revista bula
POR EM 10/11/2008 ÀS 05:39 PM

O inventor da América

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Se o mal entendido de apontar Vespúcio como descobridor da América não durou muito, por outro lado, muita gente série chegou a acreditar por longo tempo que foi ele o verdadeiro descobridor do Brasil

A história que se aprende no colégio sempre emprestou a Américo Vespúcio um leve ar de gatuno, de charlatão simpático, algo inescrupuloso. Alguém que imortalizou o nome por meio de atos, sob certo porto de vista, questionáveis. Lembro-me perfeitamente que, ainda no 1o grau, fiquei indignado quando estudei pela primeira vez sobre a série de equívocos que fizeram com que Américo Vespúcio batizasse o continente descoberto por Colombo. Uma grande sacanagem, pensei. Sacanagem que não foi de forma alguma compensada pela homenagem ao verdadeiro descobridor através do nome da Colômbia. Seja como for, cresci, graduei-me em História, deixando para trás as simplificações tacanhas dos livros didáticos, estudei um pouco mais profundamente o problema, e, para minha surpresa, ainda assim a aura de espertalhão de Vespúcio não se dissipou. Apenas tornou-se mais charmosa e fascinante. Constatei que o navegador florentino foi apenas o homem certo na hora exata e teve a sagacidade de perceber isto. 

O providencial lançamento do livro Novo Mundo — as cartas que batizaram a América, pela editora Planeta, vem coroar de uma vez por todas sua fama de bom canalha. Trata-se de uma imprescindível coleção de cinco cartas de Vespúcio sobre o recém descoberto continente. Duas destas cartas são consideradas apócrifas pelos especialistas, apenas falsificações das epistolas originais. Curiosamente foram estes os textos que fizeram a fama de seu suposto autor, jogaram Colombo na obscuridade e, literalmente, inventaram a América. São elas: Mundus Novus e Quatro Navegações

Na primeira, publicada inicialmente em latim, em 1503, Vespúcio cria o conceito de Novo Mundo afirmando que as terras descobertas “é coisa novíssima para todos os que ouviram falar (delas); e porque isso excede a opinião de nossos antepassados”. Assim, ao contrário de Colombo que divulgou suas descobertas relacionando-as as antigas tradições dos viajantes clássicos, que percorreram o Oriente desconhecido, Vespúcio orgulhosamente afirma que apresenta uma estrondosa novidade: existe uma quarta parte de terra no mundo, para além da Europa, Ásia e África. A publicação de Mundus Novus, como não poderia deixar de ser, foi um sucesso absoluto, transformando Américo Vespúcio em uma das primeiras celebridades da era da imprensa e, engano maior, suposto descobridor das tais novíssimas terras a oeste. Tamanha foi a extensão de sua fama que suscitou o engano que levou o cartógrafo Martin Waldeseemüller, durante o ato de criação do primeiro mapa constando o novo continente, a afirmar que “eu não vejo por que se poderia legitimamente impedir que, segundo o nome de seu descobridor, Américo Vespúcio, homem de espírito sutil, ele seja chamado de Amerige, isto é terra de Américo, ou ainda América, já que foram mulheres que emprestaram seu nome à Europa e Ásia.” 

Mas se o mal entendido de apontar Vespúcio como descobridor da América não durou muito, por outro lado, muita gente série chegou a acreditar por longo tempo que foi ele o verdadeiro descobridor do Brasil. O engano se deu devido a Quatro Navegações, carta publicada inicialmente em 1507. Segundo seu texto, ao longo da primeira das quatro expedições de Vespúcio à América sugeridas no título, ocorrida entre maio de 1499 e junho de 1500, ele teria chegado ao Rio Grande do Norte dez meses antes de Cabral pisar em Porto Seguro. O problema é que esta expedição simplesmente não aconteceu. Foi simplesmente inventada por Vespúcio ou pelo compilador responsável pela elaboração da carta apócrifa, ao que tudo indica com a conivência do “inventor da América”.

Historiadores de renome como Varnhagem, o pai da historiografia brasileira, e Henry Vignaud, o mais brilhante dos americanistas franceses do século XIX, morreram convictos de que este absurdo era a mais pura verdade. Chegaram a escrever livros para defender esta tese.

A farsa só foi desfeita definitivamente com a publicação e analise das três epistolas tidas como verdadeiras, as chamadas Carta de Sevilha, Carta do Cabo Verde e Carta de Lisboa; nas quais Vespúcio narra suas viagens a seu empregador Lorenzo del Medici, datadas entre julho de 1500 e julho de 1502. A publicação tardia destas epistolas só ocorreram em 1745, 1827 e 1924, respectivamente.  

No Brasil alguns destes documentos foram publicados anteriormente em separado e todos como parte integrante do livro Brasil 1500 — quarenta documentos, da editora da UnB, antes de constituírem este volume solo da obra de Américo Vespúcio. A editoração é belíssima, muito caprichada, repleta de ilustrações que mais do que enfeitam, ilustram o texto. Neste sentido o mais interessante é o resgate de algumas gravuras belas e raras.

Algumas são verdadeiras preciosidades. Por exemplo: logo nas páginas 6 e 7 temos a primeiríssima representação gráfica feita dos índios brasileiros, uma xilografia de 1500, publicada numa edição do Mundus Novus, onde se vê os nativos antropófagos descritos na visão exagerada de Vespúcio. Só isto já vale o livro inteiro.    

A apresentação e notas ficaram a cargo do jornalista Eduardo Bueno, responsável pela série histórica em três volumes Terra Brasilis, que acumulou imenso sucesso tomando carona na comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil (a do Cabral). Seu estilo consagrado, que mistura erudição divertida à lá Umberto Eco tupiniquim e leveza jornalística, continua o mesmo, seja lá o que isto signifique. O fato é que os historiadores de oficio costumam ser desconfiados quanto a Bueno, sobretudo devido a sua declaração em um programa de televisão que “quando não sabe, inventa”. Se inventou algo neste Novo Mundo, confesso que não sei com certeza e prefiro não acusar. Mas não tenho dúvidas que se o fez não desagradou Américo Vespúcio, o dono da festa e maior interessado. Manipular a verdade sempre foi à especialidade do inventor da América.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:53 PM

Censura no ano do centenário

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Ao se colocar como única dona e herdeira da obra do pai, como se a memória e a vida do escritor Guimarães Rosa fosse de sua propriedade, em virtude de ser filha, Vilma Guimarães comete um crime contra o patrimônio cultural. Guimarães Rosa não é só de sua família, de Minas Gerais ou só do Brasil. É do mundo 
 

A LGE Editora (de Brasília) foi condenada a retirar de circulação o livro “Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa”, do escritor goiano Alaor Barbosa, lançado no final de 2007. A decisão é da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro.

Para o juiz Marcelo Almeida de Moraes Marinho, “o receio de dano irreparável ou de difícil reparação é patente na medida em que a comercialização do livro poderá causar lesão ao direito da personalidade das autoras”, além de conter supostamente informações erradas sobre Guimarães Rosa e de ter sido publicado sem a autorização de Vilma Guimarães, filha do escritor.

Para a editora Nova Fronteira, co-autora da ação, “o prejuízo aos direitos autorais de Vilma Guimarães Rosa é indiscutível, já que grande parte de ‘Relembramentos’ foi transcrita no livro ‘Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa’, precisamente no momento em que a obra está sendo relançada. É evidente que a inserção de 103 trechos (os advogados da LGE Editora afirmam na contestação que foram 82 citações) relevantes de um livro em outro, sem autorização ou mesmo consulta ao seu autor e editor, prejudica o lançamento da obra original”, sustenta a defesa da editora.

Outro argumento utilizado pelos advogados de Vilma é que Alaor Barbosa teria afirmado que Rosa considerava a Língua Portuguesa “inferior”.

Os advogados da LGE Editora e do escritor contestaram e recorreram. “Trata-se de uma ação que tem, por trás, um intuito comercial das autoras. A filha de Guimarães Rosa acaba de relançar, pela editora co-autora da ação, um livro sobre o escritor, que não é uma biografia, e sim a reprodução de algumas cartas trocadas entre ela e o escritor.”

Na contestação enviada ao juiz da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro os advogados escrevem: “A verdade é que nenhum dano moral foi cometido contra quem quer que seja. Ao contrário: o livro objeto desta ação só contém benefícios intelectuais e morais ao escritor João Guimarães Rosa. Danos morais têm sido cometidos, sim, mas pelas autoras. Particularmente a 1ª, não somente contra o escritor Alaor Barbosa, autor do livro objeto desta ação, como também contra a ré, que o editou. A ré tem visto e testemunhado o grande número de agressões assacadas pela 1ª autora contra o escritor Alaor Barbosa, reiteradamente, há vários meses, na imprensa. Tremendas agressões verbais — até de doido já foi ele acusado por ela — em entrevista ao jornal ‘O Estado de Minas’ do dia 27 de junho último. Quanto a ré, o dano moral que tem sofrido decorre dos constantes ataques e acusações desferidos contra o livro que, com a melhor e a mais pura das intenções de ordem cultural, editou no final do ano passado”.

Os advogados também relacionaram na contestação livros de outros autores com centenas citações da obra de Guimarães Rosa. E enfatizam que nem por isso esses autores tiveram seus livros proibidos de serem comercializados.

Ouvido pelo
"Jornal Opção", o escritor Alaor Barbosa afirmou: “Concebido para dois volumes, meu livro sobre João Guimarães Rosa é um resgate de uma obra literária que, por diversas razões, vem resvalando, ultimamente, para um relativo esquecimento. Eu a defendi em 1959, quando ainda era pouco compreendida e bastante rejeitada, e a reestudei em 1981, em livro: ‘A Epopéia Brasileira ou: Para ler Guimarães Rosa’. Voltei a defendê-la agora, em 2007, com um livro que amplia consideravelmente o anterior. O segundo volume pretende ser uma revisão crítica, necessária e maduramente feita, com uma carga de conhecimentos e experiências adquiridos ao longo dos últimos 50 anos. Há dois anos publiquei o livro ‘O Romance Regionalista Brasileiro’, em que estudo livros e perfilo um grande número de autores (entre os quais o mesmo João Guimarães Rosa) desde o gaúcho Caldre e Fião, passando por José de Alencar, Euclides da Cunha, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, até José J. Veiga e José Cândido de Carvalho. Nenhum herdeiro me ameaçou”, disse. “Esta ação contra meu livro tem me trazido muito sofrimento moral e físico. Atingiu minha família toda: mulher, filhos, netas, irmãos, sobrinhos e todos os mais. Ninguém compreende o fato de meu livro — escrito com integral boa-fé e honestas intenções — ter colhido reações tão negativas da parte de pessoas que deviam recebê-lo com simpatia, agrado, amizade, gratidão. Na cultura da comunidade em que nasci e me criei, a gente aprende que amigo do meu pai amigo meu é. Esta é uma das razões da nossa perplexidade e estupefação. As possíveis motivações verdadeiras desta ação judicial são apontadas na contestação a ela oposta.”

Advogados e escritores consultados pelo "Jornal Opção" são unânimes em afirmar que Alaor Barbosa é vítima de censura. E que não há danos morais no seu livro — o que há na verdade são ganhos morais — já que o livro é uma louvação à memória de Guimarães Rosa.

Fábio Silvestre Cardoso, do
“Jornal Rascunho”, de Curitiba, escreveu: “Trata-se de observar de que forma a inegável afeição do biógrafo pelo biografado impossibilitou a Alaor Barbosa o distanciamento minimamente necessário para que o texto não tivesse uma carga demasiadamente pesada de menções elogiosas ao escritor e ao homem Guimarães Rosa”.

Para a advogada de Vilma Guimarães, não há censura. O que há é zelo pela memória do escritor e respeito aos direitos autorais. O argumento da defesa é o artigo 20 do Código Civil: “A divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se destinarem a fins comerciais. Em se tratando de morto ou de ausente, são partes legítimas para requerer essa proteção o cônjuge, os ascendentes ou os descendentes”. E completa com o artigo 29 da Lei de Direitos Autorais : “Depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, por quaisquer modalidades, tais como: reprodução parcial ou integral”.

A verdade é que a discussão em torno do livro de Alaor Barbosa não envolve apenas uma disputa sobre direitos autorais, mas também os limites entre o direito de imagem e a liberdade de expressão. As brigas em torno de biografias não-autorizadas têm se tornado recorrentes no Brasil. Apesar do novo Código Civil Brasileiro ter sido aprovado em 2002, grande parte de seus artigos foram escritos nos anos 1970, deixando evidente o quanto a questão dos direitos morais ou da personalidade precisam ser discutidas numa condição mais adequada aos dias de hoje.

Ainda não há uma posição da Justiça sobre o tema nem sobre os limites entre o que é direito à privacidade e o direito à informação sobre a vida de pessoas públicas. Entretanto, o cerceamento à circulação de um livro, a menos que se tipifiquem calúnia, difamação ou plágio, atenta e afronta a liberdade de expressão.

Ao se colocar como única dona e herdeira da obra do pai, como se a memória e a vida do escritor Guimarães Rosa fosse de sua propriedade, em virtude de ser filha, Vilma Guimarães comete quase um crime contra o patrimônio cultural. Guimarães Rosa não é só de sua família, de Minas Gerais ou só do Brasil. É do mundo. Proibir que outros autores estudem e publiquem sobre sua vida e sua obra é contribuir para relegar ao ostracismo um dos grandes gênios literários da humanidade. Uma pena que em 2008 — ano de seu centenário de nascimento — seu nome não esteja apenas relacionado às obras-primas que deixou, mas também a brigas judiciais e ao cerceamento da liberdade de expressão.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:27 PM

Cinco séculos de poesia

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A Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)


 

Os professores de Literatura Brasileira tanto do ensino médio como do ensino universitário já não precisam se preocupar tanto para elaborar seus planos de ensino nem consultar uma grande quantidade de livros nem sempre disponíveis nas bibliotecas de escolas ou mesmo de universidades públicas ou privadas. Foi pensando nisso que a Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O resultado é uma edição que merece toda a confiança do leitor e que permite “pensar a história da poesia no Brasil e suas principais linhas de força, ao longo de cinco séculos”, como assinala na apresentação do primeiro dos cinco volumes Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária na Unicamp, responsável também pela apresentação dos demais livros.
 
ANTOLOGIA DA POESIA BARROCA BRASILEIRA

O primeiro volume da série, Antologia da poesia barroca brasileira, traz poemas de Gregório de Matos (1636-1696), Bento Teixeira (c.1561-1600), Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), selecionados por Emerson Tin, doutorando em Literatura Brasileira pela Unicamp, responsável também pelo prefácio, por notas explicativas e de natureza literária, contextual e lexical e por uma pequena notícia biográfica de cada autor que ajudam a tornar cada poema mais legível ao leitor pouco versado na produção barroca luso-brasileira.

Não é preciso dizer que na produção poética do período a primazia é de Gregório de Matos, o que levou o organizador da antologia a selecionar 40 de seus poemas. Seu contemporâneo Botelho de Oliveira aparece com 20 poemas, enquanto Rocha Pita, consagrado autor da História da América portuguesa, tem resgatada a sua um tanto esquecida produção na Academia Brasílica dos Esquecidos. Quem, porém, abre a antologia é Bento Teixeira, conhecido especialmente pelo poema épico “Prosopopéia”, que tem como modelo “Os Lusíadas”, de Luís de Camões (1524?-1580).
 
ANTOLOGIA DA POESIA ÁRCADE BRASILEIRA

Com seleção e notas de Pablo Simpson, o segundo volume da série, Antologia da poesia árcade brasileira, dedica os maiores espaços, como não poderia deixar de ser, a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas também contempla parte da produção de Santa Rita Durão (1822?-1784), Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793) e Silva Alvarenga (1749-1814).

Reúne o que de melhor produziu a poesia árcade e, de certo modo, ajuda-a a recuperar um lugar que nem sempre lhe foi reconhecido pela crítica, especialmente a da primeira metade do século XX, que viu com prevenção a estilização e o apego de seus poetas a cânones não só portugueses como italianos, esquecendo-se de que, à época, o Brasil não existia como nação organizada e, na verdade, éramos todos portugueses.

Como assinala Paulo Franchetti na apresentação, o Arcadismo, embora não tenha recebido a fortuna crítica e a recepção entusiasmada com que o Barroco tem sido contemplado nos últimos anos, já pode ser visto de modo mais favorável. Além disso, o próprio movimento de constituição de agremiações intelectuais, as famosas academias, diz o professor, “parece mais simpático, quando se considera que o uso dos pseudônimos e a valorização do talento como único requisito para admissão dos membros encenavam, na sociedade estratificada do século XVIII, o ideal de uma aristocracia de espírito e não de sangue”.

Para isso, muito contribuíram os recentes estudos de Jorge Ruedas de la Serna, Vania Pinheiro Chaves, Ivan Teixeira, Alcir Pécora, Melânia Silva de Aguiar, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Joaci Pereira Furtado, José Ramos Tinhorão, Luís André Nepomuceno e, se permitem a pouca modéstia, a biografia de Tomás Antônio Gonzaga que este articulista escreveu.
 
ANTOLOGIA DA POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA

Já Antologia da poesia romântica brasileira, com seleção e notas de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, é um volume mais encorpado, em razão mesmo da necessidade de abranger maior número de autores. O período, a rigor, vai de 1836, quando o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882) publicou um ensaio na revista Niterói, editada em Paris, lançando as idéias de um programa para a edificação de uma literatura genuinamente brasileira, sob a influência da natureza americana, até meados da segunda metade do século XIX. E configura a presença do Romantismo em terras brasileiras.

Além do citado Gonçalves de Magalhães, o volume abrange autores díspares como Sousândrade (1832-1902), autor de “O Guesa Errante“, poema redescoberto pelos concretistas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003) a partir da década de 60 do século passado, e Gonçalves Dias (1823-1864), autor da antológica “Canção do exílio” e de alguns dos mais importantes poemas da lírica indianista brasileira.

Reúne ainda Luís Gama (1830-1882), com suas sátiras aos comportamentos, tipos e situações de sua época, Bernardo Guimarães (1825-1884), com sua poesia erótica e, às vezes, até pornográfica, Álvares de Azevedo (1831-1952), com sua fina e sepulcral poesia, Laurindo Rabelo (1826-1864), com sua poesia satírica e fescenina, Casimiro de Abreu (1839-1860), com sua lírica de tons suaves, Castro Alves (1847-1871), com seus versos grandiloqüentes em favor dos escravos, Fagundes Varela (1841-1875), com seus poemas religiosos uns, amorosos outros, de inspiração regional ou sertaneja, Juvenal Galeno (1836-1931), com seus versos francamente populares, e Junqueira Freire (1832-1855), com seus poemas de monge atormentado. 
 
ANTOLOGIA DA POESIA PARNASIANA BRASILEIRA

Com seleção e notas de Pedro Marques, Antologia da poesia parnasiana brasileira apresenta poemas de 14 poetas, entre consagrados e outros menos conhecidos do grande público, mas não menos representativos do parnasianismo. Entre os consagrados, estão Olavo Bilac (1865-1918) e Machado de Assis (1839-1908), cuja produção como poeta acabou abafada pelo êxito de seus romances da última fase. Entre os menos afamados, estão Luís Delfino (1834-1910), B.Lopes (1859-1916) e Francisca Júlia (1870-1920), única mulher entre os poetas reunidos.

Lembra Franchetti na apresentação que o parnasianismo, em seu grande momento, ocupou lugar proeminente em jornais, revistas, conferências públicas e saraus burgueses, atraindo grande público para a poesia, o que, aliás, nunca haveria de se repetir, guardadas as devidas proporções no tempo. É de ressaltar ainda que, desde os primeiros tempos do Brasil independente, a literatura esteve comprometida com as questões vitais da nação, tendo assumido a bandeira da causa abolicionista.

Encerrada a questão da abolição da escravatura -- embora a situação dos ex-escravos nunca tenha efetivamente preocupado o governo e as classes dirigentes --, e estabelecida a República, desapareceram os grandes temas épicos. Assim, a poesia refluiu a um exclusivo cultivo artístico, calcado em movimentos europeus posteriores ao Romantismo.

Embora fique clara a influência do movimento francês, os parnasianos brasileiros procuraram um caminho próprio, o que explica o fato de terem caído no gosto da população ou pelo menos daquele público letrado que se interessava pelas coisas do espírito. Com certeza, tal foi a importância do lugar que essa geração ocupou na sociedade de seu tempo que a ela se deve a criação da Academia Brasileira de Letras, como lembra Pedro Marques na sua introdução.

Se muitas vezes os modernistas atacaram sem medidas o parnasianismo, isso se deu por conta da necessidade que tinham de oferecer alternativas para o que consideravam fórmulas gastas dos parnasianos. Mas nunca deixaram de reconhecer a importância histórica do movimento.
 
ANTOLOGIA DA POESIA SIMBOLISTA
E DECADENTE BRASILEIRA


Com seleção e notas da professora Francine Ricieri, doutora em Teoria e História Literária na área de Literatura Brasileira pela Unicamp, Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira reúne nove poetas de um movimento que, ao não alcançar a repercussão do parnasianismo, agrupa nomes ainda pouco conhecidos do público. Diz a organizadora em aprofundado estudo introdutório à guisa de prefácio que esses poetas, como jamais pretenderam servir à causa nacional, “foram usualmente representados como alienados, desenraizados, fúteis, irracionalistas, incompreensíveis, colonizados”.

Seja como for, como observa Franchetti na apresentação, a poesia simbolista reserva muitas surpresas “e a leitura desta antologia por certo ajudará a reverter a idéia de desinteresse que se colou à produção simbolista”. Para que esta frase não fique aqui assim um tanto solta, é de lembrar que Franchetti, autor de As aves que aqui gorjeiam -- a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Lisboa, Cotovia, 2005), navega por estas águas com mão de mestre, como diria Massaud Moisés.

Missal e Broquéis, publicados no Rio de Janeiro em 1893, por Cruz e Sousa (1861-1898), teriam sido a primeira manifestação em livro no Brasil do Simbolismo ou Decadentismo. Por isso, além de peças de Cruz e Sousa, que abrem o volume, a organizadora recolheu poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), B.Lopes (1859-1916), Eduardo Guimaraens (1892-1928), Maranhão Sobrinho (1879-1915), Pedro Kilkerry (1885-1917), Da Costa e Silva (1885-1950), Emiliano Perneta (1866-1921) e Alceu Wamosy (1895-1923). É de notar que B.Lopes aparece aqui também porque sua poesia tanto tem traços parnasianos como simbolistas.

Desses, o mais visível nos dias de hoje é Da Costa e Silva, em razão do trabalho de resgate de sua poesia encetado por seu filho, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que tratou de republicar a produção do pai, embora Alphonsus de Guimaraens e Emiliano Perneta também sejam frequëntemente lembrados em estudos acadêmicos.

Outro bem conhecido seria Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja poesia apresenta recursos e temas relacionados à poesia simbolista, mas a organizadora preferiu deixá-lo de fora da antologia, argumentando que incluí-lo seria fornecer do poeta “uma visão que não condiz com a linha peculiar e tão característica em que sua poesia se definiu”. Até porque a produção de Augusto dos Anjos guarda igualmente traços parnasianos e até mesmo pré-modernistas.

Por isso, seria aceitável que alguns especialistas viessem a questionar a sua exclusão, mas a verdade é que o estudo introdutório de Francine Ricieri é tão bem embasado e didático e suas extensas notas de leitura tão esclarecedoras que essa se torna uma tarefa extremamente difícil e ingrata.

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).    

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:07 PM

A Missão Secreta de Rudolf Hess

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Em maio de 1941, com a Inglaterra praticamente derrotada pela Alemanha de Adolf Hitler, o primeiro-ministro Winston Churchill recebeu para um almoço políticos e o embaixador sueco Bjorn Prytz. Este quis saber "como a Grã-Bretanha poderia continuar enfrentando tamanha fúria".

Alguns ficaram constrangidos, menos Churchill. Sorrindo, contou uma historinha:

"Era uma vez dois sapos. O Sapo Otimista e o Sapo Pessimista. Uma noite, os dois sapos saíram pulando na floresta atraídos pelo cheiro de leite fresco que vinha de uma leiteria. Eles pularam a janela da leiteria e caíram direto dentro de um latão de leite".

Churchill tomou um gole de conhaque, soltou uma baforada de seu charuto e concluiu:

"As laterais do latão eram íngremes demais. O Sapo Pessimista logo desistiu e afundou. Mas o Sapo Otimista ganhou coragem e começou a nadar e a se debater, esperando conseguir sair de alguma forma. Ele não sabia como, mas não desistiria sem lutar. Ele se agitou por toda a noite e pela manhã — ah, que alegria! — ele estava flutuando em uma rodela de manteiga!"

Ao perceber que a turma, a sua, ficara satisfeita, Churchill fumou mais uma vez e concluiu: "Eu sou o Sapo Otimista". Fisicamente, Churchill parecia um sapão.

A história está contada no competente A Missão Secreta de Rudolf Hess O Estranho Vôo do Vice de Hitler e o Segredo Mais Bem Guardado da Espionagem Britânica (Record, 2007, 361 páginas), do historiador galês Martin Allen.

Allen mostra que Hitler tentou a paz com a Inglaterra, mas não com Churchill, que queria destrui-lo a qualquer custo. Percebendo a insegurança de Hitler, que vencia a guerra com relativa facilidade, o serviço de espionagem inglês montou a Operação Srs. HHHH (Hitler, Hess, Haushofer, Hoare, Halifax). Essa operação, habilmente articulada, sugeriu a Hitler que havia uma dissidência na Inglaterra, liderada por lorde Halifax e pelo embaixador Samuel Hoare. Essa dissidência estaria disposta a destituir Churchill e negociar a paz.

Hitler caiu direitinho e enviou vários emissários para conversar sobre a paz, sobretudo com Samuel Hoare. Como as negociações não saíam do lugar, Hitler decidiu enviar à Inglaterra uma ponte mais alta na hierarquia do governo nazista, o vice-Führer Rudolf Hess, o que surpreendeu os ingleses, que esperavam Ernst Bohle, uma figura menor.

Embora não fosse néscio (era mau político, sugere Allen), Hitler caiu no canto de sereia dos ingleses. O motivo? Em 1941, Hitler governava um império, que incluía Áustria, Polônia, Tchecoslováquia e França, e precisava do petróleo da Rússia e do trigo da Ucrânia. Isso do ponto de vista da economia. Do ponto de vista político, um de seus projetos, desde o início, era dominar a Rússia e destruir o bolchevismo.

Para enfrentar a Rússia, Hitler trabalhou diplomaticamente para retirar a Inglaterra da guerra, para não ter de lutar em duas frentes. O líder nazista avaliava que, sem a batalha no Ocidente, a Rússia seria presa fácil. Por isso, caiu no canto de sereia da espionagem inglesa.

Hess foi para a Inglaterra negociar com emissários de lorde Halifax, o suposto dissidente, por intermédio do duque de Kent. Mas não havia dissidência alguma. O alemão acabou preso de 1941 a 1987, quando morreu, aos 93 anos. A tacada de Churchill deu certo. Jogou a furiosa Alemanha em cima dos russos e ganhou a guerra. Sem o front russo, provavelmente a Inglaterra teria se rendido ao nazismo. No fim da guerra, Ióssif Stálin disse a Churchill que percebera sua “armação”. Seu informante era o inglês Kim Philby, o amigo do escritor Graham Greene, autor do romance O Terceiro Homem.

Por que os ingleses esconderam o segredo de Hess por tanto tempo? Allen avalia que, ao jogar os nazistas sobre a União Soviética, Churchill, de certa forma, contribuiu para a morte de 20 milhões de russos. Por que Churchill era anticomunista ferrenho? Mais provavelmente porque não havia outra saída à mão. De qualquer modo, admite Allen, um dos projetos prioritários de Hitler era atacar a Rússia. Paradoxalmente, para vencer a guerra durante certo período, contou com os préstimos de Stálin, um de seus grandes fornecedores de petróleo e alimentos.


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POR EM 02/11/2008 ÀS 10:43 PM

O nascimento de Hugo Chávez

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Ao ser pre­so, Chá­vez foi le­va­do a uma re­de de te­le­vi­são pa­ra fa­zer um pro­nun­ci­a­men­to con­vo­can­do seus ali­a­dos à ren­di­ção to­tal. O te­nen­te-co­ro­nel só acei­tou fa­lar ao vi­vo. No dis­cur­so, de ape­nas 72 se­gun­dos, Chá­vez ins­ta­lou, in­con­sci­en­te­men­te, sua ima­gem no ima­gi­ná­rio dos po­bres e da clas­se mé­dia da Ve­ne­zu­e­la. Nas­cia, ali, o sal­va­dor, o no­vo mes­si­as

No li­vro “Hu­go Chá­vez - Da Ori­gem Sim­ples ao Ide­á­rio da Re­vo­lu­ção Per­ma­nen­te” (Edi­to­ra No­vo Con­cei­to, 516 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ro­dri­go Cas­tro), o jor­na­lis­ta Bart Jo­nes re­ve­la o exa­to mo­men­to em que nas­ce o he­rói-po­lí­ti­co Hu­go Chá­vez, que se con­si­de­ra “Si­món Bo­lí­var re­en­car­na­do”.

Em fe­ve­rei­ro de 1992, Chá­vez re­u­niu um gru­po de ofi­ci­ais e sol­da­dos e ten­tou der­ru­bar o pre­si­den­te Car­los An­drés Pé­rez. O ob­je­ti­vo era ma­tar Pé­rez e to­mar o po­der. O gol­pe te­ve um iní­cio bem-su­ce­di­do, mas Chá­vez he­si­tou, por fal­ta de ex­pe­ri­ên­cia po­lí­ti­ca, e Pé­rez deu a vol­ta por ci­ma e con­se­guiu pren­dê-lo. A cur­to pra­zo, uma vi­tó­ria de Pir­ro.

Ao ser pre­so, Chá­vez foi le­va­do a uma re­de de te­le­vi­são pa­ra fa­zer um pro­nun­ci­a­men­to con­vo­can­do seus ali­a­dos à ren­di­ção to­tal. O te­nen­te-co­ro­nel só acei­tou fa­lar ao vi­vo. No dis­cur­so, de ape­nas 72 se­gun­dos, Chá­vez ins­ta­lou, in­con­sci­en­te­men­te, sua ima­gem no ima­gi­ná­rio dos po­bres e da clas­se mé­dia da Ve­ne­zu­e­la. Nas­cia, ali, o sal­va­dor, o no­vo mes­si­as. O go­ver­no ve­ne­zu­e­la­no co­me­teu, em pou­co mais de um mi­nu­to, a bo­ba­gem su­pre­ma: su­bes­ti­mou aque­le que pa­re­cia ven­ci­do e dei­xou ele fa­lar o que quis.

Tran­scre­vo in­te­gral­men­te o dis­cur­so que pa­riu o Chá­vez he­rói-po­lí­ti­co: “Pri­mei­ra­men­te, que­ro dar meu bom dia pa­ra to­da a po­pu­la­ção da Ve­ne­zu­e­la. Es­ta men­sa­gem bo­li­va­ri­a­na di­ri­ge-se a to­dos os co­ra­jo­sos sol­da­dos pre­sen­tes no re­gi­men­to de tan­ques em Va­len­cia. Ca­ma­ra­das, in­fe­liz­men­te, por en­quan­to, os ob­je­ti­vos que nos im­pu­se­mos não fo­ram atin­gi­dos na ca­pi­tal. Ou se­ja, os que es­tão aqui em Ca­ra­cas não to­ma­ram o po­der. In­de­pen­den­te de on­de es­te­jam, vo­cês saí­ram-se bem. Mas ago­ra che­gou a ho­ra de re­fle­tir­mos. No­vas opor­tu­ni­da­des apa­re­ce­rão e o pa­ís pre­ci­sa, cer­ta­men­te, ca­mi­nhar ru­mo a um fu­tu­ro me­lhor.

“En­tão, es­cu­tem o que te­nho a di­zer, es­cu­tem o co­man­dan­te Chá­vez, que lhes en­via es­ta men­sa­gem. Por fa­vor, re­fli­tam e de­po­nham su­as ar­mas, por­que na ver­da­de os ob­je­ti­vos que nos im­pu­se­mos na­ci­o­nal­men­te não se en­con­tram mais em nos­so al­can­ce. Ca­ma­ra­das, es­cu­tem es­ta men­sa­gem de so­li­da­ri­e­da­de. Agra­de­ço sua le­al­da­de, sua co­ra­gem, sua ab­ne­ga­da ge­ne­ro­si­da­de. Di­an­te do pa­ís e di­an­te de vo­cês, acei­to a res­pon­sa­bi­li­da­de por es­te mo­vi­men­to mi­li­tar bo­li­va­ri­a­no. Obri­ga­do”.

Os mi­li­ta­res e os po­lí­ti­cos nem mes­mo man­da­ram Chá­vez re­ti­rar seu uni­for­me ca­mu­fla­do de com­ba­te nem a bo­i­na ver­me­lha de pá­ra-que­dis­ta. Ao dei­xar a sa­la, apa­ren­te­men­te sem en­ten­der que ha­via agra­da­do ao pú­bli­co, Chá­vez sen­tia-se de­pri­mi­do e fra­cas­sa­do. O ge­ne­ral Ra­món San­te­liz Ru­íz deu-lhe a cha­ve pa­ra en­ten­der di­rei­to o que ha­via di­to: “Vo­cê dis­se por en­quan­to”. O as­tu­to Cha­vez dis­se, de­pois: “Eu não ha­via per­ce­bi­do. Aqui­lo ha­via sa­í­do na­tu­ral­men­te. Eu lem­bro de ter di­to pa­ra ele: ‘Acho que eles vão apa­gar is­so’. ‘Não, já foi pa­ra o ar. A trans­mis­são era ao vi­vo’”.

Bart Jo­nes es­cre­ve que “o pro­nun­ci­a­men­to de Chá­vez caiu co­mo uma bom­ba”. As pes­so­as fi­ca­ram fas­ci­na­das por aque­le “ele­gan­te e jo­vem ofi­ci­al”. “Ele tam­bém in­di­cou que a re­be­li­ão não che­ga­ra a ain­da a seu fim. Du­as pa­la­vras - por aho­ra (por en­quan­to) - so­a­ram pa­ra mui­tas pes­so­as co­mo a pro­mes­sa de que al­gum dia os re­bel­des re­gres­sa­riam. Eles não ha­vi­am atin­gi­do seus ob­je­ti­vos ‘por aho­ra’. Os dois vo­cá­bu­los trans­for­ma­ram-se ins­tan­ta­ne­a­men­te nas pa­la­vras de or­dem mais pro­nun­ci­a­das nas ru­as”, re­la­ta Bart Jo­nes. A mis­si­o­ná­ria ca­tó­li­ca Li­sa Sul­li­van, que mo­ra­ na Ve­ne­zu­e­la, sin­te­ti­zou o pen­sa­men­to de mui­tos: “Hu­go Chá­vez en­trou em nos­sos co­ra­ções na­que­le dia e nun­ca mais saiu”.

A im­pren­sa fez o mai­or oba-oba com Chá­vez e, anes­te­si­a­dos, re­pór­te­res, edi­to­res e do­nos de jor­nais não qui­se­ram ou­vir o con­se­lho do pre­si­den­te Car­los An­drés Pé­rez: “Não exal­tem o ho­mem que ten­tou re­a­li­zar o gol­pe mi­li­tar. Não trans­for­me­mos um cri­mi­no­so que traiu as For­ças Ar­ma­das e pro­vo­cou mor­te e des­tru­i­ção em uma fi­gu­ra de des­ta­que”. Seis anos de­pois, Chá­vez foi elei­to pre­si­den­te, cen­su­rou a im­pren­sa que lhe abria es­pa­ços ge­ne­ro­sos e, co­mo só tem 54 anos, po­de se tor­nar o no­vo Fi­del Cas­tro, mes­mo que pi­lo­tan­do uma aven­tu­ra mais na­ci­o­na­lis­ta e po­pu­lis­ta do que co­mu­nis­ta. Al­guém acre­di­ta que Chá­vez vai dei­xar o po­der em 2012?

Há um pro­ble­ma no li­vro, pois o au­tor ten­de a su­per­va­lo­ri­zar Chá­vez e a su­bes­ti­mar os po­lí­ti­cos tra­di­cio­nais da Ve­ne­zu­e­la. Mas, em­bo­ra a fa­vor de Chá­vez, Bart de Jo­nes ex­põe os fa­tos.

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POR EM 11/09/2008 ÀS 03:50 PM

Contos eróticos

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Breve resenha publicada no Rascunho.

“Pode vir, freguês, pode vir, que aqui tem sexo animal e sexo com animal, homossexualismo masculino e feminino, pedofilia, sodomia, traições familiares, todo tipo de perversão, pode vir!” Falando assim até parece que a coletânea de contos de Luiz Vilela, publicada pela Leitura, esteja disponível apenas em lojas tipo “sex-shop”. A graça é que tem isso tudo aí mesmo, só que de forma tão sutil e elegante que pode ser vendido em casas tradicionais de livros, respeitosas e respeitadas livrarias.
           
Embora sempre se possa criticar o oportunismo comercial-editorial de se valer de um título desses, é bastante louvável a iniciativa da editora mineira (que já havia lançado a coletânea 62/2 Contos eróticos, com autores diversos, Vilela entre eles). Principalmente se considerarmos que a promessa feita pela Record, ao lançar a novela Bóris e Dóris, de “colocar no mercado toda sua obra até o final de 2008”, por enquanto, não está se concretizando. Como não há indicação quanto a serem os contos inéditos ou publicados anteriormente, e nem tenho eu todas as obras do autor, ficaremos devendo, eu e a editora, essa informação ao leitor. Entretanto, posso adiantar que pelo menos um foi publicado antes (Calor, em A cabeça, Cosac & Naify). E alguns outros dão dicas que também o foram, por se traírem, seja pelo uso de uma ou outra gíria ultrapassada, seja por detalhes (como os carros Corcel, em “A moça”, Impala, em “Ousadia”). Ou ainda pelo sistema educacional desatualizado (as crianças de “Meus anjos” têm dez anos e estão na quarta série – hoje teriam nove anos de idade).

           
Esses detalhes, entretanto, não comprometem o principal, a saber, trata-se de um saboroso livro de contos, de um craque na matéria. Tornou-se lugar-comum elogiar sua habilidade nos diálogos. Não trairei o coro. Sim, Vilela sabe falar como poucos. “Ouvimos” seus personagens com intimidade impressionante. Particularmente nós, leitores da mesma região do autor (Centro-oeste). Palavras como “uai”, “sô”, além de sutilezas que seria impossível traduzir aqui, nos são tão familiares, que nos sentimos na sala de visitas (ou nos quartos!) dos personagens.

           
Mas há outras características do autor, recorrentes em seus contos (nesse e em outros de seus livros). Crianças como protagonistas, colégios como cenários, a chuva... E por falar nela, um dos melhores contos desse livro, “Primos”, é uma espécie de versão de outro, “A chuva nos telhados antigos”, publicado na coletânea da Nankin Editorial. Carlos Felipe Moisés, em sua apresentação a essa coletânea da Nankin, cita ainda outro, o tema da morte. Eu discordo parcialmente de Moisés, penso tratar-se mais de temas amargos, não especificamente (ou, pelo menos, não sempre) da morte. O que vale também para A cabeça e Bóris e Dóris. Amargo, à vezes doce-amargo, mas sempre fica esse retro-gosto ao final da leitura. (Atenção: isso é um elogio!)

           
Moisés aponta ainda para outra característica, um tanto tchekhoviana: “Suas histórias terminam em suspensão, em compasso de espera: nada acontece. Mas tudo poderia (e ainda pode) acontecer” (Contos, Nankin, p.11). E tem razão. Muitos dos contos de Vilela deixam no ar a pergunta “O que será que vai acontecer agora?”. O que é um sinal de respeito à inteligência do leitor. Talvez a única exceção, na coletânea da Leitura, seja o conto “Suzana”, que mais parece uma piadinha. Se me permitem o atrevimento, eu o tiraria, numa segunda edição, que certamente virá.


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POR EM 18/08/2008 ÀS 08:19 PM

O mai­or edi­tor bra­si­lei­ro

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Cer­tos cír­cu­los de es­quer­da pre­fe­rem di­zer que o gran­de edi­tor bra­si­lei­ro foi Enio Sil­vei­ra. Jor­ge Za­har, da Za­har, e Fer­nan­do Gas­pa­ri­an, da Paz e Ter­ra, tam­bém são apre­sen­ta­dos co­mo “gê­ni­os da ra­ça”. Mas edi­tor li­te­rá­rio mes­mo foi Jo­sé Olympio Pe­rei­ra Fi­lho (1902-1990). Lan­çou o mo­nu­men­to “Gran­de Ser­tão: Ve­re­das”, de Gui­ma­rã­es Ro­sa, “Vi­das Se­cas”, de Gra­ci­li­a­no Ra­mos, “Me­ni­no do En­ge­nho”, de Jo­sé Lins do Re­go, “O Tron­co”, de Ber­nar­do Élis, e a obra de Jor­ge Ama­do (que, na ado­les­cên­cia, li de­li­ci­a­do. A ma­lí­cia de Ama­do é ado­rá­vel e di­ver­ti­da, tal­vez por cer­to pu­dor co­mu­nis­ta). A Edi­to­ra Sex­tan­te lan­ça uma bi­o­gra­fia que per­mi­te co­nhe­cê-lo em sua in­tei­re­za: “Jo­sé Olympio: O Edi­tor e Sua Ca­sa” (424 pá­gi­nas e pro­i­bi­ti­vos 150 re­ais), de Jo­sé Ma­rio Pe­rei­ra, o notável edi­tor da Top­bo­oks.

A jor­na­lis­ta Lu­ci­la So­a­res, ne­ta de Jo­sé Olympio, es­cre­veu, na re­vis­ta “Ve­ja”, que se tra­ta de uma “obra de re­fe­rên­cia”. A pró­pria Lu­ci­la é au­to­ra de óti­ma “bi­o­gra­fia” da edi­to­ra: “
Rua do Ou­vi­dor 110 — Uma His­tó­ria da Li­vra­ria Jo­sé Olympio”. An­tô­nio Car­los Vil­la­ça es­cre­veu o su­bes­ti­ma­do “Jo­sé Olympio — O Des­co­bri­dor de Es­cri­to­res” (Thex Edi­to­ra, 292 pá­gi­nas).

O li­vro de Vil­la­ça tem um quê de ho­me­na­gem, mas não dei­xa de ser in­te­res­sá­vel. Con­ta que Jo­sé Olympio era par­cei­ro de pô­quer de Jo­sé. J. Vei­ga (que de­mo­rou receber convite pa­ra o cír­cu­lo ín­ti­mo do edi­tor) e mo­ra­va no mes­mo edi­fí­cio do es­cri­tor go­i­a­no. O avô ma­ter­no, Da­ni­el Lo­pes de Oli­vei­ra, nas­ceu em Ca­ta­lão (GO). Uma his­tó­ria con­ta­da por Vil­la­ça: “Quan­do foi ao Pa­lá­cio do Pla­nal­to em 1975 pe­dir a Gei­sel e a Gol­bery que sal­vas­sem a Jo­sé Olympio, leu na lis­ta de au­diên­cia, na por­ta­ria — ‘Dou­tor Jo­sé Olympio’. Pe­diu ime­di­a­ta­men­te que cor­ri­gis­sem — ‘Edi­tor Jo­sé Olympio’. Não era dou­tor. Fo­ra ape­nas e sem­pre edi­tor. E no seu am­plo ga­bi­ne­te fez es­cre­ver as se­guin­tes pa­la­vras de Mon­tei­ro Lo­ba­to: ‘Um pa­ís se faz com ho­mens e li­vros’”.

Não se po­de di­zer que Jo­sé Olympio foi um edi­tor ape­nas li­te­rá­rio, pois lan­çou “Ca­sa Gran­de & Sen­za­la”, de Gil­ber­to Freyre. Obra que, por ser mui­to bem-es­cri­ta, não dei­xa de ser li­te­rá­ria. Freyre, ou Pe­dro Na­va, era o Proust bra­si­lei­ro. O Eu­cli­des da Cu­nha de “Os Ser­tões” é, tal­vez, o úni­co ri­val de Freyre.

O tí­tu­lo ori­gi­nal de “Vi­das Se­cas”, es­te mais re­a­lis­ta e de acor­do com a his­tó­ria do ro­man­ce, era “O Mun­do Co­ber­to de Pe­nas”, al­go meio as­sim sur­re­a­lis­ta e ple­no da ve­lha e de­can­ta­da “cri­a­ti­vi­da­de” co­mu­nis­ta. A tro­ca, opor­tu­na, foi fei­ta por Da­ni­el Pe­rei­ra, ir­mão do edi­tor.
 

 

O jornalismo de Vasily Grossman

O escritor ucraniano (certamente não gostaria de ser chamado de "escritor russo", mas o russo, língua dominante, tornou-se pátria, porque a pátria de um autor é sua língua — é forçoso admitir)
Vasily Grossman (1905-1964) é autor de uma obra-prima "Vida e Destino", salvo engano, não publicada no Brasil.

Graças ao empenho do brilhante historiador inglês Antony Beevor e da pesquisadora e tradutora Luba Binogradova, as reportagens do escritor sobre a Segunda Guerra foram recuperadas e publicadas no livro "
Um escritor na Guerra — Vasily Grossman Com o Exército Vermelho 1941-1945" (Editora Objetiva, 495 páginas).

O leitor perceberá, fácil e rápido, que os textos de Grossman, devido ao seu talento literário, transcendem a mera reportagem. São textos vívidos, plenos de humanidade. É jornalismo literário, da melhor espécie, mas sem a pretensão de alguns jornalistas literários atuais, que fazem subliteratura nos escombros do subjornalismo.
  
Mordecai Richler

Recebo de Marcelo Franco o romance "
A Versão de Barney" (Companhia das Letras, 571 páginas), do escritor judeu canadense Mordecai Richler (1931-2001).

Mesmo sem permissão, transcrevo a dedicatória: "A prosa de Mordecai Richler não é tão consistente quanto a de Philip Roth, e tampouco Barney Panofsky é Alexander Portnoy. Mas este livro, mesmo com duzentas páginas sobrando, é muito engraçado e merece leitura atenta".

O maior escritor canadense é mesmo o americano Saul Bellow. O autor de "Herzog" nasceu no Canadá, mas se tornou escritor consagrado nos Estados Unidos. 

 
 
O Jack Ken­nedy ne­gro e pu­ri­ta­no

Ou­ço, até de in­te­lec­tu­ais, que Ba­rack Oba­ma é uma es­pé­cie de “John Ken­nedy ne­gro”. Bem, se Oba­ma ti­vesse uma vi­da tão es­can­da­lo­sa quan­to a de Jack (como John era chamado pelos amigos), co­meçaria a ad­mi­rá-lo. Mas, in­fe­liz­men­te, pe­lo me­nos pa­ra o ho­mem Oba­ma, não tem. O es­cri­tor Phi­lip Roth diz que o ame­ri­ca­no é bem me­nos pu­ri­ta­no do que se ima­gi­na. O dis­cur­so do pu­ri­ta­nis­mo é mais cris­ta­li­za­do do que o pu­ri­ta­nis­mo re­al. O que de­sa­gra­da em Oba­ma e em ou­tros po­lí­ti­cos, não ape­nas ame­ri­ca­nos, é o pu­ri­ta­nis­mo de fa­cha­da. Ora, nem os san­tos eram san­tos. Os san­tos só se tor­na­ram san­tos, com ex­ce­ções, de­pois de uma vi­da na­da in­sí­pi­da. Mui­tos ti­ve­ram uma vi­da des­re­gra­da. Mas não dei­xa­ram de ser gran­des ho­mens pú­bli­cos. Ge­tú­lio Var­gas e Jus­ce­li­no Ku­bitschek traí­am su­as mu­lhe­res, mas al­guém po­de di­zer que não fo­ram pre­si­den­tes competentes?

Quem qui­ser co­nhe­cer o Ken­nedy ver­da­dei­ro de­ve ler “
O La­do Ne­gro de Ca­me­lot” (Edi­to­ra L&P, 510 pá­gi­nas), do jor­na­lis­ta Seymour M. Hersh, da “New Yorker”. É um re­tra­to nem do­ce nem cru­el, e sim ver­da­dei­ro e im­pa­gá­vel de Ken­nedy e de sua fa­mí­lia (o pai, Joe, era um gran­de es­cro­que). Ou, se se qui­ser, de uma tra­gé­dia anun­ci­a­da.

 

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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:26 PM

A Babel de Luiz Ruffato

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A arte pós-moderna é bem diferente da arte anterior, digo, daquela arte praticada na primeira metade do século XX. Um dos traços marcantes do modernismo foi a política de grupo, os grandes “movimentos” estéticos – futurismo, expressionismo, surrealismo etc – tendo por conseqüência a publicação de inúmeros manifestos e revistas. De certa forma, nem Dada, a vertente mais anárquica daquele período, escapou a essa tendência: teria três grupos dispersos pela Europa – Zurique, Paris e Berlin - e um possível manifesto, escrito tardiamente por Tristan Tzara, em 1918. Ainda assim, é o que mais se assemelha em espírito e atitudes ao que assistimos hoje. Uma ponte, talvez.
 
De lá para cá houve uma mudança radical e não se ouve mais falar em grupos organizados e idéias pré-concebidas e escritas: o que parece contar, na cena atual, é a experiência solitária do indivíduo, independentemente de sociabilidades e projetos coletivos. A propósito: se essa arte é um reflexo da realidade contemporânea, vivemos então numa época absolutamente triste e indesejável. Solidão e individualismo parecem ser as marcas cruéis da realidade presente. O que prevalece é o fragmento e, de modo bastante irônico, a incomunicabilidade, o que explicaria uma forte tendência para o monólogo. O que vale é a verdade de cada um, logo as formas inusitadas: tudo serve de matéria e de suporte.
 
Assim como nas artes plásticas – cujas “esquisitices” ainda causam escândalos em muita gente -, na literatura brasileira da última geração temos um bom exemplo desse processo dispersivo na obra de Luiz Ruffato, jovem mineiro autor do estranho Eles eram muitos cavalos, lançado em 2001 . Não se trata, obviamente, de romance, de novela, de conto ou poema – tudo o que sabemos é que combina prosa e poesia, mas não se enquadra em nenhum gênero conhecido particular. Não é original por isso, mas explora até o paroxismo essa indefinição, razão pela qual é um daqueles livros que põem em xeque a validade desse tipo de classificação que - verdade seja dita - atende muito mais aos interesses da crítica do que da literatura strictu sensu . A crítica literária não escapa às vicissitudes da classificação, método científico universal, muito embora sejamos tendente a encarar boa parte de suas análises como performance ficcional. Posso estar redondamente equivocado, mas sou daqueles que, não raro, desconfiam dos foros de veracidade dos exegetas (opinião de um leigo curioso).
 
Eles eram muitos cavalos é isso - uma mistura de cartas, anúncios eróticos e de emprego, simpatias, poemas em prosa, diálogos, monólogos e até Oração a São Expedito! São na maioria relatos e depoimentos, resultando numa mistura de comédia e lirismo: o trágico, aqui, é patético e sem grandezas. Às vezes quem fala é a primeira pessoa, outras vezes o texto é inteiramente impessoal: o autor simplesmente transcreve um diploma da Igreja do Evangelho Triangular, por exemplo. Não tem começo nem fim, tampouco enredo, e podemos começar a lê-lo na página em que o abrimos, para frente ou para trás, tanto faz. Ruffato é um experimentador nato: explora diversas fontes tipográficas e chega a usar, inclusive, duas páginas em preto (apropriação de uma técnica usada pelo concretismo). A linguagem é crua e de um realismo visceral: vale-se de gírias, expressões erradas e neologismos como bundar , zoação, pruquê, cunhadaria , alaridar , lhufas, apê, arvinha, trampar, minas, corajar, bonachonamente etc. Os “heróis” e “heroínas” do livro são freqüentemente buscados na classe média decadente dos grandes centros urbanos (aqui, São Paulo), outras vezes no meio da ralé. Gente como a gente, aos montes e fugazes, consumidos pelo turbilhão de vozes que é o livro.
 
Um exemplo dessa escrita fragmentária ( 25. Pelo telefone ): “Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal”.
 
Agora deu pra mijar no chão... Não aquela gotinha no assento do vaso, não... que isso é até normal... Mas uma pocinha no chão... como se... como se o jato não tivesse mais força, entende?, como se o jato não tivesse mais força...
 
Eis a suposta esposa traída queimando o filme do marido para a amante “desgraçada!”. É apenas um exemplo da série vertiginosa de 69 lampejos de afetos, desejos e frustrações de ninguém porque de todo mundo, instantâneos das carências, da desagregação e da violência nas grandes cidades. Aos desavisados e tradicionalistas Eles eram muitos cavalos parecerá uma porra-louquice, mas não aos leitores de vanguarda: Ruffato tem sentido, densidade e dialoga com a realidade.
 
A conclusão é um truísmo necessário: um dos deveres dos amantes da literatura – particularmente dos que estão interessados em escrever - é ler autores contemporâneos seus. Se o clássico é vital, o contemporâneo não deixa de ser essencial: assim como não se escreve com profundidade ignorando a tradição, tampouco se escreve com interesse para o leitor presente sem que o mesmo reconheça, ali, o seu mundo particular.
 
A quem possa interessar, Luiz Ruffato é uma boa pedida.

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POR EM 05/08/2008 ÀS 04:52 PM

Leonel Brizola: Um Perfil Biográfico

publicado em


Leio “
El Caudilho — Leonel Brizola: Um Perfil Biográfico” (Editora Aquariana, 543 páginas), do jornalista FC Leite Filho. De cara, cabe esclarecer, é um livro a favor. A obra, embora íntegra, não é, no geral, crítica. É uma defesa quase sempre factual do criador do PDT.

Pelo menos dois livros discutem, a sério, a história do dinheiro enviado por Fidel Castro para a “guerrilha” de Brizola. O capitão José Wilson da Silva, em “
O Tenente Vermelho” (Editora Tchê!, 248 páginas) e em entrevista ao Jornal Opção, contou que o grupo de Brizola recebeu 1 milhão de dólares de Cuba. Os primeiros 500 mil dólares foram repartidos, em partes iguais, entre Brizola, João Goulart e Darcy Ribeiro. Depois, com intermediação de Lélio Carvalho (não citado por Leite Filho), Fidel enviou mais 500 mil dólares. O dinheiro, repassado por Darcy Ribeiro, teria financiado a Guerrilha de Caparaó. José Wilson chegou a atritar-se com Brizola, mas em nenhum momento diz que o líder trabalhista roubou o dinheiro de Cuba.

A doutora em história social Denise Rollemberg, em “
O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil — O Treinamento Guerrilheiro
” (Editora Mauad, 94 páginas), escreve: “... ninguém parece saber a quantia recebida. Brizola nunca prestou conta do dinheiro nem a Cuba nem aos militantes, fossem dirigentes ou de base. Tinha-o como um ‘empréstimo pessoal’, a ele Brizola, e que seria devolvido. Acredita-se ter havido gastos nos quais o dinheiro foi usado, mas apenas uma parte. [...] Brizola nunca teria ajudado os guerrilheiros presos e suas famílias com o dinheiro de Cuba”.

Fidel Castro teria desabafado: “Digan a su jefe lo que yo pienso que ele es un ratoncito”. O ditador teria chamado o brasileiro de “el ratón”. Leite Filho diz que não há “provas de que” o líder comunista tenha dito isso. Embora não apresente provas — por exemplo, uma declaração de Fidel ou de outra autoridade cubana —, o biógrafo, baseado em depoimento do ex-deputado Neiva Moreira, sustenta: “Brizola foi o único líder revolucionário a devolver parte do dinheiro que recebeu, quando resolveu abandonar a guerrilha, por considerá-la inviável para o Brasil”. Neiva garante: “E todo mundo sabe disso em Cuba”. Se sabe, um depoimento de um cubano do primeiro plano seria fundamental para confirmar o depoimento de Neiva Moreira, amigo, aliado e, quiçá, cúmplice de Brizola. A surpreendente declaração de Neiva exige pesquisa, confronto.

Adiante, Leite Filho escreve: “... foi do financiamento de Cuba às guerrilhas brasileiras que surgiram as intrigas, atribuídas à CIA, de que Brizola se tinha apropriado de grande parte do dinheiro que lhe fora enviado por Fidel. É dessa época a história de que ele teria sido chamado de ‘el ratón’ (ladrão) por Fidel. Este o teria acusado ‘de haver abocanhado os parcos recursos economizados pelo sofrido povo cubano’. Mas a versão é veementemente contestada, tanto por Betinho como por Neiva Moreira e outros exilados, ainda que houvesse alguns cubanos interessados em disseminar o boato”. A história dos “cubanos agastados” não é apurada, infelizmente, pelo biógrafo. Mas este acrescenta que Fidel continuou a respeitar Brizola e mantiveram um encontro cordial, no Rio de Janeiro, quando o brasileiro governava o Rio de Janeiro, na década de 1980. As duas raposas políticas, apesar de pensarem de modos diferentes — um é comunista, o outro, no máximo, era nacionalista —, eram aliados, mais táticos do que estratégicos, na “luta” contra o que chamavam de “direita”.

Depoimento de Betinho: “A história que eu conheço é a seguinte: primeiro que o Brizola fazia um controle estrito de dinheiro. Ele anotava tudo que entrava, tudo que gastava, tudo certo. Porque achava que era um dinheiro que ele tinha de prestar contas. Acho que, na cabeça dele, se ele chegasse ao poder, devolveria esse dinheiro para Cuba”. Bem, se não devolveu para Cuba, para quem Brizola devolveu parte do dinheiro que sobrou? O livro não esclarece. De qualquer maneira, mesmo não esclarecendo, a questão foi reapresentada e deve abrir um novo foco de pesquisa. Denise Rollemberg escreveu que Neiva Moreira não falava sobre o assunto. Para o livro de Leite Filho, o veterano político maranhense “abriu” o jogo.

Metralhadoras — Neiva contou ao biógrafo que os cubanos deram mini-metralhadoras aos brasileiros e que “seu número não ultrapassou a 100”. Leite Filho acrescenta: “Neiva, que trouxe na bagagem de Havana cinco dessas metralhadoras, fala sobre o propalado ‘dinheiro de Cuba’: ‘Nada mais falso e ridículo do que essa história do ‘dinheiro de Cuba’, que a direita vem orquestrando desde então para comprometer os cubanos e os que, como Brizola, viveram aquelas responsabilidades históricas. Este dinheiro jamais existiu, a não ser recursos para o pagamento de certo número de passagens aéreas e modestas quantias para apoiar a viagem dos companheiros escolhidos para o treinamento, incluindo diárias de hotéis de escassas estrelas, no percurso até Praga’”.

Leite Filho relata: “Neiva Moreira conta que se chegou a contatar um navio polonês, que, para fazer a rota de Cuba, passava pelo Brasil para depois seguir rumo à Polônia, na Europa, e poderia desembarcar uma boa quantidade de armas em alguma praia erma do Rio Grande do Sul: ‘Os poloneses desistiram do negócio na última hora’, diz Neiva. Outro governante que teria se comprometido a enviar armamentos foi Chedi Jagan, ex-primeiro-ministro da Guiana. Sua intenção era mandar um avião DC-3 cheio de armas, que aterrissaria em Goiás. Um campo de pouso chegou a ser preparado pelo foco do Brasil Central, a mando de Flávio Tavares, mas o premier foi derrubado antes de praticar sua boa ação”.

Neiva diz a “verdade” ou apenas apresenta sua versão pessoal dos fatos? A resposta só pode ser formulada depois de uma investigação mais rigorosa, o que o livro não faz. Resta a pergunta: como Brizola teria devolvido dinheiro, se este era tão escasso, como afiança Neiva. Depois, a história dos dólares cubanos — e não ninharia para pagar passagens aéreas e diárias de hotéis — não tem sido divulgada tão-somente pela direita. José Wilson da Silva, o tenente vermelho, não é, definitivamente, um integrante da direita. Denise Rollemberg é uma pesquisadora criteriosa e não há notícia de que “trabalhe” para a direita.

Entre os goianos citados no livro figuram Tarzan de Castro, uma vez, Mauro Borges e Aldo Arantes, várias vezes. Há alguns problemas: Fidel Castro e Aldo Arantes são citados em mais páginas do que registra o índice remissivo e o cubano que recebeu Neiva Moreira talvez não seja Manuel “Pinheiro”, e sim Manuel Piñero.


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POR EM 22/07/2008 ÀS 01:39 PM

O requinte dolorido de Darcy França Denófrio

publicado em


Darcy Fran­ça De­nó­frio, em­bo­ra se­ja uma in­te­lec­tu­al re­quin­ta­da, é tão dis­cre­ta quan­to An­to­nio Can­di­do. Seu tra­ba­lho de re­cu­pe­ra­ção da po­e­sia go­i­a­na re­sul­ta de um es­for­ço ain­da não de­vi­da­men­te re­co­nhe­ci­do fo­ra dos cír­cu­los aca­dê­mi­cos. Sua li­da de for­mi­gu­i­nha, de­ta­lhis­ta e pers­pi­caz, mos­tra que a me­lhor crí­ti­ca fei­ta em Go­i­ás mo­ra mes­mo na aca­de­mia, em­bo­ra Darcy es­te­ja apo­sen­ta­da da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Go­i­ás. Tra­ta-se de crí­ti­ca mes­mo, apu­ra­da e pon­de­ra­da, não do re­tar­da­tá­rio achin­ca­lhe-tra­ves­ti­do de crí­ti­ca que se vê em certo “jornalismo”.

A crí­ti­ca Darcy às ve­zes es­con­de a po­e­ta, em­bo­ra se­ja pos­sí­vel ve­ri­fi­car na lim­pi­dez de seus tex­tos crí­ti­cos a com­pre­en­são e a su­ti­le­za dos po­e­tas. Aque­les que que­rem co­nhe­cer a re­fi­na­da po­e­sia de Darcy, sua me­ti­cu­lo­sa po­e­sia, aque­la nas qua­is as pa­la­vras dan­çam ine­bri­a­das pe­la mú­si­ca dos mes­tres, têm on­de bus­cá-la. A
Câ­no­ne Edi­to­ri­al
 

 

(que faz um tra­ba­lho de com­pe­tên­cia ím­par) lan­ça, pa­ra nos­so de­lei­te, Po­e­mas de Dor & Ter­nu­ra.

Tran­scre­vo dois po­e­mas de Darcy pa­ra que o lei­tor pos­sa ve­ri­fi­car par­te de seu ta­len­to.

“Os des­ter­ra­dos” (pa­ra Ve­ra): “O tem­po foi pas­san­do,/a ter­nu­ra se per­den­do./Abriu-se um fos­so/e pa­re­ceu ine­vi­tá­vel./Era che­ga­da a ho­ra./Olhei o seu ros­to-enig­ma/e não era o de an­ti­ga­men­te/per­di­do em al­gum lu­gar./E amei aque­le ros­to dis­tan­te/a pri­mei­ra fa­ce, ex­tra­vi­a­da,/não a es­fin­ge ali pre­sen­te./Vo­cê tam­bém bus­ca­va/a mi­nha fa­ce per­di­da na vi­a­gem./Era um fos­so tão ter­rí­vel,/sem pon­te le­va­di­ça/so­bre a fe­ri­da que de nós es­cor­ria/e nos­sos opos­tos ca­mi­nhos./E nós dois ali di­vi­di­dos, nos aman­do,/não a nós mes­mos ali pre­sen­tes,/mas aos des­ter­ra­dos de nós mes­mos/se­pa­ra­dos por um fos­so/ir­re­me­dia­vel­men­te.”

“Dí­vi­da” (pa­ra uma ami­ga e seu es­pó­lio): “Por­que nin­guém foi ao fun­do/de mi­nha al­ma so­li­tá­ria/vi­si­tar-lhe o úl­ti­mo se­gre­do;/por­que me ba­te­ram à por­ta/sem de fa­to de­se­jar en­trar;/por­que be­be­ram o vi­nho/que eu fa­bri­ca­va e ser­via/sem, de fa­to, co­mi­go par­ti­lhar;/e, ain­da, por­que me en­ga­na­ram/quan­do mais que­ria acre­di­tar,/a vi­da me de­ve al­gu­ma coi­sa:/não es­sa ma­té­ria de pre­en­cher/va­zio de vís­ce­ras ou la­bi­rin­to in­te­ri­or/— mas a pró­pria vi­da.”

 
Ma­cha­do na ca­be­ça de Bor­ges

A Edi­to­ra Ar­qui­pé­la­go lan­ça Ma­cha­do e Bor­ges (280 pá­gi­nas, 37 pi­las), de Lu­ís Au­gus­to Fis­cher, crí­ti­co li­te­rá­rio ga­ú­cho. O li­vro con­tém seis en­sai­os. Não li, mas en­trou pa­ra mi­nha pe­ne­lo­pi­a­na lis­ta, pois Fis­cher é crí­ti­co li­te­rá­rio do pri­mei­rís­si­mo ti­me.


His­to­ri­a­dor in­glês revela vezo poético do ditador Stá­lin


O in­glês
Si­mon Se­bag Mon­te­fio­re brin­da os lei­to­res com ou­tro ex­ce­len­te es­tu­do, mui­to mais do que uma bi­o­gra­fia — O Jo­vem Stá­lin (Com­pa­nhia das Le­tras, 528 pá­gi­nas, e tra­du­ção precisa de Pe­dro Maia So­a­res).

Se­bag con­ta que Iós­sif (Jo­sé) Vis­sa­rió­no­vitch Dju­gachví­li, o Stá­lin (o no­me só pas­sou ser uti­li­za­do por ele em 1912), lei­tor com­pul­si­vo, foi gran­de­men­te in­flu­en­cia­do pe­la pro­sa dos es­cri­to­res fran­ces­es Vic­tor Hu­go e Émi­le Zo­la. A li­te­ra­tu­ra e a vi­da miserável na Ge­ór­gia o trans­for­ma­ram num re­vo­lu­ci­o­ná­rio du­ro, in­fle­xí­vel e cru­el. Des­de o iní­cio, e não ape­nas de­pois de che­gar ao po­der, em 1924, era ex­tre­ma­men­te vi­o­len­to com ad­ver­sá­rios e ali­a­dos que caí­am em des­gra­ça. Fi­lho úni­co, Stá­lin foi cri­a­do por uma mãe pos­ses­si­va, Eka­te­ri­na “Keké” Ge­ladzde, que fez o im­pos­sí­vel pa­ra que es­tu­das­se. Stá­lin foi edu­ca­do por pa­dres. Vis­sa­ri­on “Bes­só” Dju­gachví­li, que não ti­nha cer­te­za de ser pai de Stá­lin — Mon­te­fio­re apos­ta que o sa­pa­tei­ro era pai do gran­de lí­der, mas dei­xa a dú­vi­da —, aban­do­nou a fa­mí­lia. Pe­lo me­nos qua­tro ho­mens eram ti­dos co­mo pai de Stá­lin — um de­les pa­dre.

Stá­lin co­me­çou sua vi­da de re­vo­lu­ci­o­ná­rio co­mo as­sal­tan­te de ban­cos, pa­ra ser­vir à lu­ta de Vla­dí­mir Lê­nin. Um dos as­sal­tos, em 1907, ren­deu um va­lor (3,4 mi­lhões de dó­la­res) pa­re­ci­do com o as­sal­to ao co­fre de Ad­he­mar de Bar­ros, no Rio de Ja­nei­ro, na dé­ca­da de 1960.

Uma das des­co­ber­tas de Mon­te­fio­re é a po­e­sia de Stá­lin, que não con­si­de­ra ru­im. Ele foi pri­mei­ro re­co­nhe­ci­do co­mo po­e­ta, na Ge­ór­gia na­tal, do que co­mo re­vo­lu­ci­o­ná­rio. Seu ape­li­do, an­tes de Ko­ba e Stá­lin, era Sos­só. Ele as­si­na os po­e­mas co­mo Sos­se­ló. “Fo­ram am­pla­men­te li­dos e se tor­na­ram um clás­si­co me­nor ge­or­gia­no, apa­re­cen­do em an­to­lo­gia da me­lhor po­e­sia do pa­ís an­tes que al­guém ti­ves­se ou­vi­do fa­lar de ‘Stá­lin’”", diz o his­to­ri­a­dor. “Ma­nhã” foi o pri­mei­ro po­e­ma de Stá­lin. “Su­as ima­gens ro­mân­ti­cas são se­cun­dá­rias, mas sua be­le­za es­tá na de­li­ca­de­za e na pu­re­za de rit­mo e lin­gua­gem”, diz Mon­te­rio­re, que não é, vê-se, crí­ti­co li­te­rá­rio. “Na Rús­sia, a po­e­sia é re­al­men­te va­lo­ri­za­da; aqui, ma­tam por ela”, dis­se Ós­sip Mán­tels­tam, mor­to no gu­lag do “po­e­ta” Stá­lin.

Tran­scre­vo a se­guir al­guns dos po­e­mas. Eles fo­ram tra­du­zi­dos do rus­so pa­ra o in­glês pe­lo pro­fes­sor Do­nald Rayfi­eld, me­nos um dos po­e­mas, sem tí­tu­lo, que foi tra­du­zi­do pe­lo po­e­ta bra­si­lei­ro Nel­son As­cher (o exímio tra­du­tor de Púchkin). As tra­du­ções pa­ra o por­tu­guês são de
Pe­dro Maia So­a­res
.

Ma­nhã

O bo­tão de ro­sa flo­res­ce­ra
E es­ten­de­ra-se pa­ra to­car a vi­o­le­ta
O lí­rio es­ta­va acor­dan­do
E in­cli­na­va sua ca­be­ça na bri­sa

No al­to das nu­vens, a co­to­via
Can­ta­va um hi­no gor­je­an­te
En­quan­to o ale­gre rou­xi­nol
Com voz su­a­ve di­zia:

"En­che-te de flo­res, ó ter­ra ama­da
Re­ju­bi­la-te pa­ís dos Ivé­ri­a­nos
E tu, ó ge­or­gia­no, ao es­tu­dar Traz ale­gria pa­ra tua ter­ra na­tal."

À Lua

Mo­ve in­can­sá­vel
Não in­cli­na tua ca­be­ça
Dis­per­sa a né­voa das nu­vens
A Pro­vi­dên­cia do Se­nhor é gran­de.

Sor­ri gen­til pa­ra a ter­ra
Es­ten­di­da abai­xo de ti;
Can­ta à ge­lei­ra um aca­lan­to
Que des­ce su­a­ve dos céus.

Tem cer­te­za que de­pois de
Der­ru­ba­do ao chão, um ho­mem opri­mi­do
Lu­ta de no­vo pa­ra su­bir a mon­ta­nha pu­ra,
Quan­do exal­ta­do pe­la es­pe­ran­ça.

En­tão, ado­rá­vel lua, co­mo an­tes,
Bri­lha atra­vés das nu­vens;
Na abó­ba­da ce­les­te, su­a­ve­men­te,
Faz teus rai­os brin­ca­rem.

Mas eu abri­rei mi­nha ves­te
E mos­tra­rei meu pei­to à lua,
De bra­ços aber­tos, re­ve­ren­ci­a­rei
Aque­la que ilu­mi­na a ter­ra!

------------------------------------

Quan­do a lua cheia lu­mi­no­sa
Cru­za flu­tu­an­do a abó­ba­da ce­les­te
E sua luz, bri­lhan­do in­ten­sa­men­te,
Põe-se a brin­car no anil do ho­ri­zon­te;

Quan­do su­a­ve­men­te o rou­xi­nol
Co­me­ça no ar seu gor­jeio si­bi­lan­te
Quan­do o an­seio da flau­ta de pã
Pla­na aci­ma do pi­co da mon­ta­nha;

Quan­do, con­ti­da, a fon­te da mon­ta­nha
Tor­na-se tor­ren­ci­al e inun­da o ca­mi­nho,
E a flo­res­ta, acor­da­da pe­la bri­sa,
Co­me­ça, far­fa­lhan­do, a se agi­tar;

Quan­do o ho­mem ex­pul­so por seu ini­mi­go
Vol­ta a tor­nar-se dig­no de seu pa­ís opri­mi­do
E o en­fer­mo pri­va­do de luz
Vol­ta a ver o sol e a lua;

Opri­mi­do tam­bém, ve­jo, en­tão, a bru­ma da tris­te­za
Se dis­si­par, des­fa­zer-se e lo­go su­mir;
E a es­pe­ran­ça da vi­da boa
Faz meu co­ra­ção se abrir!

E, ar­re­ba­ta­do por uma es­pe­ran­ça as­sim,
Sin­to jú­bi­lo n´al­ma e meu co­ra­ção ba­ter em paz;
Mas se­rá au­tên­ti­ca tal es­pe­ran­ça
Que me foi man­da­da nes­tes tem­pos?

(Tra­du­ção de Nel­son As­cher)


Ve­lho Ni­nika

Nos­so Ni­nika fi­cou ve­lho,
Seus om­bros de he­rói lhe fal­ta­ram...
Co­mo es­se tris­te ca­be­lo gri­sa­lho
Que­brou uma von­ta­de fer­ro?

Ó mãe! Mui­tas ve­zes,
Bran­din­do sua foi­ce "hi­e­na",
De pei­to nu, no fim do tri­gal,
Ele de­ve ser sol­ta­do um ru­gi­do sú­bi­to.

Ele de­ve ter em­pi­lha­do mon­ta­nhas
De fei­xes la­do a la­do, e so­bre seu
Ros­to go­ver­na­do pe­lo su­or go­te­jan­te
Fo­to e fu­ma­ça de­vem ter jor­ra­do.

Mas ago­ra, cei­fa­do pe­la ida­de,
Ele não mo­ve mais os jo­e­lhos.
Dei­ta­do, so­nha ou fa­la do pas­sa­do
Aos fi­lhos de seus fi­lhos.

De tem­po em tem­po, cap­ta o som
Da can­to­ria nos tri­gais pró­xi­mos
E seu co­ra­ção que ou­tro­ra era du­ro,
Co­me­ça a ba­ter com pra­zer.

Ele se ar­ras­ta pa­ra fo­ra, trê­mu­lo,
E dá al­guns pas­sos com seu ca­ja­do.
E, quan­do con­se­gue ver os ra­pa­zes,
Sol­ta um sor­ri­so de alí­vio.
 
 
 
Anos do cólera

Para enfrentar os tempos fraudulentos e sombrios da Era Lula, o Medici operário, recomendo a leitura do esplêndido ensaio Da Estupidez, do austríaco
Robert Musil.

Musil é mais conhecido por seu romance clássico O Homem Sem Qualidades, que li na edição portuguesa, muito superior à brasileira (campeã em erros).

"Penso que é mais importante escrever um livro que governar um império. E também mais difícil", afirmou Musil. Lógico que está falando dos grandes livros.

 

 

Os solitários de Coetzee

SILVIANO SANTIAGO

Se fosse concedido à literatura brasileira o direito de existência no mundo letrado ocidental, a melhor crítica do Diário de Um Ano Ruim, de
J. M. Coetzee, teria salientado o parentesco com o papel do romance machadiano em seu tempo. À semelhança de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o último romance do premiado autor sul-africano, hoje naturalizado australiano, questiona a organização tradicional do livro de ficção. Cada página do Diário de Um Ano Ruim está dividida, primeiro, em dois blocos paralelos e, a partir da página 33 até o final, em três blocos.

Cada um dos blocos é semi-autônomo, embora os três, conjuntamente, não se apresentem desprovidos de afinidades óbvias ou sutis, a serem desenvolvidas pela imaginação e a habilidade do leitor. Cada página e todo o livro são compostos como "unidade tripartida", para retomar a idéia trabalhada em escultura por Max Bill.

Na parte superior das páginas, em seqüência, temos 51 curtos ensaios filosófico-literários, na maioria das vezes de teor político. Eles versam sobre as pequenas e as graves questões universais que, durante o período que vai de setembro de 2005 a maio de 2006, esquentaram as mentes cidadãs e a mídia impressa e eletrônica. Dos filósofos Thomas Hobbes e Machiavel, que discorrem sobre o Estado moderno, o autor passa ao filme Sete samurais, de Kurosawa, e à anarquia, ao terrorismo e ao apartheid. Detém na vergonha nacional, obra consciente do presidente Bush e elogia o destemor de
Harold Pinter
na crítica à invasão do Iraque. Não se esquiva diante de questões superdelicadas, como as que cercam os aborígines australianos, ou a pedofilia (tema este recorrente em seus melhores romances, como O mestre de Petersburgo). Em tiradas e raciocínio que beiram o politicamente incorreto, as reflexões traduzem as idéias-de-cabeceira (se me permitem a expressão) do romancista experiente e premiado, já tomado pelos anos. O envelhecimento do autor, ou o novo empreendimento ficcional, é visto como "um esvaziamento da mente para assumir tarefas mais importantes".

A parte superior das páginas e do romance se apresenta como respostas do escritor à encomenda feita a ele – e a mais cinco outros escritores – por editora alemã, interessada em publicar livro a ser intitulado Opiniões fortes. Como se informa: "Seis escritores eminentes [estariam] se pronunciando sobre o que está errado no mundo de hoje". Na reflexão sobre Harold Pinter, detentor do Nobel, esclarece o autor: "E chega um momento em que o ultraje e a vergonha são tão grandes que todo calculismo, toda prudência, são superados e a pessoa precisa agir, isto é, falar".

Abaixo dos curtos ensaios e em pequenos blocos paralelos, encontra-se a trama propriamente romanesca do Diário de Um Ano Ruim. Está escrita na primeira pessoa. No bloco do meio de cada página, o próprio autor fala do encontro inesperado com Anya, bela vizinha de condomínio. No momento, ela vive com Alan, um consultor na bolsa de valores de Sidney. Está armado o trio amoroso. O encontro casual com Anya despertou no escritor paixão incontrolável. Para tê-la ao lado, oferece-lhe a função de digitadora do livro que escreve para a Alemanha. O segundo segmento do romance se afirma pela fricção entre as idéias fortes do velho e a leitura do manuscrito pela jovem. Lê-se no segundo bloco: "O que começou a mudar desde que eu entrei na órbita de Anya não são tanto minhas opiniões em si, mas minha opinião sobre minhas opiniões".

Sempre na mesma página, o terceiro bloco, o de baixo, é escrito do ponto de vista de Anya e irá traduzindo o dia a dia do jovem casal, que foi sendo tomado pela presença insidiosa, embora escrupulosa, do velho escritor. Menos escrupuloso é Alan, que invade o disco rígido do computador. Pelas trapaças do companheiro, Anya e o leitor ficam sabendo que o velho é milionário e pouco experiente em termos de aplicação financeira. As amarras sentimentais do casal se desfazem pelas fraudes imaginadas e perpetradas pelo consultor na bolsa de valores, sem que Anya opte sentimentalmente pelo escritor. Ao final do romance, o leitor está diante de três seres solitários. 

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