revista bula
POR EM 15/08/2012 ÀS 09:32 PM

O Chalé da Memória, de Tony Judt

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Geralmente, a maturidade intelectual de­mora a ser alcançada e só chega após uma longa jornada de estudos e experiências pessoais, onde, não raro, pontuam o engajamento e a de­silusão. Tony Judt, historiador in­glês conhecido pelos seus estudos sobre a Europa do pós-guerra, vivia o auge da sua forma mental, após décadas de atividade intelectual incessante, quando recebeu o diagnóstico fatal de uma enfermidade neurológica mo­tora conhecida como doença de Lou Gehrig. Começava um lento calvário pessoal de perda paulatina dos movimentos físicos até o momento final, quando até mes­mo respirar torna-se im­possível sem a ajuda de aparelhos. Longe de entregar-se ao de­ses­pero, Judt dedicou-se ao trabalho de ditar seus últimos trabalhos: uma a­nálise dos desafios do tempo presente (“O Mal Ronda a Terra”), uma reflexão sobre a história recente (“Pen­­­­­­sando o Século XX”) e um be­lo tex­to memorialístico, publicado no Bra­sil pela editora Objetiva com o título de “O Chalé da Memória”.

Num mundo marcado pela fragmentação moral e pela falência das grandes narrativas ideológicas não podemos descartar o apelo à própria memória e à reflexão histórica como guias. Assim como aprendemos dolorosamente na nossa existência pessoal, com erros e desenganos, também as sociedades precisam aprender com sua trajetória coletiva. Consciente destas afirmações, Judt nos entregou um texto co­rajoso no qual o testemunho das suas experiências e das lições que extraiu de sua caminhada são incorporadas na sua maneira de encarar o ofício de historiador.


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POR EM 10/05/2012 ÀS 11:45 PM

Missa Negra, de John Gray

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Em “Missa Negra”, o filósofo inglês John Gray ataca os fundamentos filosóficos e culturais das grandes correntes políticas da modernidade. Para o pensador, o conflito é uma característica universal da vida social
 

John GrayO valor de um intelectual deveria ser medido pela quantidade de gente a quem consegue desagradar. Neste item, ninguém melhor, nos dias que correm, que o filósofo inglês John Gray. Com uma argumentação coerente e límpida, Gray ataca, em “Missa Negra — Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias”, (Record, 352 páginas, tradutor Clóvis Marques), os fundamentos filosóficos e culturais das grandes correntes políticas da modernidade, dedicando um número equitativo de páginas para espinafrar jacobinos, marxistas, nazistas, liberais, integralistas islâmicos, trabalhistas ingleses e neoconservadores norte-americanos. Pouca gente escapa das agulhadas de Gray, preocupado em demonstrar que o regime teocrático iraniano fundado pelo Aiatolá Khomeini, os totalitarismos do século XX e as políticas agressivas e imperialistas de George W. Bush, nada mais são que manifestações de uma leitura apocalíptica da história, cuja teleologia foi descoberta e explicitada sob a forma de doutrinas políticas preocupadas em alterar a própria natureza humana. Na origem de tudo encontram-se mitos fundadores do próprio Ocidente cristão, comunicados também a outras culturas pela difusão do Iluminismo.

Vistos pelo pano de fundo de tais mitologias apocalípticas, os modernos movimentos revolucionários constituem uma continuidade das religiões por outros meios, o que Max Weber denominou de religião laicizada. Para demonstrar tal proposição, Gray remonta às visões milenaristas que periodicamente manifestam-se na história, dos tempos bíblicos aos atuais, pregando alguma variante escatológica de fim do mundo (ou da própria história), com o advento de uma era de ouro marcada pela prosperidade e pelo progresso infinito. Tais crenças messiânicas, que estão na base do cristianismo, foram mitigadas por pensadores como Santo Agostinho (354-430 d.C.) que duvidou da capacidade humana de eliminar o mal do mundo. Baseando-se numa antropologia negativa, que acreditava que os seres humanos são irremediavelmente imperfeitos, Agostinho reforçou nesta tradição do cristianismo um forte conteúdo realista, propondo que o fim dos tempos fosse percebido em termos puramente espirituais. Com base em tais premissas, argumenta Gray, esta doutrina “conferiu ao cristianismo uma disposição antiutópica que ele nunca perdeu completamente, sendo os cristãos poupados da desilusão que se abate sobre todo aquele que espera mudanças muito profundas nas questões humanas”.


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