revista bula
POR EM 14/07/2008 ÀS 10:52 AM

Livro de encomenda

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Livro do jornalista e escritor Zuenir Ventura dá seqüência a outro lançado há 20 anos, arrolando o legado para as novas gerações em termos de comportamento, política e visão de mundo. O mais interessante da obra são as entrevistas, como a do ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, um dos ícones do movimento no Brasil e que, ao chegar ao poder, foi cassado
 
 
Cezar Santos
Há cerca de dez dias, no Oliveira’s Place, em Goiânia, em palestra promovida por um colégio, uma platéia formada basicamente de adolescentes ouvia o jornalista Zuenir Ventura falar sobre os acontecimentos de maio de 1968. Entre meio fascinados, meio confusos e meio indiferentes, por se tratar de tema tão distante no tempo para eles como o período paleolítico — e pelo fato de que a maioria estava ali por obrigação —, os jovens bebiam as palavras do escriba.
 
Zuenir falou de si e discorreu sobre seu mais recente livro, 1968 – O que Fizemos de Nós, lançado há poucas semanas. A obra tem a marca do oportunismo bem aproveitado, em cima da efeméride 40 anos do Maio de 1968, porque é claro que Zuenir programou seu lançamento para aproveitar a data — a obra foi uma encomenda de sua editora (Planeta). É o que se chama, no jargão jornalístico, de “gancho”.
 
E isso não é ruim, pelo contrário. O Velho Zuza, ou Mestre Zu (professor aposentado dos cursos de Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial-Esdi), como o chamam amigos íntimos, está mais do que nunca em cima da pauta, por dentro do deadline, por assim dizer.
 
1968 – O que Fizemos de Nós foi lançado em uma caixa vistosa contendo em relançamento o livro 1968 – O Ano que Não Terminou, que veio a público há exatos 20 anos e já é um clássico da literatura brasileira sobre aquele período (os dois livros podem ser adquiridos separadamente). A leitura das duas obras dá uma boa visão das causas e conseqüências dos acontecimentos daquele ano emblemático no Brasil. Aliás, eles dialogam entre si e Zuenir disse que é mesmo uma continuação.
 
Tratamos aqui do oportuno (e oportunista, porque não?) lançamento. O livro está dividido em duas partes (“68 após 68” e “De olho na herança”) e, de cara, este articulista entrega que a melhor é a segunda. São sete entrevistas que valem a leitura: Heloisa Buarque de Holanda, Caetano Veloso, César Benjamin, Fernando Gabeira, Fernando Henrique Cardoso, Franklin Martins e José Dirceu. Como se vê, todos personagens “meia-oito”, que têm o que dizer por ter participado diretamente dos acontecimentos e por ter assumido importância inequívoca na história brasileira, em maior ou menor grau.
 
A primeira parte é dividida em oito capítulos: Reflexos do baile distante (O que restou dos tempos de Leila Diniz para as que são avós hoje), A falta de bússola (Para ser parecido com aquela época é preciso ser diferente), A culpa é de 68 (Como ainda dói nos filhos a lembrança do que os pais sofreram), Viva o corpo brasileiro (O tabu da sexualidade deslocou-se para o açúcar, as gorduras e as taxas de colesterol), Há um meia-oito em cada canto (Eles estão no poder, na oposição, à esquerda, à direita e até prestando contas à Justiça), Sexo, drogas e rave (O que houve com o lema que embalava os hippies), A figura paterna (De década em década, a memória de 68 ressurge como uma sombra), Nosso guia (Verbetes das mudanças e permanências destes últimos 40 anos).
 
Reciclagem — A habilidade como escritor e jornalista, principalmente como o editor tarimbadíssimo que ele foi — e quem foi é e sempre será — é escancarada. Zuenir recicla informações já dadas ao público nos últimos anos, trabalha dados conhecidos. Mas faz isso com cuidado, inclusive sem omitir o fato.
 
Um exemplo, no capítulo A falta de bússola, Zuenir comenta, entre outras coisas, estudos de pesquisadores como o norte-americano Russell Jacoby (autor do livro O Fim da Utopia: Política e Cultura na Era da Apatia) e reportagens de um caderno especial do jornal O Globo, lançado em dezembro de 2007, sobre os jovens nascidos e criados com internet, celular, redes de relacionamento e câmaras digitais.
 
Em todo o livro essa “reciclagem” de informações é uma constante. Zuenir sabe, como poucos, trabalhar seu material pesquisado, entremeando-o com informações novas, contando causos acontecidos com ele e com amigos e com amigos dos amigos. Aí entra o trabalho do repórter premiado, dono de um dos melhores textos do Brasil. Toda essa bagagem é posta inteligentemente a serviço da tese a que se propõe.
 
Na primeira parte, Zuenir faz um relato do que ocorreu no Brasil ao longo destes 40 anos, faz ligações entre os ícones de 68 com os jovens de hoje. Um dos capítulos mais interessantes é “Há um meia-oito em cada canto”, em que ficamos sabendo que muitos dos principais atores da vida pública atual são remanescentes do maio de 68, notadamente do movimento estudantil. Nem poderia ser diferente, visto que os participantes do movimento são, em sua maciça maioria, integrantes da classe média e teriam mesmo de compor hoje o status quo dirigente do País.
 
Deixemos as palavras com ele: (...) “O poderoso posto de chefe da Casa Civil da Presidência da República do governo Lula, por exemplo, foi ocupado pelo ex-deputado José Dirceu até 2005 e em seguida por Dilma Rousseff, dois ativos militantes do movimento estudantil — ele pela dissidência do PCB; ela, pela VAR-Palmares. Ambos, nos seus discursos de posse, se referiram com carinho à geração de 68.” Zuenir também cita, entre muitos outros, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia (ex-líder trotskista), os ministro Celso de Melo (que foi colega de Dirceu na mesma república estudantil em São Paulo), Sepúlveda Pertence e Eros Grau.
 
Zuenir levanta uma informação curiosa neste capítulo referente ao prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, que teria renegado sua militância de esquerda nos anos 60. Maia nega a renegação. Neste relato Zuenir “cozinha” reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, de outubro de 2004, deixando o episódio registrado em seu livro, o que é por demais válido, sem dúvida.
 
Zuenir encerra a primeira parte de sua obra com um guia, em forma de verbetes sobre as mudanças e permanências dos últimos 40 anos. 
  
 
Entrevistas são o ponto alto do livro
 
As entrevistas em pingue-pongue com sete personalidades são o mel de 1968 — O que Fizemos de Nós. Com aberturas bem didáticas e contextualizativas, os entrevistados falam de sua participação nos acontecimentos, as conseqüências, e, principalmente, refletem de forma crítica sobre o período, passado um tempo suficiente para decantar entusiasmos e arroubos juvenis.
 
Começa com Heloisa Buarque de Hollanda, professora que organizou o badalado revéillon de 1968 no Rio de Janeiro, o “revéillon da Helô”. Heloisa estudou e revelou para o público a produção poética alternativa que se seguiu ao AI-5. Ela diz que “graças a Deus 1968 terminou”.
 
A segunda entrevista é com o cantor e compositor Caetano Veloso, também ele autor de um livro interessante na abordagem do período, Verdade Tropical. Caetano, na imensa modéstia que Deus lhe deu, diz que o essencial foi feito em 1967: “Gil e eu lançamos Alegria, alegria e Domingo no parque em 67, acompanhados dos Beat Boys e dos Mutantes, respectivamente, com grande escândalo. Meu disco tropicalista (com Tropicália, No dia em que eu vim-me embora, Eles, Superbacana, Soy loco por ti América, etc) ficou pronto em 76...”
 
A entrevista mais interessante é a de César Benjamin, o mais jovem militante de 1968, que entrou para a clandestinidade e para a luta armada aos 14 anos. Preso e torturado, Cesinha foi recolhido a uma solitária e submetido a completo isolamento durante três dos cinco anos que passou na prisão. César conta um pouco de sua história e de seu desencanto com o PT, partido do qual se afastou. Ele é hoje o mais duro crítico aos atuais donos do poder no Brasil e sua entrevista é “pau puro”, embora tudo o que diz já tenha sido dito em entrevistas e artigos em jornais e revistas.
 
O deputado federal verde Fernando Gabeira, que em 68 participou do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, também reflete criticamente sobre o período e a atualidade. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que em 68 estava em Paris e foi professor de Daniel Cohn-Bendit, fala de sua experiência lá e cá. O ex-presidente da República também é duro com o atual, Luiz Inácio Lula da Silva: “Ele é um pragmático intuitivo, muito inteligente, se adapta rápido, é um tático, mas não tem estratégia, porque para ter estratégia tem que ter mais sofisticação e mais noção da história”.
 
A penúltima entrevista é com o jornalista Franklin Martins, militante estudantil em 68. Demitido da Rede Globo depois que o colunista da revista Veja Diogo Mainardi revelou seus jogos de influência no governo Lula, Martins é adepto da tese de que 68 terminou precisamente no dia 13 de dezembro daquele ano, com o AI-5. Martins virou ministro de Lula após sair da Globo, ou seja, passou recibo às revelações de Mainardi.
 
Fecha o livro José Dirceu de Oliveira e Silva, que na militância atendia pelos codinomes de Daniel e de Carlos Henrique Gouveia de Melo. Dirceu, que teve o mandato cassado no episódio do mensalão, fala sobre a relação com a imprensa: “Eu não tenho queixa da imprensa, só lamento que não haja uma imprensa nossa.”
 

Ao discorrerem sobre o maio de 1968 e suas ressonâncias em 2008, os entrevistados de Zuenir Ventura explicitam muitos dos descaminhos que o País vive hoje. Nessa reflexão o leitor mergulha em 40 anos de um período rico da nossa história.


Linha do tempo

 
Entre o que não terminou
 
“Capitalismo — Era mais forte do que a vã ilusão da época pensava. Bem que Marcuse advertiu: “Combatemos contra uma sociedade que funciona extraordinariamente bem”. Nesse caso, ele não foi ouvido. A direita repetia uma piada que irritava muito os comunistas: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o inverso”.
 
Entre o que terminou
 
“Comunismo — Embora não tenha sido uma invenção brasileira, foi a grande ameaça que os militares usaram para amedrontar a população em 1964 e 1968 (...) Funcionou tanto que a crença nesse risco existe até hoje como paranóia. Entretanto, seu partido é pouco representativo, e seus adeptos não têm expressão política. Convicto mesmo, comunista para ninguém botar defeito, só se conhece um: Oscar Niemeyer.”
 
Entre o que mudou
 
“@ — Pouco conhecido em 68, o termo “arroba” só servia para designar o peso — equivalente a cerca de 15 quilos — de produtos agropecuários. Hoje, no endereço eletrônico, aparece entre o nome do usuário e o do provedor, e como tal dever ser o sinal gráfico mais usado em todo o mundo.”
 
O que não existia
 
E sobre os quais os jovens de hoje têm dificuldade de imaginar que houve um tempo em que se vivia sem: CD, DVD, Gisele Bündchen, bala perdida, telefone celular, internet, (Web, Google, Orkut, site, e-mail, MSN, Second Life), alimentação diet, Viagra, Big Brother, mania de correr, notícia em tempo real, interatividade, iPod, aids, medo de colesterol, medo de assalto, grades nos prédios, piercing, depilação dos grandes lábios, botox, seios turbinados, o “estarei fazendo”, anorexia, globalização, DNA, pensamento único, academias de musculação, Bill Gates, baile funk, controle remoto, forno de microondas, TV em cores, TV a cabo, garotas de programa (com este nome), shopping centers, ecstasy e mania de fazer listar como esta. 

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POR EM 08/07/2008 ÀS 11:18 AM

A história do criptógrafo soviético que provocou a Guerra Fria

publicado em
 
Há um livro brilhante na praça, mas, como a Guerra Fria está muito distante, deve passar batido. Como Começou a Guerra Fria — O Caso Igor Gouzenko e a Caçada aos Espiões Soviéticos (Editora Record, 362 páginas), da doutora em Política Russa (pela London School of Economics) Amy Knight, é uma pequena obra-prima.
 
Knight escreve com o rigor do historiador, apura como o mais rigoroso dos repórteres investigativos, especula com certa liberdade, mas dizendo ao leitor que está especulando, e explica os limites da documentação. Põe a nu, sem estardalhaço, conclusões sobre, entre outros Alger Hiss, considerado espião pelo FBI.
 
Gouzenko era criptógrafo da Embaixada Soviética em Ottawa, no Canadá, quando, pressionado para voltar para seu país, optou por desertar, junto com sua mulher Anna, em setembro de 1945. Levou vários documentos da inteligência do Exército, o GRU, para o qual trabalhava e entregou-os ao governo canadense.
 
Naquele momento, depois de ter lutado bravamente ao lado das democracias ocidentais, como Inglaterra e Estados Unidos, a União Soviética, apesar do tirano Stálin, era considerada uma nação amiga, com a qual era lícito partilhar informações. Mas o desconfiado Stálin — todo ditador é desconfiado e paranóico — não queria saber de “amizade verdadeira” e colocou um batalhão de espiões para roubar segredos militares e científicos dos ingleses e, sobretudo, dos norte-americanos. Esses espiões recrutaram cientistas, como Klaus Fuchs e Alan Nunn May, que, direta ou indiretamente, contribuíram para que os soviéticos pudessem desenvolver a bomba atômica. Stálin deu autorização para Beria recrutar os melhores cientistas, a quem foram dadas excepcionais condições de trabalho, mas tinha pressa para fazer a bomba atômica, acreditando que, sem ela, o país estaria permanentemente ameaçado pelos Estados Unidos. Como resultado disso, Stálin articulou uma gigantesca operação de espionagem em vários países. O Canadá era usado como base para se obter informações dos Estados Unidos e, também, da Inglaterra.
 
Mas, ao desertar, Gouzenko pôs quase tudo a perder, porque canadenses, ingleses e americanos, além de outros povos, descobriram que Stálin era o mesmo de antes e que não queria relações diplomáticas transparentes. A “ovelha” Stálin havia virado “lobo” novamente. Esta é a grande contribuição de Gouzenko, ao revelar que o ditador soviético trapaceava o tempo todo. A Guerra Fria surge do desencanto dos aliados (ingleses e americanos) com Stálin, de quem o sábio Winston Churchill, embora tenha chegado a elogiá-lo, sempre desconfiou, tanto que criou a expressão Cortina de Ferro. Há quem diga que a descoberta da bomba atômica pelos soviéticos “segurou” os americanos e que a bomba atômica americana “segurou” os soviéticos e que, assim, evitou-se a Terceira Guerra Mundial. Há um filme sobre a história de Gouzenko (não o vi, nem tenho interesse) — Cortina de Ferro (The Iron Curtain), de 1948, com direção de William Wellman e os atores Dana Andrews (Gouzenko) e Gene Tierney (Anna).
 
Um dos relatos mais impressionantes do livro tem a ver com o diplomata canadense Herbert Norman. Acusado sobretudo pelos americanos de ter sido comunista, portanto suspeito de espionagem, Norman matou-se. Eis o relato quase literário de Knight: “Na manhã quente e ensolarada de 4 de abril de 1957, Norman acordou cedo, despediu-se da mulher e foi a pé de sua casa no Cairo até um edifício alto no fim da rua, com vista para o Nilo. Tomou o elevador para o último andar e subiu as escadas para a cobertura. Tirou o paletó, os óculos e o relógio. E arremessou-se do terraço para a morte”. Norman nem havia sido comunista, no máximo, sentira-se atraído pelo marxismo, quando muito jovem, na universidade.
 
O cientista americano Arthur Steinberg, também acusado de espionagem pelo FBI de Edgar J. Hoover, foi perseguido e perdeu vários empregos. Não era comunista nem espião. O espião verdadeiro, o inglês Kim Philby, amigo do escritor Graham Greene, passou informações para os soviéticos durante muitos anos e, depois, escapou das garras da espionagem de seu país e morreu, como herói, na União Soviética. Ele próprio era um espião chefe dos espiões ingleses.
 
Knight é erudita, como observam os historiadores Margaret MacMillan e Simon Sebag Montefiori, autor do ótimo Stálin — A Corte do Czar Vermelho, e, como tal, discute os assuntos com extrema facilidade, mas sem o pedantismo de alguns acadêmicos.

 

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POR EM 28/06/2008 ÀS 07:41 PM

A sombra da metrópole

publicado em

Em Desabrigo (1942), Antônio Fraga ataca primordialmente a linguagem empolada de seu tempo. As frases sem pontuação, o humor anarquista de Fraga têm seus momentos de Ulysses, o marco da literatura moderna escrito por James Joyce

Revista Bula

Mário Zeidler Filho

Disse o agora velho Paulo Francis n’O Afeto que se encerra: “escrever é organizar intelectualmente, parafrasear a linguagem viva do povo”. Dizia, mas não fazia: Francis não agüentava o povo e o povo não digeria o Francis – foi sempre o homem do middlebrow que enjeitava, como seus eternos wanna-be: mainardis e zé-galinhas do tipo. Na verdade, como qualquer um que escreva num país de analfabetos – que decifrar letreiro de ônibus não é saber ler, nem assinar o nome escrever. Francis é um que prova que, para escrever, não é preciso “parafrasear a linguagem viva do povo”. E se a pós-modernidade é a era do samba-do-crioulo-doido  e da superficialidade, pelo menos nos poupa de obrigações literárias, de escolas, de estilos. Há os modismos para quem os quiser adotar. Não que não existam patrulhas: a “acadimia”, por exemplo, não vive sem uma patrulhinha, sem uns ajustezinhos ideológicos aqui e ali, principalmente nas tais “sociais”. Mas, no geral, estamos sartreanamente livres de todo jugo constritor das letras. Até porque censurar o que ninguém lê é mais inútil até que escrever. Escreve-se por vaidade e por desfastio. A prova está aí, na avalanche de livrinhos despejados todos os dias, a quantidade de gente que se banca uma publicação: que mensagem urgente e necessária eles trazem? A mais importante: somos todos gênios incompreendidos.
 
Detour: como todo bom “pesudo-intelectual metido a marginal” que se preza, ou nem tanto, acabei por criar fama de bebum (de bebum e de presidente do fã-clube do Bukowski, mais isso é outra estória...). Em meu último aniversário, ganhei, de um amigo o ótimo livro Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico, do Jaguar. Trata-se de uma espécie de guia dos botequins do Rio de Janeiro, com um apêndice relacionando alguns extra-rio: de São Paulo, claro. Foi comprado num sebo de Brasília, e, claro, encontrado por acaso. Por quê? Bem, obviamente, além das anedotas e da apologia, qual o interesse de algum extra-rio, um não-carioca, mesmo que bebum, por um guia dos bares copo-sujo do Rio? Nenhum. É um livro “da metrópole” e para a metrópole, não para os extraterrestres, na preferência dos doidões do cerrado do planalto central. Mesmo assim, é um puta livro, bom até para nós, E.T.’s, e recomendo a leitura, se você for sortudo de encontrá-lo, ou tiver amigos compreensivos que façam esse livro lhe cair no colo. 
 
Há algum tempo atrás, fui sortudo de topar (sim, tropecei no bicho procurando uma caixa de chocolates pra namorada) um outro livro “metropolitano”. Trata-se de Desabrigo e Outros Trecos, de Antônio Fraga (1916-1993). Hoje em dia, o Fraga é coisa de metidos a erudito, obscurantistas, ou de “pseudo-intelectual metido a marginal” obscurantista. Como o Campos de Carvalho, é até meio desagradável citá-lo. Agora só é agradável citar os “Nonada” ou os Patativas da vida. Quando topei o livro, nunca havia ouvido falar de Antônio Fraga. Lendo a quarta capa, fiquei até envergonhado – parecia uma coisa famosíssima de tão óbvia. Zuenir Ventura: “a publicação de obras do Fraga é uma dívida da cultura brasileira”.Oswald de Andrade: “O que há, não é post-modernismo e sim a nova literatura do Brasil. Veja: na prosa a maturidade está aí, em Clarice Lispector, em Guimarães Rosa, em Antônio Fraga”. Um livro “metropolitano”, pensei. Mas, lendo, descobri que ninguém mesmo, nem no rio, conhecia o Fraga. O prefácio, de Maria Célia Barbosa Reis, é parte de sua tese de doutoramento. Segundo ela, e segundo o Zuenir, trata-se de um trabalho de resgate. Não funcionou.
 
O livro “em si”, o objeto-livro, é um produto de alta qualidade, composto esmeradamente pela editora Relume-Dumará. Inclui a novela "Deasbrigo" e outros 14 “trecos”, contos selecionados, muitos deles inéditos, com ilustrações de Poty, além de desenhos do próprio Fraga; a capa é de “bom gosto”, papel de qualidade etc. Não vendeu nada, tanto que foi parar nos balaios de uma loja de conveniência, a dez mangos. Texto ruim?
 
O texto é da mais alta qualidade, embora muito mal lido. A novela (ou “quasi-novela”, como diz o autor) “Desabrigo”, ponto alto do volume, é um incrível e ímpar manifesto estético-literário.   No entanto, naquela mesma quarta capa, Antônio Callado chama Fraga de pioneiro porque “escreveu em gíria”. Uau... Escreveu em gíria... A própria Maria Célia, estudiosa do autor, coloca essa gíria como um dos pontos principais da obra, enquanto a “gíria” é somente a superfície. É o verniz dessa “quasi-novela”. Que não é nada despretensiosa. Mas voltemos.
 
Citei o Francis porque ele quase-reproduz o Antônio Fraga num “ponto de vista” de sua “quasi-novela”Desabrigo:
 
“...vou escrever ele todo em gíria pra arreliar um porrilhão de gente Os anatoles vão me esculhambar Mas se me der na telha usar a ausência de pontuação ou fazer as preposições ir parar na quiririca das donzelinhas cheias de nove-horas ou gastar a sintaxe avacalhada que dá gosto do nosso povo não tenho de modo nenhum que dar satisfações a qualquer sacanocrata não acha?”
 
A ênfase que até o autor dá à gíria é na verdade um ponto secundário em importância nessa “quasi-novela”. E não se engane o leitor incauto, que ela não é “da lavra”, como gostam nossos poetas, de nenhum rapper, punk, ou qualquer outro tipo de nouveau marginal literário de nossos tempos, muito mais chatinhos e “pseudos”. Desabrigo foi escrita no início da década de quarenta, e é o mais próximo que podemos chegar daquilo que talvez o historiador-crítico-escritor Ademir Luiz chame de “Obra de Arte Completa e Completamente”, com maiúsculas e tudo, e Antônio Fraga, seu autor, de “Artista Completo e Completamente”. Mesmo assim, a novela, ou quase, é uma das obras “de porte” mais negligenciadas e mal lidas de nossa literatura. Negligenciada porque o nome de Antônio Fraga, hoje, é coisa de filólogos, obscurantistas, e, pelo teor, de “pseudo-intielectual-metido-a-marginal” obscurantista.
 
Desabrigo é uma obra de arte completa e completamente porque vai do manifesto estético à crítica social, passando por motivações filosóficas e históricas, sem perder nada, aliás, ganhando muito. Além disso, com a novela, Fraga atingiu mesmo a “concordância” artística de Oscar Wilde em um de seus momentos mais geniais: “When critics disagree...”. Desabrigo arreliou mesmo um porrilhão de gente, e deixou confuso até os simpáticos à obra. O fardado Antônio Olinto, que, literalmente, pagou a primeira edição da novela, chegou a colocar Fraga “entre os surrealistas”, algo meio difícil de associar.
 
Permeada por “Pontos de Vista” – trechos de textos de outros autores, relacionados à forma, à linguagem e ao “fazer literário”, além de alguns cortes do próprio texto da novela, a obra é um desafio e tem uma ambição patente de renovação dos meios. Os únicos sinais de pontuação no texto são exclamações, interrogações e reticências, suprimindo vírgulas e pontos-finais. A separação entre frases é feita pelas maiúsculas, que, aliás, não existem nos nomes próprios. Para Fraga, o nome próprio era apenas uma referência, “não vale nada”.
 
A primeira edição de “Desabrigo”, primeiro e único livro da editora Macunaíma, pago com o salário de professor do fardado Antônio Olinto, não foi aceita pelos livreiros. Assim, Fraga viu-se obrigado a vender os exemplares na rua, “no cordel”. Diz a lenda sobre sua tabela de preços: “um livro – 5 mil réis; dois livros – 4 mil réis; um livro autografado – mil réis”. Saindo da linha, isso me lembra um poeta goianiense, que chegou a vender seu livro por 1 real, a não ser que o leitor demonstrasse interesse – então, ganhava de presente, com dedicatória e tudo. Boa parte, se não todos os escritores da nossa província, desocupariam um bom espaço de suas garagens se fizessem o mesmo. A coisa que mais me motivou a ler o romance Umbra, de Antônio José de Moura, foi ganhá-lo na distribuição gratuita da Semana da Biblioteca (segundo alguns, “semana do desencalhe”), quando era aluno da ETFG. Seu livro Dias de Fogo já “havia vendido mais de trinta mil exemplares”. Cavalo dado... Até que gostei do livro.
 
Mas voltando à linha: a forma heterodoxa de pontuação, vocabulário, sintaxe etc. são apenas parte da intenção da obra, que quer desafiar os “anatoles frangos” e os “sacanocratas”, e, com isso, criar um novo jeito de fazer literatura, assinalado nos “pontos de vista” inseridos (o primeiro é um trecho de texto do Campos de Carvalho, que lamenta a inserção do “calão da mais baixa ralé” na literatura, em depreciação dos “puristas, dos Camões e caterva dos séculos passados”).
 
O “teor sociológico”, se é que é realmente necessário o palavrão, está presente e entranhado em “Desabrigo” não só na “sintaxe avacalhada”, na forma, mas em todo conteúdo, na própria formação dos personagens, e, principalmente no “espaço-tempo” da obra. Trata-se de um retrato do Rio de Janeiro, principalmente do submundo boêmio, das “zonas de baixo meretrício”, do mangue (então em fase de “desmonte”) que, em sua profundidade e realismo, aproxima-se mesmo do regionalismo. Um “regionalismo metropolitano”, se os sacanocratas me permitem o paradoxo. Anarquista “de pai e mãe”, além de biscateiro notório, Fraga não pensa duas vezes antes de fazer heróis na “mais baixa ralé” (como disse o Campos de Carvalho), seja na pele dos malandros (o pilantra azarado Desabrigo, o esfomeado Cobrinha, que come a própria mão imaginando um mamão, ou o traidor Miquimba), dos trabalhadores low-life (o balconista-de-birosca Coisa, Coisada, ou “o garçom que gosta de samba”, ou até o portuga-condutor-de-bonde), as prostitutas (a oportunista “filha da Gália” Margô, ou a libertária e protofeminista Durvalina). Também não hesita em satirizar os “beletristas”, “anatoles frangos”, o vigário espertalhão que “cai no conto”, o “guarda 69”, o delegado Anacreonte, que depois de uma briga de navalhas entre Desabrigo e Cobrinha, prende não os dois, mas “quatro estivadores do vapor mauritânia suspeitos de contrabandear as navalhas”. Não escapa do chicote de Fraga, ou das metralhadoras de Evêmero, seu alter-ego, nem mesmo os postes da Light & Power (ou laite-em-pó), com seu esnobismo de estrangeiro.
 
A “quasi-novela” quase acaba numa guerra de confetes, no carnaval de 1942, ano em que se passa a narrativa, e que seria apropriadíssimo. Coloca mesmo na boca de Coisada as palavras de algum Zaratustra carnavalesco, fantasiado de caipira:   “Eu só aquerditaria num deus que sobesse sambá...” O deus ex machina é um expediente bastante usado, seja na inserção de bondes que passam convenientemente, ou até na “ajuda” pra que algum personagem tome alguma decisão, geralmente inusitada; Entretanto, no “Eterno Retorno”, último episódio da novela,  Evêmero ouve a “voz do Verbo”, ou a voz de deus, que seria o próprio fraga. O Verbo atenta para o fato de que Desabrigo vai continuar “no xilindró” pro resto da vida, e Cobrinha “está se devorando pra se conservar”. Evêmero se convence de que “É preciso fazer qualquer coisa – um esbregue danado de medonho ou uma revolução”. Ouvindo a voz do Verbo e explosões á sua volta, Evêmero arregaça as mangas e “metralha” na “reminton”: “Cobrinha entrou no buteco e botando dois tistas no balcão pediu pro coisa...” 

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POR EM 28/06/2008 ÀS 07:04 PM

A volta de um clássico

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O Professor Jeremias faz parte da aventura editorial de Monteiro Lobato, naqueles anos que se seguiram ao fim da primeira grande guerra, época em que ainda os livros brasileiros eram impressos em Portugal ou na França. O tino literário e editorialista de Lobato levou-o a publicar O Professor Jeremias, com êxito absoluto: em pouco tempo dele se tiraram sete edições 
 

 
 

por Maria Virginia Bastos de Mattos
 
           
O Professor Jeremias foi a obra de estréia de Léo Vaz , o autor consagrado de O Burrico Lúcio (livro mais conhecido, por ter sido incluído na Coleção Jabuti, da Editora Saraiva) e Ritinha e outros Casos (reeditado pelo Clube do Livro com o título de O Misterioso Caso de Ritinha). Léo Vaz nasceu em Capivari, SP, em 1890; estudou e formou-se professor em Piracicaba, lecionando em várias cidades do interior paulista. Em 1918 mudou-se para São Paulo, tornando-se secretário da Revista do Brasil, de Monteiro Lobato, e passando depois a trabalhar no jornal O Estado de São Paulo, onde iniciou como redator e foi, sucessivamente, secretário, redator-chefe e afinal diretor; aposentou-se em 1951, mas voltou a dirigir o jornal em 1969, trabalhando até seu falecimento, em março de 1973.
           
Lançado em fins de 1919, O Professor Jeremias causou sensação, projetando Léo Vaz como escritor de primeiro plano, aquele que seria a reencarnação do Bruxo do Cosme Velho, o imortal Machado de Assis. Com efeito, os críticos identificaram a leveza do estilo, a escolha do vocabulário, o ceticismo, a ironia fina de Léo Vaz como características que o aproximavam do estilo machadiano.
           
O livro de Léo Vaz faz parte da aventura editorial de Monteiro Lobato, naqueles anos que se seguiram ao fim da Primeira Grande Guerra, época em que ainda os livros brasileiros eram impressos em Portugal ou na França. O tino literário e editorialista de Lobato levou-o a publicar, logo após seu Urupês (agora relançado em primorosa edição pela Editora Globo) este O Professor Jeremias, com êxito absoluto: em pouco tempo dele se tiraram sete edições.

Êxito editorial, sim, mas nem tanto financeiro: Léo Vaz fora a esse tempo encarregado, pelo mesmo Monteiro Lobato, de redigir o primeiro Almanaque Fontoura, isso quando o “pai” da Emília e do Visconde ainda não havia gestado o Jeca Tatu, aquele que, após tomar o Biotônico, consagrou o seu autor e o Almanaque. Passemos a palavra ao próprio Léo Vaz:

Ao aparecer na livraria o meu livrinho, distribuíram também as farmácias esse outro produto de minha literária atividade. Pouco depois, já conhecido o sucesso literário do “Jeremias”, mas também seu resultado pecuniário “bem vasqueiro”, Léo Vaz recebeu um cheque de Cândido Fontoura. Conta ele que mostrou o valor a Lobato, fazendo-o notar que o Almanaque, que apenas me tomara uma semana de trabalho, me rendera quantia três vezes maior que o romance, em cuja escrita eu pusera os ócios de quase cinco anos de magistério. Ao que Lobato comentou: Você é três vezes melhor ‘faiseur d’almanacs’ do que de romances. E, com aquele senso de humor que o fizera merecer o epíteto de “o cético e sorridente caipira de Capivari”, assim Léo Vaz encerrou o “causo”: “O que deve ser acabadíssima verdade”. (Folha da Manhã, SP, 15.1.1956).

Mas O Professor Jeremias é obra de um autêntico escritor. Foi escrito naquele estilo gracioso e levemente irônico, mas de que ressumbra uma simpatia e uma piedade por tudo, que só estávamos habituados a admirar no autor de Dom Casmurro”. (Homero Prates, em 1920).

O crítico literário Antonio Cândido vai além: afirma que O Professor Jeremias representa o elo entre Machado de Assis e Ciro dos Anjos, acrescentando: “é livro de valor pela serenidade e equilíbrio, além da pureza da língua e o balanceado da composição (Antonio Cândido, em 1946).

Monteiro Lobato, em carta descontraída a Godofredo Rangel, comenta: “O Jeremias, sim, está tendo saída excelente. Leste-o? Perpassa nele um humorismo displicente de quem não quer – tal qual o autor. Aquilo é o Léo escarrado. Uma espécie de Machado de Assis sem a gagueira.” (Carta datada de 23.3.1920. Em seu: A Barca de Gleyre, 1944).

Em artigo publicado em 1920, Lima Barreto reporta-se à amargura presente na cosmovisão do autor: “Obra toda ela escrita com uma candura aparente, animada de um meio sorriso, constante e permanente, mas da qual se extrai uma filosofia amarga da vida e da sociedade”. Também Graco Silveira enxerga, na obra de Vaz, “uma não disfarçada e completa desilusão dos seres e da vida. Ao modo dos verdadeiros analistas, ele se compraz em tirar o verniz das coisas, possui o dom de sondar as almas, surpreender os intentos, separar da brilhante aparência a realidade sem brilho”. E diz mais: “Sua observação penetrante, inquieta, esmiuçadora – imagem ou função de seus olhos miúdos e vivíssimos – revela-se na exatidão do desenho e colorido com que anima figuras e cenas de nosso ‘interland" (Em torno do humorismo. O Estado de S.Paulo, 11.1.1942).

Para Tristão de Athayde o que impressionou, no romance, foi a sua aproximação com a vida real: É um romance, espelho da vida, e por tal forma fiel ao seu destino, que desdenha de alterar a realidade, curvando-a às necessidades de uma ação seguida e predeterminada. Mas como se dá em Léo Vaz a expressão dessa realidade? Segundo Tristão de Athayde, o processo mais comum do autor é raciocinar sobre o fundo das coisas, por meio das aparências. Raras vezes vai diretamente ao centro de uma idéia. Toma uma imagem, emprega uma analogia, compõe um apólogo, sempre fugindo às afirmações, a não ser as paradoxais e aos juízos categóricos e simples. Socorre-se a todo o momento do contraste entre a intenção e a ação, entre a idéia profunda e geral e a sua expressão prosaica e particular. No manejar esse contraste, muito mais árduo do que parece, usa em geral de uma técnica quase firme, de uma arte verdadeira e de um gosto seguro“.

Ao mestre Tristão damos ainda a palavra para que exponha ao leitor o enredo do livro: Separou-se o Professor Jeremias da mulher, esposa incômoda e atrabiliária, que lhe levou o filho. É a este filho, ausente e desconhecido que o velho professor escreve a sua auto-biografia, passeando uma longa experiência e um espírito sutil pelo microcosmo de Ararucá. Forma o livro como que um colar de contos incisivos e curtos, tão curtos quanto profundos, tão incisivos quanto naturais. (...) Instalado em Ararucá, entre a escola onde professava e a farmácia onde discreteava, decide-se o professor a escrever as suas memórias. E começam então esses contos, às vezes deliciosos de graça e de imprevisto, que formam a trama do livro (Revista do Brasil, jun. 1921). 

Os comentários ao livro de estréia de Léo Vaz são estimulantes. É preciso ler O Professor Jeremias, e é possível fazê-lo sem precisar recorrer aos sebos ou às bibliotecas. Uma nova edição, a 10ª, está nas livrarias: trata-se de edição crítica, com texto primorosamente estabelecido pelo professor Adriano da Gama Kury, numa publicação da Editora Bom Texto, juntamente com a Fundação Casa de Rui Barbosa. É possível adquiri-lo pelo Correio, escrevendo para o email: [email protected].  Noventa anos após ter sido escrito, é O Professor Jeremias um livro atual. Como um pequeno exemplo, leia-se o capítulo 29, em torno da burocracia escolar. 
 

Excertos de O Professor Jeremias 

Os Homens de Amanhã
 

Hás de saber, Joãozinho, que a Pedagogia, ciência de muita voga por aquele tempo, tinha, entre outras verdades apuradas, que a criança de hoje, afinal de contas e em que pese aos espíritos de contradição, não é senão a larva do homem de amanhã.

A Pedagogia é uma ciência admirável, meu filho. Outros te dirão, talvez, que consideráveis são os pedagogos. Mas em verdade te digo que não pode haver uma coisa sem a outra. E a considerabilidade destes é apenas o reflexo daquela.

A Pedagogia, teoricamente, é transcendente, e tu não deves esforçar-te por atingi-la. Seria esforço vão e de nenhuma recompensa. Mas, na prática, é uma sólida e bela coisa. Basta dizer-te, Joãozinho, que a Pedagogia é uma pirâmide. No ápice, um Diretor Geral, agudo e fino, ameaça de furar o firmamento; na base, inumeráveis mestres-escolas. De permeio, quantum satis de inspetores escolares, contínuos, amanuenses, bedéis. Todas essas pedras se cimentam com a história do homem de amanhã. E para que o homem de amanhã seja um bom homem, cumpre que as pedras da base não se mexam dos seus lugares, a fim de que as pedras intermediárias e a do vértice não tremam nos seus postos. E da pedra do tope jorra para as demais a linfa da verdade em ondas periódicas, sob a forma de circulares, avisos, regulamentos, ofícios, admoestações, suspensões, exonerações. E essa linfa lava toda a pirâmide de qualquer mácula de ignorância e infunde às pedras de baixo a ciência do que hão de fazer para dar com o hoje infantil no amanhã adulto. Um primor de edificação esse chafariz monumental da Pedagogia. 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:02 PM

Eça de Queirós redescoberto

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Em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada

Por que ler Eça de Queirós (1844-1900), mais de um século depois de sua morte? Essa pergunta continua a ser feita hoje em dia nas escolas de ensino fundamental e médio por adeptos de um método pedagógico que se propõe a estimular os jovens à leitura. E não só Eça, mas boa parte dos autores clássicos portugueses e brasileiros. Esse método, que, ao que parece, faz muito sucesso, defende que se dêem livros de fácil leitura às crianças e aos adolescentes para que se habituem a ter um exemplar na mão por alguns minutos ou horas. 

O argumento é o mais risível possível: imaginam que, se a criança acabar por pensar que a literatura é algo divertido, pode se afeiçoar ao livro, embora o que as pesquisas têm constatado é que, hoje, os jovens passam muito mais tempo diante da Internet do que de um livro. É possível que sejam mais bem informados do que éramos há 40 ou 50 anos, mas, com certeza, são bem menos capazes de escrever um texto com coerência, objetividade e clareza do que éramos naquele tempo. Também é preciso avaliar a qualidade da informação que recebem pelo meio eletrônico.
 
É provável que este articulista venha a ser considerado um dinossauro da imprensa ou das letras, mas nem por isso vai deixar de escrever aqui que, em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada. Em outras palavras: é preciso ensiná-los a se interessar pela dificuldade, não pela facilidade. Portanto, em vez da leitura tosca de um desses esotéricos da vida, que leiam Eça de Queirós ou Machado de Assis (1839-1908). Ainda que por obrigação.
 
Com certeza, hão de argumentar que ler os clássicos pode ser tarefa muito aborrecida, pois, às vezes, é preciso ter um pesado dicionário à mão. Mas é aqui que entra em ação o bom professor. Se não for para explicar os clássicos ou estimular a leitura, enfim, ensinar, para que servirá o professor?
 
Foi para facilitar o trabalho do bom professor -- porque, certamente, o mau professor o que menos faz é ensinar, embora quase sempre se esconda atrás de uma personalidade extrovertida e espalhafatosa -- que Paulo Franchetti, professor titular do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Campinas (Unicamp), e Leila Guenther, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), prepararam uma nova edição de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, que a Ateliê Editorial acaba de publicar.
 
Na apresentação que escreveu para esta obra, além de apresentar a história da produção e recepção da obra, Franchetti faz uma análise minuciosa e inovadora do romance. Já Leila Guenther procedeu a um extenso trabalho de anotação, relacionando preciosas indicações sobre os muitos instrumentos e inventos citados pelas personagens e incorporados ao dia-a-dia do nouveau rich Jacinto ao final do século XIX, bem como esclarecendo alguns vocábulos já em desuso no português falado hoje no Brasil, além de fornecer indicações sobre autores, pintores e personagens de livros que aparecem ao longo do romance. 
 
II 
 
Quando escreveu A Cidade e as Serras, Eça de Queirós já estava no fim de sua breve vida e, praticamente, consagrado como romancista, reconhecido e louvado por seus pares de Portugal e do Brasil, ainda que vivesse distante numa pequena casa dos Champs-Élysées em Paris, a uma época em que a Torre Eiffel já dominava amplamente o cenário da cidade-luz. Cuidava da revisão das provas tipográficas, mas não teve tempo de executar um trabalho que não se limitava a apurar frases ou eliminar hipotéticos erros de linguagem, mas sim fazer importantes ajustes, o que sempre o levava a modificar o manuscrito original. Àquela época, só diante do texto impresso é que o autor tinha uma visão mais completa de sua obra, o que o levava sempre a esses ajustes e, não raro, a acrescentar até capítulos inteiros.
 
No caso de A Cidade e as Serras, Eça de Queirós havia deixado o livro pronto até o capítulo IX. Com a morte repentina do autor, quem fez uma revisão radical na obra, a pedido da viúva, foi seu amigo Ramalho Ortigão (1836-1915), com quem colaborara em As Farpas, opúsculos de capa alaranjada que começaram a aparecer nas bancas e quiosques de Lisboa a 17 de junho de 1871.
 
Também o editor meteu-se a fazer cortes e adaptações, até que decidiu mandar de vez o livro à gráfica e colocá-lo, finalmente, nas livrarias, o que se deu em abril de 1901. Foi essa a versão que os contemporâneos de Eça conheceram, até que, em 1960, Helena Cidade Moura (1924), trabalhando com um autógrafo do autor, eliminou as contribuições de Ramalho Ortigão e as arbitrariedades cometidas por um editor nada ético.
 
Como observa Paulo Franchetti na apresentação, o trabalho de restauração preservaria até algumas inconsistências do manuscrito, como a troca de nomes de personagens e a falta de algumas palavras, esquecidas pelo autor no momento de passar para o papel o que lhe aflorava à mente.
 
Para Franchetti, que se deu ao trabalho de comparar as duas versões, a intervenção de Ramalho Ortigão também se mostrou desastrosa na medida em que tornou algumas frases menos precisas e o estilo menos coerente com a parte significativa do romance que havia sido revista pelo autor. 
 
III 
 
Portanto, esta não é a versão corrente do romance que ainda encontramos em livrarias. Nem é tampouco, claro, o livro que poderia ter sido se Eça tivesse tido tempo de revê-lo até o final. Mas é a versão que mais se aproxima dessa que teria sido a ideal.
 
Para quem ainda não o leu em nenhuma das duas versões, é preciso que se diga que o romance conta a história de Jacinto, jovem muito rico, de pais portugueses, que, nascido e vivendo em Paris, rodeia-se de tudo o que a civilização tinha de mais recente e promissor em termos de tecnologia e conhecimento. Enfim, um bon vivant, que não perdia uma festa de grã-finos e acompanhava durante o dia os seus muitos negócios espalhados pelo mundo.
 
Até que, um dia, entediado com tanto conforto, decide-se mudar para a zona rural, em busca de suas raízes, nas serras portuguesas. Surpreendido por um incidente de viagem, vê-se de repente sem o conforto e o aparato tecnológico a que se acostumara no berço da civilização. O resultado disso é um choque na vida de Jacinto: obrigado a colocar a mão na massa, como se diria hoje, acaba por descobrir a energia que tinha dentro de si. E vira Jacinto de Tormes.
 
Em outras palavras: o que Eça quis mostrar neste romance foi a supremacia da vida no campo em relação à vida na zona urbana, ainda que na principal cidade do mundo à época. Teria Eça, portanto, escrito um romance de tese que, segundo Massaud Moisés, constitui “uma narrativa que veicula uma doutrina, geralmente, explícita, tomada de empréstimo a uma forma de conhecimento não-estético, que o escritor encampa e luta por divulgar ou corporificar por meio de uma fabulação que lhe seja compatível” (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, 14ª ed., Cultrix, 2004, pp. 405-406).
 
De certa maneira, em A Cidade e as Serras, Eça retoma, com a ambigüidade e a ironia que marcam sua obra, um tema recorrente em seus romances: a oposição entre metrópole e província, entre tradição e modernidade, entre o tédio da vida moderna (ou do “excesso de civilização”) e as “vantagens” da vida simples do campo, o que, aliás, já era uma idéia comum entre os antigos (locus amoenus).
 
Em sua apresentação, o professor Franchetti, porém, expõe vários argumentos para rebater a idéia de que A Cidade e as Serras seja um romance de tese, embora a história que seu narrador (Zé Fernandes) apresenta seja uma exposição e comprovação de uma tese. Ou melhor: a tese exposta no romance não é defendida nem pelo narrador nem pelo autor.
 
Portanto, diz o crítico, o que dá graça ao livro é exatamente a dificuldade do narrador em sustentar a sua tese, “já que ele mesmo não se mostra, na maior parte do livro, convencido de que o percurso de Jacinto seja de fato um exemplo digno de imitação”. Aliás, como observa, Zé Fernandes até a sua última viagem a Paris não parece convencido de que o amigo teria feito a melhor opção, ao isolar-se no mundo rural.
 
Mais: Zé Fernandes, diz Franchetti, não é apenas uma testemunha da história e da mudança de hábitos de Jacinto, mas também uma personagem que se transforma sob o efeito da evolução que narra e acompanha de perto. 
 
IV 
 
Visto assim, este romance adquire novas nuances para quem já o leu em outros tempos e indica outros caminhos a quem vai percorrê-lo pela primeira vez. Até porque, como o leitor já deve ter percebido por experiência própria, cada obra tem um impacto sobre nós em função da época em que a lemos. Quantos livros que nos encantaram na juventude que, hoje, relidos, já não parecem carregar o mesmo fascínio?
 
Lembra Franchetti que, durante a ditadura salazarista, A Cidade e as Serras foi elevado à condição de obra-prima de Eça, com certeza porque fazia loas à vida saudável no campo, enquanto o Eça incômodo, socialista e revolucionário de As Farpas era deixado prudentemente de lado. Hoje, sabemos que há livros em que o autor se saiu melhor. Mas, de qualquer modo, vale a pena reler este romance que, entre outras coisas, induz o leitor a imaginar como seria a vida de Jacinto na casa de número 202 da Avenida Champs-Élysées neste começo de século XXI, cercado por tudo o que a tecnologia poder-lhe-ia oferecer. 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 04:25 PM

Rubem Braga - Um Cigano Fazendeiro do Ar

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O maior cronista brasileiro ganhou uma biografia à sua altura: Rubem Braga — Um Cigano Fazendeiro do Ar (Editora Globo, 2007, 610 páginas), do jornalista Marco Antônio de Carvalho. O autor escreveu a biografia e morreu, aos 57 anos. Uma das histórias mais extraordinárias é a paixão desmedida de
Rubem Braga pela atriz Tonia Carrero (contada entre as páginas 324 e 335).

Em 1947, enviado a Paris como correspondente de O Globo, Rubem, com a mulher, Zora, e os amigos Carlos Reverbel e a mulher deste, Olga, mora no apartamento onde morreu Marcel Proust.

Em Paris, encontra-se com Tonia Carrero, que ainda não tinha fama alguma e era casada com o desenhista Carlos Thiré. Este "não a levava a sério como atriz". Rubem avaliava que "o maior talento da amiga era antes de tudo estético: a beleza".

Mariínha, como Tonia era conhecida, cantava fados tropicais e, sobretudo, encantava a platéia de amigos, como Aníbal Machado, Rubem e Vinícius de Morais.

Nos passeios pelas ruas de Paris, Rubem elogiava a beleza de Tonia, fazia graça — "tenho muita amizade pelo seu joelho esquerdo" — e, aos poucos, ia conquistando a futura atriz. O marido implicou e disse que não queria ela saísse mais com o jornalista e escritor. Tonia chorou "copiosamente". Irritado, Thiré perguntou: "Ele é tão importante assim?" Conta Marco Carvalho: "Solitária, triste, sem ter o que fazer em Paris, Mariínha [ou Maricota, como a chamava Rubem] passou a sair ainda mais com Braga, este sempre atento a um novo corte de cabelo, uma nova fivela, uma cor rosada na face. E, certa vez, subindo as escadas de Saint-Germain, descobriu que não queria mais permanecer casada". Mulher tem mais olho para o detalhe do que homem. Rubem tinha um olhar feminino, digamos, mas com segundas intenções.

Decidida a abandonar Thiré, Tonia passou a se encontrar com Rubem "num hotelzinho, em um velho casarão discreto. (...) Um dia a concierge chamou-o a um canto: ´Não perca nunca essa mulher. Ela é bonita demais´".

Como Rubem era mulherengo e casado, Tonia decidiu romper: “Acho que nosso caso tem que acabar”. O escritor ameaçou matar-se sob as rodas dos automóveis de Paris. Optou por segui-la, acompanhando-a no navio de volta ao Brasil. Insistiu no reatamento, mas Tonia jogou duro. "Vou me jogar no mar!", gritou Rubem.

No Rio de Janeiro, Rubem não saía do pé de Tonia. "Ele era um Maria-vai-com-as-outras: queria companhia de mulher bonita, mas não era de casar com nenhuma. Como Vinícius, vivia apaixonado, mas, ao contrário deste, não gostava de se casar e de conviver. Se Rubem quisesse, eu me casaria com ele. Mas ele nunca quis", garante Tonia. O biógrafo, elegante, não chama Rubem de idiota.

O escritor certamente tinha medo de ganhar chifres do segundo mais belo animal do mundo — o primeiro, segundo Jean Cocteau, era Ava Gardner. Rubem adorava cantar as mulheres dos amigos. Estranhamente, Tonia ressalva: "O grande amor de Rubem foi Bluma Wainer". Rubem teve um caso com Bluma, pondo chifres no jornalista e empresário Samuel Wainer, seu amigo e, depois, inimigo, mas, quando a garota engravidou, o cronista fugiu para o Rio Grande do Sul.

Tonia rompeu a promessa de que não reataria com Rubem. Voltaram a se encontrar numa garçonnière do Leblon, do jornalista e crítico literário Franklin de Oliveira. "Ali se encontraram algumas vezes, sem que ela se sentisse plena, segura e feliz com o caso que se reiniciava. Tanto que propôs a Rubem que parassem de se encontrar, que voltassem a ser os amigos de sempre. Ele não aceitou: ´Venha mais uma vez. Só mais uma vez´. E Tonia, novamente, cedeu. O milagre, então, aconteceu e, dessa vez, ela voltou para casa sabendo que aquele amor, ou fosse lá o nome que fosse, era sério e que estava enredada". Mas, logo depois, caiu fora.

Apaixonado, Rubem produziu seu "Soneto": "E quando nós saímos era a Lua/Era o vento caído e o mar sereno/Azul e cinza-azul anoitecendo/A tarde ruiva das amendoeiras//E respiramos, livres das ardências/Do sol, que nos levara à sombra cauta/Tangidos pelo canto das cigarras/Dentro e fora de nós exasperadas//Andamos em silêncio pela praia/Nos corpos leves e lavados ia/O sentimento do prazer cumprido//Se mágoa me ficou na despedida/Não fez mal que ficasse, nem doesse/Era bem doce, perto das antigas".

"Tonia", diz Marco Carvalho, "não sabia bem o que fazer com aquele sentimento. Sabia apenas que não queria se tornar amante de um homem casado, por quem sentia amizade, carinho, adoração. E, pouco depois e mais uma vez, se despediu".

Mesmo casado, Rubem "exercia uma marcação individual e por zona, e exigia que os amigos avisassem assim que vissem Tonia solta ou assediada em algum bar ou restaurante: ´Era como um cão de guarda, possessivo e ciumento´".

Um dia, Tonia encantou-se pelo pintor platino-baiano Carybé e levou-o para sua casa. "Mas Tonia mal chegou a mostrar duas ou três belezas, enquanto bebericavam alguma coisa, quando ouviram batidas insistentes e nervosas na porta. Era Rubem. Silencioso e transtornado, ele nada disse. Carybé, por seu lado, levantou-se, despediu-se da mulher e saiu com o amigo, pedindo muitas desculpas — a ele. Um gesto inusitado: Carybé era temido pelos amigos por não respeitar a namorada de ninguém."

Certa vez, Rubem ligou para Tonia e ameaçou: "Abre a porta, senão eu vou me jogar no mar!" Não deu resultado. Então, o cronista foi para a porta do edifício e ficou andando na calçada, "caminhando para lá e para cá, bem visível, até que ela o recebesse".

A bela Tonia "abriu a porta. Rubem, trêmulo, desabou no choro, ela o acalmou — ´você está achando que eu nunca mais vou dar pra você?" —, conversaram um pouco, foram para a cama e, no dia seguinte, ela confirmou: ´Tá chato, Rubem. Não é mais a mesma coisa. Você tem que procurar outra mulher. Não quero ficar me encontrando assim, de vez em quando".

Decidida, Tonia não quis mais sair com Rubem. "E Rubem diria, durante anos, que no momento da separação, as mulheres são muito mais cruéis que os homens".

Mesmo admitindo que não teria mais Tonia em seus braços, Rubem continuou ciumento. "O tempo fez com que Rubem aceitasse a separação, mas seu sentimento de posse nunca desapareceu por completo: quase duas décadas depois, no Antonio´s, Tonia e Rubem conversavam calmamente — até que Paulo Pinho, casado com a atriz Djenane Machado, entrou e se dirigiu à mesa dos dois para dar um beijo na madrinha do seu casamento. Cumprimentou Rubem, sentou-se — e, a partir de então, este emudeceu, pediu sua conta e retirou-se, sem se despedir. E, mais tarde, quando revia Pinho, fingia que não o reconhecia."

Marco Carvalho conclui: "O fato é que Rubem, desde que conheceu Tonia Carrero e se envolveu com ela, nunca aceitou o fato de que a atriz não fosse sua mulher — ainda que, dubiamente, jamais propusesse a casar".

A versão de Tonia: "Uma vez, nos anos 1960, ele me levou ao aeroporto e me mostrou uma crônica linda, dizendo que tinha sido escrita pra mim. Eu nunca acreditei: ´Que nada, Rubem! Você escreve crônica pra todas as mulheres bonita que encontra! Pra mim, pra Lila Bôscoli, pra

Helena Sabino. Você adora mulher de amigo!´ Ele concordou: ´E eu vou me encantar com mulher de inimigo? Mulher de inimigo eu nem posso ver!´".


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POR EM 22/06/2008 ÀS 04:19 PM

Na estrada com detetives

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Com muito humor, ironia corrosiva e algum desespero, Roberto Bolaño faz o balanço de uma geração intelectual e discute a evolução da literatura na América Latina



Roberto Bolaño

 

 Adalto Alves 
   
Terminei de ler Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño. Uma pena. Estava muito bom. Esses livros grandes (mais de 600 páginas) costumam deixar saudade. A gente convive tempo demais com os personagens. Na hora da despedida, dá um nó na garganta. Bate uma vontade de que a história não acabe, de que ela continue pelo dobro de páginas. Principalmente quando, no fim, a vida dos personagens fica em aberto, como a nossa. Lembro que senti algo parecido em A Montanha Mágica, do Thomas Mann. Quando Hans Castorp desce do bendito sanatório é para lutar na guerra. Mann o abandona em pleno campo de batalha. Ficamos sem saber o que acontece com ele. Deve ter morrido. Mas quem pode afirmar que foi ali, naquele momento? Bolaño deixa seus personagens na estrada. Para onde eles vão? Como vão resolver suas pendengas? É como se ele dissesse: “daqui pra frente é com cada um de vocês, leitores. Quem quiser que continue”. Sacanagem. Mas a nossa vida é assim. A gente sabe que vai morrer. O que vamos fazer até a morte chegar é um mistério para todos. Temos o compromisso inadiável de escrever o roteiro de nossas vidas. Este é o sentido da frase de Sartre: “estamos condenados à liberdade”. O futuro é uma incerteza, uma página em branco que deve ser preenchida. Neste sentido, Os Detetives Selvagens é um romance existencialista. Os personagens estão meio à deriva. Eles não sabem exatamente o que fazer ou para onde ir, que direção imprimir à existência. O que não seria, assim, muito grave, se eles fossem europeus. Ser existencialista no velho mundo tem certo charme decadente. Duro é ser existencialista ou algo que o valha na América Latina. O charme deixa de ser decadente para se tornar suicida.    

Bolaño não fala muito em política e, a rigor, seus personagens têm preocupações estéticas, eminentemente literárias. Eles não estão muito interessados em derrubar a corja administrativa, mas em espezinhar o que consideram ser a corja poética do México. Uma profusão de nomes liderada, sem sombra de dúvidas, por Octávio Paz. Por que o grande teórico seria o alvo principal? Não vale a pena perder muito tempo à procura de respostas incisivas. O fato é que ele representa o status quo. Simples assim. Basta lembrar, em defesa da afirmação, que os principais personagens são jovens, muito jovens. Mesmo assim, os danados têm uma gama de leitura bastante extensa. Diga-se de passagem, de títulos que eles furtam em mega livrarias, o único esporte que praticam com imensa disciplina. Octávio é um símbolo a ser derrubado e substituído por uma nova (des) ordem, sem que isto signifique um projeto político, do modo como há um projeto de poder na carreira do professor Julio Matasanz, em Erec e Enide, último livro do espanhol Manuel Vázquez Montalbán, recentemente lançado no Brasil (pela Alfaguara). 

Não há projeto, mas apenas intenção, que não chega a ser sequer uma palavra de ordem. Os garotos não saberiam como derrubar Octávio e não saberiam o que colocar no seu lugar. Mas eles se rebelam, como se rebelam os garotos com alguma leitura. Criam um movimento. Eles se autodenominam poetas do realismo visceral. Ora, está na cara que Bolaño brinca com o clichê eternamente lançado sobre a literatura latino-americana como sua principal característica, o realismo mágico. O que seria o realismo visceral? Nenhuma explicação quanto ao tema. Podemos deduzir que se trata de agarrar a vida pelas entranhas. O movimento não tem sede, estatutos ou qualquer outro tipo de burocracia. Seus representantes são poetas que investem contra alvos flutuantes, que tampouco pertencem a outros movimentos definidos. Eles querem, presumo, se afirmar, na passagem para a vida adulta. O rito, em Bolaño, contraditoriamente, não pressupõe uma amostragem da produção criativa dos poetas. Todos eles escrevem, em maior ou menor escala, mas nem sempre o que escrevem é publicado e não nos é dado conhecer o que inventam. Não podemos, portanto, julgar a validade de suas propostas. O que seria, talvez, acadêmico demais para o gosto deles. Os real-visceralistas são antiacadêmicos, anti-teses, anti-monografias, anti-qualquer coisa que cheire a enquadramento hierárquico. Libertários, anárquicos ou expressões correlatas, de um esquerdismo de almanaque, seriam provavelmente recusados por eles. 

Os detetives selvagens buscam, na verdade, referências de uma poeta que fez parte de um grupo chamado realismo visceral. Sim, eles não são originais na escolha do nome. E agem por conta própria, sem nenhum propósito maior, a não ser descobrir o paradeiro de Cesárea Tinajero. Nesta investigação ociosa, o leitor acompanha os desdobramentos das vidas de Garcia Madero, Ulises Lima e Arturo Belano. Mais do que membros-fundadores dos real-visceralistas, representantes de uma geração que vira as costas para o ideário do pós-modernismo, da globalização, do liberalismo ou como queira chamar o ideário que identifica os vencedores na sociedade capitalista como aqueles que possuem as contas bancárias mais gordas, as propriedades mais vastas ou o dia-a-dia regido pelas responsabilidades advindas de um império financeiro. Os detetives selvagens não são executivos, não querem ser executivos e não sentem raiva de quem é executivo. Assim como não são comunistas, zapatistas, marxistas, guerrilheiros ou o raio que o parta em alguma facção maoísta. Não é isto que está em jogo, embora muitas leituras possíveis permaneçam reptícias, para quem quiser ler.         

Do mesmo modo que Bolaño parece desenhar uma biografia e uma geografia de sonho para seus andarilhos (“... como são falsos a maioria dos detalhes desta narrativa, concebida unicamente pelo prazer, pelo gosto de iludir”, dirá Georges Perec ao final de A Coleção Particular), num desassombro que poderíamos chamar de borgeano (talvez para brincar de realismo mágico), a constatação de que boa parte dos personagens é miserável, sem posses, fodida e mal paga atrela-se mais a uma espécie de condição particular de escolha do que a uma contingência material inapelável. Não se culpa o destino por nada. Aliás, faz-se o destino, apesar das circunstâncias. Nada impede que fulano e beltrano, a geração dos três patetas audazes, larguem o conforto esporádico e a família para atravessar fronteiras e oceanos, conforme salientou Allen Ginsberg no poema Uivo, “em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”. E ainda que corra à boca pequena que Lima e Arturo não passam de solenes vagabundos que sobrevivem do tráfico de drogas, eles viajam por motivos mais nobres: um amor, uma paixão, uma experiência e até por ameaça. Sem luxo, sem excesso, sem garantia de nada. Para dar vazão a um desejo, e todo mundo sabe, desde Os Provérbios do Inferno, de William Blake, que é “melhor matar uma criança no berço que acalentar desejos insatisfeitos”. E, claro, para seguir as pistas de Tinajero.        

Pistas para entender seu romance, Bolaño dispara às pampas na segunda parte do livro, quando ele adquire o efeito de um canto coral. Se Mexicanos Perdidos no México e Os Desertos de Sonora são narrados por Madero, que logo nas primeiras linhas diz: “fui cordialmente convidado a fazer parte do realismo visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim”, a segunda parte, que dá nome ao livro, é revestida por um sem número de depoimentos variados. São contos e mini-contos dispersos, soltos, aleatórios, alguns em seqüência episódica, outros como pontos de vista diferentes sobre o mesmo assunto, cheios de arestas, que levam a pensar num quebra-cabeça. O mosaico é composto de peças hilárias, surpreendentes, dramáticas. O tênue fio condutor é que todo mundo mais ou menos se conhece, se freqüenta, se perde, se reencontra e toca o barco da vida, do jeito que dá, por águas turvas. 

E se, na primeira parte, as peças-chaves são apresentadas ao leitor, na segunda, Bolaño assume todas as personalidades que sua imaginação permite conceber, sem freios, num efeito delirante. Na terceira, finalmente, o romance ganha os ares do mistério policialesco, com direito a uma explosão de violência. Porém, é ali nos desertos de Sonora que Os Detetives Selvagens paga seu tributo pop a uma tradição do gênero on the road. Depois de dizer que seus personagens são tão inconseqüentes quanto poderiam ser profundos e eruditos, Bolaño revela que, no fundo, ele queria mesmo era revitalizar o cenário beatnik. Quer saber? Da minha modesta posição no mundo, eu bato palmas em pé.   

 Os Detetives Selvagens


Trechos de Os Detetives Selvagens

Acordei em casa de Catalina O’Hara. Enquanto tomava o café da manhã, bem cedinho (María não estava, o resto da casa dormia), com Catalina e seu filhinho Davy, que ela precisava levar para o berçário, lembrei-me de que na noite anterior, quando só restávamos uns poucos, Ernesto San Epifanio dissera que existia literatura heterossexual, homossexual e bissexual. Os romances, geralmente, eram heterossexuais, já a poesia era absolutamente homossexual, os contos, deduzo, eram bissexuais, mas isso ele não disse.

Dentro do imenso oceano da poesia, [San Epifanio] distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz, bicha. Borges era bâmbi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Dario era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma de todas as bichas-loucas (...) Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podia ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. (...)

O panorama poético, afinal de contas, era basicamente a luta (subterrânea), o resultado da pugna entre poetas bichonas e poetas bichas para se apropriarem da palavra. As bicharocas, segundo San Epifanio, eram poetas bichonas no sangue, que por fraqueza ou comodidade acatavam --se bem que nem sempre-- os parâmetros estéticos e vitais das bichas. [Na Itália], bichas feito Ungaretti, Montale e Quasimodo [rivalizam com] um poeta bichona feito Leopardi (...) Com Pavese não me meto, era uma bicha-louca triste, exemplar único em sua espécie, nem me meto com  Dino Campana, que come em mesa à parte, a mesa das bichas-loucas terminais.  


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POR EM 12/06/2008 ÀS 02:51 PM

Era uma vez

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John Lukacs não é apenas um historiador. É um grande contador de histórias (“O duelo Churchill x Hitler”; “Junho de 1941 – Hitler e Stálin”; “Churchill – Visionário. Estadista. Historiador”) e, às vezes, proseador de histórias sobre histórias, como em “O Hitler da História”.

Lukacs é elegante, quase pedante, chegando mesmo a forçar o texto para inserir frases e expressões de efeito como: “(...) lembra a conhecida criada irlandesa que, questionada pelos vizinhos se as fofocas sobre a jovem viúva do final da vila eram verdadeiras, respondeu: ‘Não são verdades, mas suficientemente verdadeiras’” (Junho de 1941).

Ele tem a percepção que a História (com H maiúsculo) é muito mais o resultado da visão, arrogância, capricho ou teimosia dos líderes do que de disputas entre esquemas ou sistemas de poder: “(...) a derrota final [de Hitler] pode ter sido predestinada por sua arrogância. Mas também, a arrogância é defeito mais de caráter do que de visão, e Hitler não era cego” (O Hitler da História).
 
Em O Duelo ele faz uma análise pouco convencional: “[eu tenho] um fraco pela cognomologia – isto é, pela misteriosa maneira por que o nome de uma pessoa se torna uma representação de seu caráter... o nome e o som de Hitler era enérgico, direto, decidido e frio. Possuía um tom cortante e gélido, e não só devido ao que passamos a associar a ele....Já Churchill...sua rabugice o torna humano e jocoso, em vez de clerical. A rabugice se dissolve, de forma afável na segunda sílaba. Essa sílaba final nada tem de indiferente. É curta, brilhante, o som primaveril de um córrego. O som do nome completo é tanto sério quanto jocoso: Churchill.”      
Mas há um livro duvidoso de Lukacs. Trata-se de “O fim de uma Era”. Nele, este húngaro naturalizado americano, se esforça para mostrar que a época iniciada 500 anos atrás já se esgotou. Ele chama este período da História de Era Européia, pois foi quando o Velho Continente expandiu-se geográfica e culturalmente pelo mundo e então, tivemos as Eras do Estado, do Dinheiro, da Indústria, da Família, da Privacidade, da Educação, entre outras. Todas estas, aliás, com fórmulas atualmente esgotadas, e que agora começam a ser engolidas por uma nova Era Global, difícil de ser ainda sentida em sua plenitude, mas muito presente nos sinais característicos de fim dos tempos que se aproximam.
De certa forma, aceito sua tese no geral, por exemplo, quando diz que aquilo que as pessoas pensam e acreditam é que determinam a organização material da sociedade e não o contrário, como as atuais “escolas” da história social (ou mesmo ambiental) nos tentam demonstrar com seus esquematismos de lutas de poder para implantação de impérios. Até aí, morreu o Neves. Mas quando Lukacs começa a falar de Darwin, Einstein e Freud, o resultado é desapontador.
Sobre as opiniões dele à cerca de Freud, este que vos escreve não dirá nada, pois a tradutora (Vera Ribeiro) já fez na página 120 numa nota de rodapé: “(...) O autor não parece ter-se aprofundado muito na teorização freudiana, mas como ele mesmo diz, essas questões não são de sua alçada”.
Mas ele acha que a teoria darwiniana é apenas teoria. Não é! Há outros exemplos, mas o mais famoso é o do casal Grant que viveu 30 anos nas Ilhas Galápagos, registrando todos os tentilhões que nasciam e, então foi capaz de quantificar as pequenas modificações entre os indivíduos, mostrar as vantagens evolutivas delas e constatá-las nas gerações seguintes (O bico do tentilhão, J. Weiner). Evolução e seleção natural são fatos.
Ele não concorda com a idéia de que as características adquiridas por um ser humano durante sua vida não podem ser herdadas e diz que a falha essencial do darwinismo é negar que exista alguma diferença fundamental, por mínima que seja em termos físicos, entre os humanos e os outros seres vivos.
Bem, o Sr. Lukacs não explica, mas será que ele acredita mesmo que Edinho adquiriu as características de seu pai Pelé, de treinar incessante e permanentemente? Não basta ter herdado parte do talento (desperdiçado por ele mesmo)? Lamarck foi um grande cientista mas mesmo na época dele ninguém acreditava muito em caracteres adquiridos e a história da girafa esticando pescoço. Também nunca vi ninguém dizer que não exista uma diferença mínima entre um homem e um chimpanzé. É claro, as bases nitrogenadas do DNA tem mesma forma, etc... mas cada espécie tem seu próprio desenvolvimento. Elementar meu caro, Lukacs.
Há uma frase que Lukacs gosta de usar em seus livros e que neste caso, cabe como uma luva para ele mesmo. É aquela na qual Sheridan diz a um colega da Câmara dos Comuns: “Ele disse coisas verdadeiras e novas, mas, infelizmente, o que era verdadeiro não era novo, e o que era novo não era verdadeiro”.

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POR EM 20/05/2008 ÀS 11:42 AM

1808: O ano que não terminou

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Na lista de best-sellers há algum tempo, “1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil” do jornalista Laurentino Gomes (Editora Planeta), é delicioso e fácil de ler.
 
Neste artigo, destaco alguns trechos mostrando que ainda estamos dormindo no berço esplêndido dos costumes, vícios e manias daquela época. Entre parênteses o número da página do livro de L. Gomes, pra confirmação da veracidade de minha leitura dinâmica.
 
Em 1807 Portugal era muito atrasado e pobre. Tinha pouca gente, dependia de escravos e das veias abertas das colônias. Os portugueses não gostavam do tal progresso e só queriam saber de ir à missa. É sério! Dez por cento dos portugas eram padres, freiras ou simpatizantes (p. 58). Só os sortudos dos cassinos, os herdeiros (p.60) e os vendedores de velas e terços ficavam ricos. O território da nação portuguesa só se agüentava por que a corte puxava o saco da Inglaterra (p.65-66).
 
Entre 10 e 15 mil pessoas vieram pro Brasil junto com D.João VI, fugindo das tropas de Napoleão, que chegaram depois pregadas e famélicas à Lisboa (p. 306). Mesmo o pobre exército brancaleone e lusitano, venceria fácil, fácil.
 
A viagem foi terrível (p.97). Gente demais nos barcos, que eles até pareciam os aeroportos no Brasil, no final de 2006. Coisa de terceiro mundo! D. João raspou os cofres quando saiu de Portugal (p. 75) e depois, quando voltou pra lá (p.321). Pelo menos no quesito limpeza de cofres ele foi um rei asseado.
 
Antes de chegar ao Rio de Janeiro, o navio de D. João passou por Salvador que tinha uma paisagem linda de longe, mas quando se chegava perto era um horror com suas “casas repugnantemente sujas” (p.115). Na Bahia, o príncipe regente abriu os portos para os ingleses (os americanos da época) e participou de inúmeras festas e celebrações, mesmo sem Ivete Sangalo. Também não se menciona se ACM já estava por lá. Devia estar, como ainda hoje....
 
Em 1808, o Brasil ainda era um território com poucas cidades espalhadas no meio da mata. Por exemplo, a vila de Itu a 100 km de São Paulo era conhecida como a boca do sertão (p. 122). Tenho um amigo da capital paulista que acha que depois da longínqua Osasco, tudo é Mato Grosso. Paulistano é chato.
 
Se existissem em 1808, os telejornais mostrariam que a saúde no Brasil se encontrava em estado de penúria e que havia problemas com a qualidade do atendimento médico (p.123 e 166). Porém ninguém falava de dengue ou febre amarela....
 
Florianópolis era a cidade que “proporcionava agradável retiro a aposentados (...) que tendo assegurado sua independência, procuram apenas lazeres para desfrutá-la” (p.127). Concordo com gênero, número e grau com este viajante de 200 anos atrás.
 
O coração econômico da colônia pulsava entre MG, SP e RJ (p. 129). Um economista que vivesse duzentos anos, diria que o Brasil é um grande tédio.
 
O Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era impresso em Londres para fugir à censura (p. 135), mas já recebia um jabá da coroa pra maneirar nas críticas. No futuro D.Pedro I, nomearia o proprietário, Hipólito José da Costa, como agente diplomático do Brasil na Inglaterra. Hipólito, então, tornou-se o primeiro Chateaubriand do país! Não tenho certeza se usava a cartola ou se presenteara a rainha com um colar que nunca foi pago. Este país tem cada uma (aliás, aquele livro do Fernando Moraes é demais, não?).
 
A família real era um “povinho feio”! D. João era gordo e seboso. Carlota Joaquina e suas filhas eram ossudas e chegaram carecas para diminuir os piolhos durante a viagem. No outro dia as peruas da high society tupiniquim cortaram os cabelos bem curtos, pensando ser a última moda na Europa (p.145). Te contei não menina?
 
A corte era arrogante, prepotente e caloteira (p.149). Os impostos aumentaram tremendamente para sustentar estes parasitas. E assim, o príncipe regente poderia ter sido galantemente nomeado: D. João, o Leão do Imposto de Renda.
 
“A limpeza do Rio de Janeiro era confiada aos urubus” (p.157) e mesmo as famílias mais ricas tinham péssimos hábitos.
 
D. João era o que foi mostrado no filme da Carla Camurati: doente, depressivo, feio, medroso, relutante e ainda colocava gordurosas coxas de frango nos bolsos da casaca real (p.169). Provavelmente tinha um caso homossexual com seu camareiro (era sem imaginação, também). Já Carlota Joaquina era golpista, conspiradora, queria ela mesma dominar o reino, depois tentou emplacar um dos seus filhos, mas sempre sem sucesso (p.179). É provável que não fosse promíscua como no filme que leva seu nome, pois era muito feia para encontrar amantes.
 
A corrupção corria solta na corte  com “burocratas” enriquecendo rapidamente (p.191). Caixa dois e recursos não contabilizados eram moda e até motivo de piada, música e poesia (p.195). Era fácil comprar títulos de nobreza. D. João os vendia à qualquer um que doasse dinheiro à ele (p. 200). Isto é a cara do nosso país, né não?
 
Esta é para os amigos da Revista Bula. Nos freqüentes relatos dos viajantes fala-se muito sobre o analfabetismo e a falta de cultura geral do Brasil. Um deles, profético, escreveu: “O Brasil não é lugar de literatura” (p.269).
 
E apesar de tudo os historiadores acham que se D.João não viesse ao Brasil, o país hoje não existiria, dando lugar a inúmeros pequenos países na região (p.327). Teria sido melhor? Impossível responder. Seria pior? Parece difícil, mas da mesma maneira como nada é tão bom que não possa melhorar, nada é tão ruim que não possa piorar.

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POR EM 06/04/2008 ÀS 03:57 PM

O Poeta malogrado

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Poeta goiano quase desconhecido, nascido na antiga Vila Boa e que morreu há mais de 100 anos, em Franca, São Paulo, tem parte de sua obra resgatada em livro. O professor e juiz de direito Carlos Alberto Bastos de Matos, que morreu em 2004, vasculhou arquivos de cidades paulistas e mineiras e reconstituiu a atribulada biografia do poeta 



Carlos Alberto B. Matos
 
“Eginio Venancio”.Este haveria de ser na verdade o nome de quem afinal se consagrou, após curta e atribulada existência, como o inspirado poeta “Ygino Rodrigues”.

Seu pai, Salvador José Venâncio, emigrado da Bahia para a cidade de Goiás, aí casou-se em 12 de maio de 1867 com Luiza Alves Barboza. Nasceu o poeta a 11 de janeiro de 1872, sendo seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca. Há, pois, de ter sido do padrinho que Ygino herdou o sobrenome “Rodrigues”. E isto era, na época, costume comum entre gente simples.

Filho de família humilde, não foram certamente de muito conforto seus primeiros anos às margens do rio Vermelho, na antiga Villa Boa. Aliás, as próprias condições da então capital da província de Goiás eram, naqueles tempos, de todo desfavoráveis.

Um século mais tarde, traçando a biografia de quem já então era o patrono da cadeira nº 24 da Academia Goiana de Letras, Humberto Crispim Borges conta que Ygino, sob a proteção de seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca, iniciou o estudo das primeiras letras em 1879. Em 1884, revelando inteligência incomum, ingressou no “Lyceu de Goiaz”, que concluiu em 1888. No ano seguinte assentou praça no 20º Batalhão da Infantaria, mas dois anos depois, em 1891, deixou as fileiras do Exército, passando a colaborar ativamente, em 1892 e 1893, na Gazeta de Goiás, do monsenhor Inácio Xavier da Silva. Também publicou poemas
em O Goiás e no Jornal de Goiás. Em 1894, desgostoso, retirou-se da modorrenta Goiás. Sua mudança de Goiás deveu-se, certamente, a seu irrequieto espírito, a seus anseios de vôos altos noutros lugares. Havia de ter consciência de seus dotes de jornalista e de seu valor como poeta, que não haveriam de permanecer confinados nos limites estreitos da terra que o vira nascer.

Ei-lo então em Uberaba, acolhido por Quintiliano Jardim, diretor do” Lavoura e Comércio” e proprietário da Tipografia Jardim, onde é impresso o primeiro livro de Ygino, "Dinamites"( publicado em três volumes , era dedicado à memória de Floriano Peixoto, por quem ele tinha uma admiração fanática). Mais tarde, em 1908, já morto Ygino, o jornalista lembrava que ele lhe chegara do “Goiás tropical, trazendo o cérebro ardendo em fantasias e o coração aflorado de esperanças, fantasias, falenas doiradas que espalhava a mãos cheias numa prodigalidade nababesca por jornais e folhetos; esperanças, minaretes aurilavrados erguidos nos seus sonhos de poeta...”.

Irrequieto, Ygino segue para o Rio de Janeiro, onde trabalha como redator de O Nacional e onde, no ano de 1895, imprime "Pampeiros", em edição da Tipografia da Papelaria Ribeiro. Pouco depois, todavia, já está
em São Paulo, tentando levar adiante um pequeno jornal, A Mogyana, de curta e intermitente vida. 

Afinal, em meados de 1901, surge em Franca. E surge fulgurante, publicando no Sétimo Districto de 26 de maio dois sonetos que fazem imediata fama: "Flor de Maio" e este "Ato de Contrição":
 
Eu sei que Deus que é bom, que é Infinito,
Há de lenir-me o sofrimento, em breve,
E hei de ficar tão puro, como a neve,
Pelo perdão que peço-lhe contrito
 
Eu sei que Deus escuta a voz do aflito
E violar seu poder ninguém se atreve;
Minha alma subirá qual pena leve,
Pois eu creio em Jesus e no seu rito!
 
Arranca-me, Senhor, deste planeta
Onde arrasto duríssima grilheta,
Onde, em seis lustros, quase não vivi!...
 
Dá-me forças no transe derradeiro,
Como as tiveste embaixo do madeiro...
Dá-me coragem pra subir a Ti! 

O poeta, desde aí, desde maio de 1901, não mais abandona Franca. Em agosto publica a brochura "Faíscas"; apenas dois meses após, em outubro, vem a lume "Flores do Deserto, ambos editados pela Tipografia Espírita de Franca. Seus versos, políticos, líricos ou satíricos, são continuamente divulgados nos jornais da terra. Mas, ao mesmo tempo, Ygino envolve-se em confusões e arranja alguns inimigos que cultiva com visível prazer. Assim, é preso na cidade de Amparo porque, muito ébrio, queria por força que o delegado de polícia, Dr. João Guedes, comprasse um seu livro de poesias. Logo a seguir abre dura campanha contra a Santa Casa e principalmente contra seu zelador, Domingos, a quem acusa de "esmurrar os doentes" e até de "lhes negar água". Meses depois é surrado, a vassouradas, pela cozinheira Gregória, num restaurante da rua da Estação.

Parece que, sobranceiro, Ygino não se abala. E, com a pena satírica que de quando em quando brandia, continua a golpear um e outro. Todavia, prossegue encantando os francanos com líricos poemas que os jornais estampavam a toda semana. Embevecida, a cidade lê certa manhã, para memória até nossos dias, uns versos que - segundo se diz – teriam sido escritos de um jato, em mesa de botequim, a pedido de uma jovem, Joaninha, filha do dono do bar e que possuía na face uma delicada pinta preta:
 
                            A pinta preta que tu tens no rosto
                            É uma pinta mimosa e tão pequena,
                            Que te dá mais encanto e mais amena
                            Graça, qual nuvem leve em céu de agosto.
 
                            Faz um soldado abandonar seu posto,
                            Faz queimar-se na luz uma falena,
                            Invejam os anjos da mansão serena
                            A pinta preta que tu tens no rosto.
 
                            E eu imagino até, bela menina,
                            Que Deus de ti, um dia, enamorou-se
                            E chorou de pesar e de desgosto...
 
                            Chorou... e a branca lágrima divina,
                            Gota do céu, caindo, transformou-se
                            Na pinta preta que tu tens no rosto... 

Entretanto, fazendo editar
em São Paulo, nas oficinas gráficas Rosenhaim e Meyer, "Aerólitos"(livrinho de 25 páginas dedicado a Santos Dumont) e publicando em Franca outro festejado livro de poesia, "Trinos e Trenos", Ygino não deixa de dar asas às turbulências de seu espírito. A bengaladas, agride-o Elias Mota na rua do Comércio: Ygino, no inquérito, atribui isto a "boatos que correm na cidade a respeito de seu casamento com a mãe" de Elias Mota, mas desconversa, dizendo que não tem "a menor participação neste assunto". O agressor, no entanto, confirma que o móvel é realmente esse e que ele, de fato, se opõe ao matrimônio porque o poeta, "um homem que constantemente acha-se em estado de embriaguez", não está "na altura" de receber sua mãe.

Põe-se como feroz inimigo do Intendente municipal, o jornalista Álvaro Abranches Lopes, d'O Francano. Nesse período, certamente, já sofria a doença dos pulmões, agravada pela vida desregrada e pelo álcool.

E, ao meio desse turbilhão, casa-se com uma rica viúva, Maria Thereza Espíndola, bem mais velha que ele: era a sogra de Álvaro Abranches; era a mãe de Elias Mota...

Não há notícia de que o casamento, que não lhe deu filhos, tivesse trazido sossego à alma do poeta. Ygino continua a se crer um incompreendido – e, ante a dor da fria indiferença de que se supõe cercado, lamenta em tristes versos sua orfandade que "nenhum prazer (...) aquece". Mas, a isto, diz que reage:
 
Vingo-me, desprezando essa horda à toa,
Bebendo pinga, seja ruim ou boa,
  Que não bebe por gosto quem padece

              (“Dor e desprezo", Tribuna da Franca, 19.1.1904. 

Meses após o casamento, inicia-se longa contenda entre Álvaro Abranches e Ygino, a respeito da tutela dos filhos menores de Maria Thereza, e da herança de um sobrado, no qual a filha mais nova, Sabina, teria parte.

Quintiliano Jardim, em visita a Franca, reencontra Ygino "muito magro, o rosto socavado, coberto de um livor esverdeado e os olhos com um brilho sinistro". Viu-o "tomando aguardente aos copos (...), longe dos fregueses, num canto, solitário e abandonado das gentes – como sempre ébrio, bastante ébrio e falando cavernosamente, arrastando as palavras". Não se reconheceram de pronto: do boêmio, a tuberculose "devastara horrivelmente o corpo, e transformação acentuada se fizera em sua fisionomia". Só a custo o chegante, que há dez anos fora seu editor, deu-se a conhecer àquele freguês de "casaco ensebado, puído nos cotovelos". O boêmio, continua ele, "levantou-se então, cambaleante, arrastando cadeiras, quebrando copos, e veio para mim abrindo os braços esqueléticos e compridos" para, logo a seguir, "com aquela sem-cerimônia que lhe afugentava os amigos" pedir ao jornalista um dinheiro: - "Passa-me uma de cinco aí, é para o vício".
 

Sobre esse Ygino, boêmio desmiolado, escreveu seu amigo Ricardo Paranhos, do jornal Goyaz e Minas, que "se o tico-tico lhe almoçasse o juízo" é bem certo "que o modesto e sóbrio animalzinho ficaria em jejum". É o mesmo Ricardo Paranhos quem noticia a publicação de mais um trabalho de Ygino: "Versos Diversos”. Segundo Paranhos, "o mimoso livrinho (...) prima, não só pela confecção typographica, que não póde ser mais caprichosa e artistica, como pelas preciosidades que enfeixa." (Cidade da Franca, 15.6.1905).

É de 1904 um poema
em que Ygino traça a autobiografia poética:
 
Hoje
 
Aos doze anos amei e fui traído,
Aos quinze comecei de poeta o fado;
Chego aos dezoito... e fiz-me então soldado...
Aos vinte e três já era um foragido.
 
E do destino sempre perseguido,
Vivendo sempre a amar sem ser amado,
Agora aos trinta e dois eis-me chegado
E inda não sei p’ra que fui eu nascido!
 
E se do amor jamais banhou-me a espuma,
Fortuna nunca achei em parte alguma...
Não tenho amigos, nem do 'arame' a luz!...
 
E contudo o meu nome faz estrondo!
Serei muito feliz inda transpondo
Os trinta e três, a idade de Jesus!
 

A saúde, no entanto, a essa altura já dava mostras de que fugia do maltratado corpo do poeta. Várias notas nos jornais referem-se aos longos padecimentos pulmonares de Ygino.

Afinal, na fria e chuvosa tarde de 4 de julho de 1907, uma enorme multidão leva, da Santa Casa para o cemitério da Saudade, os restos mortais do desditoso poeta de 35 anos. A Banda do Grêmio executa a marcha fúnebre, composta por seu diretor para aquela ocasião. A Estudantina Francana comparece, trazendo seu estandarte com o sinal de luto. Uma "rica coroa" depositada sobre o caixão tinha os dizeres: "Recordação do Povo da Franca". É a Franca que se despede de Ygino Rodrigues, por certo recordando, comovida, sua "Última Súplica":
 
Quando, cansado da mundana lida,
Meus frios ossos entregar à terra,
Na sepultura que meu corpo encerra
Não quero pompas, ouropéis da vida!
 
Nem mesmo uma elegia dolorida,
Triste como um luar prateando a serra,
Não vá dos vermes perturbar a guerra
Sobre meu corpo na final jazida!
 
Escuta, ó Tu que foste meu querido
Amor, escuta o último pedido
Que venho te fazer, banhado em pranto:
 
Por mim ergue uma prece à Divindade,
Planta no meu sepulcro uma saudade,
Não te esqueças de mim que te amei tanto!
(O Francano, 5.7.1902).  

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