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POR EM 10/12/2008 ÀS 08:10 PM

A vingança de Roberto Marinho contra Adolpho Bloch

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Quebrado, Adolpho Bloch saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta"

A vingança é um prato que, às vezes, se come frio. No governo de Leonel Brizola, a Manchete conquistou o direito de transmitir ao vivo, com exclusividade, os desfiles das escolas de samba em 1984. "Roberto Marinho telefonou várias vezes para Adolpho [Bloch], em busca de uma solução compartilhada." Conluiado com Brizola, o empresário não atendeu el rei. A TV de Adolpho Bloch obteve altos índices de audiência e faturou muito dinheiro. "Era a primeira e inédita derrota de Marinho", diz o jornalista Arnaldo Bloch. Anos depois, quebrado, Adolpho saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta". A história está relatada no excelente "Os Irmãos Karamabloch — Ascensão e Queda de um Império Familiar" (Companhia das Letras, 339 páginas), do jornalista Arnaldo Bloch, colunista de "O Globo".

Quando Adolpho pôs a Manchete no ar, em 1983, conquistou até mesmo o apoio de Roberto Marinho, depois de garantir ao rei: "Que é isso, doutor Roberto. Novela não é coisa pra mim". Marinho enviou até Boni para ajudar a montar a tevê.

Quem espera uma biografia da família Bloch, detalhada e cronológica, deve desistir da leitura. Mas quem gosta de boas histórias sobre uma família de realizadores, complicados e ousados, está diante de um livro que relata bastidores deliciosos. Diferentemente da biografia de Roberto Marinho escrita pelo jornalista Pedro Bial, o texto de Bloch não preserva a família nem edulcora suas histórias. É um retrato simpático, mas nu e cru (conta até a história do avô, Arnaldo, que morreu transando com a amante). Bóris, Arnaldo e Adolpho brigavam muito, daí o jornalista Otto Lara Resende, empregado de Adolpho, ter chamado o três de "irmãos Karamabloch". "Os Bloch eram um só torvelinho: uma família solidamente unida pela desunião", disse Otto.

Adolpho ficou famoso por ter criado a revista "Manchete", que, durante certo momento, superou a famosa "O Cruzeiro", de Assis Chateaubriand, o Chatô. Depois, começou a fazer água e o empresário, eternamente endividado, tentou vendê-la para Roberto Marinho e Samuel Wainer. A saída? A contratação do jornalista Hélio Fernandes, irmão de Millôr Fernandes e pai do atual editor-chefe de "O Globo", Rodolfo Fernandes. Hélio impôs uma condição: "Quero total independência na linha editorial". "Mas não posso nem palpitar?", perguntou Adolpho. "Não. Só vai ver a revista depois de impressa." Deu certo: a revista voltou a crescer e a dar lucro. Tinha colaboradores como Fernando Sabino, Rubem Braga, Antônio Maria, Leon Eliachar, Ibrahim Sued e Carlinhos de Oliveira.

Apesar do sucesso, a empresa estava sempre descapitalizada, mas Adolpho era craque na arte de explorar os atentíssimos bancos. Relata Arnaldo: "E, na arte de tirar dinheiro de pedra, ele era o rei. Criou um notável sistema de compensação de cheques, geralmente envolvendo o Banco do Brasil e o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, na Praça da Bandeira. A coisa funcionava mais ou menos assim: depositava o cheque descoberto do Crédito Real no caixa do Banco do Brasil; fazia o saque, na confiança, com o gerente, que segurava o cheque até ele cobrir o saldo; cobria o saldo no Crédito Real com um outro cheque, este do Banco do Banco do Brasil, contando com a paciência do respectivo gerente; voltava ao Banco do Brasil e começava tudo de novo". Daria, como se vê, um puta financista.

Um dia, com as torneiras fechadas pelos banqueiros, Adolpho atacou o caixa do boteco do Joaquim. "Você está rico, Joaquim. Eu estou morrendo." "Morrendo de quê? O senhor está até corado!" "Me dá!" "Não dou, seu Adolpho!" "Você não era nada, eu te salvei, te dei freguesia!" "Com todo o respeito, isso não lhe dá o direito de dispor do meu caixa!" "Me dá!" O relato de Arnaldo: "Num acesso, passou pela portinhola sob o balcão, invadiu a tasca, tirou o Joaquim do caminho e avançou sobre o caixa". A caminho do banco, Adolpho gritou: "Joaquim, você é um santo. Deus vai te pagar. E ieu [como dizia eu] também".

Noutra ocasião, em Roma, Adolpho encontrou o poeta Paulo Mendes Campos e disse: "Amanhã vamos ver o homem." "Que homem?", perguntou Paulo. "Na janela. Ele aparece todo dia." "Adolpho, você é judeu e eu sou poeta!" "Judeu, poeta, todo mundo tem que ver o papa."

Foram ver o papa Pio XII. "Quando o velhinho deu as caras e o povo o saudou, Paulo, que cochilava em pé, acordou assustado. A seu lado, Adolpho, de braços esticados, brandia, na direção da janela papal, um grosso maço de papel." Paulo inquiriu: "Que merda é essa, Adolpho?" "Depois eu explico." Só foi explicar um mês depois. Adolpho convocou Paulo e passou a conversar, por telefone, com o banqueiro Magalhães Pinto, do Banco Nacional. "Magalhães? Espera um minutinho que o poeta Paulo Mendes Campos vai falar." E recomendou ao poeta: "Diz pra ele, Paulinho, quem abençoou as duplicatas". "Foi o papa", disse o escritor. "Meia hora depois o portador do banqueiro veio buscar os papéis que ele endossou, pessoalmente, um a um", conta Arnaldo.

O poeta Ferreira Gullar era revisor da "Manchete" e Otto Lara Resende convocou-o para militar na redação. "Não pode, iele [ele] é revisor", barrou Adolpho. Lara Resende insistiu: "Adolpho, este revisor é um dos maiores poetas brasileiros, em nascedouro!" O empresário contra-atacou: "Mas é revisor". Certo dia, com Rubem Braga de porre, Gullar escreveu sua crônica. "Otto, adorei a última crônica do Rubem", disse Adolpho. "Pois saiba, Adolpho, que esta crônica do Braga na verdade foi escrita pelo revisor Ferreira Gullar."

O jornalista e político Carlos Lacerda atacava Samuel Wainer e também o judeu Arnaldo Bloch. Mas as irmãs de Adolpho adoravam o udenista. "Eu não voto no senhor, mas elas sim", confidenciou Adolpho. Mina, uma das irmãs de Adolpho, "passava horas assistindo aos discursos na tevê. O sobrinho Leonardo implicava. Punha-se na frente da televisão, checava se havia alguém por perto e mostrava o peru". "Olha o Lacerdaaaa!".

Depois do golpe civil-militar de 1964, "numa recepção para militares cinco estrelas para a qual alguns homens de imprensa são convidados, Adolpho conversa com Manuel Francisco do Nascimento Britto, do ´Jornal do Brasil´. Diz-lhe: ´Ieles [eles] não vão sair cedo de Brasília.´´Como é que você pode ter certeza, Adolpho?´´Olha a alegria das mulheres dos generais. Você tem alguma dúvida?´"

Leal ao senador Juscelino Kubitschek, que teve seus direitos políticos cassados, Adolpho foi, segundo Arnaldo, a "voz fundamental a convencê-lo a partir para o auto-exílio". Chegou a arriscar "a pele para ajudá-lo". "´Tem judeu afrontando a Revolução´, mandaria dizer dona Yolanda Costa e Silva, instalada no camarote vizinho ao de Adolpho, no Carnaval do Municipal, em 1965, quando o público cantou em peso o ´Peixe Vivo´e o russo acompanhou. O tumulto foi tal que, na saída, a primeira-dama levou até mão na bunda da irreverência popular. Leal ao cliente e contumaz descontador de duplicatas, o golpista Magalhães Pinto procuraria Adolpho para avisar que estavam querendo prendê-lo. Um militar da altíssima, cruzando no calçadão da Atlântica com um sobrinho do editor, exaltaria a coragem do homem: ´Você não é sobrinho do Bloch? Pois vou dizer: ele tem colhão´". Naturalmente, apesar da proteção a JK, Adolpho não fez oposição à ditadura. Pelo contrário, pragmático, integrou-se à tese do "Brasil potência".

Em 1976, JK disse ao amigo: "Quer saber, Adolpho? Bateu saudade da Maria Lúcia [Pedrosa, amante do mineirinho]. Vou de carro para o Rio". "Não faz isso, presidente. Vai de avião", sugeriu o dono da "Manchete". Morto o presidente bossa nova, Carlos Lacerda visita Adolpho e, aos soluços, o abraça. "´Ele era realmente um grande estadista´, lamentou, em lágrimas de crocodilo", escreve Arnaldo.

A hora da novela — Chatô e Roberto Marinho foram decisivos para a consolidação da televisão brasileira. Mas Adolpho também deu sua contribuição. A Manchete, pelo menos no início, talvez tenha sido a primeira televisão intelectualizada do país. O "Jornal da Manchete" teria chegado a influenciar até mesmo o jornalismo da Globo. Era mais penetrante. Mas Adolpho rompeu o trato com o doutor Roberto: "Agora ieu [eu] quero novela".

Não há dúvida de que a Globo é responsável pelas melhores novelas do país. Mas a Manchete foi a tevê que mais chegou perto do padrão globo de qualidade, eventualmente, superando-o. Como Adolpho queria novela, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony assumiu o comando do núcleo de teledramaturgia. A minissérie "Marquesa", sobre a marquesa de Santos, estrelada pela bela Maitê Proença e por Gracindo Jr., alcançou sete pontos de audiência.

A primeira novela foi "Dona Beija", com texto de Walter Aguiar Filho e direção de Herval Rossano. Com Maitê e Gracindo, a novela fez sucesso. "Chegou a bater, numa noite boa, o especial de Chico e Caetano, na Globo. O prestígio crescia, assim como as dívidas. No governo Sarney, chegou a 30 milhões de dólares. Desorganizado, Adolpho foi roubado por funcionários espertos.

Mais tarde, com a dívida se aproximando dos 100 milhões de dólares, a Manchete, ou seja, Adolpho, investiu mais dinheiro numa grande produção, "Kananga do Japão", com roteiro de Cony, texto de Wilson Aguiar Filho, direção de Tizuka Yamasazi (Arnaldo escreve "Yamakazi") e estrelas do porte de Tônia Carrero, Sérgio Brito, Cláudio Marzo, Julia Lemmertz, Christiane Torloni.

Para tentar encher os cofres, Adolpho contratou José Wilker para a dramaturgia, ou seja, mais novelas. Ele articulou "Corpo Santo", "Helena", "Carmen" e "A Rainha da Vida".

O grande lance de Adolpho foi mesmo a novela "Pantanal", de Benedito Ruy Barbosa, direção de Jayme Monjardim e estrelada pela atriz Cristiana de Oliveira. Manchete gastou 10 milhões de dólares em sua produção. "O que não se esperava era que, já nos primeiros capítulos, ´Pantanal´marcasse 40 por cento de audiência, superando em dobro os picos de novelas anteriores, e batendo a Globo de goleada. (...) Com uma audiência daquelas, a Globo tinha que reagir. Passou a atrasar ´Rainha da Sucata´em uma hora, para fazer frente. Não adiantou: se a audiência ficou mais dividida, a surra de ´Pantanal´era diária, e duraria os dez meses sucessivos em que esteve no ar. Um massacre. Feito considerado impossível desde sempre e até o fim dos tempos. E que de tal forma marcaria a história da televisão brasileira que, desde essa época, a tradicional novela das oito da Globo começa às nove", escreve Arnaldo, com uma pontinha de prazer e orgulho.

"Pantanal" deu dinheiro, "mas", diz Arnaldo, "ficou um gostinho de que poderia ter sido uma enxurrada: como a tabela de publicidade fora calculada para uma audiência trinta pontos menor, os anunciantes faziam fila para anunciar por aquele precinho. Para tentar compensar o prejuízo relativo, Benedito Ruy Barbosa era obrigado a alongar os capítulos, e as seqüências de paisagens e de receitas caseiras começaram a tomar conta da trama. Sem, contudo, afetar a audiência".

Outra jogada acertada da Manchete foi o lançamento da modelo e manequim Xuxa Meneghel, que, com aquele jeito de menina-menino, encantou as crianças e mesmo os adultos como apresentadora do "Clube da Criança".

Depois de "Pantanal", mesmo com outras novelas, como "Ana Raio e Zé Trovão" e "Amazônia", a Manchete afundou.

No início da década de 1990, por conta de papagaios impagáveis, Adolpho decide vender a Manchete. O senador pelo Distrito Federal Paulo Octávio, hoje no DEM, um dos mais empedernidos colloridos, entra no páreo para comprá-la. A entrevista de Pedro Collor à revista "Veja", denunciando "o esquema de corrupção" supostamente "capitaneado" pelo presidente da República, detonou a venda da Manchete. Adolpho decidiu negociá-la com o grupo que dirigia o Instituto Brasileiro de Formulários (IBF), do empresário Hamilton Lucas de Oliveira, ligado a PC Farias. O impeachment de Collor derrubou o negócio. Em 2000 Jaquito, o herdeiro de Adolpho, "assinou a falência de Bloch Editores". Era o fim.

Uma prova de que os poderosos tratam a imprensa, sobretudo a que está caindo, com o maior desrespeito está na descrição do encontro de Adolpho e o presidente Fernando Collor. O empresário diz: "Presidente, eu estou no fim". Collor é seco: "O senhor está no fim e eu estou no começo. Com licença". Os dois estavam no fim, a diferença é que Bloch sabia e Collor, não.

Há dois errinhos no livro. Arnaldo chama Paulo Octávio de "Otávio" e diz que Paraíso do Norte fica no Tocantins. Quando era Paraíso do Norte, a cidade ficava em Goiás, mas, com a fundação do novo Estado, passou a ser chamada de Paraíso do Tocantins, e não fica no Norte do Estado. Arnaldo conta que Adolpho e Hélio Wrobel criaram a fazenda Bloch-Wrobel na terra do governador Marcelo Miranda.

De resto, uma conclusão óbvia: não se faz mídia no Brasil, em São Paulo, locomotiva do País, ou em Goiás, sem recursos públicos.


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POR EM 10/12/2008 ÀS 07:58 PM

Revolução Russa de Stálin devorou Maiakóvski

publicado em

 

A Edi­to­ra Re­cord lan­ça, de­pois de lon­ga de­mo­ra, Mai­akóvski — O Po­e­ta da Re­vo­lu­ção (559 pá­gi­nas), do rus­so Aleksandr Mikhai­lov, com pre­fá­cio de Ale­xei Bu­e­no e tra­du­ção esmerada de Zoia Pres­tes.
 
No pre­fá­cio, Bu­e­no no­ta “a ri­que­za me­ta­fó­ri­ca e rít­mi­ca da po­e­sia de Vla­dí­mir Mai­akóvski, sua mes­tria no uso de hi­pér­bo­les, seu hu­mor cáus­ti­co, seu vir­tu­o­sis­mo no jo­go de pa­la­vras”. Àque­le lei­tor que não quer ape­nas sa­ber os fa­tos da vi­da do po­e­ta, que di­zia de­tes­tar fo­fo­cas, re­co­men­do três li­vros: Po­e­mas, de Mai­akóvski, com tra­du­ções de Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to e Ha­rol­do de Cam­pos, Po­e­sia Rus­sa Mo­der­na, com tra­du­ções do mes­mo trio, e An­to­lo­gia Po­é­ti­ca, de Mai­akóvski, com tra­du­ção de E. Car­re­ra Guer­ra.
 
Mai­akóvski ma­tou-se, aos 36 anos, em 1930, quan­do Stá­lin, se­nhor do po­der, ha­via ex­pur­ga­do ad­ver­sá­rios de pe­so co­mo Li­ev Trotski e en­qua­dra­va aque­les que pen­sa­vam di­fe­ren­te­men­te da or­to­do­xia do par­ti­do.
 
Por que Mai­akóvski se ma­tou, com um ti­ro no pei­to, se ha­via con­de­na­do o su­i­cí­dio do poeta Sier­guéi Ies­siê­nin, em 1925? Mikhai­lov es­cre­ve, com per­ti­nên­cia: “A pes­soa que dei­xa vo­lun­ta­ria­men­te a vi­da le­va con­si­go o mis­té­rio de sua de­ci­são. Ne­nhu­ma ex­pli­ca­ção (in­clu­si­ve as de Mai­akóvski) pe­ne­tra na es­sên­cia re­al da ati­tu­de to­ma­da. Elas so­men­te en­tre­a­brem a cor­ti­na so­bre o se­gre­do, mas o pró­prio se­gre­do per­ma­ne­ce es­con­di­do atrás do fi­nal tris­te da vi­da. (...) En­con­tra­mos os mo­ti­vos, mas o se­gre­do per­ma­ne­ce em se­gre­do”.
 
Há dois pon­tos cen­tra­is. Pri­mei­ro, a Re­vo­lu­ção que Mai­akóvski ha­via co­la­bo­ra­do pa­ra cri­ar e for­mu­lar saía dos ei­xos e tra­ba­lha­va pa­ra en­qua­drar, cer­car e subordinar a li­te­ra­tu­ra, su­ge­rin­do que só a li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria era li­te­ra­tu­ra. O po­e­ta ten­tou se en­qua­drar, fez po­e­mas en­ga­ja­dos-proletários, pro­du­ziu car­ta­zes re­vo­lu­ci­o­ná­rios, mas sua cri­a­ti­vi­da­de, ti­da co­mo ex­ces­si­va e con­ta­gi­an­te, cho­ca­va os co­mu­nis­tas re­tró­gra­dos e não era en­ten­di­da pe­las mas­sas. Es­cri­to­res ge­ni­ais co­mo Mai­akóvski têm seu es­to­que de in­ge­nui­da­de po­lí­ti­ca e acre­di­tam que po­dem in­flu­en­ciar as re­vo­lu­ções e os po­lí­ti­cos, sem per­ce­be­rem que, adi­an­te, as re­vo­lu­ções, co­mo a Bol­che­vi­que, co­me­çam a de­vo­rar seus pró­prios fi­lhos. O sa­tur­no co­mu­nis­ta de Lê­nin e Stá­lin de­vas­tou es­cri­to­res, ma­tan­do-os, en­vi­an­do-os pa­ra mor­rer no Gu­lag ou exi­lan­do-os. Mai­akóvski ava­liou, er­ra­do, que po­de­ria se adap­tar. Aca­bou re­jei­ta­do pe­la po­lí­ti­ca da li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria, mais pro­le­tá­ria, em ter­mos de qua­li­da­de, do que li­te­ra­tu­ra.Che­ga­ram a boi­co­tar a en­ce­na­ção de sua pe­ça te­a­tral Os Ba­nhos. O bi­ó­gra­fo Mikhai­lov diz: “...as cir­cun­stân­cias de sua vi­da pes­so­al eram-lhe in­con­tor­ná­veis. Vi­via em pro­fun­do es­ta­do de de­pres­são e pas­sa­va por uma cri­se de cri­a­ção em fa­ce de con­fron­to com o po­der so­vi­é­ti­co, mes­mo sem ain­da ter a con­sci­ên­cia do que se­ria no fu­tu­ro, mas sen­tin­do uma enor­me pres­são que pri­va­va a li­te­ra­tu­ra do ar de li­ber­da­de”. Ima­gi­ne, pa­ra um cri­a­dor do por­te de Mai­akóvski, ter de pro­du­zir uma po­e­sia de bai­xa qua­li­da­de, pa­ra ser com­pre­en­di­do pe­las mai­o­ri­as e acei­to pe­la bu­ro­cra­cia, que ele abo­mi­na­va. Es­sa bu­ro­cra­cia me­dí­o­cre não acei­ta­va a sua sá­ti­ra, seu mo­der­nis­mo.
 
Se­gun­do, Mai­akóvski nu­tria pai­xão por du­as mu­lhe­res ca­sa­das — Lí­lia Brik e, nos úl­ti­mos anos, Ve­rô­ni­ca Vi­tol­dov­na Po­lonskaia, a No­ra. Quis se ca­sar com No­ra, che­gou a pro­cu­rar um apar­ta­men­to, mas sua de­pres­são e cer­ta vi­o­lên­cia, as­sus­ta­do­ra num gi­gan­te co­mo ele, in­co­mo­da­vam a atriz, que o ama­va. Pro­va­vel­men­te, ao sen­tir que a Re­vo­lu­ção não era o pa­ra­í­so li­ber­tá­rio que ima­gi­na­ra e que era in­fe­liz no amor, roí­do pe­la de­pres­são, Mai­akóvski op­tou por ma­tar-se. Ti­nha cer­ta con­sci­ên­cia de que o fu­tu­ro o aguar­da­va... pa­ra en­ten­dê-lo. Mas, de­pois de sua mor­te, quan­do não mais in­co­mo­da­va, Stá­lin o trans­for­mou no po­e­ta da re­vo­lu­ção e, nu­ma car­ta a Ie­jov, es­cre­veu: “Pe­ço que dê aten­ção à car­ta de Lí­lia Brik. Mai­akóvski foi e con­ti­nua sen­do o me­lhor e mais ta­len­to­so po­e­ta da épo­ca so­vi­é­ti­ca. A in­di­fe­ren­ça com a sua obra é um cri­me”.
 
Só não en­ten­do por­que Zoia Pres­tes não acen­tua o no­me Mai­akóvski, se ou­tros tra­du­to­res ga­ba­ri­ta­dos, co­mo Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to de Cam­pos e Ha­rol­do de Cam­pos, acen­tuam. No ca­so de Stá­lin, tam­bém não acen­tu­a­do, a fi­lha de Lu­iz Car­los Pres­tes, óti­ma tra­du­to­ra de Dou­tor Ji­va­go, o ro­man­ce-vin­gan­ça de Bo­ris Pas­ter­nak, se­gue o in­glês, lín­gua sem acen­tos. Em por­tu­guês, Stá­lin tem acen­to.

A Vladimir Maiakóvski
MARINA TZVIETÁIEVA
 
Acima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo —
Salve, pelos séculos, Vladímir!
Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.
Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.
Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta — e ligeiro
Toma o timão, rema no teu vôo
Áspero de arcanjo carreteiro.
(Poema de 1921)
Tradução de Haroldo de Campos
 

O bilhete do suicida
 
Vladímir Maiakóvski matou-se no dia 14 de abril de 1930 e deixou um bilhete.
 
"A todos
"De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.
"Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.
"Lília, ame-me.
"Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.
"Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
"Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer.
´Como dizem:
caso encerrado,
O barco do amor
espatifou-se na rotina.
Acertei as contas com a vida
inútil a lista
de dores,
desgraças
e mágoas mútuas.´
Felicidade para quem fica.
 
Vladímir Maiakóvski
12/IV/30
 

Não entendem nada
MAIAKÓVSKI
 
Entrei na barbearia e disse, sem espera:
"Por gentileza, penteie-me as orelhas."
O meloso barbeiro ficou cheio de abelhas,
seu rosto se alongou com uma pêra.
"Mentecapto!
Palhaço!" —
saltaram as palavras.
Insultos relincharam pelo espaço,
e l-o-o-o-o-ngamente
ouviu-se o rinchavelho
de uma cabeça que brotou por entre a gente
como um rabanete velho.

(O poema é de 1913, quatro anos antes da Revolução Russa de 1917. Mas a burocracia soviética, que queria poemas úteis à causa, podia compreender a sátira de Maiakóvski? Não, certamente.)
Tradução de Augusto de Campos
 

Hino ao crítico
MAIAKÓVSKI
 
Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no , com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil com um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhe de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Púchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa brancos nos artigos?

(poema de 1915)
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

 


A plenos pulmões
VLADÍMIR MAIAKÓVSKI
 
Primeira introdução ao Poema
 
Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merca fóssil
de agora,
perscrutando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim. Ora,
começará
vosso homem de ciência,
afogando os porquês
num banho de sabença,
conta-se
que outrora
um férvido cantor
a água sem fervura
combateu com fervor. (1)
Professor,
jogue fora
as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
de mim
de minha era.
Eu — incinerador,
eu — sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo "front"
a horticultura airosa
da poesia —
fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
virgem
vargem
sombra
alfrombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim".
Este verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, —
bonifrates encapelados,
descabelados vates —
entendê-los,
ao diabo!,
quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles —
mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
escarra a tuberculose;
putas e rufiões
numa ronda de sífilis.
Também a mim
a propaganda
cansa,
é tão fácil
alinhavar
romanças, —
Mas eu
me dominava
entretanto
e pisava
a garganta do meu canto.
Escutai,
camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
dos melífluos enxurros:
por cima
dos opúsculos líricos,
eu vos falo
como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
à Comuna distante,
não como Iessiênin,
guitarriarcaico.
Mas através
dos séculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com labor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
versos como ossos,
Se estas estrofes de aço
Acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
mas terrível.
Ao ouvido
não diz
blandícias
minha voz;
lóbulos de donzelas
de cachos e bandos
não faço enrubescer
com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
— tropas em parada,
E passo em revista
o "front" das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
Prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhões,
rígida coorte,
apontando
as maiúsculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.
Dialética, não aprendemos com Hegel. Invadiu-nos os versos
Ao fragor das batalhas,
Quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
— glória —
se arraste
após os gênios,
merencória.
Morre,
meu verso,
como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
Sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
sobre o mármore, viscoso.
Partilhemos a glória, —
entre nós todos, —
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
na refrega
e no fogo.
Vindouros,
Varejai vossos léxicos:
do Letes
brotam letras como lixo —
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrício".
Por vós, geração de saudáveis, —
um poeta,
com a língua dos cartazes,
lambeu
os escarros da tísis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
fossilcoleante.
Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
pelo qüinqüênio afora. (2)
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
Lavada e clara,
e basta, —
para mim é tudo.
Ao
Comitê Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.
 
[Dezembro, 1929/janeiro, 1930]

Notas
1 — Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária.
2 — Alusão aos Planos Qüinqüenais soviéticos.
(Provavelmente, como não tenho controle da página do jornal na internet, o poema vai perder a forma na qual foi escrito. Espero que, pelo menos, ao se ter preservado o conteúdo, o leitor se contente com a poesia de Maiakóvski, com um de seus poemas mais conhecidos. A tradução é de Haroldo de Campos. Onde está "saudáves", pus saudáveis. E. Carrera Guerra usa, na sua versão, "ágeis e robustos".)   
 


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:31 PM

Poder devorou o repórter Ricardo Kotscho

publicado em

Ele sustenta que, quando estava ao lado do rei, não sabia nada de mensalão e Marcos Valério. Era da cozinha de Lulla, como Delúbio Soares e José Dirceu, mas, como o presidente, não sabia de nada. É provável que, no poder, Kotscho tenha deixado de ser repórter. O poder costuma devorar a alma dos grandes repórteres

Quem espera revelações sensacionais do livro "Do Golpe ao Planalto — Uma Vida de Repórter" (Companhia das Letras), de Ricardo Kotscho, terá de tirar o Lullinha da chuva. Não há, em nenhum momento, o tom explosivo de "Minha Razão de Viver", de Samuel Wainer, nem a riqueza de informações de "Chatô", de Fernando Morais. O texto é muito bom, escraviza o leitor, mas, para dizer pouco, falta contexto histórico, apresentado apenas de relance. Daí alguns leitores terem dito que o livro, apesar de bem-escrito e contar histórias interessantes, é decepcionante.
 
"Do Golpe ao Planalto" é a história de um repórter correto e, vá lá, criativo. Desses que têm uma vocação humanista e não estão preocupados, digamos assim, com o chamado jornalismo investigativo (talvez mais destrutivo do que investigativo — por falta de uma gota de humanismo. A ânsia de, à força, corrigir o homem, de ter tudo explicado, é uma tarefa mais para ditadores do que para repórteres). Se fosse historiador, Kotscho certamente seria adepto da história das mentalidades. O forte do livro, que não será comentado aqui, é a sua história de repórter, com muitos acertos e alguns equívocos, que o autor admite sem tergiversar (cita até certa covardia pessoal). A pior parte, porque mais emocional e política (que não é o forte do repórter), é o posfácio, que será comentado rapidamente. Muitos certamente vão dizê-lo ingênuo ou, como está na moda, idealista. Talvez seja melhor assim, pois Kotscho não parece um profissional desonesto. Pelo contrário, é de uma seriedade exemplar. Um repórter da velha guarda, no melhor dos sentidos.
 
A crença de Kotscho em Lulla parece coisa de parvos, o que o repórter não é. Tudo indica que a paixão dele pelo petista o cega. Mesmo assim, o repórter, quando a razão aflora, o que ocorre raramente, percebe o Lulla real. Por não amar o poder, e amar a família, Kotscho deixou o disputado cargo de secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (o repórter-primeiro amigo conta que, por telefone, ainda tenta influenciar o governo Lulla, quer dizer, não está inteiramente afastado do Collor de Garanhuns). É a sua explicação para abandonar o barco de Lulla. Ele sustenta que, quando estava ao lado do rei, não sabia nada de mensalão e Marcos Valério. Era da cozinha de Lulla, como Delúbio Soares e José Dirceu, mas, como o presidente, não sabia de nada. É provável que, no poder, Kotscho tenha deixado de ser repórter. O poder costuma devorar a alma dos grandes repórteres. Kotscho não me parece a figura do execrável bajulador, do tradicional dobrador de joelhos, mas, no poder, na presença do rei, perdeu o senso. O livro mostra que ainda não o recuperou, mas está próximo de reconquistá-lo. Kotscho é sério, mesmo quando está atraído mortalmente pela serpente Lulla. Na ótima revista "Brasileiros", Kotscho parece ter reencontrado o equilíbrio.
 
Afastado do governo, mas não de Lulla, Kotscho diz que tinha alguns pressentimentos: “O principal era que o presidente, a vida toda habituado a aplausos e elogios, a ouvir muita gente antes de tomar uma decisão, postergando-a, esperando que os problemas se revolvessem com o tempo, não estivesse psicologicamente preparado para enfrentar uma onda daquele tamanho. Querendo agradar a todos, Lulla talvez não soubesse perceber a tempo e reagir à altura quando o vento virasse contra ele. Se nos períodos de calmaria qualquer contrariedade ou problema menor já o deixava irritado além da conta, eu temia que sua reação diante de uma crise mais séria acabasse agravando-a. O governo e o presidente primeiro demoraram a entender a gravidade da situação e depois reagiram mal, partindo da defesa para o ataque sem uma estratégia definida”.
 
Adiante, mais uma estocada, talvez a possível, pois Kotscho e Lulla continuam amigos: “Após algum tempo de perplexidade, dei-me conta de que a reação do presidente e do governo fora ainda mais danosa à imagem de ambos do que a crise em si, já bastante traumática. Quando a ficha finalmente caiu, meses depois das primeiras denúncias, Lula parecia ter voltado à época das assembléias dos metalúrgicos, achando que poderia resolver tudo no gogó, nos discursos de palanque. Reagiu com o fígado, o que é um veneno em política. Começou a viajar mais pelo país e para o exterior, em vez de pôr a casa em ordem e preparar sua tripulação para enfrentar a tempestade na mídia e no Congresso Nacional”.
 
É o máximo que Kotscho se permite de crítica a Lulla. Seu livro inaugura, de certo modo, uma espécie de bibliografia positiva do presidente petista, assim como o livro do senador e economista Aloizio Mercadante.
 
No final do posfácio, Kotscho revela um diálogo que manteve com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, quando este era presidente da República:
 
— Presidente, o senhor conseguiu a reeleição, já está no segundo mandato, por que não dá um murro na mesa e governa do seu jeito, com quem achar melhor para o país?
 
— Você está maluco? Se eu fizer isso, meu governo acaba no dia seguinte.
 
A citação a Fernando Henrique Cardoso, algo sutil, é um lembrete aos que atacam Lulla por ter mantido (ou manter) uma relação fisiológica com os políticos tradicionais. Noutras palavras, Kotscho sugere que não é possível fazer diferente. O realismo de Kotscho, que às vezes posa de romântico, tem o objetivo de “perdoar” os “erros” de Lulla e, por isso, é lamentável. Como se vê, quem explica Lulla não é Kotscho, e sim Raymundo Faoro, o de "Os Donos do Poder" (espécie de biografia das elites políticas brasileiras).
 
"Do Golpe ao Planalto" é um excelente livro para estudantes de jornalismo e repórteres que estão começando na profissão. Por exemplo: Kotscho diz que reportagens feitas por telefone, sem contato com o mundo real, empobrecem a qualidade tanto das informações quanto do texto. Ele tem razão: os contatos por telefone, por mais que sejam eficientes (pela rapidez), esfriam as relações e raramente permitem que o repórter “entre” na intimidade dos entrevistados. Nada vale mais do que uma conversa olho no olho (mente-se com mais facilidade por telefone do que cara a cara). Bob Woodward, um dos repórteres que contribuíram para a queda de Richard Nixon, raramente conversava com sua principal fonte, Garganta Profunda, por telefone. Num tempo de grampos multiplicados, o telefone é a geladeira das conversações.
 
Sugiro uma ligeira mudança no (sub)título do livro: "Do Golpe ao Planalto: Uma Vida de Repórter e Assessor de Lulla". Sim, porque, de algum modo, mesmo a distância, Kotscho continua como auxiliar, ainda que informal, de Lulla. O próprio livro é uma assessoria qualificada. Uma pena, pois Kotscho é mesmo um repórter brilhante e íntegro. Mas qual integridade resiste às necessidades e seduções do poder?

 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:27 PM

Que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?

publicado em

No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso Romano de Sant´Anna, e estou relendo Os Cantos , de Ezra Pound, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound

A propósito de Ezra Pound, Eliot escreveu: “Um grande escritor pode ter, numa época, uma influência perniciosa ou simplesmente debilitadora. E essa influência pode ser afetivamente atacada, apontando-se aquelas faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas.”

Escorado nessa premissa, o poeta e professor Affonso Romano de Sant´Anna, no livro de ensaios Que fazer de Ezra Pound  (Imago, 2003), de sua autoria, se nos chega como quem chuta o balde de merda ou o pau da barraca — ou redoma — em que se encontra ninguém menos do que Ezra Poud, o que seria razão “suficiente” para chutá-la — a barraca — e, assim, fazer um saldozinho médio nas esferas da crítica literária, ou nas rodinhas de escribas tomando um cafezinho nalgum bar de esquina metropolitana. De tal sorte, que o nosso Affonso, já de início, manda ver:

“Agora que saiu a tradução de Os Cantos de Ezra Pound (ed. Nova Fronteira, Rio, 1986) torna-se necessário um juízo de valor sobre essa obra, que não apenas os elogios ao volumoso esforço de José Lino Grunewald para pôr em língua portuguesa o que tradicionalmente se considera a obra-prima daquele poeta norte-americano nascido em Idaho em 1885 e que aos treze anos afirmou: Serei poeta. O maior de todos.”

Ao ler isso aí, assalta-me a impressão de que o mestre Affonso, por alguma secreta razãozinha, incrustada no fundo de seu ser, intenta minimizar o “volumoso esforço” de Grunewald, como se a dizer que tal tarefa não se justifica em face do valor da obra poundiana, ou que o tradutor se ocupou de coisa de pouco valor, senão de todo imprestável ou, pelo menos, em sua maior parte, como deixa claro o ensaísta. O tom das expressões “que não apenas os elogios” e “o necessário juízo de valor” meio que acentua a minha impressão, ganhando foro de suspeição ou desconfiança no que estou a ler. Mas isso, certamente, não passa de má-impressão minha, buscando o que não existe justamente onde nada existe; enfim, caçando chifre em cabeça de égua.

“De suas oitocentas e tantas páginas, talvez uma meia dúzia pudesse ser lida com maior interesse. Mas, convenhamos, é um salto muito pequeno em relação à pretensão do autor”. Palavras de Affonso. E aqui, se me permitem a digressão, e sem qualquer intento ofensivo de minha parte, antes por conta de uma associação entre a grafia e uma lembrança do tempo da infância, o nome Affonso, com esses dois efes num sopro de fole, transporta-me de volta à hilária onomatopéia de um peido de burro, consoante as vogais e as consoantes propriamente ditas, e como então se dizia, assim: Afffooooooonnnso! Flatulenta sonoridade. Coisa de meninos, inventando moda, fazendo graça para as pessoas ao redor, ou apenas para si mesmos, uns com os outros, lá entre si. Mas prossigamos com o affonsino ensaio em questão:

“O próprio editor achava esses cantos obscuros e tediosos”, ressalta o poeta- professor Affonso. E vá-se ver, por nossa conta, se o tedioso não era o próprio editor de Pound.

“Pound queria usar a técnica do fragmento — continua Affonso —, fazendo uma montagem de textos alheios e seus. Mas a intenção técnica não basta. A leitura é cansativa, confusa e não produz o efeito desejado.”

Leitura cansativa, mestre? Prazerosa, até mesmo pela confusão — o caos, mestre, o fragmentário caos! E — só para embaralhar as cartas de um jogo —, como assim, que Pound desejava um efeito? De que efeito se está falando? Desde quando um poeta se deixa levar pelo desejo e não pela força da criação? Está bem que criar seja um ato de desejo, então Pound queria o efeito do desejo e o desejo do efeito. Bah!, o que digo eu? O que sei, a fundo, em meio a tanto qüiproquó? Cocoricó! O galo cantou. Dê cá meu cajado, é visto que só estou brincando, e já me vou mijar. Ou melhor, só estou provocando o tédio, exercitando idéias e brincando com o respeitável mestre, quem sabe para com ele aprender algo mais; mas sem polêmica, please, que me vou cansado por demais.

“Embora existam belos trechos como o Canto 45, trecho do Canto 13, o curto Canto 120 e pouco mais” — sublinha mestre Affonso, garimpando pepitas de ouro na bateia de Pound. E me pergunto se o crítico se auto-avalia enquanto poeta, de cuja lavra poética — obra completa — bons poemas se mostram e nem tudo é bom. Mesmo o seu mais badalado poema — Que país é esse?—, a meu ver, é melhor na primeira parte, depois perde um pouco a força de impulso, ou de empuxo, conquanto manter-se o fundo político e a crítica social numa asfixiante atmosfera de época — a ditadura militar. Vá la: Affonso Romano de Sant´Anna é um bom poeta mediano.

“A obra sobrenada em frases de poesia nenhuma e de prosa banal. Querendo ser uma epopéia, os textos são uma rala e confusa crônica. Os versos, em geral, não seduzem pelo ritmo, não seduzem pela melopéia, não seduzem pela logopéia ou fanopéia.” — prossegue o mestre, tabulando a zero a poesia de Ezra Pound. Pobre Alphonsus!, diria o poeta Alphonsus de Guimaraens, o Solitário de Mariana (MG), no seu famoso poema A Catedral. “Excessiva, discursiva”, a obra de Pound todavia se sustenta — aí está ela —, inclusive, por conta de seus excessos, mesmo porque não se pode retirá-la de seu lugar. Pode-se afirmar que daqui a mais algum tempo Os Cantos será uma obra relegada ao limbo? Assim, coisas como o nazismo e o extermínio dos judeus também estarão lá, no limbo da memória e da consciência humana? Pouco provável. Nem todas as obras ficam, mas algumas ficam pelo que são, e Os Cantos aí se encaixa, malgrado os resmungos ao seu redor.

“No fim da vida, tendo conhecido a prisão e o hospício, Pound declarou não apenas que ele “estragou” sua obra, mas explicou: “Minhas intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais...Muito tarde me chegou a certeza de nada saber.” Tal declaração, de repente, dá uma dimensão maior ao seu autor. A aceitação de seu “fracasso”, se não transforma sua vida & obra em “êxito”, pelo menos vale como ensinamento para que seus equívocos estéticos e ideológicos (fascistas) não se repitam. Cultuar esses equívocos, em vez de reconhecê-los como o próprio poeta, é perseverar no “erro” e estar, como discípulo, uma vez mais abaixo das lições do próprio mestre.”

Eis aí. Eu não disse que só estava provocando e que aprenderia algo mais com o mestre Affonso? Menos mal que esse “fracasso” aí venha entre aspas, evidenciando que a coisa não é bem assim, ou que o diabo — Pound — não é tão feio quanto se pinta, esteticamente falando. Fracasso? Os Cantos? Olha só o sorrisinho de mofa irônica do anarco diabinho que me acompanha, até porque “tal declaração” de Pound, sobre suas intenções e equívocos, pode ter sido uma forma de corte oblíquo na língua de seus críticos. Vá se saber, a fundo. Os artistas da palavra são dados a subterfúgios, artimanhosos, metafóricos, reticênticos. Pound disse, também, que o que ele tentou e não conseguiu fazer, um brasileiro fez. Referia-se a Gerardo Mello Mourão, com o longo poema Os peãs, cuja primeira parte, num livro de 400 páginas, intitula-se O País dos Mourões.

Ezra Pound

Literalmente, assim falou Pound: “Em toda a minha obra, o que tentei escrever foi a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões.” Isso aí soa-me um pouco como uma certa modéstia poundiana — senão que seja, com efeito, sinceridade por demais —, sem desmerecer aqui a citada obra de Mourão, que, a meu ver, é de uma rara beleza ao longo de toda a poesia brasileira, e quando tornei público, há alguns anos, que ainda estava à espera — como ainda estou — do verdadeiramente grande poeta brasileiro, é possível que estivesse tomando a obra de Mourão como um ponto de referência ou de partida, num sentido épico. A propósito, por que as editoras brasileiras não dão novas e apuradas edições a esta monumental obra poética do Gerardo? Particularmente, emparelho em minha estante, para infinitas releituras, Os Cantos e Os peãs, que me parece influenciado por nada menos que Os Cantos. Ou não?

Posso me arriscar e comparar dizendo que Os Cantos, deliberadamente, está para a epopéia da desordem, do desconexo, do fragmentário, do labiríntico e do caótico — crendo eu que era exatamente essa a intenção de Pound —, assim como Os Peãs está para inventário e reordenação do cosmo de uma árvore genealógica, os Mourões, com uma certa ênfase testicular e boa dose de testosterona para os machos da casa? Penso que a diferença é que Mourão tratou da ordem interna, familiar, doméstica, enquanto Pound se lançou, até com funestas conseqüências para si próprio, ao largo de uma América essencialmente caótica — a par com as conturbações do mundo —, que ele intentou colocar numa esdrúxula e poética epopéia. Deixa estar, mestre Affonso: Os Cantos, como tal, por bem ou por mal, é a coroa de glória de Ezra Pound, e ninguém conseguirá tirar isso dele.

Há quem veja reflexos dos ensinamentos de Pound no rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Está dito que “o texto literário tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassado” (Celina Bruniera,  UOL Educação). Leio isso e penso nos cantos de Ezra Pound. Sem dúvida que o fascismo de Pound é um caso à parte, a ser esmiuçado em profundidade, e quem se habilita? Ezra Pound é reconhecido por muita gente abalizada, sendo apontado como poeta, ensaísta de grande erudição e um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX. Isso deveria bastar, não fosse agora o instigante ensaio do professor Affonso Romano de Sant´Anna, cuja leitura indiquei ao poeta Carlos Willian e ele também estranhou o tom — “arrogante” — do autor. Vai ver, Carlos Willian, estamos equivocados e pagando mico, muito “abaixo das lições do mestre”. Acha que devemos comprar um desconfiômetro?

Em que pese a pertinência dos argumentos do mestre Affonso, penso que Os Cantos é um prumo pênsil na poesia moderna, um monumento de consagração do desconexo, (uni)verso desconjuntado de seu eixo, e, contudo, móvel. Eppur si muove, como diria Galileu. Uma obra para fruição da desordem do caos “ordenado” por Pound. A obra e o homem. Ezra Pound é o nome, e o nome é o cara. Imperfeito, Os Cantos? Longe de mim, para justificar Pound e seus “pecados” poéticos, lançar mão do refrão pelo qual errar é humano; por certo que o certo é não persistir no erro — persistir é burrice —, como é certo, sim, atentar-se para as “faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas”, como afirma Eliot e o professor Affonso utiliza em seu ensaio. Mas, olha só, que coisa curiosa, a título de reflexão: Deus, o Verbo, criou o homem, e se arrependeu, depois, de havê-lo criado (está escrito). Contudo, não reparou a sua obra, nem a destruiu, como seria de se esperar. O criador não conjugou o verbo no modo mais-que-perfeito. E assim os homens são os cantos defeituosos de Deus. E Deus preservou o homem, este que, hoje, por si mesmo se destrói. Pobre homem! Pobre Alphonsus! “Ó Bartleby, ó humanidade!” (Herman Melville). Já publiquei, em livro, que perfeito é o pássaro, voando em círculos.

Também ensaísta, Ezra Pound publicou Arte da Poesia (edições Cultrix, no Brasil), e vale a pena ler de novo alguma coisa do que ele ensina, como, por exemplo, isto: “Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas.”

Sintomático, isso aí, poderia dizer mestre Affonso, olhando de esguelha para Os Cantos. Certo é que essas recomendações de Pound são pertinentes no Brasil — para ficarmos só em casa —, onde muita gente equivocada ou ignorante — pretensos ou pseudopoetas, e até professores universitários —, escreve longos e indigestos textos em prosa, inclusive ensaios, divide-os em forma de versos e publica em livro como sendo poesia. Fala, Goiás!

O que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?  Poeta critica poeta, mas então não se deve também começar por criticar a própria obra?  No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso, aproveitando as edições de bolso da L&PM, e estou relendo Os Cantos — tenho duas edições diferentes, da mesma editora —, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound. A ir-se por aí, só falta dizer que Os Cantos é uma obra aleijada. Talvez seja por isso mesmo, por tudo que ela é e sempre será, inclusive pelo que ela possa levar-nos a refletir por conta dos equívocos ideológicos de Pound — seu lado fascista —, que o fizeram cair em desgraça, contaminando a sua poesia; talvez seja por tudo isso que a obra Os Cantos tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassada, antes se coloca como um perene objeto de estudos mais aprofundados. Da mesma forma, o poema Que país é este, de Affonso Romano, pelo que representa em termos de época — com a sua data de publicação — e pelo que o poema implica de histórico e verdadeiro, sobretudo para os que estiveram por lá, in illo tempore — nos anos de chumbo —, e atestam o que o poema diz. Ainda assim, entre os poemas reunidos de Affonso Romano de Sant´Anna e Os Cantos de Ezra Pound, fico com estes e vou cantar em outra freguesia.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:23 PM

Lista de compras

publicado em

Entre os dias 19 e 30 de maio de 2008 foi perguntado a 200 estudantes de letras de 10 universidades: Quais eram os melhores livros, de autores brasileiros, em todos os tempos? Cada participante poderia indicar um número máximo de 10 livros, podendo inclusive, indicar mais de um livro de um mesmo autor. Participaram da pesquisa alunos do curso de letras da UFG, UNB, UCG, UEG, UNIP, UFRGS, UFRGS, UFRJ, USP. A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado e não tem valor científico.  

Macunaíma, de Mário de Andrade é o melhor livro da história da literatura brasileira

Listas
de “melhores livros de todos os tempos” não diferem radicalmente das quase sempre infames listas dos “melhores filmes de todos os tempos”. Para julgá-las é preciso ter em mente dois critérios básicos: as ausências óbvias e os absurdos ululantes. A lista de “melhores livros de autores brasileiros de todos os tempos” divulgada pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado não foge à regra. Apresenta sua previsível carga de ausências óbvias e absurdos ululantes, além de carregar em si a marca inegável do público opinante: estudantes de Letras.
           
A pergunta foi “quais os melhores livros de autores brasileiros de todos os tempos?”. Analisando o resultado final, ficamos imaginando que o Brasil só produziu ficcionistas e poetas de qualidade, nenhum ensaísta. Até onde entendo, a palavra “autor” indica quem escreve, não necessariamente quem produz literatura. Neste sentido, podemos indicar como “ausências óbvias” ensaios geniais como Casa-grande & Senzala e Visão do Paraíso. Ainda mais estranhamente, não foi classificado àquele que talvez seja o maior livro já escrito no Brasil, em qualquer gênero, Os Sertões: um ensaio que costuma ser classificado como alta literatura.
           
Aprofundando um pouco mais, a lista sugere, equivocadamente, que o Brasil é o país dos ficcionistas. Das dez obras mais votadas, nove são de ficção, sendo sete romances e dois volumes de contos. Apenas um livro é de poesia. E mesmo o único poeta lembrado é questionável. Será Ferreira Gullar superior a João Cabral de Melo Neto, Drummond ou Manuel Bandeira? Estranho! Gullar, um bom poeta, só poderia entrar numa lista de dez se a pergunta fosse “quais os maiores livros de escritores brasileiros vivos?”.
           
Não concordo com Macunaíma no primeiro lugar, mas é um resultado aceitável, dada a importância histórica do livro e, sobretudo, do autor. O que não acontece com a bizarrice que é termos A Paixão Segundo G.H. na frente de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sem discutir os inegáveis méritos de Clarice Lispector, que merece estar na lista, seu imenso número de votos só pode ser explicado pela “moda Lispector” que tem acometido os leitores jovens nos últimos anos. Aliás, onde está Dom Casmurro? Os estudantes de letras se cansaram de discutir o enigma da Capitu e resolveram boicotar o melhor livro de Machado de Assis?
           
Acho que a grande surpresa é a presença de Ariano Suassuna, com O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. E não deixa de ser curioso o fato do popularíssimo O Auto da Comparecida não ter sido lembrado. Provavelmente, os estudantes de Letras consultados não estavam no primeiro período.
           
Quais seriam os absurdos ululantes? Em minha humilde opinião, O Vampiro de Curitiba é o ponto baixo da lista. Também questiono a presença de Os Cavalinhos de Platiplanto. J. J. Veiga, apesar de não ser um bom romancista, escreveu contos seminais, como A Máquina Extraviada, mas não me parece que tenha lugar entre os dez brasileiros de todos os tempos. Rubem Fonseca ou Lima Barreto poderiam facilmente ocupar seu lugar. Mesmo em Goiás, considero Bernardo Élis superior.
           
Não tenho competência suficiente para julgar Catatau, de
Paulo Leminski. Passo a vez. Mas, me pergunto: onde estão Graciliano Ramos e Gerardo de Melo Mourão? E pergunto mais: onde está A Crônica da Casa Assassinada?
           
Talvez tudo se explique pelo fato da lista ter sido encomendada pelo Laboratório de
Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado. As palavras-chave aqui são “opinião pública” e “mercado”. A mesma opinião pública que costuma apontar, por meio de pesquisas via Internet, Maradona melhor que Pelé e Ayrton Senna melhor que Schumacher. Ou seja: “não tem valor científico”. A segunda palavra-chave é “mercado”. Essa lista, portanto, pode ser traduzida como uma possível “lista de compras”. Neste caso, podemos ficar felizes pelo mago highlander Paulo Coelho não ter sido citado. Afinal, se os imortais da Academia o elegeram o que poderia impedir os acadêmicos mortais de seguir o exemplo?  
 

PESQUISA

Entre os dias 19 e 30 de maio de 2008 foi perguntado a 200 estudantes de letras de 10 universidades: Quais eram os melhores livros, de autores brasileiros, em todos os tempos? Cada participante poderia indicar um número máximo de 10 livros, podendo inclusive, indicar mais de um livro de um mesmo autor. Participaram da pesquisa alunos do curso de letras da UFG, UNB, UCG, UEG, UNIP, UFRGS, UFRGS, UFRJ, USP. A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado e não tem valor científico. 
 

1 - Macunaíma (1928) - Mário de Andrade -
134 citações
 
2 - Grande Sertão: Veredas (1956) - Guimarães Rosa -
123 citações 
 
3 - A Paixão Segundo G.H. (1964) - Clarice Lispector -
118 citações 
 
4 - Memórias póstumas de Brás Cubas (1880) - Machado de Assis -
99 citações 
 
5 - Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) - Ariano Suassuna - 
80 citações 
 
6 - O Tempo e o Vento (1949) - Érico Veríssimo -
77 citações 
 
7 - Poema Sujo (1976) - Ferreira Gullar -
61 citações 
 
8 - Catatau (1975) - Paulo Leminski - 
54 citações 
 
9 - Os Cavalinhos de Platiplanto (1959) - José J. Veiga - 
47 citações 
 
10 - O Vampiro de Curitiba (1965) - Dalton Trevisan - 
36 citações
  

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:13 PM

Memórias da poeta russa Marina Tsvetáieva

publicado em
 
A Editora Martins Fontes é responsável por um lançamento espetacular: Vivendo Sob o Fogo (763 páginas), da escritora russa Marina Tsvetáieva, que, sob pressão do stalinismo, matou-se, aos 49 anos, em 1941.
 
Na verdade, Marina não escreveu nenhuma obra com o título de Vivendo Sob o Fogo. O livro, muito bem organizado pelo crítico Tzvetan Todorov, com tradução precisa e amorosa de Aurora Fornoni Bernardini, contém cartas e páginas dos diários da poeta. Há textos profundamente dramáticos, mas percebe-se a escritora atenta mesmo nos lamentos bem mais pessoais.
 
O livro não pôde ser trabalhado por Marina, pois morreu no auge do stalinismo, mas, o que poderia parecer defeito, acaba sendo virtude, pois temos a autora em carne viva falando de si, de familiares e da vida sob a ditadura comunista. “Não será exagero ver neste livro sua obra mais acabada”, escreve, no excelente prefácio, Todorov.
 
Como tenho dúvidas sobre o que disse Todorov, que me parece excessivamente empolgado com o material que organizou, sugiro aos leitores que consultem duas versões da poesia de Marina, feitas a partir do russo por tradutores competentes: Indícios Flutuante — Poemas (Editora Martins Fontes. 208 páginas, R$ 38,30), com tradução de Aurora Fornoni Bernardini, e Marina (Travessa dos Editores, 151 páginas, R$ 28), com tradução de Décio Pignatari.  
 
Um poema, duas traduções
 
A seguir, transcrevo o poema "À Vida", de Marina Tsvietáieva, com duas traduções, uma de Haroldo de Campos e a outra de Augusto de Campos. Os poemas foram extraídos do livro Poesia Russa Moderna e as duas traduções indicam como um poema pode ser recebido noutra línguas de várias formas.
 
À VIDA  
MARINA TSVIETÁIEVA
 
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
 
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.
 
[Poema de 1924, tradução de Haroldo de Campos]
 
À VIDA  
MARINA TSVIETÁIEVA
 
Não colherás no meu rosto sem ruga
 
A cor, violenta correnteza.
 
És caçadora — eu não sou presa.
 
És a perseguição — eu sou a fuga.
 
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes — o corcel.
 
Árabe.
 
[Tradução de Augusto de Campos]  
 
 
Boxe, a sétima arte
 
O diplomata Guillermo Rivera, ex-repórter do Jornal Opção, ao voltar de Rabat, capital do Marrocos, traduziu, no avião, um texto da revista "The Economist" sobre boxe. Discordo do texto ao apresentar Muhammad Ali como um homem do poder, pois o boxeador é muito mais do que isto tanto para o boxe quanto para a história dos Estados Unidos. Por certo esqueceram que foi preso por se recusar a lutar no Vietnã.
 

BOXE

Uma história cultural
 
 
Pugilistas e estetas não estão, necessariamente, em cantos opostos. Em uma história do esporte que remonta a Homero, Virgílio e outros fãs antigos de lutas, Kasia Boddy, uma palestrante de Inglês no University College de Londres, examina a estranha atração que o boxe exerce sobre os intelectuais. Ela nos fornece uma leitura prazerosa ao mesmo tempo em que explora como os lutadores profissionais estimulam a imaginação de escritores, artistas e intelectuais.
 
Alguns dos seguidores mais pretensiosos do esporte são intelectuais franceses. François Mauriac descreveu Georges Carpentier, um campeão mundial da categoria meio-pesado, como sendo "um desses Apollos graciosos, levemente arranhados pela picareta durante o processo de sua exumação", e "o tipo de homem honesto a quem Pascal quereria bem". Jean Cocteau era empresário de um boxeador profissional e, para ele, compôs rapsódias sobre sua "poesia ativa" e sua "sintaxe misteriosa". Jean Genet escreveu poemas para um "boxeador-gatuno" e uma "rosa musculosa".
 
Os equivalentes norte-americanos desses intelectuais são mais assertivos. Vários deles subiram aos ringues para tentar lutar, mesmo que fosse apenas para participar como sparrings. Rodolfo Valentino foi uma exceção que tentou uma luta verdadeira. O ídolo das matinês dos anos 20 ficou tão enfurecido de ter sido chamado de "esponja de pó-de-arroz" por um jornal de Chicago que desafiou o repórter a enfrentá-lo no ringue. Norman Mailer via o boxe como metáfora para suas ambições de se tornar o campeão da escrita mundial. T.S. Eliot teve aulas de boxe dadas por um ex-pugilista em um ginásio mais ou menos barra-pesada na Zona Sul de Boston. Wyndham Lewis surpreendeu-se quando entrou no estúdio parisiense de Ezra Pound e encontrou o poeta norte-americano usando luvas de boxe e treinando com um jovem esplendidamente em forma, que viria a ser Ernest Hemingway. Os celebrados estudos de Thomas Eakins incluem uma fotografia de jovens de punhos nus lutando em uma floresta que, para Boddy, evocava tanto o classicismo pastoril e o quadro "Déjeuner sur l´herbe", de Manet.
 
Alguns poucos boxeadores se confraternizavam com a intelligentsia. Gene Tunney contava com George Bernard Shaw, Sherwood Anderson e Thornton Wilder entre seus amigos e agregava às suas conversas palavras como "ineficaz" e "mudanças cosméticas". Muhammad Ali, de maneira mais típica, aceitava a admiração de seus fãs cultos com uma afeição embasbacada. Ele até posou para George Lois como capa da revista Esquire, em pose de São Sebastião, de Boticelli, até que se deu conta, repentinamente, de onde provinha o assunto. "Ei George", ele gritou, "esse cara é cristão!". A sessão de fotos teve de ser interrompida até que Ali tivesse consultado seu líder espiritual muçulmano para saber se as poses seriam apropriadas.
 
De maneira mais séria, Boddy explora as tensões étnicas no esporte, especialmente entre brancos e negros nos EUA. O racismo já foi escancarado. Quando Jack Johnson, o primeiro negro campeão mundial dos pesos pesados, entrou no ringue em Reno em 1910 para derrotar a mais recente "Esperança Branca", a banda tocou "All Coons Look Alike to Me" ("Todos os Crioulos Parecem Ser Iguais para Mim"). Menos de três décadas depois, as coisas haviam mudado de maneira evidente. Joe Louis, o "Bombardeador Marrom", contou com o apoio fanático de norte-americanos de todas as cores quando defendeu o mesmo título contra o alemão Max Schmeling, em uma luta rotulada como sendo uma competição entre a democracia e o nazismo.
 
O sucessor deles, Muhammad Ali, um radical que se tornou patriota, tornou-se por completo uma figura do establishment. Ele fez campanha para Ronald Reagan, na eleição presidencial de 1980, e em 1990 voou ao Iraque para tentar assegurar a libertação de reféns norte-americanos aprisionados por Saddam Hussein. O atual presidente George Bush tem sido um apreciador especial dos esforços do ex-campeão para persuadir muçulmanos dos EUA a apoiarem as guerras no Iraque e no Afeganistão e, em 2005, o condecorou com a Medalha Presidencial. Esse cara é, agora, um pilar da sociedade.

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:12 PM

A guerra civil que gerou Barack Obama

publicado em


Sabe um livro pelo qual você não pagaria um centavo mas, lido, acaba sendo uma agradável surpresa? Pois é o caso de “História da Guerra Civil Americana” (M. Books Editora, tradução de Roger Maioli dos Santos, 224 páginas), do historiador John D. Wright. Com capa dura e jeitão de livro didático, com iconografia farta, passa a impressão, à primeira vista, de obra superficial. Lida, descobre-se que, se não é profunda, é muitíssimo interessante.
 
A Guerra Civil Americana (1861-1865), na qual pereceram 550 mil pessoas e, no final, o presidente Abraham Lincoln, primeiro presidente dos Estados Unidos assassinado, foi vencida pelo Norte, que subjugou o Sul. Mas o que não se diz é que, embora tenha vencido, o Norte perdeu a guerra durante boa parte do tempo para um Sul menor, com menos soldados, mas profundamente motivado (na defesa de seus interesses, entre eles a manutenção da escravidão). Wright ressalva que, embora vencendo algumas guerras, humilhando o poderio do Norte, inclusive em batalhas marítimas, os exércitos sulistas foram empurrados para dentro de seu território e, finalmente, derrotados pela riqueza e maior número de soldados do Norte.

A União (Norte) gastou 5 bilhões de dólares e a Confederação (Sul), “cerca de 3 bilhões”. Os Estados Unidos sempre gastaram muito com suas guerras.

Wright mostra que, até o início de 1864, o Norte não conseguia vencer a guerra por conta, em certa medida, de generais incompetentes e indecisos. Mas, como o presidente Abe Lincoln era extremamente decidido, foi demitindo-os e indicando generais corajosos e competentes, como Ulysses S. Grant e William Tecumseh Sherman (sobre os generais que cantavam vitórias de Pirro, Lincoln disse: “A galinha é a mais sábia das criaturas animais, pois só cacareja depois que o ovo está posto”). Grant adotou a tática de perder homens a rodo — chegou a ser chamado de açougueiro —, e não recuar, o que forçou os homens de Robert E. Lee a uma ação mais defensiva. “O general Meade pediu a Grant que considerasse uma manobra. ‘Ah!’, disse o general. ‘Eu nunca manobro’.” Lincoln disse sobre Grant: “Não posso me desfazer desse homem — ele luta!” O implacável Sherman era um tormento por onde passava, destruindo tudo. Ao introduzir “um elemento novo e perturbador na atividade bélica: a crença de que uma guerra pode ser vencida aterrorizando os civis que a apóiam”, foi chamado de o “Átila do Oeste”.

Os americanos têm o hábito de celebrar a cavalaria, sobretudo no cinema, como nos filmes do brilhante John Ford (o Sul tinha um general de nome John Ford), e com razão. A cavalaria, na guerra civil, foi bem utilizada pelos sulistas, especialmente na guerra de guerrilhas, para fustigar os ianques de Lincoln. Wright conta a história do esplêndido general Nathan Forrest Bedford, que impôs várias derrotas ao Norte. Os nortistas tiveram de aprender os segredos de Forrest — citado no romance “Sartoris”, de William Faulkner — para enfrentar, de igual para igual, a cavalaria confederada.

No final do livro, Wright diz que “muitos sulistas brancos se negaram a votar em republicanos durante mais de um século, até a eleição de Richard Nixon em 1968”. O historiador conta que os sulistas, de algum modo, continuam sendo perseguidos: “O nome ‘confederado’ foi eliminado de uma rua em Memphis e está sob ameaça num edifício da Universidade Vanderbilt. Os nomes de heróis confederados também estão desaparecendo: a Robert E. Lee High School, em Birmingham, Alabama, mudou seu nome em 2001 para Martin Luther King High School”. Com Barack Obama, Yale vai se chamar Spike Lee ou Frederick Douglass?

Lincoln disse que Deus havia dado “esta guerra terrível como a devida punição àqueles de quem a ofensa [da escravidão] proviera”. Lincoln, por ser “amigo” dos negros, era chamado de “o gorila original”. Faulkner sugere, em vários de seus livros, que a escravidão gerou as monstruosidades que descreve em seus romances. Era a grande maldição, o pecado original dos americanos, sobretudo dos sulistas. “Não se escapa ao Sul, ninguém se cura do seu passado”, diz Faulkner pela boca da personagem Quentin.

Lincoln, republicano, é uma espécie de bisavô de Barack Obama, democrata. Ao libertar os escravos, em 1865, a guerra de Lincoln gerou a possibilidade de, 143 depois, Obama ser presidente dos Estados Unidos. Lincoln e Faulkner certamente ficariam satisfeitos.?Mais Lincoln, quem sabe.

Seqüestro e Operação Condor

Minha penelopiana lista de leitura vai acabar me deixando louco (normais paranóicos somos nós todos). Espero que descubram o elixir da juventude (não basta capim novo, como dizia o expert Luiz Gonzaga), mas com prazo determinado. Gostaria de viver, com saúde, pelo menos 150 anos. Talvez 300 ou 350? Talvez seja muito. Bem, como não vou viver tanto, tenho sido seletivo com as leituras. Por exemplo, parei de ler os gibis do Homem-Aranha, que cheguei a colecionar — por que, não sei. Perdi interesse por livros sobre a ditadura civil-militar (1964-1985). A maioria se repete, numa condenação infindável à ditadura, mas sem revelações. Mas não vou deixar de ler "Operação Condor — O Seqüestro dos Uruguaios: Uma Reportagem dos Tempos da Ditadura" (L&PM, 472 páginas, 49 reais), do grande repórter Luiz Cláudio Cunha.

Luiz Cláudio relatou, há 30 anos, na revista "Veja", a história do seqüestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz. Mais de um quarto de século depois, o jornalista reconta e amplia a história.

Memórias de Leandro Konder

Ao contrário do que certa direita prega, nem todo comunista é idiota. Stálin e Lênin eram comunistas, ditadores, cruéis, mas não eram néscios. Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho são comunistas, ou foram, sei lá, e são inteligentes. Olavo de Carvalho exagera nas críticas a Konder, um dos poucos comunistas abertos, ou seja, com vocação democrática. Konder não é profundo, não tem uma obra densa como a de Marilena Chauí, também exageradamente execrada, porque eventualmente diz algumas besteiras (como a defesa insensata do petismo e os ataques gratuitos a José Guilherme Merquior). Ele é um excelente vulgarizador e um crítico bem-humorado (e sempre reconheceu o valor intelectual de Merquior). Seu livro "Memórias de um Intelectual Comunista" (Civilização Brasileira, 264 páginas, 39 reais) acaba de entrar para minha lista de leituras. Konder tem o que contar e sabe contar.

Caxias ganha nova biografia

O Duque de Caxias talvez seja a Geni dos militares brasileiros. Todos jogam alguma coisa em Caxias. Até o Caxias virou sinônimo de cdf, de gente chata. Nos últimos anos, por conta do trabalho de historiadores sérios, como Francisco Doratioto, o papel de Caxias na história brasileira tem sido revisto, e favoravelmente. Adriana Barreto de Sousa lança "Duque de Caxias — O Homem Por Trás do Monumento" (Civilização Brasileira, 616 páginas, 75 reais). Apesar do preço, entra na lista de prioridades para 2009.

Banville e Philip Roth

John Banville é o Dostoiévski da Irlanda. Felizmente, não quis ser o novo James Joyce, ou o sub-Joyce. Atualizou Dostoiévski, com uma escrita mais leve e menos sombria. Falo, claro, de "O Livro das Provas", seu romance-resposta ao portento "Crime e Castigo", do colega russo. Dostô aprovaria, apontando o defeito do "moderninho demais". Banville aventura-se também pela crítica.

Banville resenhou o romance "Indignation", de Philip Roth, para o "Financial Times", e a "Folha de S. Paulo" republicou o comentário. "´Indignation´ é o melhor romance de Philip Roth desde ´O Avesso da Vida´. (...) Em seu novo romance, retomou a graça e sutileza de trabalhos anteriores e produziu uma obra-prima tardia", diz Banville. Um elogio e tanto.

Trotski era ucraniano, não era russo

Dois leitores enviam e-mail e dizem que Liev Trotski era ucraniano, não russo. Um jornalista, meu amigo há mais de 20 anos (estou ficando velho, mas não triste nem melancólico), diz mais: se pudesse, Trotski morderia uma de minhas orelhas, ao feitio de Mike Tyson atacando Evander Holyfield, por conta disso. Puxa: ainda bem que, ao contrário do "Diário da Manhã", nós, do Jornal Opção, não mantemos contato (nem imediato) com fenômenos do além-túmulo.

Não é a primeira vez que cometo o erro. Por quê? Talvez porque, como a Rússia era a República dominante, os outros povos que formaram a União Soviética e por isso se tornaram "soviéticos" (o que a maioria detestava) acabaram sendo conhecidos como "russos".

Não tenho errado sozinho, porém. A biografia "Trotsky" (com y), de Hedda Garza, diz que Liev Davidovitch Bronstein, o Trotski, nasceu em "Yanovka, Rússia". Pesquiso na internet e encontro a informação de que Yanovka fica na Ucrânia. Quem está certo? Eu e Garza estamos errados. 

Sartoris passou pelo Brasil

No romance "Sartoris", Faulkner conta a história da família do coronel John Sartoris. O protagonista meio não-protagonista é Bayard Sartoris, neto de Bayard Sartoris (filho de John Sartoris).

Depois da morte do irmão John Sartoris, Bayard praticamente enlouquece (não a loucura comum) e se torna destrutivo. Bebe demais. Dirige seu automóvel em alta velocidade. Acaba matando o avô num acidente. Em seguida, peregrina pelo mundo e, de repente, visita o Rio de Janeiro. O texto a respeito é quase-nada: "Em abril chegou um postal do Rio". Receberam o postal a tia Jenny, talvez o maior personagem feminino de Faulkner, e Narcissa Benbow, mulher de Bayard e mãe de seu filho.

Na introdução, Robert Cantwell escreve: "... a sua vaga viagem ao México e ao Brasil".

Philip Roth inspirou-se em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" para escrever seu romance "Indignation". O que o agrada é a forma de um morto relatar a própria história. No caso de "Sartoris", o coronel John Sartoris está morto, já no início do livro, mas está presente (não como fantasma, e sim como memória e maldição) em toda a história. Não apenas neste livro. O coronel Sartoris reaparece em outras obras de Faulkner, como "Os Invencidos", "Absalão, Absalão!" e pelo menos num conto. 


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:10 PM

500 mil exemplares, 500 erros em cada

publicado em
Edição descuidada não impede “Condenado a Falar” de vender meio milhão, mas autor quer o dobro, com 300 mil só em Goiás, o que seria um recorde inimaginável 




Nilson Gomes
 
 Jorge Kajuru tem diversos títulos e só não usa o de eleitor, mas nem suas previsões mais otimistas diriam que venderia tantos exemplares de Condenado a Falar em tão pouco tempo. Pelos cálculos do autor, foram 350 mil exemplares “em 65 dias, somente no interior paulista” — onde nasceu (em Cajuru, que lhe deu o nome artístico) e mora (em Ribeirão Preto, que chama de “minha aldeia” — ali apresenta um programa diário de 15 minutos no SBT local). Em Goiânia, no sábado, 26, Kajuru comemorou a venda do exemplar número 500 mil. O problema do livro, portanto, não é o mesmo dos goianos: o encalhe. Mas — que paradoxo — o problema do livro é o mesmo dos goianos: a edição descuidada, na qual sobram erros. Entre pequenas falhas gráficas, equívocos em nomes próprios e deslizes ortográficos, são mais de 500, culpa não necessariamente do autor, pois há uma revisora, Walkiria Lobo, responsável pela caça às agressões.
 
Condenado a Falar tem dois subtítulos, De A a Z e Pólvora Pura, além da recomendação “Impossível não ler”. A capa expõe tudo isso, mais dez vezes o nome do autor, que aparece amordaçado, como se estivesse condenado a calar, não a falar. Kajuru ficou sem poder usar sua maior arma, a palavra, em algumas oportunidades, todas narradas na obra: quando as TVs o demitiram ou se demitiu e quando sua rádio, a K do Brasil, era tirada do ar. Como o livro não tem censura e nele fala o que quer, o esparadrapo cruzado na boca é anacrônico. Para chegar ao milhão de exemplares, a meta que se impôs, será melhor corrigir as falhas. Nesta semana, Kajuru começa parceria com o jornal Diário da Manhã e seu objetivo declaro é vender 300 mil livros em Goiás, mil vezes mais que a média de escritores locais.
 
Uma tiragem tão avassaladora já na primeira edição, 350 mil exemplares, mostrava que Kajuru esperava o sucesso. Faltou procurar uma editora, não dessas que roubam o autor e passam a perna nos livreiros, esses que passam a perna nas editoras e nos autores. Uma editora para o óbvio: editar. Kajuru é muito talentoso no vídeo e nos microfones das rádios, mas carece de igual desenvoltura na comunicação impressa. O livro é prova inequívoca disso. O próprio Kajuru assina como editor e diz terem sido 12 as mãos que escreveram, as próprias e dos produtores Nathália Vieira, Ródnei Souza, Rodrigo De Brino, Simone Magalhães, Théo Campos, que seriam alcançados pelos direitos autorais, caso sobrasse alguma coisinha. Não é o caso, como se lê em texto nesta reportagem.
 
POUCA

Pouca novidade e nenhuma pólvora
 
Condenado a Falar tem 264 páginas, não necessariamente de novidades. A rigor, apenas 97 são de Kajuru e menos de 50 têm algo relacionado a ser condenado a falar ou pólvora pura. As demais reproduzem artigos de Kajuru na Folha de S. Paulo, entrevistas em que é o autor (como com Romário) ou personagem (como no Programa do Jô), recortes de jornais e revistas, gráficos e até poemas — sem dúvida, a fraqueza de Kajuru: o grande profissional de rádio e TV não precisava se submeter a isso. Em três poemas, oferecidos às apresentadoras de TV Hebe Camargo (“Ave Hebe”) e Adriane Galisteu (“Eterna Dri”) e às mães do próprio Kajuru e de Galisteu (“Ê mamãe”). Nem Geraldo Coelho Vaz e Kleber Adorno fariam igual.
 
Os momentos altos do livro, destacados pela imprensa do Brasil inteiro, seriam as definições de “celebridades”, na lista “De A a Z”, e as 27 “páginas negras”, assim chamadas por serem impressas em preto, com as letras vazadas em branco, no fim da obra. Não há tanta pólvora assim. As críticas maiores são às redes de TV Record (principalmente a seu dono, Edir Macedo) e Globo e à Confederação Brasileira de Futebol (e seu presidente, Ricardo Teixeira). Mas nenhuma novidade capaz de abalar a estrutura das emissoras ou da CBF, até porque são informações já exibidas pela própria Globo. A irritação de Kajuru é por ter se resumido a um Globo Repórter as denúncias contra a cartolagem, a começar do maior nome do setor, o de Teixeira.
 
Conforme se lê em texto nesta reportagem, o próprio rol “De A a Z” tem mais elogios que críticas, ou mais “opa!” que “epa!”, ou mais pirulito que bala. São 128 comentários favoráveis, 37 contrários e nos demais fica morde e sopra. Até quanto a Teixeira, da CBF, fica com um pé no muro. Critica: “Sempre conheci tudo a seu respeito. Inclusive, o preço”. Em seguida, reconhece méritos no chefão da CBF: “Não misturo. Gerenciando e tomando decisões na Seleção, acertou mais do que errou”. Conclui profetizando: “Na Copa de 2014, só ele (Teixeira) ganhará. Rachará com alguns”. Diz e repete que foi “buscar todas as informações das profundezas do inferno”. E, como as que aparecem no livro são mornas, pelo jeito as quentes continuam queimando na casa do capeta.
 
O drama de querer livro “mais barato do mundo”
 
No início, Jorge Kajuru divulgou que Condenado a Falar seria vendido a 1 real, insuficiente para as despesas mínimas. Os orçamentistas de quatro gráficas consultadas em Goiânia ficaram abismados com a quantidade pedida pelo repórter, mas calcularam em quanto ficariam cada exemplar se fossem encomendados 350 mil, nos mesmos moldes do livro de Kajuru. Os preços variaram de 5 a 7 reais cada. Portanto, impossível vender a qualquer tanto abaixo, a menos que houvesse patrocinador. Não há. Kajuru ocupa a quarta capa com propaganda de três grandes escritórios de advocacia, mas avisa no alto da página: “Publicidade gratuita”. No miolo, nada de anúncio, pagou ou não.
 
Ao participar de Nada Além da Verdade, apresentado por Silvio Santos no SBT, Kajuru disse que sua meta era ganhar 40 mil reais, que salvariam a única herança de sua família, uma casa em Cajuru. O programa, que Kajuru gravou em 17 de dezembro de 2007, tem máquinas americanas que detectariam se o examinado mente; falseou, sai. Kajuru teve de expor as vísceras. Admitiu, por exemplo, três coisas que o machão típico relutaria contar até a si próprio: já brochou (“Passei mais de ano que não levantava, porque diabético é assim”), teve experiência homossexual (“Mas não gostei”) e seu pênis é pequeno — “defeito” que consta também do livro, onde também diz precisar de “mais 10 cm”. Mas não mentiu e levou mais que o dobro do que almejava, 100 mil reais, o prêmio máximo. Para subsidiar apenas a primeira edição, precisaria vencer 13 vezes seguidas o Nada Além da Verdade. Supõe-se que quem, há quatro meses, não tinha 40 mil reais para salvar o patrimônio, não tem 1 milhão e 400 mil para gastar com livros para o populacho. Os 100 mil ganhos no Nada Além... foram usados, segundo Kajuru, para pagar “todas” as suas dívidas.
 
Sem dinheiro para subsidiar, o jeito foi se render a algo próximo. Então, Kajuru não está tendo lucro, mas também não está perdendo milhão de reais, até porque não tem. Quem o conhece sabe que, se tivesse dinheiro ou bens, ele torraria até o último centavo num projeto como o do livro. Em Condenado a Falar, ele diz que gostaria de ser rico para bancar duas publicações, a revista Caros Amigos e o jornal Lance!, ambos de grupos milionários. Trabalhei com Kajuru e vi seu desprendimento com dinheiro, que distribui sem medida a empregados, pedintes, mulheres, projetos furados.
 
O algo próximo ao preço idealizado de 1 real foi cinco vezes mais. Na capa, Kajuru separa o público comprador: o da “Faixa salarial baixa” e o da “Faixa salarial média/alta”. O primeiro compraria o livro a 2 reais (“Pelas mãos do Kajuru”), 3 (“nos pontos de venda anunciados na TV pelo Kajuru”) ou “no máximo a 5, dependendo da distância da cidade” de quem adquire. Ao segundo, oferece por 20 reais “o Kit Completo”, composto de Condenado a Falar, um DVD com imagens do trabalho de Kajuru, um “CD surpresa”, o livro Dossiê K, que provocou polêmica em Goiás em 2002. O leitor passa pela capa e na próxima página vê outras três opções de preço: 4 reais (cidades a mais de 200 km de Ribeirão Preto, onde mora o autor), 5 reais (mais de 500 km) e “nunca acima de 6 reais”. Com isso, planeja vender 1 milhão de livros em um ano, sendo 200 mil autografados: “Serei vendedor de meu próprio livro (...) levando até você o livro mais barato do mundo”.
 
Em Goiânia, no sábado, 26, o livro foi vendido a 5 reais e quem se dispôs a enfrentar fila imensa recebeu autógrafo, tirou foto e conversou com Kajuru, que dá atenção a todos. Descontadas as despesas com passagens, hospedagem e alimentação do autor, mais o pessoal envolvido com a produção e as empresas de distribuição e venda, a conta ainda fecha. Kajuru continua tendo um prejuízo imenso. Ele já teve patrimônio razoável. Sua emissora, a Rádio K do Brasil, valia 8 milhões de reais. No capítulo “Um cala-boca milionário”, Kajuru conta que, em abril de 2000, recusou 3 milhões de reais por 49 por cento das ações da rádio, que seriam pagos por três empresários. Conta o nome de um deles, Rivas Resende, então diretor da Arisco e hoje dono da empresa Quick Logística. Em 2001, recusou quantia semelhante. Na página 55 e 63, reproduz partes dos contratos. Com semelhante quantia, bancaria mais livros a “preço acessível a qualquer cidadão”.
 
A realidade é outra. O patrimônio de Kajuru virou munha. Perdeu a rádio, que se à época valia 8 milhões, acabou dela saindo em 2003, sem um tostão e ainda dando graças a amigos por se livrar das dívidas. Atribui seu infortúnio a perseguição do então governador Marconi Perillo, um dos três personagens mais criticados do livro. Então, quem está bancando o déficit do livro? Seria possível que algum inimigo do trio ajudasse a subsidiar 1 milhão de exemplares de um livro que o detonasse? Seria. Se o autor fosse outro. Kajuru não se submeteria a isso. Quem já perdeu tanto (patrimônio, amigos, empregos, dinheiro) em nome da coerência, não se venderia.

O mapa dos erros
 
Há cinco erros na página 1 (numeração que não inclui a capa), inclusive um agudo no nome do pai de Kajuru: está “Zézinho”. Um de pontuação na 3 (sobra vírgula em “Assim como, o conteúdo”). Dois na 5 (pontuação e falta um “l” em julgará). O prefácio do ex-jogador Sócrates tem, no mínimo, onze erros: faltam cinco vírgulas (só as imprescindíveis) e hífen em “sem-número”; é impossível “gravar” sem pilha durante duas horas e não perceber; Kajuru não derrubou o então governador Maguito Vilela nem deixou irado o atual governador de Goiás, Alcides Rodrigues; confunde “nestes” com “nesses”; maiúscula desnecessária na assinatura: “Dr. Sócrates Brasileiro, Ex-craque”. No texto chamado “Por Rosana Zaidan” passaram sete erros fora esse de ter como título o nome da autora — ressalte-se a qualidade do texto, que tem boas frases, como: “Até hoje, Kajuru amarga crueldades, mas consegue transformar restos em iguarias”. Portanto, 26 erros até agora.
 
O texto “Por Alfredo Orlando” tem um erro interessante: conta que Kajuru, ao chegar à capital paulista, em 1978, era “um menino de calças curtas”. Kajuru já contava 18 anos e um sujeito maior de idade não usa calça curta nem em filme do Mazaropi. Como de Jeca Tatu Jorge Kajuru só tem a rima, subentende-se que houve uma licença poética, termo em nome do qual se comete bastante besteira. O material escrito por Emanuel Carneiro tem dois erros: está sem título, abaixo da reprodução de um anúncio; sobra vírgula na assinatura. Na página 15, há dois erros, um de vírgula, outro em Goiás, que está com agudo no “i”. Na 16, sete erros, inclusive no título: “Palavaras”, com um “a” a mais. Um oitavo erro é que o título é sobre nada, numa falha de edição. E assim por diante, há erros médios e pequenos em toda página escrita por Kajuru.
 
Alguns textos são repetidos em mais de uma página. O que ocupa a página 5 inteira está também na 179 e de novo toma toda a 211, inclusive com os mesmos erros. O da 27 é o mesmo da 229. Kajuru diz várias vezes, na capa e em muitos outros lugares, que seu livro Dossiê K foi “preso”. Não. Foi censurado, foi perseguido. No rigor do palavreado jurídico, que é o adequado ao caso, o livro não foi preso, mas apreendido. Como os textos de Kajuru são fiéis à linguagem oral, que utiliza no rádio e na TV, não se pode chamar de erros os diversos entraves provocados com o idioma e com regras de redação. Em vez de somados no quadro das falhas, devem ser creditados ao estilo vencedor de Kajuru. Portanto, não entraram na conta dos 500 erros.
 
Quase todos os erros de Kajuru poderiam ter sido evitados com uma leitura mais ou menos atenta. Centenas de descuidos com a pontuação, por exemplo, podem ser eliminados em poucos minutos, quando for preparada a próxima tiragem. Levará 1 segundo para colocar a vírgula que falta à página 28: “Meu 1º livro, agora pode ser lido na íntegra”. Basta o logotipo da Nike depois de “agora”. Não é apenas um sinal gráfico, é um símbolo que compromete o entendimento da frase. Uma vírgula intrometida aqui, a falta dela acolá, ponto usado nitidamente como recurso para evitar erro maior não são sinais de analfabetismo, mas de relaxo. É impossível um conjunto de doze mãos (e, claro, meia dúzia de cérebros) não esfregar ao menos uma unha para tirar a vírgula do mais clássico erro de pontuação, a separação entre sujeito e verbo em “Juca, foi o 1º a defendê-lo”. O escorregão toma proporções maiores porque está no alto de uma página ímpar, como chamada da reprodução de um artigo de Juca Kfouri, jornalista conceituado que deu vida a duas revistas, Placar (inventada por ele) e Playboy (recauchutada por ele).
 
Outro erro comum é a falta de preposições, conjunções e demais elementos de ligação, além de um apagão nas classes gramaticais por atacado. Às vezes, na dúvida, substitui por ponto. Outras, simplesmente pula. Coisa simples de resolver, mas que compromete: um comunicador famoso e admirado como Kajuru fica associado a gargalos no uso de uma ferramenta vital em sua profissão, o idioma. Kajuru sabe usar bem a língua (e aqui a referência é unicamente à portuguesa), mas quem digitou para ele ou corrigiu teve “brancos” terríveis. Repito, tudo fácil de resolver. O que custa, na página 32, digitar um “d” e um “e” antes de “ombudsman” em “... fazendo o papel ombudsman de verdade”? Mas, enquanto alguém não digita, está lá o erro. Encontrei 41 lapsos parecidos.
 
O uso de maiúsculas é uma fonte absurda de tropeços. Dependendo da regra que se adota, pois não há critério no livro, são mais de 200 erros. Considerei menos de 40, por não somar como erros algo como o “S”, o “T” e o “V” em “Relatório Sintético por Tipo de Veículo”. Mas somei o “G” maiúsculo em “... mídia oficial do Governo, desde 1994” porque há a mesma palavra, com o mesmo sentido, com minúscula. Não uniformiza nomes próprios (polícia civil na página 66 e Polícia Civil na página seguinte), cargos (Secretário, Porta-voz, Governador...) nem horários, que grafa de três maneiras diferentes: “nove e meia da manhã” (página 38), “20 horas e 30 minutos” (página 39), “por volta das 10h30 da noite” (página 66). Aí não há erro, apenas falta de critério. Mas os erros se sucedem. Um carimbo de “gravado” acrescenta cinco, pois não tem o agudo em “Áudio”.
 
O desmazelo na checagem de nomes próprios potencializa o volume de erros. O atual prefeito de Goiânia, Iris Rezende, aparece nas páginas 32, 36, 37, 38, 39 e 106 com o nome acentuado. É um erro minúsculo, menor que o agudo desnecessário, mas é um erro, que acaba multiplicado por 12, o número de vezes em que o nome Iris (o político, não a parte anatômica) aparece incorreto. O pequeno trecho “... pesquisa do Ibope, comandada em Goiás, pela afiliada da Rede Globo, Organização Jaime Câmara, que dava a Íris...” (página 36) tem três erros e é vitrine dos parágrafos anteriores: erra na pontuação (vírgula após Goiás), erra na informação (a afiliada da Globo a que se refere é a TV Anhangüera; OJC é o conglomerado que inclui outras afiliadas da Globo, gráficas, jornais, rádios...), erra no nome de Iris. E vai juntando erros aos 500.
 
A precisão nas datas também influencia. Dá a vitória de Marconi Perillo para governador de Goiás em 1998 no dia 6 de outubro. Foi em dois dias antes no primeiro turno e três semanas depois no segundo. Fora dados do gênero, a revisora Walkiria Lobo poderia ter aconselhado Kajuru a obediência aos pronomes. Assim, talvez se inspirasse e desse linearidade à personificação. Num mesmo fim de página, a 103, o autor mistura tudo. Refere-se a si mesmo como “disse ao Kajuru” e, duas linhas depois, volta a ser o narrador, mandando recado: “Caro amigo, te adoro baixinho (...) Você já sabia (...) Vai te catar, Romário!”. O velho problema da pontuação (“te adoro, baixinho) e do pronome (“Você” e “te”). Lobo não notou a falta de espaço entre palavras, de unidade gráfica nas páginas, de critério no tamanho das fontes. Foi omissa também ao corrigir a digitação, principalmente a degravação de entrevistas e nomes como “impeachment” (página 151). Sobram erros nas aspas (há entre aspas e outras vezes assinados textos do próprio autor, como se fosse alguém estranho), que seriam banidos se a revisora fosse caprichosa. Se tivesse editor, certamente diria a Kajuru para... Bom, no mínimo haveria edição, que Kajuru não fez pelo simples motivo de que não é a sua área, ele a assumiu por outro motivo simples: baratear o livro. Se tivesse editor, o melhor texto do livro, o que ocupa as páginas 223 e 224, não estaria sem título, com tanto erro e numa letrinha impossível de ler sem óculos.
 
A lista “De A a Z” tem 316 pequenas falhas, principalmente de maiúsculas indevidas, nomes errados, pontuação incorreta. Há erros também em textos de outros autores, como no do jornalista Luiz Carlos Bordoni: “... prova cabal do Brasil provincial que vivemos”. Sem o “em” entre “provincial” e “que”, disse que vivemos “o” Brasil e não “no” Brasil. No contexto, está errado. Entre falhas que só um chato como o resenhista nota e problemas relevantes, o leitor anotou quantos erros? Pode recontar: são mais de 500. Em seu favor, diga-se que são mil vezes menos que o de exemplares vendidos.
 
Marketing pessoal vende um bom “produto”  
 
Jorge Kajuru é craque no marketing pessoal. Nos lugares em que atua, seja um programa de TV ou a administração de uma rádio, cria-se o “Mundo K”, que gira ao redor de Kajuru. Como ele não tem privacidade, conta tudo a seu público, também revela inconfidências, dá furo com segredos. Seus telespectadores sofrem e riem com ele. Sabem sobre o casamento desfeito (culpa por isso, e por uma teia de vicissitudes, o senador Marconi Perillo quando governador), sobre a veneração à mãe, Maria José. Seus ouvintes o compreendem em tudo, não o questionam, apenas o seguem. Nos tempos em que a Rádio K do Brasil era suspensa, muitos ficavam com o rádio sintonizado no 730, ligado, gastando energia, à espera da volta do som. Por isso, mesmo for do ar, o prefixo de Kajuru liderava a audiência, porque quando o pesquisador do Serpes perguntava “em que emissora seu rádio está ligado”, a resposta era a K do Brasil.
 
O sucesso, claro, não reside apenas na autopropaganda. Kajuru tem conteúdo, por isso sua fama resiste à embalagem: “gordo, feio”, conforme se apresenta nos programas de TV, agora também quase cego, mas sempre querido pelo público do veículo mais exigente quanto a visual, a TV. Apesar de a TV ter lhe dado a notoriedade que o faz lotar shoppings em tardes de autógrafos num Estado em que quase ninguém lê livros, sua multiplicidade de talentos aparece mais no rádio. Entre seus feitos em Goiás está a ressurreição do AM, que sequer existia em grande parte dos aparelhos. Com a K do Brasil, as lojas passaram a vender rádios com AM, produto antes a caminho do lixão.
 
Marketing pessoal só funciona com essa equação. Kajuru vende um produto que o consumidor encontra no vasilhame. Então, o fato de Condenado a Falar tem 801 vezes o nome do autor, sendo nove apenas na primeira capa, não é o que faz vender 500 mil exemplares. Para encontrar 801 vezes o nome do autor em um livro, só se for numa autobiografia de mil páginas. Condenado... tem menos de 10 por cento disso em textos do autor e ainda assim parece normal haver seu nome 801 vezes, porque quem o conhece do rádio e da TV se familiarizou com o singular majestático, com o falar de si como se fosse outra pessoa, com a grandiloqüência, os exageros, os sentimentos expostos, os sofrimentos divididos.
 
A fama de polêmico e as brigas que compra com caciques deram a Kajuru uma aura de nervoso, como se estivesse sempre pronto a explodir. É o contrário. Trata-se de uma pessoa dócil, que se preocupa com quem está por perto. Fui seu comandado no jornalismo da Rádio K e por várias vezes o vi (para usar um verbo que no livro ele emprega à exaustão) se solidarizar com quem sequer conhecia. Com os empregados, era generoso a ponto de se prejudicar. Quando a rádio estava às portas da falência, fruto do enfrentamento com o governo do Estado, Kajuru sofria ao conviver com os pagamentos em atraso. Usando novamente um recurso empregado no livro, o tom confessional, conto um episódio particular. Quando soube que eu ia me casar, no auge da crise da rádio, Kajuru me procurou: “Você não vendeu sua quota e deve estar precisando de dinheiro. Vou lhe dar uma das minhas. Escolhe a que você quiser”. Eu tinha outros dois empregos. Dispensei a ajuda. Mas não me esqueci da oferta.
 
Também peça do marketing de Kajuru é o estímulo à divergência. Também não é só marketing. Sua equipe no jornalismo em Goiânia tinha do direitista assumido (coisa rara) Rosenwal Ferreira ao esquerdista radical Martiniano Cavalcante. Ele havia acompanhado minha campanha em favor de Marconi Perillo para governador e a defesa que eu fazia de suas ações para enterrar o PMDB e, mesmo sendo vítima do governo, me mantinha em seu programa de maior audiência, o K entre nós na Hora da Verdade. Talvez inspirado no chefe, mesmo governista ajudei a derrubar oito integrantes do governo com denúncias documentadas — nunca deixei de apresentar na rádio as provas que conseguia. Vai ser difícil compor outra equipe como aquela, num ambiente como aquele, sob comando de um mestre daquele nível.
 
Kajuru é o divisor de águas no rádio goiano. Antes dele, as equipes esportivas sobreviviam com patrocínio mirrado, a maioria de empresas de cartolas do futebol. Kajuru deu um soco em tudo isso e foi tanto sopro de independência que virou furacão. Multiplicou por muitos o número de ouvintes de rádio, dando sobrevida a um veículo então moribundo. Quando Kajuru voltou para São Paulo, Goiás voltou a ser aquele Estado do a favor, com o rádio ocupado a maior parte do tempo e dos prefixos com programas religiosos, distribuição de acepipes, vitrola para tocar música que nem quem pediu quer ouvir. Deixou muitos discípulos, inclusive este que vos escreve, tão kajurete que redige uma crítica desse tamanho sobre um sujeito que admira tanto. Crítica, nesse caso, 100 por cento merecida, pois o livro está muito aquém do patamar que Kajuru alcançou no rádio e na TV.
 
Excesso de falhas torna lista entediante
 
Na chamada grande imprensa, o que mais repercutiu de Condenado a Falar foi a lista “De A a Z”, mas há tanto erro que vira um tédio conviver com tamanho volume de falhas. Rebatiza mais da metade dos que define. O piloto Ayrton Senna aparece com uma reta, a do “i”, no lugar da encruzilhada do “y”. O dirigente esportivo Afonso Della Mônica surge grafado como na história em quadrinhos, mas não leva coelhadas por ter um chapeuzinho sobre o “o”, inexistente na certidão de nascimento. O canal de esportes da TV paga SporTV muda de gênero e vira feminino. Se os canais da Globo se transformam em travestis, o mesmo não ocorre com o fenômeno Ronaldo. Quando Kajuru editou o livro, em fevereiro passado, o Fenômeno ainda não havia se envolvido com os travestis no Rio nem Casagrande internado com drogas (um furo de Placar, a revista cuja morte Kajuru decreta na lista).
 
Passam de três centenas os erros, de A a Z, de todos os tamanhos, principalmente nos nomes dos envolvidos. Nada que não possa ser revertido na próxima edição, quando já terão sido vendidos 500 mil livros, mas se salvarão os próximos 500 mil. Faltou apenas conferir. Não precisaria, para isso, nem pagar revisor. Uma hora de consulta ao Google bastaria.
 
Condenado a Falar é ocupado por goianos do jornalismo (como Batista Custódio e Luiz Carlos Bordoni), da política (porrete em Marconi Perillo, muro para Iris Rezende, elogios a Ronaldo Caiado, referências a Jorcelino Braga), do empresariado (Rivas Resende, Odilon Valter Santos, Paulo Panarello Neto). A maioria aparece em reproduções de reportagens das revistas Veja (de que Kajuru diz ter sido fonte em matéria contra Marconi) e IstoÉ (que Kajuru chama de IstoFoi). Na lista, diz que Batista Custódio é do Diário da Manhã, mas poderia ser do New York Times, o jornal mais influente do mundo, e que “sabe escrever como mais uns três gênios”, mas não nomina o trio de texto perfeito. Como na maioria das definições, cutuca Batista: “Uma pena vê-lo vendendo mais opiniões do que espaços para poder sobreviver”.
 
Mesmo os goianos com os quais conviveu muito, fazendo até parte da família, são rebatizados. O dono do Goiás Esporte Clube, Hailé Pinheiro, cujo primeiro nome aparece com agudo em quase todo lugar, no livro tem um circunspecto circunflexo. Kajuru define Pinheiro com uma palavra: “Honesto”. Emitido por Kajuru, é um elogio e tanto, pois raramente destina o termo a alguém, muito menos para dirigentes de clubes de futebol. Iris (com agudo) Rezende (com “s”) é definido como “inimigo previsível. Politicamente, um zero. À direita”. Tem muito significado. Ou nenhum.
 
O maior inimigo de Kajuru em Goiás, o senador Marconi Perillo, é assim descrito: “Por algumas vezes eu tive vontade de matá-lo. Passou. Jorge Luís Borges tinha razão, ‘o esquecimento é a única vingança e o único perdão’. Marconis e os Miltons da imprensa: Borges foi ponta esquerda do Bangu!”. Os marconistas vão dizer que falta vírgula depois de “vezes”, o nome do escritor está grafado com um agudo a mais e falta hífen entre ponta e esquerda, além de sobrar “os” antes de Miltons, certamente, uma referência a seu maior inimigo na crônica esportiva, Milton Neves, responsável por 10 por cento dos mais de cem processos abertos contra Kajuru. 
 
NILSON GOMES é jornalista. 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:05 PM

Li­vro re­ve­la que ex-pre­si­den­te do Co­mi­tê Olím­pi­co In­ter­na­ci­o­nal foi agen­te da KGB

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A cor­rup­ção de Stá­lin era mo­ral (era perverso, sádico e pragmático) e te­ria mor­ri­do po­bre (se­gun­do os au­to­res do li­vro, pro­va­vel­men­te en­ve­ne­na­do). Pu­tin e seu gru­po, pe­lo con­trá­rio, são mi­li­o­ná­rios, me­du­lar­men­te cor­rup­tos e adep­tos da boa vi­da em tem­po in­te­gral. A no­va No­menkla­tu­ra ex­tor­que em­pre­sá­rios e o pró­prio Es­ta­do

"A Era dos As­sas­si­nos - A No­va KGB e o Fe­nô­me­no Vla­dí­mir Pu­tin" (Re­cord, tra­du­ção de Mar­ce­lo Schild, 391 pá­gi­nas), dos his­to­ri­a­do­res Yu­ri Felshtinsky e Vla­dí­mir Pri­bi­lovski, é um livro rico em revelações. Du­ran­te o de­ba­te en­tre os can­di­da­tos a pre­si­den­te dos Es­ta­dos Uni­dos, o re­pu­bli­ca­no John McCain dis­se: "Eu vi nos olhos de Pu­tin três le­tras: KGB". Quem não se in­te­res­sa pe­la his­tó­ria da Rús­sia po­de pen­sar que se tra­ta ape­nas de uma boa fra­se de efei­to. De­pois da lei­tu­ra de "A Era dos As­sas­si­nos", o lei­tor con­clu­i­rá que McCain re­su­miu a his­tó­ria do li­vro, ou se­ja, a his­tó­ria re­cen­te da Rús­sia.

Os his­to­ri­a­do­res mos­tram, com uma in­fi­ni­da­de de in­for­ma­ções, que a Kon­to­ra, co­mo é co­nhe­ci­da a KGB (o no­vo no­me é FSB, Ser­vi­ço de Se­gu­ran­ça Fe­de­ral da Rús­sia), fi­nal­men­te con­se­guiu con­quis­tar o po­der na Rús­sia. É a pri­mei­ra vez, na his­tó­ria do pa­ís, que a cor­po­ra­ção, a po­lí­cia se­cre­ta, de­tém o con­tro­le po­lí­ti­co e man­da na eco­no­mia. Opo­si­to­res, se­jam po­lí­ti­cos ou em­pre­sá­rios, são bru­tal­men­te as­sas­si­na­dos e as in­ves­ti­ga­ções dão em na­da. Cer­ca de 50 em­pre­sá­rios e ban­quei­ros fo­ram as­sas­si­na­dos des­de que Pu­tin as­su­miu o po­der. Sob Stá­lin, a KGB, com ou­tro no­me, era for­te, mas não tão for­te quan­to ago­ra. Um dos mé­ri­tos do li­vro é mos­trar que Pu­tin go­ver­na sob con­tro­le da KGB. Sua re­la­ti­va au­to­no­mia po­de ser com­pro­va­da ape­nas num cam­po: o gos­to ex­tre­ma­do e vai­do­so por es­por­tes.

Pu­tin (ou a KGB) não tem ad­ver­sá­rios, tem ini­mi­gos e, por is­so, eli­mi­na-os de mo­do im­pla­cá­vel. Al­guns são mor­tos a ti­ros; ou­tros, en­ve­ne­na­dos. A jor­na­lis­ta An­na Po­litkovskaya, que in­ves­ti­gou a fun­do a guer­ra da Tchet­chê­nia e des­mas­ca­rou as men­ti­ras de Pu­tin, foi as­sas­si­na­da. Os ali­a­dos de Pu­tin sa­bi­am que o pre­si­den­te (ho­je, pri­mei­ro-mi­nis­tro, mas man­dan­do no pre­si­den­te Dmi­tri Med­ve­dev, por­que es­te não de­sa­fia a Kon­to­ra) de­tes­ta­va Po­litkovskaya. Re­sul­ta­do: se uni­ram e, no dia 7 de ou­tu­bro de 2006, da­ta do ani­ver­sá­rio de Pu­tin, ma­ta­ram a bri­lhan­te e co­ra­jo­sa re­pór­ter. Tu­do in­di­ca que os man­dan­tes do cri­me são a FSB, Ram­zan Ka­di­rov e Umar Dja­brai­lov.

O ex-te­nen­te-co­ro­nel Ale­xan­der Lit­vi­nenko co­me­teu um cri­me gra­ve do pon­to de vis­ta da KGB: traiu-a. Os trai­do­res são as­sas­si­na­dos pe­la Kon­to­ra, em ge­ral de mo­do cru­el. Lit­vi­nenko ou­sou de­nun­ci­ar que a cor­po­ra­ção es­ta­va se pre­pa­ran­do pa­ra ma­tar o oli­gar­ca Bo­ris Be­re­zovski (o bilionário que tentou mandar no time do Corinthians). Foi pre­so e, pa­ra não mor­rer, exi­lou-se na In­gla­ter­ra. Acre­di­tou que es­ta­va sal­vo. A KGB lo­ca­li­zou-o e o en­ve­ne­nou com Po­lô­nio-210, ve­ne­no ra­dia­ti­vo letal.

Sa­be-se que ou­tros jor­na­lis­tas, in­te­lec­tu­ais, po­lí­ti­cos e em­pre­sá­rios vão mor­rer. Bas­ta se co­lo­carem em opo­si­ção a al­gu­ma de­ci­são do go­ver­no da KGB. A mí­dia é ho­je qua­se que in­tei­ra­men­te con­tro­la­da pe­lo go­ver­no de Pu­tin-Med­ve­dev. A Kon­to­ra mu­dou a le­gis­la­ção e a mí­dia, quan­do não es­tá sob cen­su­ra, é in­tei­ra­men­te con­tro­la­da pe­la cor­po­ra­ção.

Há ou­tro as­pec­to pou­co dis­cu­ti­do a res­pei­to de Pu­tin. A cor­rup­ção de Stá­lin era mo­ral (era perverso, sádico e pragmático) e te­ria mor­ri­do po­bre (se­gun­do os au­to­res do li­vro, pro­va­vel­men­te en­ve­ne­na­do). Pu­tin e seu gru­po, pe­lo con­trá­rio, são mi­li­o­ná­rios, me­du­lar­men­te cor­rup­tos e adep­tos da boa vi­da em tem­po in­te­gral. A no­va No­menkla­tu­ra ex­tor­que em­pre­sá­rios e o pró­prio Es­ta­do. A es­quer­da bra­si­lei­ra, que fa­la tan­to em pri­va­ta­ria, de­ve­ria ler a his­tó­ria de co­mo Pu­tin pri­va­ti­za es­ta­tais ou de co­mo es­ta­tais pri­va­ti­za­das são retomadas de em­pre­sá­rios. Não há se­gu­ran­ça ju­rí­di­ca al­gu­ma e quem re­cla­ma mor­re ou tem de sa­ir do pa­ís.

A de­te­rio­ra­ção mo­ral che­gou a tal pon­to que o gru­po de Pu­tin é acu­sa­do até mes­mo de en­vol­vi­men­to com o trá­fi­co de co­ca­í­na. "As prin­ci­pa­is ro­tas de en­tra­da de co­ca­í­na na Eu­ro­pa", se­gun­do os au­to­res do li­vro, pas­sam pe­la Rús­sia. Eles re­ve­lam que 1.092 qui­los de co­ca­í­na, pro­ve­ni­en­tes da Co­lôm­bia, de­sa­pa­re­ce­ram nas mãos da KGB. Os tra­fi­can­tes de dro­gas rus­sos man­têm re­la­ções cor­dia­is com os ali­a­dos de Pu­tin. São pro­te­gi­dos.

As olim­pía­das de in­ver­no de 2014 se­rão re­a­li­za­das em So­chi e os ali­a­dos de Pu­tin se tor­na­ram pro­pri­e­tá­rios dos me­lho­res ne­gó­ci­os da re­gi­ão. Co­mo Pu­tin con­ven­ceu o ex-pre­si­den­te do Co­mi­tê Olím­pi­co In­ter­na­ci­o­nal, o es­pa­nhol Juan An­to­nio Sa­ma­ranch, a apo­i­ar So­chi pa­ra se­de das olim­pía­das?

Felshtinsky e Pri­bi­lo­viski re­ve­lam que, quan­do em­bai­xa­dor da Es­pa­nha na ex­tin­ta Uni­ão So­vi­é­ti­ca, Sa­ma­ranch ti­nha o há­bi­to de com­prar an­ti­gui­da­des, atividade considerada ilegal, e, por is­so, foi in­ves­ti­ga­do pe­la KGB. Agen­tes da Kon­to­ra "ofe­re­ce­ram du­as op­ções a Sa­ma­ranch: ele po­de­ria ser com­pro­me­ti­do atra­vés de pu­bli­ca­ções de ar­ti­gos na im­pren­sa so­vi­é­ti­ca e es­tran­gei­ra de­ta­lhan­do su­as ati­vi­da­des ile­gais, o que, sem dú­vi­da, en­cer­ra­ria sua car­rei­ra di­plo­má­ti­ca, ou po­de­ria co­la­bo­rar com a KGB co­mo agen­te se­cre­to. Sa­ma­ranch es­co­lheu a se­gun­da op­ção".

Sa­ma­ranch foi elei­to pre­si­den­te do COI, em gran­de par­te, por ter ob­ti­do o apoio da KGB, que in­flu­en­ciou os paí­ses do Les­te Eu­ro­peu. Mais tar­de, o "agen­te" es­pa­nhol re­tri­bu­iu o fa­vor, ago­ra pa­ra Pu­tin, e ve­tou ou­tros paí­ses e con­ce­deu à Rús­sia o di­rei­to de se­di­ar as olim­pía­das de in­ver­so de 2014.

Os au­to­res do li­vro ava­li­zam a te­se de que Lê­nin e sua mu­lher fo­ram en­ve­ne­na­dos a man­­do de Stá­lin. Leia abaixo sobre a o crueza com que Putin tratou um de seus inimigos, Iuri Shutov.
 
O caso do inimigo de Putin

O texto a seguir foi extraído do livro "A Era dos Assassinos - A Nova KGB e o Fenômeno Vladímir Putin" (Editora Record), de Yuri Felshtinsky e Vladímir Pribilovski. O título do capítulo é "Iuri Shutov" (páginas 256, 257, 258, 259 e 260).

Ao contrário da descrição do hábito do presidente Putin de não se esquecer dos amigos, devemos comentar sobre como ele lida com os inimigos. Quando Putin se decide a "pôr fim em alguém", ele não descansa até atingir o objetivo.

Quando Putin começou a trabalhar para Sobtchak, em 1990, Sobtchak tinha pessoas trabalhando para ele que, segundo Putin, "desde então, conquistaram notoriedade e prestaram maus serviços a Sobtchak". Putin referia-se acima de tudo a Iuri Shutov, um executivo e político de caráter duvidoso que era o conselheiro extra-oficial do presidente da Lensovet, Sobtchak, durante a primavera e o outono de 1990 (oficialmente, Shutov serviu de conselheiro para Sobtchak por apenas alguns dias, de 5 a 12 de novembro de 1990).

No período soviético, o pequeno burocrata Shutov fora acusado de tentar incendiar a câmara de deputados de Leningrado (Smolny) visando destruir provas de seus delitos financeiros. Ele foi posto na prisão. Durante a Perestróica de Gorbatchev, Shutov foi perdoado e, em seguida, exonerado. Obviamente, ele não pretendera incendiar o Smolny. Depois que Sobtchak o acolheu e o expulsou vergonhosamente mais tarde (aparentemente, sob aconselhamento de Putin), Shutov começou a reunir provas incriminatórias contra Sobtchak e seu círculo mais próximo. Era um período difícil, todos quebravam as leis e havia uma profusão de provas incriminatórias a serem reunidas. Mais tarde, parte do material reunido por Shutov entrou em seu panfleto em forma de livro, "O coração de Sobtchak (Sobchachie serdtse, um trocadilho com o título do famoso romance de Mikhail Bulgakov, Sobachie serdtse, "O coração de um cachorro") e em sua continuação, "Os delitos de Sobtchak, ou Como Todos Foram Roubados" (Sobchachya prokhindiada, ili kak vsekh obokrali). A intenção era a de que os livros fossem as duas primeiras partes de uma trilogia intitulada "Roubo".

Para escrever os livros, Shutov foi ajudado por Mark Grigoriev, um jornalista profissional que publicara certa vez um artigo na revista Ogonyok sobre a tentativa de "incendiar" o Smolny, que contribuíra fortemente para o perdão e a exoneração de Shutov. O escritório de Shutov ficava no Hotel Leningrado. Shutov alugou um quarto para seu co-autor no mesmo hotel, e os dois escritores trabalharam em paz no livro - que, obviamente, não poderia trazer alegrias a Sobtchak.

Em fevereiro de 1991, houve um incêndio no hotel que resultou na morte de Mark Grigoriev. Isso não intimidou Shutov, que prosseguiu obstinadamente com o trabalho que iniciara. De algum modo, ele obtivera uma gravação de uma conversa casual entre Sobtchak e um residente da inteligência francesa na Rússia. Sobtchak pediu que Putin interviesse e impedisse a publicação da conversa. E Putin, utilizando o Diretório Regional de Leningrado para o Combate ao Crime Organizado (Rubop), organizou uma batida no apartamento de Shutov e confiscou a fita com a gravação.

A batida e a busca foram conduzidas de modo ilegal e não-oficial. Na noite de 6 de outubro de 1991, Shutov entrou no próprio apartamento e encontrou ladrões no interior. Quando fugiram da cena do crime, os criminosos quebraram o crânio de Shutov com um martelo. Quando, vários meses depois, em março de 1992, Shutov recebeu a visita de oficiais do governo com um mandado de busca oficial e uma ordem de prisão (por organizar um atentado contra a vida do presidente do Azerbaijáo, Abulfaz Eltcibei, o que era tão verossímil quanto a acusação anterior de tentar incendiar o Smolny), Shutov reconheceu um deles, Dmitri Milin, como um dos ladrões que lhe fraturara o crânio. Acabou sendo descoberto que o segundo "ladrão" era um colega de Milin, Dmitri Shakhanov. Os dois eram oficiais de alto escalão da Rubop de Leningrado. Depois de passar um ano e meio em uma prisão pré-julgamento, Shutov foi inicialmente libertado com a condição de não deixar o país e, em 1996, foi plenamente absolvido por uma decisão da corte do distrito de Vyborgsky, de São Petersburgo.

Nos dois primeiros panfletos anti-Sobtchak (publicados, respectivamente, em 1992 e em 1993), o vingativo Shutov não mencionou uma única vez o nome de Putin. Mas, em 1998, Shutov tornou-se deputado da assembléia legislativa da São Petersburgo e começou a acreditar que agora estava realmente protegido pela imunidade parlamentar, à qual tinha direito por conta de sua posição. Através do jornal Novy Peterburg, o qual patrocinava e onde escrevia uma coluna intitulada "Todos os Homens do Rei", Shutov lançou o rumor de que o novo diretor da FSB, Vladimir Putin, fora chamado de volta da Alemanha Oriental durante o período que passara lá como oficial da inteligência internacional por ofensas traidoras contra a Rússia: "Durante os quase cinco anos em que prestou serviço na Alemanha Oriental, o capitão Putin da KGB não conquistou resultados visíveis. Contudo, foi observado entrando em contato não-sancionado com um membro da rede de agentes inimiga. Depois disso, foi enviado imediatamente para a União Soviética, aonde chegou em um automóvel GAZ-24 Volga usado, comprado na Alemanha Ocidental, com três tapetes produzidos na Alemanha."

No mesmo artigo, Shutov apresentou a própria interpretação do relacionamento entre Putin e Sobtchak, quando Putin era supervisor da KCB na Universidade Estadual de Leningrado e Sobtchak era professor na faculdade de direito da universidade. Segundo Shutov, Sobtchak era um agente freelancer e informante de Putin. Putin "precisava coletar informações para a KGB, trabalhar com agentes empregados pela universidade e recrutar novos informantes... O professor Sobtchak acabou preso na rede de interesses da KGB e informava de bom grado ao assistente pró-reitor, Putin, sobre toda a gama de assuntos que o interessavam. Posteriormente, em 1990, um pequeno fichário contendo os relatórios originais deste informante, escrito à mão, chamado na terminologia burocrática da KGB de ´pasta de trabalho do agente, tornou-se um argumento muito forte em apoio à nomeação de Putin como conselheiro do presidente da câmara de deputados da cidade de Leningrado, Sobtchak".

Os leitores do "Novy Peterburg" nunca descobriram se o que Shutov escrevera era verdade. A resposta de Putin, que na época era diretor da FSB, veio menos de dois meses depois da publicação do controverso artigo de Shutov. Em fevereiro de 1999, por decisão da corte, Shutov perdeu a imunidade parlamentar e foi preso sob suspeita de organizar uma série de crimes graves, incluindo o assassinato de um oficial proeminente da cidade, Mikail Manevitch, em São Petersburgo, em 1997, e o assassinato de uma ativista democrata proeminente, Galina Starovitova, em 1998. Para atacar Shutov, Putin chegou a utilizar o famoso repórter oficial da televisão Mikhail Leontiev, que apareceu no Canal Um da televisão russa exigindo punição para o "bandido e malfeitor".

No entanto, em novembro de 1999, a corte do distrito de Kuybyshev de São Petersburgo alterou as restrições pré-julgamento para uma promessa de não deixar o país e determinou que Shutov fosse libertado da prisão. Shutov foi libertado diretamente do tribunal, mas, alguns minutos depois, homens mascarados e armados invadiram o local. Houve uma briga, durante a qual diversas pessoas ficaram feridas, incluindo um operador de câmera da televisão, cujo braço foi quebrado, e o próprio Shutov, que levou várias coronhadas e socos na cabeça e acabou desmaiando. Segundo Shutov, os homens mascarados levaram-no para o prédio da promotoria municipal e o espancaram. Por causa do espancamento, Shutov perdeu metade da audição e um olho. Médicos independentes não tiveram permissão para entrar na promotoria, enquanto os especialistas médicos do governo diagnosticaram que o acusado estava com a saúde perfeita. No entanto, vários dias depois, foi realizada uma audiência na corte a pedido dos advogados de Shutov, e os paramédicos ambulanciais que haviam sido convocados para a audiência entregaram um relatório médico exigindo a hospitalização imediata de Shutov. Mas, em vez de ser hospitalizado, Shutov foi enviado para a prisão pré-julgamento de São Petersburgo, sendo transferido depois de algum tempo para a prisão de Vyborg.

Inicialmente não estava claro quem organizara a abdução de Shutov do tribunal. Posteriormente, a promotoria municipal de São Petersburgo assumiu a responsabilidade pela ação. A unidade de forças especiais (OMON) que invadira o tribunal fora enviada de Moscou para realizar a operação.

Ativistas de direitos humanos e democratas adotaram uma posição fraca e hesitante em relação ao "caso Shutov", pois as visões antiliberais e antiocidentais de Shutov eram inegáveis e ele provavelmente tinha conexões com o mundo do crime. Apesar do perdão do tribunal e da determinação da Suprema Corte Russa da ilegalidade de Shutov ser mantido preso, apesar da reeleição de Shutov para o parlamento da cidade em 2002, o inimigo pessoal de Putin passou sete (!) anos sendo transferido entre diferentes prisões pré-julgamento sem ser condenado, sendo finalmente condenado à prisão perpétua em fevereiro de 2006 por organizar uma série de assassinatos por contrato de executivos (as acusações de ter assassinado Manevitch e Starovoitova foram retiradas).

Nunca foi descoberto quem matou Manevitch e Starovoitova. Staravoitova foi morta na entrada do prédio onde morava. O assassinato de Manevitch foi executado de modo altamente profissional. O assassino atirou no topo de um prédio alto com um rifle de mira telescópica em um carro que parara em um sinal de trânsito. As balas atravessaram o teto do veículo. A mulher de Manevitch estava com ele no carro no momento do assassinato, mas não foi ferida. Investigadores criminais desenvolveram diversas teorias possíveis em relação ao incidente. Eles também descobriram como Manevitch conhecera quem seria sua futura esposa. Um certo agente da FSB pedira a uma jovem mensageira que pegasse um trem para Moscou e entregasse uma bolsa lacrada a um homem que a encontraria na estação Leningradsky. No trem, um jovem chamado Mikhail sentou-se ao lado da jovem. Eles passaram toda a noite conversando e trocaram números de telefone. Em Moscou, quando desceu do trem, a jovem foi realmente recebida por um homem. Ele pegou a bolsa, afastou-se um pouco e, acreditando que não estava mais sendo visto, jogou a bolsa em uma lata de lixo sem nem abri-la.

O jovem do trem era Mikhail Manevitch. A jovem era sua futura esposa. O agente da FSB que pedira a ela para entregar a bolsa era Vladimir Putin. Só se pode imaginar quem foi "agente" de quem neste incidente e quem foi o "objeto".


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:03 PM

A poesia de Rio do Sono

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A
poesia de Rio de Sono é original e forte. Constitui a primeira manifestação significativa da poesia denominada de modernista em Goiás. Poesia de lirismo e simplicidade, ternura por tudo o que existe, uma captação da essência amarga da vida, da essência alegre da vida
 
José Godoy Garcia

Alaor Barbosa

Rio do Sono
, o primeiro livro de poesia de José Godoy Garcia, foi editado há 31 anos pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, da Prefeitura de Goiânia. Apesar de tanto tempo passado, pouca gente o conhece fora de Goiás, e mesmo em Goiás.

Até hoje os livros publicados em Goiás não têm conseguido atravessar as fronteiras de Goiás e jazem escondidos numa espécie de ineditismo às avessas – situação de humildade muito própria dos goianos. Que-dirá em 1948, quando Goiânia ainda era uma capital sem nenhuma expressão e importância e Goiás mal deixava de ser uma terra remota e ignorada. Conta Machado de Assis, em uma das suas crônicas, que na sua época um grupo de escritores pensou em organizar uma expedição para viajar ao sertão a fim de ver se Goiás existia mesmo…

Sempre foi muito pobre e atrasada, a literatura de Goiás. Por causa do atraso econômico e do isolamento geográfico, a produção intelectual dos goianos foi até há pouco tempo muito escassa, chinfrim, imitativa e retardatária. Os movimentos da criação literária e transformação cultural chegaram sempre com muito atraso a Goiás. No tempo da colônia quase nada se produziu. Após a Independência, o que se fez tem pouca importância e significação. Goiás tem sido uma região periférica. O arcadismo de Minas e do Rio, o neoclassicismo da época da mineração, por exemplo, se manifestou em Goiás, porém com um atraso grande no tempo e trazido por um poeta talvez mineiro, talvez carioca, Bartolomeu Antônio Cordovil. O romantismo já morria em São Paulo e no Rio de Janeiro quando Félix de Bulhões o praticou em Goiás; e já morrera fazia muito tempo, quando Joaquim Bonifácio de Siqueira ainda continuava — fiel — a exercê-lo. E o Modernismo da década de 1920 só chegou a Goiás vinte anos depois, com Bernardo Élis, José Godoy Garcia e outros.

A geração de escritores e poetas que em Goiás superou o romantismo e o parnasiano apareceu, de fato, em redor de 1940.

A situação cultural de Goiás, na época do aparecimento do Rio do Sono, apresentava poucos pontos de contato com a dos centros culturais maiores São Paulo e Rio de Janeiro. Goiânia vivia um tempo diferente. Um tempo anterior. Os escritores e poetas que começaram a atuar em Goiânia, depois de 1930 e principalmente entre 1940 e 1950, enfrentaram a tarefa de superar um meio estacionado na atmosfera cultural do fim do século passado — um misto de romantismo e parnasianismo, castroalvismo e bilaquismo.

A poesia de Rio de Sono é original e forte. Constitui a primeira manifestação significativa da poesia denominada de modernista em Goiás. Poesia de lirismo e simplicidade, ternura por tudo o que existe, uma captação da essência amarga da vida, da essência alegre da vida. Aqui e ali, um tom de brincadeira e malícia, próprio dos poetas do 1922 paulista. Eis uma amostra, tirada do poema “Evocação de Maria Elvira”:
 
Um dia Maria Elvira me chamou no quintal de sua casa,
subiu no pé de manga,
apanhou manga
e jogou uma especialmente
para mim.
 
Joga, Maria Elvira ! ( A calcinha dela estava suja.)
      
Mas a poesia de Rio do Sono é séria diante da vida.

O autor inscreveu sob o título uma advertência: “Este livro foi escrito numa época em que não havia liberdade”. Refere-se à época da ditadura de Getúlio Vargas. Vem depois uma dedicatória: “Este livro é para MÁRIO DE ANDRADE, que morreu, mas há de ficar para sempre como lembrança de um homem; dedicado também aos outros homens, com exceção de Hitler, Mussolini, e Franco.”

A advertência e a dedicatória produzem uma impressão enganosa sobre o livro. Pensa-se que se vai ler um livro de poesia panfletária. Mas não é isso que acontece. Ao contrário. Na maioria dos poemas, Rio do Sono é repassado de lirismo, amor ao próximo, caridade, dó. Poesia toda compreensão e ternura humana, anseio de bondade, deseja de solidariedade. Poesia rica de observações psicológicas verdadeiras, essa espécie de verdades óbvias que a gente é quase tentado a consideração como a essência da poesia.
Aqui uma amostra:
 
A humildade dos homens que tiram retratos,
as mãos caídas,
o rosto firme, a roupa nova.
 
A humildade dos que devem,
A humildade dos que precisam de emprego,
a humildade dos que não esperam mais nada da vida,
acham que tudo é uma bobagem,
tiveram grandes decepções.
 
O poema termina assim:
 
Dentro, bem dentro de nós todos,
a mesma angústia, essa percepção que não se define
ao contacto das mãos, mas resiste ao vento, às chuvas,
aos dissabores e, principalmente,
aos inumeráveis equívocos a que sempre
estamos sujeitos...
 

Olhando a paisagem, o poeta vai definindo-a é um largo de cemitério. O poema se intitula “Paisagem gozada”:
 
O largo do cemitério é triste.
Você se lembra do velho Egídio?
Ele está dormindo nesta hora de sol quente.
No largo do cemitério da vida pára
quando os homens passam:
parece que os mortos, de dia, passeiam ali.
Pôr isso o largo é triste.
Ele é enorme e sofre do destino amargo de largo de cemitério.
 

O poeta e a noite. Vista e sentida, a noite provoca idéias, suscita sentimentos, relaciona-se como poeta:
 
A noite é uma mulher.
A noite quieta tem uivos
de cachorra doente.
A noite é como o silêncio
de um animal sofrendo.
A noite é pura como as mulheres
que andam à cata de homens.
A noite é a mesma criança sem rumo
como as que pedem esmolas instruídas pelos pais.
A noite é uma mulher
morta em desastre quando levava comida
para o marido operário...
A noite é um brinquedo de criança no lixo.
 

O poeta de Rio do Sono lembra aquela auto-definição de Carlos Drummond de Andrade:
 
Poeta do finito e da matéria
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas.
 

As lágrimas de Godoy Garcia não são fáceis, embora a piedade esteja no fundo da sua dureza. O poeta se afirma humano:
 
Gosto de todos.
Mesmo aos que consideramos inimigos;
para esses tenho as minhas reservas
nunca, porém, o meu ódio.
Sou daqui,
deste mundo.
 

Poeta do humano, “daqui, deste mundo”. Daí falar de preferência de crianças, bêbados, prostitutas, párias, arruinados, heróis anônimos, gente humilde. Sempre sem retórica e sem ênfase. Com versos diretos e curtos. Imagens substantivas e nuas.

No poema “Mulher do Povo”, a mulher é Rosa, o que lembra Drummond:
 
Rosa tinha um rosto
de menina.
Rosa tinha os seios
de moça
Rosa tinha os olhos
de uma prostituta.
Rosa tinha formas
de um irmão.
 
E no fim:
 
Rosa é pura e não sabe negar
quando
homens no beco se atiram contra ela
fedendo a suor
ou mesmo quando chove muito
que o barro toma conta do corpo
e eles fedem a roupa molhada, com mistura de barro
e suor.
Ela é pura como todas as puras
e em verdade ela é mulher boa e pura
como as que se entregam aos viciados em troca do
bem-estar deles
ou mesmo para servir a um amigo em horas penosas de
sua vida.
Rosa, a mulher do povo...
 

Em “A Rua dos Homens” o poeta afirma que a matéria do seu canto à a vida da rua:
 
Eu sou o poeta
desta pobre vida que está aqui na rua.
Eu sou o poeta sem muito recurso
mas faço versos assim mesmo:
alma da multidão que está na rua.
 
Explica a rua e repete:
 
Eu sou o poeta pequeno destas ruas
e me orgulho disso; poeta deste mundo
que não aprendeu direito nem aprenderá
jamais as regras de trânsito.
Poeta destas velhas e pobres ruas,
que às vezes sobem tortas
e às vezes descem retas, profundas na noite.
 

Poema duro quanto à significação e perfeito na estrutura e ritmo é “Os párias”:
 
Caiu um olho.
O homem ficou sem ele.
Caiu um dente.
O homem ficou sem ele.
Caiu a filha.
O homem passou vergonha.
Caiu a vergonha.
Vai pedir dinheiro emprestado no bordel.
 

“Os párias” é famoso em Goiás. Porém, mais famoso é o poema “Espécie de balada da moça de Goiatuba”, que está para a literatura de Goiás como o poema da pedra no caminho, de Drummond, está para a literatura brasileira. É um poema popularizado. O seu ritmo e simplicidade, malícia e amoralidade já se incorporaram ao patrimônio poético dos goianos. Tal como o nome de Drummond lembra “pedra no caminho”, José de Alencar a “virgem dos lábios de mel”, Monteiro Lobato, Jeca Tatu — assim o poema da moça de Goiatuba se liga a Godoy Garcia como algo de característico.
 
Em Goiatuba
tem uma moça
que o coração
grande ela tem
Em Goiatuba
tem uma moça
que coração
grande ela tem.
A moça de lá
é só chamar vem.
 

Assim começa o poema; e com variação pequena, termina assim. É o poema clássico e típico não só da poesia de Godoy, mas da poesia moderna de Goiás. Afonso Félix de Souza e Jesus Jayme fizeram paródias desse poema, o que lhe demonstra a enorme força expressional.

Também caracteristicamente godoiano e já famoso é o poema “Tudo tem seu tempo”, captação extra e expressão perfeita das características da cidade pequena brasileira:
 
Tudo tem seu tempo na pequena cidade.
Tempo de casamento.
É uma fartura
de casamento.
As mocinhas novas enjeitam
as velhas se entregam.
 

Embora original, a poesia de Rio do Sono lembra a de alguns outros poetas contemporâneos. Pôr isso se pode afirmar que é uma poesia de seu tempo. Poesia que reflete um tipo de sensibilidade e interesse peculiar à época em que foi elaborada. O lirismo simples tem uma ressonância de Manuel Bandeira. Um certo sentimento amargo do mundo sugere Drummond. A dose de malícia e, como dizer?, ironia também evoca Drummond e Bandeira. E como não pensar em Drummond, o do “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, quando se lê o “Canto ao poeta irmão de Harlem”?
 
Li, Langston Hughes,
eu li o teu poema “O negro fala dos rios”
E perante todos, neste instante de lutas, (não quero o silêncio, que é forma de luta de covardes),
eu quero falar de negros,
muito me comove falar dos negros.
 

O poeta Godoy Garcia abre a camisa ao peito e se diz filho remoto de Espanha. E canta:
 
A tua cantiga é de paz, Langston Hughes,
é canto de guerra.
 

Hughes está longe — nos Estados Unidos – e a mensagem a ele terá de percorrer uma distância enorme:
 
                                            Eu te quero afirmar que esta mensagem por sim mesma
é a mais simples acenação que um homem pobre colocado no sertão
do Brasil te pode fazer.
 
O poeta clama pela união dos homens — união e eficiência na luta:
 
                                 É preciso que suportemos os fantasmas porque senão
jamais eles serão destruídos,
de nada vale a batalha individual dos matadores de baratas,
será preciso uma desinfecção geral, poeta.
 
No poema “Menino Sozinho”, o quadro é de pintura e fábula:
 
Não há mão: há um toco de mão
Vem do campo onde ele mora montado em seu cavalo,
Vem no trote mole, desenhado curvas através das moradas, pedindo a sua esmola.
De longe, quando avista os meninos brincando no largo,
ele já apressa a marcha, depois fica ali parado,
esquecido, olhando os meninos.
 

O menino faz um intervalo curto e prudente na faina de mendigar, e se vai.
 
Quando volta, de longe ainda volve os olhos e observa
a garotada que vai pela noite a dentro,
despreocupada, como multidão de pássaros
no céu limpo e azul.
 

O poeta atravessa uma época difícil, dura: o mundo sofre, o mundo geme: uma guerra assola e calcina o mundo, desfigura a terra, a boa terra dos homens — a guerra destrói as cidade e as plantações dos homens. A época é de crueldade lá fora, lá longe: os nazista dominaram a Alemanha e cresceram para cima do resto da Europa, cresceram para a Violência organizada cientificamente. O poeta mora afastado do teatro da violência: está em Goiás, e somente sabe da Violência organizada cientificamente. O poeta mora afastado do teatro da violência: está em Goiás, somente sabe da Violência porque os jornais contam, o rádio noticia, as informações circular e chegam até este interior longínquo do Brasil. O poeta é contra a Violência. Quando a França caiu, o poeta gravou o momento amargo:
 
Eu escrevo o meu verso no escuro.
Ele traz o mesmo som do escuro.
Ele conserva minha alma.
Sei que a mão traça no rude papel as palavras mais rudes
trágicas palavras sem pontuação
nos caminhos certos.
Há uma chaga negra que desce,
entra pela pauta:
são as palavras que se consomem
ante a treva do papel.
Sei que este é o meu verso mais puro
Como a troca de olhar no momento exato da morte,
meu verso fixou este momento, esta insônia, estse pensamentos e estas quatro horas da manhã, silenciosas e trágicas.
 
O poema “Verdade” tem um tom de fábula imemorial e perene:
 
A criança foi buscar o mar
e trouxe o mar, brincando.
 

O mar foi então arrumado nas covas já preparadas; a lua foi trazida; houve conseqüências:
 
O mar estava fazendo as pazes com as novas terras
e olhava para as crianças com muita gratidão porque
até o próprio mar não acreditava
e agora ele dava graças por estar gozando da nova vida.
 
O lirismo de Godoy Garcia tem muita força:
 
Quando uma moça dorme
é ver coelinho dormindo
a gente pensa muita coisa
e ri dos pensamentos...
 
Outra amostra:
 
Quando as noites mais claras
são misericórdia para os que amam,
quando nós nos conhecemos intimamente,
quando são límpidas as noites, irmã,
a vida se torna generosa como o nascer
de broto na hora estranha da madrugada.
Quando as noites são tristes e velhas,
a resignação e a dignidade de todos
repousam no silêncio selvagem
das almas desesperadas.
Oh, irmã, nós dois caminharemos tristes, nós dois seremos como cegos unidos,
sem esquecer que tão logo seja possível
lutarmos pela vida, pelos homens, irmã.
 

A poesia de Rio do Sono é íntima das coisas perenes — o ar, a madrugada, a manhã, a noite, a mocidade, a velhice, o amor, a morte, a água, o mar, os rios, a coragem, a dignidade, a luta, a bondade, o tempo... É uma poesia do brilho de orvalho da verdade mais corriqueira e simples. Poesia de poucas imagens e metáforas, ordena-se como uma seqüência — em ritmo quase de prosa — de verdades coordenadas com energia e concisão: beleza concentrada. O verso mais simples é um achado revelador, uma informação inaugural, que surpreende e entusiasma. É a voz de um poeta sentidor do mundo, espiador do mundo, compreensivo e amoroso a todas as coisas. Poesia de sentimento sertanejo, sim, mas de expressão universal. Uma voz de Goiás no mundo.

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