revista bula
POR EM 07/08/2010 ÀS 02:59 PM

Tony Judt desanca Eric Hobsbawm

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O Século XX Esquecido — Lugares e MemóriasO humor inglês às vezes é tão refinado que não parece humor. Os historiadores ingleses, quando decidem surrar um “companheiro”, o fazem com a elegância de alguns humoristas. Parece que estão elogiando, quando, na verdade, estão demolindo. Porque falta, pelo menos entre os melhores intelectuais, o achincalhe (o linchamento). Não se usa a palavra “néscio” para arrolar os equívocos de um pesquisador. Mostram, detalhadamente, os supostos equívocos. 

“Eric Hobsbawm e o romance do comunismo” é uma resenha-ensaio de 13 páginas publicada no excelente “O Século XX Esquecido — Lugares e Memórias” (Edições 70, 462 páginas, tradução de Marcelo Felix), do historiador inglês Tony Judt. Trata-se de uma crítica elegante, polêmica, cáustica e contundente.
 
Judt começa elogiando: “Hobsbawm é o historiador mais conhecido do mundo” e “escreve melhor” do que seus pares. “É um mestre da prosa inglês. Escreve história inteligível para um público que sabe ler. As primeiras páginas de sua autobiografia ["Tempos Interessantes”, 472 páginas, Companhia das Letras] são talvez as mais belas que Hobsbawm escreveu.” O livro “Tempos Interessantes” foi resenhado de forma laudatória no Brasil. Por isso o texto de Judt é uma lição de crítica e, mesmo, coragem, porque está criticando um ícone, e com certa aspereza, apesar do respeito. “Falta alguma coisa. Hobsbawm não era só um comunista. Ele ‘continuou’ comunista durante sessenta anos. Não demonstra qualquer arrependimento. Ele insiste desassombrado que ‘o sonho da Revolução de Outubro ainda está algures dentro de mim’.” Judt não diz, nem precisa, que Hobsbawm é um dinossauro, ou pior do que um dinossauro, porque, embora fossilizado, é brilhante.
 

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POR EM 25/07/2010 ÀS 10:07 AM

Ciclo de Albany: a verve e o entusiasmo de William Kennedy

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William KennedyCapital do estado de Nova Iorque, com cerca de cem mil habitantes, a pequena Albany é também o cenário principal de uma série de livros escritos por William Kennedy. O autor de “Ironweed”, prêmio Pulitzer de literatura em 1984, vem ao Brasil em agosto para participar da Feira Literária Internacional de Paraty.
           
Como jornalista, Kennedy fez importantes trabalhos investigativos em sua cidade, principalmente na cobertura política. O trabalho na imprensa o levou a Porto Rico, onde se tornou amigo de Saul Bellow, um dos maiores romancistas norte-americanos — embora tenha nascido no Canadá — do século XX, prêmio Nobel em 1976. Bellow ajudou Kennedy a “ir direto ao ponto”, cortando os excessos e dando confiança ao autor do Ciclo de Albany.
           
A série de romances, sete até o momento, conta a história da família Phelan, imigrantes irlandeses, na cidadezinha de Nova Iorque. Segundo Kennedy, as inspirações para o famoso Ciclo são variadas, passando pela família Glass de J. D. Salinger, pelas histórias de Faulkner e James Joyce, além da Comédia Humana de Balzac, em que os personagens transitam por diferentes romances.
           
A editora Cosac & Naify se encarrega de lançar as obras de William Kennedy no país. O livro mais recente a aportar por aqui é “O Grande Jogo de Billy Phelan”, cuja trama se relaciona com a máquina política de Albany nos anos 30. Os leitores também podem encontrar edições da Companhia das Letras, como “Ossos Antigos” (Very Old Bones, que vem sendo chamado nos jornais de Velhos Esqueletos) e “O Livro de Daniel Quinn”.


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POR EM 06/07/2010 ÀS 04:11 PM

Moça com Chapéu de Palha

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Moça com Chapéu de Palha“Moça com Chapéu de Palha” (2009) é uma narrativa original, sem a necessidade, o compromisso com a originalidade. O novo, inclusive, presente no senso de originalidade, não é o que move o sentimento de pertença que integra a prática textual dos ficcionistas contemporaníssimos brasileiros; tal prática mostra-se por demais nuançada, sem nos transmitir, por isso, ideias do seu conjunto, na medida das suas gerações.

O último romance de Menalton Braff lembra-nos, se quisermos compará-lo para melhor compreendê-lo na sua estrutura narrativa, “Um Sopro de Vida, Pulsações” (1978), último romance de Clarice Lispector. No romance de Braff pulsa a vitalidade, erotizada; no de Clarice, no romance informe de Clarice, pulsa a morte. O comparável, o homólogo entre as duas narrativas em questão, está no modo como ambas espelham o seu processo criativo, ficcional: no estabelecimento da forma literária das obras, da sua invenção, por meio da autoconsciência da sua enunciação, enunciada em meio à construção da figura de seu narrrador-personagem/autor. Metaficções puras. Acontece que Menalton, diferentemente de Clarice (de quem me distancio agora), mostrou-se sempre atento para a representação do que é socialmente sensível, quer do ponto de vista da vida no interior de um homem ou de uma mulher, ou de uma família, quer do interior da vida em sociedade. Seus romances, acredito, parecem-me mais afeitos aos dramas sociais, do homem e da mulher em sociedade; os seus contos prendem-se mais à vida da mulher e do homem nas suas vidas familiares e mostram-se bem comportados a partir do seu foco narrativo, com histórias, para mim inigualáveis, como “Adeus, meu pai”, em “À Sombra do Cipreste” (1999) e “Os sapatos de meu pai”, de “A Coleira no Pescoço” (2007).


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POR EM 06/07/2010 ÀS 03:49 PM

Os Malaquias

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Os MalaquiasPara quem conhece Andréa del Fuego, escritora nascida em São Paulo mas quase mineira, com um olho de cada cor e as mãos encharcadas de palavras, sabe de seu trabalho visceral e divergente na literatura contemporânea. Na via principal da escrita há quase sete anos, Andréa se tornou a mãe dos minicontos, começando nessa escrita aparentemente fácil, mas que em poucas linhas, ou numa linha só, revela e esconde, mostra-se rasa no tamanho, mas profunda na possibilidade quase absurda de muitos sentidos. O que sua literatura traz, antes de qualquer coisa, é mais do que o palco à mostra, as cortinas descerradas e os atores curvando-se para a ovação; ela traz o que o espectador de alma observadora consegue absorver do urdimento, das pateras, da ribalta, do proscênio. O conjunto nunca é objetivo, e por isso torna-se mais encantador.

Depois de publicar quatro livros de contos e minicontos, um de crônicas e dois romances, um juvenil e outro infantil, Andréa fugiu dos atalhos e se enredou na trilha tortuosa e às vezes íngreme que pode ser o romance adulto, sempre de maior peso, de tempo mais largo e que pede concentração e foco redobrados. “Os Malaquias” (Língua Geral, 272 páginas) veio como prato de entrada e dependendo de leitura e leitor, pode satisfazer todo o jantar e dispensar o resto, inclusive bebida, garçom e bons modos à mesa onde nossos olhos derramam nos 73 capítulos: curtos como já é marca da escritora, mas longos na representação literária, na simbologia linguistica e acima de tudo na qualidade.


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POR EM 29/06/2010 ÀS 04:14 PM

Ian McEwan diz que terrorismo tem a ver com falta de imaginação

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Ian McEwanComo definir Ian McEwan, possivelmente o maior escritor inglês vivo? Julian Barnes e Martins Amis são muito bons, mas nenhum de seus livros pode ser comparado ao esplêndido romance “Reparação” (Companhia das Letras, 448 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto). Se levasse espiritismo a sério, diria que McEwan é a reencarnação de Henry James. “Reparação”, com sua ambiguidade literalmente à flor da pele, é um romance de James parido por McEwan. Como o americano, o britânico não diz as coisas às claras, conta-as aos poucos, às migalhas, e mesmo assim o quadro nunca parece completo, à semelhança da prosa do autor de “As Asas da Pomba”. Não que a literatura de McEwan seja complicada, mas exige um leitor minimamente instruído, que queira participar do jogo literário e que tenha interesse em formar seus próprios quadros mentais e estéticos, sem excluir os postulados pelo autor. O prosador às vezes se torna crítico especialíssimo, admirador de, entre outros, John Updike. Nos seus romances saborosos, em que o sexo é dominante, como pedaço da vida e não apenas escândalo, Updike reconstruiu meticulosamente a mentalidade da classe média americana. Ele tinha um quê de sociólogo e psicólogo, potencializado por sua imaginação literária. No livro “Conversas Entre Escritores — As Entrevistas da Believer” (Arte & Letra, 315 páginas, tradução de Irinêo Netto, Miguel Nicolau Abib Neto e Ernesto Klüpel), McEwan é entrevistado pela escritora Zadie Smith. “Believer” é uma revista literária norte-americana. 


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POR EM 17/06/2010 ÀS 09:15 PM

Cubana lança livro-vingança

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Nunca Fui Primeira-DamaO Brasil tem Fernanda Young, reserva de Paulo Coelho. Cuba tem Wendy Guerra, igualmente performática, mas talentosa. “Nunca Fui Primeira-Dama” é um romance-vingador. A Involução de Fidel Castro destruiu a família da autora e, por isso, Wendy ataca a ditadura castradora. Batalha estética corrosiva.

A surpreendente Wendy, de 40 anos, é uma mulher mignon, mas de muita coragem. Seus livros não podem ser lidos pelos cubanos, pois a dinastia Castro os pôs no índex (e depois a esquerda fala mal da Inquisição). “Nunca Fui Primeira-Dama” (Benvirá, 255 páginas, tradução de Josely Vianna Baptista) é muito bem escrito, uma delícia, mas conta uma história tristíssima. A história é verdadeira, mas o recurso à imaginação literária é que a torna mais interessante e poderosa.

Wendy conta o drama de Nadia Guerra, alter ego da autora, e Albis Torres. Albis, a mãe de Wendy, reuniu material para escrever um romance biográfico de Celia Sánchez, a ex-mulher não-oficial de Fidel Castrador (opa, Castro). Não deu pé. Albis perdeu o emprego e teve de sair do país. Mais: chegou-se a divulgar que teria disputado Celia Sánchez com o próprio garanhão-mor do país. A quase-primeira-dama seria bissexual. Como Albis não pôde escrever o romance, ou biografia, sobre a supostamente injustiçada Celia Sánchez, Wendy decidiu escrevê-lo, e o fez muito bem. Com talento e muito tutano.


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POR EM 16/06/2010 ÀS 06:04 PM

Uma grande biografia de T. S. Eliot

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T. S. EliotLeio a magnífica biografia “” (Fondo de Cultura Económica, 377 páginas, tradução de Tedi López Mills), de Peter Ackroyd. O corpo das letras, muito miúdo, atrapalha mais do que a língua espanhola. Mas a riqueza de informações reunidas pelo autor apazigua, em parte, o nosso desejo de conhecer o “americano tranquilo”, revolucionário como poeta e conservador como homem.

Ackroyd conta a fabulosa história de um avô de Eliot, William Greenleaf Eliot. Embora fosse um homem frágil fisicamente, William construiu uma igreja, unitarista, fundou três escolas, uma universidade, um fundo de assistência para indigentes e uma comissão sanitária.

Grandemente influenciado pelo avô, Eliot disse que William governava, mesmo da tumba, a vida do filho e a dos filhos do filho. “Eliot sempre esteve possuído pelos mortos e esta possessão foi algo que aprendeu a sentir desde muito jovem”, escreve Ackroyd. Mais tarde, Eliot rompeu com a religião do avô e se tornou católico fervoroso, mas não rompeu com a história da família — oriunda da Inglaterra e, segundo sua mãe, também da França. O cultor de Eliot está acostumado com sua poesia refinada e complexa, mas há outro Eliot, igualmente sofisticado, mas menos complicado. “Os Gatos” (Companhia das Letras, 112 páginas) é uma pequena obra-prima, deliciosa e extremamente bem-humorada, com tradução precisa e inventiva de Ivo Barroso. O livro havia sido publicado pela Editora Nórdica, com a mesma tradução, há mais de dez anos. Tem sido apresentado como infanto-juvenil. É parcialmente verdadeiro, pois os poemas podem ser compreendidos por crianças e adolescentes — foram escritos para crianças (tanto que usa, e bem, jogos de palavras, brincadeiras) —, mas tenho a impressão que agrada muito mais aos adultos. Trata-se de uma edição bilíngue.


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POR EM 14/06/2010 ÀS 10:01 AM

Livro revela como foi articulado assassinato de Trotski

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Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha IndesejadaA biografia clássica e detalhada de Liev Trotski (1879-1940) é a escrita pelo historiador Isaac Deutscher, publicada no Brasil em três volumes. Como parte dos arquivos soviéticos foi aberta, depois da queda do comunismo, a pesquisa está, em alguns pontos, datada, o que animou o general e historiador russo Dmitri Volkogonov a escrever “Trotsky — The Eternal Revolucionário” (Free Press/Simon & Schuster, 524 páginas, 1996). Trata-se de um livro notável, dado o acesso de Volkogonov aos arquivos abertos em 1991 e à sua experiência como militar que participou dos governos comunistas. O caráter autoritário de Trotski é rastreado e explicado com mestria, bem como sua excelente formação intelectual. Mas sobre o assassinato de Trotski o livro mais importante é “Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha Indesejada” (Publicações Europa-América, 543 páginas, 1994), de Pavel Sudoplatov, com a colaboração de seu filho, Anatoli Sudoplatov. Como chefe das Operações Especiais (assassinatos e terrorismo), Pavel Sudoplatov foi o homem que coordenou o assassinato do revolucionário ucraniano, no México, em 1940, e o roubo dos segredos atômicos dos Estados Unidos. Com o apoio do filho e dos pesquisadores Jerrold L. Schecter e Leona Schecter, Sudoplatov decidiu contar histórias sobre as quais não há informações precisas nem nos arquivos soviéticos (Stálin tinha o hábito de dar ordens verbais, sobretudo quando se referia a assassinatos e envenenamentos). No prefácio, o historiador inglês Robert Conquest, dos primeiros e mais gabaritados analistas do stalinismo, escreve: “Esta é a mais sensacional, a mais devastadora e a mais informativa autobiografia que alguma vez emergiu do meio stalinista. Um documento único”. O livro de Conquest “O Grande Terror — Os Expurgos de Stálin”, publicado na década de 1960, permanece atualíssimo, em linhas gerais.


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POR EM 07/06/2010 ÀS 08:58 PM

Os 11 Maiores Camisas 10 do Futebol Brasileiro

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Os 11 Maiores Camisas 10 do Futebol BrasileiroParte da imprensa diz que o técnico Dunga (Carlos Caetano Bledorn Verri) é teimoso e arrogante. Talvez não seja. Como disse Tostão, é apenas coerente com suas ideias, com a tese do grupo “fechado”. Aos 46 anos, depois de ter sido jogador bem-sucedido, Dunga jamais endossaria aquilo que o poeta americano Walt Whitman escreveu: “Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões”. Se fosse técnico da seleção brasileira em 1958, não teria chamado Pelé, então com 17 anos, assim como não chamou Neymar, de 18 anos, e Ganso, de 20 anos, os astros do Santos. Neymar e Ganso são apostas e o negócio de Dunga é a suposta tranquilidade do prato-feito. Prefere os obedientes e medianos Josué, Júlio Baptista (o João Baptista Figueiredo dos futebolistas) e Grafite à explosão criativa dos meninos do Peixe. Ganso e Neymar não são os primeiros, nem serão os últimos — porque o dunguismo (o socialismo esportivo: todos devem ser mais ou menos iguais) veio para ficar —, injustiçados. O ótimo livro “Os 11 Maiores Camisas 10 do Futebol Brasileiro” (Contexto, 256 páginas), do jornalista Marcelo Barreto, registra a história de duas injustiças irreparáveis: a de Ademir da Guia e a de Dirceu Lopes. Ao contrário deles, Neymar e Ganso podem ser convocados para outras copas.


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POR EM 07/06/2010 ÀS 06:21 PM

Carmen Laforet é a Salinger espanhola

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Carmen LaforetAos 23 anos, a espanhola Carmen Laforet (1921-2004) escreveu um romance brilhante, “Nada”, que se tornou best seller. A escritora Rosa Montero conta no “El País”, em 29 de maio, que, depois de escrever obras menores, Laforet abandonou a literatura “e ela mesma foi desaparecendo, convertendo-se, durante décadas, numa figura fantasmal”. Anna Caballé e Israel Rolón lançam “Carmen Laforet — Uma Mulher em Fuga” (RBA, 544 páginas) com o objetivo de esclarecer a história da Salinger espanhola. “Nada”, segundo Rosa Montero, é “uma história autobiográfica, mas está escrita de maneira tão magistral que alcança a força expressiva de um arquétipo”.

Por que Laforet decidiu desaparecer? Não se sabe exatamente, mas, baseada no livro dos professores Caballé e Rolón, Rosa Montero sugere que “a enormidade do êxito de ‘Nada’ incomodou” a autora, uma mulher tímida e insegura. A fama lhe era uma tortura.

Depois do sucesso de “Nada”, casou-se com o jornalista Manuel Cerezales, teve cinco filhos, colaborou na imprensa e publicou um livro de relatos e outro romance. Chegou a escrever um romance religioso, “Uma Mulher Nova”. O casamento não foi feliz e Laforet ligou-se à famosa tenista Lilí Álvarez. Romperam mais tarde. O ambiente repressivo da Espanha sob Franco travava seu relacionamento com mulheres.


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