresci, ela se foi. A partir daí eu comecei a materializar a dor, o sofrimento, a ausência e a solidão, já não era mais o mesmo, apesar dos vinte e poucos anos, ainda cheio de muitos sonhos e ilusões. Continuei a contemplar o céu, não com a mesma frequência; não com a mesma inocência, por que eu já conhecia a solidão, já sabia dos desencontros, e eu me tinha demasiadamente humano.
 
Os barcos passaram a ser eternos, ficaram na minha memória, e sempre que alguém querido se vai, eles deslizam suavemente pelos meus olhos. Com os barcos eu aprendi sobre chegadas e partidas, eu aprendi a contemplar lonjuras e a chorar abandonos e nunca mais me saiu da alma o peso e a dor do mundo, eu passei a contabilizar os dias e os becos, os murmúrios e solidões, talvez aí o poeta tenha surgido.
 
Com os barcos eu conheci mundos, revi o colo de minha mamãeninha, encontrei pessoas, que me foram preciosas, mas que se foram tão rapidamente, sem que eu pudesse ao menos agradecer pela amizade. Pessoas que surgem nas nossas vidas, dividem conosco a sua felicidade, acostumam-nos com as suas presenças e depois, leves demais, vão–se embora, nos deixando com uma dor tão grande, não nos dando tempo para nada.
 
Não sabemos ao certo o que nos aguarda, que rumo tomaremos, quem encontraremos no caminho, como estaremos amanha. Apenas caminhamos, para bem lembrar Fernando Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso, pois viver é de uma imprecisão danada, já que nunca saberemos que dor nos aguarda. Ela sempre nos surpreende, quando alguém parte, quando alguém sofre, quando alguém clama por justiça.
 
 Talvez os barcos tenham muito a nos ensinar, embora fabricados por nós, comportam a dor da madeira cortada, da solidão de seus portos de origem, de suportar tanta carga, mas estão sempre a deslizar pelos rios da sabedoria. Quem sabe eles nos digam muito de nós, por que, apesar de toda inconsciência, nos ajudam na travessia dessa nossa longa vida.      

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POR EM 08/07/2008 ÀS 11:12 AM

Via crucis

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O ápice do amor é a morte, diz George Bataille no seu livro O Erotismo, pois, segundo ele, para que uns tenham vida, é preciso que outros seres morram, e isso só se dá no paroxismo do amor, aqui entendido como a força de Eros: vida, em oposição a Thanatos, morte.
 
Se a morte é a única certeza que nós temos com relação ao futuro, o que nos parece óbvio, a ausência que ela provoca pode ser relativa, ou melhor, o que se supõe como fim, pode ser apenas o começo de uma perpetuação.
 
O corpo é vital para o espírito aqui na terra. A terra é o espelho desse corpo quando tudo se acaba. Viver, sofrer, seguir em frente, eis o que o sentimento de vitalidade nos provoca, já que as paredes são apenas ilusões, barreiras materiais para onde correm os homens.
 
O que sabemos da vida, a não ser que a possuímos até perdê-la? Melhor dizendo, como encaramos o nosso dia-a-dia e refletimos o nosso modo de existir? Não estaríamos distantes demais daquilo que seria considerado ideal para um ser humano?
 
Quantas vidas ainda teremos de viver? Quantas catástrofes teremos de presenciar? Quantos pilantras teremos de eleger para que consigamos entender o verdadeiro sentido da nossa existência? Talvez milhares, porquanto o homem parece não querer enxergar o lastro de destruição por ele deixado.
 
Pensemos nas guerras, na fome, no tráfico de seres humanos. Pensemos do poder de potência dos negociadores de armas, nos obtusos governos que se alastram pelo mundo afora. Pensemos na exploração sexual de crianças e adolescentes, nos desvios do dinheiro público, nas licitações fraudulentas, nos traficantes de drogas, soldados da destruição.
 
Muita coisa ruim tem tentado se perpetuar no mundo, mas as almas de boa vontade, os anjos da boa nova têm insistido nas ações que valorizam o ser humano, têm buscado a preservação da vida, a valorização da solidariedade, o amor incondicional entre os povos.
 
Talvez o que tenhamos feito tenha sido pouco, mas não em vão. Cada olhar de apoio, cada palavra de encorajamento, cada gesto de solidariedade, tudo isso tem uma importância imensurável, tudo isso é capaz de transformar vidas, tanto de quem doa quanto de quem recebe. São gestos como esses que nos dão a dimensão do que é ser verdadeiramente humano, a força de Eros em toda sua plenitude, com toda a sua força, para o reaprendizado de existências.

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POR EM 03/07/2008 ÀS 11:38 AM

Até as pedras cantam

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Para ouvir

Minas Gerais já legou ao Brasil grandes nomes no campo das Artes. Na Literatura, destacamos Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Autran Dourado, Ziraldo, Ruy Castro, Mário Palmério e tantos outros; nas artes, mais especificamente na Música, os valores também são grandiosos, para apenas exemplificar, falemos de Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta, Flávio Venturini, Beto Guedes, Wagner Tiso, os grupos: Skank e Jota Quest.
 
Quando falei que Minas já legou, poderia ter mencionado outros nomes tão bons, mas sem o peso midiático, sem o conhecimento devido, sem a valorização, ainda do belo e grande trabalho que desenvolvem. Sei muito bem que o Brasil desconhece o Brasil, como bem sei, também, que Minas Gerais desconhece muito dos seus talentos artísticos, como é o caso do Mestre Obolari, como é conhecido o músico e professor universitário Geraldo Magella Obolari de Magalhães: Matemático, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental,e, para completar, piloto privado de avião.
 
As estações, a natureza, os nomes e as coisas vivem em perfeita harmonia na musicalidade marcante do Mestre Obolari, nelas estão o ritmo, a leveza e os tons, colhidos na alegre infância, na paisagem mineira rica em fauna e flora; em mitos e lendas, em muita musicalidade e força telúrica.
 
Obolari, que atualmente vive em Palmas – TO, no Centro-Norte do Brasil, é um cara tranqüilo, de bom papo, muito culto, apaixonado por literatura; um grande conhecedor da obra de Nelson Rodrigues. Obolari, com sua visão perquiridora, enxerga bem além da simples realidade, traz essa visão apurada para introspecção de suas músicas, sempre melodiosas, que falam de amor, relacionamentos e reencontros. Quem ouve Obolari, sem sombra de dúvidas, tem um registro para sempre das melodiosas baladas que, por certo, ainda embalarão muitos casais, serão temas de muitos romances e comporão a alegria das belas manhãs tropicais.
 
Será preciso conferir, em breve, suas belas canções, como: “Jamais” e “Fly Away” em parceria com Ed Porto; “Encontro “Até as Pedras Cantam”; “Doroty (Querendo Dizer)”; “Amor Interestelar”, já que o músico prepara seu primeiro CD, uma obra que já sai madura e com muita qualidade. Enquanto isso, para não ficarmos tão distante de suas melodias, uma palinha de “Fly Away”, ao vivo, em Ouro Preto: 
 
 

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POR EM 28/06/2008 ÀS 10:05 AM

Últimas palavras

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Para M.Cavalcanti

Já passava das 9h, subitamente fora acordado pelo barulho do despertador, levantou-se de sobressalto e olhou apressadamente para o relógio no criado da cama. Era preciso correr, não tinha muito tempo. Olhou-se no espelho da sala, vira um rosto amassado pela longa noite de sono. A barba por fazer, não ficaria bem ir assim. Abriu o armário do banheiro, pegou uma gilete, creme de barbear, tudo muito corrido, tudo muito depressa, tudo muito preciso.
 
Era preciso acelerar, o carro cantou pneu, saiu em disparada. Nada poderia detê-lo, não fossem os sinais que sucessivamente iam se fechando. Conspiração! Pensou. Não adiantava impacientar-se, mas impacientou-se. Esmurrou o volante, saltitou no banco do carro. Ensaiou, numa seqüência rápida, engatar todas as marchas, mas nada. O carro permanecia imóvel, apesar de bufar pelas aceleradas do seu condutor. O homem, a máquina e o sinal.
 
Lembrou-se do que lhe dissera a viúva, logo após ficar sabendo do acontecido: “ele estava bem, fez um lanche às 15h, tomou banho às 19h, tomou um copo de leite às 20h e viu televisão. Às 22h, beijou-me, se disse indisposto, e foi se deitar. Ninguém sabia de nada, ele nunca havia mencionado que sentisse qualquer coisa. Nenhuma dor, nada! Continuava como sempre, seguia a sua rotina no atelier, continuava muito visitado por amigos, discípulos e colecionadores.
 
 Os sinais foram se abrindo, um a um, e o carro arrancou com toda força. Não poderia atrasar-se. Afinal de contas aquela seria a última homenagem que faria ao seu grande amigo. Acelerou fundo, passou sob o viaduto em direção a Bela Vista, passou em disparada pelo autódromo, não parou no sinaleiro que, de súbito, se fechara. Precisava chegar a tempo. Precisava chegar a tempo.
 
Retornou ao que lhe dissera a viúva: “Nos últimos dias, eu o achei estranho, há muito que ele não abria um velho armário onde guardava suas primeiras telas, as quais não mostrava para ninguém”. - Falava, emocionada, a mulher – “Chegou mesmo a dizer: Eu quero que a Celina fique com esta tela, se me esquecer, não deixe de dar a ela”. O quadro era um velho Dom Quixote montado no seu Rocinonte, assinado em letras vermelhas, datado de dezembro de 1963.
 
Muitos carros estavam estacionados ao longo da pista lateral do cemitério, ele deu a seta, indicando que viraria para o lado esquerdo. À sua frente, do outro lado, uma placa com letras grandes e prateadas em que se podia ler: “Cemitério Memorial”. Suspirou fundo, esperou um carro que passava no sentido contrário da pista, mais uma vez acelerou com vontade, atravessou a pista, virou para direita, muitos carros, muito movimento. Procurou um lugar no estacionamento, parou a uma quadra da sala de velório. Desceu do carro, caminhou rápido, estava um pouco alterado, temia não mais encontrar o amigo, apressou o passo, passou por um longo corredor, quando encontrou um conhecido, perguntando pelo amigo morto, obteve como resposta: “não, ainda não o enterram”.
 
Estava com sorte, pensou. Passou por duas salas, apressou o passo mais ainda, chegou à sala, onde o amigo estava sendo velado, no momento em que estavam fechando o caixão, na hora em que já estavam colocando os parafusos que prendiam a tampa, no exato momento, ele estacou e, ali mesmo, gritou: “Por favor, não fechem! Não fechem! Eu preciso vê-lo pela última vez, por favor! Houve um silêncio, as pessoas se entreolharam, o caixão foi reaberto, quando ele, se aproximando do caixão, começou um discurso, a princípio desconexo, para depois ir tomando forma, tornando-se inteligível. Na medida em que falava se lembrava da viúva: “ele falou muito da exposição que fariam em homenagem a ele, a homenagem que você estava organizando. “Ele gostava muito de você”.
 
Todos ali, comovidos e atônitos, presenciavam aquele homem na sua última homenagem, nos arroubos da meia idade, no enlevo das palavras, menos alguém, um homem alto, de uns quarenta e seis anos, que meneava a cabeça negativamente, enquanto ele pronunciava suas comoventes palavras: “Ele foi nosso mestre, todos nós, se não a maioria, aprendemos com ele. O nosso pai no desenho, na pintura, um verdadeiro mestre na acepção mais elevada do termo. Obrigado mestre e amigo”.
 
Enquanto proferia suas últimas palavras, absorto naquilo que acreditava, não observou as pessoas mais próximas ao caixão, atônitas, pareciam não entender aquele discurso esquizóide, ainda mais vindo de pessoa tão culta. Só se deu conta quando o homem se aproximou e falou baixinho ao seu ouvido: “Pedro, Pedro, quem está aí não é o seu amigo Cervantes, quem está aí é mamãe, a minha mãe, você entrou na sala errada”. Quando se deu conta do feito, não sabia o que dizer e não disse, naquele momento, apenas uma sentença fora pronunciada: “mamãe, mamãe! a vovó tá dormindo. A vovó tá dormindo”.

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POR EM 21/06/2008 ÀS 03:46 PM

Ternura, talvez seja o que nos falta

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Cada um deve comportar os seus abismos, apesar da insuficiência de muitos, que, a reboque, carregam uma dor bem maior do que suportam e, por isso, precisam de ajuda, de compreensão, de quem lhes garanta o pão de cada dia e a doce palavra de consolo.
 
Talvez não saibamos, ainda, da nossa impotência. Do tempo que, célere, nos conduz. Das tragédias diárias que teremos de enfrentar. Da dor progressiva de quem chora a depressão. Do triste olhar de quem há muito perdeu a esperança. Pouco sabemos da nossa desumanidade, já que o nosso interesse é pelo corpo, pela forma, pelo poder e dinheiro.
 
Se pouco sabemos, é porque a nossa ignorância é bem maior do que a vontade de enxergar a miséria humana - tão próxima de nós, tão dentro de nós – colocar-se no lugar do outro. Ser mais solidário, altruísta, sensato e irmão. Ninguém vence o mundo sem vencer-se a si mesmo. Ninguém dá carinho sem conhecê-lo.
 
Nada do que fazemos passa incólume aos olhos da natureza. Toda ação gera uma reação, isso é mais do que sabido. As nossas inimizades são do tamanho dos inimigos que possuímos. Os nossos delírios, aos olhos alheios, não passam de loucura. Ama-se o aprazível, o que é belo, o fácil.
 
Quantos se julgam dono do saber, do conhecimento, do estabelecimento que dirigem, da repartição onde trabalham. Quantos maltratam por insegurança, por incompetência e, por que não dizer, por pura maldade. Quantos, por inveja, desprezam, ofendem e, covardemente, perseguem.
 
Amar aquilo que se faz é, no mínimo, compreensível, agora, aceitar o outro nas suas diferenças, nos seus delírios, na sua impaciência, são atitudes enlevadas, dignas de humanidade, de sensatez, de libertação.
 
O mundo, as artes e o saber não têm donos, estão aí para os homens de fé, de coragem, de determinação e sensatez, apesar dos abutres que rondam as nossas cabeças tentando uma brecha para sua devoção.
 
Ternura, talvez seja o que nos falta, ou pelo menos, um pouco daquilo que necessitamos para enfrentar a turbulência da nossa desumanidade. Juntando a ela um pouco de carinho, afeto, atenção e empatia, sem sombra de dúvidas, o mundo tornar-se-ia mais mundo e menos imundo.

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POR EM 09/06/2008 ÀS 07:01 PM

A bela moça da praça

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Eu sempre procurei observar as coisas ao meu redor, o mundo que me cerca, as pessoas com as quais convivo, os traços que compõem as raças, os textos, os mais variados, a natureza na sua totalidade, dentro do universo que eu alcanço. Tudo atendendo a uma ordem que só eu entendo, mas que, para muitos, é uma total desorganização, já que penso por imagens, logo a minha vida é pura imaginação, apesar do cartesianismo que impera à minha volta.
         
Tudo nos serve, de alguma forma, para alguma coisa. A leitura mais banal, o palito de picolé, ali jogado, a lata de óleo fora do lugar, os riscos na parede, a parede descascada, um pé de chinelo no monturo, um olhar enviesado, uma mulher embevecida, um bêbado desconcertante, um otário na sua prepotência, um pobre diabo na sua impavidez. Tudo tem uma serventia neste mundo.
         
Se tudo tem uma serventia, é preciso saber observar, ir além do convencional, e isso um bom bar ajuda, e foi o que fiz, pois sempre me considerei um homem dado à tardes etílicas, a convescotes “sabadais”. Um ser de Brahmas e limões, de boêmias e ilusões, postado desde muito cedo numa mesa do Canindé, na Praça da Cirrose, quando ela entrou, um tanto plácida, cabelos a altura dos ombros, pele morena, curvas tonais, olhar de perscrutação, altura bem acima do efeito dos meus goles, e um jeito de pronunciar que aprisionava. As palavras não conseguiriam traduzir o seu cheiro, mas tudo bem, eu estava bem ali.
         
Ela chegou, não sei de onde veio, mas foi logo passando por mim e sentou-se a três mesas da que eu estava sentado. Todos a olhavam, e eu, desde o momento da sua chegada, vibrava de emoção, mas não sabia o que fazer. Foi quando apareceu uma menina, dessas que vendem flores nos bares e desafiou-me a comprar um rosa, dizendo que a moça, ela mesmo, havia pedido. Não acreditei, mas também não me calei, propus o seguinte: - se você entregar um bilhete para ela, e ela gostar do escrito, eu compro a flor e ainda te dou um cruzado, ou cruzeiro? Não me lembro mais. Só sei que ela topou. Pedi-lhe um tempo para compor o bilhete, e ela ficou de passar mais tarde (dez minutos) para levar o bilhete, e foi aí que eu pasmei, já que não me vinha nada à mente para compor o que eu julgara a minha maior arma de conquista: a poesia.
         
Beberiquei a cerveja, chupei o limão, tomei um pouquinho da pinga de engenho (por que de engenho e arte, como diria o Velho Camões, em mares tão tenebrosos) e desafiei a procela, os mares bravios da minha ignorância, até lembrar-me, de súbito, de uma velha música de infância: Maria Bonita. Lembram: acorda Ma..ri..á bo.ni..ta/le..van.ta, vai fazer o ca...fé. Valha-me Deus! Isso é coisa pra se lembrar agora, pensei comigo, mas a música insistia em permanecer ali, não abrindo espaço para mais nada.
         
A menina da flor olhava-me insistentemente, e nada, nenhum pouquinho de inspiração, e eu correndo o risco de perder a moça para alguém mais ousado que, mesmo sem versos ou bilhete, pudesse ir até ela e simplesmente, por magnetismo, seduzi-la, aí tudo estaria perdido. Foi aí que eu deixei de lado o preconceito e comecei a cantarolar, cantarolar a tal Maria Bonita, quando, de repente, eis que surge o grande verso, a sentença que me condenaria ao paraíso, a eternidade: Quem não adora a cor morena, morre, sonha e não vê nada...Estou acordado, assinado: Chico Perna.

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POR EM 07/06/2008 ÀS 11:16 AM

Um olhar sobre as diferenças

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a muda da minha rua falou-me das estrelas, com ela aprendi a escutar o rio da minha infância.
Ao nascermos, a primeira leitura que fazemos do mundo é a leitura sensorial: os sons, as cores, os cheiros, a temperatura, as texturas, os sabores. Daí, passamos para abstração do mundo, começamos a sair do concreto para o abstrato, vamos eliminando as figuras; passamos ao simbólico, às sentenças, ao descortínio do que se nos apresenta implícito, nas entrelinhas. Tornamo-nos críticos do mundo e das coisas, senhores do nosso nariz, da nossa boca, do nosso paladar, do nosso cheiro, do nosso som. Espelhos de uma sociedade perfeita, aparelhada de um estado perfeito, de uma justiça perfeita, de um legislativo perfeito, portanto de homens perfeitos. Democraticamente perfeitos.
Descoberto um mundo não tão perfeito, ou quase imperfeito, modificamos a nossa crença, antes absoluta, para um aprendizado de realidades outras: os nossos pares são tão imperfeitos quanto nós, mas não se dão conta disso, até serem colocados à prova da convivência, quando os pré-conceitos afloram, quando a razão é imperativa e degrada, alija e maltrata.
Começamos a nos redescobrir como seres sensíveis, dotados de sentidos e de intuição; capazes de sentimentos e de reflexão. Passamos a valorizar o que somos e o que temos. Passamos a olhar o mundo, outra vez, com os olhos infantis para o descortino de um tempo ainda não corrompido. Um mundo vibrante, de formas e  cores; de sons e cheiros. Redescobrimos a beleza do simples, para uma contemplação de plenitudes.
Reabilitamo-nos para a convivência plena: sem preconceito, sem discriminação, sem qualquer estigma. O outro nas suas particularidades, com as suas diferenças, com as suas idiossincrasias. O outro que - ao nos mostrar aquilo que somos - nos habilita para recifração de um mundo mais humano e pleno.

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POR EM 21/05/2008 ÀS 10:01 AM

Espaço e preconceito

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Há muito que ouço e leio julgamentos do tipo: “esses são poetas menores”, “aqueles são poetas maiores”. Fale-se muito, classifica-se sem critérios, abusa-se de chavões, mas consistentemente nada se tem de concreto. Sobressaindo-se os ditos “Grandes” os “consagrados”, os “intocáveis”, donos de uma obra magistral. “A melhor de todas”. Já ouvi muito dos “ditos consagrados” e olha que as academias, os salões, as agremiações, estão cheios desses imortais indivíduos, tão sonhadores nem quem tempo têm para realidade.
 
Para a realidade literária, aquela que bate à porta, que clama para ser lida e ouvida. Aquela que está na rua, nas velhas cidades, na universalidade dos becos, no lirismo da despedida. Uma realidade que pulsa na Internet, nos blogs, nos fóruns, nas revistas eletrônicas, exemplo, a Bula.
 
Lembro-me de ouvir por aí, da boca de muitos intelectuais, que eles jamais escreveriam para blogs, para revistas eletrônicas, que isso seria rebaixar-se; que tais espaços não tinham a nobreza para comportar tamanha erudição e imortalidade. Que bobagem! Eu dizia, e ficava observando, escrevendo, refletido. E vi quando as coisas começaram a mudar, quando os nossos intelectuais, os renomados, passaram a descobrir o alcance que tem a Internet. Descobriram também que revistas como esta não se faz do dia para noite, é preciso paciência, seriedade, determinação e bom conteúdo.
 
A propósito do que estou dizendo, lembrei-me de Julio Cortázar, escritor argentino, numa entrevista concedida ao jornalista uruguaio Omar Prego, ao ser perguntado sobre as influências sofridas pelos autores latino-americanos, e a resistência deles em aceitar tais influências, principalmente quando os pais intelectuais eram, também, latino-americanos. E, mais ainda, a recusa desses escritores a escreverem o que consideravam como gêneros menores: romances policiais, rádionovelas e memórias.
 
A esse questionamento, que agora transcrevo, Julio Cortázar, inteligentemente, responde perguntando: “Será que isso não vem das falsas categorias de valores que existem na literatura, e em tantas outras coisas nesta vida? Porque em outro nível ocorre o caso de escritores que recusariam, horrorizados, um eventual convite para que escrevessem radionovelas. Porque consideram que a radionovela é um gênero secundário, insignificante, e eles não poderiam concordar em fazer uma coisa dessas. Raciocínio sumamente sofismático, porque tudo se resolveria fazendo boas novelas de rádio, que aliás existem(...)” e completa “(...)Em Cuba, por exemplo, mais de uma vez disse aos escritores cubanos, que se queixam de não serem editados, principalmente os jovens: “vocês se queixam porque não são editados, e na realidade vocês deveriam é tomar de assalto e se apropriar dos novos meios de comunicação cultural de Cuba, ou seja, o rádio e a televisão.” A resposta é sempre a mesma: “Ah, isso não, eu sou poeta”, ou: “Eu sou romancista.” Consideram indigno pôr a mão em outros meios de comunicação”. Pena não ter ele, Cortázar, durado para contemplar, estupefato, a explosão que é a Internet. Talvez dissesse - como diria meu pai: - Um colosso!
 
Rompido o preconceito, abertas as portas da interatividade, muitos questionamentos surgem, suscitados pelo espaço democrático que temos aqui na Bula, um desses questionamentos diz respeito ao que foi colocado logo atrás a respeito da fala de Cortázar e do que mencionei no início deste texto: o quanto somos preconceituosos quando o assunto é arte, principalmente Literatura e, mais ainda, quando essa literatura é brasileira.
 
Na edição passada - há uma discussão sobre o valor de alguns críticos literários, como Harold Bloom: se ele tem ou não tem competência ou se é um mero modismo inventado pela mídia, como também o fora “Claude Levy Straus”. Depois disso, para atender a uma amiga, doutoranda, do Carlos Willian, vieram as batidas listas: “melhores obras”, “maiores autores”(aqui entraria Julio Cortázar, que era altíssimo, e que recebeu de Juan Rulfo, o seguinte comentário: “Tem um coração tão grande que Deus necessitou fabricar um corpo para acomodar esse coração.”), dos “melhores filmes”. Há uma repetição, as mesmas obras, os mesmos autores, algo muito fechado, desconsiderando o quanto de coisa maravilhosa existe na Literatura universal, na Literatura Brasileira Universal. Todas as obras citadas nessas listas têm o seu valor, são grandes, sim, mas se considerarmos que são listas pessoais, são tão iguais, mas tão iguais que parecem não permitir que se fale de outras obras.
 
Pensemos, por exemplo, em E.T.A. Hoffmann, Juan Carlos Onetti, Franz Kafka, Carlos Fuentes, Ruan Rulfo, Autran Dourado, Murilo Rubião, Willian Faulkner, Alenjo Carpentier, e, claro, Gerardo Mello Mourão, autor do grande poema épico “Os Peãs”; do tão maravilhoso: “Invenção do Mar”; e do mais musical deles: “Cânon & Fuga”, do qual transcrevo poema a seguir e aproveito para encerrar parte desta reflexão: 
 
O que as sereias diziam a Ulisses na Noite do mar
                                                                                                                                                                          
Sobre a frase musical de Ivar Frounberg “Was sagen
 die Sirenen als Odysseus vorbei segelte”
 
Ninguém jamais ouviu um canto igual
Ao canto que te canto
Escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
Só ouvem minha voz – a noite e o mar e tu
Marinheiro do mar de rosas verdes:
 
Virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim – e ao ritmo
De teu corpo entre a cintura e as ancas
Mais o lençol de aromas de meu corpo
Em monte de pétalas desfeito:
 
E dormirás comigo
E os que dormem com deusas
                 Deuses serão
 
Vem dormir comigo
                     E comigo
e todas as sereias.
Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas – e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.
 
Não partas!
                                                 Se partires
As velas de tua nau serão escassas
Para enxugar-te as lágrimas – e nunca
Nunca mais tocarás a pele das deusas
Nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
E nunca mais serás um deus
 
E nunca mais a melodia de uma canção de amor
Dos hinos do himineu:
Abelhas mortas para sempre irão morar
Na pedra do jazigo de cera
De teus ouvidos cegos.
Mas vem
E vem dormir comigo
         E comigo
         E minhas mãos irmãs e todas
         As sereias do mar
        As sereias da terra
        E as sereias dos céus.                             

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POR EM 18/05/2008 ÀS 03:25 PM

Elegia ao desespero

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Para Alex Pizzio da Silva
 
Os homens, sozinhos, caminham no rubro da tarde. Alheios, são sós e ao mesmo tempo outros em seus pensamentos. Tão sós e tão outros, como se fossem estacas, plantados na insignificância da madeira bruta que queda ao sol do meio dia.  Caminham parados, os homens. E como eles estão os navios atracados, que também partem. Como os homens, em férrea segunda feira, o tempo também pára, cuspindo a monotonia de um dia quente, que também pára.
 
Férreas são suas vísceras, habituados que estão ao desalento da máquina que em si transportam. Férreos são os seus passos; os seus cantos. Férrea é a desolação de serem humanos, de serem sozinhos, de serem navios, de serem estacas.
 
Os homens, os seus rastros, caminham ao som chuviscado e tenso do sino da igreja. A pé, de bicicleta, nada importa, celebram a mediocridade de serem humanos, de serem inteligentes e cultos. Tão donos de si, patinam nas largas avenidas de uma vida inventada.
 
Os homens, seus medos, suas taras, seus vômitos, trafegam na menina dos olhos da cidade parada. Arrotam uísque e o lixo de uma arte inventada. Os homens, sua fúria, seus desejos, proliferam como ratos ao léu, não têm escrúpulos, não têm vontade, não têm coração. Estúpidos, atiram seus filhos do alto de suas vaidades e desatinos, para comporem a ópera de suas insignificâncias.
 
Os homens célebres, com seus títulos e empáfia, celebram o nada do nada, pois vazios estão de si mesmos. E eles, os mesmos, os homens, perderam o tino e estacaram incólumes sob os seus diplomas de bacharéis. Os homens, aqueles, que marcham em disparada, mas estão sós, sozinhos, parados, quedados feito estacas, como os velhos navios, já não enxergam mais nada, cegaram-se na própria luminosidade dos seus brilhos e estão sós, sozinhos, feito homens, como estacas ao meio dia.  

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