revista bula
POR EM 13/10/2011 ÀS 01:27 PM

O dedo de Tolstói

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A esmagadora maioria dos escritores nasce derivada de um ou dois fatos marcantes, que lhes forjam a inescapável necessidade de partilhá-los. O mais é consequência da experiência diária e da própria liturgia do ato de escrever; de resto, motivações acessórias ao ofício. Liev Nikolaievitch Tolstói não foge a essa regra. Analisando sua bibliografia, constatamos que, a priori, sua obra se encontra cindida em três eventos marcantes: seu ingresso no Exército Czarista, participando inclusive dos combates encarniçados da batalha de Sebastopol, o testemunho do suicídio da princesa Anna Stepánovna, na estação da estrada de ferro de Iásnaia Poliana e sua conversão aos evangelhos na forma de um cristianismo puro e anti-clerical.

Dissecando sua robusta produção literária, podemos identificar esse movimento pendular, oscilando de um fato a outro e, com o passar dos anos, adquirindo um caráter messiânico, panfletário e libertário. Talvez a exceção fique com “O que é Arte”, um libelo metapoético onde ele desanca a intelligentzia da época, Nietzche à frente; e “A Felicidade Conjugal”, uma novela retratando os conflitos conjugais, que deixaria as feministas de hoje de cílios em pé. Mas isso é uma outra história. Como consequência direta de sua vida na caserna, Tolstói escreve os “Sebastopolskii Rasskazi” (Contos de Sebastopol), retratando os horrores no front de Sebastopol. “Guerra e Paz”, a despeito do enorme sucesso, pode ser catalogado como um rico e minucioso tratado sobre os humores de um país em pleno campo de batalha (a invasão Napoleônica de 1812). Como relembrança da cena fatal do suicídio de uma mulher adúltera, surgiu “Anna Kariênina”, com a voz narrativa afirmando-se na voz de um Deus justo e vingador: a mim compete a vingança e a retribuição. Derivando do período de pregação e exortação religiosa, temos “Ressureição”, ‘A Morte de Ivan Ilitch” e “Padre Sérgio”, uma tróica contundente a gritar ao homem sua falibilidade e sua podridão.


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