revista bula
POR EM 08/12/2008 ÀS 05:51 PM

Memórias de um Vampiro

publicado em
Há uma solidão dos criminosos e assassinos, que pode ser a mesma de artistas e intelectuais. Daí existirem, na realidade como na arte, pessoas que cometem crimes bárbaros, como atos de terrorismo, seqüestro, tortura e morte de pessoas, em nome de Deus, da pátria, da liberdade. Outros fazem porque sofrem a terrível solidão de não serem ou de não se sentirem amados
 
                 
O personagem do romance A Confissão, de Flavio Carneiro, lembra em muito Raskolnikov, personagem de Crime e Castigo, bem como o narrador de Memórias de Um Homem do Subsolo, de F. Dostoiévski. Como Raskolnikov, o estudante assassino de Crime e Castigo, o personagem de A Confissão parece sofrer de um “excesso de consciência”, se é que a consciência possa ser excessiva. Mas sabemos: crimes coletivos como guerras de extermínio, holocausto e genocídio são cometidos em nome da boa consciência.
                       
O personagem sem nome de Flavio Carneiro é um homem do subsolo (embora seja adepto de freqüentar bibliotecas, mas por motivos pouco nobres). É um vampiro em busca de do sentido da vida através da subjugação e exercício de poder como instrumentos de prazer. Como Raskolnikov, e alguém que, em nome da sobrevivência dele mesmo, se coloca acima da moral e das leis. Os dois surgem como grandes ressentidos sociais. São protótipos da criatura humana que não consegue nem quer fazer nada, mas nutre ódio mortal pelos que fazem e conseguem atingir seus objetivos.
                       
Raskolnikov comete duplo assassinato. O personagem sem nome de Flavio perpetra um seqüestro. Sua narração é labiríntica, em que o aparente desfecho é abertura para outra história de um outsider (estrangeiro em si mesmo) buscando entender ou justificar seu ato criminoso.  Se Raskolnikov, dilacerado por idéias e ideais de viver em uma sociedade perfeita, de onde os fracos e os incapazes são alijados (vistos como aleijados), o personagem de Flavio vive de livros, ou melhor, de roubá-los. Ou seja: freqüenta bibliotecas não para enriquecer os miolos, mas para tirar a Biafra da barriga. Vende o miolo dos livros (com capa e tudo) para comprar o miolo do pão. Sua história configura a metáfora da violência gratuita como expressão de ressentimento social.  
                       
O homem do subsolo pode ser o ressentido impotente, que em seu diário, faz um relato de seu ódio e fracasso. O homem que seqüestra a madame para obrigá-la a escutar a história de sua vida, feita só de miséria, não quer apenas falar de si. Antes, deseja que ela também fale. Só assim pode ser espelho através do qual ele mesmo pode se ver. À vítima cabe dar uma escuta forçada ou constrangida, porque não escolhida. O seqüestrador quer mostrar à mulher que tem um Si-Mesmo, é uma pessoa, não um fantasma humano, rato famélico, que tem de fuçar lixeiras para não morrer de fome. Ou que, para almoçar, tem que vender algum livro que roubou no dia anterior, ou no mesmo dia. O faminto fanático por cardápios de restaurantes e nucas de mulheres. O medo que sente da vida é o medo que impõe às suas vítimas.
                       
Em uma alquimia delituosa, faz a arte da literatura se transformar em comida de sobrevivência. Muitos escritores também tiveram que passar por isto: vender o miolo da cabeça para roubar o miolo do pão. Lima Barreto passou fome. Em seu diário íntimo, registra: “Uma semana sem comer carne. Hoje comi uma empadinha. Que felicidade!”. Como Julien Sorel, o seqüestrador de A Confissão é o homem desafortunado e infeliz, em guerra com a sociedade. Raskolnikov mata a velha agiota e sua empregada em nome do ideal de uma sociedade culta e socialista. O personagem de A Confissão seqüestra para ser escutado. Ele comete o crime julgando-se com todo o direito de perpetrá-lo, uma vez que vive em uma sociedade que tudo perdoa, menos o fracasso.
                        
A fala-monólogo de A Confissão busca colocar no mesmo balaio a culpa de vítimas e perpetradores, uma vez que tudo está conectado, tudo vive em relação, como o personagem mesmo alega, na tentativa de explicar ou defender o seu ato. Sua vida e suas idéias guardam estreita relação com o
flaneur de Baudelaire – para não falar com o homem do subterrâneo, de Dostoiévski: “Andar a esmo pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria, eu me sentia bem ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes, às vezes pelo simples prazer físico de andar até os músculos doerem...”.
                       
“ (...) meu prazer maior, no entanto, ainda não disse, era ler cardápios de restaurantes”. Isto faz lembrar a crônica “Os olhos dos pobres”, de Charles Baudelaire, em seu
Pequenos Poemas em Prosa. Nela vemos que os olhos dos pobres, postos nos que comem, fazem com que estes, comensais, se sintam em profunda culpa, e até percam o apetite. São olhos acusadores. Em A Confissão, temos a gentileza de um seqüestrador que é ladrão e leitor de livros. Em solidão e miséria na cidade grande, comete um crime para ter um ouvido à mercê de sua fala caudalosa. Alguém por quem se apaixonou, não pela beleza, mas pelo refinamento social.
                       
Este é um criminoso que se permite querer ter modos e sentimentos delicados. Preocupa-se com a dor que deve estar sentindo o marido da mulher que seqüestrou. Afinal, ela tem família, filhos. Ele, o seqüestrador, tem palavras de alguém de gosto refinado – ao menos até a transformação que o levou a cometer o seqüestro: o momento epifânico em que se soube capaz de degustar um bom vinho, sentindo sua qualidade no paladar que ele achava que não possuía. Delicado, porém precavido: toma todos os cuidados para que sua vítima não possa fugir. Elas, em vez de se debaterem ou buscar uma fuga, ou ao menos gritar por socorro, parecem sucumbir à sua lábia, talvez possuídas pela síndrome de Estocolmo.
                       
Ele é um vampiro de sensações, emoções e sentimentos, e não quer apenas falar – também quer escutar sua vítima. Em sua fala, o homem fala do prazer que tem em estar em uma sala de cinema, como que devolvido ao útero, à proteção da caverna. Relata o horror que sente, terminada a sessão, em sair de novo à realidade, tendo de “conviver com gente de verdade, com carros, ruas desertas, mansões, madrugada, seqüestros”. Mesmo sendo uma pessoa que não vende seu tempo para ninguém, já que é desempregado crônico e opcional, não quer perder tempo... sabe o valor do tempo. E quem conhece o valor do tempo também sabe o valor do silêncio.
                       
O faminto vê como carrasco o churrasqueiro, a brandir seu enorme espeto de carnes sanguinolentas. Ver isto lhe dói como um soco no estômago. Como no poema “As bocas do tempo”, de
Brasigóis Felício: “Cronos nos come em tudo o que comemos/ comemos tempo a role/ com farinha e azeite dendê/ em tempo de roer e de ser corroídos/ o consumidor é consumido/ Quando a barriga ronca, e dana a gemer/ é Cronos querendo comer/ Comer carnes e legumes/ devorar usos e costumes. / Comemos porque sofremos/ou quando estamos infelizes/ Afinal, é preciso arrancar da precisão/a Biafra de não nos sentirmos vivos ”.
                       
O personagem fala de sua ojeriza ao trabalho. Define o fato como opção filosófica. Ele vê com desprezo as pessoas que vendem as horas de seu tempo para ganhar dinheiro. Ele mesmo só faz isto quando está nas últimas. Prefere viver de bicos, como quem aceita e prefere existir em eterno risco. Em verdade, — defende-se — tinha uma certa ética em seu “trabalho”. Não se considera um ladrão, no sentido comum da palavra, mas apenas alguém que, em nome da extrema necessidade, contribui para que os livros mudem de endereço. O que pode ser uma vantagem para eles, os livros, pois que, sendo postos a circular, podem encontrar novos leitores, indo parar em sebos nauseabundos. Só assim podem sair da solidão das bibliotecas de luxo, onde ninguém vai.
                       
Meticuloso, em seu ofício, o personagem mantinha uma caderneta, onde anotava os lugares de onde surrupiava os exemplares – assim fazendo certa justiça em seu ofício de transferidor de livros. A tristeza que sentiu ao constatar que não era um somellier, um enólogo, capaz de reconhecer a cepa de um vinho, saber até mesmo ano de safra e o lugar e temperatura onde foi colhido. Como
Lima Barreto, que em sua fome crônica, enfrentando o preconceito, certo dia desabafou: “É triste não ser branco!”, ele também poderia ter dito: “É triste não ter bom gosto!”.  Naquela noite, diz à seqüestrada “tive a constatação cruel, de que não tinha paladar, de que estava fadado a gostar para sempre de vinhos vagabundos, servidos em canecas engorduradas. Por isto bebia com raiva”. Como certos ricos que, por mais dinheiro que juntem, jamais terão refinamento e classe – ao dirigir seus automóveis de luxo, sempre serão vistos como motoristas.
                       
Agnes, aficcionada pelo vampirismo, entrega-se a ele, mesmo sabendo que será a próxima vítima. Assim se faz cúmplice do homicídio que irá sofrer. Do ressentimento como motivação de atos criminosos: Fala o seqüestrador: “Desnecessário dizer que nutria uma profunda, total, insuportável inveja de quem tinha aquilo que eu jamais conseguiria ter... invejava com todas as minhas forças as pessoas que sabiam saborear vinhos finos...”. Vemos, aí, o fator inveja como gerador de feroz ressentimento (pg.9). Logo adiante, á pg. 18, de novo a coincidência com o conteúdo da crônica “Os olhos dos pobres”, de Baudelaire. O personagem se vê de fora do restaurante, vendo os felizes apaniguados da sorte, a se empanturrarem, lá dentro, sob o conforto do ar refrigerado.
                       
É mais que sabido: os olhos dos ricos são seletivos, fazem de tudo para não enxergar o mundo deplorável dos sem-tudo. Passam por eles e não vêem, quando são abordados, nos semáforos, fecham os vidros, negam até responder aos pedidos, é como se fossem invisíveis as pessoas que as abordam. E são, mesmo. Como ficou provado em uma tese de doutorado, sobre a invisibilidade das pessoas que desempenham trabalhos humildes. Um servidor de uma universidade, conhecido por todos, fez uma experiência.

Passou a circular pelos corredores da instituição com uniforme de zelador. Embora muito conhecido como varredor de lixo nunca mais foi visto. Tornou-se invisível: “Nós nos olhamos por segundos, segundos apenas, e a senhora certamente não reparou no meu olhar de súplica, certamente nem notou, olhou simplesmente como se olha uma mancha na parede, um gato na calçada, uma bicicleta atravessando a rua, e depois esquece que viu a rachadura, a bicicleta, voltando a fazer o que fazia antes, sem se lembrar de nenhum registro do que viu”.
                       
O narrador/personagem quer, através dos menores gestos, adentrar o pensamento e sentimentos da mulher que mantém prisioneira. Vive no engano de pensar que o pensamento é o único instrumento capaz de veicular a verdade: “Eu queria saber o que a senhora estava pensando naquele momento ou, mais ainda, o que estava sentindo depois de ter depositado o copo sobre a mesa, de ter bebido o vinho; eu queria muito uma coisa, a senhora já quis muito uma coisa, muito mesmo, uma coisa?”. Eis um trecho de sua fala a revelar o quanto é impositiva a ditadura do querer, e o sofrimento inútil do querer muito, do muito desejar ter ou realizar alguma coisa: a decepção, quando a coisa chega, (ou se nem chega|) é inevitável. Assim como no mito da medusa, assim que um desejo é alcançado, logo outro se levanta, coercitivo, ditatorial... 
                       
Nas frases seguintes, novamente a questão do tempo é colocada – sua efemeridade e urgência, uma vez sabendo que o tempo nos salva ou nos mata: “Então vai me compreender, eu queria muito uma coisa, e logo a senhora desviou o seu olhar e voltou a segurar a taça, e a levou outra vez aos lábios, bebendo no máximo um gole de vinho, sem pressa, lentamente, como se o tempo não fosse precioso, como se nem existisse o tempo. Neste momento falei baixinho: me ensina, por favor!”.

Aí vai colocada a solidão e a exclusão dos estrangeiros, dos exilados de sua pátria e da felicidade, bem como a dos miseráveis, que têm de se contentar com a humildade de tirar retratos ao lado dos políticos. Como nos diz o poeta
José Godoy Garcia: “A humildade da prostituta que vai ao cinema, senta-se ao lado da mocinha, e se sente imunda”. Ou, tamanha é a solidão humana, que vem nos dizer o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Chega um tempo em que não se diz mais/ meu Deus/ tempo de absoluta depuração./ Chega um tempo em que não se diz mais: meu amor/ porque o amor resultou inútil./ E os olhos não choram/ as mãos tecem apenas o rude trabalho/ o coração está seco”.
                       
Vemos, à página 20 de A Confissão, espécie de epifania a brotar da mente do personagem, em prece-pedido para ser ensinado a ter classe. Mas é uma prece tímida, envergonhada, uma vez que confessa à mulher seqüestrada: “Ninguém ouviu, mas nem por isto deixou de ser uma prece, que nunca mais repeti, em momento algum, para ninguém, nem para mim, foi só aquela vez”. A fala agônica, quase sem respiro, como de alguém tem de desabafar, e o faz com agonia, temendo nunca mais ser capaz de fazê-lo. Neste momento epifânico da prosa do personagem de Flavio Carneiro vemos a raiva reprimida do ressentido social a transformar-se em êxtase e submissão à elegância e classe da mulher. Em ato falho, aponta para o ressentimento que nega, pois o vê como um sentimento inferior: “Não, foi simplesmente uma verdade que atravessou o meu futuro”.
                       
Sim, não há como negar: há verdades e revelações que atravessam o futuro, podendo inclusive transformar nossa compreensão do passado. E a verdade que atravessou o futuro do personagem, a partir de seu presente conflitado, é esta: “Um dia vou matar essa mulher”. Aqui vemos respingos de um niilista, um revoltado, excluído social, do tipo Raskolnikov – assassino real ou em potencial, capaz de racionalizar, e até de tornar romântico e libertário o seu gesto insano. Gesto desesperado e visceral, de alguém que se acha com direito a aprisionar ou matar pessoas que considere inúteis ou imprestáveis à sociedade. Seqüestrar e matar, em nome de um ideal, uma crença, uma paixão – eis o direito que a si mesmo concede o revoltado, o fanático, o revolucionário radical.
                       
Em lugar da raiva, a idolatria, a revelar o quanto as emoções podem misturar-se, serem filhas e irmãs umas das outras. Não há nada mais perto do amor de apego, do amor equivocado, do que o ódio. “Quem sou eu para me julgar:” – eis a pergunta que se faz o seqüestrador, que assim se coloca acima de todo julgamento – acima das leis, portanto. Em sua visão, se ninguém pode julgar ninguém, todo ato é lícito, por mais bárbaro ou insano que seja. Um sentimento de solidão ou onipotência a ecoar a frase impactante deNietzsche: “Depois que Deus morreu tudo é permitido!”. 
                       
O outsider cujo prazer é confessar-se e falar de seu vício apropria-se das emoções e sensações de suas vítimas. Em sua inconsistência de Ser, julga poder tornar-se inteiro (ou ele-mesmo) apropriando-se do requinte e do refinamento das mulheres que aprisiona em sua teia. A fala do seqüestrador é um elogio ao poder das sensações (sensacionismo). Exalta momentos de sensação pura: “Então precisava ser algo muito importante o que me fazia apagar do pensamento todas essas coisas desagradáveis, para dizer o mínimo, e eu não queria admitir que esse algo eram dois centímetros de uma mulher que eu jamais vira antes”. Para o fetichista, ou o sensacionista, a coisa, objeto ou corpo que move e alucina e move o seu desejo até a loucura é a coisa mais importante deste mundo. Nada pode superar o frenesi que tal visão (ou alucinação) provoca: “Aqueles dois centímetros”, para o fetichista, podem se tornar mais vastos que toda a Cordilheira dos Andes, ou ser mais alto do que os Himalaias, mais extensa do que os Canyons dos Estados Unidos...
                       
Na página 22: “Sua naturalidade me comoveu; me comoveu tanto que cheguei a sentir uma ternura imensa, como nunca sentira antes”. A ternura antes da violência... estranha mistura, a lembrar, de maneira invertida, os versos de
Mario Faustino: “Não conseguiu firmar o nobre pacto/entre a dor do mundo e a alma pura/tanta violência, mas tanta ternura/”. A questão trágica, em que se debate o nosso tempo trágico e tecnocrático é a reprodução endêmica da violência, sem um mínimo de ternura que venha a tornar humanas as cidades, suas casas e ruas.
                       
“Talvez o ato de escovar os dentes me desse a ilusão de ter jantado” (pg. 24). Imagem que remete a lembrança à imagem de Carlitos, em um filme de Chaplin: lambendo os cadarços e os pregos de uma bota, como se fossem espinhas de peixe. No mesmo filme, ele, o eterno gauche, imagina uma gigantesca galinha, que ele e o outro faminto tentam agarrar em vão. Também em A Confissão, temos a cena patética doauto-engano: mas o escovar os dentes (com muita pasta) para anestesiar o estômago, e ter a ilusão de ter jantado, não abafa nem esconde os roncos da Biafra da barriga vazia de pão e de esperança.
                       
É certo que neste mundo cão, em que o homem se transformou em lobo do próprio homem, como em uma fotografia famosa, de um abutre a esperar que um menino africano morra, para fazer dele seu almoço, os humanos não têm a mesma consideração: não esperam que as pessoas morram, para começar a devorá-las. Hoje se tornou ato totalmente normal, comer pessoas vivas, com vísceras e tripas (ou dividi-las em muitos pedaços,
como o assassino esquartejador Mohammed de Goiânia). Não antes de devorar suas almas, que são a primeira vitalidade a ser consumida. O “não gostar de viajar de graça”, aludido á pg. 24, sinaliza o outsider (estrangeiro em sua casa ou pátria), a tentar preservar um mínimo de dignidade e auto-estima.
                       
Nos começos do capítulo o protagonista se revela flaneur, dandi sem dinheiro, sem lenço e sem documento: “o sol nas bancas de revistas/ me enche de alegria e preguiça/ quem lê tanta notícia.../”. Assim vai o flaneur, pelas ruas da cidade, “nada no bolso ou nas mãos”, como na canção de Caetano Veloso. “Andar à toa pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria. Eu me sentia bem, ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes.../”. O simples prazer mental e físico de andar pelas ruas até os músculos doerem é atitude típica do flaneur, vagamundo requintado e pobre, nas ruas trepidantes da metrópole. 

E enquanto anda, vai sabendo de notícias repetidas, a lembrar a vertigem e o absurdo de um mundo que se despedaça. De fato, há notícias demais na aldeia global, vidas de todas as mídias, e todas parecidas ou repetidas. Assim, se uma pessoa quiser economizar tempo, basta saber de uma para ver que já sabe de todas. Segue o protagonista: “Depois de chegar no meu quarto, na pensão, tirar a calça e sapatos no chão, colocar os pés para cima, encostados na parede, e ficar deitado, olhando o teto, sem fazer nada, sentindo o pequeno conforto de estar vivo”. Aqui temos o vivente urbanóide que se contenta com o mínimo essencial á sobrevivência. Sendo um misantropo ou AS (anti-social), diz que evitava as pessoas, como se fosse um bicho do mato. Em sua busca para recuperar um tempo que não foi vivido (portanto, não pode ser perdido) ele segue nos trilhos do conhecido – como todas as outras pessoas, faz um esforço inútil e absurdo, como o cachorro a tentar abocanhar o próprio rabo.

Ele sabe, no entanto, que “As coisas estão interligadas, sabemos disto, não sabemos?” (Pg. 36). Assim, só revendo o antes do antes podemos reconhecer o que veio depois, mas que veio de muita coisa mais – que o devir, quando vem, já é presente, e não mais mera miragem da mente. Estranha teoria do seqüestrador: “Se alguém morre, todos, os vivos, e os que já morreram, têm uma parcela de culpa naquela morte”. E como, em seu entender, todos são culpados por tudo de ruim que acontece no mundo, não há inocência em nenhuma parte da terra habitada pelo Homem. Com este raciocínio, o seqüestrador transfere à mulher a culpa pelo crime de que é vítima.

Em sua autodefesa, alega não existirem motivos para o temerem, como se diz que devemos temer o Homem de um livro só. Ele é homem de muitos livros, portanto, tão inocente e sem periculosidade quanto as pessoas de livro nenhum. Pois se o perigo destes é a ignorância, perigosos, de fato, são os que se tornam fanáticos do único livro que adoram! Ele, no entanto, diz pertencer a outra galeria: a do homem de muitos livros, mas estes não o pertencem, nem por eles é pertencido. Sua relação com os livros que rouba é de total desapego, pois sabe que “o futuro é só desvios”. Ele parece saber do princípio da incerteza – talvez tenha lido um aforismo de Heráclito, para quem nesta vida tudo muda, só a mudança não muda.

Mede o valor de um livro que rouba pelo número de refeições (ou dias de aluguel) que pode pagar. E parece não estar distante de preocupações éticas: roubar dinheiro que está dentro de um livro raro é pior do que roubar o próprio livro, deixando o dinheiro dentro de uma obra medíocre? Ao menos este seria um roubo ético, e culturalmente correto... em sinal de reverência e respeito à literatura é que o fez hesitar em roubar não só o dinheiro, mas também o livro raro, em que estava escondido. O personagem adota a estratégia do pânico: imaginar o pior que lhe aconteceria o que de pior pode acontecer a uma pessoa – assim, se escapasse do que imaginara, já estaria no lucro.

Em seguida, fala dos medos mais comuns, reais ou imaginados, que a mente humana cria, em seu vício de construir o inferno interior em que quase todos vivem. A transformação crucial por que passa dá-se quando sente a alegria de se descobrir um ser dotado de paladar capaz de sentir o valor das comidas e bebidas requintadas. O êxtase de ter dinheiro no bolso, (coisa que não sentem os que sempre o têm com fartura – Pg. 51): “Era como se eu tivesse deixado a lata de lixo de um passado que de modo algum me agradava, como se a pensão, a fome, o dono do sebo, o velho meu vizinho e todas as aporrinhações do mundo fizessem agora parte da vida de outra pessoa”. 

Mais adiante, intrigado sobre a circunstância misteriosa da morte de Emma, admite ter consigo uma força mortal e mortífera, que leva as pessoas à morte, tão logo tenham com ele uma relação íntima: “Mas, raciocine comigo: se Agnes sabia de tudo, sabia também que ter uma relação sexual comigo significava a sua morte”. Aqui fala o que se sabe vampiro da energia anímica das pessoas com quem se relaciona: “(...) não sabia o que havia acontecido entre mim e Emma, de onde viera aquela minha capacidade, vá lá, de sugar de uma mulher o que ela possuía de mais valioso para mim”. Vampiro consciente de sua força destrutiva, suga das mulheres por quem se apaixona, suga o que há de mais precioso para si: a energia da vida, que no entanto não sabe cultivar nem conservar.  

Seu engano é supor que possa se encontrar a partir de seu desencontro essencial. Não alcançará a unidade por meio da fragmentação de sua mente atormentada. Sendo interiormente um tumulto incoerente, não reidrata sua alma mumificada ao vampirizar suas vítimas. A morte que a que as destina não lhe devolve a vida que já não vibra em si. No final de seu longo monólogo o outsider (estrangeiro em si mesmo) desiste de ser ou parecer herói. Percebe a inutilidade e mesmo a impossibilidade disto. Volta a aceitar-se como homem comum e sem hábitos requintados. O que equivale a dizer que renuncia a idealizar e romantizar a vida, até as raias do delírio e da loucura. Renuncia à ansiedade que o fazia querer alguém que não ele mesmo. Ao fazê-lo, renuncia também ao medo, que sabe ser o caos em si – inferno atualizado. Como o Coringa, do filme Batman, poderia dizer: “O que não nos mata nos torna estranhos”. 


 

leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 05:50 PM

Rus­so Stá­lin ma­ni­pu­lou a Guer­ra Ci­vil Es­pa­nho­la

publicado em

Em 2006, a Edi­to­ra Re­cord lan­çou En­ter­rar os Mor­tos — Uma His­tó­ria So­bre Ami­za­des, Si­lên­cios e Men­ti­ras na Guer­ra Ci­vil Es­pa­nho­la (254 pá­gi­nas), do jor­na­lis­ta e es­cri­tor Ig­ná­cio Mar­ti­nez de Pi­són. O li­vro con­ta a his­tó­ria de Jo­sé Ro­bles Pa­zos, in­te­lec­tu­al re­pu­bli­ca­no que foi as­sas­si­na­to pe­la po­lí­cia se­cre­ta da Uni­ão So­vi­é­ti­ca du­ran­te a Guer­ra Ci­vil Es­pa­nho­la, e re­gis­tra a ten­sa re­la­ção en­tre os ami­gos e, de­pois, ini­mi­gos John Dos Pas­sos e Er­nest He­mingway. Dos Pas­sos apa­re­ce co­mo um ho­mem de­cen­te e He­mingway co­mo ca­na­lha po­lí­ti­co ca­paz de tu­do pa­ra man­ter sua fa­ma e agra­dar os so­vi­é­ti­cos.

Dois anos de­pois, a Edi­to­ra Di­fel lan­ça O Pon­to de Rup­tu­ra — He­mingway, John Dos Pas­sos e o As­sas­si­na­to de Jo­sé Ro­bles (352 pá­gi­nas), do es­cri­tor Step­hen Koch. Tão bom quan­to o li­vro de Pi­són, o tra­ba­lho de Koch mos­tra, mais uma vez, a ca­na­lhi­ce po­lí­ti­ca (e pes­so­al) de He­mingway, a gran­de­za de Dos Pas­sos e co­mo o rus­so Stá­lin ma­ni­pu­lou a Fren­te Po­pu­lar e li­qui­dou seus su­pos­tos ad­ver­sá­rios.

Koch re­ve­la que Stá­lin usou a guer­ra ci­vil pa­ra ne­go­ci­ar o pac­to de não-agres­são com Hit­ler e com ob­je­ti­vo de jo­gar o lí­der na­zis­ta con­tra as de­mo­cra­cias oci­den­tais. O di­ta­dor acer­tou na mos­ca. Hit­ler agre­diu pri­mei­ro as de­mo­cra­cias e só mais tar­de ata­cou a Uni­ão So­vi­é­ti­ca.

Koch tal­vez fa­lhe ape­nas num pon­to: ao acre­di­tar que Dos Pas­sos era to­tal­men­te in­gê­nuo. Não era ca­na­lha, co­mo He­mingway, mas tam­bém não era ne­nhum ino­cen­te. O es­cri­tor exa­ge­ra ao apos­tar na ge­ni­a­li­da­de li­te­rá­ria de Dos Pas­sos.

A tra­du­ção de Pe­dro Jor­gen­sen Jr. me­re­ce, na pró­xi­ma edi­ção, uma re­vi­são mais cri­te­ri­o­sa.

 

Resgate histórico da música brasileira


Livro que entrou para minha lista penelopiana (desconfio que vou viver 300 anos), como prioridade: Uma História da Música Brasileira — Das Origens à Modernidade (Editora 34, 504 páginas. O preço, como sempre, é abusivo: 64 reais), de Jairo Severiano. Ruy Castro disse a Luiz Fernando Viana, da "Folha de S. Paulo": "Não dou dois passos sem consultar o Jairo. Ele é garantia de exatidão, não dá palpite. Se não sabe, pede dez minutos ou uma hora e meia, pesquisa e te dá a resposta certa".

A resenha de Luiz Fernando Viana recorta trecho do livro do nada ortodoxo Severiano: "O que de mais importante aconteceu no samba nos últimos anos da Época de Ouro [1929-45] foi o aparecimento de Geraldo Pereira", autor de "Falsa Baiana".

Sobre a estrela baiana-universal, Jairo Severiano é quase fã: "João Gilberto é um sujeito aloprado que interrompeu a suave transição que ocorria entre o tradicional e o moderno com um corte, escandalizando os tradicionalistas. Foi traumático, mas ali a música brasileira se modernizou".



História da Máfia


Não adquiri, pois ainda não vi nas livrarias, mas não deixarei de ler  O Traidor — A Verdadeira História da Máfia Americana (Editora Larousse do Brasil), de Jimmy Breslin. A não ser que o título em inglês seja outro, o autor é corajoso ao pretender escrever a história "verdadeira da Máfia" em apenas 200 páginas.

O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, teve a inteligência de exibir a Máfia de modo glamuroso, o que permitiu que fosse mais bem examinada e, portanto, entendida. Claro, a Máfia é um pouco pior do que mostra o filme, mas a arte — se cinema for arte — não tem o objetivo de reproduzir a realidade, e sim de iluminá-la. E o filme o faz de modo magistral. Em termos de Máfia, O Poderoso Chefão é o fim da história.

Revista Granta

Li o primeiro volume da Granta em português, com histórias de autores norte-americanos, e não concordei com a crítica. Os textos, no geral, são fracos e nada reveladora do talento de seus autores. Aqui e ali, laivos de criatividade.

Agora a segunda edição em português contém textos de autores estrangeiros e brasileiros.

Entre os estrangeiros estão Edmund White, Paul Theroux, Ismail Kadaré, Amitav Ghosh, James Fenton e Geoff Dyer. Os brasileiros são: Ignácio Loyola Brandão (um autor subestimado, no entanto, muito melhor do que Chico Buarque), Ricardo Lísias, Arnaldo Jabor (que conta sua paixão pelo LSD), Lourenço Mutarelli e Carlos Diegues.

Romance palestino

Não li, mas está na minha lista — não sei para quando — o romance Porta do Sol (Editora Record, 504 páginas, tradução de Safa Abou Chahla Jubran), do palestino Elias Khoury.

O escritor brasileiro Milton Hatoum, crítico eventualmente certeiro, diz que se trata de um grande romance.
 
Boa no­tí­cia de Ian McEwan

Ian McEwan leu, no fes­ti­val li­te­rá­rio de Hay, no Pa­ís de Ga­les, tre­cho de seu no­vo ro­man­ce, que de­ve ser pu­bli­ca­do da­qui a dois anos, se­gun­do no­tí­cia di­vul­ga­da pe­la Reu­ters.

"O li­vro, que ain­da não tem tí­tu­lo, con­ta a his­tó­ria do pre­mi­a­do com o No­bel Mi­cha­el Be­ard e su­as ten­ta­ti­vas de sal­var o mun­do da de­vas­ta­ção am­bien­tal", diz o tex­to tran­scri­to pe­lo UOL.

 


Bi­o­gra­fia do mi­to Pau­lo Co­e­lho


O li­vro O Ma­go (Edi­to­ra Pla­ne­ta, 652 pá­gi­nas), de Fer­nan­do Mo­ra­is, con­ta a his­tó­ria da vi­da de Pau­lo Co­e­lho, que se tor­nou mai­or e mais in­te­res­san­te do que qual­quer um de seus li­vros.

O li­vro re­la­ta que Co­e­lho man­te­ve re­la­ções ho­mos­se­xu­ais, in­cen­ti­vou uma de su­as mu­lhe­res a se ma­tar e te­ria ar­ti­cu­la­do um pac­to com o Di­a­bo.

Um jor­na­lis­ta da Fo­lha de S. Pau­lo acer­tou quan­do es­cre­veu que o la­do "su­jo" de Co­e­lho não o pre­ju­di­ca mais, pois aju­da a com­por e am­pli­ar o mi­to do es­cri­tor vi­vo que mais ven­de li­vros no mun­do.

De­ta­lhe: Mo­ra­is es­cre­ve mui­to me­lhor do que Co­e­lho e, com a bi­o­gra­fia, tor­nou-o um per­so­na­gem in­te­res­san­tís­si­mo. De­pois da qua­se-ha­gi­o­gra­fia, Co­e­lho se­rá mais res­pei­ta­do pe­los in­te­lec­tu­ais? É pro­vá­vel.

leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 03:50 PM

O jovem Stálin ganha livro

publicado em

A gran­de apos­ta da Com­pa­nhia das Le­tras pa­ra es­te mês é o lan­ça­men­to do li­vro O Jo­vem Stá­lin (568 pá­gi­nas, 56 pi­las), do his­to­ri­a­dor bri­tâ­ni­co Si­mon Se­bag Mon­te­fio­re.

Au­tor de Stá­lin — O Czar Ver­me­lho, Mon­te­fio­re, pes­qui­sa­dor es­cru­pu­lo­so, tem a vir­tu­de de não de­mo­ni­zar Stá­lin, que, va­le di­zer, não pre­ci­sa ser de­mo­ni­za­do pa­ra pa­re­cer o que é, um mons­tro po­lí­ti­co.

Na mi­nha imo­des­ta opi­ni­ão, a úni­ca fa­lha de Mon­te­fio­re é que, no afã de es­cla­re­cer quem é Stá­lin, pa­ra além dos ró­tu­los, aca­bou por trans­for­má-lo pra­ti­ca­men­te num in­te­lec­tu­al. Ler mui­tos li­vros não trans­for­ma al­guém ne­ces­sa­ria­men­te num in­te­lec­tu­al re­fi­na­do. É o ca­so do di­ta­dor rus­so. Mas, se não era um in­te­lec­tu­al da es­tir­pe de Marx e mes­mo de Lê­nin, Stá­lin era mes­mo um gran­de po­lí­ti­co, mai­or do que os dois, por­que te­ve tem­po pa­ra exer­cer seu "ta­len­to".

A clás­si­ca nar­ra­ti­va de Adam Ulam so­bre os bol­che­vi­ques

Na dé­ca­da de 1980, li, com pra­zer, Os Bol­che­vi­ques — His­tó­ria Po­lí­ti­ca, In­te­lec­tu­al e Bi­o­grá­fi­ca da Re­vo­lu­ção Rus­sa e de Seus Lí­de­res (ca­lha­ma­ço de 674 pá­gi­nas edi­ta­do, em 1976, pe­la No­va Fron­tei­ra), do pro­fes­sor de Har­vard
Adam B. Ulam. Em­pres­tei meu exem­plar pa­ra uma pro­fes­so­ra e, in­fe­liz­men­te, os dois su­mi­ram do ma­pa.

O tex­to ori­gi­nal de Adam Ulam foi pu­bli­ca­do, nos Es­ta­dos Uni­dos, há 43 anos. Os crí­ti­cos aten­tos vão di­zer, é cla­ro, que o li­vro es­tá, em al­guns as­pec­tos, datado. Têm ra­zão. Sur­gi­ram obras atu­a­li­za­das, de­pois da aber­tu­ra dos ar­qui­vos soviéticos, de au­to­res co­mo Si­mon Se­bag Mon­te­fio­re, Ro­bert Ser­vi­ce, Ri­chard Pi­pes,
Mos­he Lewin (au­tor do ex­ce­len­te O Sé­cu­lo So­vi­é­ti­co, Edi­to­ra Re­cord, 50 re­ais) e Or­lan­do Fi­ges (au­tor do se­mi­nal A Tra­gé­dia de um Po­vo — A Re­vo­lu­ção Rus­sa 1891-1924, Edi­to­ra Re­cord, 1106 pá­gi­nas, ex­tor­si­vos 109 re­ais). Mes­mo as­sim, tra­ta-se de uma gran­de obra his­tó­rica, com sa­bor de crô­ni­ca, de nar­ra­ti­va à Gib­bon. É um clás­si­co no qual apren­di mui­to, qua­se tu­do, so­bre a Re­vo­lu­ção Rus­sa, a que pro­me­teu o Céu na Ter­ra, mas deu ape­nas o In­fer­no aos rus­sos e ou­tros po­vos sa­té­li­tes. Ge­rou um cza­ris­mo com o mais cru­el de to­dos os cza­res, Stá­lin.

Na se­ma­na pas­sa­da, Lú­cio e An­dros, do se­bo Pá­gi­nas An­ti­gas, lo­ca­li­za­ram, pe­lo si­te
Es­tan­te Vir­tu­al
, um exem­plar e o ad­qui­ri­ram pa­ra mim. Re­li cer­ca de 100 pá­gi­nas. É uma ma­ra­vi­lha a pro­sa pre­ci­sa e ilu­mi­na­da de Adam Ulam.



As lou­cu­ras do czar co­mu­nis­ta


Não li, mas en­trou pa­ra mi­nha pe­ne­lo­pi­a­na lis­ta A Lou­cu­ra de Stá­lin (Edi­to­ra Di­fel, tra­du­ção de J. A. Guei­ros, 350 pá­gi­nas), do his­to­ri­a­dor
Cons­tan­ti­ne Ples­hakov. Leia a si­nop­se da Li­vra­ria Cul­tu­ra (ou da edi­to­ra): "Ba­se­an­do-se em do­cu­men­tos aber­tos re­cen­te­men­te, o es­cri­tor e his­to­ri­a­dor rus­so Cons­tan­ti­ne Ples­hakov nar­ra a his­tó­ria se­cre­ta da in­va­são da Uni­ão So­vi­é­ti­ca pe­lo exér­ci­to ale­mão du­ran­te a Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al. A Lou­cu­ra de Stálin re­ve­la o que acon­te­ceu du­ran­te os dez di­as ini­ciais des­sa in­va­são, mos­tran­do co­mo Stá­lin mas­sa­crou seus pró­prios sol­da­dos pa­ra se man­ter no po­der. Ples­hakov re­tra­ta o lí­der rus­so, o te­mi­do dés­po­ta, co­mo um ser vul­ne­rá­vel e iner­te que, num mo­men­to de­ci­si­vo, dei­xou seu pa­ís sem li­de­ran­ça. Em ju­lho de 1941, Adolf Hit­ler es­te­ve mui­to per­to de ven­cer a guer­ra. O di­ta­dor ale­mão, ig­no­ran­do o pac­to de não-agres­são, lan­çou um vi­o­len­to ata­que em três fren­tes con­tra a Uni­ão So­vi­é­ti­ca, e, em 72 ho­ras, su­as tro­pas já es­ta­vam pres­tes a al­can­çar Mos­cou. Re­cu­san­do-se a acre­di­tar que os ale­mã­es ata­ca­ri­am pri­mei­ro, ape­sar das inú­me­ras ad­ver­tên­cias, Stá­lin im­pe­diu qual­quer ação de seus ge­ne­ra­is nos pri­mei­ros e cru­ci­ais mo­men­tos da in­va­são. En­quan­to Hit­ler avan­ça­va so­bre o ter­ri­tó­rio so­vi­é­ti­co, Stá­lin aban­do­nou o exér­ci­to. Os re­sul­ta­dos fo­ram a mor­te de um em ca­da seis sol­da­dos nos pri­mei­ros di­as de lu­ta, a for­ça aé­rea pra­ti­ca­men­te ani­qui­la­da an­tes mes­mo de le­van­tar vôo e cen­te­nas de mi­lha­res de so­vi­é­ti­cos mor­tos du­ran­te a fu­ga pa­ra o in­te­ri­or. Em su­ma, o es­for­ço do Exér­ci­to Ver­me­lho pa­ra re­cu­pe­rar os ter­ri­tó­rios per­di­dos em me­nos de du­as se­ma­nas cus­tou mais de dez mi­lhões de vi­das so­vi­é­ti­cas".



Di­á­rio de um Ano Ru­im, do mago Coetzee

J. M. Co­et­zee, au­tor da obra-pri­ma De­son­ra, tal­vez me­lhor por­que me­nos in­ven­ti­vo e me­nos pre­ten­si­o­so, lan­ça Di­á­rio de um Ano Ru­im (Com­pa­nhia das Le­tras, 248 pá­gi­nas, 41 pi­las).

O no­vo ro­man­ce de Co­et­zee tra­fe­ga en­tre a li­te­ra­tu­ra e o en­saio. Tra­ta-se de um ro­man­ce en­sa­ís­ti­co ou de um en­saio li­te­rá­rio. Al­go as­sim. Con­fes­so, po­rém, que o Co­et­zee que me agra­da mais é o de De­son­ra, o es­cri­tor-es­cri­tor, não o es­cri­tor-en­sa­ís­ta.


leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 02:53 PM

A Vida Louca de Porfírio Rubirosa

publicado em

A Vida Louca de Porfírio Rubirosa: O Último Playboy (Editora Record, tradução de Adriana Lisboa, que confunde "guitarra" com "violão"), de Shawn Levy, cita dois playboys brasileiros.

Na página 90, Levy conta que Flor de Oro, filha do ditador Rafael Leônidas Trujillo, da República Dominicana, foi casada com "um barão brasileiro da mineração", depois de se separar do escroque Rubi.

Na página 146, ao listar playboys famosos, Levy escreve: "Francisco Pignatari [1916-1977], um milionário brasileiro da mineração, flertou com uma ex-rainha do Irã e algumas atrizes famosas e se casou com uma princesa [Ira de Furstenberg] — e tudo isso apesar de ser conhecido como Baby. (...) Jorge [Jorginho, como nós, brasileiros, íntimos de todo mundo, o chamamos] Guinle, também do Brasil, herdou uma fortuna do ramo dos hotéis e dilapidou-a — se isso se pode chamar de dilapidar — andando atrás de mulheres como Jayne Mansfield e Janet Leigh e Hedy Lamarr e Verônica Lake e Anita Ekberg". A lista nem se compara à de Rubirosa (lista mínima, acrescente-se): Flor de Oro, Danielle Darrieux, Doris Duke (bilionária), Barbara Hutton (a bilionária ex de Cary Grant), Gene Tierney, Dolores Del Rio, Veronica Lake, Amália Rodrigues (sim, a cantora de fados), condessa Nicola-Gambi, rainha Alexandra (da Iugoslávia), Marianne O`Brian, Zsa Zsa Gabor (a Rubi de saias), Eartha Kitt, Rita Hayworth, Ava Gardner, imperatriz Soraia (do Irã), Katherine Dunham.

Em Los Angeles, Rubi decidiu entrar para o cinema e foi orientado nada mais nada menos do que por Michael Tchekhov, sobrinho do contista e dramaturgo russo Anton Tchekhov.

Por que Rubi, um playboy malandríssimo ("Trabalhar? É impossível para mim trabalhar. Simplesmente não tenho tempo."), seduziu tantas mulheres, ricas, remediadas, pobres, bonitas, simpáticas e feias? Primeiro, devido ao charme, confirmado pela investigação criteriosa de Levy. Segundo, seu priapismo era proverbial. Terceiro, o gigantismo de seu pênis atraía as mulheres. Truman Capote “viu” 28 centímetros. Doris Duke, ex-mulher de Rubi, citada pelo sobrinho Pony Duke, falava em "15 centímetros de circunferência... bem parecido com a extremidade de um taco de beisebol". Chegaram a publicar em jornal: "Parece Yul Brynner de gola rulê preta". Algumas mulheres ficavam machucadas depois dos "exercícios" de amor.

Eufrásia está na moda

Quem leu a biografia Joaquim Nabuco, de Angela Alonso, conheceu um pouco da magnífica história da investidora Eufrásia Teixeira Leite. Nascida em Vassouras, em 1850, morou em Paris e morreu, no Rio de Janeiro, aos 80 anos. Riquíssima, foi uma das paixões de Quincas o Belo, como era conhecido o charmoso político e playboy intelectual. Conta-se que, interessado no dinheiro da milionária e também apaixonado, Nabuco quis se casar. Eufrásia queria-o como amante, mas não como marido. Continuaram amigos e amantes.

O livro de Alonso é generoso ao relatar a história de Eufrásia, mas não é detalhado. Quem quiser conhecê-la um pouco mais, inclusive a história de que torrou seu dinheiro com filantropia, deve consultar a reportagem "Os órfãos de Eufrásia", de Marcos Sá Corrêa, publicada pela revista Piauí.

 A batalha de Creta

A Editora Record lança Creta — Batalha e Resistência na Segunda Guerra Mundial 1941/ 1945, mais uma obra-prima de Antony Beevor. Leio, na contracapa, as loas (sei que, provavelmente, justas — dada a qualidade do historiador britânico) ao autor.O Financial Times escreveu: "Este livro lúcido está destinado a tornar-se obra de referência sobre o assunto".

Adquiri um exemplar e, por enquanto, folheei. Verifico que Beevor, mais uma vez, mostra-se aquele infatigável e sensível contador de histórias. É um dos poucos historiadores que unem bem o ofício de contador de histórias e analista privilegiado das guerras. É isento? Não. Os piores historiadores são os que se dizem isentos, porque não o são. Como ser isento, para ficar em dois exemplos, em relação às monstruosidades de Hitler e Stálin? O que não se pode permitir é que a mente, turvada pelo passional, obscureça o entendimento dos fatos. Objetividade é quase uma ficção, mas não é ficção inteiramente. Portanto, é bem-vinda.
 


leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 02:27 PM

Nigerianos roubam U$ 242 milhões de banco brasileiro

publicado em


O his­to­ri­a­dor e jor­na­lis­ta in­glês Mis­ha Glenny es­cre­veu um li­vro mui­to bom, “McMá­fia — Cri­me Sem Fron­tei­ras” (Com­pa­nhia das Le­tras, 440 pá­gi­nas), no qual o Bra­sil fi­gu­ra co­mo um dos per­so­na­gens prin­ci­pa­is. Não é pre­ci­so es­que­cer as má­fi­as ita­li­a­nas e ame­ri­ca­nas, mas o pes­qui­sa­dor mos­tra que há mui­tas ou­tras má­fi­as no mun­do que de­vem ser co­nhe­ci­das e, so­bre­tu­do, com­ba­ti­das. Uma de­las é a ni­ge­ri­a­na.

No ca­pí­tu­lo 8, “O te­a­tro do cri­me”, Glenny con­ta a his­tó­ria do gol­pe que um gru­po de cri­mi­no­sos ni­ge­ri­a­nos apli­cou no Ban­co No­ro­es­te, das fa­mí­lias Si­mon­sen e Cochra­ne, en­tre 1995 e 1997. Jun­tas, fo­ram sur­ru­pia­das por afri­ca­nos es­per­tos em 242 mi­lhões de dó­la­res e só com mui­to cus­to con­se­gui­ram re­a­ver par­te do di­nhei­ro. Na ver­da­de, se­gun­do o li­vro, con­se­gui­ram blo­que­ar a gra­na. Mas gas­ta­ram uma for­tu­na pa­ra ten­tar re­to­má-la, pois ti­ve­ram de con­tra­tar es­pe­cia­lis­tas ca­rís­si­mos pa­ra fa­zer a ope­ra­ção de “re­tor­no”. Des­mo­ra­li­za­do, o ban­co aca­bou ven­di­do pa­ra o San­tan­der.


Nelson Saka­gu­chi, ví­ti­ma de uma frau­de mo­nu­men­tal


A his­tó­ria do gol­pe é sur­pre­en­den­te, e co­me­çou pe­lo fax e, de­pois, pe­la in­ter­net. O exe­cu­ti­vo Nel­son Saka­gu­chi, res­pon­sá­vel pe­las ope­ra­ções do Ban­co No­ro­es­te nas Ilhas Cayman, re­ce­beu um fax de Ta­fi­da Wil­li­amns (na ver­da­de, Bless Oke­reke), di­re­tor de Or­ça­men­to e Pla­ne­ja­men­to do Mi­nis­té­rio da Avi­a­ção da Ni­gé­ria. Wil­li­ams ex­pli­cou que o go­ver­no, que iria cons­tru­ir um no­vo ae­ro­por­to in­ter­na­ci­o­nal em Abu­ja, a no­va ca­pi­tal, pre­ci­sa­va de in­ves­ti­men­tos.

Saka­gu­chi, ho­mem do mer­ca­do fi­nan­cei­ro, fa­re­jou uma gran­de opor­tu­ni­da­de de in­ves­ti­men­tos. Ar­ti­cu­lou um en­con­tro com Pa­ul Ogwu­ma, di­re­tor do Ban­co Cen­tral da Ni­gé­ria. Os ni­ge­ri­a­nos in­for­ma­ram que o go­ver­no que­ria 50 mi­lhões de dó­la­res pa­ra cons­tru­ir o ae­ro­por­to.

Mes­mo sa­ben­do que o ca­pi­tal do No­ro­es­te era de ape­nas 500 mi­lhões de dó­la­res, o bra­si­lei­ro, im­pres­sio­na­do com o es­que­ma, en­tu­si­as­mou-se e li­be­rou ime­di­a­ta­men­te 4 mi­lhões de dó­la­res pa­ra Em­ma­nu­el Nwu­de, “o mais exí­mio gol­pis­ta da Ni­gé­ria”. Saka­gu­chi foi li­be­ran­do di­nhei­ro, até che­gar à fa­bu­lo­sa so­ma de 242 mi­lhões de dó­la­res. O no­me do gol­pe é “co­mis­são adi­an­ta­da”, ou
419. Os ni­ge­ri­a­nos fo­ram pe­din­do di­nhei­ro, an­te­ci­pa­ções, e, no fi­nal das con­tas, não ha­via ae­ro­por­to, nem os gol­pis­tas eram di­ri­gen­tes do go­ver­no e do ban­co cen­tral da Ni­gé­ria.

“To­do mun­do con­cor­da que Saka­gu­chi foi ví­ti­ma de uma frau­de mo­nu­men­tal” — uma das cin­co mai­o­res do mun­do —, "mas nin­guém en­ten­de co­mo um ban­quei­ro tão ex­pe­ri­en­te caiu no gol­pe nem por que sub­traiu o di­nhei­ro de seu em­pre­ga­dor no pro­ces­so”, es­cre­ve Glenny. “Saka­gu­chi in­sis­te que foi ví­ti­ma pu­ra e sim­ples de um gol­pe e que não es­ta­va rou­ban­do di­nhei­ro do ban­co. (...) A in­ge­nui­da­de de Saka­gu­chi im­plo­ra cre­di­bi­li­da­de. Não há pro­vas de que ele es­ti­ves­se man­co­mu­na­do com os gol­pis­tas — foi uma ví­ti­ma ge­nu­í­na. Mas es­ta­va fi­nan­cian­do aque­le jo­go des­vai­ra­do com o di­nhei­ro dos ou­tros.”

Saka­gu­chi as­se­gu­ra que seus pa­trões sa­bi­am do “ne­gó­cio”, mas as fa­mí­lias Si­mon­sen e Cochra­ne ne­gam e o pro­ces­sa­ram.

Glenny re­la­ta que os ni­ge­ri­a­nos en­vi­am, to­dos os di­as, mi­lha­res de e-mails pa­ra pes­so­as do mun­do in­tei­ro com pro­pos­tas de di­nhei­ro fá­cil — mi­lhões de dó­la­res — e mui­tas acre­di­tam, en­tram em con­ta­to e são le­sa­das. Di­fi­cil­men­te con­se­guem re­ce­ber o di­nhei­ro que, na ver­da­de, de­ram de pre­sen­te pa­ra ni­ge­ri­a­nos es­per­tos. O e-mail se tor­nou um po­de­ro­so ins­tru­men­to pa­ra os ni­ge­ri­a­nos ar­ran­ca­rem di­nhei­ro dos in­cau­tos. Ali­ás, po­de-se di­zer que Saka­gu­chi, com anos de mer­ca­do fi­nan­cei­ro, é in­cau­to?

Nou­tro ca­pí­tu­lo, Glenny re­la­ta co­mo o de­le­ga­do Pro­tó­ge­nes Quei­roz (o mes­mo que pren­deu o ban­quei­ro Da­ni­el Dan­tas) des­ba­ra­tou a qua­dri­lha do chi­nês Law Kin Chong. Nem mes­mo a Po­lí­cia Fe­de­ral em São Pau­lo foi avi­sa­da da Ope­ra­ção Sho­gun.

“Os car­té­is de Ca­li e de Me­del­lín co­me­ça­ram a ne­go­ci­ar a ex­pan­são glo­bal da co­ca­í­na com re­pre­sen­tan­tes da Ir­man­da­de de Solntse­vo de Mos­cou, com tra­fi­can­tes búl­ga­ros e com inú­me­ros tra­fi­can­tes do Ca­ri­be e da Amé­ri­ca Cen­tral” por in­ter­mé­dio das fa­mí­lias Cun­tre­ra e Cu­a­ra­na. O fun­da­dor do es­que­ma, oc­to­ge­ná­rio, mo­ra, sem ser mo­les­ta­do, no Rio de Ja­nei­ro. Os fil­mes ame­ri­ca­nos es­tão cer­tos: cri­mi­no­sos con­ti­nuam fu­gin­do pa­ra o Bra­sil.

O Pri­mei­ro Co­man­do da Ca­pi­tal (PCC) tam­bém é dis­cu­ti­do por Glenny, mas, nes­se cam­po, seu tra­ba­lho de pes­qui­sa é in­sa­tis­fa­tó­rio. Con­ten­tou-se em co­lher opi­ni­ões de pro­mo­to­res, um ju­iz apo­sen­ta­do e de­le­ga­dos de po­lí­cia e na­da con­ta de re­le­van­te.

Há re­la­tos in­te­res­san­tes so­bre “ra­tos” da in­ter­net bra­si­lei­ros e seus as­se­clas in­ter­na­cio­nais. Eles rou­bam mi­lhões de con­tas de ban­cos. O bra­si­lei­ro Kau, es­pe­cia­lis­ta em tes­tar se­gu­ran­ça de com­pu­ta­do­res, diz que “o úni­co com­pu­ta­dor se­gu­ro é o que es­tá des­li­ga­do”.
 
 

O intelectual errante

Antes de comprar alguns livros, leio trechos, ou eventualmente o prefácio. Não adquiri "
Mínima Mímica — Ensaios Sobre Guimarães Rosa" (Companhia das Letras, 350 páginas), da ótima crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Li, na livraria, o ensaio "Um intelectual a contracorrente: Duglas Teixeira Monteiro" (lutei contra meu computador para escrever Duglas, pois, teimoso, corrigia para Douglas).

Trata-se de um texto amoroso a respeito do brilhante sociólogo que escreveu com rara sensibilidade sobre a revolta de Contestado. Mas não apenas a respeito do intelectual. Walnice conta a história do homem, que, a partir de certo momento, passou a usar botinas e ir para o trabalho de bicicleta.

Pesquisador infatigável, Duglas levantava-se de madrugada para assistir cultos evangélicos, pois não se interessava apenas pela teoria — queria ver de perto como se davam os cultos, como as pessoas os praticavam.

O ensaio, sensível e inteligente, vale o livro. Ressalve-se que o livro é sobre Guimarães Rosa. 
 

 

 

Jane Austen

A Editora Landmark publica nova tradução de "
Orgulho e Preconceito" (400 páginas), da escritora inglesa Jane Austen, com tradução de Marcella Furtado. A edição é bilíngüe, o que é excelente, pois permite que o leitor possa verificar a qualidade da versão e da prosa da autora inglesa.

A tradução de Lúcio Cardoso, publicada pela Ediouro, não é ruim. Mas precisa de uma revisão caprichada, pois há dezenas de erros.

Mundo globalizado

José Luís Fiori é um dos poucos intelectuais brasileiros que tentam escrever livros abrangentes sobre a economia política mundial. Um bom aperitivo é "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Editora Boitempo).

Biografia do Padre Cícero

Autor de excelentes biografias do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, do escritor José Alencar e da cantora Maysa, o jornalista
Lira Neto está escrevendo a biografia do Padre Cícero.

O livro terá 550 páginas, com muitas fotografias de época e fac-símiles. Lira Neto conta que teve "acesso a uma ótima documentação".
 
Cantor e algemas

O livro "
O Jovem Stálin" (Companhia das Letras), de Simon Sebag Montefiore, conta que, além de assaltante de bancos — para financiar a luta de Lênin —, o bolchevique era cantor e, durante certo período, esteve encantado pelo esperanto. No poder, baniu o esperando e prendeu quem o estudava.

"Não somos ladrões para sermos algemados", disse Stálin para um policial, antes de chegar ao poder. Ele preferia a companhia de bandidos à de revolucionários, que acha empolados, e levou alguns criminosos para o centro do poder.
 
Mensalão

O jornalista Allan Kardec envia endereço no qual se pode ler "o livro que, supostamente, foi recusado por todas as editoras:
http://www.escandalodomensalao.com.br/.
 
Poesia francesa

Leio, com raro prazer, uma das dessas maravilhas que encontramos nos sebos: "Antologia da Poesia Francesa — Do Século IX ao Século XX" (Editora Record, 462 páginas). As traduções são do especialista Cláudio Veiga, que tem o nome destacado na capa, tal a qualidade de seu trabalho, no qual une competência e sensibilidade.

Alguns dos poetas traduzidos: François Villon ("Balada dos Enforcados"), Louise Labé ("Foi predito"), Racine ("Pranto de um cristão"), André Chénier ("A Poesia"), Lamartine ("O Livro da Existência" Victor Hugo ("Mors"), Gérard de Nerval ("Artêmis"), Alfred de Musset ("Tristeza"), Baudelaire ("Spleen"), Mallarmé ("Brisa Marinha"), Verlaine ("Arte poética"), Rimbaud ("Aurora"), Jules Laforgue ("Pôr-de-sol de inverno"), Paulo Valéry ("Cemitério marinho"), Apollinaire ("A linda ruiva"), Saint-John Perse ("Neves III"), Henri Michaux ("Sai da parede uma cabeça"), René Char ("À saúde da serpente"), Yves Bonnefoy ("Envelhecemos..."). 
 

 
Omissão estranha

Nas resenhas do livro "
Stasilândia — Como Funcionava a Polícia Secreta Alemã" (Companhia das Letras, 375 páginas), de Anna Funder, não vi nenhuma referência ao livro "O Homem Sem Rosto — Autobiografia do Maior Mestre de Espionagem do Comunismo" (Editora Record, 430 páginas), de Markus Wolf com Anne Anne McElvoy.

Não entendo os motivos da omissão, pois Markus Wolf, além de criar ou recriar a espionagem da Alemanha Oriental, é um dos forjadores do eficiente sistema secreto da Cuba de Fidel Castro. Um dos segredos da eficiência do serviço secreto cubano é a tecnologia e a disciplina alemãs.

O livro de Wolf, apesar de sua vaidade extremada, talvez daí seu sucesso como espião, é um retrato impagável da espionagem stalinista. Como se sabe, os modestos e os não-vaidosos costumam ser ineficazes, pois não têm pretensões. 
 
Maiores boxeadores

Leio no site
www.boxergs.com.br a lista dos maiores boxeadores do século 20. Robert Cassidy elaborou a lista a partir da opinião de quatro grandes treinadores.

Gil Glancy diz que o maior boxeador do século foi Willie Pep (nada sei a respeito). Angelo Dundee prefere Muhammad Ali. Lou Duva fica com Sugar Ray Robinson. Emanuel Steward repete Dundee.

Cassidy lista também a principal luta em que os quatro trabalharam. Clancy diz que a luta do século ocorreu entre Joe Frazier e Muhammad Ali. "Foi o evento esportivo do século", afirma.

Dundee escolhe a batalha do Zaire, entre Muhammad Ali e George Foreman.

Duva escolhe a peleja entre Evander Holyfield e Buster Douglas. O primeiro carrasco de Mike Tyson, o sujeito que provou que era possível vencer a fera, foi derrotado por nocaute por Holyfield.

Steward cita a luta entre Hilmer Kenty e Ernesto Espana. Ele cita também as guerras entre Thomas Hearns e Marvin Hagler. Escrevi guerras, porque foram verdadeiras batalhas. Hearns e Marvelous são autênticos samurais dos tempos modernos.
 
Carlos Gracie

O poeta Carlos Willian Leite, editor do Opção Cultural, está lendo "
Carlos Gracie — O Criador de uma Dinastia" (Editora Record, 560 páginas), de Reila Gracie.

Se tivesse certeza de que viveria pelo menos 101 anos, e lúcido, arranjaria dois ou três dias e leria o livro sobre o grande Carlos Gracie.

Como não tenho certeza que chegarei aos 60 anos, dou apenas uma nota sobre o livro que conta a história do pai "jiu-jítsu brasileiro" (para ser franco, nem sei o que isto quer dizer). "O Criador de uma Dinastia" é do tipo de livro que não li, não lerei, mas gostei.

leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 02:23 PM

Uma história da Guerra Civil Americana

publicado em


Não há guerras românticas, mas duas guerras são quase românticas ou pelo menos são cantadas como tal, a Guerra Civil Americana (1861-1865) e a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

As duas guerras dividiram seus países ao meio. Com o próprio povo se matando.

Na primeira, venceu a voz progressista de Abraham Lincoln, o notável presidente norte-americano (Edmund Wilson, num ensaio perspicaz, diz que a prosa enxuta que desaguou em Hemingway, antes passando por Mark Twain, surgiu com os discursos de Lincoln), mas à custa de 600 mil mortos. A editora M. Books lança um livro muito interessante, com excelentes fotografias e capa dura — "História da Guerra Civil Americana" (224 páginas, tradução de Roger Maioli dos Santos. O título do original é mais preciso: "A Chronology of the American Civil War"), de John D. Wright. Recomendo vivamente o romance "A Marcha" (Editora Record, 416 páginas), de E. L. Doctorow. É notável para se entender, com cores e movimentos, a vida dos americanos, todos envolvidos numa guerra que, no fundo, era de alguns mas se tornou a guerra de uma nação contra si mesma. Dos escombros, felizmente para o povo americano, (re)nasceu uma grande nação.

Na segunda, venceu a voz dita conservadora do general Franco. Mas é possível dizer que a vitória de Franco evitou a expansão do totalitarismo comunista na Europa, pelo menos até 1945. A Espanha não se tornou o primeiro Vietnã.

James Salter é um artista do conto

Na semana passada, comentei rapidamente as belas memórias ou reminiscências do escritor americano James Salter, “Dias Intensos” (Editora Imago, tradução de A. B. Pinheiro de Lemos, 354 páginas). Poucos escritores escreveram tão bem sobre a guerra (no caso, a coreana), o trabalho dos pilotos (Salter foi piloto e derrubou aviões soviéticos) e, sim, Paris. Suas páginas sobre Thomas Wolfe, Saint-Exupéry, Irwin Shaw e Faulkner são de uma beleza rara, tanto pela delicadeza quanto pela perspicácia. Trata-se de um Sebald com sentimento? Talvez.

Não li o romance “Um Esporte e um Passatempo” (Editora Imago). Estou lendo “Última Noite e Outros Contos” (Companhia das Letras, tradução de Samuel Titan Jr., 174 páginas). Trata-se de obra-prima, que deve passar batida, pois Salter não está na moda.

O conto “Última Noite” conta a história do tradutor Walter Such, de sua mulher Marit e da amiga Susanna.

O narrador não menciona a palavra câncer, mas a doença que “começara no útero e passara de lá para os pulmões” só pode ser câncer. Marit decide morrer.

Antes, sai para jantar num restaurante, com o marido e Susanna. Bebem um vinho caro e voltam para casa. Marit deita-se. O marido busca a seringa e, depois de relutar, aplica alguma coisa na veia de sua mulher.

Walter volta para a sala, Susanna havia saído, por não suportar a eutanásia, palavra não mencionada. Walter e Susanna se encontram e fazem amor, com certa volúpia, ferocidade e insensibilidade. Eram amantes. Salter diz quase nada, deixa os atos “falarem” por si e convida o leitor para ajudá-lo a confeccionar a história.

Mais tarde, suspense: Marit desce as escadas e diz, para Walter: “Você deve ter feito alguma coisa errada”. O quê, como o narrador nem os personagens dizem, não ficamos sabendo. “Os livros grossos sobre surrealismo”, olhados mas não lidos por Marit, talvez tenham algo a dizer. Só não posso contar o que aconteceu com Walter e Susanna. Para não desmanchar “prazeres” (as aspas sugerem alguma coisa).

Os contos são muito bons, a edição e a tradução são impecáveis, mas a Companhia das Letras informa errado o ano de nascimento de Salter. Ele nasceu em 1925, não em 1926.

As respostas da ficção à tragédia do 11 de Setembro de 2001

Leitores me perguntam sobre o melhor texto literário sobre o 11 de Setembro de 2001. O melhor, não sei, até porque não li todos. Posso citar alguns romances muito bons que discutem, direta ou indiretamente, o atentado contra os Estados Unidos, a maior potência mundial que se mostrou tão vulnerável quanto qualquer outro país.

O decano John Updike lançou “Terrorista” (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 330 páginas). Don DeLillo publicou “Homem em Queda” (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 256 páginas). O inglês Ian McEwan pôs a mão na massa com “Sábado” (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 344 páginas). Todos são excelentes, mas, cá entre nós, o melhor mesmo foi escrito por um garoto, Jonathan Safran Foer, de apenas 31 anos. Seu romance “Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” (Editora Rocco, tradução de Daniel Galera, 360 páginas) é inventivo, muito bem escrito (a tradução é de primeira) e não é chato. Foer é, acima de tudo, um narrador eficiente, como soe ser todo bom escritor.

Os ficcionistas deram respostas rápidas e adequadas ao atentado contra, mais do que às torres gêmeas, os Estados Unidos e milhares de pessoas inocentes. Talvez tenham se saído melhor do que historiadores e jornalistas. Digo “talvez” porque há bons livros factuais e analíticos a respeito do assunto, a maioria escrita por jornalistas. Um deles é “O Vulto das Torres — A Al-Qaeda e o Caminho Até o 11/9” (Companhia das Letras, 504 páginas), de Lawrence Wright.


leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 02:21 PM

Perder eleição não é o fim do mundo

publicado em


Recomendo dois livros para os políticos que perderam eleições este ano (os que ganharam também deveriam lê-los). "Peixe na Água" (Companhia das Letras, 538 páginas), as memórias do escritor Mario Vargas Llosa. Ele apresenta os motivos de sua derrota para Alberto Fujimori na disputa pela Presidência do Peru. Não deixa de ser surpreendente que um intelectual de seu gabarito, capaz de entender o funcionamento de uma sociedade com precisão, tenha perdido para Fujimori. Por quê? Porque, na verdade, nunca entendeu inteiramente o Peru, seu país natal, e Fujimori, um populista de matiz autoritário, entendeu muito bem. Ao final da leitura, porque o livro é uma delícia — paralelamente, o escritor conta a história de sua vida, com destaque para a infância —, concluímos que devemos agradecer, penhoradamente, aos peruanos porque devolveu Vargas Llosa à literatura. A política costuma fazer um mal enorme aos escritores, mesmo aos bons. Lição final que extraí do livro (não é a lição exata de Llosa): perder uma eleição não é o fim do mundo. Depois de alguns dias, as coisas serenam e os discursos radicais dos vencedores e perdedores são esquecidos.

Não há falsidade e mentiras apenas no mundo político. Sem um pouco de hipocrisia não existiria vida social. Num mundo exclusivo da verdade, em que todos não mentissem um pouquinho, as guerras ocorreriam com mais freqüência e os casamentos seriam desfeitos mais rapidamente. De qualquer modo, recomendo o livro "A Saga do Mentiroso — Uma História da Falsidade" (Editora Graphia, 324 páginas, 48 reais), do jornalista Jeremy Campbell. Políticos e não-políticos certamente ganharão muito se vasculharem suas páginas. Um poeta brasileiro, não sei se Mario Quintana, escreveu que a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer. Sim, porque tem mentiras enriquecedoras. O duro mesmo é quando a pessoa, a mentirosa, começa a acreditar nas próprias mentiras. Aí, leitor, vira doença mesmo. 

Nobel não piora nem melhora Le Clézio

Le Clézio mereceu mesmo o Nobel de Literatura? Talvez outros, como Philip Roth, John Updike, Mario Vargas Llosa, Lobo Antunes e Cormac McCarthy (nenhum livro de "Lê Clêziô", dos publicados em português, tem a força literária de "Meridiano Sangrento", de McCarthy. O romance é poderosamente americano e shakesperiano, noutras palavras, universalíssimo), merecessem mais. Mas Jean-Marie Le Clézio não é pior do que muitos outros ganhadores do Nobel.

Acatando sugestão de Marcelo Franco, li o texto "Ruptura Premiada", de João Paulo, do jornal "Estado de Minas" (o texto foi transcrito pelo "Correio Braziliense" na edição de sexta-feira, 10).

Escreve João Paulo: "O estilo sempre clássico e límpido é enganadoramente simples, com preocupações filosóficas emergindo de narrativas de histórias aparentemente singelas". A ressalva fica por conta do "enganadoramente simples". Deixo ao leitor as conclusões e as batatas.

 Três livros do escritor francês

Três livros de Le Clézio publicados no Brasil: "O Africano" (Cosacnaify, tradução de Leonardo Fróes, 42 reais), "Peixe Dourado" (Companhia das Letras, tradução de Maria Helena Rodrigues de Souza, 216 páginas, R$ 44,50) e "Quarentena" (Companhia das Letras, tradução de Maria Lucia Machado, 363 páginas, R$ 63,50).

 Trecho do romance Quarentena

Transcrevo trecho do romance "Quarentena", de Le Clézio: "Penso na maneira como meu avô viu Rimbaud, a primeira vez. Era o começo do ano de 1872, em janeiro ou fevereiro. Posso determinar a data por causa da morte de Amalia e da visita do major William à loja de quinquilharias religiosas e pompas fúnebres no térreo de seu prédio da rua Saint-Sulpice. Depois da ruptura com o Patriarca e de sua expulsão da propriedade Anna, de sua partida de Maurício, no fim do ano de 71, Antoine e Amalia haviam-se instalado em Paris, no bairro de Montparnasse. Naquele inverso fazia um frio mortal em Paris, o Sena carregava pedaços de gelo. Amalia estava mal recuperada da febre que se manifestara depois do nascimento de Léon. Talvez a disputa com Alexandre a houvesse tornado ainda mais frágil. Ela morreu de uma pneumonia nos últimos dias de janeiro. Léon não tinha um ano. Meu avô Jacques tinha apenas nove anos. Foi ao acompanhar seu tio William que ele teve de entrar no café, na esquina da rua Madame e da rua Saint-Sulpice. O tio achou que não era apropriado à idade de Jacques entrar na loja para escolher uma coroa. Deixou-o no bistrô, sentado diante de uma caneca de vinho quente".

O desconhecido Le Clézio

Prova cabal de que Le Clézio é desconhecido no Brasil: os jornalistas brasileiros não deixaram de incluir o Gustave em seu nome. Noutras publicações, os críticos escrevem apenas Le Clézio, como o autor é conhecido, ou, no máximo, Jean-Marie Le Cézio.


leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 02:20 PM

Stalinista húngaro recrutou assassino de Trotski

publicado em


A maioria dos livros de história relata que o espanhol Ramón del Rio Mercader foi recrutado pelo general russo Leonid Eitingon, amante de Caridad Mercader, mãe do ex-tenente dos republicanos na Guerra Civil Espanhola, para matar Liev Trotski, em agosto de 1940, no México. Sabe-se que o articulador do assassinato foi Lavrenti Béria, o chefão da polícia secreta. O historiador Dmitri Volkogonov relata, na biografia
“Stálin — Triunfo e Tragédia (1939-1953)”, que, Trotski morto, Béria foi promovido a comissário geral de Segurança do Estado. Em “Stálin — O Czar Vermelho”, Simon Sebag Montefiore diz que Mercader era “agente de Béria”. Montefiore acrescenta: “O arquiinimigo [Trotski] pode ter minado a política externa de Stálin, mas sua morte realmente encerra o capítulo do Grande Terror. Stálin estava vingado”.

No esplêndido
“Doze Dias: A Revolução de 1956 — O Levante Húngaro Contra os Soviéticos” (Objetiva, tradução de Saulo Adriano, 423 páginas), o jornalista Victor Sebestyen acrescenta informações à extensa bibliografia sobre a morte de Trotski. O czar econômico da Hungria stalinista, Ernö Gerö, participou da conspiração para matar o intelectual russo. Note-se que dois grandes historiadores e biógrafos de Stálin, Dmitri Volkogonov e Simon Montefiore, nada dizem a respeito do envolvimento de Gerö.

Relata Sebestyen: “Ele [Ernö Gerö] ingressou na KGB e, durante os anos 1930, foi agente da Internacional Comunista. Era um segredo revelado nos círculos de exilados em Moscou que fora Gerö quem fizera o papel de sargento recrutador de Ramón Mercader, o assassino de Trotski, para a causa stalinista. Gerö conquistou a reputação de impiedoso durante a Guerra Civil Espanhola. Ele era o chefe da KGB na Catalunha, sob o codinome Pedro, com a tarefa de reforçar a ortodoxia comunista entre os republicanos e de liquidar os rivais de esquerda e os anarquistas. Ele desempenhou seu trabalho meticulosamente e se tornou conhecido como ‘o açougueiro de Barcelona’”. Numa nota de rodapé, Sebestyen acrescenta: “Não existem provas concretas, mas é quase certo que ele tenha encorajado e auxiliado no assassinato de Andrés Nin, presidente da República Catalã, em 1937”. (Sebestyen prefere usar KGB, e explica que é para facilitar o entendimento, mas, na época, a polícia secreta soviética era chamada de NKVD.) Gerö é citado no livro
“A Batalha Pela Espanha: A Guerra Civil Espanhola — 1936-1939” (Editora Record, 714 páginas), de Antony Beevor. “Nin foi morto por agentes de [Aleksander] Orlov” (chefão da NKVD na Espanha “russificada”). A informação de Sebestyen prova (melhor, confirma) que a conspiração stalinista para matar Trotski foi multinacional, embora, é claro, sob comando da União Soviética.

Um dos capítulos mais interessantes do livro de Sebestyen é o dezesseis. Revela o momento exato em que o presidente americano, Dwight D. Eisenhower decidiu abandonar os dissidentes do Leste Europeu ao deus-dará. Eisenhower gostava de citar um documento do Comitê de Segurança Nacional: “‘A separação de qualquer um dos grandes satélites europeus [como a Hungria] do bloco soviético não parece viável no momento, exceto se feita com a aquiescência soviética ou pela guerra’. (...) O vice-presidente Richard Nixon foi ainda mais incisivo, ao sugerir que uma insurreição malsucedida em algum ponto do bloco oriental, sufocada pelos russos, ajudaria a América em termos de relações públicas: ‘Não seria de todo um mal, do ponto de vista dos interesses norte-americanos, se a mão de ferro soviética se voltasse com força novamente contra o próprio bloco soviético’”.

Ressalve-se que o governo americano recebia informações imprecisas e mesmo incorretas sobre a situação real da resistência húngara. “As informações dos serviços de inteligência norte-americanos e ocidentais sobre a Hungria eram de uma pobreza lamentável”, conta Sebestyen. “Nem os espiões nem os diplomatas norte-americanos enviaram a Washington relatos precisos da pressão que se avolumava na Hungria. Quando os jornalistas que estavam no país previram uma mudança iminente, as agências de inteligência os tacharam de sensacionalistas. (...) Os ingleses não estavam muito mais bem informados”.

Um apoio decisivo dos Estados Unidos ao governo de Imge Nagy teria fortalecido o socialismo com face humana e evitado a carnificina comandada pelos soviéticos? Possivelmente, mesmo sob Nikita Kruschev, não. Uma posição mais firme poderia ter evitado, pelo menos, medidas tão duras. Por fim, socialismo de face humana é uma fantasia intelectual. Se tem face humana, deixou de ser socialismo e caminhou para a democracia, que não é possível no regime socialista.


leia mais...
POR EM 05/12/2008 ÀS 08:45 PM

Filha de Guimarães Rosa tenta censurar livro

publicado em

"A única biógrafa do papai sou eu. Ninguém pode escrever uma biografia sem o consentimento das filhas, herdeiras do nome e da imagem de Guimarães Rosa” 

A revista Veja publicou, na semana passada, reportagem sobre a decisão de Vilma Guimarães Rosa, filha mais velha do escritor João Guimarães Rosa, de pedir a suspensão da circulação do livro Sinfonia Minas Gerais: A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa (tomo I), lançado recentemente pelo escritor, crítico e advogado goiano Alaor Barbosa. “A única biógrafa do papai sou eu. Ninguém pode escrever uma biografia sem o consentimento das filhas, herdeiras do nome e da imagem de Guimarães Rosa”, atacou Vilma Guimarães Rosa.

O poeta, tradutor, crítico e juiz de Direito Regis Bonvicino diz que se trata, sim, de censura. “Considero o ato da filha de Guimarães Rosa como censura, porque um escritor — como o autor mineiro — é figura pública e não pertence à família, e sim à cultura.”

Ouvido pelo Opção Cultural, Alaor Barbosa, que recentemente teve o livro elogiado em O Globo e no Jornal do Brasil (pelo crítico Wilson Martins), afirmou: “Meu livro contém numerosas citações de livros de diversos autores: Vicente Guimarães, Afonso Arinos de Melo Franco, Pedro Nava, Josué Montello, Mário Calábria, William Agel de Mello, Heloísa Vilhena de Araújo, Vilma Guimarães Rosa e alguns outros. As citações nele aparecem dentro dos limites permitidos pela lei, quanto à extensão de cada uma, e em número também legal, quanto à quantidade total. Meu livro não se apossa do texto de ninguém. As citações são feitas de acordo com as normas da ABNT, de modo que em cada uma se salientam a autoria e a fonte. No dia 16 de outubro de 2003, atenção para o ano, escrevi longa carta a Vilma Guimarães Rosa comunicando-lhe que estava escrevendo o livro, como ampliação do meu A Epopéia Brasileira ou: Para ler Guimarães Rosa, editado em 1981, em Goiânia; e lhe pedindo alguns esclarecimentos. Portanto, ela (e por meio dela a família) foi comunicada previamente sobre o meu livro”.
Perguntamos a advogados, escritores e jornalistas qual a opinião deles sobre o tema: “Direito ou Censura?” A filha pode impedir que se estude a vida do pai só por ser filha? Ela tem o direito de censurar uma obra? O estudo da vida e da obra de alguns autores não resultará prejudicado se isto continuar na cultura brasileira? A maioria considera que Vilma Guimarães Rosa, ao se apresentar como dona única de um patrimônio cultural da humanidade, Guimarães Rosa e sua obra, contribui para retardar a compreensão do escritor que deu ao Brasil obras-primas como Grande Sertão: Veredas e Sagarana. Guimarães Rosa, ao contrário do que quer entender sua filha, pertence a Minas Gerais, ao Brasil e ao mundo — não pertence exclusivamente à sua família. Embora não gostasse da pecha, Rosa é uma espécie de James Joyce brasileiro, assim como William Faulkner é uma espécie de Joyce americano.

A biografia escrita por Alaor Barbosa não tem uma linha que desabone Guimarães Rosa. Pelo contrário, é uma louvação de sua obra e, também, de sua vida. Alaor Barbosa é apaixonado pela obra de Rosa e, como tal, nada escreveria para prejudicar sua imagem. Na biografia, falta exatamente um caráter mais crítico e, digamos, desmitificador.


Alaor Barbosa — autor de Sinfonia Minas Gerais: A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa


OPINIÃO


Escritores, jornalistas e advogados comentam

 

Edival Lourenço — Escritor e advogado 
 

A revista Veja desta semana (edição 2048) veicula matéria sobre o caso da filha mais velha de Guimarães Rosa, que pretende retirar de circulação o livro Sinfonia Minas Gerias, do escritor goiano, Alaor Barbosa. Trata-se de uma biografia do autor de Grande Sertão: Veredas.

A matéria me causou certo espanto (ainda não perdi a capacidade de me espantar). A situação é semelhante àquela de Paulo César de Araújo que escreveu uma biografia de Roberto Carlos e teve seu livro proibido, por iniciativa do próprio biografado. Mais uma vez fica evidente o quanto essa questão dos direitos morais ou da personalidade precisa ser discutida, aprofundada e posta em termos legais numa condição mais adequada aos dias de hoje. Sobretudo num tempo de culto às celebridades. 

Numa atitude de suposta arrogância, a filha de Rosa teria dito: A única biógrafa do papai sou eu. Quando se sabe que Guimarães Rosa não se pertence, nem pertence à família. É um homem do mundo, do panteão da Literatura universal. 

No entanto, pelo artigo 20 do Código Civil de 2002, que disciplina a matéria especificamente, fica de fato inviabilizada a publicação de qualquer biografia não autorizada, de quem quer que for. Seja da Mãe Dulce de Inhansã, seja de Fernandinho Beira-Mar. Mesmo que, a Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 5º, inciso IX, assegure que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Aí vem a pergunta: Como um código de 2002 disciplina, se não contrário, pelo menos restritivamente, uma matéria colocada com ampla liberdade pela Constituição de 1988? Ulisses Guimarães, pai da atual constituição, que sabia das coisas, dizia que era preciso várias gerações em regime de democracia plena para remover todo o entulho autoritário. 

O fato se deu porque o Código Civil de 2002 foi concebido por uma comissão encabaçada pelo jurista Miguel Reale, entre 1969 e 1973. Estava em pleno vigor o famigerado AI-5, de 1968, o mais cruel dos atos de exceção do Golpe Militar de 64. Com certeza, ao redigir o artigo 20, que não há correspondente no código anterior (o de 1916), a douta comissão se deixou contaminar pelo espírito autoritário reinante. Em 2002, já no governo de FHC, o projeto virou lei e nesse tempo em que o projeto se arrastou pelo Congresso Nacional, os nobres congressistas não tiveram tempo de fazer o devido expurgo (foram só 29 anos!) dos entulhos autoritários. Aí, como veio, passou. 

Imagine só. A um país de sambistas cordiais, como na velha formulação de Sérgio Buarque de Holanda, até que cairia bem mais uma antonomásia: o país das biografias autorizadas. Um país sem biografias críticas. Só calhamaços laudatórios. O compadrismo elevado a status legal. Sim, por mais absurdo que pareça, toda biografia só pode existir se for autorizada por um descendente (ou quem de direito). 

Pela legislação atual, os direitos autorais prescrevem 70 após a morte do autor. Há, no entanto, quem entenda que os direitos morais são imprescritíveis. Assim, por um fenômeno teratológico, de aleijão jurídico, se alguém quiser escrever a biografia do Anhangüera, por exemplo, terá que achar um descendente seu, ali pela 9ª ou 10ª geração, para autorizar. E ainda com direito a interferir no conteúdo.

Penso que um bom ponto de partida para discussão é o seguinte: quando alguém se dispõe a fazer alguma coisa que o faça deixar de ser pessoa privada para ser pessoa pública, ele abriu mão, ainda que parcialmente, de sua privacidade. É uma troca, um negócio. Neste caso, o interesse da sociedade sobre a sua história deverá, com alguns temperamentos, sobrepor aos interesses comezinhos da família ou do próprio biografado, como ocorre hoje na Europa e Estados Unidos. Pois, já com tantos cacoetes sociais que pesam sobre nossa imagem, corremos o risco de nos tornamos um país, não de fatos e história, mas de boatos e ficção. 

Ronaldo Cagiano — Escritor 

O Alaor Barbosa está sendo bombardeado injustamente pela louca da Vilma, filha do Guimarães Rosa. Acho que ele merece um desagravo dos colegas de imprensa e de literatura. O Alaor fez um trabalho sério, dedicado, fruto de pesquisa ao longo dos anos e que enaltece a obra do autor de Grande Serão: Veredas. Agora, tentar inviabilizar a circulação do livro é ofender a liberdade de expressão e criação, algo deplorável numa democracia, principalmente na nossa, que foi reconquistada a duras penas.

Enio Vieira — Jornalista 

Tenho uma visão que não é exatamente a de muitos em relação ao tema. Há uma defesa vulgar de liberdade de expressão ampla, geral e irrestrita que circula, sobretudo, nos meios de comunicação. Virou dogma religioso. Tenho pena de pessoas que tenham seu perfil traçado por certos jornalistas que conheço. 

O caso de Guimarães Rosa tem um histórico. A família é muito ciosa quanto a tudo que se refere à obra dele. Nunca liberou, por exemplo, a publicação de contos para coletâneas. Também seguraram por muito tempo as cartas que JGR trocou com seus tradutores. Difícil saber se a família tem medo de que se publique algo desabonador ou simplesmente quer manter o controle total sobre as publicações e seus lucros de venda. Existe uma curiosa divisão do espólio das obras de JGR. Um livro pertence a uma filha, outra a um determinado neto. 

Quem deve dizer se há direito ou não é a Justiça. É onde essa história pode se resolver. Se é um biografia, o autor deve ter conversado com a família de JGR, até para saber se tinham material a ser divulgado. Não foi o primeiro caso de filha querendo barrar biografia no Brasil. Teve a história das filhas do jogador de futebol Garrincha que entraram na Justiça contra o biógrafo Ruy Castro e a editora, a Companhia das Letras. Ficou a versão de que elas queriam também ter uma participação nas vendas. Mas acho que elas podem ter se sentido mal com o tratamento dado por Castro à família de Garrincha. O autor colocou a segunda mulher de Garrincha, Elza Soares (uma das principais fontes do livro), nas alturas. E pintou um quadro negativo da família. 

Não sou bem um leitor de biografias ou de pequenos estudos biográficos. O que não me agrada é a tentativa de estabelecer uma relação automática entre vida e obra. Antonio Candido diz que Guimarães Rosa surpreendia por ter uma obra altamante sofisticada e ser um homem extremamente convencional em sua visão de mundo nas conversas do dia-a-dia. De acordo com a versão de Candido, JGR tem valor por sua obra ficcional e baixíssimo interesse por sua vida. É preciso ter uma noção exata do que pode ser relevante contar numa biografia, se o objeto de estudo é realmente válido. Em outros casos, trabalhos como a biografia de Daniel Piza sobre Machado de Assis têm sido vistos como um retrocesso nos estudos do autor de Memórias Póstumas da Brás Cubas. Acho ainda questionável o uso que um autor como Paul Johnson faz de dados biográficos para desqualificar as idéias de certos intelectuais. 

O bom uso da vida dos “outros” tem dois casos exemplares no Brasil. Em Cidade de Deus, o escritor Paulo Lins fez uma completa mistura de nomes e biografias para criar seus personagens. Quando saiu o filme baseado no livro em 2000, as famílias que tiveram o nome de seus parentes usados na obra reclamaram e ameaçaram entrar na Justiça. Lins decidiu mudar vários nomes para a segunda edição. É uma decisão bastante ética e saudável para tratar a vida de outras pessoas. Anos atrás, o professor Ítalo Moriconi organizou as cartas de Caio Fernando Abreu e consultou as pessoas citadas. Muitas pediram para que seus nomes fossem retirados, e assim fez o organizador. São maneiras de conservar a liberdade de expressão, sem atentar contra os direitos dos “outros”. 

Jonas Lopes — Jornalista e crítico literário 

Depende bastante de cada caso. Algumas famílias reclamam muito de biografias cuja razão de existir é a fofoca, o escândalo gratuito, muitas vezes sem ligação alguma com a obra do biografado. Em casos assim é preciso intervir mesmo. Mas no caso do Guimarães há um exagero. A matéria da Veja surgiu porque a Bravo! publicou diversos trechos dos diários de Rosa, dos tempos em que ele era embaixador. São trechos reveladores, interessantes, que acrescentam material à obra do autor. A imagem dele só tende a crescer com essa publicação - fora que é um ótimo marketing artístico e rende material para futuros pesquisadores. Imagine como o mundo literário seria mais pobre sem a publicação dos diários de Kafka ou das cartas de Flaubert. 

A família do JGR historicamente tem problemas com liberação de direitos. Naquela coletânea do Ítalo Moriconi, Os Cem Maiores Contos Brasileiros do Século, não pôde entrar nada do Guimarães. Por quê? O livro era sério, bem feito, vendeu bastante. A Vilma Guimarães gosta de aparecer com essas polêmicas. A declaração dela de que é a única biógrafa do pai beira o patético.

Reinaldo Barreto — Advogado 

Premissa um: no Brasil, qualquer tipo de iniciativa cultural merece louvor e, se possível, respaldo financeiro do poder público. Premissa dois: Guimarães Rosa é um dos maiores escritores nascidos no Brasil e, inobstante, é pouco conhecido e lido. Premissa três: a censura, qualquer que seja, é abominável. Conclusão: o lançamento da biografia do autor de Grandes Sertões: Veredas, de autoria de Alaor Barbosa deve ser comemorado e façamos fervorosos votos de que venda muitos exemplares.

Parafraseando nosso guia, nunca nesse país se constatou tão claramente a necessidade de investimentos e melhorias na educação e na cultura. A nossa indigência em ensino público de qualidade, onde não há programas de incentivo à leitura e à pesquisa, e onde o número ínfimo de bibliotecas acessíveis gratuitamente é apenas um dos reflexos mais evidentes, não merece dos nossos governantes a atenção que, inexoravelmente, vai nos custar muito caro no futuro.

Juridicamente, já tivemos várias discussões similares, principalmente no que tange a familiares tentando impedir publicações de biografias. O mais curioso é que, na grande maioria dos casos, não há preocupação com eventual dano à imagem do biografado ou mesmo alegação de erros históricos. O que os familiares geralmente buscam é o direito de ter exclusividade sobre as publicações, melhor dizendo, algum tipo de proveito econômico. 

Na minha opinião, se houver algum dano sério à memória do biografado ou a terceiros, deve-se recorrer ao Judiciário em busca das reparações previstas em lei. No mais, vivas à literatura e ao conhecimento. 

Flávio Paranhos — Escritor 

Lembro-me de, há não muito tempo, numa livraria de um shopping de Ribeirão Preto, ver o livro sobre uma agência de publicidade, em grande quantidade e bem exposto na vitrine. “Mas esse livro não foi proibido? A Justiça não determinou sua apreensão a pedido de Ronaldo Caiado?”, perguntei ao vendedor, que respondeu, com um sorriso maroto: “Pois é. Agora é que ta vendendo feito água”. Daí pensei comigo, então não só está vendendo feito água, como aposto que todo mundo vai direto ao ponto que incomodou o deputado e, saciada a curiosidade mórbida, abandona o livro. É mais ou menos isso o que imagino que acontecerá com os livros que a família de Guimarães Rosa deseja censurar, incluindo o de Alaor Barbosa. Um efeito contrário ao desejado (pela família). Apesar disso, entretanto, devo dizer que concordo com censuras ponderadas. Sempre achei meio estúpido perder tempo com biografias de escritores, particularmente se estas prometem “algo picante” (não estou dizendo que seja esse o caso de Alaor Barbosa). Até hoje, a única biografia de escritor que considerei digna de me fazer perder o tempo que deveria estar dedicando para ler o próprio escritor, foi a de Dostoiévski, por Joseph Frank, e mesmo assim por interesses de pesquisa.


leia mais...
POR EM 25/11/2008 ÀS 12:24 PM

O ditador solitário

publicado em

Volkogonov diz que "Stálin criara uma unidade especial para lidar com o 'problema' [matar Trotski] e, por diversas vezes, mostrara a Beria sua insatisfação com a indecisão de seus agentes e sua falta de desenvoltura"

A Editora Record lança o segundo volume da excelente biografia “Stálin - Triunfo e Tragédia (1939-1953)”, do historiador e coronel-general do exército soviético Dmitri Volkogonov (falecido em 1995). O primeiro volume, que chega a 1939, é mais amplo e articulado. O segundo, sobretudo na parte final, em que narra o assassinato de Trotski (que ganha seis páginas) e a morte de Stálin, há uma certa superficialidade, talvez exigida pelo formato do livro (a vida íntima de Stálin também não está bem contada). A morte de Trotski está mais bem contada noutros livros, como os de Isaac Deutscher e numa biografia de Ramón Mercader ( sobre a qual fiz uma longa resenha para o Jornal Opção). Deutscher, biógrafo de Trotski (em três volumes) e Stálin (“Stálin - A História de uma Tirania”, em dois volumes), é mais ousado do que Volkogonov. Além de mais perspicaz, porque escreveu antes da abertura dos arquivos soviéticos e, mesmo assim, publicou livros detalhados, mantendo certa objetividade de julgamento, se isto é possível quando se trata de um ditador sanguinário como o homem de aço. Deutscher sempre enfrentou a pecha de "trotskista".

Intendente de Hitler - A história da morte de Trotski está relatada no capítulo “O Assassínio do Exilado” (da página 395 à página 400). Volkogonov diz que "Stálin criara uma unidade especial para lidar com o 'problema' [matar Trotski] e, por diversas vezes, mostrara a Beria sua insatisfação com a indecisão de seus agentes e sua falta de desenvoltura". Mas em 1940, no México, o agente Ramón Mercader Del Rio, com o nome falso de Jacques Mornard, matou o principal adversário do ditador. "Ainda assim, Stálin não sentiu qualquer alegria especial", diz, de modo estranho, Volkogonov. Ora, o velho Koba deve ter sentido uma alegria especial; e, se não sentiu, o historiador não apresenta evidências, conversas com Beria, por exemplo. (O ditador detestava ler artigos de seu inimigo com títulos como "Stálin, o intendente de Hitler" e "Os gêmeos celestiais: Hitler e Stálin".) O historiador acrescenta: "O fantasma da guerra era bem mais sombrio e ameaçador que o 'cidadão sem visto'. (...) [Stálin] Livrara-se de todos os velhos inimigos. Do núcleo central [dos bolcheviques], sobrara apenas ele".

Trótski

Volkogonov conta uma parte da história que é pouco comentada. Depois do assassinato de Trostki, "Beria, com conhecimento de Stálin, determinou a 'liquidação de todos os trotskistas nos campos de prisioneiros'". A morte de Trotski, político importante, mas sem poder, a não ser o da palavra, que torna qualquer homem inteligente perigoso para o poder, de certo modo encobriu, do ponto de vista da repercussão, a morte de milhares de pessoas que, na maioria das vezes, nem eram trotskistas.

A notícia de que Trotski preparava um livro com o título de Stálin tornou Stálin ainda mais irado e, por isso, "pressionou Beria para que executasse sua missão". (Volkogonov diz que o livro Stálin é fraco porque Trotski escreveu-o com ódio. "Napoleão certa vez observou que tudo tem um limite, até o ódio.")

Crítico sofisticado, Trotski adere às palavras de ordem, típicas de militantes, como "Abaixo o Caim Stálin e sua camarilha!". Segundo Volkogonov, depois de ler o panfleto da Quarta Internacional, "Stálin convocou Beria e alertou-o de que estava cansado de tudo aquilo e que estava começando a duvidar se a NKVD queria mesmo cumprir a missão. Beria fez várias reuniões e redobrou o esforço para liquidar Trotski". O pintor mexicano David Alfaro Siqueiros, comunista de carteirinha, comandou o primeiro ataque a Trotski, em 24 de maio de 1940. A casa foi metralhada, mas Trotski e Natália, sua mulher, escaparam.

Como o grupo de Siqueiros não deu conta do recado, a NKVD contratou Ramón Mercader (codinomes Frank Jacson e Jacques Mornard). Em 20 de agosto, depois de ter conquistado a confiança de Trotski, Mercader entrou em seu estúdio, "tirou uma picareta de gelo de alpinista do bolso" de uma capa de chuva "e, com os olhos fechados, atingiu com toda a força a cabeça de Trotsky. A vítima, como 'Jacson' relatou no tribunal durante seu julgamento, 'emitiu um terrível e lancinante grito que escutarei por toda a minha vida'. A agonia de morte de Trotski durou quase 24 horas".

Lavrentiy Beria

Mercader tinha 27 anos, era ex-tenente do exército republicano espanhol e agia sob a coordenação de Eitingon, da NKVD. Mais tarde, Eitingon foi devorado pela máquina stalinista. "Depois da morte de Trotski, Beria foi promovido, tornando-se comissário geral de Segurança do Estado."

Velhice e morte - Como todo ditador e políticos que conspiram em tempo integral, Stálin não confiava em ninguém. Em 1949, pouco antes de completar 70 anos, o secretário-geral sentiu uma tontura - "círculos cor de laranja dançaram diante de seus olhos", diz Volkogonov (que não explica de onde tirou a informação) -, mas não permitiu que o assistente Poskrebyshev chamasse um médico. Não confiava em médicos, "e muito menos em Beria, que era o responsável pela 4ª Repartição Principal do Ministério da Saúde". O que fez? Tomou um chá. Ele evitava tomar remédios, provavelmente temia ser envenenado. E continuou com a pressão arterial alta. A filha do ditador, Svetlana, escreveu: "[Stálin] Negligenciara todas as relações humanas, era torturado pelo medo que, nos últimos anos de vida, se transformou em autêntica mania de perseguição, e, no final, seu ânimo forte o abandonou. Mas a mania não era imaginação doentia: ele sabia e tinha consciência de que era odiado, e também sabia por quê".

Como não sabia em quem confiar, pois via conspiração em todos os lugares, e seu "aliado" Beria alimentava o fantasma de que sempre havia uma contra-revolução em curso, o que nunca houve (exceto depois da Segunda Guerra, quando ocorreu uma certa resistência, que Volkogonov cita, mas resumidamente), Stálin aceitou, sem se mover, que aliados como Poskrebyshev e o tenente-general Nicolai Vlasiv fossem afastados de seu convívio por Beria.

Em 1953, com Beria começando a cair em desgraça, Stálin é encontrado por Starostin, que zelava pela segurança do ditador, "estatelado no chão, só de camiseta e calças de pijama. Só teve forças para levantar a mão para Starostin, não podia falar. Seus olhos expressavam horror e medo, em súplica".

Estranhamente, "Beria não foi encontrado em lugar algum e Malenkov mostrou-se incapaz de fazer qualquer coisa sem ele". Ao ser encontrado, "Beria não chamou os médicos; em vez disso, virou-se para os empregados: 'Por que o pânico? Não vêem que o camarada Stálin caiu num sono pesado? Saiam todos e deixem nosso líder em paz'". Uma das fontes de Volkogonov, Rybin, que estava na casa de Stálin, revelou "tudo indicava que não haveria qualquer iniciativa de buscar socorro médico para Stálin, que devia ter sofrido o derrame umas seis ou oito horas antes. Todos pareciam comportar-se da maneira conveniente para Beria".

Stálin recebeu assistência médica apenas no dia seguinte. Os médicos concluíram "que houvera 'séria interrupção da circulação nas artérias coronárias e alterações fundamentais na parede coronariana de trás', um 'colapso de vulto' e que 'a situação permanece crítica'. Não sabiam que as perturbações anteriores no funcionamento do cérebro tinham provocado cavidades, ou cistos, no tecido cerebral, especialmente nos lobos.

Tais alterações, indicam especialistas modernos, poderiam ser responsáveis por efeitos na esfera psicológica, causando impacto sobre o caráter despótico de Stálin e exacerbando suas tendências tirânicas. Contudo, minha impressão é que Stálin não era caso de interesse psiquiátrico. Sua 'doença' era social: foi cesarismo e tirania. Ademais, não apenas o líder ficara doente, mas toda a sociedade". Stálin morreu às 9h50 de 5 de março de 1953.

Livro "perdoa" Lênin - “Stálin - Triunfo e Tragédia” é um livro muito bom, de escopo maior, no sentido de discutir mais amplamente a vida do ditador soviético, de não se prender tão-somente aos primeiros anos da revolução, do que “História Concisa da Revolução Russa” (Editora Record, 372 páginas), do historiador norte-americano Richard Pipes (que se diz "anarquista conservador", como eu), e “A Tragédia de um Povo - A Revolução Russa” (1891-1924), do historiador inglês Orlando Figes. Mas estou seguro que as obras de Pipes e Figes, de maior ousadia crítica, são melhores do que o trabalho de fôlego de Volkogonov. Neste, a paixão por Lênin (é sempre preciso ter alguém para admirar) não permite que o estudioso russo conclua que o autoritarismo, e até o totalitarismo, começou com o primeiro comandante da Revolução Russa, não com Stálin, que, aí sim, aprofundou o Estado totalitário. Há claramente uma tentativa de preservar a imagem de Lênin, apenas pontualmente apontando seus equívocos (os comunistas "têm" ou tinham o dom da infalibilidade). Isto significa que o livro é ruim? Nada disso. O trabalho de Volkogonov, que teve acesso aos arquivos russos, até por ser militar, é, insisto, da melhor qualidade.


leia mais...
‹ Primeiro  < 20 21 22 23 24 25 26 27 > 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio