revista bula
POR EM 25/04/2011 ÀS 11:09 AM

A inclassificável obra-prima de Macedonio Fernández

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“Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?” A pergunta instiga e confunde, influenciando o leitor com a dualidade inerente de quem quer provocar e causar reações diversas. Também poderia estar facilmente na abertura desta resenha sem as aspas, como se fossem minhas as palavras de quem as escreveu, transformando o livro num consequente alvo de críticas impiedosas. A declaração nada tem de desonesta ou apelativa: com “Museu do Romance da Eterna” (266 páginas, Cosac Naify, tradução de Gênese Andrade) o leitor pode oscilar entre um caso de amor inopinado e outro de ódio gerado pelo enfado. Contudo, mais do que jogar com a sensibilidade do leitor, a forma de atingi-lo prova por si mesma seu feito artístico.
A declaração faz parte de um dos 59 prólogos do romance escrito por Macedonio Fernández, principal figura da literatura moderna argentina e influência decisiva para Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Cada prólogo, como que numa contagem progressiva para o romance propriamente dito, tem suas características, e todos convergem para dois pontos: o olhar metafísico de Macedonio e a teoria do romance — seu e de outros. A preparação para o romance é construída, destruída e reconstruída diversas vezes, entre teorias, filosofias, análises literárias, críticas, conversas com o leitor, colocando seus personagens como seres sencientes, ausentes ou presentes, que concordam ou discordam das decisões do autor: “pois meus personagens são todos ligeiríssimos: no instante em que deixo de escrever, eles deixam de fazer; se eu não trabalho, fica tudo parado”. Loucura? Não. Criatividade funda, experimentada, cozida, mastigada, testada para trincar os dentes mais sensíveis. O romance, tão aguardado, tão postergado, chega quando a crença nele já começava a se desfazer e então se torna lugar: uma estância de 100 hectares chamada “O Romance”, para onde vai um homem que ficou viúvo e onde moram os personagens que discutem seus papéis no valezinho de nome ambíguo. Depois de fluir continuamente por neologismos e teorias estéticas, plásticas, o autor desemboca num jogo entre personagens conscientes de seus papéis na ficção, o leitor diante desses personagens, a voz narrativa como Deus de toda a criação exposta, e entre introduções e diálogos que esbarram num caráter mais cênico, como se estivéssemos diante de uma Dogville de marionetes, conhecemos este viúvo, criador de um mundo onde a morte não existe e Eterna, sua amada esposa, pode ser, então, eternizada.
Claro que escrever o difícil e inventivo não se atreve a significar escrever de forma apática ou irrefletida. Macedonio começou a criação de “Museu do Romance da Eterna” em 1904, e por 48 anos escreveu e reescreveu até a morte esta que seria sua obra-prima, sem nunca tê-la visto publicada. “Fiz o que pude para que na cerzidura de múltiplas passagens de minha prosa romanesca, que arrasta consigo infatigáveis remendos de revisão, não se percebam as costuras; e me orgulho de confessar o que ninguém descobriria, porque se algum livro custou trabalho foi este, e creio que toda arte é trabalho, e muito árduo”, registrou o autor no prólogo 5. Mais tarde enfatiza: “Repito: pretendo fazer o primeiro romance genuinamente artístico. E também o último dos pseudorromances: o meu fará último o que o preceda, pois não se insistirá mais neles.” O autor que escreveu “abomino todo realismo” prova o quanto pode ser livre com sua criação ao mesmo tempo em que se amarra às contínuas lapidações de um texto que cresce, avoluma e deforma à medida que a vida passa e o amadurecimento estilístico, moderno e cheio de bons riscos, altera significativamente seus valores e sentidos.
Para entender Macedonio, é preciso dialogar com a possibilidade da morte e com o próprio autor já morto, através de seu olhar mais claro sobre as peças principais do romance, os personagens: “Nossos personagens são uma ‘população heterogênea’ de pretendentes, ignorados, aludidos e efetivos personagens do romance; ainda há os personagens variáveis de figuração e outros atuando com nomes diferentes. E de sobra o personagem da não existência. E há, do lado de fora, o personagem que sonha com o romance e o personagem com quem o romance sonha.”
O projeto gráfico do livro, criado por Elaine Ramos, é outro grandioso atrativo desta edição da Cosac Naify. O objeto já evoca, visualmente, toda a radicalidade da literatura de Macedonio Fernández. Como que rascunhos espalhados e aparentemente empilhados sem cuidado, as folhas não são refiladas na lateral direita e tem diferentes tamanhos; os prólogos não têm paginação e são emoldurados como quadros de aviso que antecipam a chegada do romance; capa, quarta capa e contracapas são preenchidas pelo texto do livro, além de toda a parte externa ser coberta por um papel especial permeável às marcas do tempo, sujeito ao envelhecimento, ao aspecto de manuseado, de coisa íntima, como são os manuscritos de todo escritor que preza por sua desorganização criativa.
Ler Macedonio Fernández, sobretudo “Museu do Romance da Eterna”, é ler a natureza da inventividade, da possibilidade que a linguagem, ou metalinguagem, carrega. É preciso um distanciamento, um olhar livre dos preconceitos concebidos por boa parte da literatura e pelo mercado editorial, com seus autores já embutidos em classes cheias de regras tanto estilísticas quanto comportamentais. O autor adverte: “Quero que o leitor saiba sempre que está lendo um romance, e não vendo um viver, não presenciando ‘vida’”. A despeito dessas palavras, a vida está tanto no livro quanto fora dele, assim como na leitura e na presença do leitor que, às vezes, também precisa se fazer de personagem.

Museu do Romance da Eterna“Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?” A pergunta instiga e confunde, influenciando o leitor com a dualidade inerente de quem quer provocar e causar reações diversas. Também poderia estar facilmente na abertura desta resenha sem as aspas, como se fossem minhas as palavras de quem as escreveu, transformando o livro num consequente alvo de críticas impiedosas. A declaração nada tem de desonesta ou apelativa: com “Museu do Romance da Eterna” (266 páginas, Cosac Naify, tradução de Gênese Andrade) o leitor pode oscilar entre um caso de amor inopinado e outro de ódio gerado pelo enfado. Contudo, mais do que jogar com a sensibilidade do leitor, a forma de atingi-lo prova por si mesma seu feito artístico.

A declaração faz parte de um dos 59 prólogos do romance escrito por Macedonio Fernández, principal figura da literatura moderna argentina e influência decisiva para Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Cada prólogo, como que numa contagem progressiva para o romance propriamente dito, tem suas características, e todos convergem para dois pontos: o olhar metafísico de Macedonio e a teoria do romance — seu e de outros. A preparação para o romance é construída, destruída e reconstruída diversas vezes, entre teorias, filosofias, análises literárias, críticas, conversas com o leitor, colocando seus personagens como seres sencientes, ausentes ou presentes, que concordam ou discordam das decisões do autor: “pois meus personagens são todos ligeiríssimos: no instante em que deixo de escrever, eles deixam de fazer; se eu não trabalho, fica tudo parado”. Loucura? Não. Criatividade funda, experimentada, cozida, mastigada, testada para trincar os dentes mais sensíveis.


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POR EM 19/04/2011 ÀS 06:58 PM

As Entrevistas da Paris Review

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As Entrevistas da Paris ReviewO volume 1 da série “As Entrevistas da Paris Review” (Companhia das Letras, 459 páginas) contém ótimas e razoáveis entrevistas. Algumas são divertidas, inteligentes e instrutivas e poucas exatamente o oposto. São entrevistados Jorge Luis Borges, Hemingway, Faulkner, Truman Capote, Billy Wilder (diretor de cinema), Primo Levi, Louis-Ferdinand Céline, Doris Lessing, Manuel Puig, Amós (na capa, saiu sem acento) Oz, Javier Marías, Ian McEwan e Paul Auster. Fiquemos com três entrevistas — do americano Capote, do inglês McEwan e do espanhol Javier Marías. Não são conversas ortodoxas, frias.

Capote revela que, mesmo escrevendo muito, lia em média cinco livros por semana. “Um romance de tamanho normal me toma cerca de duas horas.” Sobre autores que tornaram sua literatura possível, afirma: “... nunca notei nenhuma influência literária direta, embora vários críticos tenham me informado de que meus primeiros trabalhos são tributários de Faulkner, [Eudora] Welty e [Carson] McCullers. É possível. Sou um grande admirador dos três; e também de Katherine Anne Porter”. Poe, Dickens e Stevenson são considerados “ilegíveis”. Entusiasmos constantes: Flaubert, Turguêniev, Tchekhov, Jane Austen, [Henry] James, E. M. Forster, Maupassant, Rilke, Proust, Shaw, Willa Cather. Inclui, depois, James Agee. O entrevistador quer saber se, quando começa a escrever, o “livro já está inteiramente organizado” na mente de Truman Capote (autor de “A Sangue Frio” e “Bonequinha de Luxo”), ou se vai descobrir os eixos da história ao escrever. Capote responde: “Ambas as coisas. Tenho invariavelmente a impressão de que todo o arco de uma história, seu começo, seu meio e seu fim, ocorre à minha mente de maneira simultânea — que vejo tudo num relance. Mas, ao longo da elaboração, da escrita, acontecem mil surpresas. Graças a Deus, porque a surpresa, a virada, a frase que surge do nada, no momento certo, é o dividendo inesperado, aquele empurrãozinho que faz um escritor seguir em frente”.


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POR EM 09/04/2011 ÀS 02:33 PM

O escritor que fez a cabeça de Kafka

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Robert WalserO corrosivo escritor austríaco Thomas Bernhard certamente “preferia” ser herdeiro de filósofos como Schopenhauer e, quem sabe, Nietzsche. Embora sua prosa seja esmagadora, sem concessões, é possível que um de seus pais — inconfesso — seja o suíço Robert Walser. A ironia indireta do romance “Jakob von Gunten — Um Diário” (Relógio D’Água, 161 páginas, tradução de Isabel Castro Silva) é mais, digamos, “sutil” do que os petardos virulentos de Bernhard. Mesmo assim, há certo parentesco, sobretudo na distância que ambos guardam da vida e do pensamento tradicionais. A diferença é que um é indireto e o outro é direto. Walser morreu, “louco” (há quem duvide disto, incluindo o próprio autor, que, perguntado porque não continuava escrevendo no hospício, redarguiu: ‘Eu estou aqui para ser louco, não para escrever”), aos 78 anos, em 1956. Ele era o autor preferido do tcheco Franz Kafka, que, como o suíço e o búlgaro Elias Canetti, escrevia em alemão.

No Brasil, Walser é pouco conhecido e, como somos surrealistas, a fortuna crítica chegou primeiro, com textos de Walter Benjamin, Zé Pedro Antunes, Marcelo Backes, J. M. Coetzee e Elias Canetti. Em 2003, o romance “O Ajudante” saiu pela Editora Arx, com tradução e apresentação de Zé Pedro Antunes. Portugal saiu na frente e publicou outros livros de Walser, como “Jacob von Gunten”, de 1909, seu principal romance. A obra sai agora no Brasil, sob chancela da Companhia das Letras (152 páginas), com tradução de Sergio Tellaroli.

O ensaio “Robert Walser” (inserto no livro “Magia e Técnica, Arte e Política”, Brasiliense, 253 páginas, tradução de Sergio Paulo Rouanet), escrito em 1929, de Walter Benjamin, tem apenas quatro páginas, mas certamente é o ponto de partida das críticas posteriores. “Walser nos confronta com uma selva linguística aparentemente desprovida de toda intenção e, no entanto, atraente e até fascinante, uma obra displicente que contém todas as formas, da graciosa à amarga”, escreveu Benjamin.


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POR EM 09/04/2011 ÀS 01:26 PM

Mecanismos Internos, de J. M. Coetzee

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J. M. Coetzee Primeira coletânea do Nobel sul-africano J. M. Coetzee publicada no Brasil, “Mecanismos Internos: Ensaios sobre Literatura (2000-2005)” é um conjunto irregular. São 21 ensaios, a maioria deles escritos originalmente para a “New York Review of Books”. Muitas vezes a preocupação jornalística causa cansaço, com textos que funcionariam melhor como introdução a alguns autores.

Em quase um terço dos ensaios, Coetzee discute a questão da tradução, avaliando se ela faz jus ao original, onde melhora e onde piora o texto. Fluente em inglês, alemão e holandês, ele fala com autoridade sobre o assunto. Neste sentido, o ensaio sobre Paul Celan é exemplar. Algumas passagens da tradução em português soam estranhamente floreadas, além da ocorrência de um “boquiabrir-se”, inimaginável em seus textos ficcionais.

A apuração é minuciosa. Talvez fruto da atividade acadêmica, Coetzee domina o autor e a bibliografia sobre o qual discute — como no primoroso ensaio sobre Walter Benjamin —, apresentando-se sempre seguro, com paciência até para discussões sobre gêneros. Ele toma o cuidado de relacionar não apenas as obras dentro da carreira do escritor, mas compará-las com as de outros, ampliando os conhecimentos do leitor.


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POR EM 23/03/2011 ÀS 10:12 AM

Katherine Mansfield preferia Proust a Joyce

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Katherine MansfieldO Estante Virtual, que reúne os principais sebos do país, permite-nos acesso a obras raras, ou quase raras, por preços quase sempre acessíveis. Adquiri há pouco um livro encantador, “Cartas de Katherine Mansfield” (Portugália, 550 páginas, tradução de Manuela Porto e introdução de João Gaspar Simões), de 1944. Julieta Cupertino, uma de suas melhores tradutoras brasileiras, pôs em português “Diário e Cartas” (Revan). A Cosacnaify lançou “Contos”, numa edição muito bem cuidada e traduzida. Erico Verissimo está entre seus tradutores. Clarice Lispector foi devidamente influenciada pela amiga de Virginia Woolf. As cartas resultam da cabeça de um ser humano raríssimo e extremamente perceptivo. Nascida na Nova Zelândia, em 1889, Katherine Mansfield morreu em 1923, na França, com apenas 34 anos. Pioneiramente, fala de “angústia da influência” (conceito ampliado por Harold Bloom), ao examinar a literatura de um amigo e notar que “repetia” Tchekhov, uma de suas paixões. 

Katherine Mansfield leu “Ulisses”, de James Joyce, na época de seu lançamento (morreu um ano depois). Apesar de sua resistência à linguagem inventiva e desbocada do escritor irlandês, sente que se trata de uma obra grandiosa, difícil, e não esconde seu preconceito (ou estranhamento), ressaltando que é uma falha de leitora. Proust e Tchekhov eram duas de suas maiores paixões. 


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POR EM 15/03/2011 ÀS 09:58 AM

Gay é pai das denúncias do WikiLeaks

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Bradley ManningTodo mundo sabe quem é o australiano Julian Assange, o criador do WikiLeaks, mas poucos sabem quem é o americano Bradley Manning. Aos 22 anos, Manning foi enviado para o Iraque como soldado especializado em informática. Era atípico: tem 1,57m e pesava 47 quilos. Gay assumido, foi expulso de casa pelo pai e, para sobreviver, decidiu entrar para o Exército. “Ele estava lá por seu talento para manipular computadores. Na função de analista de inteligência, Manning passava longos dias na sala de informática da base [militar], examinando cuidadosamente informações confidenciais”, contam os repórteres David Leigh e Luke Harding, do The Guardian. “Ele ficara impressionado com a falta de segurança. A porta era trancada com uma fechadura de código de cinco dígitos, mas bastava dar um empurrão e era possível entrar.”

Na base militar, as coisas não funcionavam como tradicionalmente se pensa sobre o establishment americano. Manning escreveu: “Servidores ruins, registros ruins, segurança física ruim, contrainteligência ruim, análise de sinal negligente... Uma perfeita tempestade”. A negligência “alimentava oportunidades”. Para o soldado, “essas oportunidades se apresentaram sob forma de dois laptops militares, cada um deles com acesso privilegiado a segredos de Estado norte-americanos. (...) Espanta o fato de que um soldado raso pudesse ter acesso aparentemente irrestrito a essa enorme fonte de material confidencial. E que pudesse fazê-lo praticamente sem supervisão ou salvaguardas, no interior da base, é mais impressionante ainda. Ele passava horas examinando documentos e vídeos altamente confidenciais, usando fones de ouvido e fingindo cantar Lady Gaga. Quanto mais lia, mais alarmado e perturbado ficava, chocado com o que considerava duplicidade e corrupção oficiais do próprio país. Tratava-se de vídeos que mostravam o ataque aéreo de um helicóptero equipado com metralhadoras a civis desarmados no Iraque, relatos de mortes de civis e acidentes causados por ‘fogo amigo’ no Afeganistão. E havia uma quantidade gigantesca de telegramas diplomáticos revelando segredos de todo o mundo, do Vaticano ao Paquistão”.


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POR EM 22/02/2011 ÀS 06:36 PM

A paixão flamante de Elizabeth Smart e George Barker

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Elizabeth Smart A canadense Elizabeth Smart (1913-1986) é autora de um romance esplêndido, “By Grand Central Station I Sat Down and Wept” (“En Grand Central Station me Senté e Lloré”, na versão em espanhol). Neste livro, sofrido e prazeroso, conta a história de sua paixão pelo poeta inglês George Barker (1913-1991) — um protegido do vate americano T. S. Eliot. A história, extraordinária e muito bem contada, merece tradução brasileira. Quando penso em Elizabeth Smart lembro-me do britânico D. H. Lawrence, pela relação livre com a sexualidade, ainda que angustiada, e com a natureza. O livro é cult, no estilo (não no conteúdo) de “Werther”, do alemão Goethe. Elizabeth seguia à risca o preceito “penso que um homem põe todo o seu ser em um livro”, de Lawrence. Desconhecida no Brasil, a autora ganhou uma bela biografia, de autoria de Rosemary Sullivan. “Elizabeth Smart” (Circe, 396 páginas, tradução de Laura Freixas) mapeia, com acuidade, a vida, a obra e o tempo da autora. Leio (traduzindo trechos e poemas) a versão em espanhol, editada em Barcelona.

A história da bela e irrequieta Elizabeth daria um livro. Daria, não; deu — é o romance “By Grand Central Station I Sat Down and Wept”. Só que conta apenas parte de sua vida e é, claro, um romance. Por isso a biografia escrita por Rosemary é um empreendimento louvável. Comento, neste texto, tão-somente parte da relação de Elizabeth com Barker. Em 1937, aos 24 anos, a autora entrou na Livraria Bester Book e começou a ler um livro de poesia de Barker. “As palavras ardiam. Ali mesmo decorou as poesias, pois não lia livros — devorava-os”, revela Rosemary. “Tenho que me casar com um poeta. É a única solução”, escreveu a poeta e prosadora. “Este é o homem que estava buscando.”


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POR EM 14/02/2011 ÀS 01:51 PM

Autor de livro sobre Rubens Paiva contesta comentário

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Segredo de Estado — O Desaparecimento de Rubens PaivaPrezado Euler de França Belém, sou o autor do livro sobre Rubens Paiva. Agradeço os elogios e quero rebater as críticas.

Você diz que Rubens era "Político sem muitas luzes", mas na verdade ele era uma das lideranças nacionais emergentes: vice-líder do PTB, fazia parte do grupo de maior projeção do partido, foi vice-presidente de uma CPI de grande repercussão e participava regularmente de reuniões com Jango, tudo isso num primeiro mandato e que durou pouco mais de um ano.

Você diz "No lugar de apresentar os nomes dos sequestradores e torturadores, Jason Tércio cita os “codinomes” Leão, Girafa, Morcego". No epílogo do livro eu cito os nomes dos cinco acusados pela tortura e morte de Rubens.

Você cita um trecho do livro de Elio Gaspari no qual este diz que quando Rubens morreu "Comandava o DOI o major José Antonio Nogueira Belham”. Está errado. Quem comandava o DOI, como eu digo no meu livro, era o major Francisco Demiurgo Santos Cardoso, tenho documento comprovando.

Você diz "Citando fontes, Elio Gaspari esclarece o caso." Ele não esclareceu nada, apenas resumiu a história, com outros erros que ocupariam muitas linhas aqui se eu fosse citar e rebater, e não é Gaspari que está em questão, eu o respeito muito. Eu não cito fontes em função da linguagem literária adotada, que não é jornalística nem acadêmica, embora eu domine também a linguagem acadêmica, inclusive fiz mestrado.

Você diz "Tudo indica que o corpo foi esquartejado, na Casa da Morte”. Esta é a versão de um ex-agente da repressão, na qual não acredito, por vários motivos. Há sete versões sobre o destino do corpo de Rubens, todas relatadas no final do livro. Por fim, talvez lhe tenha passado despercebido, mas meu livro revela claramente, pela primeira vez, como a cúpula do Exército, o Ministério da Justiça, o STM, o partido do governo na época e até o presidente Médici contribuíram para ocultar a morte de Rubens e impedir as investigações.


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POR EM 30/01/2011 ÀS 11:47 AM

Morte de Rubens Paiva permanece obra aberta

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Segredo de Estado — O Desaparecimento de Rubens PaivaCom apoio de amplos setores civis, tanto nas elites quanto entre populares, militares derrubaram o presidente João Goulart, no início de abril de 1964. O primeiro presidente militar, Castello Branco, planejou uma transição com candidato civil para substitui-lo. O mineiro Bilac Pinto, um liberal, era uma de suas apostas. Não deu pé. A linha dura, liderada por Costa e Silva, optou pela continuidade da caserna e manteve o poder. A manutenção de partidos políticos, Arena e MDB, e portanto de eleições contribuiu para que a ditadura, embora autoritária, não se tornasse totalitária. A cassação de mandatos, com evidentes exageros, não impediu que políticos de proa da oposição, como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, se manifestassem com frequência. Uma das principais falhas da historiografia patropi é concentrar-se demasiadamente na ação armada dos guerrilheiros, de resto útil aos militares duros para tornar o regime ainda mais fechado, e menoscabar a oposição legalista e os liberais arenistas (que nada tinham de truculentos). Políticos emblemáticos como Ulysses e Tancredo (poderia citar outros) pressionaram o regime o tempo todo e permaneceram na oposição. Liberais da Arena, ainda que omissos em alguns pontos, também contribuíram para que o regime fosse menos cruento. É possível que a omissão pública tenha sido menor do que a pressão interna — o que cabe aos historiadores, como os rigorosos Carlos Fico, Elio Gaspari e Ronaldo Costa Couto (autor de um magnífico livro sobre a Abertura), investigar. Sobretudo, arenistas e emedebistas, especialmente os liberais, sugeriam, mesmo quando falavam pouco, que havia uma alternativa democrática ao sistema ditatorial. Tanto que, 21 anos depois do golpe de 64, os civis voltaram ao poder, numa combinação de um emedebista (peemedebista), Tancredo, com um arenista (pedessista), José Sarney. Mas tudo foi possível mais cedo porque havia uma tendência liberalizante tanto nos quarteis quanto no partido governista. Ao assumir a Presidência da República, em 1974, o general Ernesto Geisel se impôs uma missão — “matar” a ditadura por meio da Abertura. Geisel e Golbery do Couto e Silva eram, por assim dizer, discípulos de Castello Branco. Liberalizaram o regime de tal forma que João Figueiredo, mesmo com alguns duros no governo, não tinha mais energia nem legimitidade para fechar o regime. O processo de Abertura havia envolvido a sociedade política e a sociedade civil de tal forma que recuar era praticamente impossível.


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POR EM 17/01/2011 ÀS 05:00 PM

Máfia verdadeira é mais violenta do que a do filme de Coppola

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Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da MáfiaDepois do filme “O Poderoso Chefão”, a máfia, a Cosa Nostra, jamais será a mesma. Será sempre dupla: a Cosa Nostra real e a imaginada pelo escritor Mario Puzo e, sobretudo, pelo cineasta Francis Ford Coppola (o filme dispensa o romance). A máfia de Puzo e Coppola é edulcorada, até certo ponto. Os dois mostram a duplicidade da máfia — “a” que usa a violência para ajeitar seus negócios e “a” que usa os meios legais para limpar seu capital. Mas, claro, é a mesma máfia. Os métodos variam de acordo as circunstâncias. Empresários mantiveram e mantêm ligações com mafiosos e mesmo o Banco do Vaticano não ficou longe de acordos pouco católicos. As grandes jogadas empresariais quase sempre não são limpas, mas muitas vezes são legais. A máfia, sem descurar da ilegalidade, como o tráfico de cocaína e heroína, procura trilhar os caminhos do jogo pesado aceito pela sociedade, porque revestido de legalidade e legitimidade. O livro “Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da Máfia” (Larousse, 367 páginas, tradução de Maria Elizabeth Hallak Neilson), do jornalista John Follain, permite compreender como se estruturou a organização criminosa na qual seus integrantes se assemelham a acionistas, executivos e “soldados” (pistoleiros). A família é a Corleonese. No livro “Cosa Nostra — História da Máfia Siciliana”, John Dickie aponta que o termo máfia surgiu no século 19 — “por volta de 1860”. Mas a organização do clã Corleonese, que mais tarde passou a mandar na Cosa Nostra, se deu no século 20, com o médico don Michele Navarra. O mafioso era chamado de U Patri Nostru (Pai Nosso), “exatamente como” os sicilianos “se referiam a Deus”. O vocáculo máfia deriva, possivelmente, do árabe “mahias” (ousadia) ou “Ma àfir” (nome de uma tribo sarracena). Ao assumir o poder, entre 1922 e os primeiros anos da década de 1940, o fascista Benito Mussolini enquadrou parte da máfia. Com sua queda, “90% dos novos 353 prefeitos nomeados pelos Aliados eram mafiosos ou próximos do movimento separatista, intimamente ligado à máfia”, anota Follain. A organização criminosa se tornou parte do sistema estatal. “Talvez refletindo esse novo amanhecer, os mafiosos começaram a se referir à sua sociedade secreta como Cosa Nostra (Coisa Nossa).”


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