revista bula
POR EM 22/05/2009 ÀS 06:28 PM

Sete pecados geniais

publicado em

 

 

...O Homo Sapiens é o único animal que sente culpa. Grande parte de seus esforços evolutivos foram gastos na arte de criar, hierarquizar e desenvolver motivos para se sentir culpado. Via de regra o agente causador da culpa é o pecado. Sejam mortais, veniais ou capitais. Cada qual com sua especifica carga religiosa, sexual ou ética. E seu devido peso nos diversos tribunais pós-morte. Estes pecados podem ser frutos de tentação, curiosidade ou impulsão, não importa; a questão é que produzem culpa e culpados. E desta combinação se pensa extrair a ética.
   
 Acho, porém, que o fator negativo de um pecado depende muito do ponto de vista pelo qual é encarado. Os pecados de Pandora, Prometeu, Adão e família, Judas Escariotes e mesmo de Lúcifer, foram, em um sentido metafísico, partes de planos maiores. Do mesmo modo, sempre procurei imaginar quais pecados foram cometidos pelas figuras colocadas no limbo por Dante. Com certeza pecados dignos dos homens brilhantes que foram. Geniais pecados, pensei. Principalmente porque preservaram suas consciências.
    
Acredito que pecar é um direito do ser humano. Manipular o pecado é um direito do ser humano bem pensante. Por isso criei o que chamei de os Sete Pecados Geniais, como forma de defender-me contra a lógica pobre da culpa. Faço o errado se tornar correto, apoiado em três simples motivos: acredito, desejo e mereço. O Pecado Genial serve para proteger os interesses e o espírito livre do pecador. Não é específico, como não matar ou não roubar. Muda segundo a estação e a necessidade. E mesmo o número de sete é maleável, serve apenas como licença poética e referência cabalista. 
    


leia mais...
POR EM 01/05/2009 ÀS 12:40 PM

Ernesto Sábato, autor de "Sobre Heróis e Tumbas"

publicado em

"Cuando la literatura se vuelve peligrosamente literaria, cuando los gran creadores san suplantados por manipuladores de vocablos, cuando la gran magia se convierte en magia de music-hall, sobreviene un impulso vital que la salva de la muerte"

 Ernesto Sábato

Texto publicado originalmente no Liberal, Libertário, Libertino.

Em geral, não acredito em amor à primeira vista. Nem por mulheres, nem por livros. Atualmente, estou lendo, e me deliciando, e me perdendo, em “Sobre Héroes y Tumbas”, de Ernesto Sábato (Argentina, 1961). Com certeza, ainda vou escrever mais sobre esse livro, ao mesmo tempo épico, filosófico, sensível, excitante, apocalíptico. Sem dúvida alguma, um dos grandes romances do século XX.

Agora, quero apenas contar como cheguei a ele. Li, faz muito tempo, uma resenha sobre um livro de ensaios de Sábato, falando sobre escritores e literatura. Fiquei interessado, não me lembrava bem do nome. Estava na biblioteca da PUC, mandei baixar todos os livros do Sábato. Tinham dois: “Sobre Héroes y Tumbas” e “El Escritor y sus Fantasmas”. Comecei a folheá-los. Rapidamente, ficou claro que era o segundo que eu procurava, que aliás já li e também adorei.

Mas “Sobre Héroes y Tumbas” me pegou na primeira página. Foi só ler e ficar preso. Já estudei essa primeira página cuidadosamente centenas de vezes, encantado com cada palavra, com cada mistério, com cada insinuação. Acho que não existiria força na terra capaz de me impedir de ler um livro que começasse com uma página de abertura como essa:

"Noticia Preliminar”

Las primeras investigaciones revelaron que el antiguo Mirador que servía de dormitorio a Alejandra fue cerrado con llave desde dentro por la propia Alejandra. Luego (aunque, lógicamente, no se pueda precisar el lapso transcurrido) mató a su padre de cuatro balazos con una pistola calibre 32. Finalmente, echó nafta y prendió fuego.

Esta tragedia, que sacudió a Buenos Aires por el relieve de esa vieja familia argentina, pudo parecer al comienzo la consecuencia de un repentino ataque de locura. Pero ahora un nuevo elemento de juicio ha alterado ese primitivo esquema. Un extraño "Informe sobre ciegos", que Fernando Vidal terminó de escribir la noche misma de su muerte, fue descubierto en el departamento que, con nombre supuesto, ocupaba en Villa Devoto. Es, de acuerdo con nuestras referencias, el manuscrito de un paranoico. Pero no obstante se dice que de él es posible inferir ciertas interpretaciones que echan luz sobre el crimen y hacen ceder la hipótesis del acto de locura ante una hipótesis más tenebrosa. Si esa inferencia es correcta, también se explicaría por qué Alejandra no se suicidó con una de las dos balas que restaban en la pistola, optando por quemarse viva.

[Fragmento de una crónica policial publicada el 28 de junio de 1955 por “La Razón” de Buenos Aires.]

Um pequeno mistério

No meu exemplar, a frase "terminó de escribir la noche misma de su muerte" é "terminó de escribir afiebradamente la noche misma de su muerte". Estudei tanto essa página que cheguei até a arrumar uma tradução brasileira só pra ver como era. E, nela, faltava justamente esse "afiebradamente" (febrilmente) que também falta nessa versão on-line que arranjei.

Pra onde foi esse adjetivo? De onde veio?

”Sobre Héroes y Tumbas” foi recentemente publicado em uma dessas coleções de livros de banca em capa dura. Se ficaram interessados pela amostra, procurem, encontrem, leiam e se deliciem.

Ernesto Sábato: A minuciosidade do relojoeiro louco

Estou mergulhado na leitura da obra de Ernesto Sábato, que já ocupa, merecidamente, lugar de destaque na minha lista de autores preferidos. Em “Abaddón El Exterminador”, ele define assim o ofício de escritor:

"Sentía la ridiculez de su minuciosidad como la de un relojero loco que trabajara con meticulosa paciencia en un reloj que finalmente marcará las tres y doce minutos al mediodía."

Li sua obra-prima, “Sobre Héroes y Tumbas”, em abril e maio desse ano. Cheguei ao livro por pura coincidência. E foi uma leitura avassaladora: me senti mareado, sobrepujado, maravilhado, confuso. Sobretudo, confuso. Também já escrevi sobre esse lado obscuro da obra de Sábato.

Tanto me apaixonei que comprei sua obra completa ficcional. Não é muita coisa. Um romance curtinho, “El Túnel”, e outro mais longo, “Abaddón El Exterminador”, nenhum disponível em português.

Fazendo uma péssima, mas conveniente comparação, “El Túnel” é “The Hobbit”. Primeira obra simpática, sem falhas mas sem brilho, excelente introdução, não empolga mas já deixa entrever o toque de gênio. “Sobre Héroes y Tumbas” é obra-prima indispensável, como o próprio “The Lord of the Rings”. E “Abbaddón El Exterminador” é “The Silmarillion”, excelente, mas cheios de piadas internas, só mesmo para quem adorou as obras-primas e quer mais, mais, mais.

A obra de Sábato é das poucas nas quais sinto vontade de mergulhar. Não consigo me impulsionar a fazer um mestrado em Literatura pois não consigo imaginar nenhuma obra (exceto a Bíblia) que mereça tamanha dedicação. Agora tenho a de Sábato.

El Tunel (1948)

”El Túnel”, seu primeiro romance, é a história do pintor Castel, um homem lógico e racional que, tomando decisões lógicas e racionais, acaba cometendo um terrível crime. Aparentemente (tudo com Sábato é aparentemente), o objetivo do autor, que acabara de abandonar uma carreira na lógica física para embarcar em uma aventura literária, era justamente denunciar os limites do raciocínio lógico, desse progresso tecnológico do ocidente.

Sobre Héroes y Tumbas

Menos de três meses depois de lê-lo pela primeira vez, estou relendo “Sobre Héroes y Tumbas” (1961). Raramente releio livros —um dos poucos livros que reli foi, justamente, “The Lord of the Rings” — ainda menos assim tão pouco tempo depois de lê-los, mas “Abaddón El Exterminador” abriu novas perspectivas retroativas que quero explorar.

”Sobre Héroes y Tumbas” é daqueles romances enormes, majestosos, enciclopédicos. Ele atiça a curiosidade do leitor com uma tragédia de tablóide, começa como uma simples história de amor, entra cada vez mais na questão da identidade nacional latino-americana e, antes que você perceba, já está mergulhado em discussões sobre a natureza do mal e em uma sensacional conspiração secreta que ameaça o mundo.

Depois de ler Abaddón, confesso que entendi “Sobre Héroes y Tumbas” todo errado. Por isso, estou relendo.

Romance do não-dito

”Sobre Héroes y Tumbas”, assim como o meu “Mulher de um Homem Só”, é um romance elíptico, um romance do não-dito. O tema do romance, na verdade, está sempre escondido, sempre um passo sombras adentro. Diz o autor: "Tuvo la intención de hacer una novela en que el personaje central brillase por su ausencia."

A literatura é um jogo para iniciados e Sábato me atraiu direitinho para sua arena. Meu “Mulher de Um Homem Só”, se você desce abaixo da epiderme, pode ser considerado um livro difícil, mas acho que dá pra todos os meus joguinhos e armadilhas serem compreendidos em uma primeira leitura cuidadosa. Está tudo lá: fui elíptico, mas joguei limpo. Sábato, sei não. As coisas que estou percebendo agora, na releitura de “Sobre Héroes y Tumbas”, eu jamais teria percebido em uma primeira leitura.

Outro romance do não-dito é o maravilhoso “Aquele Rapaz”, de Jean-Claude Bernadet, sobre o qual também escrevi. Aquele Rapaz, assim como “Mulher de Um Homem Só”, é curtíssimo. A coragem que requer escrever um romance elíptico de 600 páginas é espantosa. Não foi à toa que Sábato demorou treze anos para finalizá-lo.

Abaddón El Exterminador

Tinha tudo para eu não gostar. Por princípio, repudio livros narrados por escritores. É um recurso fácil demais. Parece uma daquelas infinitas seqüências de espelhos: escritores escrevendo sobre escritores escrevendo sobre escritores.

Pois “Abaddón El Exterminador” é estrelado pelo próprio Ernesto Sábato, autor de dois livros, e constantemente assediado por perguntas idiotas sobre “Sobre Héroes y Tumbas”.

"Me preguntam seriamente si de verdad Alejandra se quemó o se dejó quemar viva em ese Mirador, y me miran como a um mentiroso cuando les aclaro que esa muchacha ni siquiera existió, sino sólo en mi imaginación. Y, cuando tengo paciencia o el interlocutor me despierta simpatia por la buena fe con que hizo la pregunta, le respondo: "Si un escritor no es capaz de crear un personaje que parezca haber existido de verdad, es mejor que se dedique a otro oficio, habiendo tantos trabajos honestos y menos dolorosos, como el de carpintero o mecánico."

Na contracapa, alguém do “Le Figaro” descreve “Abaddón El Exterminador” como "vasta novela onírica, visionária e profética", ou seja, também não conseguiram descrever.

Abaddón mistura torturas da época da chumbo argentina com misticismo apocalíptico, depoimentos pretensamente biográficos de Sábato com cenas da vida de Che Guevara.

Em um dado momento, no melhor estilo kafkiano, Sábato se transforma em um morcego, mas ninguém vê, ninguém percebe sua monstruosa transformação e ele "decidió tratar de vivir de cualquier manera, guardando su secreto, aun en condiciones tan horrenas. Porque el deseo de vivir es así: incondicional e insaciable."

Nas primeiras páginas, eu fiquei perdido de tanto nome estranho e referência esotérica, mas depois você pega no tranco. Ter lido os outros dois romances é fundamental. Tê-los lido logo antes ajuda muito. Em suas andanças por Buenos Aires, Sábato ainda acaba esbarrando em muitos personagens dos romances anteriores. Surreal.

Três do Sábato

"Ser original es en cierto modo estar poniendo de manifiesto la mediocridad de los demás."

"Hay una manera de contribuir a la protección de la humanidad, y es no resignarse."

"El mundo nada puede contra un hombre que canta en la miseria."

Trechos Selecionados

O escritor entra em seu escritório:

"Decenas de personajes esperaban en aquellos recintos como esos réptiles que duermen catatónicamente durante las estaciones frías, con una impercptible y sigilosa vida latente, prontos para atacar con su veneno en cuanto el calor los devuelve a la existencia plena."

Sobre a arte:

"Cuando la literatura se vuelve peligrosamente literaria, cuando los gran creadores san suplantados por manipuladores de vocablos, cuando la gran magia se convierte en magia de music-hall, sobreviene un impulso vital que la salva de la muerte. Cada vez que Bizancio amenaza terminar con el arte por exceso de sofisticación, son los bárbaros los que vienen en su ayuda: los de la periferia, como Hemingway y Faulkner, o los autóctonos, como Céline, monstruos que entran a caballo, con sus lanzas ensangrentadas, en los salones donde marqueses empolvados bailan el minué. (...)

Cada día menos suporto la frivolidad en el arte, y sobre todo cuando se lo mezcla con la Revolución. (Observá, de paso, que las palabras suelen empezar en mayúscula, la triste experiencia las rebaja a la minúscula, para terminar finalmente entre comillas.) (...)

Como esos otros que a cada once años (deben de ser las manchas solares) vuelven a descubrir las minúsculas y se creen unos genios bestiales porque publican un cuento sin mayúsculas ni signos de pontuación. (...) Cada semana surge uno de esos hemofílicos, que inevitablemente viene a desmistificar el lenguaje, y que en serio cree hacerlo con páginas en blanco que ya intuyó Sterne en el siglo XVIII y juegos gráficos ya gastados por Apollinaire.

Una vez se hicieron 27 sonetos sobre la (hipotetica) muerte de un loro. Una actividad que es al gran arte como los fuegos de artificiales al incendio de un orfanato. Musique de table, nada que perturbara la digestión. La gravedad era ridicularizada, el ingenio suplantava al genio, que siempre es de mal gusto. (...)

Los grandes desventurados del arte, como Van Gogh, sufrieron el castigo de la soledad por su rebeldía mientras eso seudorrebeldes son mimados por las revistas especializadas, viven faustosamente a costa del pobre burgués que insultam y fomentados por esa sociedad del consumo que pretenden combatir y de la terminan siendo sus decoradores. (...)

El dilema no es entre literatura social y literatura individual. El dilema está entre lo grave y lo frívolo. Cuando mueren niños inocentes bajo las bombas en el Vietnam, (...) comprendo que se clame contra cierto tipo de literatura... Pero contra cuál? (...) Debe tenerse cuidado de no repudiar a los grandes y desgarrados creadores que son el más terrible testimonio del hombre. Porque también ellos luchan por la dignidad y la salvación. (...) Son los grandes testigos de su tiempo. (...) Hombres que un poco sueñam el sueño colectivo, espresando no sólo sus ansiedades personales sino las de la humanidad entera. (...)

Un crítico alemán me preguntó por qué los latinoamericanos teníamos grandes novelistas pero no grandes filósofos. Porque somos bárbaros, le respondi, porque nos salvamos, por suerte, de la gran escisión racionalista. Como se salvaron los rusos, los escandinavos, los españoles, los periféricos. Si quiere nuestra Weltanschauung, le dije, búsquela en nuestras novelas, no en nuestro pensamiento puro."

Saramago e a crença implacável de Sábato na razão

Ainda não consegui ler nenhum livro de José Saramago. Comecei, achei chato, parei. Isso não faz dele um mau escritor. Mas José Saramago se diz comunista. Isso, com certeza, faz dele uma besta quadrada. Essa semana, ele confirmou essa impressão.

Em um congresso sobre a língua espanhola, em Buenos Aires, ele elogiou a implacável crença de Ernesto Sabato na razão. Do “Clarín”:

"Sabato, de 93 años, fue recibido por un auditorio que lo aplaudió de pie y que desbordó las instalaciones del Teatro El Círculo. Ante tanta ovación, el escritor no pudo contener las lágrimas, se puso de pie y agradeció con gesto emocionado.

El escritor José Saramago, designado para recordar la trayectoria de su colega argentino, dijo haberse topado por primera vez con "El Túnel" en "las postrimerías de los años 50, en un desaparecido café de Lisboa, donde me reunía con amigos para hablar de libros en voz alta, y de política en voz baja".

El autor portugués llamó a Sabato "mi hermano mayor", y resaltó su "implacable creencia en la razón. Entre el temor y el temblor en que nuestras vidas discurren, la tuya no podía ser una excepción. Alguien, que siendo tan humano, se niega a absolver su propia historia. Alguien que, asimismo, no se perdonará nunca su condición de hombre", señaló."

Passei uns quatro meses exclusivamente lendo e relendo a obra de Sábato. Não sou nenhum expert, mas sei o suficiente para afirmar: Sábato, doutor em física, abandonou a ciência e se dedicou à literatura justamente por sua implacável descrença no poder da razão humana.

Naturalmente, alguém capaz de olhar em volta e achar que o comunismo é uma boa idéia para resolver os problemas da humanidade também é alguém incapaz de ler um texto direito.

Não precisam confiar na minha palavra, não. Leiam um trecho de “Antes del Fin”, testamento literário de Ernesto Sábato:

"Toda consideración abstracta, aunque se refiera a problemas humanos, no sirve para consolar a ningún hombre, para mitigar ninguna de las tristezas y angustias que puede sufrir un ser concreto de carne y hueso, un pobre ser con ojos que miran ansiosamente (¿hacia qué o habia quién?), una criatura que sólo sobrevive por la esperanza. Porque felizmente el hombre no está sólo hecho de desesperación sino de fe y de esperanza: no sólo de muerte sino también de anhelo de vida; tampoco únicamente de soledad sino de momentos de comunión y de amor.

Porque si prevaleciese la desesperación, todos nos dejaríamos morir o nos mataríamos, y eso no es de ninguna manera lo que sucede. Lo que demuestra la poca importancia de la razón, ya que no es razonable mantener esperanzas en este mundo en que vivimos. Nuestra razón, nuestra inteligencia, constantemente nos está probando que ese mundo es atroz, motivo por el cual la razón es aniquiladora y conduce al escepticismo, al cinismo y, finalmente, a la aniquilación.

Pero, por suerte, el hombre no es casi nunca un ser razonable, y por eso la esperanza renace una y otra vez en medio de las calamidades. Y este mismo renacer de algo tan descabellado, tan sutil y entrañablemente descabellado, tan desprovisto de todo fundamento es la prueba de que el hombre no es un ser racional.

Y así, apenas los terremotos arrasan una vasta región del Japón o de Chile, apenas una gigantesca inuncación liquida a centenares de miles de niños en la región de Yang Tze, apenas una guerra cruel y, para la insmensa mayoría de sus víctimas sin sentido, como la Guerra dde los Treinta Años, ha mutilado y torturado, asesinado y violado, incenciado y arrasado a mujeres, niños y pueblos, y a los sobrevivientes, los que sin embargo asistieron, espantados e impotentes, a esas calamidades, de la naturaleza o de los hombres, esos mismos seres que en aquellos momentos de desesperación pensaron que nunca más querrían vivir y que jamás reconstruirían sus vidas ni podrían reconstruirlas aunque quisieran, esos mismos hombres y mujeres (sobre todo mujeres, porque la mujer es la vida misma y la tierra madre, la que jamás pierde un último resto de esperanza), esos precarios seres humanos ya empiezan de nuevo, como hormiguitas tontas pero heroicas, a levantar su pequeño mundo de todos los días: ese mundo pequeño, es cierto, pero por eso mismo más conmovedor.

De modo que no eran las ideas las que salvaban al mundo, no era el intelecto ni la razón, isno todo lo contrario: aquellas insensatas esperanzas de los hombres, su furia persistente para sobrevivir, su anhelo de respirar mientras sea posible, su pequeño, testarudo y grotesco heroísmo de todos los días frente al infortunio.

Y si la angustia es la experiencia de la Nada, algo así como la prueba ontológica de la Nada ¿no sería la esperanza la prueba de un Sentido Oculto de la Existencia, algo por lo cual vale la pena luchar? Y siendo la esperanza más poderosa que la angustia (ya que siempre triunfa sobre ella, porque si no todos nos suicidariamos) ¿no será que ese Sentido Oculto es más verdadero, por decirlo así, que la famosa Nada?"

Agora, me digam: esse homem tem uma crença implacável na razão? Quem é maluco, Saramago ou eu?
 


leia mais...
POR EM 16/03/2009 ÀS 09:48 PM

As confissões de João Antônio

publicado em

Em se tratando de literatura brasileira, o sujeito que achar que sabe alguma coisa, ou que acreditar na glória literária, é um puro e simples idiota, é um otário

 

Leia a transcrição inédita de uma conferência do escritor João Antônio, em dia incerto, de Julho de 1994, dois anos antes de sua morte. Convidado a falar sobre a poética existente em sua produção literária, João Antônio não se limitou ao tema. Falou de sua vida pessoal, seu gosto pela literatura, sua paixão por Noel Rosa, as influências de Graciliano Ramos e Hemingway. Também fez incursões pela marginalidade e pelo sistema literário de Antonio Candido com o tripé: autor-obra-público, explorando, de um lado, a existência de excelentes autores, convivendo em uma mesma época, e de outro, a falta de um público leitor formado. Morreu em 31 de outubro de 1996. Morava sozinho e seu corpo só foi encontrado quinze dias depois.
 
(Carlos Willian Leite) 
 
 
Nascido em uma família de pequenos comerciantes do subúrbio de São Paulo, João Antônio trabalhou em empregos mal remunerados antes de lançar seu primeiro livro de contos, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, em 1963, sucesso imediato de público e crítica. Já na sua primeira obra, João Antônio ganhou dois prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos) A dupla premiação no Jabuti foi um feito inédito para um escritor estreante. A história da feitura deste livro mereceria um romance. Os originais da obra foram destruídos em 1960 no incêndio da casa da família do escritor, que deixou a ele e sua família só com a roupa do corpo. João Antonio refugiou-se então numa cabine da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e reescreveu todos os contos, de memória. Traduzido e publicado em países da América e Europa, alguns livros foram alvos de teses de mestrado e doutorado na Alemanha, Holanda e Itália . Publicou 15 livros, mas sempre se recusou a participar de cerimônias e de se vincular a grupos e academias literárias. Morreu em 31 de outubro de 1996. Morava sozinho e seu corpo só foi encontrado quinze dias depois.
 
 
*Texto transcrito na íntegra, de uma paletra na UNESP
 
Eu acho que vai haver aqui, um problema de tempo. Conversa com João Antônio, é sempre conversa pra uma semana, até porque eu tenho tido um estilo elíptico de pensar, pelo menos quando eu expresso, quando eu verbalizo o meu pensamento. Eu queria transformar essa minha conversa com vocês, muito mais em perguntas e respostas, do que exatamente uma dicção linear minha. Me foi aventado um problema do qual eu tenho falar que é a presença de uma poética dentro da minha ficção, da minha prosa de ficção. Eu sou muito interessado nessa coisa de arte poética.
 
Inicialmente, eu gostaria de transformar essa nossa conversa em duas homenagens: uma a um grande músico, que é um dos grandes músicos brasileiros de todos os tempos, infelizmente muito mal conhecido, porque este país é especialista em desconhecer, e até assassinar culturalmente seus melhores filhos. Eu estou falando do maestro Ascendino Theodoro Nogueira, um dos músicos mais respeitados do Brasil, dentro da classe musical, mas que infelizmente não é conhecido neste país. E em segundo lugar eu queria também prestar uma homenagem a um homem que foi fundamental como peça pioneira, inovadora, revolucionária, dentro deste tema sobre o qual eu pretendo falar alguma e que dizem aí que eu entendo alguma coisa. Trata-se de Antônio Fraga, autor de uma novela chamada Desabrigo, pouco conhecida, muito mal distribuída, foi produzida em 1942, é uma novela curtíssima, mas na época criou uma repercussão enorme, até em homens como, por exemplo, Oswald de Andrade. O Fraga morreu recentemente e eu talvez tenha sido o único jornalista brasileiro a escrever sobre ele.
 
É uma figura muito curiosa porque é um autodidata, foi expulso de casa logo cedo, filho de pais pobres, nascido no centro do Rio de Janeiro, viveu no Mangue, que era a área de prostituição mais rampeira da cidade, e também mais cosmopolita, que fazia conviver desde marinheiros do mundo inteiro, com mulheres que vinham da Polônia, judias polacas ou polacas judias. Então se formou, inclusive do ponto de vista da linguagem, um elemento muito forte que o Fraga soube aproveitar.
 
Um indivíduo que formou em plena ditadura de Getúlio, um grupo chamado / inaudível / reunindo artistas, músicos, inclusive matemáticos; ele próprio era um estudioso de matemática. Esse homem talvez seja a maior expressão, no meu pobre entender, de uma literatura feita com altíssimo nível de elaboração estética, uma obra aparentemente popular, mas sofisticadíssima. Ele era autodidaticamente um filólogo e um lexicógrafo, provavelmente tenha sido em língua portuguesa falada no Brasil, o primeiro homem a usar a elisão “né” para “não é”, e também foi quem inaugurou entre nós, a expressão “Rio conflagrado” para o Rio que estão vendo aí. A diferença do Fraga para os outros intérpretes do “lumpem proletariado”, como se chama nas universidades, ou da ralé ou do merdunchado como eu prefiro dizer é que, Fraga tem uma visão de dentro para fora e não de fora para dentro.
 
Excetuando-se Lasar Segall, o pintor que freqüentou o mangue com um comprometimento muito maior, o restante, inclusive alguns nomes admiráveis, e admiráveis por mim como Oswald de Andrade, que fez Santeiro do Mangue, como o próprio Vinícius de Moraes, que fez a Balada do Mangue e outros que escreveram sobre o Mangue, iam ao Mangue com olhos e com uma visão de turistas, eles não tinham um comprometimento. E os senhores hão de convir, a literatura não é feita nem só de sentimentos, nem só de palavras; a literatura é feita principalmente de sangue, carne, paixão, vida. A literatura é uma expressão da vida, ela é uma conseqüência, ela em si mesma não cria coisíssima alguma, em se tratando de Literatura e Marginalidade.
 
Nós usamos na nossa gíria, muitas expressões que sequer brasileiras, são lunfardia ou lunfardo, que é a fala da boca em Buenos Aires. Há expressões na nossa gíria como “mina”, como “grana” que não são como “mango”, que não são expressões nacionais, elas atravessaram as fronteiras e chegaram ao Brasil. Então, a mistura disso tudo pode dar um resultado muito poético...se a linguagem é a expressão do pensamento, há um pensamento poético de certa forma nesse lupensinato ou nessa ralé, inclusive, com algumas sofisticações de linguagem e de sintaxe. Eu vou dar um exemplo claro aqui; é muito comum na malandragem de hoje, se dizer o seguinte – “Está ruim para malandro”, quer dizer, o pronome “até”, aliás o advérbio “até” está oculto, vocês vêem que há uma estranha sofisticação nisto tudo. Quando vocês virem aparecer em fala de malandragem ou de marginalidade a presença de alguns termos jurídicos, por exemplo, “picardia” é tirada da linguagem jurídica, é porque ninguém conhece mais a jurisprudência da vadiagem ou dos costumes ligados à contravenção .
  
Eu me lembro bem de um dia desses, um sujeito que trabalha para os donos do bicho foi pedir um crédito bancário e, na hora de dizer a profissão ele diz assim: “eu sou comerciante”. “Mas você não é comerciante, você não é estabelecido com nada”. “Então ponha contraventor”, é a mesma coisa. Mas isso aparentemente foi uma gaiatice que ele fez, ele sabe que pode se declarar contraventor porque não existe lei que o incrimine, a contravenção não é um crime, ela é contravenção da nossa lei.
 
Bom, vocês querem que eu fale um pouco do meu trabalho. A minha formação foi uma formação realmente rueira. Eu sempre tive certa alergia consciente pelos saberes da classe média. Eu não me dou com classe média, quer dizer, hoje eu sou um pingente da classe média, sou carona. Evidentemente que eu me visto como classe média, moro como classe média, vivo de certa forma uma vida econômica de classe média, mas eu não consigo sentir não é, simpatia que esta talvez nunca vá sentir, mas não consigo sequer sentir um pouco de respeito pelos valores da classe média. É um problema meu, eu fui criado assim, com gente assim, não dá para pensar de outra maneira.
 
Eu realmente me deleito muito mais com música do que com outras artes. Eu fui criado em roda de choro, posteriormente de samba, convivi com músicos que ficavam discutindo na minha frente aos meus oito, dez anos, problemas de harmonia. A presença de Noel Rosa na minha vida é muito forte. Ela chega por volta de 1952/54 através do rádio, aquilo era muito forte. A marcação com que essa gente vincava o meu mundo, vamos dizer, de criação artística, era muito grande; eu sempre tive assim diante da figura do Noel, uma identidade enorme, embora houvesse uma diferença, Noel morreu em 37, eu nasci em 37. Quer dizer, mas havia uma transubstanciação do sentido humano, da força de expressão, da beleza, principalmente de um sentido trágico e irônico da vida que se uniam a mim.  

Nós éramos favelados, os meus pais já haviam ido, tangidos pela fome, para São Paulo, porque não conseguiam viver em seus locais de origem. Aquela gente correu da crise de 29 para não morrer de fome, bateu em São Paulo. Então, é uma coisa; aqueles ambientes que eu vi quando criança; eu cheguei a ver cenas de alcoolismo, por exemplo, de brutalidades e espancamento, como eu só viria, depois, no Gorke. Então as manifestações de arte para mim, principalmente o cinema, eram bobagens. O rádio era outra besteira, eu olhava tudo aquilo com sorriso de ironia no canto da boca, porque aquilo não era vida, não era nada, aquilo era uma engabelação, aquilo não tinha nada a ver com nada, aquilo era uma conversa pra boi dormir. Somente a literatura mereceu de mim um respeito como arte. Através de alguns autores que eu tive a grande sorte de conhecer logo cedo, como foi o caso do Graciliano Ramos e Hemingway, que durante algum tempo foi moda no mundo inteiro, pelo menos no mundo ocidental. 

Eu não estou fazendo um louvaminho ao povo brasileiro não. Mas, eu sempre digo, se o Dom Luis Buñuel, o cineasta espanhol, mais o Goya, o pintor espanhol viessem ao Rio de Janeiro, por exemplo, diria: “Olha”, eu não sei nada, a minha força de expressão acaba aqui, o Dom Luis Buñuel se viesse ao Brasil, ele acabava acreditando em Deus, porque isso aqui é tão realmente surrealista em todos os aspectos, em virtudes e fracassos.
 
A música popular brasileira, é a mais rica do mundo. A nossa literatura capenga ou não, a verdade é que ela conseguiu ter ao mesmo tempo cinco ou seis grandes poetas de nível internacional na mesma época. Ela teve por exemplo ao mesmo tempo Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Murilo Mendes, Dante Milano, Cecília Meireles, só aí eu já falei seis. São raríssimos os países tidos e havidos como desenvolvidos, primeiro mundistas, civilizados e tal, que tenham três bons grandes poetas numa época só. Eu não falei todos, eu ainda não falei Jorge de Lima, eu não falei João Cabral. Então veja bem: agora nós não tivemos foi a capacidade de criarmos um público leitor e ledor desses valores, desses produtos culturais.
 
Eu não gosto muito dessa expressão “produto cultural”, mas é a que uso aqui. Então nós não temos nada que andar de cabeça baixa, diante dos saberes artístico aí do mundo. Porque nós temos um potencial criador muito grande. O que nós não conseguimos ainda, enquanto estado, enquanto governo, foi transformar essa produção toda, em algo que seja realmente democrático, que seja realmente democrático, que seja realmente possível a todos os cidadãos, porque também, segundo Antonio Candido, o maior crítico literário desse país, uma literatura só existe se ela consegue, além de ter produtores culturais, além de ter seus autores, ter um público. É necessário isso, é fundamental; não existe literatura nenhuma que tenha produtores culturais e não tenha público. Nós vivemos aqui, num país colonizado, recolonizado da maneira mais calhorda possível. Nas mãos aí dessa porcaria chamada mass mídia. Essa expressão mídia não se escreve assim, também não se pronuncia muito assim, e não quer dizer nada disso
 
Eu não tenho desprezo por nenhuma classe trabalhadora. Logo, não poderia ter, pela classe universitária, pelos professores, pelos docentes universitários, ou até pelos teóricos em literatura. Eu sempre tenho dito o seguinte: essa gente nunca me fez mal, essa gente nunca me mordeu, e nem me tirou pedaços, porque houve uma época em que se dizia que eu era contra os intelectuais, eu achava que tudo era elitismo. Eu tenho uma resposta para estas pessoas: eu não sou elitista, eu sou super elitista. Eu só gosto do que é melhor em tudo, desde música, desde pintura até o arroz com feijão. Agora, tem que ser o melhor. Já que uma coisa merece ser feita, há de ser bem feita. Por mais que se trabalhe com gíria, com fala popular, com lupenzinato, tem que haver arte aí, tem que haver um jogo de cintura, tem que haver uma armação, tem que haver texto, elaboração, o texto brasileiro tem a obrigação de ser um belíssimo texto. Os fundadores de nossa literatura, Gregório de Matos Guerra e depois Machado de Assis, ultrapassaram a qualidade do português escrito em Portugal. Eu já dei dois exemplos: Gregório de Matos e Machado de Assis. Quem dera se em Portugal tivesse um prosador do naipe de Machado. Então quem vai escrever nesse país, não pode fugir ao seu passado, nós temos um passado de altíssima qualidade e não podemos fazer produtos mal feitos agora. Essa exigência é útil, até mesmo para a clareza de expressão, para que você faça alguma coisa bem feita, antes de tudo, tem que ser bem clara, ela tem que ficar evidente ou pelo menos, conduzir ao pensamento. O Fraga na sua novela "Desabrigo", não usa pontuação nenhuma. Apenas joga de vez em quando uma maiúscula para indicar que é a abertura de parágrafo. Uma revista idiota de São Paulo chamada Isto é fez uma matéria imbecil sobre o Fraga com o título “Joyce do Mangue”, não tem nada a ver, Antônio Fraga, Antônio Fernandes Fraga com James Joyce, são autores completamente diferentes, com objetivos diferentes, vivendo realidades diferentes. 
 
Ele usa ausência de pontuação para que o leitor preste atenção naquilo que ele escreve, para que seja impossível ao leitor fazer a execrável leitura dinâmica. A coisa mais abjeta, a coisa mais lamentável, que ofende mais um escritor de verdade, é que se faça leitura dinâmica de um texto dele, isso é horroroso, tá entendendo? Porque ele não produziu para isso, ele não tá escrevendo bula de remédio, nem texto de propaganda. Eu não tenho nenhum desprezo pelos autores de bulas de remédios, que são trabalhadores iguais aos outros e pelo pessoal da publicidade, que tem gente muito inteligente, fazendo publicidade; mas o texto literário tem outra função, ele pretende, ele intenciona levar à reflexão, inclusive à reflexão estética, ao prazer estético. É por isso, às vezes, na minha frase, no meio da frase, eu procuro de propósito fazer o leitor parar para pensar. Eu de certa forma, quando uso gíria, eu jogo logo em seguida uma sinonímia, para que o leitor possa sentir.
 
Eu acho que há coisas que não se aprende na escola. O meu tipo de fazer literário não se poderia ser aprendido nem na igreja e muito menos, na escola. Então, eu tive que aprender a fazer isso fazendo as minhas misturações autodidatas, conversando muito e vendo muito. “Malagueta, Perus e Bacanaço”, já estava pronto em 1960, eu era um garoto, um menino.
 
O Fraga disse uma vez “tudo na vida tem um contingente, tem uma ilação, tem um desdobramento possivelmente literário”. Quem diz literário, diz musical, diz artístico. Eu quero principalmente ao passar essa visão dessa marginalidade, por mais realista que seja entre aspas, eu quero passar um pouco desse sabor que essa gente tem. Não é modéstia minha, nem oportunismo, dizer o seguinte, que se por exemplo, “Dedo-Duro” ou “Guardador”, ou “Malagueta, Perus e Bacanaço”, ou “Zicartola”, se esses são livros brilhantes e traduzidos, filmados e estudados, não sou eu que sou brilhante, brilhantes são os meus personagens. Mas como eles são brilhantes! Acontece que a maioria não vê. Azar da maioria. Eu vejo essa gente com uma sabedoria tremenda, com um senso poético fora do comum. Vocês peguem, por exemplo, Cartola, é absolutamente inexplicável. Não se explica que um crioulo, lavador de carro, ajudante de pedreiro, semi-analfabeto, como Cartola, tenha tal elegância, tal economia e principalmente sabedoria de vida, é impressionante.
 
Somente um sofrimento muito forte e ao mesmo tempo uma capacidade de resistência pra não morrer, é que pode produzir uma força dessas. Cartola até bem pouco tempo, era um marginal. Nelson Cavaquinho, um marginal a vida inteira, a vida toda; essa gente nunca teve emprego e nem queria...
 
Uma vez, o Nelson Cavaquinho, arrumou um emprego num jornal de contínuo, ele foi um dia, depois não foi mais. Aí foram procurar o Nelson, “mas Nelson, você não quer o emprego? Você não vai voltar?” Ele disse: “Olha, é tudo muito bom, doutor, vocês me tratam muito bem, mas tem que ir todo dia lá”.
 
Olha, aparentemente, é um vagabundo, aparentemente é um preguiçoso, mas ele tem uma outra visão de mundo, ele foi criado de outra maneira, de certa forma ele foi excluído e se excluiu do sistema muito cedo. Quer dizer, a coisa dele era música, era violão, era samba, esse era o tipo de expressão. Então, essas coisas que eu vejo, principalmente do lado da música popular, onde eu vi coisas realmente de arrepiar, de dar dó. E o que é pior: não só via, como também ouvia notícias, por exemplo, Noel é um homem que morreu aos 25 anos e 6 meses de idade, tuberculoso. Não há dúvida nenhuma que não há expressão maior na poética do samba do que Noel Rosa, até hoje. Chico Buarque, com todo o respeito é um filho-neto de Noel, mal comparando, é claro, são duas formações culturais completamente diferentes. Mas, esse artista morre tuberculoso, quer dizer, esse país não podia deixar um homem desses morrer de forma nenhuma, como Glauber no cinema, aquilo foi, não quero usar uma expressão, uma linguagem aqui, dessa esquerdinha imbecil, é outra também primária e intelectualóide, mas a verdade é que houve um assassinato cultural. Quer dizer, o estado não podia deixar um homem desse abandonado ou sujeito até aos seus próprios vícios. O estado tem uma responsabilidade com esses criadores ou deveria ter. 
 
Em se tratando de literatura brasileira, o sujeito que achar que sabe alguma coisa, ou que acreditar na glória literária, é um puro e simples idiota, é um otário, como diriam os meus personagens, absolutamente desavisado. A realidade brasileira é muito superior ao que a arte brasileira já fez; nós ainda não temos uma literatura à altura da multiplicidade de realidades brasileiras e da grandiosidade dessas realidades. Por exemplo: nós não temos uma boa literatura sobre futebol, nós não temos uma boa literatura sobre favela, nós não temos uma boa literatura sobre samba, nós não temos uma boa literatura sobre êxodo rural; nós não temos obras tópicas, por exemplo, as coisas de Graciliano Ramos, Lima Barreto, e outros exemplos bons. 
 
A realidade brasileira é muito dinâmica e muito variada. Nós temos Estados no Brasil, como São Paulo, Minas ou o próprio Rio que tem três ou quatro realidades regionais completamente diferentes, desde o clima, até a forma de pensar, sotaque e inflexão. Então, o sujeito que é escritor no Brasil e ficar com empáfia do tipo: “eu sou absoluto, eu tenho que falar e vocês têm que ouvir”. Esse sujeito não sabe é nada; é um belo de um imbecil que está tentando enganar a si mesmo. Na literatura, o autor sempre está em construção, é sempre possível construir alguma coisa, não só como obra, como conteúdo, mas até como elemento estético, porque as coisas aqui são muito mutáveis, e justamente por isso, é permanentemente um seleiro para novas experiências e para novas obras.
 
Agora, realmente, o que o artista tem que fazer, e que é muito difícil, é conseguir ser universal no particular, porque senão ele acabará fazendo uma obra de registro, de realidades, que, sem nenhum desdouro desse trabalho jornalístico, não vai passar de uma reportagem. E a reportagem morre logo. Ela não tem elementos, ela é, em geral, circunstanciada a algum fato. Então, ele tem que trabalhar sobre o particular, aquilo que o particular tem de universal, cujo epicentro seja o homem, seja o sentimento do homem, as condições do homem, as coisas básicas do homem, e que possa ser entendido em qualquer parte do mundo, em Macau ou Amsterdã. Se não houver essa densidade, então não adianta também fazer registro de realidade, porque aí não passa de uma fotografia, sem desdouro nenhum para com os fotógrafos. A verdade é essa; o artista tem que trabalhar num sentido de elaboração.
 
Eu acho que o responsável, vamos dizer assim, pela minha entrada no gosto literário, foi o Café-Jardim, quando era garoto; isso deve ser quarenta e cinco, quarenta e seis, logo depois do término da guerra. Os pacotes de café, de ½ quilo, traziam umas figurinhas e depois a gente enchia com aquelas figurinhas, um álbum. E o álbum, me lembro, era feito pelo Monteiro Lobato, chamava-se O homem das cavernas, e nada mais era do que uma iniciação a pré-história. Naquela época, também era meio que moda ler os livros de Graciliano Ramos. E eu lia em voz alta; comecei a aprender a escrever sem saber que estava aprendendo. Porque comecei a perceber que aquilo tinha um ritmo, tinha uma música interna extraordinária, principalmente os três últimos capítulos de "Caetés" e de "São Bernardo". Vocês vêem que chega a ser até um trabalho poético, aqueles três capítulos finais. Claro, que poético nas dimensões do Graciliano, um poeta sem metáforas, extremamente econômico, a ponto de ser quase seco, na procura do verbo ou da palavra certa. 
 
Mas com quem ele tinha aprendido aquilo? Ele aprendeu com alguém. Ninguém nasce sabendo nada. Isso já é uma psicologia do jogador de sinuca. Aí eu comecei a ler nas revistas, principalmente no Cruzeiro, coisas sobre o Graciliano, que aparecia muito lá, especialmente numa página chamada "Arquivos implacáveis" de João Condé. Eu comecei a ver que ele tinha uma firme formação com os clássicos portugueses. Aí eu procurei ler esses clássicos: Antônio Vieira, Manuel Bernardes, Flávio de Almeida, e o brasileiro Machado de Assis.
 
Brasil era outro país, havia uma atmosfera cultural. O cinema que se via era muito melhor. Os mestres italianos, o cinema japonês, eu vi com 17 anos, o Akira Kurosawa; e aquilo me ensinou a compor.
 
Em mil novecentos e cinqüenta e sete ou oito, eu mandei um conto para um concurso permanente na revista A cigarra, cuja comissão julgadora, era integrada por dois nomões: o Aurélio Buarque de Holanda, o autor do dicionário, e o Paulo Rónoi, que se escreve Rónai, mas como é húngaro, eu pronuncio certo: é “Ronói”; eu aprendi húngaro quando era garoto em Vila Anastácio, porque ali tinha muito húngaro, que a gente chamava de “hungareses”. Então, esses dois mestres: o Paulo Rónai e o Aurélio Buarque de Holanda pegaram um conto meu, que se chama “Fujie”, uma história de adultério, então, me compararam ao Mário de Andrade. Eu nunca tinha lido Mário de Andrade.  

Ele morava na Rua Lopes Chaves, na Barra Funda, e ali perto tem um lugar que era incrível, porque eu conheci quando era garoto, ali por volta de quarenta e três, quarenta e quatro; nós morávamos no Beco da Onça que era uma favela na horizontal, atrás do campo do Palmeiras, em São Paulo, a gente ia visitar os avós, pegando o trem. Saía de Vila Pompéia, a pé, até a Barra Funda . No percurso passávamos pelo famoso “Largo da Banana”, e depois subia a Alameda Olga, célebre por suas crioulas, dando aqueles nós nas cadeiras...como é que esse mundo, com essa vida, com esse sabor, com essa, vamos dizer, sensualidade, como é que o Mário nunca viu isso, ele morava ali encostado. Veja bem, então essas coisas que me deixam muito com a pulga atrás da orelha, como se diz, meio desconfiado, de que essas pessoas não foram tão ativas, tão solertes, tão acordadas, quanto às vezes a gente pensa.  

Eu tenho uma tendência de sacrificar o próprio interesse da história pelo interesse da palavra, isso é típico dos poetas. O poeta olha para dentro da palavra; a poesia, em grego, é criação. Então ele olha para dentro da palavra. Acontece que o prosador não é bem assim, ele tem que ter um enredo, ele tem que ter uma história, a história é um fio condutor. Minha atividade literária é antes de tudo, uma atividade lúdica... Eu me divirto escrevendo. Eu tenho uma relação absolutamente sensual com as palavras. Há certas palavras que eu não uso jamais, e há outras que eu procuro usar quase sempre. Eu procuro embutir no texto palavras que não estão dicionarizadas, gírias ou coisas que eu criei, por exemplo, alguns jogos que eu faço com verbos pra fazer o leitor parar no meio da frase. Isso é de propósito. Êh, pro cê não ir adiante, ter que voltar e reler, pra entender.
 
Essa história de literatura, é algo complicado, conversa pra duas semanas, depois mais duas, e nunca vai ter solução e vai ter multiplicação, desdobramento, é o que, popularmente, se chama barato. É uma viagem sem fim, absolutamente encantatória, e por isso mesmo, muito difícil. Porque esse encantamento todo não é onírico, não é um negócio de sonho. No meu caso, parte de uma realidade que está aí. E é também uma atitude intelectiva diante da vida, é uma atividade que não dá sossego; se vocês me perguntarem quantas horas eu escrevo por dia, eu digo 24. Eu acho que eu escrevo até quando eu estou sonhando; eu só gosto de escrever, eu não gosto de mais nada. Eu só gosto de escrever. Eu sinto que não resta muito tempo. Um dia desses sonhei que havia morrido e só encontraram meu corpo uma semana depois.
 
As pessoas começam a falar comigo, eu fico olhando assim pra pessoa... É por isso que os meus sobrinhos me chamam de louco, maluquinho. Os sobrinhos perguntam pra minha mãe quando eu vou visitá-la: “Me diga uma coisa vovó, o tio João Antônio sempre foi maluquinho desse jeito?”. Porque, às vezes, a pessoa está falando comigo, eu não estou prestando a atenção no que ela está falando. Eu quero saber das palavras, o trabalho com a linguagem, esse negócio tem uma música. Eu digo: “Repete, por favor!” A pessoa fala, e eu... Que interessante, isso tem uma música, isso tem um ritmo...
 
Então aquela tal sapiência que certos autores parecem ter, de que eles dominam tudo, é mentira. Eles não dominam coisa nenhuma. A obra é muito mais forte do que o artista, ela usa o artista. Eu não acredito em escritor que diz que ele conduz a obra.
 
Isso é fundamental: que o escritor não se esqueça, por favor, que a literatura não existe assim como a arte não existe, nem a política. O que existe é a vida. De que a arte, a literatura e a política se alimentam.
 
E a coisa em si vai resolvendo, eu vejo assim, eu sinto assim, a coisa pula. Eu digo: eu nunca elegi um tema na minha vida, eu nunca escolhi escrever sobre nada, eu fui escolhido, eu fui de repente envolvido por aquilo de uma maneira estranha. Então aquela tal sapiência que certos autores parecem ter, de que eles dominam tudo, é mentira.
 
Eles não dominam coisa nenhuma. Ou então não são autênticos, porque a coisa é muito mais forte do que eles. A obra é muito mais forte do que o artista, ela usa o artista. Eu não acredito em escritor que diz que ele conduz a obra. Às vezes você tem um quadro de personagens e tem lá um personagem pequeno. E de repente, no desenvolvimento aquele personagem começa a aparecer, e começa a ganhar uma outra proporção, então você diz assim, o que é que esse mequetrefe quer aqui? O que esse intrometido quer aqui? Sabe o que ele quer? Ele quer se transformar em personagem principal e já se transformou. Ele vai ser o centro das coisas e você ainda não sabe. Eu não quero entrar aí em preocupações teológicas, nem mediúnicas, mas o Guimarães Rosa admitia isso, o João Guimarães Rosa admitia que havia um processo de passagem que ele não explicava muito bem. Então, sem esse encantamento pela literatura e ao mesmo tempo essa humildade de entender que o autor também é uma espécie de cavalo, de guia, de recebedor das coisas, não dá pra realizar uma obra realmente espontânea, realmente digna, realmente humanística, realmente sincera.
 
Eu não levanto personagens pitorescos, engraçados, anedóticos e nem minhas histórias são amenas, humorísticas de mero entretenimento. Minha gente é típica, mas nada caricatural. É universal, vincada de realismo e verdade, possui a sua própria valência, o seu peso específico...
 

leia mais...
POR EM 02/03/2009 ÀS 09:41 PM

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

publicado em

A brilhante atuação de Malcolm McDowell, a música de Beethoven, a fotografia, as cenas de violência, enfim, o conjunto do filme é todo um conceito-imagem que provoca no espectador um estranhamento, uma angústia, típicos da reflexão crítica. Impossível assistir ao filme sem "filosofar". O que não quer dizer que seja preciso chegar a qualquer conclusão

Vamos começar explicando o título acima. É preciso que fique claro. Tudo o que será tratado aqui se refere à "Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick, e não à de Anthony Burgess. Pelo menos conscientemente. É que não li o livro. Mesmo tendo assistido ao filme várias vezes, nunca tive coragem de ler o livro. Tenho medo de estragar o encanto. "Laranja Mecânica", o filme, é obra de gênio. Ela parla. Canta, dança e sapateia também. E pode ser que o livro não. Como acontece com várias adaptações, que, de tão brilhantes, ultrapassam em muito o livro em que foram baseadas.

Antes de falar de "Laranja Mecânica" especificamente, vale a pena perder tempo discutindo algumas abobrinhas acerca da sétima arte. Pra começo de conversa, essa discussão tola sobre se é arte mesmo ou não. A mim parece que aqueles que não consideram cinema uma forma de arte agem mais ou menos (conscientemente ou não) como quem não gosta da cor azul e por isso decretam que azul não é cor. Exagero, vá lá, mas é mais ou menos por aí. Há filmes e filmes. Assim como há livros e livros.

É verdade, porém, que essa discussão sobre ser arte ou não esbarra em outra: a autoria. Um livro, por pior que seja, é de um autor só. Um filme não. Esse argumento é falacioso, mas é preciso repetir: há filmes e há filmes. Há diretores e há diretores. Os exemplos são muitos, mas vou ficar só com um para facilitar: Woody Allen. Escreve o roteiro, escolhe os atores, dirige, edita, enfim, é dono absoluto do filme. Tá bom, vou dar outro exemplo, de um diretor menos verbal e mais imagético: Abbas Kiarostami. Há outros, há muitos.

Ok, concedo (magnanimamente) uma coisa: a natureza, a feitura do cinema permite várias matizes de autorias, o que complica o meio-de-campo. Woody Allen é um exemplo extremo. Exemplos do outro extremo seriam os muitos blockbusters de entretenimento sobre os quais os diretores têm pouco controle. E há os meios-termos. Os meios-termos mais complicados são as adaptações bem-sucedidas. E estas devem ser subdivididas.

Vamos inventar aqui duas categorias principais - as essencialmente literárias e as essencialmente fílmicas. Nas primeiras, principalmente, entram algumas peças transformadas em filmes, como "De repente, no Último Verão" (com Elizabeth Taylor, Montgomery Clift e Katharine Hepburn, direção de Joseph Manciewicz). A peça é de Tennessee Williams (com roteiro de ninguém menos que Gore Vidal), mesmo autor das também adaptadas "Gata em Teto de Zinco Quente" (com Elizabeth Taylor e Paul Newman, direção e roteiro de Richard Brooks) e "Um Bonde Chamado Desejo" (com Vivien Leigh e Marlon Brando, direção de Elia Kazan).

Todas estas se encaixam na categoria. São adaptações tão bem-sucedidas, difícil imaginar que sejam superadas. Claro, sempre podem ser refeitas (e sempre são) mas é difícil que sejam superadas (uma das muitas versões de "Um Bonde Chamado Desejo", com Alec Baldwin e Jessica Lange, é razoável, mas não chega aos pés da versão de Kazan, com Leigh e Brando). Ainda assim, têm uma coisa em comum: são de Tennessee Williams, não são de Manciewicz, Brooks ou Kazan. Quer dizer, são dos dois, dramaturgo e diretor, mas mais do primeiro do que do segundo. Complica, né?

Na categoria de adaptações fílmicas poderíamos incluir aquelas que superam as obras em que foram baseadas, ou porque o próprio roteiro é melhor, ou porque os recursos próprios do cinema enriqueceram de tal forma o original que lhe é impossível não ser superado. Deste grupo podem fazer parte "Naked Lunch" (de David Cronemberg, baseado em livro homônimo de William Burroughs), "As Horas" (de Stephen Daldry, baseado no livro de Michael Cunningham), "Short Cuts" (de Robert Altman, baseado em contos de Raymond Carver) e, claro, "Laranja Mecânica" (de Kubrick/Burgess).

"Naked Lunch" e "Short Cuts" eu li e vi. "As Horas" e "Laranja Mecânica", só vi. "Naked Lunch" é um livro infinitamente pior do que o filme. Cronemberg fez um enorme favor a Bill Borroughs. Já os contos em que são baseadas as estórias de "Short Cuts" são excepcionais. Raymond Carver é o melhor contista de língua inglesa com que meus olhos já tiveram a oportunidade de trombar. Acontece que Altman deu vida de forma brilhante aos contos, modificou-os, entrelaçou-os. O produto final é obra de Altman. Ok, Altman-Carver, mas mais o primeiro que o segundo.

Quanto a "Laranja Mecânica" e "As Horas", o leitor deve estar dizendo: "Como é que cê sabe que são melhores se não leu os livros?" Aí é que entram os elementos do cinema, inacessíveis à literatura. A imagem e o som. A fotografia e a música (ajudados, claro, por interpretações primorosas). O que no caso de "Laranja Mecânica" é algo incontestável. Por mais que Burgess possa fazer referência a Beethoven (e particularmente à "Nona"), por mais que minha imaginação trabalhe a todo vapor, jamais será como é no filme. Assistir ao horrorshow de Alex e seus amigos com o som da "Nona" de fundo é uma experiência cognitiva restrita ao cinema. E é por isso que gosto de azul. E azul é cor sim, tá sabendo?

O filme: close em Alex (Malcolm McDowell, no melhor papel de sua vida), cílios postiços apenas no olho direito, cara de mau, olhando diretamente para a câmera. Diretamente pra você. Música: adaptação da "Música para o Funeral da Rainha Maria", de Purcell. O plano é aberto lentamente, e podemos ver então os outros três droogies, Pete, Georgie e Dim, o de riso bobo. Estão num bar-leiteria bebendo leite com velocete, que os deixaria calibrados e prontos para mais uma noite de ultraviolência e horrorshow.

Primeira vítima do quarteto: um mendigo bêbado. Próximos: a gangue rival de Billyboy, que se preparava para o bom e velho in-out-in-out, sem o consentimento da moça, obviamente. Música: "La Gazza Ladra", Rossini. E segue com Rossini pela estrada em alta velocidade até as próximas vítimas, um escritor e sua esposa. Aí a música é "Singin' in the Rain", cantarolada pelo próprio Alex, enquanto estupra a esposa em frente ao marido. Voltam pro bar-leiteria. Na mesa ao lado, uma mulher canta um pedaço do quarto movimento da "Nona". Dim, o droog imbecil, ri. Apanha por causa disso. É o início da dissolução do grupo. Alex volta pra casa, um buraco. Em seu quarto, estátuas de cristos abraçados dançam ao som da "Nona" (a cena é maravilhosa!).

No dia seguinte, Alex não vai à aula e é visitado pelo seu bedel particular (Mr. Deltoid), que ficara sabendo do estrago da gangue de Billyboy. Alex passeia por uma loja de discos (é possível ver um LP com a trilha de "2001, Uma Odisséia no Espaço" - breve momento merchandising) e leva duas moças pra casa, onde rola o velho in-out-in-out ao som da abertura de "Guilherme Tell" em alta velocidade. Mais uma noite de ultraviolência e horrorshow (novamente com "La Gazza Ladra", Rossini), só que desta vez os três outros droogies armam uma cilada pra Alex, que é capturado pela polícia.

Como acabara matando sua vítima desta vez, o rapaz pega cadeia pra valer. Lá dentro, tenta bancar o bonzinho junto ao padre. Fica então sabendo de um tratamento novo, o método Ludovico de correção de mentes marginais, e consegue ser escolhido como cobaia. Basicamente, o tratamento consiste em aplicar uma droga no "paciente" e fazê-lo assistir a filmes com muita violência. A idéia é fazê-lo tomar aversão. Mantendo os olhos abertos com blefarostatos e pingando colírio de lágrima artificial constantemente. Os cientistas se asseguram de que o paciente não deixará de ver nada.

Mas algo inesperado acontece: a música de fundo é justamente a "Nona" de Beethoven, o que provoca um efeito colateral. Alex não só toma aversão à violência, mas também à sua música predileta. Na demonstração da eficácia para uma seleta platéia no presídio, ao final do tratamento, o padre protesta: aquilo era artificial, eliminava a escolha moral do indivíduo. Alex é solto e, pra seu azar, sai trombando com todos os seus antigos desafetos, que colocam o tratamento à prova. O último da fila é justamente o escritor, agora aleijado e viúvo. Acontece que o escritor é parte de um grupo político de oposição, que julga o tal método de Ludovico desumano. Sem se lembrar inicialmente de que aquele era seu malfeitor, bola um plano para usá-lo contra o governo. Dopa-o, leva-o para um lugar ermo, prende-o num quarto e coloca a "Nona" em volume altíssimo. Alex tenta se suicidar, é insuportável. Não morre. Vai hospitalizado e é então paparicado pelo ministro que o havia recrutado. Topa cooperar. No fim, está "curado" - de volta ao que sempre foi.

Há diversas maneiras de se interpretar um filme. Filosoficamente há duas: como meio e como fim. Professores de filosofia tendem a vê-los como um meio para ilustrar teses já conhecidas. Assim o fizeram, por exemplo, Mary Litch, em "Philosophy Through Film" (Routledge), e Christopher Falzon, em "Philosophy Goes to the Movies" (Routledge). Outros, porém (como o professor Julio Cabrera, em "O Cinema Pensa", Rocco, e "De Hitchcock a Greenaway pela História da Filosofia", Nankin Editorial), enxergam no cinema um fim em si mesmo, capaz de criar seus próprios conceitos, os "conceitos-imagens". Outros ainda, como Sander Lee ("Eighteen Woody Allen Films Analysed", McFarland), analisam a obra de um diretor como quem disseca um sistema filosófico conscientemente estruturado.

"Laranja Mecânica" permite todas essas abordagens. A brilhante atuação de Malcolm McDowell, a música de Beethoven, a fotografia, as cenas de violência, enfim, o conjunto do filme é todo um conceito-imagem que provoca no espectador um estranhamento, uma angústia, típicos da reflexão crítica. Impossível assistir ao filme sem "filosofar". O que não quer dizer que seja preciso chegar a qualquer conclusão. É estranhíssimo (e assusta quando nos damos conta disso) que ocorra a nós, espectadores, o exato oposto do que acontece com Alex. Somos também submetidos ao cruel tratamento de Ludovico, afinal assistimos a cenas de violência com belíssimas músicas de fundo. Sem piscar. Só que o que sentimos não é aversão, mas prazer. Uma mistura mágica de ética com estética. Um feitiço diabólico. Claro, não saímos por aí promovendo nosso próprio horrorshow. Mas tomamos uma consciência incomodamente cristalina de nossa animalidade.

Embora a literatura também seja criadora de conceitos-imagem filosóficos, como acredita o professor Cabrera, acredito que não há como o livro oferecer a mesma experiência, dados os recursos cognitivos a que o filme tem acesso e o livro não. Mas se a abordagem for a procura de familiaridade de cenas com teses filosóficas, então ambos passam a ter o mesmo poder. A cena em que o resultado do tratamento é mostrada a uma platéia seleta no presídio, por exemplo, é excelente para ilustrar a oposição entre a moral conseqüencialista e a não-conseqüencialista. De que importa se o método é cruel e retira por completo a possibilidade de escolha moral por parte do sujeito? O que importa é que funciona e os índices de criminalidade diminuirão, argumenta o ministro em réplica ao padre. A ironia fica por conta de que é justo um religioso que contesta o fato da não-violência não ser autêntica (produto de uma escolha), mas coagida por medo (de mal-estar físico). Ora, as morais religiosas são todas calcadas também no medo de uma punição, só que divina. Ética existencialista pela boca de um padre só pode ter sido ironia burgess-kubrickiana. Laranja Mecânica, o filme, é filosofia pura. Se ao final Alex está "curado", nós ficamos doentes.

*Texto publicado originalmente em outubro de 2006.

 


leia mais...
POR EM 02/03/2009 ÀS 07:28 PM

O pensamento é o armazém de tudo que pulsa e arde em nós

publicado em

No próximo domingo, completa 18 anos da morte de Pio Vargas. A carreira meteórica do autor de “Anatomia do Gesto” e “Os Novelos do Acaso” foi interrompida tragicamente, por uma overdose de cocaína, na tarde de 8 de março de 1991. A carta a seguir, escrita em dia incerto de julho de 1989 e dedicada aos muitos amigos, elucida dúvidas sobre a morte do poeta goiano, que foi apontado por Paulo Leminski como um de seus sucessores. O texto foi mantido como foi escrito por Pio Vargas.

 


A CARTA DE DESPEDIDA

Aquino e Gleib! um dia, quando eu estiver distante, lembrem-se que vocês foram a minha família real e absoluta. Em qualquer lugar, estarei sempre do lado de vocês.

As pessoas dizem que sou porra-louca, doido, mas criativo, querem ver:

O Aquino diz que sou paranóico, o mais louco da turma, se é que ela existe! O Bira diz que não sou confiável, porque sou voado, aéreo; diz que sou seu filho mais velho. Grande Bira! O Rogério diz que ainda sou ingênuo, que não sei, às vezes, ressalta, esperar a hora certa; é um dos que mais me incentiva, porém e ainda bem!; O Brandão justifica o nome: é brand-ão! Um gênio da vida que optou pela música, fazendo poesia de tudo e incentivando a todos com sua forma sincera de ser genial. Nunca consegui explicar com palavras o amor que sinto por ele.

A Edilene, minha grande! Infelizmente eu não soube amá-la como merecia; sacrificou muita coisa por mim, sempre conseguindo achar um vácuo no peito para agasalhar o perdão; você será recompensada, Edilene: estou certo de que o mundo (ou o destino?) reserva uma grande e adorável surpresa para você. Vá em frente, “mozim”!

O Viromar, a Dinaídes, a Magda, a Dininha, a Celina, a Tâmara, a Eucione, o Braz, meu mestre, o Delermando, a Abadia, o seu Amaral, o PX, o Omar, o inigualável, a Mary Anne, a companheira que me ensinou a ser Assessor Geral, a Maria Barbosa, a grande benfeitora e companheira das difíceis horas do Fórum e de outros momentos (obrigado pela capa do livro), o Simas, que está sempre para “simas”, o Liah, o inesquecível, o Gomes, o Dacruz, o Hildenor, gente boa até debaixo d'água, ser humano nota 10, a Roseane que sempre me dizia dos meus prêmios com uma ironia incentivadora (obrigado), um ser supremo, há de pagar a todos.

Ah, estou esquecendo o Altino, o Gilberto gente boa Correia, o Duro Oliveira, gênio, o Mustafé, parceira pela vida afora, o Bolívar que sofreu muito na minha mão, mas nunca conseguiu ficar chateado comigo, o Tião Pinheiro, amigo óbvio, mas sempre distante (um mestre dos bons conselhos), o Luís Augusto, Amaury Gracinha, o Nilton Júnior, que fui conhecendo e amando, o Leminski, que ao lado do Edival, Ruy, Noildo, Bira Galli, me ensinaram tudo de poesia-de-vida (a emoção e tesão constantes, a Mastrela, a Jô e a Heloise, cúmplice de meu sentimento mais desesperado, que todos (quem sabia, é claro!) confundiram com caso, quando na verdade era quase apenas uma vontade louca de me fazer capaz de amar com liberdade real, para dentro do apartamento do meu peito, onde habita um condomínio de ardores, amores e outros odores vitais, o Marconi, com sua inescondível (existe o termo?!) insegurança, que no fundo, a mim pelo menos, só transferia estima, consideração e respeito, o Markão, o Roberto, o Marcelo “Vamoali”, o Ciro Moura, pessoa que sofreu por ser grande demais para este mundo, o Adory, que eu adorava pelo jeito “diferente” de ser sincero, simpático, sensível e correto para consigo mesmo; o Osvaldinho, e seu inevitável para a política, sofrendo pela ingenuidade, vontade de ser grande, e a mistura nem sempre benigna de tudo isso, a Gleib! Que me amava (e ama, estou certo), o Aquino da exata forma que ele é, o Negão (Olivaldo), Vilton, sábio habilmente inseguro e carismático (ressalva: só os amigos sabem que o Vilton é inseguro, mas, como todo sábio, inteligentíssimo), o Valteir, meu inconfessável fã, meu absoluto amigo, meu real correligionário do sorriso sem tréguas (lembra, Valteir?), o Miguel, a “Tiana”, dois seres que aprendi a amar pelas suas indiscutíveis capacidades de superarem a percalços e injustiças, o Rosimar, a Cida e o Magno (cadê esse cara, hein?), a Geisa, a Romilda, a Maysa, que eu adorava, adoro, aliás, pelo jeitão de ser ela mesma, sem enganações, apenas para agradar a sociedade, esse “ser” nojento, abstrato, falso e, é claro, podréssimo!, o Adilon, o Izecias, um sábio ser, a Rosângela, agressivamente simpática e irreverente, a Dell, o Gilmaré, a Velu, poetíssima, o Orley, outro que fui conhecendo e gostando, o “Bechano”, o Batista, outro do largo sorriso, o Marcelo grande “canalha” Heleno, ser humano que será (é, aliás) capaz de multiplicar-se em vários, para ser o poeta do psicólogo, Pedro Humberto, que eu achava (macho, aliás) interior e exteriormente lindo, Star-Chic-Célio, o Pádua, o Reny-tente Cruvinel (...) companheiros de essência musical, o masofi-maluco, um-qualquer-um, parceiro bom e amigo, o Júnior, que mora ao lado de casa, e eu gosto muito pelo seu jeito montesclaríssimo de viver, o João Batista Peres, prefeito, amigo e uma espécie de Pai, com sua sempre leal companheira Cleusa, minha espécie de mãe, certamente, especiais para mim, juntamente com Noildo e Romilda, Alam Pimentel (Alan, é com “n”), o Professor lázaro faleiro, com minúscula, porque ele, com a Dona-Mãe-conselheira-e-confidente Laurinda Barbalho, foram meus mestres dos primeiros e imprescindíveis passos, o Porreta, o “Beat”, o Lázaro, Escultores da Simpatia, o Djalma e seu sorriso constante, abnegado, vivo, ótimo, a Divina e sua mochila (ou melhor, “michila”), a Débora, Renata, Júnior, Hugo e outros, vários outros seres grandes que deles certamente descenderão, o Lindomar e a Sandra, seres inesquecíveis e adoráveis, a Gisele, o José Reis e o Clenardo, que “tentaram” chatear-se (no singular, como é que é isso!?) – as vezes fico encabulado e perco a noção de concordância verbal (e vital, também, o que é pior!), o Braguinha Barroso, o Último Tipo”, ou melhor: “ótimo tipo”, o papõ, simpatia pura, o Lindomar, outra simpatia pura, a Silma, o Donizete, que me conheceu bem, e me ajudou a entender os seres que nasceram para contribuir, doar, ajudar, honestamente, mas de leve, esperto, matreiro, astuto, competente (grande Donizete), a Miriam, confidente, amiga, sempre solidária com meus supostos acertos e severa com meus inúmeros, incontáveis erros, (Miriam, cuida bem do Ruy, porque assim você faz o Gordo-Tupã-Tio-Faustão-e-sobretudo-Guru-de-todos-nós dar sempre mais de sua sabedoria ao necessitado mundo dos vivos, aqui, além, acolá, ou onde quer que seja). Que o Deus-Ruy esteja sempre conosco e nos ilumine nesta constante e cósmica missão de existir).

O Vagão, carinhosamente, e Wagner Luz, indiscutivelmente criativo e plural, que eu nunca pude, mas principalmente não soube retribuir seus inúmeros e eternos “favores”. Wagner, um dia a gente se encontra, numa melhor, juntamo-nos ao Donizete, o do Bar, seu amigo, para realizarmos a imprescindível (adoro esta palavra – é um dos meus arquissemas para textos em prosa) obra, ou missão, sei lá, de ser feliz, o Antônio Barreto, mineiro tranqüilo, que sabe que é sábio, mas não faz questão de'arrotar; ensina com a palavra, a quietude agressiva de suas metáforas absurdas, abstratadas (eu quis dizer abs-tratas), mas tudo bem! e necessárias para abs-tração dos vivos (eu disse “tração”), quer dizer: para se ordenhar o leite nas rés da existência, o Paulo, sempre Leminski, mestre dos mestres, pai de todas as minhas certezas e dúvidas poéticas, o pai-tudo, o multi-total, no mais absurdo (de novo) significado destas expressões, o Wertemberg, o Altino, o Delgado (costumo chamá-lo carinhosamente de “intestino delgado”, pela sua mais completa incompetência para ser grosso), o Coelho Vaz, sempre tranqüilo e amigo, com uma sinceridade que não se revela a qualquer um, o Iury (nunca escrevi este nome corretamente) Gordinho, poeta correto para consigo, em sua duradoura amizade. Meu cobrador de iniciativas!

Tem mais — Tem muito mais, porque de repente descubro que o bloco acabou e eu ainda estou começando a contar os amigos, meus incontáveis amigos. Engraçado: de repente me dou conta da minha facilidade de fazer amizade. Tem até um caso da minha “briga” com o “Piolho”, Erivaldo inintendível Nery, que depois (passa a escrever no verso, do fim para o início) por um pedido de desculpas seu, espalhou que eu o havia assediado para solicitar-lhe gentilmente perdão. E mais: que de presente eu lhe dera um livro meu, das edições “Porranenhuma” (não deixem que ela morra, por favor), autografado... É certo que, ao contrário do Drummond, eu sempre gostei de dar autógrafo. E ao contrário do Gilmaré, eu gosto de pedir perdão. E como gosto. Sim, porque o perdão não repara o erro, mas restaura a certeza de que é possível acertar da próxima vez. Sempre há próximas vezes, em tudo, todos e... chega! Usei uma reticência, coisa que detesto, mas me perdôo. E por falar em auto-perdão (não sei se é separado ou junto, pô!), digo-lhes ainda, e veementemente, que é necessário, essencial até, o perdoar-se constantemente. Exatamente porque, conforme digo no poema “Plural de Enigma”, “é preciso perdoar-se, antes que seja aberto o leque sem retorno da sentença”. Pedir desculpas a si mesmo é admitir a existência do outro, o radicalmente outro, que habita seu mais íntimo labirinto de emoções e sentimentos.

Pausa: ô canetinha ruim, nossa senhora da penha! Pelamor de deus, quê que isso!. Puta merda? Ave-maria, pelamãe do Guarda! E chega de reclamação! Vamos continuar, eu escrevendo e você lendo. Eu (é do livro Grünewald) escrevivendo pelo texto afora e você vendo morrer a cada frase essa inútil e desesperada vontade de querer ser importante. Sim, porque quem escreve à mão só quer mesmo ser melhor que muita gente e muita coisa também é claro! Dela há pouco de perdão, mas o escrever em si é um ato de incessante busca de perdão, sobretudo se considerarmos que quando escrevemos algo em nós parece de repente aliviar. Escrever é viajar quieto, é ir longe sem mover-se, é voltar sem nunca ter ido, é sair sempre de onde supostamente se está para os mais extasiantes e estranhos lugares, ocasiões e situações. Escrever, enfim, é subir como que, desce, sabendo que a superfície enigmática do papel é, a um só tempo, labirinto, exílio, certeza, solidão e desafio. Absoluto desafio. Um desafio que não se abala jamais, porque é perceptível, mas intocável, sem ser matéria (matéria sólida, como insistiria Ruy Jr., o guru) e intocável, porque imóvel, insensível (ainda que não concorde Aquino, o João, meu irmão, e os outros irmãos, os “campos”) e inteiriços em sua formação solidamente visível. Mas, o mais complicado é que o pensamento, que engana quem o vê abstrato, é o mais concreto dos sentidos humanos. O pensamento é, definitivamente, o sexto sentido. É o que incomoda, tortura, propõe, realiza, espera, vai, fica, sente absurdamente, enfim! O pensamento é o armazém de tudo que pulsa e arde em nós. Por isso, pensar é sofrer, com prazer, embora, ou não, sei lá: neste momento não penso em quase nada, porque medito (e me dito!) e tudo. E meditar é o fardo leve do pensamento. É a oportunidade de sermos o que podemos e o que queremos ser, sem nenhuma interferência, exterior, óbvio.

Mas, eu falava dos amigos, os que conquistei ao longo dos poucos anos de estrada e arte.

Então vamos lá:

Tem o Ulisses Aesse, com sua pose sutilmente professoral, o Tagore Biram e sua necessidade mal-resolvida de ser sempre o melhor, o que, no caso dele, é uma virtude, já que é lhe (existe esta combinação gramatical, hein Braz!) impossível ser de outro modo, então isso lhe transfere autenticidade e força de vida. O que me preocupa é que ser o melhor é um gesto de absurda solidão, pois, infelizmente, o mundo está avassolaradamente recheado de gente pior, inferior, medíocre, que nos governam. É por esse motivo que eu repito sempre, desde que ouvi pela primeira vez de um lábio iluminado, a frase: “a inteligência sempre serviu à mediocridade”. Não é sem razão, então, que os nossos, imerecidos mas eleitos, governantes, tentam, e na maioria das vezes conseguem, cooptar os inteligentes para assessorias e cargos de baixo calão (ou melhor: baixo escalão). Prosseguindo, tem o Sr. Eli, da lanchonete, que parece dar de comer ao mundo inteiro, tal a bondade de seu proprietário, a Maria José, que não perde nunca a elegância, sentimental e gestual, o Mário, o Eudaldo, “Seu Braz”, abnegados seres, que trocaram a tranqüilidade de serem apenas mais alguns funcionários públicos, para se dedicarem exclusivamente ao registro dos momentos, para os outros sempre importantes, para eles importantíssimos. Nunca perdem a posem nunca fazem cena, nunca reclamam, sempre fazem. E fazem bem – fazer bem para eles é uma questão de “vídeo” ou morte. Seres nota mil. A turma do cinema, sempre com o maior cartaz: projetando uma novidade que Goiânia, infelizmente, ainda não descobriu na sua totalidade. A equipe que trabalhou comigo na Caixego, em todas porque passei, também me vem à mente. E eu recordo cada um, na sua característica pessoal e intransferível e identificadora.
 


leia mais...
POR EM 10/12/2008 ÀS 10:33 AM

A última entrevista de um filósofo irritado

publicado em

Pouco antes de morrer em Paris, em junho de 1995, o filósofo romeno Emile Michel Cioran deu esta entrevista ao escritor alemão Heinz-Norbert Jocks, publicada no nº 5 da revista "Kulturchronik", editada em Bonn pela InterNationes 

  Tradução do espanhol: Reynaldo Damazio

Apresentamos os trechos mais importantes desta conversa em que o autor de “Silogismos da Amargura”, “Breviário da Decomposição” e “História e Utopia”, entre outros, fala da morte, do tédio, de sua juventude, do escritor Samuel Beckett e do início de sua ligação com a filosofia. Cioran foi um dos autores mais corrosivos e polêmicos do século XX, colocando em xeque as pretensões racionalistas e tecnicistas da civilização ocidental, assim como os dogmatismos religiosos. Seus livros são escritos com fúria e beleza, muitas vezes resvalando pela linguagem poética, através de aforismos.  Cioran nasceu em Rasinari, Romênia, em 1911, mas desde jovem radicou-se em Paris. Considerado um filósofo niilista radical, enfrentou com insistência, em seus textos, os temas do desespero, da solidão e do vazio que ronda o homem contemporâneo. Normalmente é colocado ao lado de pensadores como Pascal, Kierkegaard e Nietzsche.

Qual o significado de sua vida na Romênia, de sua infância?

A Romênia foi um paraíso terrestre, isolado de tudo e cercado de escravos. Só ia para casa para comer e dormir, senão passava o tempo todo fora, ao ar livre, muito simples. A metade do povoado vivia nas montanhas, nos Cárpados. Eu tinha amizade com os pastores e gostava muito deles. Era um outro mundo, além da civilização. Talvez porque viviam em um país de ninguém, sempre de bom humor, como se todos os dias fossem dias de festa. O começo da Humanidade não deve ter sido tão ruim, segundo eles.

Quando isso acabou?

Em 1920, aos dez anos de idade, quando tive que abandonar meu povoado e mudar-me para Hermannstadt, para estudar na escola média. Jamais esqueci essa catástrofe, essa tragédia, meu desespero naquele dia. Parecia o meu fim. Na época não havia carros, de modo que um camponês levou meu pai e eu a cavalo. O primitivo, que vivi ali, parecia-me a única vida possível. O que conta é a pré-história, isto é, o tempo anterior à entrada na consciência, na história, a vida inconsciente. A Humanidade deve seguir sendo o que é (risos), porque a História é apenas um equívoco; a consciência, um pecado; e o ser humano, uma aventura sem igual.

Uma reflexão religiosa?

Eu não sou ateu, ainda que não creia em Deus e não reze. Mas há em mim uma dimensão religiosa indefinível, para além de toda fé. O crente se identifica com Deus, o que pode compreender, mas eu mesmo me sinto distante de tudo isso. Eu me movo na linha divisória. A grande idéia do pecado original do ser humano é compartilhada por mim, mas não no modo como se pensa oficialmente sobre o assunto. Tanto a História como também o homem são, queiramos ou não, produtos de uma catástrofe. A idéia do desvio do ser humano é imprescindível para se entender o desenvolvimento da História. Segundo essa idéia, o ser humano é culpado, não no sentido moral, mas por ter se envolvido nessa aventura. Quando abandonei minha aldeia, deixei de ser primitivo. Antes, havia pertencido à Criação, como os animais, com aqueles que tinham uma relação pessoal comigo; agora me encontrava fora, à distância.

Você discorreu sobre os santos, sobre a “Criação fracassada”, e viu-se metido em dificuldades?

Sim. Minha mãe era presidenta da Igreja Ortodoxa em Hermannstadt e meu pai — bom sacerdote, além de sincero, mas de modo algum um homem de profunda religiosidade — queria na verdade ser advogado. Ficou muito triste quando leu o texto Sobre lágrimas e Santos, no final de 1937, pouco antes de minha mudança para Paris. Quando enviei o manuscrito ao meu editor romeno, este me telefonou um mês depois para dizer-me que não poderia imprimi-lo. Ele mesmo não havia lido, mas sim um de seus linotipistas, e disse que devia seu patrimônio à ajuda de Deus e que não poderia publicar um livro assim por nada nesse mundo. De minha parte, em plenos preparativos de viagem à França, perguntei-me desesperado o que fazer. Na ocasião, encontrei-me com um romeno que havia colaborado com a Revolução Russa e tinha conhecido Lênin. Perguntou-me o que acontecia, contei-lhe a história e ele era dono de uma gráfica. Assim, meu livro foi lançado sem um selo editorial, pouco depois de ter-me mudado para Paris. Alguns meses depois, recebi uma carta de minha mãe, na qual falava sobre a desgraça que meu livro havia provocado. Ainda que não fosse em verdade uma religiosa, sentia-se sob fortes pressões e rogou-me que retirasse o livro de circulação. Respondi que era a única obra religiosa escrita nos Bálcãs, porque era uma confrontação balcânica com Deus. Quase todos meus amigos reagiram mal, sobretudo Mircea Eliade, que escreveu uma crítica extraordinariamente dura, enquanto que uma garota que eu conhecia me disse que era o livro mais triste que havia lido. Evidente que se tratava de uma experiência religiosa equivocada. Eu havia mergulhado de tal modo na vida dos santos que, na verdade, deveria ter rezado. Mas para isso me faltavam os dotes necessários, ainda que me sentisse atraído pelos grandes místicos. Porém, a fé religiosa não é nunca resultado da reflexão, mas algo muito complicado. A religiosidade pode ser tola, mas tem raízes muito profundas (risos).

Em sua obra transparece um elogio da vida primitiva.

Nesse povoado romeno em que vivia, tínhamos uma horta ao lado do cemitério e, por essa razão, desde pequeno fiquei muito amigo de um coveiro de cinqüenta anos. Era um homem que agia alegremente quando tinha que cavar uma tumba e jogava futebol com as caveiras. Tenho me perguntado sempre como podia sentir-se tão feliz dia após dia. Eu mesmo não era como Hamlet, não era suficientemente trágico. Mais tarde, nossa estreita amizade sofreu uma mudança e se converteu num problema. Eu me pergunto por que razão temos que experimentar tudo isso na vida. Somente para acabar como um cadáver? Essas impressões ficaram gravadas indelevelmente. Aquele homem — enfrentando a morte diariamente — se comportava como se nunca tivesse visto um morto. Gostava muito dele. Estava sempre sorrindo.

A morte é um tema ao qual você tem sido fiel.

Desde cedo. É uma postura com que se vincula outro tipo de intensidade. Tenho convivido com a morte, desde muito jovem. Ainda que agora tenha mais motivos para pensar nela, não associo com a morte nenhuma idéia compulsiva. Em minha juventude, a idéia que tinha da morte era uma obsessão que se apoderava de mim de manhã até a noite. Como núcleo da realidade, possuía uma presença opressora, muito distante de todas as influências literárias. Tudo girava em torno dela, para além da repugnância e do medo, ainda que de forma patológica. Isto, naturalmente, era também conseqüência de que não dormi bem durante sete anos de minha juventude, de que estava extenuado. Naquele tempo, escrevi No cume do desespero. Essa insônia persistente transformou minha perspectiva do mundo e minha atitude diante dele. O momento pior desta situação aconteceu em Hermannstadt, quando vivia com meus pais. Caminhava sem destino, pela cidade, à noite. Minha mãe chorava de desespero, e eu mesmo, que acabara de completar 21 anos, estava a ponto de me suicidar. Até hoje não sei porque não o fiz. É possível que tenha aplacado a vontade de suicídio por força de escrever. Eu não tinha a menor idéia concreta do que era minha vida.

Você mudou sua idéia da morte?

Não é possível mudar a opinião que se tem sobre a morte. Constitui de per si um problema, o problema da existência. Em comparação com ele, todo o restante se evidencia como carente de importância. Curiosamente, há muitas pessoas que não conhecem o sentimento da morte, não querem ou não podem pensar nela. Os que compreendem o que significa a morte são minoria. Aos demais falta valor e mesmo os filósofos evitam o problema.

Mas se filosofa sobre a morte.

Claro que a morte é um tema na história da filosofia (risos), mas não como vivência íntima. Em Baudelaire existe a morte, em Sartre não. Os filósofos têm se esquivado da morte fazendo dela uma questão, ao invés de experimentá-la como algo existente. Não a consideram como algo absoluto, mas entre os poetas é diferente. Eles adentram profundamente o fenômeno, rastreando-o. Um poeta sem sentimento de morte não é um grande poeta. Parece exagerado, mas é assim.

Numa série de ensaios sobre amigos, você escreveu sobre Samuel Beckett. O que o agrada na obra dele?

O fato de não necessitar de heróis, de ter criado um tipo humano incomum e, com ele, ter apresentado outro gênero de humanidade. Sua obra, assim, não está vinculada a um tempo determinado. É a obra singular de um sujeito singular.

Não os aproxima também a fascinação pelo fenômeno do tédio?

A experiência do tédio, não do vulgar, por falta de companhia, mas o absoluto, é muito importante. Quando alguém se sente abandonado pelos amigos, não é nada. O tédio em si advém sem motivo, sem causas externas. Com ele vem a sensação de tempo vazio, algo assim como a vacuidade, coisa que conheço desde sempre. Posso recordar muito bem da primeira vez, quando tinha cinco anos. Vivia, então, na Romênia, com toda minha família. Então, tive de repente a consciência clara do que era o aborrecimento, o tédio. Foi por volta das três da tarde, quando fui tomado pela sensação do nada, da absoluta carência de substância. Foi como se, de súbito, tudo tivesse desaparecido, tudo mergulhasse na nulidade e fosse o começo de minha reflexão filosófica. Esse estado intenso de solidão me afetou de maneira tão profunda que me perguntei o que significava realmente. Não poder defender-se, nem poder se livrar dele com a reflexão, assim como o pressentimento de que voltaria outras vezes, me desconcertou tanto que o aceitei como ponto de orientação. No auge do tédio se experimenta o sentido do Nada, e neste sentido não se trata de uma situação deprimente, já que para uma pessoa não crente representa a possibilidade de experimentar o absoluto, algo como o instante derradeiro.


leia mais...
POR EM 01/12/2008 ÀS 08:22 PM

A vida é curta pra ser pequena

publicado em

Chacal é o maior expoente da chamada Poesia Marginal ou Geração Mimeógrafo, movimento que marcou o cenário cultural brasileiro no início dos anos 70. Também fez parte da lendária revista Navilouca e do grupo Nuvem Cigana, que misturava performances teatrais com poesia. Arredio a entrevistas, Chacal afirma que não gosta delas para evitar certas perguntas. Depois de quatro meses de insistência e tentativas em vão, ele aceitou falar, numa entrevista telegráfica, cheia de tiradas satíricas, que sempre marcaram a carreira do poeta

(Entrevista publicada em 2004)


Onde começa a genealogia do poeta Chacal?

Chacal – 24 de maio de 1951, quando nasci.

Por que você não gosta de dar entrevistas?

Chacal – Para evitar determinadas perguntas.

Qual a melhor definição de Chacal: um homem feliz, angustiado, mal-humorado, cheio de amor e compaixão, ou tudo isso ao mesmo tempo?

Chacal – Um cara indefinido.

Com quantos mimeógrafos se fazia um poeta marginal? O que restou dos anos 70?

Chacal – O desejo de se divertir apesar de tudo.

Pós-modernidade é termo ultrapassado?

Chacal – Assim com o pós-passado é ultramoderno.

O poema “Rápido e Rasteiro”, que você escreveu nos anos 70, entrou para a história do cânone brasileiro e está entre os cem melhores do século. Nele você afirma que vai haver uma festa e você irá dançar até o sapato pedir para parar, depois você tira o sapato e dança o resto da vida. Como tem sido a dança entre o Rio de Janeiro, Londres, Amsterdã, Nova York?...

Chacal – É bom saber dançar. Manter um equilíbrio dinâmico.

No início dos anos 80 você morou em Brasília e foi colaborador do Correio Brasiliense. Você escreveu que ficou impressionado com a agitação daquele coletivo de artistas e poetas, unidos por um sentimento de irmandade meio hippie. Qual a diferença entre os marginais de Brasília e os do Rio?

Chacal – Brasília é mais bucólica, mais cósmica. O Rio é megaurbana e praiana. Gosto de céu, da chuva em Brasília.

Quem é o grande poeta brasileiro de todos os tempos?

Chacal – Depende do dia, do poema e do humor.

E os poetas de hoje? Há uma crise criativa?

Chacal – A poesia está em trânsito para outras linguagens. Essa que conhecemos tem que se adaptar a novas formas para chegar ao outro e falar a gíria do momento.

O Paulo Leminski disse "A palavra ‘lúdico' é a chave para a poesia de Chacal". Como era sua amizade com ele?

Chacal – Tive apenas um contato com ele no Circo Voador, em 85. Ele estava apaixonado por uma palavra.

Ainda sobre amizades, fale um pouco do Cacaso.

Chacal – Cacaso era professor na ECO em 1972, e eu, aluno. Fizemos juntos a coleção "Vida de Artista". Ele trazia a tradição, e eu, a invenção. Foi um encontro muito útil.

Como foi trabalhar na Rede Globo?

Chacal – Inumano.

Quais os seus atuais projetos literários?

Chacal – Faço minhas obras quase completas. Espero lançá-las este ano.

Alguns dizem que a Poesia Marginal foi mais o sintoma de uma geração do que uma elaboração da linguagem. Como encara as críticas ao aspecto superficial da Poesia Marginal?

Chacal – Foi a elaboração de uma cultura descartável de prestobarbas, embalagens One Way. As críticas vêm de uma visão acadêmica e sem função na vida de hoje.

Bernardo Vilhena, Charles Peixoto e Ronaldo Santos compunham o grupo Nuvem Cigana, que completou 30 anos em 2005 e que marcou o cenário cultural do Rio de Janeiro em meados da década de 70. Ainda são seus amigos?

Chacal – Estamos voltando a nos reunir.

Em 1994, num festival de poesia falada na cidade Gurupi, no Tocantins, eu vi uma menina de uns doze anos recitando um poema seu. Qual explicação por sua poesia ter chegado tão longe e para uma geração tão diferente da sua?

Chacal – A informação hoje voa. Isso foi antes da Internet. Minha poesia fala para essas pessoas, adolescentes de todas as idades.

Você, ainda garoto, participou da Revista Navilouca. Como foi conviver com Waly Salomão, Torquato Neto, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Ivan Cardoso, Caetano Veloso? A nave era mesmo louca ou o conceito de loucura não se aplica a artistas?

Chacal – Foi uma viagem em torno da linguagem. Meus aqualoucos preferenciais. A loucura é um sopro no ouvido.

O que a Internet fez com a poesia é benéfico?

Chacal – A Internet é benéfica. A poesia, não.

Se pudesse voltar no tempo, o que mudaria na sua vida?

Chacal – Não sei.

A vida é curta pra ser pequena?

Chacal – É.

 


leia mais...
POR EM 25/11/2008 ÀS 12:25 PM

O filho rebelde de João Cabral

publicado em

Paulo Henriques Brito

É provável que todo leitor culto brasileiro tenha na estante algum livro com a assinatura de Paulo Henriques Britto. Ele traduziu alguns dos maiores escritores de língua inglesa, como Byron, Wallace Stevens, Emily Dickinson, Elisabeth Bishop, Henry James, Philip Roth, Thomas Pynchon e Salman Rushdie. Todavia, é também um grande poeta, que, desde a estréia, em 1982, com "Liturgia da Matéria", vem conquistando a crítica. Em novembro do ano passado, "Macau", seu último livro de poesia, foi o vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Paulo Henriques Britto ganhou 35 mil euros (cerca de 100 mil reais), dinheiro que, entre outras coisas, lhe serviu para trocar de carro (o seu tinha 12 anos). Venceu o carioca Sérgio Sant’Anna, com os contos de "O Vôo da Madrugada," que ficou em segundo lugar, e o gaúcho Assis Brasil, que ficou em terceiro com o romance "A Margem Imóvel do Rio".

Professor do programa de pós-graduação da PUC do Rio de Janeiro, onde ingressou por notório saber, Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Leitor de Monteiro Lobato, de gibis e do Tesouro da Juventude, na infância, começou a escrever aos 6 anos de idade. Estudou cinema nos Estados Unidos e aprendeu a fazer poesia, segundo ele mesmo, lendo as traduções dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e traduzindo o poeta Wallace Stevens. A partir da descoberta de Fernando Pessoa, por volta dos 15 anos, começou a “escrever poesia a sério”, como contou numa entrevista a Rodrigo de Souza Leão, publicada no Jornal de Poesia (jornaldepoesia.jor.br), do poeta cearense Soares Feitosa. Também na adolescência, descobriu a música popular, especialmente através de Caetano Veloso. No final do ano passado, Paulo Henriques Britto estreou na ficção, com o livro de contos Paraísos Artificiais, publicado pela Companhia das Letras.

Nesta entrevista, feita pelo jornalista Euler Belém e os escritores Carlos Willian Leite e Francisco Perna, Paulo Henriques Britto fala, sobretudo, da tradução.

Entrevista foi realizada em 2004 e publicada na Revista Bula e no Jornal Opção.

Carlos Willian Leite — Traduzir é trair?

Não. Só acha que toda tradução é uma traição quem não tem uma concepção ingênua do que é traduzir, e imagina ser possível capturar absolutamente todas as características do original numa tradução. A perfeição é tão inatingível na tradução quanto em qualquer outra atividade extremamente complexa.

Francisco Perna — Num de seus poemas, “Sonetilho de Verão”, podemos ler o seguinte: “Traído pelas palavras. O mundo não tem conserto. Meu coração se agonia. Minha alma se escalavra. Meu corpo não liga não”. Alguma vez, na sua carreira de poeta, o senhor já se sentiu traído pela palavra, ao incorporar ao seu texto uma palavra ou um verso de alguém que o senhor tenha traduzido, para só depois se dar conta do feito?

Já, embora não seja a essa experiência que me refiro no poema em questão. Mas uma coisa parecida aconteceu comigo quando enviei os originais de Macau para a editora e só então me dei conta de que a série de nove variações poéticas que eu havia escrito tinham sido inspiradas por uma canção dos Doors.

Euler Belém — Baseado em Minas Gerais, Agenor Soares de Moura foi um dos mais contundentes críticos de tradução do país. Suas críticas foram reunidas no livro À Margem das Traduções, organizado pelo tradutor e poeta Ivo Barroso. Como avalia o trabalho de Agenor? Suas críticas são válidas, contribuíram para melhorar as traduções brasileiras?

A intervenção de Agenor foi salutar naquele momento, chamando a atenção para a importância da qualidade no trabalho de tradução. Porém uma ressalva que pode ser feita ao trabalho dele é que seus comentários são sempre pontuais. Ora, achar falhas pontuais numa tradução é sempre possível. Para se fazer uma avaliação séria de uma tradução, é necessário ser sistemático, considerar a obra como um todo, pesar os erros e acertos, tentar compreender para onde apontam as falhas encontradas (se o problema é conhecimento da língua-fonte, domínio dos registros informais na língua-meta, ou lá o que seja), considerar qual o público a que a tradução se dirige, etc. Sem dúvida, muitas das falhas apontadas por Agenor seriam criticáveis em qualquer situação, mas crítica de tradução deve ser mais do que uma colheita de “pérolas” descontextualizadas.

Euler Belém — Como o sr. avalia o trabalho de tradutores como Sebastião Uchoa Leite, mais poesia, e José Paulo Paes, poesia e prosa (por exemplo, Laurence Sterne)?

São dois excepcionais tradutores. Em particular, eu destacaria de Sebastião sua tradução de Villon, e de Paes sua Antologia Grega. Não li a tradução de Sterne feita por Paes, por isso não posso opinar.

Euler Belém — “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, é um dos poemas mais traduzidos em língua portuguesa. Fernando Pessoa e Machado de Assis o traduziram, por exemplo. Há pouco tempo, surgiu uma polêmica sobre a melhor tradução, e o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony bateu o martelo: a sua predileta é a de Milton Amado, tradutor mineiro (que traduziu também Dom Quixote). Ivo Barroso organizou, num belo livrinho, todas as traduções, inclusive a francesa. Na sua opinião, qual é a melhor tradução? Ou não há a melhor?

Minhas favoritas são a de Fernando Pessoa e a de Alexei Bueno, duas traduções extraordinárias; é difícil dizer qual é a melhor. A de Pessoa de certo modo aperfeiçoou o original, em que o poeta afirma que não dirá o nome da amada e depois acaba dizendo; em Pessoa a promessa é mantida, e o nome não é revelado.

Euler Belém — Machado de Assis, que tinha ótimo ouvido para sua própria língua, para sua sonoridade, era um tradutor competente?

Machado, um grandíssimo prosador, era um poeta menor, e como tradutor de poesia também não era muito bom. Sua tradução do “Corvo”, por exemplo, não é nada boa.

Francisco Perna — O poeta e tradutor Régis Bonvicino, ao traduzir o poeta norte-americano Robert Creeley, A Um (As One), abre o livro da seguinte maneira: “Reúno, neste volume, os primeiros resultados de três anos de convivência e reflexão a respeito da vida, das idéias e da poesia de Robert Creeley...” Essa relação de amizade entre tradutor e autor é fundamental para o resultado de uma boa tradução, além da competência de quem traduz?

Eu não diria que é fundamental, porque senão seria impossível traduzir um autor morto, mas é claro que ajuda. Não posso me queixar dos autores com quem travei contato; quase todos foram muito prestativos. Creio que o mais prestativo de todos tem sido Thomas Pynchon, de quem já traduzi dois livros (O Arco-Íris da Gravidade e Mason & Dixon).

Francisco Perna — Por falar em Creeley, como o sr. analisa a poesia dele? O senhor gostaria de tê-lo traduzido?

Conheço muito pouco a poesia de Creeley.

Carlos Willian Leite — Como foi traduzir o romance Buddy Bolden’s Blues, do escritor Michael Ondaatje, do Sri Lanka, que recria a carreira meteórica de Buddy Bolden, músico que revolucionou a maneira de tocar jazz?

Foi uma tradução que não apresentou maiores dificuldades. Fiz dois livros de Ondaatje, este e Bandeiras Pálidas, ambos trabalhos bastante tranqüilos.

Euler Belém — O escritor e crítico literário Silviano Santiago, numa resenha para a Folha de S. Paulo, aproxima William Faulkner mais do brasileiro Guimarães Rosa do que do irlandês James Joyce. O sr. nota a mesma aproximação?

A meu ver, Faulkner é um escritor bem mais tradicional do que Rosa e Joyce. É um ótimo contador de histórias, criador de personagens e enredos rocambolescos, com muito melodrama — incesto, assassinato, estupro, mestiçagem (tema que ainda causava frisson na época dele). Mas Ulisses desabou sobre Faulkner como uma espécie de imposição: é preciso ser moderno, ser experimental, ser difícil. E aí ele escreveu O Som e a Fúria, livro dificílimo, com quatro focos narrativos diferentes, muito stream of consciousness, diálogos sem pontuação, etc. O primeiro narrador é retardado; o segundo está se preparando para o suicídio; mas o terceiro e o quarto episódios são bem mais lineares, e ao final do livro tudo está esclarecido. Este fato — a necessidade de deixar tudo explicado no final — já aponta para a contradição entre o tradicional e o moderno que chama a atenção no livro. A complexidade de Faulkner sempre me dá a impressão de ser um pouco postiça, sem a integração orgânica com a totalidade da obra que vemos em Joyce ou em Rosa. O enredo de O Som e a Fúria não deixa nada a dever a nenhum folhetim do século XIX: estupro, castração, amores incestuosos; há um claro descompasso entre o melodrama da ação e a sofisticação da linguagem. Além disso, muitas vezes a modernidade formal é apenas uma fina camada de verniz por cima de uma técnica perfeitamente convencional. Por exemplo, se você colocar uma pontuação normal nos diálogos entre Quentin e Caddy do segundo capítulo, toda a aparência de experimentalismo desaparece.

Francisco Perna — Joyce ou Rosa? Faulkner ou Ramos (Graciliano)? Tendo de optar, com quem o senhor ficaria?

Mas não precisa optar, não é? Assim, fico com todos, inclusive Faulkner, que apesar do problema que apontei continua sendo um excelente ficcionista.

Euler Belém — William Faulkner, suposto filho da tradição de James Joyce, é considerado um autor difícil de ser traduzido. O sr. traduziu o livro mais complexo dele, O Som e a Fúria. Como foi fazê-la? Quais as grandes e as pequenas dificuldades?

É um texto que apresenta várias dificuldades para o tradutor. Uma delas é insolúvel: a questão do dialeto racial. Como não existe dialeto racial no Brasil, fui obrigado a ignorar as marcas do black English; limitei-me a caracterizar a fala dos negros como subpadrão, já que os personagens em questão são de fato pessoas pouco instruídas. O primeiro capítulo, narrado por um deficiente mental, também foi bastante difícil. Já o problema da compreensão de algumas passagens obscuras foi resolvido por pesquisas na Internet e pela ajuda de um especialista em Faulkner da University of California at Los Angeles, o professor Stephen Yenser. No capítulo 4 há uma palavra que não encontrei em nenhum dicionário, nem na internet; perguntei o que era ao professor Yenser e ele me respondeu que ninguém sabia — talvez um cochilo do autor que, depois da morte de Faulkner, tornou-se impossível esclarecer o que é.

Euler Belém — A Germinal Editora copiou uma tradução antiga do romance russo Oblomov e mudou o nome do tradutor (o nome do tradutor original era Francisco Inácio Peixoto, um escritor modernista de Minas Gerais). Além disso, a editora mutilou a tradução anterior, “acrescentando” erros que não há na versão da Edições O Cruzeiro. Isto é praxe ou exceção no Brasil? Ocorre em outros países?

É o primeiro caso do gênero de que ouço falar. Realmente, não sei se já ocorreu em outros países.

Francisco Perna — Na prosa, quais são os seus autores preferidos?

São muitos: Kafka, Proust, Machado, Henry James, Joyce, Flaubert, Tchekhov, Dostoiévski, Tolstói, Melville, Cortázar, Graciliano, Guimarães Rosa, Gombrowicz, Céline, Campos de Carvalho...

Euler Belém — O que falta traduzir de importante de Henry James? The Ambassadors?


Muita coisa! The Ambassadors, certamente. The Wings of the Dove já foi traduzido? [Nota do Jornal Opção: o romance As Asas da Pomba, traduzido por Marcos Santarrita, foi publicado pela Ediouro.] Se não foi, é outra omissão importante. Mas sinto falta em particular de uma antologia bem gorda contendo alguns dos melhores contos de James. Ele é um contista magnífico, e alguns dos meus contos favoritos nunca saíram no Brasil, ou só saíram em edições mal divulgadas e já esgotadas.

Euler Belém — Como avalia o trabalho crítico de Marcelo Pen sobre A Arte do Romance (de Henry James)? (Trata-se de uma dissertação de mestrado publicada em livro pela editora Globo)

Ainda não li.  

Euler Belém — Monteiro Lobato foi um grande tradutor ou um grande adaptador que não se importava com a questão da fidelidade literária?

Nunca li as traduções dele, mas com base em artigos que tenho lido e conversas com pessoas que o estudaram, julgo que as traduções dele eram o que hoje em dia chamaríamos de adaptações.

Carlos Willian Leite – Como poeta o sr. disse que sua poesia tende mais para o seco que para o úmido, por quê?

Creio que o que eu quis dizer é que busco uma certa secura que admiro em alguns dos meus escritores prediletos — Kafka, Machado, Cabral, Flaubert: o uso da palavra exata, com pouca adjetivação, e com uma emotividade mais contida, sem muito derramamento.

Euler Belém — Como o sr. avalia a chamada “transcriação”, as traduções patrocinadas pelos irmãos Campos (Haroldo e Augusto)?

São os maiores tradutores de poesia que conheço. Foi lendo e estudando as traduções deles que aprendi a traduzir poesia. Só discordo do termo “transcriação”: o que eles fazem é tradução mesmo, a melhor possível.

Euler Belém — O sr. não acha que há certo exagero dos concretistas em colocar Sousândrade como um grande poeta? Ele não é apenas um poeta mediano, assim como Pedro Kilkerry?

Sousândrade sem dúvida é uma figura interessantíssima, e foi bom ele ser redescoberto. Mas a meu ver ele está muito longe de ser um grande poeta.

Carlos Willian Leite — O que restou das vanguardas?

As vanguardas tiveram a função de abrir muitos caminhos. Acho que ainda não exploramos suficientemente os filões revelados pelas vanguardas do início do século XX: eles abriram tanta coisa que um século ainda é pouco para esgotar o legado deles. Não estou dizendo que é impossível fazer algo de novo agora — sempre é possível fazer algo de novo, e no fundo só é interessante o que é novo. Mas o tipo de experimentação formal radical empreendida pelas grandes vanguardas clássicas, do período que vai mais ou menos da guerra franco-prussiana até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, é uma coisa que, pelo menos por ora, parece ter ficado para trás. Talvez porque tenha se tornado muito difícil acreditar em fórmulas únicas que resolverão todos os problemas, na arte ou na vida. As reflexões de Octavio Paz sobre os nossos tempos pós-utópicos me parecem irretocáveis.

Carlos Willian Leite — O que existe na poesia brasileira além de cabralinos e drummondianos?

Na minha opinião, existe muita coisa boa na poesia brasileira atual, e não acho que o que se faz agora não passe de pastiche de Cabral e Drummond, se é isso que você quis dizer com a sua pergunta. É natural que os poetas de agora estejam explorando o imenso território desbravado pelos modernistas clássicos. É de se esperar que estejam dialogando com Cabral e Drummond, e Bandeira e Pessoa e Murilo Mendes, e Eliot e Pound e Rilke e Mallarmé e García Lorca, e também com o concretismo e com a grande música popular dos anos 60 — para mim e para muitos da minha geração, Chico Buarque e Caetano Veloso e Bob Dylan também são mestres. É assim que se faz poesia: dialogando com os antecessores, respondendo a eles, por vezes até brigando com eles — Harold Bloom escreveu uma série de livros muito bons sobre isso, mostrando como os românticos ingleses tiveram que enfrentar a sombra acachapante de Milton. É justamente este diálogo com os “poetas fortes” das gerações anteriores que faz o que se chama de uma tradição.

Carlos Willian Leite — Wallace Stevens, que o sr. traduziu, disse que “um poema, assim como a maioria das coisas na natureza, não tem significado algum”. Concorda com ele?


Creio que nessa frase ele está se insurgindo contra uma tendência, fortíssima na época dele, de querer que a obra de arte tenha uma “mensagem” que possa ser resumida. Ele está chamando a atenção para o fato de que no poema o significado referencial tem menos importância do que a estrutura verbal em si, os sons e imagens; tal como uma paisagem natural, a beleza do poema não deve depender do significado referencial a ele associado.

Euler Belém — O sr. está traduzindo parte da poesia de Emily Dickinson. Como avalia as traduções anteriores de Idelma Ribeiro de Faria e de Aíla de Oliveira Gomes? O mais importante tem sido traduzido ou ainda há muito por traduzir? Paralelamente, não seria importante traduzir um pouco mais de Walt Whitman?

Não estou traduzindo Dickinson; apenas traduzi alguns poemas dela, que publiquei em Inimigo Rumor. Além das traduções de Idelma e Aíla, conheço também mais duas, de Lúcia Olinto e Isa Mara Lando. Todas (inclusive as minhas) têm altos e baixos, acertos e desacertos. Dickinson é dificílima de traduzir, e ainda não saiu uma antologia realmente representativa dela — talvez a da Aíla seja a que mais se aproxima disso. De Whitman saiu uma boa tradução do Song of Myself [Canção de Mim Mesmo, Editora Imago], de André Cardoso. Realmente, seria bom se alguém empreendesse uma boa antologia de Leaves of Grass, um livro tão importante para a poesia moderna quanto Les Fleurs du Mal. [As Flores do Mal, de Baudelaire; obra traduzida por Ivan Junqueira, para a Editora Nova Fronteira].

Euler Belém — Antonio Candido e Wilson Martins (o mais atuante) são considerados os grandes críticos brasileiros. Como avalia e diferencia o trabalho de cada um deles? E cadê os novos críticos?

A meu ver, Antonio Candido é o maior de todos, mas Alfredo Bosi, Davi Arrigucci, Silviano Santiago e Luiz Costa Lima também são muito bons; Bosi e Arrigucci são críticos literários no sentido estrito, enquanto Silviano enveredou pela crítica cultural e Costa Lima é acima de tudo um teórico da literatura. Os falecidos Mário Faustino e José Guilherme Merquior eram excepcionais analistas de poesia; e Roberto Schwarz propôs uma leitura de Machado que todo mundo terá de levar em conta de agora em diante. Os ensaios de Augusto de Campos sobre poesia e música popular são primorosos. Na nova geração, eu destacaria Flora Süssekind e Italo Moriconi. O melhor texto de crítica que li nos últimos meses foi o livro de Cristóvão Tezza sobre Bakhtin, Entre a Prosa e a Poesia: Bakhtin e o Formalismo Russo.

Euler Belém — Nos jornais atuais sobram resenhas, mas faltam críticas. O sr. acredita que há um público pouco interessado em críticas mais consistentes, maiores?

Acho que hoje em dia o lugar para essa crítica mais aprofundada talvez seja mesmo a revista literária. Publicações como Inimigo Rumor, Cacto e muitas outras estão abrindo lugar para uma crítica mais densa do que a jornalística. Mas no caderno Mais! da Folha de S. Paulo às vezes encontramos textos críticos com certa densidade.

Francisco Perna — O que deve ler um poeta, prosa ou poesia?

As duas coisas, sem dúvida. Quanto a mim, sempre li mais prosa — ficção, ensaios, crítica, diários, cartas — do que poesia.

Euler Belém — Como avalia o trabalho das revistas de cultura como Bravo! e Cult? As duas não estão descambando para o entretenimento, seguindo o ritmo dos jornais e revistas brasileiros?


Por que “descambando”? Desde o começo, Bravo! e Cult são revistas destinadas a um público mais amplo, ao contrário de revistas literárias no sentido estrito, como Cacto, Ficções, Inimigo Rumor, Sebastião, Azougue ou Coyote. Bravo!, em particular, é uma revista francamente voltada para o entretenimento, que noticia que peças teatrais e espetáculos de dança estão em cartaz. O que há de mau nisso?

Carlos Willian Leite — O que o sr. pensa sobre a poesia marginal? E especificamente sobre Paulo Leminski e Chico Alvim?

A poesia marginal foi uma reação saudável ao excesso de cerebralismo dos concretos. A maior parte dela ficou muito datada, mas alguma coisa sólida restou do movimento, como o melhor de Ana Cristina César e Chacal, entre outros. A poesia de Chico Alvim, que tem alguns pontos de contato com a poesia marginal, na verdade desde o começo tinha um diferencial: longe de ser um derramamento ingênuo das emoções pessoais, ela dava voz ao outro; com o passar dos anos ficou claro que o projeto dele é personalíssimo, e a meu ver admirável. Quanto a Leminski, seu trabalho me parece uma diluição do poema-piada oswaldiano com pitadas de concretismo, uma poesia que depende acima de tudo de trocadilhos e outros achados verbais que, quando lidos pela segunda vez, perdem boa parte do interesse.

Euler Belém — O sr. traduziu, há pouco, Mason & Dixon. Acredita que seja possível ler o romance de Thomas Pynchon sem um “guia Pynchon”, sobretudo se o leitor não quiser perder as referências? Como foi sua correspondência com o escritor durante o processo de tradução?

De fato, Pynchon é um desses autores que se calcam em referências numerosas. Felizmente, com a internet tudo ficou bem mais fácil: há um site dedicado a Pynchon que é da maior utilidade para seus leitores e tradutores. Quanto à minha correspondência com ele, como já comentei antes, foi da maior importância. Ele foi extremamente prestativo, me ajudou muitíssimo.

Euler Belém — O sr. só traduz do inglês? Gostaria de traduzir algum autor em outra língua?

Não domino outras línguas que não português e inglês.

Euler Belém — Qual grande obra gostaria de traduzir?

Muitas. Eu destacaria o Don Juan de Byron e The Changing Light at Sandover de James Merrill, dois poemas imensos e extraordinários. Na prosa, gostaria de traduzir mais Henry James, de quem fiz apenas um romance [Pelos Olhos de Maisie, Editora Companhia das Letras] e uma pequena antologia de contos [A Morte do Leão — Histórias de Artistas e Escritores, Editora Companhia das Letras].

Euler Belém — Qual grande obra teme traduzir?

Nunca parei para pensar nisso.

Carlos Willian Leite — Qual sua avaliação sobre a poesia do francês Yves Bonnefoy?

Conheço muito pouco da obra dele. E meu francês é fraco demais para eu poder julgar poesia francesa.

Euler Belém — Dizem que um poeta traduz melhor outra poeta. Mas o poeta não tende, ao traduzir outro poeta, outra persona, a se intrometer um pouco mais no trabalho alheio, introduzindo, ainda que filigramas, um pouco de si e de seu modo de fazer poesia?

Sim, e é justamente por isso que é bom poesia ser traduzida por poeta. É essa intromissão do tradutor no trabalho alheio que gera as grandes traduções. Uma tradução em que o tradutor não ponha nada de si será necessariamente uma tradução chocha. Só quem não tem nenhum conhecimento do que é o trabalho de tradução é capaz de imaginar que o tradutor pode ou deve ser neutro.

Carlos Willian Leite — Qual desses três livros indicaria a um amigo: Liturgia da Matéria, Mínima Lírica ou Trovar Claro?


Na minha opinião, meu melhor livro de poesia é Trovar Claro; Macau fica um pouco atrás. E o mais fraco é o primeiro, Liturgia da Matéria.

Euler Belém — O sr. vai traduzir mais algum Faulkner? Resta pouco a traduzir dele, não é?


Não está nos meus planos traduzir mais Faulkner, não.

Euler Belém — A tradutora mineira mineira Julieta Cupertino tem 96 anos e continua trabalhando, traduzindo, depois de Katherine Mansfield, Joseph Conrad (“Lorde Jim”, que também foi traduzido por Mario Quintana). O sr. conhece o trabalho dela?

Não.

Carlos Willian Leite — Qual o maior poeta de todos os tempos?

Essa pergunta não pode ser respondida por uma pessoa que, como eu, domina apenas dois idiomas, e lê mal e porcamente mais três (espanhol, francês e italiano). De qualquer modo, o poema mais extraordinário que já li foi mesmo a Divina Comédia.

Euler Belém — Quem é o maior poeta brasileiro vivo? Ferreira Gullar?

É difícil dizer; estou longe de conhecer bem as obras de todos os poetas brasileiros vivos. Dos que eu conheço melhor, Ferreira Gullar e Armando Freitas Filho são os que têm uma obra mais realizada.

Euler Belém — Qual é o maior poema brasileiro?

Dos que eu conheço, eu escolheria “Uma Faca só Lâmina” de Cabral e “A Máquina do Mundo” de Drummond.

Carlos Willian Leite — Quais livros o influenciaram?

Muitos. Os poetas que estão mais presentes no meu trabalho, creio eu, são Cabral, Drummond, Pessoa, Bandeira, Stevens e Dickinson; também Shakespeare e Whitman, autores que descobri ainda menino, deixaram suas marcas. A música popular dos anos 60 também é uma fonte importante, principalmente Caetano Veloso.

Euler Belém — Já pensou em traduzir a poesia de Emily Brontë? Tem o vigor do romance O Morro dos Ventos Uivantes?

Não sou um leitor entusiasta de Emily Brontë.

Francisco Perna — O sr. acredita na genialidade literária?

Bem, há escritores que consideramos muito, muito melhores que os outros, e esses nós chamamos de gênios. Para mim, é só isso.

Euler Belém — Ivan Junqueira traduziu todo o Eliot, em termos de poesia. Como avalia este trabalho? Não seria a hora de traduzir o Eliot ensaísta?

Ainda não li a nova edição do Eliot. Conheço a anterior, da Nova Fronteira, e é uma ótima tradução. [O tradutor é o mesmo Ivan Junqueira.] Sim, seria uma boa idéia alguém organizar uma antologia dos ensaios de Eliot.

Carlos Willian Leite — Ao decretar a finitude e romper com o transcendentalismo, sua poesia caminha em direção a Cabral de Melo Neto, porém, mais urbano, sem os Severinos e aquela coisa meio Tieta do Agreste. Além dessas duas últimas, quais outras características diferenciam a poesia de ambos?

Sem dúvida, Cabral é um dos ancestrais com que mais dialogo. Cabral e Drummond são as duas referências mais fortes para a minha geração, e creio que para a seguinte também. Porém, ao contrário de Cabral, que faz questão de negar a subjetividade, eu tomo a subjetividade assumidamente como ponto de partida. Mas minha afirmação da subjetividade é sempre irônica, cautelosa, desconfiada, ressabiada, em parte porque estou o tempo todo tendo que responder a Cabral, me afirmar diante dele.

Carlos Willian Leite — Alguns de seus poemas revelam profundas inquietações, fazendo blague na forma de encarar a vida. Isso é autobiográfico?

Tudo que posso dizer é que meus poemas estão ligados à minha visão do mundo e da vida, sim, mas não são estritamente autobiográficos. Um dos efeitos do trabalho com a forma é precisamente este: despersonalizar um pouco (não totalmente) o poema, tornando-o mais autônomo em relação ao autor e (espera-se) mais universal.

 


leia mais...
POR EM 17/11/2008 ÀS 06:49 PM

A fidelidade estética de Ednardo

publicado em

"Em meu estoque de propósitos não está disponível vender o que não ofereço, nem existe vaga para compradores de meus sonhos. Acho que caminho à minha própria luz e não está em minhas preocupações obter massificação ao custo da integridade artística ou do que possa aviltar aquilo em que acredito"

“Em meu estoque de propósitos não está disponível vender o que não ofereço, nem existe vaga para compradores de meus sonhos. Acho que caminho à minha própria luz e não está em minhas preocupações obter massificação ao custo da integridade artística ou do que possa aviltar aquilo em que acredito”

Quem não se lembra de “Pavão Misteryozo”, “Artigo 26”, “Terral” e “Enquanto Engoma a Calça”? Bastariam essas quatro canções — sucesso de público e crítica — para inscrever o cearense Ednardo entre os grandes músicos da MPB. Ao lado de Belchior, Amelinha e Fagner, ele foi um dos integrantes do Pessoal do Ceará, grupo que, a exemplo dos Novos Baianos de Moraes Moreira & Cia., reabriu o caminho do Nordeste na música popular brasileira, depois do sucesso do tropicalismo de Caetano e Gil.

Natural de Fortaleza, onde nasceu em 1945, José Ednardo Soares Costa Sousa estudou piano e violão na juventude e graduou-se em química pela Universidade Federal do Ceará. Em 1972, gravou seu primeiro disco (um compacto duplo), com a cantora Eliana Pittman. No ano seguinte, juntamente com Rodger e Teti, gravou o disco Pessoal do Ceará, que iria tornar nacionalmente conhecido o movimento que se iniciara no final da década de 60. Radicando-se em São Paulo, com outros integrantes do Pessoal do Ceará, apresentou-se em programas da TV Cultura.

Mas o sucesso veio em 1976, com a música “Pavão Mysteriozo”, trilha sonora da novela Saramandaia, da Rede Globo. A partir daí, Ednardo firmou-se como um dos ícones da nova música nordestina, que tomou conta das rádios do país na primeira metade da década de 80, até que o rock nacional e, depois, a música sertaneja e o axé, viessem a expulsá-la da mídia. Ednardo, como outros grandes músicos brasileiros, deixou de tocar no rádio. Mas sua música indelével manteve o público fiel. Não só no Brasil, mas também na Europa, na Ásia, nas Américas.

Com 32 anos de carreira em disco e mais de 250 músicas gravadas, Ednardo manteve-se fiel a uma proposta estética que prima pela qualidade, fundindo o regional e o urbano, a sofisticação e a singeleza. Em 2002, ele juntou-se a Belchior e Amelinha para reviver o Pessoal do Ceará, num disco que leva esse nome. O CD traz os clássicos do grupo e duas canções inéditas, entre elas a bela “Mote, Tom e Radar”, do próprio Ednardo. Antes, em 2000, ele lançou o disco Única Pessoa, em que mostra o seu lado de intérprete.

A revista eletrônica Bula, por intermédio de seus editores, conversaram com Ednardo. O resultado da conversa, via correio eletrônico, revela não apenas o grande compositor e intérprete da MPB, mas o artista consciente das mazelas da indústria cultural. Nesta entrevista, Ednardo explica qual o verdadeiro significado do Pessoal do Ceará, critica o jabá que impera nas emissoras de rádio e não poupa o conterrâneo Fagner. E mostra que sua arte continua mais viva do que nunca, encantando o país à revelia da mídia.

Carlos Willian — Onde você nasceu?

Em Fortaleza, em uma casa à Rua Senador Pompeu. Os cearenses brincam, dizendo que é a rua mais extensa do mundo: inicia na beira da praia, atravessa em linha reta toda a cidade, transforma-se em estrada, vai pelo interior do Ceará, em direção a todo o Brasil.

Carlos Willian — Há artista injustiçado?

Não; sim; talvez. Quem saberá o que é isto que trafega entre a bruta força dos meios, onde os artistas navegam com sutilezas? Grandes gravadoras e a mass mídia, com raras e honrosas exceções, têm tratado o assunto música brasileira, com distanciamento, desconhecimento e outros interesses prejudiciais às nossas diversidades e riqueza musical, rítmica, poética e estética. Não é difícil perceber. Escutem rádios, vejam tevês, saibam como se escolhem prioridades de lançamentos de discos, patrocínios, projetos artísticos, quais espaços e horários de programações. Àquilo a que grande parte da massa tem acesso está muito aquém da importância e popularidade das artes e músicas realizadas pelos artistas brasileiros. É só viajar por esse país para se perceber isso. A sensibilidade aflora, o povo brasileiro é sofisticado em sua cultura popular e exige ser tratado com respeito, e requer ter acesso ao reflexo de seu verdadeiro espelho, em todas as cores e estéticas. O país é gigantesco, seu povo maior ainda. Sabemos que a grande indústria cultural, aquela que comanda espaço e tempo na mídia, tem objetivos diferentes da indústria cultural nacional que enfrenta sérias dificuldades para o seu crescimento. A consciência quanto à atenção aos produtos audiovisuais, livros, teatro, cinema etc., valorizando seu povo, costumes e identidade, que são de importâncias fundamentais para se construir uma nação, fica em segundo plano. O brasileiro, nos tempos atuais, tem poucas opções e passa a consumir o que for filtrado e decidido por terceiros e seus representantes, empurrado entre campanhas publicitárias, marketing e canhões da mídia. A afirmação não é individualista, nem xenófoba. A manipulação instituída pelo jabá pode ser chamada de crime irresponsável e indistinto, e estão fazendo isto com nosso povo, e seus artistas — antenas da raça — como fala Ezra Pound. Adjetivar no sentido singular é tentar desviar o foco da verdadeira questão.

Carlos Willian — Zeca Baleiro afirmou que você o influenciou. E quanto a você, quais foram as suas influências?

Li matérias de vários artistas com essa afirmativa. Penso que são influências naturais e iniciais de admiração, respeito e aprendizado para depois decolar livre. Claro que também tive mestres, aprendendo bastante com todos. Ao começar a fazer música, estudava piano clássico e popular, entre os cinco e quatorze anos. Freqüentava auditórios de programas de rádios que apresentavam cantores e orquestras de fama nacional ao vivo, ao mesmo tempo escutava o que as rádios de Fortaleza, Rio de Janeiro e vários países ofereciam aos ouvintes. Tínhamos um rádio valvulado com ondas médias, curtas e tropicais, onde todas as correntes musicais coexistiam fartamente difundidas e uma discoteca ampla que eu tratava com carinho desde os discos de cera dos meus pais aos long-plays que passei a adquirir com freqüência. Tanto em Fortaleza quanto em viagens aos litorais e interior do Ceará mais distantes, ia aos espaços públicos de carnavais e feiras livres, para ver e escutar maracatus, violeiros repentistas e sanfoneiros, bumba-boi, congados, frevos, forrós, cocos, emboladas e sambas, descobrindo músicas, ritmos afro-brasileiros e indígenas e suas vertentes culturais. Entre os 15 e 25 anos, meu instrumento mais constante foi o violão, tanto na vertente dos movimentos musicais que vinham de fora, rock, blues e jazz, quanto na vertente brasileira, baião, bossa nova, samba, choro, além da vertente latina, bolero, rumba. As músicas de protesto contra guerras e ditaduras, chegaram ao nosso conhecimento, e percebemos o que acontecia na América Latina com regimes políticos autoritários e totalitários que alguns tentaram combater pelas armas e outros pelas artes. Também acontecia o pessoal da Bahia, São Paulo, Rio, Minas, Recife, Paraíba, Piauí, e de muitas outras regiões do país. Fui abençoado por todas estas vertentes que eivaram meu espírito e criatividade. É uma lista enorme de influências, acho que dá para ter uma idéia. Agradeço aos sábios mestres terem me proporcionado este universo. Os melhores ensinamentos que o conjunto das influências proporcionaram foi, sem dúvida, ter mente, sensibilidade e consciência, voz e conteúdo para cantar e ouvidos abertos e atentos, com plenitude de emoções e compreensão do que somos.

Carlos Willian — Alguns críticos dizem que você ficou à sombra de Fagner, mesmo sendo um artista mais completo do que ele. Em sua opinião, por que você não alcançou a mesma projeção?

Do ponto de vista artístico, a abordagem é inusitada e desconheço comentário neste sentido. Quem possui visão abalizada e isenta e conhece nossos trabalhos artísticos, não se refere desse modo ao que tenho realizado nestes 32 anos de música. Somos diferentes e distantes o suficiente, o que impossibilita essas colocações. O fato de sermos conterrâneos, de uma mesma geração criativa, não induz comparações de nossas obras, de nossos projetos artísticos e existenciais. Não se trata de valoração pessoal, é uma constatação, sem equívoco.

Em meu estoque de propósitos não está disponível vender o que não ofereço, nem existe vaga para compradores de meus sonhos. Acho que caminho à minha própria luz e não está em minhas preocupações obter massificação ao custo da integridade artística ou do que possa aviltar aquilo em que acredito. Está implícito e explícito em minha obra e posição existencial. Porque querer essa tal de “mesma projeção” onde alguns para alcançá-la vendem a alma?

Antônio Carlos dos Santos
— Por que não se escuta mais Ednardo nas rádios?

Não se escuta mais, com tanta freqüência, grande e impressionante quantidade de artistas brasileiros. É esclarecedor se programadores destes meios e seus departamentos comerciais respondessem à pergunta de forma clara e verdadeira. São eles que são comandados na “escolha” e oferecem ao público o que escutamos e vemos e deixam grande parte do que representa a música brasileira fora da lista do que é difundido. Foi o que mostrou criteriosa pesquisa realizada pelo jornalista Sérgio Rubens Torres e publicada no jornal Hora do Povo, de São Paulo. Recomendo a leitura desta matéria, que pode ser encontrada na Internet (www.horadopovo.com.br/2004/julho/16-07-04/pag8a.htm).

O Jabá! Prática famigerada das gravadoras que estabeleceu a censura econômica junto com a conivência e interesses de alguns meios de comunicação e massificação. Junto ao pagamento, enviam a lista de poucos artistas e tendências musicais de seus casts aos controladores do mass media. As trinta moedas da traição à música brasileira têm forma sutil, sem rastros visíveis dos “serviços prestados” por corrompidos aos corruptores. Outras terríveis formas de convencimento são as demissões sumárias daqueles que ousam divulgar o que não está na lista ou quando expressam suas opiniões. E isto não é só na área da música.

Talvez alguns executivos de gravadoras atualmente se arrependam de ter criado o monstro que anualmente custa aos seus departamentos, 95 milhões de reais e tende a crescer, pois a fome dos que atendem ao controle é insaciável.

Deixo bem claro, que seria injusto generalizar, pois alguns meios de comunicação, cada vez mais raros, demonstram em planilhas do Ecad que, em várias cidades e emissoras, continuam sendo difundidos, para grande número de ouvintes, muitos artistas brasileiros sem que seja necessário pagar para tocar. São emissoras que dignamente entendem o que significa concessões públicas, além de propósitos comerciais, e sabem que música é música e comercial é comercial e que sem cultura própria tudo fica nas mãos de outros, incluindo a opção de escolha individual ou coletiva.

Antônio Carlos dos Santos - Você é um tipo raro de artista que, mesmo estando fora da mídia, tem um público cativo. Por quê?

Tipos raros de artistas existem em vários segmentos da música brasileira. Mídia é o conjunto de meios de comunicações, veículos, recursos, técnicas, suporte, tecnologias de gravação e registro de informações, jornal, livro, rádio, televisão, cinema, audiovisuais, discos, DVD, vídeo, internet, show, divulgação, etc. Quanto ao público que prestigia meus shows e discos, é bem mais amplo.

Tenho, atualmente, mais de 350 obras e gravações registradas em discos originais e compilações, trilhas de cinema e teatro, especiais de televisão. Isso resulta, em média de registros, mais de 12 músicas por ano ao longo de 32 anos. Realizo shows pelo Brasil que geram matérias em jornais, rádios, tevês, em espaços significativos. Os produtores de shows constatam a receptividade da platéia em eventos de médio e grande portes. Então, não estou tão fora da mídia assim. Na mídia limpa, sem forçar a barra, estou presente. Nenhum artista resistiria tanto tempo sem a mesma. Essa constatação é compartilhada por muitos e em grande escala nestas viagens pelo Brasil.

Acho que não cabe a mim, explicar, esse fato, o que sei é que, desde os primeiros discos, é visível a aceitação popular. Penso que não me distanciei do depositário da cultura popular do qual recebo e ao qual devolvo. Assim demonstram sucessos de várias músicas. Reservo espaço onde outras pessoas interagem com seus próprios sonhos e realidades, formam imagens exclusivas em novas combinações das histórias do cotidiano, reportagem do que penso que merece ser musicado, pontes entre minha percepção e personas que habitam o coletivo existencial de cada um de nós. Algumas são aceitas de imediato pelo povo, outras passam pelo tempo necessário à percepção geral. Especialistas musicais e culturais atestam que existe alquimia sonora e de palavras que, juntamente com a minha posição existencial, artística, formam conjunturas de credibilidade em diferentes abordagens válidas e atuais em várias faixas etárias e segmentos sociais. Estou no meu lugar e a realidade também pertence a todos.

Antônio Carlos dos Santos
— Como é o seu contato com o Pessoal do Ceará? Ficou mágoa de algum deles?

Sempre que nos encontramos existem momentos gratificantes. Conversamos sobre arte, vida, cultura, lances normais do cotidiano. Alguns projetos se concretizam, outros são adiados. Nesse ano, realizamos shows, para um grande público, no Festival de Inverno de Petrópolis e Friburgo, no Rio de Janeiro — Ednardo, Amelinha e Belchior, que gerou nosso disco lançado na Warner em 2002. O show de Fortaleza, em 2001 (Ednardo, Belchior e Fagner), não gerou disco, embora com um público de 100 mil pessoas. Outro encontro foi o show gravado pela TV Globo, no Som Brasil (Ednardo, Amelinha, Belchior), com público idêntico, mas também sem disco.

Mas tem a Massafeira 1979 com mais de trezentos artistas de diversas áreas e gerações criativas que resultou no disco duplo Massafeira (CBS, Sony, 1980), que é um capítulo especial do Pessoal do Ceará. E ainda o Balanço da Massa (Fortaleza, 1995), junto com artistas da nova geração. É preciso entender que Pessoal do Ceará é bem maior que o grupo que a mídia costumou citar. Quem tem o primeiro disco Pessoal do Ceará (Ednardo, Teti, Rodger Rogério), lançado pela Continental em 1972, um vinil capa dupla, sabe da diversidade e valor de muitos nomes citados na capa interna e também da diversa significação artística nos segmentos de música, poesia, literatura, artes plásticas, teatro e outras formas de expressão. Como em todo grupo, principalmente de pessoas ligadas ao fazer artístico e cultural de qualquer lugar, existem naturais competições de egos e defesas de ponto de vista estéticos devido à diversidade de propostas, que são resolvidas com inteligência, amizade, civilidade e bom humor. Dificilmente perduram mágoas ou qual quer coisa desse tipo, a não ser se falta de ética, mas aí já é outra coisa.

Antônio Carlos dos Santos — Quais são as novas revelações da música brasileira?

A cada geração que se renova, conhecemos valorosos autores e intérpretes. É vital que cada geração artística reconheça a importância daqueles que a antecedem e seja generosa com aqueles que chegam na continuidade evolutiva da música brasileira. Também temos a realidade absurda que embota e apaga o que é significante dos registros e memórias brasileiras. Às vezes, para falar do presente, é necessário dar uma volta no passado para termos saudades do futuro. Desenvolvemos projetos neste sentido: Nosso primeiro disco já tinha esta característica de entender individualidades criativas dentro de processos grupais. Também lançamos o primeiro disco dos piauienses Climério, Clodo e Clésio, livro de poesias do Brandão, primeiras músicas dos cearenses Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Fagner, Ricardo Bezerra, os movimentos da Massafeira Livre e Balanço da Massa.

Especialmente a Massafeira uma das mais ousadas e seminais iniciativas de mostrar ao país o que acontecia em termos de arte contemporânea espontânea e enraizada no final dos 70 para o início dos 80. Grande feira cultural feita por nós artistas, sem nenhuma injunção exterior, juntou música, artes plásticas, literatura, teatro, dança, cinema, artesanato e culinária sem nenhuma espécie de filtragens, com artistas de várias regiões, mais de 300, reunidos no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, em março de 1979. Depois, outros tantos na gravação do disco duplo no Rio de Janeiro. E, em seguida, para lançar o disco duplo no Theatro José de Alencar, em outubro de 1980. Mas muito pouco se falou no Brasil da importância da Massafeira. Desde os meus primeiros discos coabitam várias gerações. A constante vem aos mais recentes discos, como Única Pessoa, que tem autores de várias regiões: Rio de Janeiro, Ceará, Piauí, Goiás, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pará, Maranhão, Paraíba. Acompanho a cena musical brasileira sempre que possível. Percebo que de todos lugares despontam pessoas que se somam aos que já têm estrada. A quantidade e qualidade de discos nas áreas alternativas e independentes, e alguns poucos de forma bem mais rara nas majors, tem seu devido reconhecimento. Muitos dos bons, estão lutando por seus espaços e colhendo frutos, mesmo que o terreno atual esteja difícil de plantar. Mas é delicado nominar artista ou grupo, no estágio inicial do que chamam “os novos”. Citar alguns, é possível esquecer outros também importantes, e não quero para mim a função de ficar indicando ou descobrindo novos talentos de maneira paternalista, parecendo que não tenho assunto próprio para colocar em pauta. Mas continuo a ter olhos e ouvidos atentos para o que acontece com a mesma capacidade de abraçar e dizer: sejam bem-vindos.

Carlos Willian — Quem é o maior compositor brasileiro: Chico ou Tom?

Justamente pela compreensão do gigantesco universo da música brasileira, seria adequado fazer uma lista bem maior, lógico que também incluindo estes bem-citados artistas e muitos, muitos outros. Seria indelicado escolher “o maior” entre todos. A música brasileira não é somente aquela feita em determinada região, ou por compositores de correntes musicais ou gerações criativas, ou ao que é visível na atualidade. É muito mais do que isso.

Carlos Willian — A letra da música “Ima” aparece em alguns livros de literatura. Em sua opinião, letra de música é poesia?

Além desta, outras têm sido usadas em livros de literatura, compilações de poesia, crônicas e até em livros didáticos. Partindo do princípio de que poesia pode ser musicada, em contrapartida, muitas letras de música, quando realizadas com critério, também existem como poesia, independentemente da música. É um fato que se observa com freqüência desde os antigos bardos e trovadores até as obras lítero-musicais atuais no Brasil e no exterior. A música brasileira está plena desses exemplos. Não pretendo enquadrar o que escrevo para minhas músicas nessas categorias de poetas ou letristas. É outra forma de juntar sensações que se completam pela música.

Carlos Willian — A música “Lagoa de Aluá” foi feita para alguém em especial?

A letra desta canção é do parceiro Climério. Fiz a música com outro parceiro, o Vicente Lopes. Climério foi passar férias em Fortaleza, e nosso parceiro Dominguinhos também estava por lá. Apostamos para ver quem faria mais músicas e letras durante 30 dias. Muitas são desta fornada: “Enquanto Engoma a Calça”, “Lagoa de Aluá”, “Brincando é que se Aprende”, “Flora” e outras ainda inéditas. Climério é um dos grandes letristas e poetas atuais. Pouco conhecido do público, suas letras fazem parte de vários sucessos na música brasileira. Tive a honra de produzir seu primeiro disco, em que também estão seus irmãos Clodo e Clésio. O disco chama-se São Piauí. Professor e mestre de comunicação da UNB, Climério tem vários livros de poesias. É um mestre das artes.

Antônio Carlos dos Santos — Qual a sua opinião sobre a ditadura musical da atualidade?

Revisitando o passado não tão distante, durante a ditadura militar, a indústria fonográfica atual foi implantada por empresas multinacionais e obteve regalias bastante significativas, tais como isenção de impostos e outras benesses governamentais. Com o poder destas corporações, as gravadoras nacionais foram sendo aniquiladas ou compradas. No período da distensão, veio a farra de distribuição de concessões de emissoras de rádio e TV, como moeda de troca para aprovações de projetos governamentais. Formaram-se monopólios e oligopólios, entre parlamentares do Congresso, amigos de políticos, fortes grupos econômicos que começaram a disputar o jabá das gravadoras e foi virando uma bola de neve. A música começou a ser entendida nesta espécie de negociação como comercial ou jingle, os espaços foram leiloados para quem der mais. A nivelação pela disponibilidade de pagar misturou o trigo e o joio e foi instituída a ditadura econômica, que é resultado destes e outros tipos de realidades extremamente prejudiciais à música brasileira.

Antônio Carlos dos Santos — Você acredita ser viável o caminho percorrido pelo cantor Lobão, de buscar uma alternativa para a onipresença das gravadoras?

Muitos dos mais importantes artistas brasileiros e os que iniciam carreira atualmente, cada vez mais, procuram viabilizar caminhos próprios de forma a não ficar reféns deste absurdo tipo de censura. Formam seus próprios selos de gravação, editoras e gravadoras individuais ou procuram gravadoras independentes e alternativas para escoar com maior liberdade suas obras. Esse caminho ainda enfrenta problemas de percurso na distribuição, divulgação e, principalmente, na perspectiva que meios de comunicação de massa sejam realmente democráticos. Por sua vez, os artistas devem se informar melhor e manter união em busca dos melhores objetivos gerais que atendam as partes. É essencial que o governo brasileiro, Ministério da Cultura, políticos, estejam juntos aos artistas brasileiros. Aliás, todos estão nesses cargos porque ali foram colocados pelo povo brasileiro. Eles precisam perceber o que está acontecendo e tomar providências. A demora pode ser interpretada como se houvesse outros interesses atrapalhando. Tramita no Congresso projeto de lei que criminaliza o jabá. Ele é altamente danoso a todos. É, na verdade, dumping e concorrência desleal e ilegal. Deve ser combatido pelo governo de qualquer país. É contraproducente aos esforços de brasilidade na área de produção artística musical, uma das maiores do mundo em sua capacidade criativa.

Carlos Willian
— Como é sua relação com a Internet?

A Internet é evento maravilhoso, uma das grandes descobertas da humanidade. Possibilita movimentação de informações atuais em velocidade e democracia nunca antes imaginadas. Compreendida por muitos como marco da civilização mundial, tão importante como a invenção da roda, do rádio, do avião, dá um salto quântico para a locomoção e comunicação virtual. Como é utilizada é outra história. Muitos que mergulharam nos livros de George Orwell, de Isaac Asimov e outros autores são partidários da idéia que ficção e realidade têm proximidade preocupante: o controle geral do big brother, o longo porrete da persuasão que tudo vê e administra, as leis da robótica descumpridas. É comum falar de hackers do bem e do mal. Entre programas, programações de sistemas, cookies, vírus, antivírus, firewall, e-mails, sistemas de telefonia fixas, celulares, satélites etc., nada disso deixa dúvidas que tudo é xeretado, acompanhado e às vezes conduzido à sua revelia por outros. Filmes e livros de ficção assustadores antecipam o que virá ou constatam o que já é feito, e esta tecnologia de ponta é domínio de poucos. Qualquer pessoa ao entrar na rede já está dando informações e recebendo recados da humanidade, resta saber de quem e para quem. De minha parte sou entusiasta e uso com comedimento.

Carlos Willian — Quais livros fizeram ou estão fazendo sua cabeça?

Tenho acesso a muitos livros desde quando menino. Cultivo o hábito de leitura ao longo de minha adolescência. Escolher especificamente alguns livros-cabeça fica difícil. Livros de cabeceira seria relativamente mais fácil porque estou ao lado de minha estante com muitos nas prateleiras, não tem todos que quero, mas também é impossível ler tudo. Leio da forma que me apraz, às vezes do início ao fim, incluindo as orelhas. Outras, folheando páginas ao sabor de abrilas aleatoriamente, e outras leio das últimas páginas para as primeiras, e tem aqueles que tenho, e ainda não li, aguardo vontade. É essencial ter bons livros, discos, revistas, publicações; ver bons filmes, sobre diversos assuntos, diversas vertentes. O material imaterial dos pensamentos humanos registrados nestes formatos, tudo o que for digno do interesse de cada um. Existe muito que se ver, bulir, nesses ícones da sabedoria. O que significa tocá-los, comover-se, sensibilizar a si próprio com os conhecimentos adquiridos, concordar, discordar, mudar de posição, ficar na mesma, se possível.

Carlos Willian — A música pop é descartável?

O que é descartável é a baixa qualidade musical de qualquer onda pré-fabricada e modismos que passam. O que é consistente continua e fica. Além do mais, pop não necessariamente é sigla de popular, como pensam muitos. Dizem que a expressão pop usada na indústria se origina de “Point of Payment” — é quando o investimento em determinado produto atinge o ponto de equilíbrio entre o que foi gasto na produção, fabricação, difusão e distribuição, e passa gerar lucros por sua venda. Na música, essa tendência chegou do exterior a reboque de grupos que fazem do fácil consumo e assimilação geralmente pobres de músicas e letras seu principal lema. Utilizam “investimento” de jabá e outros efeitos mirabolantes, coreografias aeróbicas e sensuais pra uma parcela da moçada cheia de hormônios gastarem suas energias e dinheiro. É diretriz de executivos em alguns países que passaram a inventar, produzir e contratar shows de grupos e subgrupos nesta formatação. Em Pindorama se plantando, tudo cresce e floresce. Quanto mais baixo o nível pop, mais pipocam de todos os lados pop-rock, pop-samba, pop-mpb, pop-sertanejo, pop-forró, pop-axé, pop-romântico, pop-rebelde. Alguns detestam e combatem a vertente que é aceita pelos menos exigentes. Acredito no poder da deglutição, transformação e devolução de outra forma mais criativa e plena que inúmeras vezes a música brasileira demonstra ter.

Antônio Carlos dos Santos — Quais são os caminhos para a música regional brasileira?

Todo tipo de classificação, reduz e apequena. Na música é maneira de compartimentar, segmentar e controlar. Indicar caminhos seria ainda mais complicado. Abstraindo a questão, estão abertos todos caminhos possíveis e imagináveis ao que se inventar. Como música regional, entendo aquilo que é feito por artistas de uma região ou local. Para tornar o regional em amplitude universal, existem fatores, entre os quais a importância e densidade do centro emissor, maestria e qualidade das músicas e letras ou poesias, o carisma de artistas e grupos e, principalmente, a junção desses itens abrangentes nas propostas junto à identificação pública, descobrindo-se os meios que realizem estes objetivos. Toda e qualquer música tem seu berço em regiões, cidades, bairros, zonas. Nenhuma nasce universal. No Brasil, foi e é assim com o samba, choro, bossa nova, tropicália e tantos outros movimentos e tendências da música feita por brilhantes artistas residentes em qualquer lugar deste imenso país. O que torna mais amplo é a junção dos ingredientes que emulam o povo brasileiro a entender esse liquidificador cultural e estético, a aceitá-lo como sua mais completa tradução naquele instante. Cada região do Brasil é plural e tem características próprias. Unificadas pela língua, mas com códigos próprios e características culturais longe da hegemonia que aniquilaria nossas ricas diferenças. Ao cultivarmos a pluralidade cultural, musical, religiosa, política, costumes, junto com nossa miscigenação racial, marcamos um ponto gigantesco a nosso favor, mas, em paralelo comparativo, se não cuidarmos bem deste dom natural, seremos fatiados como no modelo das capitanias hereditárias entre feudos, quilombos e arraiais, em pequenas repúblicas das bananas e outras lavouras arcaicas. Chegando ao Pessoal do Ceará e à nossa geração criativa, inicialmente atuamos nas cenas de nossos locais, estávamos sabendo e sentindo na pele os fatos, tínhamos conhecimento do que era oferecido e também querendo oferecer algo para interagir, participar e atuar de forma ampla na música brasileira. Esta realidade, era a mesma em outras regiões. Saímos daqui, dali, de todo lugar, em meados dos anos 60, e chegamos à caixa de ressonância do Sudeste, levando à cena brasileira nossas músicas. Nos anos 70, fomos abrindo espaços para outras estéticas de ver e sentir. De várias regiões que chegávamos nos identificaram, junto aos nossos nomes, os locais de origem: “do Ceará, “de Belém, “Mato-grosso, “de Recife, “da Vila, “Baianos, “da Paraíba, “da Mangueira, “do Estácio, “do Piauí, “de Pernambuco, “da Fronteira... Até hoje não se sabe se forma simpática de entender o Brasil do tamanho que é, ou disfarçada forma de segregação. Era comum referirem-se à nossa música como “invasão nordestina”. Outros a classificaram como regionais. No entanto, são músicas e letras/poesias que tocam pessoas de todo o país e exterior — sem sombra de dúvida, brasileiras. São centenas de artistas de várias regiões que responderam ao chamado do povo brasileiro. Enfrentamos o exílio em nossa própria terra, lutamos pela volta dos banidos, construímos, com vigor, páginas plenas da música brasileira que o povo não esquece. Até hoje não são justos com os artistas desta geração, os estudos e reconhecimento de nossas obras em termos coletivos e individuais. Saltam por cima sem cerimônia, como se fosse período insignificante de conteúdo. Como se aquele tempo tão negro da história política brasileira tivesse fechado olhos de estudiosos e críticos à intensidade de luz que emitimos e que servem de faróis até hoje.

Antônio Carlos dos Santos — O que as gravadoras buscam num artista?

É necessário entender diferenças entre diversos tipos de gravadoras existentes no Brasil. As maiores empresas da indústria fonográfica no Brasil, atualmente em número de quatro mega corporações, controlam quase 90 por cento do mercado do disco e execução pública. Têm matrizes no exterior e suas atividades não se limitam ao meio musical. Como qualquer empresa desse tipo, buscam lucro, prestígio da marca, competição de mercado, remessas de lucros e cuidam de suas ações nas bolsas mundiais. Empresas de capitais mistos, representadas, interligadas, meios de comunicação, grupos empresariais, religiosos, são dezenas e têm 7 por cento do mercado do disco e execução pública. Matrizes no Brasil e outras não se sabem. Gravadoras nacionais, selos individuais e artistas independentes são centenas e têm 3 por cento do mercado do disco e execução pública. Com matrizes no Brasil, seus proprietários são geralmente pessoas da área artística, ou interligada diretamente à produção empresarial artística. O artista é o lado mais sutil da engrenagem, oferece suas obras, interpretações e idéias, sem as quais nenhuma gravadora existiria. Quando é aceito, faz e, ao mesmo tempo, não faz parte das gravadoras, não é empregado nem executivo, seu contrato é temporário por obras gravadas ou anualmente dependendo da vontade dos contratantes e resultados de vendas. A não ser no caso específico do artista ser dono de sua própria gravadora, editora e voz. Paradoxalmente, somos a parte mais importante e dispensável do sistema. Não é preciso grandes exercícios para se entender esta vulnerabilidade e o que as gravadoras buscam em cada caso. Neste universo coexistem interesses diferentes. O artista pode ser manipulado em sua vontade, servindo de marionete, ou respeitado como mestre em sua arte.

Carlos Willian — Você fica incomodado com o fato de ter ficado marcado por uma música que foi tema de novela?

Não tenho este preconceito. Por que algum artista ficaria incomodado em ter uma de suas músicas utilizadas em tema de novela? A utilização foi digna e escolhida por mestres como Walter Avancini e Dias Gomes. Nos dias de hoje, gravadoras e artistas se debateriam ou pagariam para estar presentes naquela obra audiovisual, mas, naquele momento, foi espontâneo e serviu para o grande público ter conhecimento do restante das músicas dos três primeiros discos que eu havia gravado anteriormente. Em meu acervo autoral constam mais de 600 músicas entre gravadas e inéditas, todas me marcam e minha marca está em todas. Não no sentido de incômodo. Eu mesmo as fiz e seria absurdo não considerar todos os frutos bem-vindos. Além do mais, a música “Pavão Mysteriozo”, realizada e gravada 1973 no disco O Romance do Pavão Mysteriozo é um link entre a literatura de cordel, o ritmo afro-brasileiro do maracatu e a música urbana. Atualmente, foi utilizada em mais de 30 regravações no Brasil e no exterior, além de ter sido tema principal do excelente folhetim popular Saramandaia, de 1976. Foi também tema indígena em ritual sagrado no Xingu e é considerado hino pelos Blocos de Maracatus do Ceará. Tem versões para outras línguas e foi utilizada pelo pessoal do GLS em desfile para 1 milhão e 100 mil pessoas em São Paulo. Cantadores e repentistas do Nordeste também a perpetuam no universo popular. O Ballet Stagium, um dos mais respeitados no mundo, a colocou em seu repertório de apresentações. Em qualquer lugar do Brasil todos cantam, em diversas faixas etárias e segmentos sociais, mostrando que a importância da música vai além de suas utilizações.

Carlos Willian — Na sua opinião, Fagner se vendeu?

lém da polarização complexa da pergunta, deixo claro que não costumo opinar sobre direcionamento de cada um à sua arte. Mas, é conhecido que Fagner criou espécie de persona com a qual conseguiu ser aceito no meio artístico, estribado em seu talento e atritos com gravadoras, artistas de destaque na cena musical brasileira. Ter diferenças com modus operandi de gravadoras é considerado normal no Brasil, mas desentender-se constantemente com colegas e companheiros artísticos é estranho. Se a estratégia deu certo durante algum tempo, ao se colocar em pauta na mídia abusando do clichê, o tornou refém da caricatura de si próprio e cansou o público. Quando ocupou cargo executivo na CBS, ele se auto-instituiu gerente da música de artistas nordestinos ao seu critério pessoal. Tentou fazer aquilo que achava que Caetano Veloso fazia na Polygram. Entre os mesmos foram registrados constantes bate-bocas via imprensa. Foram se juntando desacertos com Elba Ramalho, Robertinho do Recife, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Belchior, Biga Maia, viúva de Petrúcio Maia, Patativa do Assaré, com a família da poetisa Cecília Meirelles, e a família do autor Heckel Tavares e outros. Suas atenções mergulharam em opção declarada para atender solicitações de mercado a qualquer custo. Diferente dos primeiros discos, vieram posições de indistintas atitudes arrogantes e fome exagerada de autopromoção, utilizando à máquina da gravadora para alcançar metas pessoais, pagando esse tipo de sucesso a um alto custo numa espécie de suicídio lento de sua própria alma artística. De 78 a 80, eu estava contratado pela CBS, sob a direção artística Jairo Pires, (que saiu da gravadora em 79). Realizei e produzi quatro discos nestes quatro anos e não guardo boas recordações do Fagner neste período. O cargo de direção do selo Epic era transitório, mas, em seu delírio de ego, imaginava que era eterno. Houve manipulação de departamentos e produções a seu favor com falta de ética profissional e artística, demonstrando seu caráter, despreparo e imaturidade. Mas não me deixo envenenar por mágoas e rancores. O tempo aplaina arestas, cicatriza feridas, mas isto não significa apagar da memória os fatos: meus discos Ednardo (1979), Massafeira (disco duplo coletivo, de 1979) e Imã/Ednardo (1980) foram prejudicados em boicotes absurdos e surreais dentro da gravadora que, a princípio, deveria difundir seus produtos no mercado. Os discos não eram distribuídos na mídia; o Massafeira foi engavetado por um ano e seis meses, por sugestão dele próprio que, embora participando do projeto artístico, o traiu e a todos os amigos e colegas que participaram coletivamente, alegando à direção da CBS que não era importante e daria prejuízo à gravadora. Depois, quando o disco saiu numa queima de estoque deliberada em outubro de 1980, foi com um selo colado à capa fixando o preço de um álbum duplo de forma irrisória e desmerecedora, sem antes testá-lo em sua receptividade pública, numa atitude que até hoje não vi em nenhuma outra gravadora. Foi prensado com verba de divulgação do disco Imã/Ednardo em outubro de 1980, prejudicando os lançamentos destes discos. Chegou ao cúmulo de mandar retirar aparelhagem de sonorização que pertencia à CBS, três horas antes do início de meu show de lançamento do disco Imã no Teatro Tereza Raquel no Rio de Janeiro, em 1980. Não dava mais tempo para contratar outra aparelhagem, mas o produtor Daniel Rodrigues, que trabalhava com Gilberto Gil e estava presente no momento, viu o fato e ficou indignado. Telefonou para o Gil, que disponibilizou, de imediato, a montagem do seu equipamento de sonorização para que o show pudesse acontecer.

Antônio Carlos dos Santos — Quais são seus projetos futuros?

Gravei três discos que tenciono lançar por meu selo. Um ao vivo, outro com trilhas de cinema e o terceiro gravado em estúdio com músicas inéditas. Tem a seqüência de shows que faço pelo Brasil e também a continuação de shows que eu, Amelinha e Belchior inauguramos recentemente no Rio de Janeiro, Petrópolis e Friburgo. Pretendemos, sempre que houver possibilidades e condições, levá-lo a outras cidades. Inclusive, ele deve ser levado a Goiânia. Há contatos entre a produção local e nossa produção nesse sentido. 

Entrevista publicada em março de 2003.


leia mais...
POR EM 10/11/2008 ÀS 04:08 PM

Que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?

publicado em

No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso Romano de Sant´Anna, e estou relendo Os Cantos , de Ezra Pound, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound

A propósito de Ezra Pound, Eliot escreveu: “Um grande escritor pode ter, numa época, uma influência perniciosa ou simplesmente debilitadora. E essa influência pode ser afetivamente atacada, apontando-se aquelas faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas.”

Escorado nessa premissa, o poeta e professor Affonso Romano de Sant´Anna, no livro de ensaios Que fazer de Ezra Pound  (Imago, 2003), de sua autoria, se nos chega como quem chuta o balde de merda ou o pau da barraca — ou redoma — em que se encontra ninguém menos do que Ezra Poud, o que seria razão “suficiente” para chutá-la — a barraca — e, assim, fazer um saldozinho médio nas esferas da crítica literária, ou nas rodinhas de escribas tomando um cafezinho nalgum bar de esquina metropolitana. De tal sorte, que o nosso Affonso, já de início, manda ver:

“Agora que saiu a tradução de Os Cantos de Ezra Pound (ed. Nova Fronteira, Rio, 1986) torna-se necessário um juízo de valor sobre essa obra, que não apenas os elogios ao volumoso esforço de José Lino Grunewald para pôr em língua portuguesa o que tradicionalmente se considera a obra-prima daquele poeta norte-americano nascido em Idaho em 1885 e que aos treze anos afirmou: Serei poeta. O maior de todos.”

Ao ler isso aí, assalta-me a impressão de que o mestre Affonso, por alguma secreta razãozinha, incrustada no fundo de seu ser, intenta minimizar o “volumoso esforço” de Grunewald, como se a dizer que tal tarefa não se justifica em face do valor da obra poundiana, ou que o tradutor se ocupou de coisa de pouco valor, senão de todo imprestável ou, pelo menos, em sua maior parte, como deixa claro o ensaísta. O tom das expressões “que não apenas os elogios” e “o necessário juízo de valor” meio que acentua a minha impressão, ganhando foro de suspeição ou desconfiança no que estou a ler. Mas isso, certamente, não passa de má-impressão minha, buscando o que não existe justamente onde nada existe; enfim, caçando chifre em cabeça de égua.

“De suas oitocentas e tantas páginas, talvez uma meia dúzia pudesse ser lida com maior interesse. Mas, convenhamos, é um salto muito pequeno em relação à pretensão do autor”. Palavras de Affonso. E aqui, se me permitem a digressão, e sem qualquer intento ofensivo de minha parte, antes por conta de uma associação entre a grafia e uma lembrança do tempo da infância, o nome Affonso, com esses dois efes num sopro de fole, transporta-me de volta à hilária onomatopéia de um peido de burro, consoante as vogais e as consoantes propriamente ditas, e como então se dizia, assim: Afffooooooonnnso! Flatulenta sonoridade. Coisa de meninos, inventando moda, fazendo graça para as pessoas ao redor, ou apenas para si mesmos, uns com os outros, lá entre si. Mas prossigamos com o affonsino ensaio em questão:

“O próprio editor achava esses cantos obscuros e tediosos”, ressalta o poeta- professor Affonso. E vá-se ver, por nossa conta, se o tedioso não era o próprio editor de Pound.

“Pound queria usar a técnica do fragmento — continua Affonso —, fazendo uma montagem de textos alheios e seus. Mas a intenção técnica não basta. A leitura é cansativa, confusa e não produz o efeito desejado.”

Leitura cansativa, mestre? Prazerosa, até mesmo pela confusão — o caos, mestre, o fragmentário caos! E — só para embaralhar as cartas de um jogo —, como assim, que Pound desejava um efeito? De que efeito se está falando? Desde quando um poeta se deixa levar pelo desejo e não pela força da criação? Está bem que criar seja um ato de desejo, então Pound queria o efeito do desejo e o desejo do efeito. Bah!, o que digo eu? O que sei, a fundo, em meio a tanto qüiproquó? Cocoricó! O galo cantou. Dê cá meu cajado, é visto que só estou brincando, e já me vou mijar. Ou melhor, só estou provocando o tédio, exercitando idéias e brincando com o respeitável mestre, quem sabe para com ele aprender algo mais; mas sem polêmica, please, que me vou cansado por demais.

“Embora existam belos trechos como o Canto 45, trecho do Canto 13, o curto Canto 120 e pouco mais” — sublinha mestre Affonso, garimpando pepitas de ouro na bateia de Pound. E me pergunto se o crítico se auto-avalia enquanto poeta, de cuja lavra poética — obra completa — bons poemas se mostram e nem tudo é bom. Mesmo o seu mais badalado poema — Que país é esse?—, a meu ver, é melhor na primeira parte, depois perde um pouco a força de impulso, ou de empuxo, conquanto manter-se o fundo político e a crítica social numa asfixiante atmosfera de época — a ditadura militar. Vá la: Affonso Romano de Sant´Anna é um bom poeta mediano.

“A obra sobrenada em frases de poesia nenhuma e de prosa banal. Querendo ser uma epopéia, os textos são uma rala e confusa crônica. Os versos, em geral, não seduzem pelo ritmo, não seduzem pela melopéia, não seduzem pela logopéia ou fanopéia.” — prossegue o mestre, tabulando a zero a poesia de Ezra Pound. Pobre Alphonsus!, diria o poeta Alphonsus de Guimaraens, o Solitário de Mariana (MG), no seu famoso poema A Catedral. “Excessiva, discursiva”, a obra de Pound todavia se sustenta — aí está ela —, inclusive, por conta de seus excessos, mesmo porque não se pode retirá-la de seu lugar. Pode-se afirmar que daqui a mais algum tempo Os Cantos será uma obra relegada ao limbo? Assim, coisas como o nazismo e o extermínio dos judeus também estarão lá, no limbo da memória e da consciência humana? Pouco provável. Nem todas as obras ficam, mas algumas ficam pelo que são, e Os Cantos aí se encaixa, malgrado os resmungos ao seu redor.

“No fim da vida, tendo conhecido a prisão e o hospício, Pound declarou não apenas que ele “estragou” sua obra, mas explicou: “Minhas intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais...Muito tarde me chegou a certeza de nada saber.” Tal declaração, de repente, dá uma dimensão maior ao seu autor. A aceitação de seu “fracasso”, se não transforma sua vida & obra em “êxito”, pelo menos vale como ensinamento para que seus equívocos estéticos e ideológicos (fascistas) não se repitam. Cultuar esses equívocos, em vez de reconhecê-los como o próprio poeta, é perseverar no “erro” e estar, como discípulo, uma vez mais abaixo das lições do próprio mestre.”

Eis aí. Eu não disse que só estava provocando e que aprenderia algo mais com o mestre Affonso? Menos mal que esse “fracasso” aí venha entre aspas, evidenciando que a coisa não é bem assim, ou que o diabo — Pound — não é tão feio quanto se pinta, esteticamente falando. Fracasso? Os Cantos? Olha só o sorrisinho de mofa irônica do anarco diabinho que me acompanha, até porque “tal declaração” de Pound, sobre suas intenções e equívocos, pode ter sido uma forma de corte oblíquo na língua de seus críticos. Vá se saber, a fundo. Os artistas da palavra são dados a subterfúgios, artimanhosos, metafóricos, reticênticos. Pound disse, também, que o que ele tentou e não conseguiu fazer, um brasileiro fez. Referia-se a Gerardo Mello Mourão, com o longo poema Os peãs, cuja primeira parte, num livro de 400 páginas, intitula-se O País dos Mourões. 

Ezra Pound

Literalmente, assim falou Pound: “Em toda a minha obra, o que tentei escrever foi a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões.” Isso aí soa-me um pouco como uma certa modéstia poundiana — senão que seja, com efeito, sinceridade por demais —, sem desmerecer aqui a citada obra de Mourão, que, a meu ver, é de uma rara beleza ao longo de toda a poesia brasileira, e quando tornei público, há alguns anos, que ainda estava à espera — como ainda estou — do verdadeiramente grande poeta brasileiro, é possível que estivesse tomando a obra de Mourão como um ponto de referência ou de partida, num sentido épico. A propósito, por que as editoras brasileiras não dão novas e apuradas edições a esta monumental obra poética do Gerardo? Particularmente, emparelho em minha estante, para infinitas releituras, Os Cantos e Os peãs, que me parece influenciado por nada menos que Os Cantos. Ou não?

Posso me arriscar e comparar dizendo que Os Cantos, deliberadamente, está para a epopéia da desordem, do desconexo, do fragmentário, do labiríntico e do caótico — crendo eu que era exatamente essa a intenção de Pound —, assim como Os Peãs está para inventário e reordenação do cosmo de uma árvore genealógica, os Mourões, com uma certa ênfase testicular e boa dose de testosterona para os machos da casa? Penso que a diferença é que Mourão tratou da ordem interna, familiar, doméstica, enquanto Pound se lançou, até com funestas conseqüências para si próprio, ao largo de uma América essencialmente caótica — a par com as conturbações do mundo —, que ele intentou colocar numa esdrúxula e poética epopéia. Deixa estar, mestre Affonso: Os Cantos, como tal, por bem ou por mal, é a coroa de glória de Ezra Pound, e ninguém conseguirá tirar isso dele.

Há quem veja reflexos dos ensinamentos de Pound no rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Está dito que “o texto literário tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassado” (Celina Bruniera,  UOL Educação). Leio isso e penso nos cantos de Ezra Pound. Sem dúvida que o fascismo de Pound é um caso à parte, a ser esmiuçado em profundidade, e quem se habilita? Ezra Pound é reconhecido por muita gente abalizada, sendo apontado como poeta, ensaísta de grande erudição e um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX. Isso deveria bastar, não fosse agora o instigante ensaio do professor Affonso Romano de Sant´Anna, cuja leitura indiquei ao poeta Carlos Willian e ele também estranhou o tom — “arrogante” — do autor. Vai ver, Carlos Willian, estamos equivocados e pagando mico, muito “abaixo das lições do mestre”. Acha que devemos comprar um desconfiômetro?

Em que pese a pertinência dos argumentos do mestre Affonso, penso que Os Cantos é um prumo pênsil na poesia moderna, um monumento de consagração do desconexo, (uni)verso desconjuntado de seu eixo, e, contudo, móvel. Eppur si muove, como diria Galileu. Uma obra para fruição da desordem do caos “ordenado” por Pound. A obra e o homem. Ezra Pound é o nome, e o nome é o cara. Imperfeito, Os Cantos? Longe de mim, para justificar Pound e seus “pecados” poéticos, lançar mão do refrão pelo qual errar é humano; por certo que o certo é não persistir no erro — persistir é burrice —, como é certo, sim, atentar-se para as “faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas”, como afirma Eliot e o professor Affonso utiliza em seu ensaio. Mas, olha só, que coisa curiosa, a título de reflexão: Deus, o Verbo, criou o homem, e se arrependeu, depois, de havê-lo criado (está escrito). Contudo, não reparou a sua obra, nem a destruiu, como seria de se esperar. O criador não conjugou o verbo no modo mais-que-perfeito. E assim os homens são os cantos defeituosos de Deus. E Deus preservou o homem, este que, hoje, por si mesmo se destrói. Pobre homem! Pobre Alphonsus! “Ó Bartleby, ó humanidade!” (Herman Melville). Já publiquei, em livro, que perfeito é o pássaro, voando em círculos.

Também ensaísta, Ezra Pound publicou Arte da Poesia (edições Cultrix, no Brasil), e vale a pena ler de novo alguma coisa do que ele ensina, como, por exemplo, isto: “Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas.”

Sintomático, isso aí, poderia dizer mestre Affonso, olhando de esguelha para Os Cantos. Certo é que essas recomendações de Pound são pertinentes no Brasil — para ficarmos só em casa —, onde muita gente equivocada ou ignorante — pretensos ou pseudopoetas, e até professores universitários —, escreve longos e indigestos textos em prosa, inclusive ensaios, divide-os em forma de versos e publica em livro como sendo poesia. Fala, Goiás!

O que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?  Poeta critica poeta, mas então não se deve também começar por criticar a própria obra?  No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso, aproveitando as edições de bolso da L&PM, e estou relendo Os Cantos — tenho duas edições diferentes, da mesma editora —, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound. A ir-se por aí, só falta dizer que Os Cantos é uma obra aleijada. Talvez seja por isso mesmo, por tudo que ela é e sempre será, inclusive pelo que ela possa levar-nos a refletir por conta dos equívocos ideológicos de Pound — seu lado fascista —, que o fizeram cair em desgraça, contaminando a sua poesia; talvez seja por tudo isso que a obra Os Cantos tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassada, antes se coloca como um perene objeto de estudos mais aprofundados. Da mesma forma, o poema Que país é este, de Affonso Romano, pelo que representa em termos de época — com a sua data de publicação — e pelo que o poema implica de histórico e verdadeiro, sobretudo para os que estiveram por lá, in illo tempore — nos anos de chumbo —, e atestam o que o poema diz. Ainda assim, entre os poemas reunidos de Affonso Romano de Sant´Anna e Os Cantos de Ezra Pound, fico com estes e vou cantar em outra freguesia. 


leia mais...
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio