revista bula
POR EM 08/05/2009 ÀS 08:14 PM

Sobre corrupção e saúvas

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O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.

E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.

A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não tem sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo, de uma nação.

Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina.

Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita, a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.

Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C., tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$ 20 milhões.

Também no Império Bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.

O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.

Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.

No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.

É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?

Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.

No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto as condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria.

A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.

Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.

E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.

Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.

Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga - estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.

Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’.
 


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POR EM 02/02/2009 ÀS 06:16 PM

Sobre cegueiras e oportunidades

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 Como o Brasil, a Índia ostenta elevados indicadores de analfabetismo e grandes contingentes populacionais embrutecidos pela pobreza, miséria e indigência. Mas a mais destacada e perversa característica que ambos historicamente têm mantido em comum, talvez seja a corrupção endêmica, parasitando e devorando os Estados soberanos, vampirizando suas forças sociais 

  

Como a pequenina aluna, apenas seis anos de idade, não conseguiu responder à questão formulada, o professor cerrou os dentes, resmungou alguns impropérios, deu à face amedrontadora um ar ainda mais severo e, resolutamente, disparou em direção à estudante para, com um alfinete pontiagudo, perfurar um dos olhos vívidos da inocente criança, cegando-a irremediavelmente.

A cena típica de um filme de terror ocorreu no Estado de Chhattisgarh, centro da Índia, o país que somado ao Brasil, China e Rússia, integra os BRIC’s, os quatro gigantes que, conforme previsão dos mais renomados estudiosos, emergirão como as grandes potências nas décadas vindouras.

Brasil e Índia apresentam muitas características em comum, muitas delas decorrentes de seus injustos sistemas de distribuição de renda.  

A Índia tem a segunda maior população do planeta, com mais de um bilhão de habitantes, quantidade só inferior à da China.

Como o Brasil, o país asiático nas últimas décadas alcançou grandes progressos econômicos. Domina todo o ciclo da fissão nuclear acreditando-se que possua em seus arsenais militares mais de 50 bombas atômicas. Também nos setores vinculados à tecnologia de informação, o país de Gandhi tornou-se referência mundial, destacando-se na produção e exportação de software.

E também como o Brasil, a Índia ostenta elevados indicadores de analfabetismo e grandes contingentes populacionais embrutecidos pela pobreza, miséria e indigência. Mas a mais destacada e perversa característica que ambos historicamente têm mantido em comum, talvez seja a corrupção endêmica, parasitando e devorando os Estados soberanos, vampirizando suas forças sociais e, qual chaga incurável, avassalando as almas nacionais.  

Uma corrupção descomunal, hedionda, nauseabunda, e que resulta do gigantismo de burocracias criadas e mantidas para alimentar - em seus infinitos escaninhos, arquivos e labirintos, com uma infinidade de fluxos, normas e rotinas – ratazanas, vampiros e a malta da malandragem de colarinho branco.    

A educação de qualidade possibilita avanços que surpreendem. A criação do CTA/ITA, o Centro e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de onde surgiu a Embraer possibilitou que o Brasil se consolidasse na posição de um dos maiores exportadores de aviões a jato, despachando-os, inclusive, para os Estados Unidos, a maior potência aeroespacial do planeta. À índia, educação de qualidade legou o domínio da indústria da energia nuclear e o posto de maior exportados de softwares do mundo.

Portanto, acertamos juntos quando priorizamos investimentos em setores estratégicos como educação e tecnologia. E erramos juntos quando damos guarida à corrupção desenfreada e lidamos com a renda nacional de modo estúpido e improdutivo. 

Mas, tanto aqui no continente sul-americano, como lá, no asiático, investimentos em educação de qualidade estão mais para exceção que para regra. Aqui como lá, muitos educadores – confrontados com a inocente ignorância infantil e juvenil – preferem responder criminosamente. Cegando as crianças simplesmente. Ou obstruindo suas melhores possibilidades.


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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:31 PM

A formal mais vil de educar

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O latim nos brindou com o termo “scientia”, ciência, que poderia, no seu sentido mais exato, ser traduzido como um conjunto de conclusões certas e coerentes sobre determinado objeto.

Mais precisamente, ciência pode ser tida como o ramo de conhecimento sistematizado como campo de estudo ou observação e classificação dos fatos atinentes a um determinado grupo de fenômenos ensejando a formulação das leis gerais que os regem. Já ciências exatas são somente as que admitem princípios, conseqüências e fatos rigorosamente demonstráveis.

Nossas escolas precisam repassar esse ensinamento – tão elementar! - aos economistas.   

Não poucos burocratas acreditam que a economia seja uma ciência exata, propagando e a vendendo como se de fato fosse. Neste contexto, bastaria encerrar a sociedade num pedestal de fórmulas e pressupostos matemáticos e os problemas do mundo teriam dia, hora e local para se diluírem em infinitas e eficazes soluções. O que vale e importa são as equações em sua perfeição matemática, os relatórios em sua peremptória exatidão. Quanto às prioridades da sociedade, às necessidades da nação, quanto aos críticos que defendem o desenvolvimento sustentável como conseqüência dos investimentos em educação ... oras, oras, raios que os partam!!!

E por acreditarem nesta aleivosia não sentem pingo sequer de remorso quando se deparam com a realidade de que o governo brasileiro, de forma insana e irresponsável, gasta em juros mais de 8 vezes o que aplica em educação.

A informação é do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – instituição de pesquisas e estudos do Ministério do Planejamento, e se refere aos gastos do governo com pagamento de juros do endividamento público, contemplando o período que se estende de 2000 a 2007. Neste período, os gastos com pagamento de juros totalizaram R$ 1,268 trilhão, enquanto os valores investidos em educação se limitaram a R$ 149,9 bilhões. Traduzindo em miúdos, o governo brasileiro torrou na agiotagem e na ciranda financeira do pagamento de juros 8,5 vezes o dinheiro investido em educação no mesmo período.

O próprio IPEA, em nota oficial, critica e procura ensinar o governo do qual é apêndice: (...) além de o gasto com juros ser "improdutivo, pois não gera emprego e tampouco contribui para ampliar o rendimento dos trabalhadores", também colabora para a concentração de renda.

Tanto quanto a educação, também a saúde é vítima desta perversa inversão de valores e prioridades: o total despendido com o pagamento de juros supera, em muito, o que foi destinado à saúde, meros R$ 310,9 bilhões.

A situação é por demais grave e aviltante: ainda que somemos todos os recursos despendidos pelo governo com saúde, educação e investimento, não conseguimos alcançar a metade do volume destinado ao pagamento dos juros. A mais terrífica realidade é que, quando totalizamos os gastos da União com saúde, educação e investimento, chegamos tão somente a 43,8% do total das despesas com juros.

Antes da eclosão da atual crise econômica mundial, os bancos e instituições financeiras exultavam com os lucros estratosféricos obtidos exercício após exercício, ano sim e o outro também; lucros auferidos em grande parte, agora todos sabemos, da forma mais vil e abominável, exaurindo a saúde e a educação da nação, corroendo nossas esperanças, comprometendo nossas perspectivas por dias melhores. Agora que a crise se acentuou, Brasília presta novas carícias e favores ao sistema bancário, cobrindo-o de generosidades com os recursos do tesouro, que a rigor, pertencem ao conjunto da sociedade.

Quanto à educação, à saúde, ao desenvolvimento sustentável da nação, ao povo, ... oras, oras, raios que os partam!!!

A metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo são criações originais de Antônio Carlos dos Santos.


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POR EM 01/12/2008 ÀS 07:07 PM

Passo em falso

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Coletivamente, será sempre possível demonstrar, através de gráficos coloridos e relatórios vistosos, que o erro se reduziu a um algarismo insignificante – um efêmero traço – quando cotejado com o sem número de ocorrências exitosas. Mas para as pessoas próximas, emocionalmente envolvidas, o que a estatística reduz à insignificância pode representar numa tragédia gigantesca, irreparável, de efeitos devastadores

O erro é mais facilmente admitido em alguns setores que em outros. O erro de uma criança impacta, quando muito, sua roda de amigos, parentes e vizinhos. O de um empresário, no máximo, sua esfera de influência. Já o erro promovido por um político ou servidor público pode até mesmo comprometer os destinos de uma nação.

Há aqueles intencionais, os meramente ocasionais e incidentais, mas, infelizmente, não há pra onde correr: para a espécie humana, o erro é inexorável, e está sempre a nos espreitar nas esquinas. O que resta à parte responsável da humanidade é cuidar para que as possibilidades de ocorrência se reduzam ao extremo. E manter a incidência de erros sob controle, em estado vegetativo, numa margem administrável não é tarefa das mais fáceis; e exige investimentos pesados, sobretudo em educação. 

Por mais eficaz que seja a ação para aproximar a margem de erro de zero, quando ocorrer, a polêmica estará estabelecida, ainda que no plano da individualidade. Explico.

Qual a margem de erro admissível para o médico que deixa o recém-nascido escorregar das mãos, fazendo com que o bebê estatele a cabecinha no chão duro da sala de parto? Para os pais da criança, com certeza, nenhuma!

Coletivamente, será sempre possível demonstrar, através de gráficos coloridos e relatórios vistosos, que o erro se reduziu a um algarismo insignificante – um efêmero traço – quando cotejado com o sem número de ocorrências exitosas. Mas para as pessoas próximas, emocionalmente envolvidas, o que a estatística reduz à insignificância pode representar numa tragédia gigantesca, irreparável, de efeitos devastadores. A relatividade em ação: quando um mesmo episódio é insignificante para alguns e irreparável para outros.

A polícia é sempre um prato cheio quando queremos discutir forças e fragilidades, virtuosidades e deficiências.  

Os policiais geralmente são levados a trabalhar no limite. Diuturnamente arriscam a própria vida, e como o salário mal dá para o gasto, são obrigados a recorrer a bicos e improvisos. Apesar do cenário adverso, cotidianamente praticam nobres ações de solidariedade humana que deveriam merecer o reconhecimento da sociedade. Por força das circunstâncias, não raro utilizam as viaturas policiais como ambulâncias, fazem às vezes de parteiros; de aconselhadores que evitam suicídios; de professores que, nas escolas, alertam alunos para os perigos das drogas e das más companhias.  E quantos bandidos são retirados das ruas, quantos crimes e delitos impedem que acorram? Mas basta um passo em falso e...

Sobretudo nos estados onde a politicagem grassa, a polícia erra e muito. Porque falta salário, faltam viaturas e equipamentos, faltam investimentos em educação, faltam diretrizes e políticas públicas adequadas. E nessas circunstâncias, os erros são mera conseqüência da irresponsabilidade governamental.

Resultam dessa irresponsabilidade casos grotescos como o que vitimou o pequeno João Roberto Soares, de apenas três anos. No dia 06 de junho deste ano, policiais militares do Rio de Janeiro perseguiam um veículo suspeito. No meio do caminho confundiram um carro com o veículo dos bandidos e dispararam 17 tiros. No carro confundido estava a mãe, Alessandra, e seus dois filhos. Um deles, João Roberto Soares, de três anos, morreu com um tiro na cabeça.

Cerca de um mês depois, Luiz Carlos Soares da Costa, administrador de empresas, 35 anos, foi feito refém por um assaltante na zona norte do Rio de Janeiro. O bandido entrou em seu Siena, obrigando Luiz a passar para o banco de passageiros. Desconfiada, a polícia passou a perseguir o veículo. Segundo relataram os policiais, ao se aproximarem do Siena, o bandido, de 18 anos, disparou contra a viatura, obrigando-os ao revide, com o que acertaram dez tiros no Siena, três dos quais mataram Luís, a vítima. O bandido levou um tiro no abdome, foi socorrido e sobreviveu.

Mas mesmo onde se valoriza o planejamento e se busca a eficácia, os erros acontecem. E erros crassos. Como exemplifica o caso Jean Charles.

A polícia britânica é uma das que mais investem na formação de seus policiais. É a típica polícia de primeiro mundo. Veículos e equipamentos de ultima geração, e investimentos abundantes em formação e capacitação profissional. Fazendo assim remetem a margem de erro às proximidades de zero, mas não conseguem se manter incólumes a ele.

Como aceitar que uma das polícias mais modernas e eficazes do planeta cometa um erro tão primário e ignóbil como o que levou à morte de Jean Charles. Confundido com um terrorista, em 2.005, o brasileiro foi estupidamente executado no metrô de Londres.

Segundo depoimento colhido recentemente de um agente da Scotland Yard, o jovem eletricista poderia ter sido abordado e detido sem problemas antes de a polícia ter feito os disparos fatais na estação de Stockwell, sul de Londres, na manhã fatídica de 22 de julho.

Outro festival incompreensível de erros ocorreu recentemente, em Santo André, quando o país se viu hipnotizado diante dos aparelhos de televisão: a tragédia que culminou na morte de Eloá.

Toda a operação policial foi executada pelo Grupo de Ações Táticas Especiais da polícia de São Paulo. O GATE de São Paulo é uma referência quando se trata de eficácia policial. Em uma década de operações promovidas pelo Grupo, há o registro de apenas duas vítimas, Eloá e uma outra.

Apenas neste ano, o GATE realizou 18 ações, salvando 47 cidadãos brasileiros. São números que atestam qualidade da polícia paulista; mas o festival de besteiras perpetradas no caso Eloá demonstram, de maneira cabal, que investimentos em treinamento, capacitação, educação devem ser atividades diuturnas em qualquer setor da atividade humana, em qualquer instituição, seja militar ou não, esteja ela num elevado nível de sustentabilidade e eficácia ou não.

Se não conseguimos eliminar, de todo, o erro de nossas vidas, com a educação de qualidade podemos manter a margem bem próxima a zero, num ponto em que a dor, para a coletividade, se torna um pouco mais suportável.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 07:55 PM

Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos de Goiás

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Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar

1945. A segunda grande guerra que varreu o Planeta acabara de terminar, deixando um rastro de milhões de mortos.

De São Paulo, cinqüenta famílias japonesas pertencentes à Seita Shindo Renmei – Liga do Caminho dos Súditos, resolveram fugir para o interior de Goiás.

A seita era alvo de aguerrida perseguição. Implacavelmente, a polícia combatia seus integrantes em virtude dos assassinatos promovidos contra os que reconheciam como verdadeiras as notícias dando conta da derrota do império japonês.

A Shindo Renmei era uma organização secreta que exercia forte influência ideológica sobre a colônia nipônica radicada em São Paulo, mas diluída também nos demais Estados brasileiros. Com estruturação paramilitar e radical difusora das milenares tradições japonesas, a Liga do Caminho dos Súditos afirmava que a notícia sobre a derrota dos países do Eixo não passava de propaganda enganosa, produzida pelos países aliados. Na realidade, as ondas de rádio da BBC de Londres, divulgando ininterruptamente a rendição japonesa, não passavam de artifício rasteiro para minar o inquebrantável moral dos saldados leais ao imperador, contra-divulgavam os líderes da Shindo. E passaram a perseguir e assassinar todos os integrantes da colônia nipônica que acreditavam nas notícias emanadas da rádio londrina. Para os militantes da seita radical, era inadmissível duvidar da invencibilidade nipônica, ostentada em mais de 2600 anos de sucessivas vitórias, sem que o país tivesse perdido uma guerra sequer.

A Shindo preparou então seus esquadrões de matadores – os tokkotai - e foi à caça dos que acreditaram na vitória dos países liderados pela Inglaterra, EUA e URSS. Assassinaram quase 30 imigrantes, deixando feridos mais de 150.

A reação da polícia não demorou. O DOPS paulista encarcerou mais de 30 mil suspeitos e não menos de 400 foram condenados a penas que variaram de um a 30 anos de cadeia.

Por interferência direta do mais alto dirigente da República, um decreto presidencial deporta para o Japão 80 integrantes da seita. Todavia, no indulto do Natal de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek coloca todos em liberdade, no que imaginou estar virando esta página negra da história contemporânea brasileira.

Com a generosidade do ato, o presidente mais popular dentre todos já havidos, imaginou ter lançado uma pá de cal sobre a tragédia que assolou os 200 mil imigrantes japoneses. Ninguém percebeu - nem os serviços de inteligência das três armas, nem a CIA, a quem os policiais e militares brasileiros prestavam solícita obediência - que 50 dos maiores dirigentes e matadores da Shindo Renmei, migraram, com suas famílias, para o interior de Goiás.

No mínimo dois membros de cada uma das famílias que agora fugiam para o Planalto Central, foram impiedosamente torturados e mortos nos porões do DOPS paulista. Providencialmente, a polícia permitiu que poucos sobrevivessem à tortura, com o único objetivo de que – libertos – relatassem na colônia, as técnicas brutais de martírio e suplício. Afogamento, choque elétrico, estupro, pau de arara, garrote vil, simulação de fuzilamento, retirada de órgãos do corpo, era o mínimo que ocorria nos porões das delegacias de polícia.

Primeiramente as famílias vagaram a esmo pelos portos do Rio de Janeiro e Santos, esperançosos em encontrar os prometidos navios japoneses que os levariam de volta ao país do sol nascente.  Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar.

O local era de difícil acesso, habitado por descendentes de escravos, os quilombolas. Se o inacessível lugar conseguiu assegurar liberdade aos negros, assegurou também – por outro lado – o completo isolamento dos remanescentes de escravos, como se o tempo tivesse abruptamente congelado. Os negros quilombolas, descendentes dos primeiros africanos que aqui aportaram, adentraram o século XXI vivendo como se estivessem em 1746.

Os quilombolas, de início, estranharam aquela gente de olho puxado que se mantinha arredia a qualquer tentativa de aproximação. Mas souberam compreendê-los e não criaram problemas. Sabiam que só estavam ali - naquela terra tão inóspita e inacessível – por estarem passando por uma implacável perseguição. E disso conheciam como ninguém. Por isso, os afro-descendentes respeitaram a dor de seus mais novos e únicos vizinhos, permitindo-os curtir em paz o isolamento escolhido.

Nas 50 famílias que agora dividiam com os quilombolas as serras inóspitas, havia mais de 30 cientistas. Eram pesquisadores famosos no Japão, respeitados e venerados pelo número de descobertas e invenções, sobretudo nas áreas da engenharia militar e da biomedicina.

Cinco desses cientistas foram os que desenvolveram o avião de caça militar Zero, que tantas baixas infligiu aos aliados nas homéricas batalhas aéreas travadas nos céus do Pacífico. Mas a maior parte dos cientistas migrantes destinava suas pesquisas para a área da engenharia genética.

Na China, quando o país estava subjugado pelo Japão, aqueles cientistas integraram o grupo que perpetrou todo o tipo de experimentações, utilizando seres humanos como cobaias, notadamente crianças e mulheres chinesas. Como receberam carta branca do imperador e do alto comando militar japonês, não havia impedimento ou limitação - fosse ético, moral ou religioso – à experimentação científica. A completa inexistência de limites levou ao sacrifício de 600 mil mulheres e de 1 milhão de crianças por experiências genéticas mal sucedidas.

Quando chegaram a São Paulo, já dominavam insumos suficientes para abrirem uma nova frente na pesquisa embrionária. Deram origem à partenogênese, técnica científica através da qual um ser vivo nasce a partir de um óvulo sem, contudo, haver fecundação.


O objetivo passava agora a conquistar o absoluto controle sobre a reprodução humana, de modo a gerar apenas seres plenamente sãos, com biotipos pré-definidos e já com o ordenamento cerebral estabelecido para se obter a máxima performance, o máximo fator de inteligência. Os cientistas não mais admitiam a casualidade dos relacionamentos do homem com a mulher que geravam filhos imprevisíveis, às vezes com ótima desenvoltura física, mas inadequado desempenho cerebral; outras vezes com alto desempenho cerebral, mas capacidade física comprometida. Muitos marginais e criminosos foram criados em berço de ouro, tiveram formação rígida, pais devotados, relacionamentos seguros e confiáveis.

Era então necessário fugir a esta lógica de incertezas e adentrar à lógica da previsibilidade matemática, rigorosamente exata, em que saberiam gerar filhos vitoriosos, física e mentalmente saudáveis, os únicos admissíveis, aceitáveis, aptos a conduzir o império japonês a um novo ciclo de conquistas e glórias.

Desde sempre, os cientistas japoneses consideraram o pleito de todo realizável, porque a partenogênese existe em profusão na natureza. Ocorre nas abelhas e formigas, que conseguem procriar por esse método solitário, sem que haja a necessidade da presença dos dois sexos para a fecundação do óvulo. Não por acaso, uma abelha rompendo o sol nascente era o símbolo da seita nacionalista, escolhida, dentre outras razões, pela impecável organização, estruturação hierárquica militar, e capacidade de reprodução pela partenogênese.  

Mas, se a partenogênese ocorre com extrema naturalidade no meio ambiente, nos mamíferos jamais ocorrera. Caso conseguissem emplacar o método em seres humanos, como intentavam, estariam os cientistas asiáticos revolucionando a biologia reprodutiva.

Se para todo o mundo científico a tentativa soava uma aventura ficcionista e lunática, para a seita, revolucionar a Ciência com a comprovação da pesquisa em fase conclusiva, era questão de dias, semanas quando muito. Para chegar a esse estágio, muito contribuiu o fato de terem substituído, nos laboratórios, camundongos, lagartos e chipanzés por crianças e mulheres chinesas capturadas quando da guerra entre a China e o Japão.

De 1 milhão de crianças chinesas sacrificadas, quase a totalidade ocorreu por terem nascidas defeituosas, com todo o tipo de distorções: algumas com cinco olhos, outras com várias cabeças, muitas sem tronco, só com braços, pernas e cabeça.  Houve um grupo de crianças que nasceram com treze pernas. Num outro “lote”, originaram crianças com a cabeça cujo diâmetro media 1,05 metro. Certa vez se debruçaram sobre uma encomenda do Comando Supremo do Exército Imperial Japonês. Produziram 87 exemplares de uma espécie destinada a ocupar o lugar dos kamikases nos aviões-bomba, destinados a atingir alvos inimigos. A espécie era um mutante constituído unicamente de uma minúscula cabeça, do tamanho de uma laranja – seu cérebro só comportava as instruções para a missão militar – e dois fortes braços para segurar o manche do avião, de modo a dirigí-lo com segurança em direção ao alvo determinado.

A eclosão da 2a. Guerra Mundial obrigou os cientistas da Shindo Renmei a redirecionar os experimentos para a indústria armamentista, deixando em segundo plano as pesquisas genéticas, o que comprometeu sobremaneira o cumprimento das metas estabelecidas para área.

Mas o golpe quase de misericórdia ocorreu quando os paises do Eixo amargaram a derrota militar. Humilhados e derrotados, os cientistas tiveram que se haver por conta própria, sem a proteção do Império e de sua rede de apoio e financiamento.

Sozinhos, largados no mundo, caçados pelo serviço de inteligência militar dos EEUU e URSS, passaram a vagar, disfarçados, pelo mundo. Os que caiam, capturados, eram de imediato integrados à elite dos cientistas dos países que, agora, se constituíam nas novas superpotências hegemônicas. Seus crimes foram ignorados e passaram a gozar de todo tipo de privilégios como nova cidadania, altos salários e posição social.  O único preço cobrado foi que se dedicassem ao máximo – e com exclusividade - para levarem suas novas pátrias ao ápice das inovações científicas e tecnológicas, e naturalmente, renegassem por completo a antiga nacionalidade japonesa.

Os cientistas que conseguiram se refugiar no Brasil imaginaram que a distância dos grandes centros os manteriam protegidos, possibilitando que retomassem as pesquisas genéticas, por tanto tempo obstaculizadas. Era vital que assim fosse. Dar prosseguimento às pesquisas significava resgatar da humilhação o heróico povo japonês.

Mas novamente a descoberta das atividades secretas da Liga do Caminho dos Súditos os colocaram na mira da polícia. Mais: quando se certificaram que o imperador havia mesmo capitulado, assinando uma rendição que consideraram humilhante, intitularam como traidores da pátria Hiroito e todos os generais japoneses. Envergonhados, abriram mão da cidadania japonesa, resolvendo constituir uma nova nacionalidade, uma nova raça, a partir do marco zero, baseada no que de melhor havia na raça japonesa, com o que de interessante conseguissem encontrar nas demais raças, incluída aí a brasileira.

Por isso a pressa em dar continuidade às pesquisas. A meta agora era constituir, a partir das 50 famílias originárias, uma nova raça que, em curto prazo, dominaria Goiás, o Brasil, a América Latina e depois o mundo.

Nos rincões do Nordeste goiano, protegidos pelas muralhas naturais das serras escarpadas, abrigados pelo mais completo e solitário isolamento, iniciaram a conquista da nova missão.

Do japonês extrairiam o cérebro, a inteligência e suas tradições culturais milenares. Não havia no mundo uma nacionalidade com cultura tão rica e singular, caracteristicamente disciplinada, componente fundamental na nova raça que deveria conquistar o mundo. A tão próxima presença dos quilombolas nos arredores era, por demais, providencial. Os negros guardavam ainda as nobres características dos africanos de 1.500. Braços longos e fortes, pernas rígidas, corpo musculoso, esguio e bem torneado, além de resistente, devido aos séculos de trabalho escravo e condições adversas. Não sabiam ainda o que extrair dos brasileiros brancos, raça que consideravam servil, raquítica e subnutrida.

Como o objetivo primordial era gerar a raça superior, acabaram se contentando em extrair dos brasileiros tão somente a característica espacial, ou seja: o simples fato das pesquisas estarem se realizando no Brasil já era de todo suficiente para contemplar a nacionalidade brasileira. Consideram-se, com este arranjo, devidamente protegidos, convencidos de que o novo homem não emergiria maculado, eivado de vícios e defeitos.

Não demorou e o século inteiro de suor e esforços no campo das ciências, pura e aplicada, resultou em retumbante êxito. Os cientistas conseguiram equacionar os problemas até então insolúveis, e todos foram chamados a conhecerem os 100 primeiros bebês originados pela partenogênese. A maior dentre todas as realizações humanas.

Em êxtase, nenhum dos presentes conseguiu conter as lágrimas. Estavam diante da nova era. Testemunhavam o novo mundo que se descortinava e, orgulhosos, perceberam-se Deus, eis que desvendaram os mistérios da criação.

Ali estavam 100 bebês absolutamente lindos, inteligentes e saudáveis. Beleza inigualável; resistência física que os imunizavam contra todas as doenças, inclusive câncer e Aids; e inteligência descomunal, só possível de ser alcançada pelos demais humanos por volta de 3005. Em homenagem aos antepassados, a safra de bebês sobrenaturais, a safra de super-homens, foi denominada tokkotai.

No momento em que a descoberta foi anunciada, os membros das famílias japonesas que em 45 migraram para Goiás, estavam todos velhos, muitos morrendo. E a velhice – como que a anunciar a morte iminente - é senhora da razão, de modo que os princípios primeiros, que os levaram a se esconder qual escravos, foram mudando com o tempo.

O tanger dos anos, além das marcas indeléveis que empresta à vida, costuma distribuir também equilíbrio e generosidade. O radicalismo nacionalista, a ideologia imperialista, a arrogância autoritária, tudo isso foi, paulatinamente, carcomido pelo tempo. Continuavam sonhando em dominar o mundo, mas agora, para disseminar outros princípios: ética, democracia e justiça social.

Apesar de isolados, os raros e fugazes contatos havidos com os goianos do Nordeste do Estado os fizeram conhecer uma atroz realidade. Descobriram a capacidade da miséria e da injustiça social dar conformação a uma sub-raça de humanos, uma sub-raça de viventes, uma sub-espécie de gente tão sofrida que as características  humanas já lhes escapavam. Paulatinamente, os japoneses foram percebendo que todo o Brasil estava mergulhado num injusto sistema em que ao povo restava o papel de boiada a ser tangida, massa ignara a ser manobrada.

Em todos os milênios jamais haviam se deparado com algo parecido. A descomunal riqueza produzida pela nação, estupidamente apropriada por escassas ratazanas, uma elite cruel e sem caráter.  

Reprogramaram, então, as metas, e o grande objetivo passou a ser buscar – a todo custo – o desenvolvimento equilibrado entre o homem e a natureza.

Imediatamente, os 100 bebês foram encaminhados para todas as partes do País. Em 25 anos estariam dominando as mais relevantes esferas do poder político brasileiro, Executivo, Legislativo e Judiciário.

Nesse ínterim, estaria sendo despachada a segunda remessa – agora de 300 bebês – para todos os países do mundo, de modo a se repetir o ciclo justiceiro no Planeta.

Quando, porém, a primeira safra dos bebes da nova era atingiu a idade adulta e já gerenciava, com inusitada desenvoltura, os altos cargos da república, Tokuiti Eiit Sakane, o ultimo remanescente vivo das 50 famílias que haviam migrado para Goiás, chorava copiosamente.

Alguma coisa na experiência - não conseguia identificar o problema - saíra errado. Os homens criados para construir a nova história adquiriram no percurso um vício horrendo, terrífico, que destruía irremediavelmente, qual chaga invasiva, o plano do novo mundo. Todos, invariavelmente todos, enveredaram para a corrupção, o clientelismo e o jogo de interesses.

Conquistado o Poder, envolveram-se em negociatas, chantagens, conspirações, desvio de recursos públicos, jogatina e prostituição. Chegaram a criar bancos oficiais, federal e estaduais, cuja principal função era promover jogos, surrupiando do povo os parcos trocados que mal pagavam o pão amanhecido.

Os tokkotai - batalhão em sua segunda versão criado para redimir o mundo - como que resgatando as origens históricas, dos idos de 45, transmutaram-se em paladinos da injustiça, em matadores, jagunços de fraque, cartola, Harlley Davidsons e iates luxuosos. Atuavam com tal desenvoltura que passaram a ter ascendência sobre os demais cidadãos, sobre os que levavam suas vidas de maneira justa e honesta. Era como se conseguissem hipnotizar a todos, conseguindo, inclusive, desvirtuar o pensamento, o ideário e a ação política de religiosos, lideranças e políticos corretos.

Por mais que esforçasse, escapava à compreensão do povo simples e humilde, o fato de políticos sérios, quando eleitos, passassem a defender tudo o que, por toda a vida, haviam combatido. Esses políticos passavam a considerar aliados e correligionários, uma marginalia de senhores que, até bom pouco tempo, repugnavam como o que de pior pudesse existir na sociedade. As instituições financeiras internacionais, que antes responsabilizavam pela fome endêmica do povo, agora eram tidas como parceiras privilegiadas, idolatradas, a quem generosamente, entregavam as riquezas do País na forma de juros escorchantes, num volume jamais visto em toda a história da humanidade.

Sakane, antes de se recolher, tivera o cuidado de conversar, por horas a fio, com Toshiko Shinai, a única dentre todos os super-seres que permitiria sobreviver. Estava já mulher formosa, estonteantemente bela, pele morena, cabelos longos ondulados. Detalhou os sonhos primeiros da colônia, os problemas havidos na travessia, detendo-se sobre a missão que a única sobrevivente da nova raça deveria perseguir. Vagaria como um ronin, um samurai sem senhor, à caça de cada um dos 99 tokkotai encastelados nas instituições da República. Deveria matar todos, livrando os brasileiros da fonte da corrupção e do entreguismo.

Após tudo acertado, liberou-a para a missão solitária. Pode vê-la ainda de relance, como um bólido, saindo em direção a Brasília, onde iniciaria o justiçamento.

Tokuiti Sakane não conseguiu dormir. Resoluto, atravessou o silêncio denso da madrugada esquadrinhando a névoa seca e fria. Ativou, em cada um dos 27 laboratórios, uma bomba sub-atômica. Repetiu o procedimento em todas as casas, alojamentos e instituições edificadas pela colônia japonesa. Quando o sol anunciava desvirginar o que restava da noite, programou o mecanismo para que tudo explodisse no minuto seguinte. Era preciso destruir tudo. O povo brasileiro levaria muitos anos para se livrar dos tokkotai infiltrados em todas as instituições do País. Urgia não perpetuar o mal. Era imperativo estancá-lo.   

Enquanto contava o correr do minuto fatal, Tokuiti, passava a vida. Em fração de minuto relembrou a infância, o casamento, os sete filhos, as guerras contra a China e contra os aliados, a tortura no DOPS de São Paulo, a fuga para Goiás, a esperança de um Japão imperialista e invencível, substituído pelo sonho de um Brasil melhor e um mundo mais justo para todos, as lideranças políticas brasileiras hipnotizadas pelos tokkotai...                          

Antes que a explosão eclodisse, levou o revolver à cabeça e desferiu o tiro fatal. Ainda se lembrou de, em pensamento, implorar desculpas aos brasileiros, povo que generosamente assentira em lhes dar guarida.  Como num capricho da natureza, as rajadas de sangue que, com o tiro, escaparam atingindo a parede branca do quarto, ali desenharam a figura de um vigoroso sol nascente, como a querer iluminar as trevas que historicamente tornavam os dias em noites..


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:30 PM

Uma república de bananas?

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Quando assistimos, ao vivo e a cores, a forma humilhante e degradante como os países europeus deportam os milhares de brasileiros que lá procuram abrigo e emprego, percebemos o quando são injustos e ingratos.

Todos sabemos como foram construídas as bases do desenvolvimento europeu. Às custas do saque e do confisco das riquezas surrupiadas de nós outros, os países colonizados.

Não bastasse a histórica pirataria, quando – nos séculos XIX e XX – viram-se diante da necessidade de exportar sua mão de obra excedente, fomos nós que recebemos milhares e milhares de famílias e trabalhadores desempregados.

De modo que deveriam receber os brasileiros que para lá emigram com pompa e circunstância, com tapetes vermelhos e fogos de artifício.

Mas qual?!, jamais farão isso; seria mais fácil encontrar uma cédula de três reais.

E por duas razões simples. A primeira é porque está na gênese da colônia tratar os colonizados como ralé e escravos. E, não há aqui nenhum exagero, os europeus ainda acreditam que não passamos de mazombos bobinhos.

A outra razão é que temos uma diplomacia medíocre, regada a regalias, nababos e uísque 12 anos, que - qual os colonizadores - acreditam que não passamos de uma república de bananas que deve eterna reverência aos cult das metrópoles.

Em outros lugares as coisas são diferentes.

O governo do Peru, por exemplo, tomou uma importante decisão: vai processar a Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que roubou milhares de artefatos do famoso sítio arqueológico de Machu Picchu.

Machu Picchu é uma antiga cidade inca – data do século XV - cujas ruínas foram descobertas por Hiram Bingham, acadêmico de Yale.

O explorador norte americano achou que não teria nada de mais levar para os EUA mais de 45 mil peças peruanas e assim procedeu. Dentre o acervo roubado constam peças de cerâmica, tecidos e jóias que foram levadas a título de empréstimo e nunca mais devolvidas.
 
Não se sabe ao certo se o governo do Peru levará adiante o processo, ou se trata de estratégia para forçar a instituição de pesquisa norte americana a devolver o que jamais lhe pertenceu.  

O fato é que lá, o governo se movimenta. Já por aqui...


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POR EM 28/10/2008 ÀS 09:49 AM

A falta que Autran nos faz

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”Ele era um herói”. Assim se manifestou Bibi Ferreira, a diva do teatro brasileiro, diante do corpo inerte de Paulo Autran. Parecia inacreditável, mas o enfisema e o câncer de pulmão rancaram de todos nós o cadinho em que se forjaram nossos melhores atores. Neste instante, descasa ao lado de outros ícones do teatro brasileiro como Gianfrancesco Guarnieri, Vianinha e Nelson Rodrigues.

A data 12 de outubro ficará guardada na memória dos que apreciam teatro como o dia em que as cortinas se fecharam definitivamente para o “Senhor dos Palcos”, encerrando uma vida repleta, intensa, produtiva, que demandou 58 anos de carreira e mais de 90 peças teatrais montadas.

Paulo Autran era carioca e muito cedo se mudou para São Paulo. Aspirando a carreira de diplomata e estimulado pelo pai, cursou Direito, formando-se em 1945. Tanto a profissão de advogado como a intenção de seguir carreira diplomática jogou para o espaço. Quatro anos depois de formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, já estava apresentando seu primeiro trabalho como ator profissional – Um Deus dormiu lá em casa, de Guilherme Figueiredo - que rendeu o cobiçado prêmio da Associação Brasileira de Críticos Teatrais.

Encontrou um estilo de exercitar teatro que demandava longa concentração, meticulosos estudos, exaustivos e prolongados ensaios que o afastaram da televisão. Esta é a razão de tão poucas aparições na tv. Com ironia, não cansava de desdenhar o mais poderoso meio de comunicação de massas: “Cansei de fazer débil mental (...) Meu próximo projeto para televisão é não fazer televisão (...) Fazer TV é muito chato”. Sequer o cinema demoveu o gênio da interpretação de priorizar o teatro.

Porque foi um daqueles artistas especiais que encenadores de todos os tempos classificam como “nascido para a ribalta”. Como poucos compreendeu a dimensão e as infinitas possibilidades da voz e do gesto teatral. Utilizava com maestria as diversas entonações, explorando a carga dramática decorrente das pausas cuidadosamente construídas, meticulosamente inseridas entre uma fala e outra. Com o cadenciamento da respiração, imprimia diferentes ritmos aos diálogos, emprestava aos movimentos da face e do corpo expressividade intensa, em tudo singular, conduzindo a platéia à plenitude do ato teatral.

Muitos não entendem como um bacharel em direito foi capaz de alcançar a perfeição nos tablados sem jamais ter freqüentado uma escola de teatro. Ainda que não tenha freqüentado a escola convencional, desvendou os mistérios da milenar arte adotando um processo individual de preparação que envolveu a seleção dos maiores escritores e dos melhores textos já produzidos pela humanidade. Percebeu as vantagens da água cristalina e foi beber na fonte límpida, originária, nomeando Sófocles, Shakespeare, Moliére e Arthur Miller... seus professores preferidos.

A bagagem teórica adquirida de forma empírica com os clássicos da dramaturgia ocidental, o salvou do hermetismo improdutivo e da mediocridade acadêmica, e rendeu ao ator um temperamento forte, que o tornou verdadeiro, autêntico, mesmo nas tarefas mais rotineiras. Na defesa de valores não hesitava em – quando julgasse necessário – ultrapassar os marcos da razão. Certa vez, defendendo Tônia Carrero do que considerava injustiças escritas por Paulo Francis, rompeu os limites da boa convivência e cuspiu na cara do então crítico teatral. Era um dos momentos que recordava com um misto de orgulho e sarcasmo: “Juntei bastante cuspe e cuspi com prazer”, recordava em meio às gargalhadas. Seus entreveros com um dos papas do jornalismo brasileiro (Francis chegou a fazer teatro com Pascoal Carlos Magno e estudar com Bertolt Brecht e Eric Bentley) não pararam por aí. Em outra oportunidade tentou ir às vias de fato. Abrindo mão das artes teatrais, recorreu às marciais para aplicar um golpe certeiro no crítico teatral: “Nunca havia dado um soco em ninguém. É difícil, sabe? O corpo se contrai, o braço fica sem força” contava sempre bem-humorado.

Agarrou-se ao humor e prazer para dar contornos às suas escolhas. “Teatro para mim é paixão, sempre foi”, repetia incansavelmente.

A tolerância era outra de suas obsessões. Enquanto atuava em Visitando o Sr. Green deu um depoimento reiterando sua preocupação com o tema: “A peça discorre sobre a relação entre as pessoas, o respeito pelas idéias dos outros. Embora não concordemos sempre, temos que aceitá-las. Não podemos brigar com as pessoas porque são de um jeito ou de outro, porque têm uma ou outra religião. Temos que ser tolerantes. Depois que você assiste à peça, sai com vontade de perdoar, de compreender, de se dar bem com os outros. É uma das razões do sucesso dela.”.

Todo o processo de criação e aprendizagem de Paulo Autran decorre dos bons textos, da ótima literatura que sempre fez questão de cultivar e sorver. Em 1952 já estava às voltas com os clássicos gregos montando Antígona de Sófocles. Quatro anos mais tarde, foi-se encontrar com uma das mais expressivas obras dramáticas de todos os tempos, Otelo, o Mouro de Veneza, uma peça que retrata, com riqueza inesgotável, o brilhante universo de William Shakespeare.

Autran ia amadurecendo à medida que acessava os textos, que navegava na complexidade das personagens neles contidos.

Em 1965, por intermédio de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, mergulhou na história universal montando o musical Liberdade, Liberdade, espetáculo que discorre sobre o pensamento de importantes personalidades sobre o assunto: Sócrates, Marco Antônio, Platão, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Castro Alves, Anne Frank, Danton, Winston Churchill, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Geraldo Vandré, Jesus Cristo, Shakespeare, Moreira da Silva, Carlos Drummond de Andrade. Naturalmente um brado, sua forma particular de resistir à ditadura militar.

Retorna, em 1967, às tragédias gregas de Sófocles e monta Édipo Rei, peça que Aristóteles cultuava como “o mais perfeito exemplo de tragédia grega”, ainda hoje esmiuçada dada a influência que exerce na cultura ocidental.

A Morte do Caixeiro Viajante — peça teatral de Arthur Miller —, escrita em 1949, e Rei Lear, de William Shakespeare, escrita nos idos de 1605, foram peças que ajudaram a estruturar a veia performática de Paulo Autran. Todavia, foi O Avarento — que Moliére escreveu inspirando-se em Aulularia, de Plauto — a obra escolhida para encerrar em alto estilo a carreira e a vida, mantendo-as, doravante, sob a luminescência de um spotlight que jamais se apagará. Com sua última apresentação, o ator conseguiu expressar tudo o que humanamente é possível aprender sobre a arte da interpretação.

No cinema a participação se circunscreveu a não mais que dez filmes, com destaque para Terra em Transe, de Glauber Rocha, filmado em 1967. Sua última aparição na tela grande se dá em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.

Com o falecimento de Paulo Autran fecha-se, no Brasil, um ciclo caracterizado por atores completos, brilhantes, que priorizaram o palco, o contato direto com a platéia, a criação meticulosa das personagens, deslocando para um enésimo plano as oportunidades oferecidas pelo cinema e, sobretudo, pela televisão. Sucessores? É o próprio ícone do teatro brasileiro quem aponta uma juventude ávida pela mais fina dramaturgia e menciona Lázaro Ramos e Wagner Moura. Atores que têm o teatro como referência, mas que aprenderam a conviver com a televisão, explorando toda a potencialidade que dela emana.

Antes de encantar quis deixar uma derradeira lição. E, num ultimo suspiro, solicitou que a mulher Karin Rodrigues retransmitisse suas últimas palavras: “Morri porque fumava e nunca consegui largar o vício”.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 05:49 PM

Computadores - entre o ensino e a delinqüência

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Para os mais dados à observação sempre esteve claro que alguma coisa anda ruim das pernas.

Sim, é verdade, não há quem não veja o esforço nacional pra dotar as escolas de melhores condições tecnológicas, sobretudo de computadores. Participa deste esforço não apenas o governo, mas também a sociedade organizada, empresas e fundações privadas, nacionais e internacionais.

O PC e a rede mundial de computadores são instrumentos imprescindíveis no mundo moderno. Estão para a vida contemporânea como a água e o alimento estão para o peixe. Definitivamente, não há como navegar pelo século XXI mantendo-se ao largo das tecnologias de informática, sobretudo quando o foco é o ensino, a educação.

Que educador em sã consciência pode ignorar ou desdenhar a importância do computador e da internet no aprendizado dos alunos? A praticidade, racionalidade, eficiência; o acesso ilimitado a dados e informações, o livre ingresso para freqüentar e desbravar universos antes intangíveis, a irrestrita disponibilidade de obras clássicas, acervos seletos e das melhores bibliotecas dos EUA e da Europa, tudo isso possibilitado pela existência da WEB. É o mundo na tela de um simples monitor.

Em que pese a velocidade - muito menor que a necessária - nossas escolas têm se adequado às demandas dos novos tempos. Investem na atualização dos hardwares, em redes, softwares e aplicativos mais eficazes, instalam espaços e laboratórios para otimizar a utilização, democratizar o conhecimento; promovem oficinas... E tudo parecia correr conforme o planejado até que começaram a surgir aqui e ali – ainda que de maneira assistemática, tímida e dispersa – estudos alertando que, ao contrário de ajudar, os computadores estão atrapalhando a vida dos estudantes brasileiros.

- Mas como pode? É uma aberração, um acinte, uma aleivosia - apressaram-se em bradar os ‘entendidos’.

- Um computador, qualquer que seja a circunstância, jamais será um entrave para um estudante, esteja no Brasil, esteja na Cochinchina – completaram outros ‘especialistas’, ostentando a empáfia característica dos que acreditam que o mar se limita à crista das ondas.

Por outro lado, os adeptos das práticas conservadoras e avessos a tudo o que soe modernidade, não ficaram para trás:

- Com ábacos e os antigos instrumentos os alunos aprendem mais – e concluem frenéticos. – Vamos substituir os computadores por réguas de cálculo.

Este é um caso em que os ‘entendidos’ e os avessos à modernidade estão errados. Completamente errados.

Não faz muito tempo, o Ministério da Educação divulgou uma pesquisa demolidora sobre o assunto: a instalação de computadores, redes virtuais e laboratórios de informática em nossas escolas não têm agregado qualidade à educação, ao contrário, tem piorado o já deplorável ensino brasileiro.

Se o caro leitor acredita que a conclusão do MEC sobre o impacto do uso do computador em nossas escolas é de nocautear, então durma com essa: os alunos que costumeiramente utilizam o computador na escola estão seis meses atrasados nas disciplinas quando cotejados com os que não têm acesso ao equipamento.

Para alcançar este diagnóstico, os pesquisadores do ministério, utilizando as três últimas edições do Saeb – o exame aplicado para avaliar o ensino básico – lançaram mão dos modelos estatísticos mensurando o impacto da utilização do computador no aproveitamento pedagógico dos estudantes com acesso ao PC. E não custa registrar que nada menos que 38% das escolas públicas brasileiras contam com computadores instalados.

A questão central é que o aluno, sem um professor capacitado para guiar seus passos neste novo mundo, fica a mercê do efêmero, da mera diversão, e utiliza o tempo - que deveria destinar às tarefas, trabalhos escolares e aos estudos - para se aprimorar nos jogos virtuais ou esquentar conversa nos sites de relacionamentos, salas de bate-papos e similares. Quando não, o pior: inserir-se na rede de delinqüência que grassa na WEB.

Portanto, nem tanto o céu, nem tanto a terra. O PC não deve ser encarado como uma panacéia, mas também não deve ser subestimado. É obvio ululante que – no devido contexto – está a milhares e milhares de anos-luz da régua de cálculo utilizada por nossos avós.

Tão importante quanto prover as condições materiais e assegurar a instalação de wardwares e softwares em nossas escolas, é garantir um processo de educação específica para o professor. Só assim nosso estudante terá um supervisor habilitado para auxiliá-lo na travessia, no domínio e na conquista da nova tecnologia. Muitos de nossos educadores sequer conseguem ligar um computador e muitos outros nem se preocupam em esconder a aversão pelas novas tecnologias, sejam relacionadas à informática ou não. Refugam o novo como o diabo refuga a santa cruz.

Os países desenvolvidos conseguem extrair o máximo da relação tecnologias de informática/estudantes porque – além de investir no meio físico – investem também no professor, capacitam-no entusiasticamente e o utilizam para monitorar e supervisionar a incursão dos alunos pela rede.

É um modelo antigo, simples, exitoso e eficaz. Mas que as autoridades brasileiras só agora começam a se dar conta. Se existe algum consolo, vale um antigo ensinamento de nossos avós: antes tarde do que nunca.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 07:52 PM

O Santo Graal

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"Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem".

José Saramago

O homem jamais se conformou com suas atividades instintivas. As reações efetuadas de forma mecânica - que dispensam o aprendizado e a reflexão crítica - como os atos de respirar, comer, defecar e se arrastar jamais satisfizeram o Homo sapiens.

Desde os primórdios sentiu a premência de avançar, de evoluir, de comunicar a experiência vivida, incorporando um discurso significativo. E neste contexto a aprendizagem está para a evolução da humanidade assim como o Santo Graal está para algumas seitas religiosas.

Aprender a dominar o fogo; dar novas formas à pedra, lascando-a; captar a forma de lidar com a argila, o ferro, o cobre, o aço... E transmitir o conhecimento adquirido, se diferenciando das demais espécies porque o que acumulou e acumula diuturnamente não depende exclusivamente das informações genéticas e do comportamento que se desenvolve automaticamente de sua relação com a natureza.

Portanto, uma característica fundamental do homem reside na capacidade de aprender, de processar as experiências e conhecimentos que recebe dos antecedentes e das antigas gerações para transmitir para os contemporâneos e para os que virão. É esta especial característica que elevou a espécie, possibilitando exercer completo domínio sobre o planeta, e que decorre da habilidade de criar sistemas de símbolos - sobretudo a linguagem - mecanismos de que se utiliza para dar significado às experiências vividas, transmitindo-as aos seus semelhantes.

Por esta razão, no planeta terra, tão somente ao Homo sapiens é dado pensar.

Todavia, no decorrer da evolução humana parece que modificações genéticas acometeram indivíduos e grupos deles, criando uma sub-espécie que cultua a mediocridade, a ignorância e a delinqüência intelectual. É deste grupo de pessoas – hoje tão numerosos que em alguns extratos sociais, amplamente majoritários – que se refere Saramago. De uma forma sentida, dolorida, num incontido desabafo, dá testemunho dos que menosprezam o idioma, a fala, o pensamento...

Porque a escalada dos que são incapazes de pensar e falar bem, parece não ter fim. Como pragas de vampiros vão galgando posições, ocupando todos os espaços, sugando todo o sangue e energia disponível à volta. São os dráculas modernos, arrogantes e presunçosos, artificiais e preguiçosos ao extremo, incapazes de ler um bom livro, freqüentar uma boa escola, encantar-se por um museu, um teatro ou um cinema.

Não desenvolveram a habilidade de escutar, de ouvir. Simplesmente simulam prestar atenção ao interlocutor porque todas as respostas já estão predefinidas, na ponta da língua, pronta para a erupção que exala estultícia, tolice.

Os néscios compõem uma caterva de malandros que avacalha o idioma, sempre testando nossa paciência para administrar o insuportável, o que afronta a harmonia e desequilibra, o que agride a lógica e aos ouvidos, o que distorce e desfigura a verdade.

Incapazes de compreender as virtudes do diálogo diplomático, discreto e de conteúdo, estão sempre como prolixos papagaios, repetindo citações imbecis e o que já foi dito e reiterado inúmeras vezes, falando alto e com estardalhaço.

Como não têm o poder da palavra, não dominam o idioma e ignoram a lógica, jamais alcançam o pensamento, o raciocínio, a reflexão. Então utilizam a verborragia dos retardados e, conseqüentemente, não convencem. Daí, para vencer, só pela força.

Como cansa escutar alguns políticos, alguns intelectuais, alguns professores,...broncos que infestam todas as categorias profissionais.

Jamais compreenderão o poder do silêncio, do instante mágico para processar o que se escutou, o que se viu, o sentimento que emergiu, quando as coisas se revelam em sua verdadeira intensidade. Quando sentimos a doce presença de Deus.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:34 PM

Juventude açoitada

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As causas... cada um dá guarida às suas. Acoberta-as conforme a bagagem teórica, os valores e os interesses. O assunto é o estado terminal – de infindável crise - da educação brasileira. Pelo caos generalizado há quem atribua toda a responsabilidade aos professores, carentes de uma formação adequada que termina por provocar acentuadas distorções no processo de alfabetização. É que, se não é tudo, a alfabetização processada de forma correta, é muito. Outros preferem atribuir o problema crônico ao crescimento desordenado do ensino médio. E não sem parte da razão. Apenas na última década, o número de alunos no ensino médio foi triplicado, gerando fortes tensões sobre um sistema já frágil, débil e, por demais, deficiente.

Nessas condições, que cenário esperar senão este que se apresenta vil, catastrófico, improdutivo? É como uma explosão atômica reduzindo a pó tudo o que se encontra exposto. E nesta insidiosa explosão, parte considerável dos estilhaços recaiu sobre os ombros dos professores, que tiveram as condições de trabalho degradadas e os salários aviltados.

Mas a parte maior dos estilhaços foi lançada diretamente sobre o colo da juventude, desfigurando-a de forma quase irremediável.

O leitor acredita que incorro em exagero? Então vejamos. A última avaliação do Saeb - um dos exames federais de avaliação de aprendizagem - apresenta resultados devastadores: os estudantes que concluem o Ensino Médio só conseguem absorver conhecimentos esperados de alunos da 8ª série.

Quando adentramos no universo das escolas públicas tão somente, ai os resultados são de amargar, tornam-se demolidores: é que a média das avaliações dos alunos das escolas particulares geralmente é 21% maior que a dos estudantes do ensino público.

É dura a constatação, mas o cenário é de terra arrasada. Parte expressiva dos alunos fica três anos na escola cursando o ensino médio e aprende rigorosamente nada. Três anos jogados fora. Em São Paulo, a unidade mais rica da federação, praticamente a metade dos alunos conclui o ensino médio com conhecimentos de escrita e leitura que seriam apropriados para um estudante da oitava série. O Saeb denuncia que 43,1% dos alunos do terceiro ano do ensino médio tiveram notas inferiores a 250, patamar fixado como mínimo para a oitava série. Traduzindo em miúdos, esses estudantes não conseguem, por exemplo, compreender o efeito do humor provocado por ambigüidade de palavras ou reconhecer diferenças de opiniões em um mesmo texto.

Enganam-se os que imaginam que chegamos ao fundo do poço. Não, não chegamos, e por uma razão bem simples, o buraco é muito mais profundo: 15,2% dos alunos tiveram desempenho ainda pior, apresentando conhecimentos similares aos que se esperam das crianças de quarta série.

Convém repetir. O buraco é mais embaixo porque este quadro está distorcido pela presença dos alunos da rede privada, cuja média é 21,2% superior à dos alunos da rede pública. Quando o universo se restringe exclusivamente aos estudantes das escolas públicas então o cenário torna-se uma mistura ignominiosa onde se destacam incompetência, irresponsabilidade e crime de lesa pátria.

Todo o país que se preze reserva à juventude o que tem de melhor e mais nobre. E por uma razão bem simples e pragmática: mais dia, menos dias, o destino da nação estará em suas mãos. Mas Pindorama – os fatos comprovam! – não é um país que se preze: os jovens são humilhados e açoitados, porque deles se espera não combatividade, sabedoria e patriotismo, e sim leniência e cumplicidade com a canalhice que acomete uma fração expressiva dos que cuidam da educação e da política brasileiras.


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