revista bula
POR EM 18/11/2009 ÀS 07:44 PM

Os livros de Cortázar

publicado em

CotázarO Centro Virtual Cervantes, dentro do projeto “La biblioteca del escritor argentino” fez um dossiê com parte da biblioteca (composta de mais de quatro mil livros) de Julio Cotázar. O material foi retirado do acervo da Fundação Juan March, que foi doado por Aurora Bernárdez, viúva de Cotázar. São dedicatórias, anotações, rascunhos e objetos pessoais. Uma preciosidade para quem gosta daquele que é considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo,  comparável a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe. Cortázar  foi o criador de um estilo que rompeu os moldes clássicos da literatura latino-americana. Seus contos são considerados como os mais perfeitos no gênero. Vale uma visita.


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POR EM 14/11/2009 ÀS 01:28 PM

Uma imagem: soldados russos

publicado em

Soldados russos


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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:15 PM

Esqueceram Roth, Llosa e McEwan e um conto de Herta Müller

publicado em

Quando lançou o divertido romance “O Complexo de Portnoy”, o escritor judeu americano Philip Roth foi chamado até de “filo-nazista” por judeus (veteranos controladores de publicações dos Estados Unidos). Roth não se importou com os rótulos e continuou publicando seus livros, como os ótimos “Lição de Anatomia” e “O Teatro de Sabbath” (seu romance mais denso). Mas nada de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Pois o velho discípulo de Saul Bellow, percebendo que independência política não é bom negócio, quando se trata de “ganhar” o Nobel, passou a dar declarações esquerdistas aos jornalistas. O ex-presidente George W. Bush tornou-se seu saco de pancadas predileto. Não deu pé. Roth “perdeu” o Nobel, mais uma vez. Agora, para uma tal de Herta Müller, nascida na Romênia mas apresentada como alemã (escreve em alemão). O fato de ter sido perseguida pelo regime de Nicolau Ceausescu parece que é sua principal qualidade “literária”. Desencantado, Roth agora pode voltar à sua velha e serena autonomia política.


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POR EM 12/09/2009 ÀS 05:33 PM

Drummond se confessa ao telefone

publicado em

Duas semanas antes de morrer, Carlos Drummond de Andrade disse, a este repórter, que, em duas décadas, seus versos estariam esquecidos: “Ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”. A profecia estava errada

*Texto publicado originalmente no blog do jornalista Geneton Moraes Neto


Repórter existe para incomodar os outros.  Ponto. Parágrafo.

A vocação para a inconveniência é defeito de fábrica. Vem no DNA. É caso perdido. Não há como corrigir, portanto. Feita esta constatação, declaro: eu deveria cumprir dez anos de desterro por ter incomodado consistentemente o maior poeta brasileiro. Repórteres em busca de declarações não deveriam perturbar a reclusão do autor de versos como “Consolo na Praia”:

“Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu

(…) Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

(...) A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho”

Ah, não, nem se discute. Fica decretado que o autor do poema “Hino Nacional” definitivamente não merecia ser importunado por repórteres que gastam a vida garimpando frases alheias:

“Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está domindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

(…) Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos”


Eu me penitencio. É óbvio que um repórter cometeria um pecado se pegasse o telefone para tentar extrair, a golpes de gravador, um punhado palavras de um poeta que já tinha oferecido ao Brasil versos como os de ‘América’”:

“Sou apenas um homem.
Um homem pequenino à beira de um rio.
Vejo as águas que passam e não as compreendo

(…) Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.
O rosto denuncia certa experiência.
A mão escreveu tanto - e não sabe contar !

(…) Sou apenas o sorriso
na face de um homem calado”

Mas….o repórter-que-vos-fala confessa que perseguiu Carlos Drummond de Andrade — logo ele, o monumento que preferia se fechar “em copas”. Usar o telefone. Era este o caminho das pedras para os repórteres que quisessem romper o muro de silêncio que o maior poeta brasileiro ergueu diante de si. O  segredo para abordá-lo, com sucesso, era só um :  usar o telefone como arma.

Atenção, pesquisadores de curiosidades zoológico-poéticas: o apartamento 701 do prédio número 60 da rua conselheiro Lafayette, em Copacabana, era palco diário de uma cena esquisita. Lá, um urso polar adorava falar ao telefone. Desde que virou uma quase unanimidade nacional, Drummond ergueu em torno de si uma couraça para se proteger das investidas do mundo exterior. Era o exemplo acabado do mineiro arredio. Usava uma suposta timidez — desmentida por amigos íntimos — para manter longe de si, na medida do possível, as incoveniências da celebridade, descritas nos versos amargos do poema “Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz”:

“Ah,não me tragam originais
para ler,para corrigir,para louvar
sobretudo,para louvar (….)

Respeitem a fera.Triste, sem presas, é fera”

Durante décadas, Drummond fugiu dos pedidos de entrevista. Preferia repetir a resposta-padrão: tudo o que tinha a dizer estava em seus poemas e crônicas. Mas mantinha um flanco aberto: o telefone. Amigos chegaram a definir Drummond como um “ser telefônico”.  Ziraldo escreveu que Drummond era “ao telefone, um derramado, com uma voz entre rouca e afunilada, meio tênue e fina, com a respiração difícil como quem tem desvio de septo”. O “urso polar” cultivava esta pequena esquisitice: sempre que podia, fugia do contato pessoal, mas se mostrava surpreendentemente acessível a investidas telefônicas de intrusos como, por exemplo, este repórter-que-vos fala.

Quando era um dos editores do “Jornal da Globo”, cultivei, pelos idos de 1986, o hábito de incomodar o poeta pelo telefone,em busca de declarações que eram transformadas, no ar, em frases que exibiam a assinatura de Drummond. “Não sou filólogo, não sou professor, não sou gramático. Sou um leigo em língua portuguesa”, disse-me o poeta Drummond. O caminho estava aberto para a abordagem : setenta e seis perguntas por telefone.

O poeta jamais se esquivou de fazer rápidos comentários. A uma pergunta sobre o que pensava de uma reunião de professores de países de língua portuguesa em Lisboa para discutir uma proposta de unificação ortográfica, Drummond — tido como um dos maiores poetas já produzidos pela língua portuguesa — deu uma resposta tipicamente drummondiana:

— “Considero-me um usuário, não o proprietário da língua. Não sou filólogo, não sou professor, não sou gramático. Sou um leigo em língua portuguesa”.

Tive a chance de entrevistar outro gigante da poesia brasileira, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, sobre a idiossincrasia telefônica de Drummond :

— “Era uma coisa engraçada : pessoalmente,ele falava menos” — constatava Cabral. “Mas tinha uma conversa longuíssima ao telefone. Quer dizer : quanto mais longe a pessoa, mais afetuoso ele era. Tenho a impressão de que ele não gostava era do contato físico”.

O telefone terminou se transformando no caminho das pedras para a obtenção daquela que seria uma das maiores entrevistas já concedidas por Drummond, em julho de 1987. Dezessete dias depois, o coração do poeta, já abalado por dois enfartes, parou de bater. Resultado: a entrevista gravada por telefone terminou se tornando uma espécie de testamento de Carlos Drummond de Andrade.

Ao todo, Drummond respondeu a setenta e seis perguntas que lhe fiz por telefone, em duas sessões. Transcrita, a gravação da entrevista rendeu cerca de duas mil linhas datilografadas. A íntegra foi publicada no “Dossiê Drummond”  ( há os que se queixam de que repórteres não devem ficar trancafiados na redação diante de um telefone. Mas a experiência prova: investidas telefônicas podem dar grandes resultados, é claro. Por que não? ).

Duas semanas antes de morrer, Carlos Drummond de Andrade disse, a este repórter, que, em duas décadas, seus versos estariam esquecidos : “Ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”. A profecia estava errada. As palavras do urso polar ficam. Diga-se que, em suas confissões telefônicas, o grande poeta revelou ser um péssimo profeta. Cometeu um monumental erro de avaliação: disse que, em duas décadas, estaria esquecido. Não foi. Não será. Errou feio.

Era um grandesíssimo poeta? Era. Cometeu versos perfeitamente dispensáveis no fim da vida ? Cometeu. Era tão bom cronista quanto poeta ? Não era. Distribuiu elogios a torto e a direito ? Distribuiu, por gentileza. Mas o que fica, é claro, é a obra. Versos como os de “A Máquina do Mundo”, obra-prima não tão conhecida quanto deveria, vão durar tanto quanto o mármore. Vai passar uma eternidade antes que alguém os iguale — em beleza, em brilho, em ouriversaria poética.

Em “A Máquina do Mundo”, o poeta tem a chance de decifrar o mistério do mundo numa caminhada de fim de tarde por uma estrada pedregosa de Minas. Mas dispensa a oferta. Prefere seguir a caminhada, solitário. Nada tão drummondiano. O final do poema:

“A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo
enquantio eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas”

Recolho um possível decálogo de nossa entrevista :

1

“Não tenho a menor pretensão de ser eterno.Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos e eu já estarei no cemitério São João Batista ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.

2

“A solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos ,uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está solitária, nunca estará sozinha. Terá sempre uma companhia: a imensa companhia de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.

3

“Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Por outro lado, não tendo tido nenhuma ambição literária, fui poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético”.

4

“A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta pode também passar despercebido”.

5

“Tive apenas o desejo de exprimir minhas emoções. Eu sentia necessidade de que eles se soltassem; era um problema mais de ordem psicológica do que de outra natureza”.

6

“O jornalismo é uma forma de literatura. Eu, pelo menos,convivi e mil escritores conviveram  com uma forma de jornalismo que me parece muito afeiçoada à criação literária: a crônica”.

7

“O que lamento é que as novas gerações já não tenham os estímulos intelectuais que havia até trinta ou quarenta anos passados. As pessoas que sabiam escrever a língua se destacavam na literatura e nas artes em geral. Hoje em dia, há escritores premiados que não conhecem a língua natal”.

8

“Sou uma pessoa terrivelmente corajosa, porque não espero nada de coisa nenhuma”.

9

“Considero-me agnóstico. Sou uma pessoa que não tem capacidade intelectual e competência para resolver o problema infinito que é se existe ou não existe uma divindade”.

10

“Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo”.


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POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

Máscaras da civilização

publicado em

Leia a íntegra da palestra Milton Hatoum no colóquio “Euclides da Cunha 360º — A obra e o legado de um intérprete do Brasil”, promovido pelo jornal "O Estado de S.Paulo", para lembrar o centenário de morte do autor de “Os Sertões”, Euclides da Cunha

Euclides da Cunha

Em dezembro de 1904, quando Euclides da Cunha desembarcou em Belém, ele já havia lido vários relatos de viajantes e naturalistas sobre a Amazônia. Numa carta a Coelho Neto enviada de Manaus, ele cita o título do livro que pretendia escrever — Um Paraíso Perdido —, "onde procurarei vingar a Hiloe maravilhosa de todas as brutalidades das gentes adoidadas que a maculam desde o século XVII".

Euclides não teve tempo para realizar plenamente essa vingança intelectual. Mas escreveu sobre a região vários artigos e ensaios, reunidos no livro “Contrastes e Confrontos” e na obra póstuma  “À Margem da História”. Escreveu também o "Relatório da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do alto Purus". 

Para o escritor, esse afluente meridional do Amazonas é uma espécie de metonímia da Amazônia. Com William Chandless e Manuel Urbano, ele foi o maior "biógrafo" do Purus, tendo alcançado em agosto de 1905 as cabeceiras desse rio que ele lamentava ser um "enjeitado, inteiramente abandonado", mas que considerava "uma das maiores dádivas de uma natureza escandalosamente perdulária". Mais do que isso, Euclides viu a possibilidade de incorporar o grande afluente ao progresso do país, pois no leito do Purus se traça "uma das mais arrojadas linhas da nossa expansão histórica". 

Essa expansão histórica será um dos focos principais de seus ensaios, cujas análises sobre a economia extrativista e o povoamento das margens do Purus são fundamentais para o estudo e a compreensão dessa parte da Amazônia. Mas há também nesses ensaios um ou outro equívoco ou contradição que vale a pena comentar. 

Nos ensaios de À margem da história sua visão sobre a Amazônia é pendular: a natureza é portentosa, o clima é dotado de uma "função superior", ou é "admirável" e "prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons". No outro extremo do pêndulo, prevalece uma visão negativa, em que a natureza é destruidora, pois o caos, a desordem e a inconstância são fatores de degradação humana. Algumas frases, de forte efeito retórico, resumem sua visão. Por exemplo: "Tal é o rio [Amazonas], tal a sua história: revolta, desordenada, incompleta". Uma dessas frases — do ensaio "Terra sem história" — é emblemática: "A natureza soberana e brutal, em pleno expandir de suas energias, é uma adversária do homem". 

Essa frase é importante, talvez decisiva, para a reflexão euclidiana sobre a Amazônia, pois nela há uma oposição, uma separação entre a natureza e o ser humano. Para ocupar e povoar o território é necessário domar a natureza, que, para Euclides, é uma adversária e, até mesmo, uma "perigosa adversária do homem", como ele escreveu numa carta a José Veríssimo. 

No entanto, a natureza, mesmo sendo hostil, é histórica. A Amazônia era e ainda é habitada por dezenas de milhares de índios que dependem da natureza não apenas para sobreviver, mas também para praticar rituais simbólicos indissociáveis de sua cultura e, portanto, de sua própria vida.

O homem a que se refere Euclides é o forasteiro, não o nativo. Na visão do escritor, as sociedades nativas — índios e caboclos — são inaptas para desempenhar papel relevante no processo civilizador da Amazônia. 

Euclides se contradiz para tentar provar que aquele território é uma terra sem história. Em vez de se vingar "de todas as brutalidades das gentes adoidadas que maculam a Amazônia desde o século XVII", ele recorre a essas mesmas crônicas e relatos do passado — os mesmos que antes ele criticara por excesso de fantasia — para afirmar que a raiz dos vícios da terra é a preguiça, como escreveu em 1762 o bispo do Grão-Pará frei João de São José, que, nas palavras de Euclides, "resumiu os traços característicos dos habitantes deste modo desalentador": "lascívia, bebedice e furto". 

Que o republicano Euclides chame esse bispo beneditino "seráfico voltairiano" já é desalentador. Acreditar nas palavras de um missionário considerado voltairiano é quase uma aberração para os leitores de Voltaire. 

Trata-se de uma tipologia negativa sobre os povos considerados exóticos, uma rede de estereótipos construída pelos jesuítas e viajantes europeus do século XVIII. Esse discurso, que estabelece uma hierarquia racial entre os povos, foi muito difundido na Europa do século XIX, quando as duas maiores potências imperialistas — França e Inglaterra — atribuíam aos africanos e orientais traços de caráter inferiores aos dos europeus. No contato destes com outros povos, as diferenças percebidas e comentadas marcavam sobretudo um novo limite das conquistas e da expansão europeia, não uma nova substância de uma sociedade. Os outros — os exóticos — formam uma espécie de "grau zero da humanidade". Esses mesmos traços depreciativos foram assinalados por vários viajantes e naturalistas, inclusive Alfred Russel Wallace, que viu na "sociedade indisciplinada" um comportamento moral nada edificante, como "beber, jogar e mentir". 

Além de concordar com essa visão estereotipada dos nativos, Euclides menciona "o incoercível da fatalidade física", o clima como um "perpétuo banho de vapor" que nos faz compreender a "vida vegetativa sem riscos e folgada, mas não a delicada vibração do espírito na dinâmica das ideias".

O determinismo climático, tão presente n'Os sertões, também é corroborado pelas palavras do médico italiano Luigi Buscalione, que, segundo Euclides, "caracterizou as duas primeiras fases da influência climática [sobre o forasteiro] a princípio sob a forma de uma superexcitação das funções psíquicas e sociais, acompanhada, depois, de um lento enfraquecer-se de todas as faculdades, a começar pelas mais nobres [...]". 

É estranho que Euclides, leitor de João Daniel, Alexandre Rodrigues Ferreira, mas também de Tenreiro Aranha, José Veríssimo, Tavares Bastos e de tantos historiadores brasileiros, não tenha lido nada sobre a Cabanagem, o movimento popular de índios, caboclos e negros da província do Grão-Pará contra os desmandos e a opressão do império durante o período regencial. Nessa revolta, duramente reprimida, morreram 30 mil pessoas. É também surpreendente que o escritor não tenha percebido — ou talvez não quisesse perceber — que Manaus e Belém, as duas capitais da Amazônia, foram construídas por uma mão de obra formada em sua maioria pela população nativa, que também trabalhava em muitos seringais dos rios Madeira e Amazonas, e até mesmo nas cercanias de Manaus. 

Penso que Euclides menosprezou a sociedade nativa porque esta não se ajustava a seu ideal de progresso e a sua missão civilizadora, que incluíam a posse e o povoamento sistemático do que ele chamava "terra ignota" e "deserto". Homens fracos, preguiçosos e viciados não podem enfrentar a "inconstância da base física onde se agita a sociedade".

Quem adquire relevância nos estudos euclidianos é o brasileiro que se desloca do Nordeste para trabalhar na Amazônia. São os sertanejos — parentes próximos dos conselheiristas combatentes de Canudos — que se encontram no centro das análises histórico-sociais de Euclides. O "caboclo titânico" é o nordestino do sertão. Ou seja: o seringueiro, "o homem que trabalha para escravizar-se", os seres que mourejam no "paraíso diabólico dos seringais", essa antítese que ele nomeia sem hesitação e com razão "a mais criminosa organização do trabalho que engenhou o mais desaçamado egoísmo". 

O nômade e o sedentário

Os vetores da civilização na Amazônia não serão os nativos, muito menos os caucheiros peruanos. Os primeiros são bárbaros, primitivos ou indolentes; e os caucheiros "se fingem de bárbaros para vencer o bárbaro".

Oriundo de Lima ou Arequipa, o caucheiro torna-se um nômade profissional, "irritantemente absurdo na sua brutalidade elegante, na sua galanteria sanguinolenta e no seu heroísmo à gandaia. É o homúnculo da civilização". 

A crítica implacável à atividade do caucheiro refere-se não apenas à brutalidade de caçadores e matadores de índios, mas também ao nomadismo, que não fixa o homem na terra, não pratica o que o escritor chama "colonização intensiva". É também um ser bruto, que se dedica ao "tráfico criminoso" de compra e escravização de mulheres indígenas, que explora os cholos e índios e acumula uma fortuna para depois gastá-la em Paris. Nesse sentido, o caucheiro peruano e o seringalista brasileiro não diferem quanto à forma de exploração da mão de obra que utilizam para a extração da borracha. Os proprietários de seringais também foram duramente criticados por Euclides em vários ensaios. Em Um clima caluniado, ele escreveu a frase famosa: o seringueiro é o homem que trabalha para escravizar-se. 

O nomadismo dos caucheiros não deixa que criem raízes ou que tomem posse do território. São "estranhos civilizados, passando como uma vaga devastadora e deixando ainda mais selvagem a própria selvageria". Os "barracones, embarcaderos e caseríos" que Euclides vê em Cocama e Curanja, à margem do Purus, espelham "a miragem de um progresso", pois esses entrepostos comerciais desaparecem num decênio. A exploração nômade implica uma fixação efêmera, "de caráter provisório", ao contrário dos seringais brasileiros, que permitem uma exploração estável, criando núcleos comerciais e povoados que resistem ao tempo. 

Euclides escreveu palavras apologéticas sobre o seringueiro, pois este sobreviveu ao regime de trabalho semi-escravo que lhe foi imposto e resistiu à natureza tumultuária e inconstante. Um herói de feição quase romanesca, cujos atributos são "a força titânica, a vontade, a pertinácia, um destemor estoico e até uma constituição física privilegiada". Para ilustrar esse heroísmo, Euclides usou uma expressão darwiniana — a seleção natural dos fortes — que é também um eco de sua famosa frase sobre os combatentes de Canudos: o sertanejo é, antes de tudo, um forte. 

Os seringueiros serão, portanto, os protagonistas da história, os agentes civilizadores, os domadores do deserto, "os caboclos titânicos que ali estão construindo um território". A ocupação do Acre e das margens do Purus e do Juruá está relacionada à construção e demarcação de um território, que, por sua vez, é uma afirmação da nacionalidade. Essa ideia, tão recorrente que beira a obsessão, tinha sido elaborada por Euclides em dois artigos importantes publicados em O Estado de S. Paulo em maio de 1904, antes, portanto, de sua viagem à Amazônia. 

Se a expansão histórica que ele vislumbrou no extremo ocidental da Amazônia foi de fato realizada, os povoados e cidades do Purus — e de outros rios da Amazônia — parecem abandonados, decadentes, sem os avanços e vantagens do progresso, e sem as normas da civilização. Ironicamente, o que ele nomeou "miragem de um progresso" na região peruana do Purus serve também para outras latitudes do Brasil, tanto no interior quanto nas metrópoles. 

Como se sabe, a miséria, o desemprego e a ausência de políticas públicas não são atributos apenas daquela região; fazem parte de um desenvolvimento à gandaia, extremamente desigual e injusto, e ainda de um sistema político moralmente falido, de uma relação promíscua entre os notáveis das instituições republicanas, que não vem ao caso comentar aqui. As iniquidades, em maior ou menor grau, estão por toda parte.

* * *

Se Euclides teceu uma visão distorcida sobre os caboclos da Amazônia, não se pode dizer o mesmo em relação aos índios peruanos e seringueiros brasileiros. A meu ver, um dos textos mais densos de À margem da história é "Judas Asvero", que comentei em outra ocasião. 

Nesse breve relato euclidiano, o olhar cientificista dá lugar a uma figuração das relações sociais, em que a imaginação, inspirada na experiência de quem de fato testemunhou a vida dos trabalhadores nos seringais, constrói um quadro melancólico durante o sábado de Aleluia, quando "os seringueiros vingam-se, ruidosamente, dos seus dias tristes". Em "Judas Asvero" há um olhar sobre a história, a geografia, a religião e o meio socioeconômico, mas sem um narrador que pretenda enquadrar numa hierarquia de valores os seres de quem fala. Por tudo isso, e também pela construção da narrativa, com ênfase na vida dramática dos personagens-seringueiros, transformados em pobres e talentosos escultores anônimos, o relato tende a ser muito menos explicativo ou assertivo, e muito mais literário. O ornamento e a pompa da linguagem são atenuados por uma escrita sóbria, cujo conteúdo de verdade convence muito mais do que uma mistura de cientificismo com etnografia ingênua e patriotismo exaltado. 

Não menos relevantes são as duas páginas finais de "Os caucheros", em que Euclides narra uma visita a um posto abandonado, pouco acima do Shamboyaco. A casa principal — do seringalista — e as vivendas menores, dos empregados, estão destruídas, arruinadas pela "mata que reconquistava o seu terreno primitivo". Aí, de fato, a natureza se regenera, sem ser brutal ou perigosa. O que de fato é brutal e mesmo trágico é o destino do ser humano. 

Euclides e os membros da comitiva descobrem num dos casebres o último habitante do lugar: um índio. Não se sabe se ele pertence à etnia amauaca, piro ou campa. Com o corpo deformado pelo impaludismo, esse pobre-diabo de aspecto monstruoso foi abandonado pelos companheiros, vegetando na solidão absoluta. O que impressiona nesse breve texto, além da linguagem, do artifício verbal, é como o narrador junta muitas coisas em apenas cinquenta linhas. Do ponto de vista literário e histórico, penso que é tão incisivo e sugestivo quanto algumas passagens da novela Coração das trevas, de Joseph Conrad. 

Um índio agonizante, abandonado numa tapera em meio a uma "ruinaria deplorável". Um corpo — uma coisa indefinível — que assemelha "menos um homem que uma bola de caucho ali jogada a esmo". O ser humano degradado se confunde com a mercadoria. Corpo e caucho, simbolicamente juntos, pertencem ao reino das ruínas, que não exclui a língua, pois a fala do índio agonizante é incompreensível. Rompida a comunicação, a única palavra em castelhano que ele consegue balbuciar é: Amigos.

Para Euclides, essa palavra é dirigida aos "desmandados aventureiros que àquela hora prosseguiam na faina devastadora". Mas há uma terrível ambiguidade quanto ao destinatário da palavra balbuciada. Ela pode ser dirigida ao próprio Euclides e aos membros da comitiva. E por que não pensar que "Amigos" é uma palavra destinada também aos leitores? Nós mesmos, que estamos lendo este texto e ouvindo o eco dessa palavra balbuciada por um "lastimável aborígene sacrificado". Porque, mais de um século depois, nós também somos espectadores dessa realidade trágica, cujos protagonistas Euclides nomeia "construtores de ruínas".

 * Texto publicado originalmente no
O Estado de S.Paulo .


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POR EM 22/08/2009 ÀS 11:42 AM

Relato incompleto de um encontro com Gay Talese

publicado em

Talese dá uma lição perene: personagens anônimos podem ser,sim, fascinantes, extraordinários, comoventes. É uma regra universal. Tudo depende — única e exclusivamente — da sensibilidade do repórter

Gay Talese


*Texto publicado originalmente no blog do jornalista Geneton Moraes Neto

“A humanidade só será feliz no dia em que o último editor for enforcado nas tripas do penúltimo” foi a sentença que o meu demônio-da-guarda me soprou, nítida e clara, ao pé do meu ouvido esquerdo, no exato instante em que ouvi o cultuadíssimo jornalista Gay Talese fazer uma confissão sobre os bastidores do jornalismo.

A confissão: uma reportagem que ele fez, nos anos setenta, sobre o encontro de Fidel Castro com Cassius Clay, em Cuba, foi descartada por nada menos de dez publicações diferentes. Dez!

É possível imaginar a cena: uma dezena de editores entediados deve ter passado os olhos sobre o relato escrito por Talese antes de vomitar uma desculpa qualquer para justificar a recusa.  Editores açougueiros cometem atrocidades todos os dias em todas as redações do planeta. Mas o caso da reportagem escrita em Cuba é uma daquelas aberrações que fariam um recém-formado desistir imediatamente da profissão.

Não é para menos. Tratava-se de uma reportagem escrita por um dos maiores nomes do jornalismo do Século XX sobre duas figuras míticas: o boxeador que entrou para a história por ter nocauteado um punhado de adversários imbatíveis e o comandante de uma ilhota que cutucava com vara curta a superpotência americana. Gay Talese, Cassius Clay e Fidel Castro. A camarilha de editores deu o veredito: não. Um dos argumentos que usaram: o texto estava grande. Precisava ser reduzido. Talese disse que não. Não poderia reduzir.

Os burocratas da profissão são exatamente assim: passam a vida inteira querendo provar que o público leitor detesta ler. Assim, todo e qualquer texto deve ser imediatamente trucidado. Ah, como são pateticamente pretensiosos... Depois de três décadas e meia de observação, posso declarar diante do tribunal a única certeza que adquiri nesta profissão: o maior inimigo do Jornalismo é o jornalista. Não existe outro. Ponto. Parágrafo.

O resultado da investida do exército de editores burocratas foi este: o relato da expedição cubana de Gay Talese só chegou às mãos do público quando foi incluída num livro, anos depois.

Talese um jornalista quase sexagenário na época da recusa — confessou, candidamente, que sentiu uma lufada de humilhação agitar suas florestas interiores ao ser brindado pelos editores com dez pontapés no traseiro.

Pergunta-se: quem é capaz de recordar o nome de um desses texticidas (assassinos de textos) que jogaram a reportagem de Talese no lixo ? Ninguém. Foram engolidos, um por um, pelo esquecimento.

Já Gay Talese sobreviveu.

Ei-lo agora, tanto depois, narrando suas desventuras numa noite tecnicamente cálida deste inverno na Cidade do Rio de Janeiro.

A confissão de Talese sobre o pesadelo que sofreu na mão de editores foi feita diante de uma fauna de tietes, curiosos, estudantes, aspirantes e dinossauros do jornalismo, reunida numa sala de cinema que fazia as vezes de palco de conferência no Instituto Moreira Salles, na Gávea, Rio de Janeiro. O jornalista Arthur Dapieve cumpriu com garbo o papel de mestre de cerimônia.

Quem conseguiu uma vaga na platéia ouviu um dos pais do New Journalism dizer que, lá no início da carreira, nos anos cinqüenta e sessenta, dava predileção a personagens anônimos, ao invés de cortejar os famosos.

Não por acaso, uma das primeiras reportagens que escreveu tinha como personagem central o redator de obituários do New York Times, um jornalista que vivia esquecido, numa mesa no canto da redação, ocupado em ruminar seus mortos.

Talese não teve dúvida em transformar um jornalista em notícia, o que quebrava um dos mandamentos da profissão (“jornalista só é notícia quando morre”). Não é verdade. Ao retratar o redator de obituários, Talese mostrou que jornalista que escreve sobre morte pode ser notícia, sim. Basta que tenha a sorte de atrair a atenção de um repórter inspiradíssimo, como ele.

A reportagem de Talese sobre um redator de obituários chamado Alden Whitman é um clássico imbatível do jornalismo. Pode ser lida no livro “Fama e Anonimato”, relançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Estudantes, amadores, profissionais, correi: o que estão esperando antes de devorar o texto de Talese sobre o “mister Bad News”?

Um repórter burocrata diria que não, um mero redator de obituários não “rende matéria”. Talese dá uma lição perene: personagens anônimos podem ser,sim, fascinantes, extraordinários, comoventes. É uma regra universal. Tudo depende — única e exclusivamente — da sensibilidade do repórter.

Ao falar sobre a gênese da célebre reportagem sobre Frank Sinatra, igualmente clássica, Talese fez outra confissão: disse que nunca se sentiu atraído a escrever sobre gente famosa. Preferia lançar seus faróis sobre gente anônima, o que parecia uma “contradição”. Afinal, o jornalismo se alimenta da fama.

Não por acaso, quando recebeu de um editor a tarefa de escrever sobre Frank Sinatra, Talese teve a tentação de recusar a encomenda. Imaginou: que pergunta Frank Sinatra já não tinha respondido um milhão de vezes?

(Neste exato momento da fala de Talese, meu demônio-da-guarda entra em cena novamente, para sussurrar uma confissão ao pé do meu ouvido direito. Diz que, se tivesse a chance de interpor uma ressalva às palavras de Talese, declararia, solenemente: “Ah, não,oh guru do Novo Jornalismo, permita-me um momento de petulância: ao contrário do que Vossa Excelência diz, haverá sempre uma maneira de perguntar o que não tinha sido perguntado. Não há celebridade que não possa ser confrontada. Mas... quem sou eu para discrepar?”. Feito este exercício de autocrítica, meu demônio-da-guarda recolhe-se a um silêncio reverente).

Hoje, Talese pode dizer que, por sorte, Frank Sinatra não quis lhe dar uma entrevista. Assim, o caminho ficou livre para que o repórter transferisse todas suas atenções para o entourage de anônimos que cercavam o ídolo dos palcos.

O homem que fazia o papel de double de Frank Sinatra — um personagem chamado Johnny Delgado — parecia, aos olhos de Talese, tão fascinante quanto o original. Talese descreve a cena em que viu se aproximar um vulto que ele jurava ser Sinatra em pessoa. Não era. Quem se aproximada era o dublê.

É bola na rede, gol de Talese: sem que tenha sido a chance de interrogar o objeto principal da reportagem, Talese produziu uma reportagem definitiva sobre mister Sinatra. Bingo.

Talese faria outra confissão — que arrancaria suspiros de espanto da platéia: não usa a internet como instrumento de trabalho. Diz que a “tecnologia” da internet pode ser usada, por exemplo, para confirmar uma data. Mas não pode substituir, nunca, o contato “olho no olho” com a realidade. Repórter deve ir para a rua. Não pode passar o dia contemplando o retângulo luminoso de um monitor.

Neste instante, lembrei-me de uma máxima de Joel Silveira, grande repórter da linhagem de Talese: a “víbora” Joel dizia que não existe nada mais triste do que ver um repórter contemplando o teclado de uma máquina de escrever na redação, enquanto os assuntos, todos, estavam lá fora, na rua, à espera de quem pudesse descobrí-los.

Por princípio, Talese diz que, ao retratar seus personagens, não gravava nem fazia anotações : preferia observa-los com toda a atenção. De volta ao hotel, à noite, redigia o que tinha visto.

Ao fazer este relato, lanço da mão da “técnica Talese”: não estou recorrendo a gravações nem anotações. Tento reproduzir — de memória — o que acabei de ouvir. Já se disse que a memória guarda o que interessa. O resto some no abismo do esquecimento.

Guardei — de memória — estas lições do guru do New Journalism. Há outras. Prometo: voltarei ao assunto, em breve ( Em nome de São Gutemberg: que outra coisa pode fazer um repórter, além de passar adiante o que viu e ouviu?).

Terminado o pronunciamento, mister Talese se dispôs a assinar autógrafos .

( Pausa para um registro bibliográfico: raríssimamente peço um livro emprestado. Dos pouquíssimos que pedi, o único que não tive a chance de devolver ao proprietário foi justamente um título de Talese: a primeira edição de “Fama e Anonimato”, lançada no Brasil nos anos setenta, pela editora Expressão e Cultura, com o título de “Aos olhos da Multidão”. Era a Bíblia de quem cultuava as pérolas de papel que Talese produziu, como o perfil do redator de obituários ou a reportagem sobre Frank Sinatra. Um colega jornalista, chamado Luiz Edmundo Monteiro, me emprestou o exemplar, no final dos anos oitenta. Depois, se mudou para o Paraguai. Jamais tive a chance de reencontrar o dono do exemplar — que ficou comigo esses anos todos. Hoje, ao me dirigir para o Instituto Moreira Salles, levei o livro que um dia, antes de ser relançado, era tratado como relíquia. A capa, frágil, ameaça se romper).

Sentado numa mesa, com os óculos na ponta do nariz, Talese veste-se como um dândi (sempre fez questão de cultuar paletós, jaquetas, coletes, sobretudos, sapatos, meias e lenços elegantes). Simpático, estende a mão para pegar o exemplar em ruínas.
Digo a ele:

— O senhor pode assinar a minha Bíblia?

Talese ri:

— É sua Bíblia ? Mas parece meio velha.... ( agora, ele manuseia a capa puída).
— É velha, mas funciona...

O guru ri de novo, assina, agradece.

Termina o rapidíssimo diálogo sobre o meu devastado exemplar de "Aos Olhos da Multidão" , minha Bíblia jornalística, meu Evangelho Para Repórteres Segundo Gay Talese.

Eu poderia ter dito a ele que acendo uma vela para "Aos Olhos da Multidão" e outra para uma entidade inventada por Kurt Vonnegut : Nossa Senhora do Perpétuo Espanto.

Se tivesse tido tempo de se manifestar, meu anjo-da-guarda finalmente levantaria a voz para interferir no diálogo, como se fosse um estudante ingênuo num comício de DCE : "Ah, com licença, oh guru do New Journalism, eu me arrisco a acrescentar que, se o Vaticano estivesse preocupado em combater as calamidades jornalísticas, deveria nomear Nossa Senhora do Perpétuo Espanto padroeira universal e plenipotenciária dos jornalistas. Porque só são dignos de povoar as redações os jornalistas que fazem da profissão um culto diário à Nossa Senhora do Perpétuo Espanto: são aqueles que tentam a todo custo não perder a capacidade de olhar a vida — e os personagens que a povoam - como se estivessem vendo tudo pela primeira vez. Em resumo: os que se recusam a perder a capacidade de se espantar. Somente assim, poderão narrar — da maneira mais atraente possível — a marcha dos fatos e dos personagens, anônimos ou famosos, que movem a máquina do mundo. Os que não são tocados por este espanto pertencem à triste linhagem dos que jogaram no lixo o que o senhor, Mister Talese, escreveu sobre Cassius Clay em Cuba. Já os que cultuam Nossa Senhora do Perpétuo Espanto serão sempre capazes de descobrir, em personagens como o redator de obituários, histórias que, claro, merecem ser contadas. Sempre mereceram !".

Mas não, não houve tempo de falar com Gay Talese sobre velas, redações, obituários e espantos nem de ouvir as perorações de anjos e demônios da guarda.

A fila dos que buscavam um autógrafo se estendia pelo pátio do Instituto. São dez e meia da noite. Hora de pegar a Bíblia e bater em retirada.
 


 


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POR EM 15/08/2009 ÀS 10:08 AM

Euclides ataca. Euclides morre

publicado em

O destino de Euclides da Cunha foi marcado pela República e pela tragédia. Sua morte foi o maior escândalo da vida brasileira do início do século passado

Euclides da Cunha

O dia 15 de agosto de 1909 era domingo. Na cidade do Rio de Janeiro, chuviscava insistentemente e fazia frio. Do Bairro Copacabana, um homem franzino, de tez amorenada, de bigode, saiu cedo de casa. Estava irrequieto, com seu guarda-chuva preto. Passou em casa da tia Carolina para pedir aos primos Nestor e Arnaldo um revólver emprestado. Seria para "matar um cão hidrófobo que está rondando minha casa", explicou, ao receber o Smith & Wesson, calibre 22, que meteu rápido no bolso do paletó. Dirigiu-se à Estação Central, comprando o bilhete de ida e volta para a Estação da Piedade. Lá saltou e saiu indagando a esmo, onde moravam dois tenentes, que eram irmãos. Não foi difícil encontrar quem soubesse o endereço. Os irmãos eram bastante conhecidos no local, por serem atletas esportivos. Dilermando de Assis ganhara o título de campeão de esgrima e de tiro ao alvo; Dinorah era goleiro do Botafogo. Alguém informou: "É ali adiante, na casa nº 214 da Estrada Real de Santa Cruz" (atual Avenida Suburbana).

Para lá, em passo sôfrego, se dirigiu o homem franzino com revólver no bolso. As portas e as janelas da casa ainda estavam fechadas. Pendurou o guarda-chuva preto no portão de ferro da entrada e bateu palmas, fortes. Dinorah foi atendê-lo, abrindo a porta lateral. Ao adentrar, o homem franzino sacou o revólver do bolso e anunciou: "Vim para matar ou morrer!".

Deu três tiros em Dilermando e, depois, três tiros em Dinorah, que tentou contê-lo. A sétima bala falhou. Apesar de ferido, Dilermando desferiu quatro tiros de revólver calibre 32, uma das balas perfurando o pulmão já enfraquecido pela tuberculose do homem franzino, que caiu em agonia. Um médico foi chamado às pressas. Conta-se que, quando chegou, depois de auscultar o corpo estendido na cama, o médico sentenciou: "Este homem está morto". Por curiosidade, indagou:

— Quem era este homem?
— O doutor Euclides da Cunha.

O médico espantou-se com a revelação do nome. Procurou certificar-se sobre a identidade da pessoa:

— O autor de "Os Sertões"?

Era ele mesmo. Assim morreu o autor do mais consagrado livro brasileiro do início do século XX, vítima de uma tragédia amorosa provocada pela infidelidade de sua mulher, Anna da Cunha, conhecida como Sianinha. Dezessete anos mais novo, o amante Dilermando de Assis foi preso no quartel, submetido a júri popular e absolvido do crime por ter prevalecido a tese da legítima defesa. Libertado da prisão, logo no dia seguinte, em 12 de maio de 1911, casou-se com a viúva que se torna a senhora Anna de Assis.

Mas a tragédia não termina. O cadete Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, foi incitado por parente e amigos a vingar a morte do pai, cuja honra continuava a ser afrontada com o casamento de sua mãe com o amante matador. Cheio de ódio e precaução, no dia 4 de junho de 1916, com uniforme militar, ele alvejou pelas costas o padastro, quando este consultava o processo de inventário de Euclides da Cunha no Cartório da Vara de Órfãos no Fórum. Quase desfalecendo, o campeão de tiro, também trajando uniforme militar, sacou de sua arma e abateu o enteado vingador com uma bala na cabeça.

Apesar do desespero de mãe, Anna de Assis se colocou ao lado do marido, que conseguiu sobreviver ao ataque. Submetido a Conselho de Guerra, Dilermando de Assis foi absolvido por unanimidade.

Contudo, desde a morte de Quidinho, o casamento não foi mais o mesmo. A vida em comum tumultuou-se e Dilermando de Assis procurou conforto nos braços da jovem Marieta. Descobrindo a infidelidade, Anna saiu de casa com os filhos, para viver na pobreza. Ela, que traíra Euclides, não tolerou a traição de Dilermando e abandonou o antigo amante.

Enredo de novela?

Poderia ser. Mas são fatos históricos que remetem ao acontecimento editorial que fez do diligente engenheiro de obras do governo de São Paulo, que construiu uma ponte metálica na cidade de São José do Rio Pardo, um dos maiores escritores do Brasil.

O livro

Sete anos antes da tragédia da Piedade, em 1902, Euclides da Cunha abalara o meio intelectual do País, com a publicação do livro "Os Sertões (Campanha de Canudos)", que imediatamente provocou admiração e aplauso.

De um momento para outro, virou celebridade, colhendo elogios gerais, inclusive de críticos exigentes como José Veríssimo e Sílvio Romero. Antes, o autor era vagamente conhecido pelos artigos que publicava no jornal O Estado de S. Paulo. Por causa desses artigos, sempre bem escritos, em 1897, ele fora designado correspondente desse jornal paulista na Guerra de Canudos, travada no interior da Bahia entre o Exército brasileiro e os seguidores do místico cearense Antônio Conselheiro.

A história da campanha militar, a experiência adquirida no contato com o meio agreste e com o sertanejo lhe inspiraram a obra, só que ela transpôs os limites da cobertura jornalística, para se situar numa fronteira entre o ensaio científico e a ficção literária. A obra foi dividida em três partes: "A Terra", "O Homem" e "A Luta", formando uma complexa unidade, com os dois primeiros temas justificando o terceiro. O texto foi surpreendente para seus contemporâneos, vazado em termos técnicos, recheado de palavras arcaicas; uma linguagem barroca, com antíteses, hipérboles e oxímoros, ao lado de descrições vigorosas, coloridas e poéticas. Parte da obra sofreu influência dos preconceitos raciais da época, induzidos pela filosofia determinista. No entanto, excetuado esse conteúdo superado, o livro se preserva extraordinariamente atual.

É preceito que um livro é considerado clássico quando ele admite, com o passar dos anos, interpretação atualizada de sua mensagem. Ou seja, o seu conteúdo é rejuvenescido com as releituras, que encontram nele uma verdade permanente ou uma fonte de sabedoria e beleza. O caso de "Os Sertões" é paradigma desse preceito. O ensaísta José Guilherme Merquior, com sua autoridade na matéria, afirmou que o livro é "o clássico de ciências humanas no Brasil". Como obra sociológica pioneira, descobriu os dois brasis, com as civilizações do litoral (progressista) e do interior (atrasada). Como obra histórica, registrou os erros políticos e militares que levaram o País a uma guerra civil. O estilo refinado da linguagem e a alta qualidade de seu texto lhe conferem lugar destacado como obra literária.

Não encontrando interessados na publicação do seu livro sobre a Campanha de Canudos, Euclides da Cunha pagou do próprio bolso a edição contratada com a casa Laemmert, do Rio de Janeiro. Pronta a impressão, ao fazer a revisão do livro, ficou desesperado com os erros tipográficos. Empreendeu a insana tarefa de emendá-los manualmente, acrescentando o que faltava com tinta de caneta e raspando com canivete o que sobrava no texto impresso de cada exemplar, para assombro e zombaria dos operários da oficina. Somente depois é que autorizou a editora a expor o livro na vitrine.

Sob tanta expectativa, o autor ficou nervoso, porque "tinha certeza" que a obra seria "um desastre". Conforme recordou depois, não aguentando a ansiedade, ele deixou o Rio de Janeiro e foi para a cidade de Lorena (SP), onde residia.

Mal chegou, saiu sem destino, a cavalo, vagando pelo interior de São Paulo, procurando não ver ninguém, esconder-se, para não ter notícia do "desastre" do livro. Ao cabo de oito dias, cansado e com saudade da família, resolveu voltar. Foi para a estação de Taubaté esperar o trem que vinha do Rio de Janeiro. Estava no restaurante quando avistou um passageiro com um livro debaixo do braço. Fixou os olhos no volume meio encoberto e não acreditava no que estava vendo. Num impulso, abordou o desconhecido, pedindo-lhe para mostrar a capa do livro. Era "Os Sertões", era a primeira manifestação do sucesso editorial que se mantém há 100 anos.
 

* Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste.


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:59 AM

Os livros essenciais. Mesmo?

publicado em

Texto publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

A revista “Bravo!” fez uma lista dos cem livros essenciais de nossas letras. Na linha de trabalhos similares, como fez Harold Bloom, o rol traz sérias complicações, mas em princípio é bem-vindo, por ensejar discussões e estudos.

Como pode uma lista de autores brasileiros excluir Adelino Magalhães, Affonso Romano de Sant´Anna, Carlos Nejar, Nélida Piñon e Salim Miguel, e no lugar deles pôr Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Fernando Gabeira e o Visconde de Taunay entre os autores das cem obras mais representativas da literatura brasileira?

Não está em questão a qualidade dos citados, mas a classificação, já que todo mundo sabe o quanto aprecio a obra documental do Visconde de Taunay, personagem importante de meu romance “Avante, Soldados: Para Trás”, e as restrições que faço à sua prosa de ficção.

Euclides incluído

Há uma meia dúzia de instâncias que, na mídia, com freqüência avaliam sem as credenciais necessárias a nossa produção literária. Se é para fazer uma lista de cem obras referenciais de nossas letras, tomem-se vinte autores e cinco livros de cada um deles e está feito o trabalho. Da relação nãopodem ser excluídos Alberto da Costa e Silva, Ivan Junqueira, Lima Barreto, Geraldo Ferraz, Benito Barreto, Otávio de Faria, Esdras do Nascimento, Mário Chamie, Josué Guimarães, Luiz Antonio de Assis Brasil, Moacyr Scliar e Raimundo Carrero — todos ausentes da lista da “Bravo!”.

Um dos méritos da lista, pois ela os tem, é incluir o padre Antonio Vieira, que veio de Portugal para o Brasil aos seis anos, e Clarice Lispector, nascida na Ucrânia, que emigrou para cá por volta dos sete anos.

Convém chamar a atenção para os autores que devem ter servido de referências bibliográficas, indexados na última página da revista. Dos citados, nenhum tem uma obra que contemple as nossas letras nos últimos quarenta anos, pelo menos. É como se, por ocasião da Guerra do Paraguai, fosse feita lista semelhante e dela fizessem parte quase que exclusivamente autores do século 18!

Ai da literatura que depender de um livro como “O Que é Isso, Companheiro?”, de Fernando Gabeira, expressão documental nascida da urgência da práxis política, que de forma alguma pode substituir a obra bem cuidada. Se o critério apontar para interpretações do Brasil feitas fora de gêneros clássicos como o romance, o conto e narrativas curtas como a nossa riquíssima literatura infanto juvenil (outra ausência clamorosa na lista), então precisamos lembrar a obra de Gilberto Freyre, de Carlos Guilherme Mota, de Augusto Meyer. Penso que foi o que motivou a inclusão de Euclides da Cunha, que nem romancista nem contista ou poeta é, mas que não pode ter “Os Sertões” excluído.

Para evitar injustiças

A lista acerta alguns autores, mas erra na indicação dos livros. “Seminário dos Ratos” não é a obra solar de Lygia Fagundes Telles. A pressa na elaboração deixou outros vestígios. De Paulo Leminski é citado o romance “Catatau”, quando ele é referência, sim, mas em poesia. Muitos livros de Rubem Fonseca têm qualidade acima de seu livro de estreia, “A Coleira do Cão”, o mesmo ocorrendo com João Ubaldo Ribeiro, pois “Sargento Getúlio” é superior a “Viva o Povo Brasileiro”.

Em resumo, a lista não serve de referência para as cem obras referenciais de nossas letras. Talvez ela deva ser feita por gêneros e assim evitaremos as injustiças e os equívocos já habituais nesse tipo de trabalho. 
 


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POR EM 12/06/2009 ÀS 01:02 PM

Críticos discutem o o novo livro de Peter Gay

publicado em

Antonio Gonçalves Filho, Teixeira Coelho e Francisco Alembert, em textos publicados no jornal “O Estado de S. Paulo”, discutem o recente livro de Peter Gay, “Modernismo”

Peter Gay 

O modernismo segundo Peter Gay

Autor reacende debate ao defender em seu novo livro que o 'fascínio da heresia', e não a ideologia, uniu os modernistas

Antonio Gonçalves Filho
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

O historiador judeu de origem alemã Peter Gay, hoje com 86 anos, tinha pouco mais de 10 quando escapou da Alemanha de Hitler, em 1933. Estabelecido nos Estados Unidos, dedicou sua vida a pesquisar a história que deixou para trás, produzindo estudos e biografias de personagens da cultura europeia, dos quais os mais célebres são um ensaio sobre o panorama artístico na República de Weimar e uma biografia de Freud. No entanto, seu mais recente livro, “Modernismo” (Companhia das Letras, tradução de Denise Bottman, 578 págs., R$ 64) dividiu os críticos, como atestam os textos do crítico e curador Teixeira Coelho e do historiador Francisco Alembert.

Acusado de eurocentrismo — por ter eleito apenas artistas, escritores, dramaturgos e músicos modernistas europeus, omitindo americanos e latinos — Gay defendeu-se antecipadamente das críticas que viria a receber escrevendo, no prefácio, que seu livro não é um estudo sobre o nascimento, crescimento e declínio do modernismo. Esta seria, segundo o historiador, tarefa impensável para um único volume —  daí a ausência de grandes romancistas como Faulkner e Saul Bellow ou pintores como Willem De Kooning e Francis Bacon.

Numa história geral, teria de acomodar todo mundo. Em sua história particular, ele buscou apenas os traços comuns aos modernistas, dissociando-se da ideologia de seus contemplados, sejam eles o Nobel de Literatura Knut Hamsun, simpatizante do fascismo, ou o dramaturgo antifeminista August Strindberg, passando pelo ultracatólico poeta T.S. Eliot e outros pilares do modernismo associados a regimes totalitários (o futurista Marinetti, por exemplo). Gay defende que o liberalismo é o princípio fundamental do modernismo e faz de sua lista uma declaração de princípios, provando que a modernidade não é a pátria da democracia. Ao contrário. É o paraíso de autocratas como Picasso, bancados pelos burgueses sobre os quais destilou seu ódio.

Embora diga que não se arriscou a oferecer uma leitura psicanalítica do modernismo, o historiador, ao falar de Kafka, vai além de Freud e transfere para a arena da psicanálise a discussão sobre a obra do escritor. Seu diagnóstico: o autor de “A Metamorfose” era um edipiano desajustado, vítima do desamparo moderno provocado pela tirania do pai - celestial ou biológico. O fato de Kafka ser judeu e de tantos outros criadores judeus terem influenciado o modernismo poderia, então, conduzir a outras interpretações igualmente polêmicas? Gay é mais cauteloso nesse terreno minado, lembrando que não existe tal coisa chamada de "gosto judeu". Judeus ricos compravam tanto os acadêmicos dos salões como Picassos e resistiram às inovações de Schoenberg quase tanto como evitavam a revolucionária arquitetura da Bauhaus.

A rebelião modernista, ainda segundo Gay, tampouco foi esquerdista, embora tenha sido uma resposta ao mundo burguês. Regimes totalitários, defende, foram sempre hostis ao modernismo, do nazista - e a exposição “Arte Degenerada”, de 1937, é prova incontestável - ao comunista. Com relação ao último, ele dá um jeito de contornar o incontornável, omitindo o nome do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Gay discorda do crítico, também marxista, Georg Lukács, que decretou 1848 o ano da morte da ideologia burguesa. Lukács disse que a burguesia francesa não mais desempenharia um papel na progressista peça da modernidade. Gay diz o contrário: a primeira qualidade dos modernos é o que chama de "fascínio pela heresia". Artistas de origem burguesa provocam outros burgueses escandalizáveis e são por eles financiados. Não haveria, segundo ele, uma única ideologia política capaz de bancar ou explicar o modernismo.

Seja como for, Gay admite o ano da publicação do “Manifesto Comunista” — 1848 —  como um marco, escalando o poeta francês Charles Baudelaire como o primeiro herói do modernismo. Alvo preferencial do ódio burguês, Baudelaire foi o herético encarregado de provocar a sociedade francesa, ao desprezar a poesia tradicional e expor suas taras sexuais em poemas profanos. O "subproduto degenerado" do modernismo, no entanto, teve ancestrais ilustres - o protomodernista Diderot, cita Gay, descartando a localização histórica do modernismo, que, segundo o mesmo, não acabou. Para provocar, ele diz que não sabe o que é pós-modernismo e conclui o livro chamando de "moderno" o "herético" arquiteto Frank Gehry. O que Bilbao pode fazer pelo modernismo? Nem Gay sabe. Diz que é historiador, não profeta —  mas não hesita em culpar Duchamp por ter destruído a ideia de modernismo, ao afirmar que tudo pode ser arte, sonho que a arte pop, segundo ele, converteu em realidade.

Para Gay, o declínio do modernismo começou quando o público aceitou a provocação dos artistas pop —  Warhol, em particular, por ter eleito tantos ícones do consumo como arte. Até então, a arte exigia uma sensibilidade mais "educada" (ou elitista), argumenta. Após Andy Warhol, vale tudo.


Entre erros, equívocos e omissões

Definição empregada na obra esbarra na fragilidade de teses que a justificam


Teixeira Coelho
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

Certos livros levam o leitor a fazer uma pergunta cruel: por que foram escritos? Este é um deles. A pergunta nem sempre tem a resposta óbvia que parece sugerir; neste caso, tem.

Peter Gay nasceu em Berlim em 1923, numa família judaica; em 1939 saiu da Alemanha, e chegou aos EUA em 1941, onde mudou seu sobrenome Frohlich para o equivalente inglês "gay", alegre. Historiador das ideias, recebeu prêmios e reconhecimento intelectual em 1968 com um livro sobre a cultura de Weimar. Com o tempo, passou a interessar-se por Freud e a psicanálise, praticando o que alguns chamam de psicohistória. Seu nome não convoca opiniões unânimes nos EUA, onde é visto como quem quer se apresentar como "dono de Freud" além de autor de quase um livro por ano sobre temas tão distintos como o socialismo democrático, Voltaire, Freud, o ódio, Mozart e Schnitzler. Essa não unanimidade pode ter seu lado positivo. Mas, muitos acadêmicos americanos, defensores de um conhecimento na vertical, apontam em vários de seus livros uma quantidade anormal de ideias rasas e feitas.

É um pouco o que acontece neste caso. Dando como período de vida para o Modernismo o arco que vai de 1840 a 1960, Peter Gay discorre, em quase 600 páginas, sobre a vida moderna, os artistas de vanguarda, a poesia e a prosa, a música e a dança, arquitetura e design, teatro e cinema, os bárbaros e os excêntricos e Frank Gehry. É muita coisa para 600 páginas e grande demais o risco de deixar insatisfeitos a todos e cada um. Ele estava consciente do risco e mesmo assim o assumiu.

Peter Gay não aceita que existam distintos modernismos. Prefere dizer que o Modernismo é um só e que corresponde a uma "única época histórica", aquela da consolidação da cultura ocidental. E busca explicá-lo por meio de duas outras teses: o fascínio pela heresia, que leva ao confronto com as sensibilidades convencionais (o velho épater le bourgeois); e o princípio do "exame cerrado de si mesmo", ou questiona-te a ti mesmo (mais do que o conhece-te a ti mesmo) ou, ainda, como difundido por Anthony Giddens (que ele não cita), a reflexividade — que deu, exatamente, a modernidade reflexiva. Ao final do livro, numa nota de rodapé em que procura refutar a T.J.Clark, aparece sua quarta tese, implícita desde o começo: o modernismo não acabou.

Essas quatro teses, variadamente combinadas, devem poder explicar tudo que aconteceu no período: um poema de Rimbaud, uma composição de Satie, uma peça de Beckett, um quadro ("qualquer quadro", ele diz) de Picasso e Freud "com sua barba bem aparada".

Das quatro, a mais débil é a primeira. Velha, simplista e exagerada demais (os artistas podem exagerar uma ideia, dizia Gide; os historiadores das ideias deveriam contê-las). Dizer que os artistas e intelectuais do período eram contra o burguês e procuravam chocá-lo como modo de afirmar-se cultural e socialmente ("o fascínio da heresia") é dizer uma verdade surrada que não dá conta da realidade. E que por vezes é meia verdade, dadas as boas relações mercantis (pelo menos, monetárias) entre artistas e intelectuais (como o próprio Freud) e sua clientela de fornidas carteiras que sempre se abriram com abundância ao toque correto do contestador de vanguarda. Os artistas e intelectuais modernos foram em sua maioria, isso sim, contra a modernidade e quase tudo que ela continha e representava: as velhas ideias, o capitalismo, a arte anterior, a política, a organização social, o bom-mocismo, o materialismo, a própria vida urbana (do flâneur, das passagens e galerias de Paris) que no entanto ao mesmo tempo tanta fascinação sobre eles exerceu. Foram contra tudo, não só contra o burguês. A questão é, apenas, saber quem foi o que e quando, quem foi contra quem ou o que, quando. O surrealismo foi contra o capitalismo mas depois uma parte dele virou contra o comunismo. Baudelaire foi contra o burguês mas depois foi a favor do modo de vida burguês. Colocar tudo no mesmo saco - e no caso de Gay é tudo mesmo —  é um problema. Para fazer-lhe justiça, ao longo do livro ele faz correções a essa máxima sem no entanto reconhecer explicitamente que os modernos foram contra a modernidade, a não ser talvez numa breve passagem à página 384. Admite de modo expresso, apenas, o que é um pouco diferente, que algum modernos foram contra os modernos, como T.S.Eliot. Mas por que não adotar desde o início uma outra perspectiva e falar exatamente do que ele nega: dos modernismos, que são vários e nunca um só, formando não bem uma época mas um conjunto de épocas paralelas que dificilmente se comunicaram? Talvez porque, adepto do Iluminismo, Gay pense sempre por totalidades totalizantes. Ele diz que reconhece a diversidade na unidade - mas reafirma a unidade sobre a diversidade, quando deveria ser o contrário.

Ao lado disso, as impropriedades se acumulam. Dizer que Robbe-Grillet é um moderno é estranho e impróprio. Estranho porque páginas antes Gay afirma que o romance moderno se tornou o romance da consciência, como manifestação do principio da reflexividade. Impróprio porque, se há alguma coisa que Robbe-Grillet não faz é exame de consciência, psicologismo, psicanálise... O nouveau roman era exatamente contra isso, como ficou claro (ou obscuro?) em “Ano Passado em Marienbad”, de Resnais, com roteiro de Robbe-Grillet. E Beckett não cabe na mesma gaveta de Proust. E não se pode mencionar em meia linha a Godard e Truffaut e não explicar se são modernos ou...pós-modernos, expressão que aparece talvez uma única vez no livro.

Os motivos de insatisfação crescem: da América Latina, menciona García Márquez, que não é nem a ponta do iceberg, e nada diz de Borges ou Cortázar. Brasília, Niemeyer e Lúcio Costa não existem. Talvez porque ache que a America Latina nunca foi moderna. É uma tese. Talvez porque a América Latina, como classificava Samuel Huntington, não faça parte do ocidente —  e Gay é um historiador da cultura ocidental... Esse tipo de omissão e ignorância cansa. Não por nacionalismo: só porque Borges foi muito maior que Márquez e inúmeros outros americanos e europeus que ele cita.

Em suma, a tese da heresia é cobertor curto, a tese da reflexividade ele não sabe o que é (ou então nunca leu de fato Robbe-Grillet) e a ideia de que o modernismo continua é uma furada. O fecho do livro é sintomático. Ali ele fala de Frank Gehry e do Guggenheim-Bilbao. E tudo que encontra para dizer do arquiteto é que é anticonvencional e expressionista, muito pouco para quem é, abertamente, um dos grandes pós-modernos.

E volta a pergunta: para que este livro, espécie de “Reader's Digest” do modernismo? Nem para quem se inicia, nem para quem é iniciado. Acima de tudo, não para o leitor do século 21. Sempre se tira alguma coisa de um livro mas, desse, pouco. Livros devem ser como no jogo do bridge: se quem propõe um jogo não o faz, perde. Há ausências estridentes (o jazz), erros (quem mostra bichos em banho de formol não é um grupo de artistas, mas um só, Damien Hirst) e demasiada generalização. Pessoalmente, mesmo sem concordar sempre com ele, prefiro Hobsbawn: mais sintético e inspirado.


Sem medo, análise assume revisão subjetiva

Grande mérito do trabalho é ser símbolo da coerência intelectual do pesquisador, espécie de síntese de toda a sua produção

Francisco Alembert
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


Não é difícil elogiar o novo livro de Peter Gay. É mais fácil atacá-lo. O projeto de resumir e caracterizar o "modernismo" é simultaneamente ocioso (para muitos pós-modernos), frágil (para os megaespecialistas) e comercial (para os apressados).

O maior mérito do livro é não temer nada disso, além de valer também como uma síntese da obra do autor da conhecidíssima biografia de Freud, um dos mais importantes historiadores da cultura contemporânea. Isto porque boa parte das teses deste livro se relacionam com outras obras, como “Guerras do Prazer”, último trabalho de sua pesquisa publicada em cinco volumes —  “A Experiência Burguesa: da Rainha Vitória a Freud”. Lá, como aqui, parte-se da ideia de que a burguesia vitoriana teria aberto o caminho para as experiências da vanguarda modernista, formada sobretudo por burgueses em crise com sua própria classe e, por isso mesmo, marcada por uma certa "burguesofobia". Assim, "modernismo" é um processo de autoquestionamento e crise contra a cultura estabelecida, em busca da renovação de si.

O ponto de vista é radicalmente subjetivista, rousseauniano e freudiano (ele é tão freudiano que chega a afirmar que Marinetti e Breton foram "os Freud de seus clãs"): o "fascínio da heresia" é resultado de "um exame cuidadoso de si mesmo". Gay compartilha essa visão otimista e positiva da subjetividade livre e contraditória do modernismo com boa parte da vertente crítica norte-americana (como, por exemplo, o historiador marxista Marshall Berman).

Por isso ele privilegia o expressionismo (assunto de outro livro clássico seu, sobre a cultura de Weimar) e seu subjetivismo radical ao racionalismo utópico da abstração construtiva —  e por isso também ele verá na arquitetura de Frank Gehry uma espécie de renascimento do expressionismo fantasista.

O impulso subjetivo, iconoclasta e autoexpressivo dos modernistas tem razão histórica: ele começa com o horror, o ódio de "família" (pois o modernismo aqui é tratado como uma família conflituosa) de Baudelaire e Flaubert à classe média (assunto também explorado no livro “O Século de Schnitzler”) e termina com a pop art e sua irônica e já bem posta apologia à cultura de massas. O obra é uma cartografia, um mapa, do surto herético-cultural, e de suas contradições, nos últimos 150 anos.

Isso é discutível? Não há dúvida (aliás, o que neste campo não é?). Mas essa visão permite a Gay ver coisas que geralmente são omitidas pelas leituras formalistas ou historicistas. Por exemplo, o papel desempenhado por investidores e galeristas na formação do cânone moderno (e, posteriormente, em sua desmontagem) e na recriação do sistema capitalista de arte depois da revolução modernista.

"É muito mais fácil exemplificar do que definir o modernismo." Esta é a primeira frase do estudo e é exemplar de seus impasses. Primeiro, por ser honesta. Segundo, por definir o livro-compêndio: ele exemplifica e, via Freud, tenta caracterizar o modernismo como um impulso (ou uma pulsão) da (anti)cultura, que forma um "estilo" (assunto este que o historiador explorou em um livro mais teórico, “O Estilo na História”). Pelo esquema de Gay, o pós-modernismo não é um conceito sério. Para ele, Damien Hirst ou Frank Gehry são modernistas (o que é muito questionável).

Esse "estilo" configura a pulsão da revolta. Por isso, ele pode resumir com precisão que "o modernismo foi uma dupla libertação psicológica, para os produtores e também para os consumidores da alta cultura". "Deu aos artistas a liberdade de levar a sério suas fantasias de insubordinação, de encarar com indiferença os cânones que por tantos séculos haviam ditado os temas e as técnicas, de decidir se era o caso de modificar —  ou, mais radicalmente, de derrubar —  os critérios vigentes, e que seriam eles a empreender a revolução."

Estou de acordo (a não ser pela ideia de libertar os "consumidores da alta cultura", pois me parece que a força do modernismo foi justamente acabar com a ideia da "alta cultura" em favor da cultura da revolução). Embora destaque bastante a importância de Marx para o "clima modernista", ele acha que seu favorecimento maior veio de Nietzsche. Creio que isto acontece porque para nosso historiador o modernismo é uma criação da "classe média esclarecida".

Peter Gay é eurocêntrico. Não tem a menor ideia da importância do modernismo na periferia. Isso só lhe aparece no final, quando irá tratar, com fascínio, da obra de Gabriel García Márquez e seu "realismo original": um Kafka na periferia do capitalismo (uma definição que Gay rejeitaria). Mas esse difícil reconhecimento do modernismo periférico é um "defeito" da maioria dos pensadores do centro da "civilização ocidental", o que aliás apenas demonstra o quanto a derrota do cosmopolitismo modernista é grave. Na também monumental obra “Art Since 1900”, os únicos artistas brasileiros citados são Hélio Oiticica e Lygia Clark, que aparecem apenas na sessão "arte não ocidental". Pelo menos o modernismo, mesmo que tardio, ensinou a Peter Gay que os latino-americanos são parte do mundo que a modernidade criou. 


Antonio Gonçalves Filho é jornalista, repórter do "Estadão".
Teixeira Coelho é professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Francisco Alambert é professor de História Social da Arte e História Contemporânea da USP.

 


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POR EM 06/06/2009 ÀS 05:30 PM

Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei

publicado em

Documentário dirigido a seis mãos por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal traça a trajetória impressionante do ex-cabo de exército, que reinou soberano e acabou condenado ao ostracismo por um delito que jurava inocência

Texto publicado originalmente no  Scream & Yell

Por vários ângulos, “Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei” é obrigatório. Seja para o simples apaixonado por música brasileira, ou para interessados nas histórias da repressão militar, ou para jovens (e por que não, velhos) jornalistas e, sobretudo, para aqueles que acreditam na justiça na Terra, o documentário dirigido a seis mãos por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal surge como fonte inesgotável de discussões que, por fim, talvez não valorizem devidamente o mais interessado: Wilson Simonal.

A história toda começa em agosto de 1971. Na verdade, a história começa bem antes, em 1961, quando lançado por Carlos Imperial, Wilson Simonal coloca nas lojas o álbum “Teresinha”. Em 1964, após ser apadrinhado por Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, o cantor já estava fazendo turnê pelas Américas do Sul e Central e no final da década era um dos poucos que rivalizava com o Rei Roberto Carlos. Seu auge aconteceu no final do IV Festival Internacional da Canção, em 1969, com Simonal regendo um coro de 20 (30, 40 ou 50 — depende de quem conta) mil pessoas no Maracanãzinho.

No auge da popularidade, o cantor se envolveu com um drama cujo principal perdedor foi ele mesmo. Segundo apresenta o documentário, Simonal pediu a dois policiais que dessem uma “prensa” em seu contador, que o estava processando após ser demitido pelo músico. A versão do cantor, porém, é que ele estava sendo roubado pelo contador, e a “prensa” era para que o contador assumisse o roubo. Segundo consta, os policiais a que Simonal teria pedido o serviço eram do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), e tudo foi feito seguindo o manual de tortura do órgão.

A história circulou o Rio de Janeiro, e caiu na boca da imprensa, principalmente na redação de O Pasquim, semanário de esquerda e oposição ao regime militar. Porém, o caso chegou todo desfigurado dando a entender que Wilson Simonal era um agente infiltrado do governo no cenário musical. Há uma versão — não esclarecida pelos documentaristas — de que o boato da ligação de Simonal com o DOPS partiu do então diretor da Central Globo de Comunicação, João Carlos Magaldi, que assim como outros atores e diretores da emissora, recebia serviços do mesmo contador de Simonal.

Em seguida, de um lado Simonal é acusado pelo Estado de espancamento, seqüestro e prisão de seu contador. Do outro, é acusado pela imprensa de esquerda como um informante do regime militar, a pior coisa que poderia acontecer a uma pessoa naquela época de guerrilha. Ou seja: o mundo todo estava contra o cantor. O Pasquim, principalmente na figura de Ziraldo e Jaguar, crucifica o cantor em tiras e cartuns. A carreira daquele que foi apontado por muitos como “o maior cantor do Brasil” estava aniquilada.

“Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei” é um ótimo documentário, que mesmo não cutucando o vespeiro da Rede Globo (será que saíram de lá mesmo os boatos?), se faz necessário não só para que o país abra os olhos (e ouvidos) para o grande artista que foi Wilson Simonal, mas também para que a sociedade atual perceba que muitas vezes aquilo que é noticiado ou não tem profundidade, ou não foi apurado corretamente ou está respondendo a interesses escusos do meio de comunicação que o divulga. Como diria Marshall Mcluhan, o meio é a mensagem.

Em certo momento da fita, Artur da Távola crava com sobriedade: “Vivemos em uma imprensa que toma o indício como sintoma, o sintoma como fato, o fato como julgamento, o julgamento como condenação e a condenação como linchamento”. O cartunista Jaguar (que assim como Ziraldo, recebeu uma indenização de mais de R$ 1 milhão e uma pensão mensal de R$ 4.375,88 referentes à indenização por perseguição política sofrida durante o regime militar brasileiro 1964-1985), por sua vez, não confirma em nenhum momento se apurou as acusações contra o cantor, e brinca: “Ele morreu de cirrose. Poderia ter sido eu”.

O trio de diretores não julga e nem absolve o cantor, embora deixe no ar que a “overdose de ostracismo” a que Simonal foi condenado pela opinião pública foi extramamente exagerada. Há a idéia de que, sim, ele errou, mas não por aquilo que muitos acreditaram, e acabou pagando um preço alto demais — que inclui o esquecimento da própria classe artística. A figura do contador poderia ser mais bem aproveitada na entrevista, e a opção por deixar apenas o áudio de sua esposa falando ao fundo é um dos poucos pontos contestáveis do longa, pois acaba valorizando uma passagem de sentimentalismo (pois mais verdadeira que ela venha a ser), que acaba tirando o foco do depoimento do marido.

Tirando tudo isso, se “Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei” fosse só a primeira meia-hora, que trata sobre o imenso sucesso do cantor, que acompanhou a seleção canarinho no México, em 1970 (e quase foi convocado — hehe) e estrelou dezenas de comerciais, já valeria a pena. Na verdade, se fosse só por recuperar o dueto com Sarah Vaughan transmitido pela TV Tupi em 1970 (que você pode assistir no youtube aqui, mas que se eu fosse você guardava para se emocionar no cinema) já seria de grande valia. Porém, o documentário vai além. Ele transcende a música, o jornalismo e a História e mostra que somos (eu, você, nossos vizinhos) responsáveis pelo país em que vivemos, e culpados por muitas das injustiças que acontecem nele. Como a que aconteceu com Wilson Simonal. Assista e reflita. Nem vem que não tem.
 


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