revista bula
POR EM 17/01/2011 ÀS 03:49 PM

Do que não escapam os poetas

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Sumário de IncertezasPor certo que se encontra poesia nos poemas do livro de estreia de Lauro Marques, um “Sumário de incertezas” (Rio de Janeiro, Confraria do Vento, 2010) e do que, inserto, subjaz num minério de certeza: poesia ela mesma. Inserida uma linguagem algo derrisória, do cotidiano carcomido, da decomposição dos dias no tempo de todas as coisas. Do que não escapam os poetas, do que não se isenta o eu-lírico. As perdas do ser ao que se lhe dá e o que se lhe há de advir e nem carece advinhar: de certas incertezas, o certo devir: um respiro de vida ainda, a morrer, a vida, por estar viva. As palavras como símbolos ou larvas semoventes de constatações e dissolução nas entrelinhas do branco abissal que a tudo perpassa, a sensação da inutilidade de tudo, o imperioso nada que paira sobre tudo que se move, o pesponto de tudo num ponto fixo da inércia. Ou isso ou nada disso ou também isso. Canhestras elucubrações em torno do texto de Lauro Marques. Um jogo de linguagem. Um diálogo. Contíguo, análogo. Semiologia do ser. Ou fosse de um palimpsesto o pretexto para outro texto, feito casca de árvore seca, ou escama de peixe. 

Senão que de tudo isso o certo das incertezas. Complexo contexto. O que é um verso senão o avesso às avessas do concreto? Será o ser, em canto de desencanto, um concerto sem conserto? Entenda-se e durma-se com um barulho desses, de versos e controvérsias. Se jogue e jogue-se com os signos. “Sumário de incertezas” catapulta-se em dois saltos: por primeiro, a “Balada para um morto”, epigrafada por Jorge Luis Borges (“Devemos entrar na morte como quem entra numa festa”) e Álvaro de Campos (“Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo”). O primo livro do semiólogo poeta Lauro Marques é quase um opúsculo, 64 páginas e um canto de lusco-fusco. E o segundo salto, no que tem de elástico, tem de minimalístico, sumariando incertezas minúsculas, todavia coesas na dimensão do que, provisório, é presa do derrisório. Uma parte em que o que vale a pena é a arte, e se não é arte, pena e peca pelo paradoxo do seu oposto. Na arte de um verso, o suporte de alguma vida. Ainda. 


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POR EM 09/01/2011 ÀS 11:33 PM

Principais lançamentos de 2011

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J. M. Coetzee, Jonathan Franzen, Jonathan Safran e Philip Roth As editoras não revelam todos os seus trunfos e por isso não se sabe sobre a maioria dos lançamentos de 2011. Depois, alguns lançamentos são decididos durante o ano, quando os negócios são feitos com editoras e autores.  Os jornais, como “Folha de S. Paulo”, “Estadão” e “O Globo”, listaram alguns livros que serão publicados este ano. O principal lançamento, por incrível que possa parecer, é um clássico do século 19, “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, pela primeira vez traduzido do russo, por Rubens Figueiredo (autor da proeza de traduzir “Anna Kariênina”). O livro conta a história da guerra entre a França de Napoleão Bonaparte e a Rússia dos czares, em 1812. O romance, que não trata apenas da batalha, oferece um amplo painel da sociedade russa. Há, por assim dizer, dois romances, ou mais, num só: o da guerra, “comandado” pelo general Kutuzov, e o da paz, “dirigido” por André, Natasha e Pedro. A vida continua, mesmo na guerra. A tradução que circula no Brasil, de João Gaspar Simões, tem como ponto de partida a edição francesa. A nova versão é da Cosac Naify. Proibido na Inglaterra durante 32 anos, por ser considerado “pornográfico”, o romance “O Amante de Lady Chatterley”, do prosador e poeta inglês D. H. Lawrence, volta às livrarias, com nova tradução de Sergio Flaksman, ensaio da escritora Doris Lessing e chancela das editoras Penguin e Companhia das Letras. Publicado no final da década de 1920, o livro continua forte e inspirador. É uma desgraça para o Brasil que até “a” (ou “o”) Adelaide Carraro dos ingleses é melhor do que a nossa. Sugiro, como acompanhamento, a leitura de “Mulheres Apaixonadas”, de Lawrence, com tradução, de mestre, de Renato Aguiar.


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POR EM 19/12/2010 ÀS 12:59 PM

Vargas Llosa compara Jorge Amado a Dorian Gray

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“Sabres e Utopias — Visões da América Latina” (Objetiva, 430 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg), de Mario Vargas Llosa, contém ensaios (alguns textos são mais artigos) sobre Somoza, Pinochet, Lula, Fidel e Raul Castro, Farc, Canudos (que mereceu o romance “A Guerra no Fim do Mundo”), Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, José Donoso, Cabrera Infante, Jorge Amado, revoluções, nacionalismo, democracia, liberalismo e outros assuntos. As nove páginas do ensaio “Cem Anos de Solidão: O Amadís na América”, sobre a obra-prima de García Márquez, valem o livro. Foi publicado em 1967, em cima da hora, com base na leitura direta, sem nenhuma fortuna crítica a sustentá-lo. Comentarei única e brevemente os textos sobre Jorge Amado, José Donoso e Cabrera Infante.
 
Jorge Amado era amigo de Vargas Llosa, apesar das diferenças ideológicas. O primeiro era de esquerda e o segundo é liberal. As ideologias não os separaram, porque a amizade e o respeito eram mais fortes. Ao escrever sobre a literatura do amigo, o autor o faz com isenção e perspicácia. Nota que, “em seus romances políticos, um elemento intuitivo, instintivo e vital sempre superava o ideológico e jogava pelos ares os esquemas racionais”. 
 
Até certo momento, como em “Cacau” e “O Cavaleiro da Esperança”, biografia romanceada e floreada de Luís Carlos Prestes, Amado fazia uma literatura panfletária, atendendo aos préstimos do realismo socialista. Llosa talvez exagere quando fala em “virada” literária, porque é possível que não tenha sido tão radical assim, daí a possibilidade de a crítica ser mais “elástica” do que a própria prosa do autor de “Tieta do Agreste”. Não há limpeza total de “pressupostos ideológicos”, por exemplo. De qualquer forma, o argumento do autor de “A Casa Verde” é sugestivo: Amado “realizou uma virada profunda em sua literatura, despolitizando-a, limpando-a de pressupostos ideológicos e tentações pedagógicas, e abrindo-a cada vez mais para outras manifestações da vida, a começar pelo humor, até chegar aos prazeres do corpo e aos jogos do intelecto. (...) Jorge Amado pôs-se (...) a rejuvenescer, a partir de histórias deliciosas como ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, ‘Gabriela, Cravo e Canela’, ‘Tereza Batista Cansada de Guerra’, ‘Tieta do Agreste’, ‘Farda Fardão Camisola de Dormir’ e as que vieram depois, em um curioso desafio à cronologia mental, algo que fez dele, como escritor, uma espécie de Dorian Gray, um romancista que, livro após livro, brinca, diverte-se e se mostra como uma criança genial, com suas travessuras verbas, sensuais e engraçadas, em verdadeiras festas literárias”. Amado teve sorte: os “policiais literários” da União Soviética não sabiam português e as traduções certamente adocicaram a prosa virulentamente erótica e, mesmo, pornográfica de seus romances.
 
Numa leitura extremamente simpática, Vargas Llosa diz que, nos romances de Amado, “todas as desventuras do mundo não são suficientes para quebrar a vontade de sobrevivência, a alegria de viver, o esforço sorridente para dar sempre a volta por cima que animam seus personagens. O amor à vida é tão grande neles que são capazes, como acontece com a maravilhosa dona Flor com seu marido defunto, de ressuscitar os mortos e trazê-los de volta a uma existência que, mesmo com todas as misérias que traz consigo, está também repleta de momentos de gozo e felicidade. Essa fruição dos prazeres menores ao alcance do ser anônimo, que cintila em todas as suas histórias — saborear um copo de cerveja gelada, uma conversa deliciosa, contar uma piada picante, dirigir galanteios a um corpo atraente que passa, a amizade fraterna —, é muito intensa e contamina seus leitores, que costumam sair de suas páginas convencidos de que, por pior que seja a circunstância em que se vive, sempre haverá na vida humana um espaço para a diversão e outro para a esperança”. Concordo em parte com Vargas Llosa, pois, embora tenha sido um crítico intolerante da prosa de Amado, li-o com extremo prazer (e concupiscência) na adolescência, sem barreiras ideológicas, de esquerda ou de direita. Mas a leitura do crítico peruano quase transforma a literatura de Amado em auto-ajuda intelectual, embora seu objetivo seja, logicamente, outro. “Jorge Amado (...) exaltou o outro lado da moeda, a cota de bondade, alegria, plenitude e grandeza espiritual também contida na existência e que, em seus romances, fazendo todas as contas, acaba sempre vencendo a batalha em quase todos os destinos individuais.” Exagero, mas, considerando que neste ensaio de 1997, Vargas Llosa diz que Amado iria para o céu, a crítica “é” aceitável, pois escritor é tratado como “santo”.
 
No ensaio “Cabrera Infante”, o cubano que escreveu o grande romance “Três Tristes Tigres” (seria interessante lê-lo em comparação com a prosa menos esfuziante e, quiçá, mais cerebral de Thomas Pynchon, nas referências ao mundo popular envolvidas e absorvidas por uma prosa altamente sofisticada e complexa), Vargas Llosa mostra-se mais atento do que na crítica empática (ainda que, no geral, verdadeira) a Amado. O autor de “Conversa na Catedral” escreve que, para Guillermo Cabrera Infante, o “humor (...) é (...) uma maneira compulsiva de desafiar o mundo tal como ele é e esfacelar suas certezas e a racionalidade em que se baseia, trazendo à luz as infinitas possibilidades de desvario, surpresa e disparates que ele mesmo oculta, e que, nas mãos de um hábil malabarista da linguagem como ele, podem se transformar em um deslumbrante fogo de artifício intelectual e delicada poesia. O humor é a sua maneira de escrever, ou seja, algo muito sério, que compromete profundamente a sua existência”.
 
A prosa de Cabrera Infante, explica Vargas Llosa, com o brilho de sempre, “é uma das criações mais autorais e insólitas da nossa língua, uma prosa exibicionista, faustosa, musical e esquisita, que não consegue contar nada sem contar ao mesmo tempo a si mesma, interpondo seus exageros e cabriolas, suas construções desconcertantes, a cada passo, entre o que se conta e o leitor, de modo que este, muitas vezes entontecido, dividido, absorvido pelo frenesi do espetáculo verbal, esquece o restante, como se a riqueza da forma pura tornasse o conteúdo apenas um pretexto, mero acidente”. A prosa de Cabrera Infante deixa mesmo esta impressão — a de que as palavras dançam, uma dança louca, e o leitor fica tonto, tendo de voltar várias vezes ao mesmo trecho, para não perder o fio da meada. Porque, e é isto que Vargas Llosa está dizendo, com precisão, em Cabrera Infante a linguagem, como conta, é tão importante quanto aquilo que é contado. 
 
O ensaio “José Donoso, ou a vida feita literatura” é, em alguns pontos, hilário. O texto é de 1996 e, por isso, não teve como incorporar a polêmica biografia do escritor chileno, escrita por sua filha, publicada este ano na Espanha. Além de relatar as maluquices da família, Pilar Donoso revela que o pai era bissexual, que, acrescente-se, nada muda em sua literatura, pelo menos substancialmente. Vargas Llosa o retrata como um louco de gênio e garante que seu romance mais ambicioso é “O Obsceno Pássaro da Noite”. 
 
Pepe Donoso era um grande contador de histórias por escrito e oralmente. Relatou, a uma plateia extasiada e assustada, que “uma taratavó atravessava os Andes em uma homérica carroça de mulas, recrutando prostitutas para os bordéis de Santiago, e outra, vítima de uma mania de embrulhar tudo, guardava suas unhas, seus cabelos, as sobras de comida, tudo que não servia mais, em belas caixinhas e sacolas que ocupavam guarda-roupas, armários, cantos, quartos e, por fim, a sua casa inteira”.
 
O personagem “mais sedutor” criador por Donoso é o velho de “El Lugar Sín Limites”, “que, no mundinho de caminhoneiros e capangas seminalfabetos em que vive, se disfarça de moça do povo e sai a dançar flamenco, embora perca a vida com isso”. Vargas Llosa afirma que Donoso escreveu “histórias de maior fôlego e mais complexas”, mas que a história do velho travestido “é a mais acabada de suas narrativas, na qual se encontra mais perfeitamente elaborado aquele mundo tresloucado, neurótico, de rica imaginação literária latino-americano, feita à imagem e semelhança das pulsões e fantasmas mais secretos de seu criador, que ele deixou a seus leitores”.

Mario Vargas Llosa“Sabres e Utopias — Visões da América Latina” (Objetiva, 430 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg), de Mario Vargas Llosa, contém ensaios (alguns textos são mais artigos) sobre Somoza, Pinochet, Lula, Fidel e Raul Castro, Farc, Canudos (que mereceu o romance “A Guerra no Fim do Mundo”), Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, José Donoso, Cabrera Infante, Jorge Amado, revoluções, nacionalismo, democracia, liberalismo e outros assuntos. As nove páginas do ensaio “Cem Anos de Solidão: O Amadís na América”, sobre a obra-prima de García Márquez, valem o livro. Foi publicado em 1967, em cima da hora, com base na leitura direta, sem nenhuma fortuna crítica a sustentá-lo. Comentarei única e brevemente os textos sobre Jorge Amado, José Donoso e Cabrera Infante.

Jorge Amado era amigo de Vargas Llosa, apesar das diferenças ideológicas. O primeiro era de esquerda e o segundo é liberal. As ideologias não os separaram, porque a amizade e o respeito eram mais fortes. Ao escrever sobre a literatura do amigo, o autor o faz com isenção e perspicácia. Nota que, “em seus romances políticos, um elemento intuitivo, instintivo e vital sempre superava o ideológico e jogava pelos ares os esquemas racionais”. Até certo momento, como em “Cacau” e “O Cavaleiro da Esperança”, biografia romanceada e floreada de Luís Carlos Prestes, Amado fazia uma literatura panfletária, atendendo aos préstimos do realismo socialista.


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POR EM 10/12/2010 ÀS 12:01 PM

Isto é, um manto, o manto

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O Manto, de Marcia TiburiUm prólogo feito de cem parágrafos distribuídos em mais de 200 páginas; uma mulher sem um braço diante de uma máquina de escrever sem a letra A; uma caixa com nove fitas cassete contendo a voz da loucura, da poesia e da filosofia de uma mãe morta; a transcrição destas nove fitas em outras mais de 200 páginas; notas de rodapé per saltum maiores do que o som transformado em datilografia; um relatório composto de fios que se entrelaçam ao escuro absoluto do racional e do irracional em outras quase 200 páginas; cópias de um caderninho da filha de um autômato; uma carta escrita por um escritor tão quimérico quanto o livro que se apresenta em sonho: i.e.M., isto é, o manto: a abreviação ecoando como um ser fantasmático ao longo das 624 páginas de “O Manto”, último volume da “Trilogia Íntima” da escritora e filósofa Marcia Tiburi, lançado pela Editora Record. 

Como Marcia revelou numa entrevista, seu primeiro mergulho na arte da ficção começou selvagem, com a liberdade e a coragem de quem escreve o que quer do jeito que quer, ainda que esta independência literária seja também intensa reconstrução do imaginário próximo dos desejos mais íntimos. A fantástica, em seu sentido mais profundo, “Trilogia Íntima” foi o que primeiro saiu das gavetas com fundo falso da escrivaninha de madeira da filósofa, e uma primeira fase muito bem aproveitada, enquanto outra ainda se esconde ou descansa no breu dessas gavetas. “Magnólia”, primeiro volume da trilogia e produto de duas versões destruídas que juntas formavam 400 páginas, foi publicado pela primeira vez em 2005, indicando uma imagética mente criadora libertada de si mesma. Não somente este potencial mágico de uma narrativa moderna e filigranada na obscuridade dos sentidos, mas o que ele representa em histórias igualmente obscuras. “A Mulher de Costas” vem logo em seguida, num volume menor, recontando uma lenda ao contrário, e depois de sete anos de trabalho, Marcia apresenta “O Manto”, sua banda de Moebius narrativa cujo peso é tão infinito quanto sua forma inescapável. 


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POR EM 28/11/2010 ÀS 01:54 PM

Chico Buarque vale mais como escritor do que Edney Silvestre

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Quem deveria ter ido para a Academia Brasileira de Letras: o político Juscelino Kubitschek, que não sabia escrever e tinha alguns ghost-writers, ou o escritor Bernardo Élis, que, ao contrário do concorrente, escrevia seus próprios livros? Bernardo Élis, é claro, mereceu ser eleito para a ABL. Porque era o escritor de fato e de direito. Uma vitória de JK teria a ver apenas com política, com um ataque inútil à ditadura civil-militar. Se a ditadura ajudou Élis, palmas para a ditadura: fez a coisa certa.
 
O mesmo ocorre agora. Chico Buarque ou Edney Silvestre: quem deveria ter faturado o Prêmio Jabuti/Livro do Ano de Ficção? Pela lógica, por ter levado o Prêmio Jabuti de Melhor Romance (Chico ficou em segundo lugar), Edney, autor de um único romance, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, e recém-chegado ao “clube” dos escritores, deveria ter sido o premiado. Mas, comparando romance com romance, não há dúvida de que Chico Buarque é muito mais escritor e “Leite Derramado”, que levou o Jabuti de Livro do Ano de Ficção, tem mais qualidades literárias. Edney pode até ser uma promessa, mas seu livro é frágil como romance, mesmo se visto tão-somente como romance policial. Chico, que não me agrada muito como escritor (filho tardio do nouveau roman), é muito mais senhor da forma-romance do que o ótimo repórter global. Então, mesmo errando, o Jabuti premiou o melhor escritor. Houve ingerência político-editorial? É possível. Tanto que, em Portugal, Chico levou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com o mesmo romance, “Leite Derramado”.
 
Mas quem vai faturar mesmo com a história, depois de tudo, será Edney. Apesar de trabalhar na Globo e de ter arrancado resenhas elogiosas, talvez de críticos que nem leram o livro mas quiseram agradar o simpático global, que sempre entrevista escritores e críticos literários, Edney é um prosador desconhecido, de qualidade discutível, e sua obra certamente seria ignorada. Agora, pelo barulho que fizeram, vai ser lida e o autor vai se tornar tão conhecido quanto Chico. Ele pegou uma boa carona na garupa do escritor-compositor.
 
Depois de ter declarado voto em Dilma Rousseff, não será surpresa se o governo brasileiro apresentar o nome de Chico como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura nos próximos quatro anos.
 
Como escritor, Chico continua excelente compositor, superado, talvez, apenas por Noel Rosa. É o gênio mais refinado da música popular brasileira, acima, duas notas, de João Gilberto e Tom Jobim

Chico BuraqueQuem deveria ter ido para a Academia Brasileira de Letras: o político Juscelino Kubitschek, que não sabia escrever e tinha alguns ghost-writers, ou o escritor Bernardo Élis, que, ao contrário do concorrente, escrevia seus próprios livros? Bernardo Élis, é claro, mereceu ser eleito para a ABL. Porque era o escritor de fato e de direito. Uma vitória de JK teria a ver apenas com política, com um ataque inútil à ditadura civil-militar. Se a ditadura ajudou Élis, palmas para a ditadura: fez a coisa certa. 

O mesmo ocorre agora. Chico Buarque ou Edney Silvestre: quem deveria ter faturado o Prêmio Jabuti/Livro do Ano de Ficção? Pela lógica, por ter levado o Prêmio Jabuti de Melhor Romance (Chico ficou em segundo lugar), Edney, autor de um único romance, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, e recém-chegado ao “clube” dos escritores, deveria ter sido o premiado. Mas, comparando romance com romance, não há dúvida de que Chico Buarque é muito mais escritor e “Leite Derramado”, que levou o Jabuti de Livro do Ano de Ficção, tem mais qualidades literárias. Edney pode até ser uma promessa, mas seu livro é frágil como romance, mesmo se visto tão-somente como romance policial. Chico, que não me agrada muito como escritor (filho tardio do nouveau roman), é muito mais senhor da forma-romance do que o ótimo repórter global. Então, mesmo errando, o Jabuti premiou o melhor escritor. Houve ingerência político-editorial? É possível. Tanto que, em Portugal, Chico levou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com o mesmo romance, “Leite Derramado”. Mas quem vai faturar mesmo com a história, depois de tudo, será Edney. Apesar de trabalhar na Globo e de ter arrancado resenhas elogiosas, talvez de críticos que nem leram o livro mas quiseram agradar o simpático global, que sempre entrevista escritores e críticos literários, Edney é um prosador desconhecido, de qualidade discutível, e sua obra certamente seria ignorada. Agora, pelo barulho que fizeram, vai ser lida e o autor vai se tornar tão conhecido quanto Chico. Ele pegou uma boa carona na garupa do escritor-compositor. 


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POR EM 25/11/2010 ÀS 02:31 PM

Licença poética prejudicou jornalismo de Ryszard Kapuscinski?

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O jornalista, escritor e poeta polonês Ryszard Kapuscinski (1932-2007) (foto), que chegou a ser cotado para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, é autor de livros esplêndidos, como “O Imperador” (sobre Hailé Selassié I, da Etiópia), “Minhas Viagens Com Heródoto”, “O Império” (a edição brasileira é “Imperium”), “Ébano — Minha Vida na África”, “Mais Um Dia de Vida — Angola 1975” e “A Guerra do Futebol” (o escritor Gabriel García Márquez apontava Kapuscinski como principal repórter do século 20. O elogio é meio suspeito, porque o jornalista, como o escritor, era entusiasta do socialismo cubano). Antes de tudo, era repórter, mas escrevia como escritor, dotado de primorosa formação intelectual e, mesmo, capacidade de imaginação. Se fosse americano, seria adepto do Novo Jornalismo ou jornalismo literário. Agora está em discussão na Europa, não apenas na Polônia, se era fiel aos fatos ou se chegava a inventá-los ou distorcê-los — adaptando a realidade à sua interpretação. A história de sua vida e de sua obra é esmiuçada no livro “Kapuscinski Non Fiction” (640 páginas), do jornalista polonês Artur Domoslawski, de 43 anos. O escritor Truman Capote dizia que escrevia romances de não-ficção. O título da biografia segue a regra do autor de “A Sangue Frio”: “Kapuscinski — Não-Ficção” (o título é irônico: sugere que o texto não é ficcional, ao contrário de algumas “investigações” do biografado). Noutras palavras, parte do trabalho de Kapuscinski é, a um só tempo, jornalismo e ficção. Isto o diminui? Desde que se saiba que a ficção está a serviço da iluminação dos fatos não há problema algum. Jornalismo, ao fazer um recorte breve da realidade, é, de algum modo, ficção. Mesmo textos mais alentados, nos quais o repórter apresenta detalhes que enriquecem a vida, tornando-a mais ampla, beiram à ficção. Se os textos jornalísticos deixassem mais espaço para a dúvida, sugerindo que, no momento da apuração da reportagem, não é possível obter informações precisas e que ainda há muito mais por apurar, certamente estariam mais próximos da realidade — que, por conta de sua complexidade, é mais nebulosa do que pensamos.


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POR EM 23/11/2010 ÀS 01:39 PM

Jorge Semprún 'delatou' Marguerite Duras

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Jorge SemprúnA biografia “Lealdade e Traição — Jorge Semprún” (sem tradução no Brasil), da alemã Franziska Augstein, é a sensação na Espanha. Porque envolve um de seus maiores escritores vivos, o ícone Jorge Semprún, de 87 anos. Nuria Azancot, do jornal “El Mundo”, diz que a obra desnuda o autor de “Autobiografia de Federico Sánchez” e “O Morto Certo”. Apesar da admiração pela literatura e pelo homem, Augstein não deixa de relatar os fatos, alguns desagradáveis para o escritor.
 
Entrevistado por “El Mundo”, Semprún não ataca a biografia, mas mostra-se desconfortável com o resultado da pesquisa. Diz que não é fácil ler um livro sobre si, para o qual colaborou como principal fonte, mas no qual não se sente inteiramente reconhecido. Como vem contando sua vida, em memórias e romances (que são memórias, quase sempre ou sempre), o autor afirma que os relatos de Augstein não combinam com o que vem escrevendo. Conta que foi entrevistado durante três anos, mas, como o resultado saiu “aborrecido” e “pretensioso”, a jornalista alemã decidiu usar o material como base para uma biografia. Isto foi positivo, pois o que seria apenas a versão de Semprún deu origem, depois de uma longa pesquisa, na qual pôde confrontar versões, em um livro nuançado, polêmico e, naturalmente, mais verdadeiro. Um dos pontos controversos apurados por Augstein não agradou Semprún. Em 1951, integrante do Partido Comunista Francês (Semprún é espanhol, mas às vezes é citado como escritor francês), o escritor teria denunciado, por “desviacionismo” (desvio político, certamente à direita), a escritora francesa Marguerite Duras e seu marido, Robert Antelme, e Dionys Mascolo (“amante de Duras e pai de seu filho”). Duras, Antelme e Mascolo sustentaram que foram “delatados” por Semprún. Laure Adler pesquisou o assunto, que permanecia adormecido havia décadas, e confirmou a denúncia.


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POR EM 16/11/2010 ÀS 06:05 PM

O espião alemão que detonou a revolução de Prestes

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Johnny — A Vida do Espião Que Delatou a Rebelião Comunista de 1935”Apoiados pela União Soviética de Josif Stálin, os comunistas brasileiros tentaram derrubar o presidente Getúlio Vargas em 1935 mas foram fragorosamente derrotados. Entretanto, ao contrário do que podem depreender alguns leitores, a Intentona Comunista fracassou não porque foi delatada, e sim porque era de um irrealismo abissal. Era uma formiguinha maluca brigando contra um astuto exército de elefantes. A traição serviu apenas, quem sabe, para antecipar e, assim, debelar a rebelião mais cedo. A história está devidamente anotada em livros de qualidade, como “A Rebelião Vermelha” (Record, 217 páginas, 1986), do brasilianista Stanley Hilton, “Camaradas — Nos Arquivos de Moscou: A História Secreta da Revolução Brasileira de 1935” (Companhia das Letras, 416 páginas, 1993), de William Waack, “Olga” (Companhia das Letras, 259 páginas, 1984), de Fernando Morais, “Revolucionários de 1935: Sonhos e Realidade” (Companhia das Letras, 432 páginas, 1992), de Marly de Almeida Gomes Vianna, e “Uma das Coisas Esquecidas — Getúlio Vargas e Controle Social no Brasil/1930-1945” (Companhia das Letras, 341 páginas, 2001), do brasilianista R. S. Rose. Agora, 75 anos depois, sai um livro excepcional sobre um personagem misterioso, comentado apenas episodicamente nos livros citados. “Johnny — A Vida do Espião Que Delatou a Rebelião Comunista de 1935” (Record, 600 páginas), de R. S. Rose e Gordon D. Scott, é uma obra do balacobaco sobre o alemão Johann Heinrich Amadeus de Graaf, mais conhecido como Johnny. Rigorosamente documentada, a obra é vazada no estilo de romance policial.


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POR EM 16/11/2010 ÀS 05:14 PM

Solar, de Ian McEwan

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Ian McEwan Indubitavelmente com a coroa de maior escritor inglês contemporâneo, Ian McEwan já não precise provar nada, e quem sabe nunca nos tenha provado. Os muitos prêmios literários, entre eles o Booker Prize de 1998, e um sem-número de exitosas críticas ao longo de uma carreira de trinta e cinco anos ficam muito aquém de sua genialidade narrativa. Os leitores apaixonados pelo romance “Reparação” são unânimes ao considerá-lo sua obra-prima, e, por que não?, dividem uma derrelição silenciosa e absoluta desde a leitura do mesmo. “O Inocente”, “Sábado” e “Na Praia”, sucessores quase esmagados pela sombra deixada por ele, foram três longos suspiros de descanso de lá para cá, mas não menores em termos de qualidade narrativa, vocabulário e estrutura ficcional. Então parece que “Solar”, novo romance de Ian que chega agora ao Brasil com tiragem inicial de 12 mil exemplares pela Companhia das Letras, tenta retornar ao estado de semi-perfeição laboriosa das páginas de “Reparação” – não com a mesma poesia imagética, nem com o mesmo lirismo britânico de uma época sangrenta em que guerras e romances pareciam pares perfeitamente lógicos, mas com a mesma profundidade temática, o cuidado com histórias humanas que são trágicas em função de um ambiente igualmente trágico e aparentemente imutável. 


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POR EM 12/11/2010 ÀS 07:49 PM

O Brasil reduzido a Ilha de Caras

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1822O jornalista Laurentino Gomes lança mais um livro, “1822”, que certamente vai encher as burras da Editora Nova Fronteira e encher de informações inúteis os burros de todas as fronteiras. São 352 páginas que, a pretexto de detalhar a Independência do Brasil, seus personagens e ações, começa e termina com escatologia: D. Pedro soltou o Grito do Ipiranga em meio a uma crise de diarreia e não muito depois era obrigado a voltar para a Europa carregando pouco mais que penicos. A obra (45 reais nas livrarias, 36 via internet) segue o êxito de tiragens de “1808”, acerca da vinda da família real portuguesa para o Brasil, e antecede “1889”, que certamente o autor já está preparando sobre a Proclamação da República. Com a ideia de seduzir o comprador do livro, supostamente um jovem sem o hábito da leitura, o autor abusa dos detalhes que considera engraçados, como se o Brasil tivesse se tornado um país por uma série de historietas folclóricas, um saci bípede de 8 milhões de quilômetros quadrados. A “descoberta portuguesa”, inicialmente chamada de Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz, é tida no livro como uma imensa Ilha de Caras. Caras-de-pau. Pau-brasil, logicamente. 

Ex-editor e repórter de “O Estado de S. Paulo” e “Veja”, em “1822” Gomes é um Ratinho trabalhando para o programa do Datena, enviado especial ao passado. Valoriza sobremaneira o disse-que-disse, às vezes ancorado em outro disse-que-disse —uma informação não se torna verdadeira apenas por ser antiga ou pela ausência de quem a desminta, pois o caso dos historiadores é diferente das ciências jurídicas: em dúvida, pró-lixo. Em geral, Gomes tem fonte até demais, justifica em excesso. A rigor, tem-se um ajuntamento de livros, uma coletânea, e quase nada de descoberta do próprio autor. Dá crédito a quase 200 autores/obras, praticamente um a cada folha do livro, com média de quase duas citações por página de texto. 


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