revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:38 PM

Recordações de infância numa colónia portuguesa em África

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A polícia-política portuguesa, de então, e grosso modo os coloniais, frisavam que não iriam admitir em África que "mulatos" imitassem os "mulatos" do Brasil. Os autores brasileiros não eram vistos com bons olhos pela polícia política de Salazar  

 

João Craveirinha

O Professor Adelto Gonçalves da USP, pediu-me algumas linhas sobre o ilustre Machado de Assis (1839 —1908). É gratificante, porque através de Assis faço um rewind às memórias do "antigamente".

De facto conheço algo de Machado de Assis...sim senhor...de ouvir em casa desde infante pela geração de meu pai João (1920 —1997) e de meu tio, o poeta José (1922—2003). Tinham alguns livros dele: "Quincas Borba"; "Esaú e Jacó" (com a problemática da escravatura). Mas "Iaiá Garcia", "Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881), eram os títulos favoritos de meu pai João sénior, um especialista em língua e literatura portuguesas e admirador da literatura brasileira. Mesmo com as restrições de certa literatura do Brasil lá chegavam à colónia de Moçambique autores brasileiros e traduções. Algumas vezes, certos livros do Brasil, eram retirados das livrarias. Os autores brasileiros não eram vistos com bons olhos pela polícia política de Salazar. Exceptuando a revista "O Cruzeiro" de Assis Chateaubriand, 1892 —1968 (amigo do ditador português, Oliveira Salazar, 1889—1970).

A questão mestiça nunca foi referenciada positivamente

Outro aspecto, de identificação do mestiço de Moçambique com o Brasil e os EUA, era o factor mimético: Machado de Assis, filho de um mestiço pintor de casas (Francisco José de Assis, descendente de escravos alforriados do lado materno suponho) e de uma lavadeira açoriana-portuguesa (Maria Leopoldina Machado), ambos humildes. Uma mestiçagem luso-africana no Brasil, só que o "macho dominante" era o elo mais fraco do ponto de vista social: o mestiço.

Nas colónias africanas, mesmo em casos de relacionamentos do homem europeu (dominante) mulher africana (submetida) não eram aprovados socialmente. Daí a razão de raros casamentos mistos, oficiais. Impensável homem negro-mestiço com mulher branca. Eis a razão devido à extrapolação, da rejeição em Moçambique, a um Machado de Assis por temerem contaminação quer em ideais liberais quer no olhar marginalizado "do outro" para com as mulheres soit disant brancas — tanto as vindas de Portugal quer as filhas nascidas em África (pior). Este preconceito iria se reflectir inclusive na literatura e na poesia em que (uns) mesmo utilizando a língua portuguesa se demarcariam identificando com os valores negro-africanos (baNto) e outros com os portugueses ainda que reivindicando um espaço cultural sui generis dentro de Moçambique. Ora na literatura (início séc. XX) desde os pioneiros irmãos Albasines (João e José) a um Rui de Noronha (outro mestiço) passando por um José Craveirinha irrompendo pela negritude até às pioneiras do "gender", Noémia de Sousa na poesia e Bertina Lopes na pintura, há uma tónica comum em todos; são mestiços e seus modelos intelectuais eram os mestiços do BRASIL e mais os afros dos EUA (pela rebeldia). Em ambos os casos, descendentes de escravos: Machado de Assis, William Wells Brown (1814—1884), Frederick Douglass (1845—1895), citando os mais antigos, os dois últimos mais empenhados na causa anti-esclavagista além de escritores e editores.  

Literatura e autores do Brasil vistos com desconfiança

Ora estes aspectos genealógicos incomodavam os portugueses coloniais em Moçambique, por "serem maus exemplos". A geração de meus pais tinha dois modelos de negro — mestiços como referência: os brasileiros e os norte-americanos. Isto porque a geração deles era uma geração silenciada na sua dignidade de valores da fusão afro-europeia. O poeta José Craveirinha "cantou": "música de mulato asa amarrada", ele que era filho de uma negra moçambicana e de um branco português, sabia porque dizia isso.

O termo pejorativo mulato, no século XV na península ibérica, teria surgido do tráfico de escravos para classificar a besta de carga "parda" do cruzamento do cavalo superior (o branco) com a burra inferior (a negra). Resultando num mulato, macho de mula. Impensável ao contrário: homem negro com mulher branca. Os dicionários de língua portuguesa, editados em Portugal, somente depois de 1974 colocavam timidamente essa última possibilidade. Dentro deste critério colonial, Machado de Assis, eventualmente, seria catalogado de "cabrito" por ser filho de "mulato" com "branca", por tal "menos besta de carga" e mais próximo de branco.

A intelectualidade soit disant branca, portuguesa, de Moçambique rejeitava figuras como Machado de Assis pelo seu nível intelectual e postura de dignidade de um mestiço (ainda que mais claro) com a "ousadia" de casar com uma branca portuguesa de família conhecida do Porto (Carolina Xavier de Novais). Figuras mestiças como, Machado de Assis, eram para as autoridades coloniais em África, um mau exemplo para o "negro assimilado" considerado não indígena por ter a escolaridade primária e em particular para o mestiço em Moçambique (nomeadamente na capital colonial, cidade de Lourenço Marques, edificada no século XIX na terra dos baNto do clã dos Mpfumos. Situação de discriminação era pior na cidade da Beira).

Sempre existiu uma profunda clivagem entre o suburbano negro-mestiço e a cidade dita branca dos reinóis vindos da metrópole colonial e os filhos desses colonos portugueses de Moçambique. Era notória a adesão a influências quer da Rodésia quer da África do Sul do apartheid (1950 a 1970). Sobretudo a partir do pós 2ª Guerra Mundial, quando os caminhos da identidade cultural do negro-mestiço em Moçambique se definiriam mais acentuadamente através do desporto e da literatura nas décadas de 1940 a 1960. No período da luta pela independência a partir de 1962 a 1974 seria totalmente definido o assumir de uma nova nacionalidade na forja.

Os intelectuais brancos portugueses de Moçambique (crescidos ou nascidos) nunca se identificaram com a cultura negra-africana ou baNto se preferirem — um universo de 99% do total da população. Para esse núcleo europeu ou deles descendentes, válido era enaltecer os valores europeus numa visão de um mundo africano sem africanismos. Evidentemente que em tudo, há sempre raras excepções.

JOÃO CRAVEIRINHA é escritor e pintor. Nasceu em Moçambique e mora atualmente em Portugal

Nota: Em Moçambique no início da independência, prevaleceu o conceito norte-americano do "one drop rule" (regra de uma gota negra no sangue) do séc. XIX…em que deixava de haver mestiços para todos serem blacks por mais claros que fossem. Aliás está a entrar no Brasil actualmente essa corrente. No entanto em Moçambique, actualmente, está a haver um retrocesso conceptual em que a juventude soit disant mestiça reivindica o epíteto de mestiço - mulato (independente do tipo de mestiçagem). Por outro lado temos o exemplo dos mestiços sul-africanos (sobretudo de Cape Town) que se intitulam de "browns" e rejeitam ser "blacks"…Enfim coisas de situações anteriores coloniais…

Observação: o leitor deve ter percebido que, em respeito ao escritor, manteve a grafia original do texto. O título, portanto, não tem erro, como se poderia pensar.

 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:30 PM

A história ao modo de Emerson

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Uma breve lembrança da história dos Estados Unidos basta para nos convencer de que, neste curto período, um surto de prosperidade varreu a sua nação, dotando-a do mesmo espírito que contaminaria seu maior ensaísta. Emerson foi um intérprete nacional vigoroso, e se quisermos ter a idéia aproximada da psicologia que permeou a sociedade norte-americana, durante aqueles dois decênios e meio, é indispensável conhecê-lo

( Parte 1)



Ralph Waldo Emerson é um dos grandes ensaístas mundiais dos últimos cento e cinquenta anos. Nasceu em 1803, em Boston, EUA, e ficou famoso sobretudo pela publicação dos seus Ensaios, que viriam a lume quase em meados do século XIX, 1841. De acordo com Erick Hobsbawm, um século não equivale necessariamente a cem anos, podendo muito bem ser confinado entre dois marcos capazes de conferir uma relativa unidade nas grandes estruturas material e ideológica, formando uma Era. O evento conhecido como a Paz de Gand propiciou o começo de algo parecido na história norte-americana; com efeito, consideremos a seguinte conjectura: “Tanto para os Estados Unidos como para a Europa, o século XIX começou em 1815.” (André Maurois, História dos Estados Unidos). 1841, aquela outra ponta que nos interessa, não é um divisor de águas desta natureza, mas entre estas duas datas se passaram 26 anos – uma idade possível do novecentos “americano” que serviu de base para Emerson.

Uma breve lembrança da história dos Estados Unidos basta para nos convencer de que, neste curto período, um surto de prosperidade varreu a sua nação, dotando-a do mesmo espírito que contaminaria seu maior ensaísta. Emerson foi um intérprete nacional vigoroso, e se quisermos ter a idéia aproximada da psicologia que permeou a sociedade norte-americana, durante aqueles dois decênios e meio, é indispensável conhecê-lo. Tal psicologia – ou melhor, aquilo que gostam de chamar de caráter – esbanjou-se depois de 1815, quando, de uma vez por todas, foram rompidos seus últimos grilhões coloniais. Souberam, como nenhum outro povo à época, tirar proveito de suas duas independências – a política e em seguida a econômica – criando um sistema genuinamente seu, abraçando o nacionalismo e desdobrando sua maré humana na direção do oceano Pacífico. À expansão geográfica coincidiu a expansão do espírito: “Nascida da Geografia, nutrida pela História e confirmada pela Filosofia, a confiança própria foi elevada a credo filosófico e, com o tempo, individualismo se tornou sinônimo de americanismo.” (Henry Steele Commager, O espírito norte-americano).

Individualismo, otimismo, autoconfiança. Tais disposições de caráter já transbordavam de modo exuberante desde a época colonial nos Estados Unidos, levando-os a desprezar suas limitações objetivas, derivadas de seu estatuto político. Ausentava-lhes uma mentalidade histórica, dimensão por excelência da presença coletiva, mas isso pouco importava: de acordo com uma visão peculiar de mundo, não lhes faltaram personalidades exemplares, cujas vidas converteram em alegorias de Clio, respeitando a precedência do indivíduo sobre a sociedade. Foi assim com Thomas Jefferson: através deste homem os norte-americanos prescindiram de sua independência econômica para se afirmarem diante do mundo, bastando para isso a de ordem política. Em 1774, contando apenas 32 anos, impressiona a naturalidade com que o jovem estadista dispôs os Estados Unidos entre “as potências da terra”, ao redigir a Declaração da Independência. Entendera, na ocasião, que tal direito era “divino” e ponto final, alheio à real distância que separava o seu país das principais potências da época, no mundo Ocidental, França e Inglaterra. Diz Jefferson, “Quando o curso dos acontecimentos humanos obriga o povo a romper os vínculos políticos que o unem a outro povo para ocupar entre as potências da terra a posição igual e distinta à qual as leis naturais e divinas lhes dão direitos, um elementar respeito humano obriga-o a declarar as causas que motivaram esse rompimento.” 

Seria inimaginável um estadista brasileiro proferindo estas palavras no curso do século XVIII, ou mesmo agora, no tardio século XXI - mas que diferença, afinal, existiria entre nossa atitude e a dos EUA diante da metrópole britânica? Uma coragem semelhante causaria o escândalo de nossos homens públicos, dedicados executores daquilo que a mídia ironicamente classifica como “dever de casa” (Míriam Leitão, da Rede Globo, foi uma refinada manipuladora da expressão). Eis a fórmula unilateralmente responsável que por muitos anos empatou o nosso destino histórico, como o colonialismo inglês empatou o norte-americano - ou estariam os seus grandes estadistas enganados sobre a necessidade de se opor, também, à opressão econômica?

Fôssemos um dos Estados confederados naquele tempo, com a mentalidade política que tivemos e possivelmente ainda temos, é provável que, no Congresso Continental reunido em Anapolis, aconselhássemos os nossos irmãos a continuar pagando seus tributos ao rei Jorge III. Fica claro que nosso erro político mais imperdoável é fingir que revolução é coisa de radical, com que se alcunham os antigos comunistas, quando tão bem no-la ensinam os liberais de cepa, desde sempre. Por uma perversa distorção dos fatos, quando algum líder latino-americano é nutrido por um móvel semelhante ao de Jefferson, logo o acusam de insuflar a instabilidade e a baderna no continente. Não precisa de um algoz externo que o combata, como Washington e seus exércitos improvisados precisaram: nós mesmos cuidamos de massacrá-lo em favor alienígena. Se é que a América Latina é mesmo uma terra de excentricidades, esta é com certeza uma delas.

O insucesso das idéias republicanas entre nós na mesma época da Revolução Americana, culminando no assassinato de Tiradentes – entregue sem qualquer resistência à Coroa portuguesa - não me deixa mentir a respeito deste assunto. Mas, por ora, deixemos de lado as ilações, reconhecendo que a lição de Jefferson, genuína, acabou refletindo nas palavras de Emerson:
 
“Exprimi vossa convicção latente e ela será a opinião universal; pois aquilo que é mais íntimo torna-se, no seu devido tempo, o mais externo”.

História e sociedade estão entre as piores associações que se pode fazer em relação a Emerson, que aqui nos fala, evidentemente, na intimidade dos espíritos. A sociedade que Emerson aprova é, no máximo, aquela pequena comunidade de amigos com a qual mantém estreitas relações de afeto e cordialidade. Há um dualismo que há por trás de seu pensamento e consiste nisso: num extremo a sociedade, no outro o indivíduo, incompatíveis como água e óleo. A impossibilidade de conciliação entre ambos determina o seu próprio pessimismo. Melhor, portanto, é continuar absorvendo exemplos puramente pessoais para compreendê-lo e à sua nação, ainda que aqui nos interesse tirar algumas conclusões úteis da associação entre indivíduo e história. Gostaria, por isso, de insistir num segundo exemplo de natureza pública: James Monroe.

Em 1823 – portanto quase meio século depois da Declaração de Jefferson – os Estados Unidos eram ainda um território bastante incompleto, sem grande valia econômica e dotada de um poderio militar quase inexpressivo. E daí?, poderiam perguntar com franco desdém os conterrâneos do Benjamin Franklin, porque a despeito disso só prosperava a confiança no seu destino. A Doutrina Monroe, recémanunciada ao mundo, faria suspeitar que uma potência de fato existia por trás deste importante documento de política externa. Bastou que arrogassem na seguinte declaração: “é inadmissível a intervenção de qualquer país europeu nos negócios internos e externos de países americanos.”Ninguém disse que Monroe era um louco por causa disso, muito embora o país devesse esperar ainda pela transição ao novo século para sustentar esta posição com armas, se necessário, várias décadas depois (e não hesitou em fazê-lo contra o estertorante Império espanhol). Mas apenas depois da Guerra da Secessão é que a futura potência – graças à unificação norte-sul, ao expressivo aumento populacional e ao vertiginoso crescimento econômico – passou a ter as condições materiais para ensejar um efetivo controle geopolítico da região, baseado na força. 

Continua... 
 
 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:26 PM

O panóptico moderno

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O magistrado brasileiro e os meios de comunicação não possuem a sofisticação da narrativa paranóica ou do pensamento de Foucault. Longe disso. Ambos estão ligados em coisas miúdas, baixos instintos: o controle do poder e do dinheiro. Parece um roteiro de telenovela brasileira ou mexicana, com cenas filmadas em paraísos fiscais do Caribe e na Zona Sul carioca

E de repente, descobrimos que o Brasil vive num estado policial. O presidente da Suprema Corte denuncia escutas telefônicas e se diz vigiado por todos os lados. Incrível como alguém supostamente tão bem preparado só tenha constatado isso semanas atrás. Os meios de comunicação, é lógico, entraram na histeria do magistrado maior: o panóptico está disseminado. Uma grande descoberta. Podemos acreditar na surpresa geral, mas dá para imaginar também que se trata de fingimento. Eles tampouco explicitam a contradição entre o liberalismo de hoje e o desejo de controle total.

Se não bastassem as interpretações mundanas sobre o estado policialesco, surgiu a racionalização do filósofo. Coube a Roberto Romano a seguinte argumentação: “Sempre que, graças à coragem da imprensa, percebo as estrepolias dos arapongas, recordo os versos de Rimbaud: ‘Eis o tempo dos assassinos’. Se não matam os corpos com a facilidade de antigamente, eles aniquilam a esperança. O Brasil, com auxílio do segredo e da corrupção endêmica, é imenso e melancólico sepulcro do sonho democrático”. O intelectual se presta a formular razões para os jogos mais sujos e obscuros. 

O que se busca esconder nessa histeria é que o mundo globalizado deseja e vive a situação do filme Minority Report (2002), de Steven Spielberg. A polícia descobre o crime antes que ele aconteça. Para isso, utiliza o sistema de imagens que registra um homicídio ou roubo ainda não ocorrido. Trata-se do maior desejo, de um controle absoluto que sequer os regimes totalitários conseguiram. Spielberg lançou, por coincidência ou não, o filme um ano depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que provocou a radicalização do governo dos Estados Unidos. Foi o momento do Patriot Act..

A lei patriota permite a invasão de privacidade de qualquer pessoa em território norte-americano e a tortura para descobrir planos de atentado terrorista. Por privacidade, entenda-se desde gastos com cartão de crédito aos e-mails. Torturar é o que se eles fazem em Guantanamo e Abu Ghraib. Na ficção, temos Jack Bauer do seriado de televisão 24 Horas. O problema no Brasil e no mundo, portanto, não é a violação de direitos individuais em si, mas quem está sendo violado. Se o suspeito é um mulçumano ou negro pobre, está liberado o massacre psicológico e, sobretudo, físico.

Os aparelhos eletrônicos de hoje possibilitam o controle da sociedade que foi apenas esboçado no passado. O panóptico de Bentham, analisado por Foucault, era uma estrutura (no caso, uma torre de observação) que permitiria a vigilância plena de um indivíduo que, por sua vez, sabe que está sob um olhar vigilante. É o aparato para administrar uma prisão, uma escola ou um hospital psiquiátrico. Hoje, esse mecanismo está espalhado até nos avisos em elevadores “Sorria, você está sendo filmado”. Dado o cenário, é difícil entender a atual queixa da violação de direitos no Brasil.

O panóptico moderno funciona como uma das armas do capitalismo globalizado. Segundo a revista Business Week, empresas já fazem rastreamento do que os usuários do Twitter escrevem sobre elas. Foi o caso de um passageiro da companhia aérea Jet Blue, que estava com vôo atrasado e contou sua história pelo Twitter (sistema de blog com mensagens curtíssimas de 140 caracteres). Em dez minutos, ele recebeu um e-mail de empresa se explicando pelo atraso. A reação dele foi: grapearam a rede sem fio de internet do aeroporto.

Um dos efeitos do panóptico é a disseminação da paranóia como forma de vida e de pensamento. É essa a grande sacada dos escritores Don Delillo e Ricardo Piglia. A narrativa paranóica (onde tudo faz sentido) organiza o pensamento moderno. Oliver Stone apontou esse mecanismo de maneira formidável no filme “JFK” (1991), no caso a grande paranóia em torno do assassinato do presidente dos Estados Unidos John Kennedy. Pouco importa a veracidade das “provas” do filme de Stone, pois sua qualidade está na busca enlouquecida por um sentido. Isso é o mundo de hoje: global e paranóico.

Segundo Piglia, “a idéia de conspiração também tem a ver com uma dúvida que poderia ser formulada assim: como o sujeito privado vê a sociedade? Eu digo que sob a forma de um complô destinado a destruí-lo. Ou, dito de outro modo: a conspiração, a paranóia estão ligadas à percepção que o indivíduo constrói em torno do social. O complô substituiu, assim, a noção trágica do destino. (...) A tragédia estabelecia um elo entre aqueles que conheciam esse destino, os deuses que emitiam mensagens obscuras, e o indivíduo que as interpretava bem ou mal. Penso que hoje os deuses foram substituídos pelo complô, quer dizer, há uma organização invisível que manipula a sociedade e produz efeitos que o sujeito também procura decifrar”.

O magistrado brasileiro e os meios de comunicação não possuem a sofisticação da narrativa paranóica ou do pensamento de Foucault. Longe disso. Ambos estão ligados em coisas miúdas, baixos instintos: o controle do poder e do dinheiro. Parece um roteiro de telenovela brasileira ou mexicana, com cenas filmadas em paraísos fiscais do Caribe e na Zona Sul carioca. Para justificar seus interesses, eles recorrem aos argumentos mais rasos, cínicos e desinformados a respeito de algo que, na verdade, perpassa toda a organização social, em várias partes do mundo. 

 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:25 PM

Subliteratura globalizada

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Jabor encarna bem o espírito e as misérias do novo colunismo. Diretor de cinema de certa fama, ele despontou nesse papel nas páginas da Folha de S. Paulo durante o governo Collor. A mistura de apocalipse brasileiro e esperança globalizada trouxe uma interpretação para crise brasileira dos anos 1990
 
 
Os jornais brasileiros copiam perversamente as mesmas fórmulas, uns dos outros, e até mesmo a distribuição de temas em suas páginas. Em todos os cadernos culturais, existe o espaço de página inteira das hediondas colunas sociais, com um misto de celebridades e baixos instintos do mundo político e empresarial. Depois de atravessar as mundanidades, horóscopos, palavras cruzadas e quadrinhos, o leitor chega à última página desses cadernos onde ficam os pensadores culturais. É o reduto do colunista que, supostamente, permitiria baixar o fôlego para se refletir o destino do mundo.

Folha de S. Paulo
, Estado de S. Paulo e O Globo reservam, atualmente, a parte de cima da última página de seus cadernos culturais à figura do colunista célebre. Estão lá no mesmo lugar dos jornais, como se fosse uma estratégia científica a definição de tal espaço. Eles se escrevem uma vez por semana e estão, portanto, livres das pressões cotidianas dos jornalistas comuns. O formato não é mais o da velha crônica que, lembra Silviano Santiago, teve o seu auge no final dos anos 1950 e se tornou uma “subliteratura desenvolvimentista” para atender o público pouco letrado de então. 

Os novos cronistas deixam de lado a breve ficção que fez a fama de Rubem Braga. Alguns jornais, como O Popular, ainda possuem cronistas à moda antiga. Hoje, porém, o modelo dessa crônica está próximo do comentário – menos ficcional e mais parecido ao ensaio. Não se contam mais as coisas vistas ou as experiências vividas no cotidiano dos autores. As colunas preferem comentar um tema cultural ou político da semana. Com o tempo, o autor torna-se conhecido do público e vira uma franquia comercial ao estilo do McDonald´s, com outros jornais reproduzindo seus textos.

Cada jornal monta a sua galeria no espaço da última página do caderno cultural. Na Folha de S. Paulo, podemos encontrar desde os conservadores como Nelson Archer, João Pereira Coutinho, Carlos Heitor Cony e Antônio Cícero, até as figuras moderadas como Marcelo Coelho, Contardo Calligaris e Dráuzio Varella. Aos domingos, o jornal oferece os textos de Ferreira Gullar, que é um grande poeta e crítico de arte, mas um pensador menor. Note-se a ausência de mulheres. Quem lê esse espaço ao longo da semana, tem o ponto de vista de intelectuais homens, brancos e de classe média.

O jornal O Globo escolheu vários jornalistas da casa para ocupar as colunas de contra-capa do Segundo Caderno. Mesmo que se discorde (e muito) dos colunistas da Folha de S. Paulo, o nível cai sensivelmente no diário carioca. O menu inclui Arnaldo Bloch, Arnaldo Jabor, Arthur Dapieve, Arthur Xexéo, Cora Rónai, Joaquim Ferreira dos Santos e o fictício Agamenon Mendes Pedreira (criado pela turma do Casseta & Planeta). A perspectiva é de uma classe média de Ipanema que transformou as questões próprias da cidade do Rio de Janeiro em categoria de identidade nacional.  

Jabor encarna bem o espírito e as misérias do novo colunismo. Diretor de cinema de certa fama, ele despontou nesse papel nas páginas da Folha de S. Paulo durante o governo Collor. A mistura de apocalipse brasileiro e esperança globalizada trouxe uma interpretação para crise brasileira dos anos 1990. Diante da ausência de saídas para o país, Arnaldo Jabor abraçou a Razão, sintetizada no presidente-sociólogo em sua marcha modernizadora, porém sempre conservadora. A franquia Jabor invadiu aos poucos os telejornais, os programas de rádio e o circuito de palestras para empresários no interior.

Entusiastas do Movimento de 1932, os donos do Estado de S. Paulo copiaram o modismo das colunas culturais da concorrência. Para quem teve Décio de Almeida de Prado em seu Suplemento Literário no final dos anos 1950, é duro se contentar hoje com a franquia Jabor ou o teórico do senso comum Roberto da Matta. O leitor pode acompanhar o o antropólogo Mathew Shirts e os escritores Ignácio de Loyola Brandão, Marcelo Rubens Paiva e Luis Fernando Verissimo (este também, um franqueado). Na comparação política com os colunistas em geral, Verissimo ocupa a extrema-esquerda.   

Os colunistas vão publicando seus textos ao longo de uns dois anos e, em seguida, juntam tudo num livro. Assim o comentário se “eterniza”, subindo alguns degraus na lista dos mais vendidos das livrarias. Os leitores fazem um “control+C” e um “control+V” das colunas para entulhar caixas de e-mail com os mais recentes preconceitos de Arnaldo Jabor ou do gajo retrô João Pereira Coutinho. Cria-se uma subliteratura globalizada e com ampla circulação na sociedade em rede. E o melhor do pensamento brasileiro segue muito, muito distante das páginas dos cadernos culturais.

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:22 PM

Vida Louca Vida

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Narrativas ficcionais dos anos 1980 permitem ao leitor de hoje conhecer as maneiras como os brasileiros se viam no espelho e o que esperavam do futuro naquela estranha época. Aqui e na Europa, foi a fase da “nova subjetividade”, de muita escrita do “eu”



Foi o escritor Sérgio Sant´anna quem soltou a provocação com “Um Romance de Geração” (1980). Como fazer um retrato pessoal de um período histórico? No livro, o personagem Carlos Santeiro é um escritor mineiro no Rio de Janeiro do começo da década, que viria a ser chamada de “perdida”. A narrativa se organiza na forma de um diálogo teatral de Santeiro e uma jornalista que vai entrevistá-lo. Estão lá alguns sinais da época: o indivíduo isolado na metrópole, o culto às bebidas alcoólicas, as polêmicas arte versus política, o apartamento minúsculo na Zona Sul carioca, os vizinhos de olhos grudados na televisão. A dúvida do personagem era sobre o que escrever após o fim da ditadura militar que fomentou a carreira de muitos autores.

Narrativas ficcionais dos anos 1980 permitem ao leitor de hoje conhecer as maneiras como os brasileiros se viam no espelho e o que esperavam do futuro naquela estranha época. Aqui e na Europa, foi a fase da “nova subjetividade”, de muita escrita do “eu”. Exemplo bom é o conto “Os sobreviventes”, em “Morangos Mofados” (1982), de Caio Fernando Abreu. Um homem e uma mulher lembram que já experimentaram de tudo e continuam angustiados: “Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia”. Eles não se cansam de falar das experiências sexuais e do desconforto com as pressões de trabalhar para sobreviver. Tudo parece confuso.



Sérgio Sant´anna

E era realmente um período muito confuso. A ditadura brasileira caminhava para 20 anos no poder. O regime cortou o laço da classe dos “letrados” com os “simples” do povo que foi ensaiado no pré-golpe de 1964. O dinheiro tornava-se a bússola das relações sociais, e os projetos de uma nação brasileira perdiam popularidade. Caminhava-se rumo ao desconhecido que, aliás, os Estados Unidos já tomavam conhecimento com Ronald Reagan. O ex-ator inicia a revolução (a “right wing turn”), como bem aparece na peça teatral “Angels in América” (1994), de Tony Kushner e que foi transformada brilhantemente numa minissérie de televisão por Mike Nichols. Tempos que os “fast thinkers” batizaram de Fim da História.

Aqueles anos são também das idéias de Lyotard. De um ensaio dele, nasceu uma explicação para o Primeiro Mundo que confundiu a cabeça de muita gente no Terceiro Mundo. Segundo ele, as grandes explicações (marxismo, psicanálise, religião) se esgotaram. Não adianta mais buscar a totalidade das coisas, pois restaram apenas os fragmentos. A informação e a técnica assumem o lugar do conhecimento e da ideologia. Tudo virou pós-moderno. O trabalho humano perdia sua razão de ser, e o importante era o consumo, o ato de comprar. O estrago foi imenso num país como o Brasil, que antes mesmo de completar sua formação deveria desconstruir o pouco que já havia feito. Iniciava o momento do desmanche.  

Caio Fernando Abreu tinha dois companheiros na observação da sociedade que “deixava de ser antes de ter sido algo”. Naquele tempo, Cazuza viu o indivíduo de vida fácil que “dava autógrafo em telão de cheque” – um aspecto que o filme “Cazuza” não conseguiu captar. Ainda disse que “meus heróis morreram de overdose, os inimigos estão no poder”. Renato Russo notou a geração coca-cola dos “burgueses sem religião” e um sujeito nordestino que se muda para Brasília e morre num “faroeste cabloco” coberto ao vivo pela televisão. Para quem viveu esse período, não é de se estranhar que Abreu, Cazuza e Russo terminassem fulminados pela Aids, a doença que abalou a herança da liberalização sexual dos anos 1960.



Cazuza

Um “romance de geração” que focaliza o bode dos anos 1980 é o livro “Aos Meus Amigos” (1992), de Maria Adelaide Amaral. É a narrativa do luto pela perda de um amigo comum dos personagens. A autora reúne uma trama de vozes melancólicas e faz um trabalho de luto de um período histórico. A conclusão fácil para o leitor de hoje é a das “ilusões perdidas” – por sinal, um pensamento bem pós-moderno. O livro virou agora minissérie da TV Globo (“Queridos Amigos”), com aquela higienização visual e textual da teledramaturgia. Trata-se de revisar 1989 pelos olhos de 2007. Telinha pós-modernista: os personagens esquerdistas são fracassados, feios e chatos, e os bonitões votam em Mário Covas, são bem casados e têm profissões bem sucedidas.

Ninguém sabe o que se passou na cabeça de Chico Buarque ao lançar “Estorvo” (1991), na mesma época que Maria Adelaide escreveu seu romance. A própria esquerda reconhecia a derrota com o desmanche da União Soviética, e havia a crença de que o mundo seria salvo pelo mercado. Mas, ao invés do luto de geração, o compositor popular e lírico escolheu uma narrativa suja, repetitiva, personagens sem nome, classe média morando em fortalezas urbanas. O protagonista “Eu” vaga pela metrópole e vai se ferindo pelo caminho. Em que diabo estava pensando um dos símbolos da resistência à ditadura militar ao escrever de forma tão estranha? Pode ser a resposta ao personagem de Sérgio Sant´anna a respeito do futuro pós-ditadura.



Caio Fernando Abreu

“Estorvo” antecipou a linhagem de narrativas das metrópoles brasileiras em ruínas que, hoje, se dissemina em romances, contos, filmes e canções. Poucos entenderam a obra em 1991, porque esperavam a escrita do decifrador da alma feminina. Wilson Martins chegou a acusá-lo de plágio. Chico Buarque, porém, foi um dos poucos a sacar o que vinha ocorrendo no Brasil e escolheu a escrita para desenvolver isso. Não é à toa que, no CD “Carioca” (2006), deu um passo à frente ao flertar com letras de rap que narram a vida louca (vida) nas cidades brasileiras. Ele não vai se tornar o Mano Brown da MPB, mas está atento ao caldo cultural que surge fora dos centros pós-modernos de consumo. É fim de linha, canta Chico.

 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:19 PM

Arte é o que eu digo que é arte

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Diferente da literatura, para quem basta um leitor, a música precisa de um intermediário entre ela e o ouvinte, o intérprete. Também diferente da literatura, uma partitura não é como um livro. A primeira só é compreendida por 0,00001% de uma população alfabetizada. O livro, por 100% de alfabetizados (naquela língua, evidentemente)


 

De repente, sem perceber, caímos no mesmo buraco de sempre. Minha opinião contra a sua. Mas, antes, lembremos o que nos trouxe aqui. Leiamos novamente esse trecho do interessante artigo de Ademir Luiz, publicado na Bula anterior:          
               
“Arte seria o resultado dos esforços individuais de uma mente criativa, de uma personalidade singular, na produção de um objeto, no sentido lato ou enquanto receptáculo, que prima por sua singularidade, valor espiritual ou intelectual. Segundo esse critério, nem o boxe, por ser uma atividade físico-motora, nem o cinema, por ser obra de uma equipe, seriam arte. Felizmente, o mundo real não é tão simplista assim. No texto “
Woody Allen é o filho pródigo de Dostoiévski”, publicado na coluna Imprensade 27 de agosto de 2008, num trecho no qual compara desfavoravelmente o cinema com o boxe, o jornalista Euler de França Belém, escreveu que “o que me surpreende é a quantidade de gente inteligente, como Flávio (Paranhos), Ademir Luiz, Lisandro Nogueira, Enio Vieira e Lourival Belém, encantada com cinema”. Não posso falar pelos confrades citados, mas, pessoalmente, apesar de ser “encantado” com cinema, não considero cinema como arte. Cinema é indústria. Porém, uma indústria que, em casos raríssimos, permite que alguns indivíduos produzam arte dentro de suas engrenagens, como parte de uma estratégia de busca por legitimidade.” [Grifo meu]   
             
Ademir (traidor!) repete o argumento de que os detratores do cinema mais gostam, que ele é feito por muitos, é uma “indústria”, por isso não é “arte”. Mantenho, teimosamente, que esse argumento é muito frágil. Não é a quantidade de pessoas envolvidas na feitura de uma obra que determina se é arte ou não. Uma sinfonia não existe sem vários músicos e o maestro. Uma ópera, sem vários músicos, o maestro e vários cantores. Ainda que seja uma simples peça para piano, que necessite somente de um bom pianista, ainda assim só será arte quando tocada. Mais do que isso, só existirá quando tocada. Diferente da literatura, para quem basta um leitor, a música precisa de um intermediário entre ela e o ouvinte, o intérprete. Também diferente da literatura, uma partitura não é como um livro. A primeira só é compreendida por 0,00001% de uma população alfabetizada. O livro, por 100% de alfabetizados (naquela língua, evidentemente). Dizer que uma partitura é arte por si só é subestimar a inteligência do interlocutor. Mas tudo bem. Opiniões são assim mesmo.
               
E o teatro? De certa forma, cabe ao teatro o mesmo que cabe ao cinema. O roteiro e a peça são artes independentes? Como diz Ademir, o traidor, o mundo não é tão simplista. Nunca vi uma peça de Strindberg ser encenada, e, no entanto, sempre que as leio, considero-as arte e das boas. Por outro lado, tenho certeza de que se as assistir (admitindo-se que sejam boas interpretações), serão mil vezes melhores (mil vezes “mais arte”). O caso do roteiro é um pouco diferente, até porque praticamente não há disponível para ler (a não ser quando filme faz muito sucesso). Um roteiro pode ser o principal responsável pelo sucesso artístico de um filme, a ponto do roteirista ser considerado seu autor, mas raramente terá vida própria.          
        
O que realmente diferencia o cinema do teatro e da música é que, para aquele, a autoria não é ponto pacífico, para estes, sim. Por melhor, mais apurada, que seja uma encenação de “
As Três Irmãs”, o autor sempre será Tchékhov. Por mais sublime que seja uma interpretação da “Sinfonia Júpiter”, o autor permanecerá sendo Mozart. Os atores da peça e os músicos da sinfonia são artistas sim, por que não? Mas não são seus autores.
               
Quanto ao cinema... Em alguns casos é fácil. Woody Allen é o exemplo clássico. Escreve, dirige, escolhe as músicas e edita todos os seus filmes (note que não cito aqui o fato dele atuar em vários de seus filmes, pois isso não contribui em nada para sua autoria). Tarkovski geralmente terceirizava o roteiro, mas dirigia e editava. Tarantino roteirizou, dirigiu e editou “
Pulp Fuction” (Tarantino é o homem de um filme só, portanto cito só esse). Bergman, Lynch, Buñuel, Godard, Greenaway, etc, etc, são autores de seus filmes.
               
A questão, portanto, diz mais respeito à autoria do que ao fato de ser ou não ser “arte”. Trata-se de analisar a qualidade, e não a quantidade (de gente envolvida na realização). Da mesmíssima forma que um livro pode ser arte ou lixo, assim também um filme. Mas aí termina um problema e começa outro. O que é lixo e o que é arte?
               
Se arte for aquilo que me sensibiliza, me emociona, me faz pensar, então... arte é tudo aquilo que eu digo que é arte.  


 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:17 PM

Crime e castigo

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A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros





Flávio Paranhos escreveu na edição anterior desta Revista Bula, taxativo: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Crime e castigo”. A frase pode muito bem ser lida como uma mera “opinião de torcedor”, segundo ele próprio critica a respeito dos comentários ao artigo dele postados no mural da Bula. Portanto não é de se admirar que os comentários tenham sido, naquele momento, no mesmo nível. No texto publicado depois, melhorou um pouco, mas está muito longe de ter convencido.
 
O problema maior talvez esteja já no título, bem geral, “Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski”. Pura provocação, e a Bula dá sempre o maior destaque para as polêmicas. (Como critico isso, peço ao editor que não cometa o mesmo erro, colocando meu texto em primeiro plano, mas sim no espaço que ocupo normalmente na minha coluna). Dentro do artigo de Paranhos, isso já fica mais atenuado. É o final do filme de Woody que é superior, filosoficamente, porque “aberto” a várias teorias morais, em relação ao Epílogo, “fechado” de Crime e Castigo. Mas depois, a afirmativa vira de novo generalista -e por isso mesmo empobrecida- de que “o filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a ‘correta’” (grifos meus). Algo que é repetido na chamada do artigo da revista.
 
Sem querer discutir neste momento a validade do argumento enunciado, que elege a variedade de teorias morais como critério para decidir se uma obra é mais rica (ou “filosoficamente superior”) a outra, algo em si bastante discutível, a minha oposição é que: primeiro: o livro não pode ser considerado “fechado”, pois dá expressão a várias vozes. Abstraindo-se o final moralizante, as personagens de Dostoiévski sempre são polifônicas. Algo implícito até mesmo no nome Raskólnikov, personagem principal de Crime e Castigo.Raskol”, em russo, significa “cisão”, “fragmentação”, caracterizando o personagem como cindido e atormentado. Trata-se de uma “consciência fragmentada”.
 
A esse respeito remeto o leitor ao ensaio de Boris Schnaiderman, “Dostoiévski: a ficção como pensamento”, publicado na coletânea Artepensamento, organizada por Adauto Novaes. Schnaiderman cita dois trabalhos russos: “Dostoiévski e Hegel (Sobre o problema da ‘consciência cindida’”), de V. A. Batehínin, e “Sobre a problemática ético-filosófica do romance Crime e Castigo”, de I. F. Kariákin.
 
O tradutor para o português de Dostoiévski, nascido na Ucrânia, afirma que ambos fazem referência ao item “A lei do coração e o delírio da presunção” do capítulo “Certeza e verdade da razão”, da Fenomenologia do espírito de Hegel. O item contém uma análise da revolta do indivíduo, que afirma sua lei em oposição à lei a que todos se submetem e, ao mesmo tempo, apresenta esta sua lei como algo necessário ao bem estar da humanidade. Schnaiderman então se pergunta: “Não se tem aí algo muito próximo às lucubrações de Raskólnikov sobre o ‘direito’ que teria de matar a velha usurária, uma criatura que não faria falta ao mundo e graças a cuja morte ele poderia fazer o bem a tantas pessoas?”.
 
O importante, contudo, de acordo como arremata o próprio Schnaiderman, não é tanto “pesquisar uma possível influência de Hegel sobre Dostoiévski, mas sim mostrar como as mesmas preocupações levaram Hegel àquela reflexão e se corporificaram na personagem Raskólnikov”. Ele ressalta ainda que foi preciso esperar por Mikhail Bakhtin e seu livro Problemas da poética de Dostoiévski, de 1963, para que se tivesse uma abordagem realmente em profundidade do embate de idéias na obra do romancista -que Schnaiderman chama de “o romancista-filósofo por excelência”-, do estudo das vozes que as expressam, e do que este embate representa como princípio estruturador. Cito integralmente a opinião de Schnaiderman sobre o texto de Bakhtin (também tratada por ele em dois outros livros):
 
“Segundo Bakhtin nos mostra com grande riqueza de pormenores, Dostoiévski não constrói seus romances e contos em torno de sua ideologia, mas joga-a em meio às demais, discute com suas personagens, dá maior força de convicção ao oponente, em suma, realiza o tipo mais elevado do romance de idéias, aquele em que as personagens encarnam princípios e concepções de mundo, sem perder nada de sua extraordinária vitalidade”.
 
A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros. “Dostoiévski, o único psicólogo, seja dito de passagem, do qual tive algo que aprender” (Nietzsche). Nem Woody Allen, que costuma fugir dessas comparações, teria a pretensão de ter “superado filosoficamente” o mestre russo, por mais criativo que seja o seu cinema e apesar dos filmes dele estarem muito acima da média dos atuais. Qual personagem de Woody tem a mesma força marcante do “personagem-ideólogo por excelência” Raskólnikov?
 
Em Crimes e Pecados, o personagem Judah Rosenthal é uma sombra do princípio que rege Raskólnikov, uma mera variação, pálida e superficial, deste. Ele, ao contrário do russo, não se arrepende de ter mandado, por sugestão de outro, mais “malvado” do que ele, matar a sua amante e não se entrega. Ele não aspira a nada mais do que manter a sua estabilidade de homem bem-sucedido e casado. Raskólnikov, afirma Dostoiévski, no epílogo do romance, estava disposto a dar sua vida “por uma idéia, por uma ilusão, até por um sonho. A simples existência sempre tinha significado pouco para ele; sempre aspirara a mais. Talvez só pela força do seu desejo chegara a sentir-se então um homem ao qual era permitido mais do que os outros”.
 
A propósito da influência de Dostoiévski -e mais especificamente do personagem Raskólnikov, “germe do ‘espírito livre’ nietzschiano”, contrário ao sujeito ressentido- sobre o Nietzsche, a professora de filosofia da Universidade Caxias do Sul Jaqueline Stefani assinala, em artigo intitulado “Nietzsche e Dostoiévski: A unidade e o limiar”:
 
“As personagens de Dostoiévski são, como afirma Bakhtin, polifônicas, ou seja, há múltiplas vozes que falam, não havendo uma consciência, mas várias que coexistem num diálogo constante dentro de um mesmo ser numa profunda tensão psicológica. É um esforço demasiado perigoso tentar caracterizar seus protagonistas quanto ao caráter ou à personalidade, de modo unívoco. Neste sentido vejo o primeiro encontro com a teoria de Nietzsche: a crítica à unidade da consciência.”
 
Ainda segundo a professora, mestre em filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), “Dostoiévski, em suas personagens, brinca com as várias perspectivas, com essas múltiplas vozes, das quais, nenhuma tem a ‘palavra final’, é a dialogicidade e a polifonia, características que, ao que parece, Dostoiévski foi pioneiro. Na obra Memórias do subsolo, percebe-se um constante movimento dialético sem síntese. De uma afirmação segue sua própria negação. É a descrição da própria inconstância de um sujeito que não consegue afirmar seu próprio ser.”
 
É nos personagens, portanto, e na obra inteira, não ancorando-se apenas no epílogo de Crime e Castigo -assim mesmo, muito superior, em filosofia, densidade dramática e poesia ao final do filme de Woody Allen- ou no cristianismo de Dostoiévski, que se deve procurar pela polifonia de vozes, internas aos personagens, que são multidimensionais. Não se deve confundir o autor com a obra. Assim como em Os Irmãos Karamazov, há quem se identifique com o pensamento de Aliocha, outros, o meu caso, com o de Ivã. Podemos perceber no homem “extraordinário”, representado em Crime e Castigo por Raskólnikov, vestígios do “além-homem” de Nietzsche. Por isso, entre outras razões que já citei e outras que não preciso destacar agora, a tese de que Crime e Castigo seria “filosoficamente inferior” a Crimes e Pecados, em razão do seu final “fechado”, é fundamentalmente errada.

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:16 PM

Transparente/opaco

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Não é fácil digerir Coetzee, e tampouco ele facilita a vida dos leitores. Quem já leu seus ensaios sabe onde está pisando. São poucos que se atrevem a criticar e apontar as debilidades de Faulkner ou Benjamin

Em Diário de Um Ano Ruim, Coetzee dá um passo ousado na literatura de hoje. Cada página do livro abriga três narrativas simultâneas, uma em cima da outra: os ensaios do narrador, suas observações e as anotações de uma moça que transcreve os escritos desse ensaísta. O leitor dificilmente poderá acompanhar os fragmentos ao mesmo tempo, com uma lida de cabo a rabo, de uma sentada só. É comum associar a qualidade de uma obra à fluidez da leitura. Coetzee nos força a ler o livro uma, duas ou três vezes e buscar diálogos e correlações de múltiplos níveis. Pobre leitor que compra um livro no aeroporto e espera conhecê-lo um pouco durante sua viagem.

Não é fácil digerir Coetzee, e tampouco ele facilita a vida dos leitores. Quem já leu seus ensaios sabe onde está pisando. São poucos que se atrevem a criticar e apontar as debilidades de
Faulkner ou Benjamin. (Imagine o que ele diria de autores de literatura brasileira contemporânea.) No ano passado, o escritor sul-africano mostrou o quanto joga contra a escrita mercantilizada, barateada e espetacular. Ele se negou a jogar conversa fora em sua participação da Flip, que virou o Rock in Rio das letras e vitrine dos best-sellers das editoras locais. No lugar de anedotas e papo furado, fez apenas uma leitura concentrada dos originais de Diário de Um Ano Ruim. Leu e foi para o hotel.

O leitor contemporâneo busca livros anti-Coetzee. O romance Desonra é altamente dissimulado ao trazer uma linguagem aparentemente realista. Pode-se assim achar que seu autor facilita o trabalho do leitor. Enganam-se os leitores. Em Elizabeth Costello, Coetzee alertara o público distraído para as aparências do realismo ao analisar um conto de Kafka, no qual o único estranhamento está no fato de um macaco ser um conferencista. Se fosse um homem, o conto seria realista, diz ele. A escrita de Coetzee questiona as facilidades dos textos que têm pretensão de transparência. Aqueles que acreditam na escrita transparente ignoram que o realismo pode estar na mais opaca das narrativas.    


A escrita-mercadoria sonha com a transparência e o entendimento rápido. Nesse esquema, a palavra só pode ter um único significado. Os advogados defendem que os termos jurídicos devem ser como são (impenetráveis) porque possuem a mais absoluta exatidão, quase científica. Também era o desejo de Zola quando formulou sua teoria do real. O estilo naturalista deveria ser um espelho do mundo. Não é preciso rir do positivismo do escritor francês do século XIX ou da pretensão dos cientistas do Direito. Igualmente risível é a crença dos jornalistas de que o jornal reflete o mundo. Em comum, é a devoção ilusória da comunicação objetiva. 


Num surto de megalomania, os jornalistas criaram o subgênero do “jornalismo literário”. Que diabo venha a ser isso, ninguém sabe definir. Dizem se tratar de textos com recursos literários da ficção. Mas pouco se esclarece que ficção é essa. O uso de artefatos textuais não define os conceitos de qualquer tipo de escrita, seja ficcional, historiográfica ou jornalística. Tampouco o literário está ligado à beleza das palavras. Piglia lembra de forma apropriada como Robert Arlt reformulou a literatura argentina com uma escrita feia. Lacan ressaltou a descoberta joycena do trocadilho the letter/the litter. A letra pode ser lixo, a literatura pode ser lixeratura. A letra desliza para a latrina. 


Quanto mais significados tiver, mais rico o texto. A importância de um livro de ficção se mede também pela sua capacidade de possibilitar inúmeras leituras. A palavra perde a transparência e ganha opacidade. O leitor ingressa nos domínios do claro enigma de Drummond. Faz algum tempo, Paul de Man discutiu se toda escrita é uma metáfora. (O texto jornalístico também é metafórico.) Os significados se multiplicam e, para o desespero de muitos, se metamorfoseiam ao longo da história. Cânones são profanados. A letra torna-se instável, o que apavora os filósofos tão ciosos com a exatidão e clareza da linguagem. Uma conjectura: filósofos tradicionalistas são leitores fracos de obras literárias.   

Derrida interroga Paul de Man, de Mark Tansey

Derrida interroga Paul de Man, de Mark Tansey

Na lógica da transparência, Derrida e Deleuze são rotulados de impenetráveis. Ambos devem ser lidos como se fossem escritores de ficção. A cada leitura, muda o significado. O texto tecnificado dos “cientistas duros” é incompreensível por utilizar uma outra linguagem, fora do campo verbal do leitor médio. Não é o caso da desconstrução que exige uma atenção que o moderno leitor distraído de revistas, jornais e internet não tem condições de oferecer. Lacan segue na mesma linha: muitos textos são transcrições de seminários e viram jogos verbais do orador. Quando se imagina que tudo está assimilado, o significado se desdobra em outro. Algo sempre escapa, como na boa ficção. 

Marx é outro obscuro para os padrões contemporâneos. Mas, nota Francis Wheen, “O Capital” antecipa a escrita dos surrealistas do século XX e é um romance modernista em tempos de romance realista. Há cortes, colagens e montagens que remetem à figura do bricoler de Benjamin. O fragmento leva à totalidade, e vice-versa. A escrita de Marx vai contra o fetiche da mercadoria e da transparência do capital. Nada é natural. Cada frase de Marx traz em si uma contradição que, por sua vez, vem da estrutura social. A escrita dialética torna-se uma máquina de desvendamento do que aparece como algo concebido naturalmente. Na era da globalização, é proibido ler Brecht.

Houve uma época quando, ao não compreender um texto, o leitor reconhecia sua incapacidade intelectual e se recolhia ao pensamento. Ele buscava se aperfeiçoar para depois enfrentar o desafio daquele universo antes incompreendido. Hoje, se não consegue entender um livro, o leitor sentencia de imediato: chato, ruim e equivocado. Parte-se para a estratégia de desqualificação do autor, com a rotulagem digna de produtos à venda em supermercados. “Não entendo, logo não presta.” Esse é o resultado de anos e anos da mídia com a naturalização do mundo e a escrita-mercadoria, cujo único valor é a transparência e a rapidez de apreensão. Tempo é dinheiro. 




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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:13 PM

Machado e Rosa

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Foi-se o tempo em que os jornais eram o local de encontro do pensamento e dos intelectuais. Há estudos e mais estudos que mostram a migração da inteligência para os centros universitários no Brasil e no exterior. No final do século XX, a mídia deixou de ser o centro aglutinador de idéias

 

Os jornais brasileiros provam diariamente por que suas vendas caem ano a ano. A relevância zero da mídia, especialmente na área cultural, foi reafirmada dias atrás com mais uma inacreditável enquete: quem é melhor, Machado de Assis ou Guimarães Rosa? Entre os estudiosos, houve restrições à própria pergunta descabida do jornal Folha de S. Paulo. Os leitores também acharam a pesquisa inócua e malfeita, pois 53% deles disseram que “ambos são grandes escritores” ou “não dá para comparar um ao outro”. O levantamento do jornal escorreu rapidamente pelo ralo das coisas insignificantes.

Foi-se o tempo em que os jornais eram o local de encontro do pensamento e dos intelectuais. Há estudos e mais estudos que mostram a migração da inteligência para os centros universitários no Brasil e no exterior. No final do século XX, a mídia deixou de ser o centro aglutinador de idéias. Os criadores da enquete da Folha de S. Paulo seguem a onda e ignoram os movimentos relevantes nos estudos sobre Machado de Assis e Guimarães. Ao invés de inflacionar os índices, os responsáveis pelo jornal poderiam dar um passeio e conversar com quem vem dedicando a vida a estes dois autores.

Machado de Assis atravessa uma fase de ouro entre os estudiosos das mais diversas áreas, da psicanálise à sociologia. A redescoberta do autor se deve ao impacto dos estudos de Roberto Schwarz a partir dos anos 1970. A nova crítica machadiana começou a apontar em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro uma interpretação da sociedade brasileira que está na forma literária dos romances. A forma narrativa incorpora elementos do processo social. Abriu-se todo um caminho para especialistas que seguiram a trilha da idéias de Schwarz e outros que se desviaram.

O inglês John Gledson foi um dos seguidores de Schwarz ao aprofundar os estudos das relações entre os romances e crônicas machadianos e o período histórico do Segundo Reinado no século XIX. Ele chegou a ler todos os jornais da época para identificar as referências factuais e citações contidas nas crônicas de Machado em jornal. Nos jornais brasileiros, no entanto, Gledson perde espaço para o superstar Harold Bloom, que levou a mídia local às lágrimas ao colocar Machado no rol dos “gênios” e analisar superficialmente ao autor em meia dúzia de páginas. 

Alfredo Bosi e Sergio Paulo Rouanet, por sua vez, desenvolvem trabalhos para desmontar as teses de Schwarz. A maior crítica deles é para um certo determinismo dos críticos que vêem a relação entre a literatura machadiana e a sociedade brasileira. Ambos reconhecem a impossibilidade de negar a presença da História em Machado de Assis, mas dizem que a autor de Memorial de Aires tem uma abordagem universal. Obviamente, um universalismo europeu. Rejeitam, portanto, a concepção de um autor que vive na periferia do capitalismo, conforme assinala Schwarz.

A disputa em torno de Machado de Assis é realmente acentuada. O português Abel Barros Baptista entrou no campo de batalha com uma missão inusitada: salvar o autor de seus críticos brasileiros. Para isso, escolheu Schwarz e Antonio Candido como adversários. Ele pretende desfazer qualquer laço da obra machadiana com a História do Brasil. A intenção é colocar o autor dentro do cânone universal – que, vale lembrar mais uma vez, é um universalismo europeu. Trata-se de um campo (os estudos sobre Machado de Assis) fervilhando de idéias que não aparecem nos jornais brasileiros. 

A exemplo de Machado, o mineiro Guimarães Rosa vem sendo redescoberto como um intérprete do Brasil. Heloísa Starling, Willi Bolle e Luiz Roncari lançaram nos últimos anos obras fundamentais para mostrar o quanto o autor de Grande Sertão: Veredas tratou do Brasil em sua ficção. É um prosseguimento do trabalho pioneiro de Walnice Nogueira Galvão, que analisou o homem e o sertão rosianos em As formas do falso. Pesquisadoras da nova geração como Ana Paula Pacheco e Danielle Corpas têm investindo na trilha de analisar forma literária e processo social em Rosa.

Os novos estudos se distanciam dos trabalhos que focaram as invenções lingüísticas e o esoterismo de Guimarães Rosa. Ressalte-se que foram análises muito importantes para o entendimento do autor mineiro. O que se vê agora, porém, é a superação do encantamento puro das palavras bonitas e a “magia” do autor. A inventiva obra rosiana tem muito a dizer sobre o Brasil e a relação do sertão com o mundo, e isso os especialistas vêm rastreando nos mínimos detalhes. A grande obra literária vai além dos limites estabelecidos em cada disciplina das ciências humanas e permite as mais diversas leituras.

A discussão acima, os leitores não a encontram nos jornais brasileiros. O jornalismo cultural está mais preocupado em divulgar os últimos lançamentos, mostrar os recordes de venda, martelar a vida das celebridades e criar os jornalistas-celebridades com suas colunas e blogs. Ficamos sabendo tudo a respeito do casal Sakozy, dos estranhos hábitos de Paulo Coelho e do último porre de uma tal de Amy Winehouse. Enquanto isso, estudos exploram as várias faces de Machados de Assis e Guimarães Rosa – sem falar de Clarice Lispector e de Graciliano Ramos. E o leitor de jornal fica sem saber de nada.

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:05 PM

Vida besta

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Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro
 

No seriado de televisão 24 Horas, o personagem Jack Bauer recorre a todo o momento à tortura para obter informações de suspeitos. É a ficcionalização da Lei Patriota, de 2001, com a qual os Estados Unidos colocaram seus próprios cidadãos num permanente estado de exceção, sob alegação de combate ao o terrorismo. A apologia do brutalismo já estendeu além-mar e apareceu no Brasil do Capitão Nascimento, do filme Tropa de elite, que assume a posição dos civilizados em meio aos bárbaros. Frente a um cenário de medo de atentados e crimes comuns, admite-se a infração das normas que, em outros tempos, receberam o nome de direitos humanos.

A linguagem da mídia piora as coisas e vai surrando as palavras, tornando-as mais e mais vazias. Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro. A reação é a busca da aniquilação de quem carrega essa suposta ameaça. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, no entanto, os norte-americanos perceberam que eles mesmos haviam se tornado “estranhos” para alguém. E nessas situações, o ataque preventivo vira a melhor defesa.

Giorgio Agamben vem analisando o moderno estado de exceção que suspende a validade dos direitos humanos para garantir a segurança. É uma contradição em cima de outra contradição. Segundo ele, o modelo político contemporâneo (o do biopoder) é o campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. A situação do ser humano que vive sob o biopoder é a do homo sacer, cuja vida se resume aos aspectos biológicos e não políticos. Agamben resgatou essa figura na Grécia antiga. O Estado pode fazer o que bem entender dos corpos. Se um prisioneiro judeu não tinha condições de trabalhar num campo, deveria ser eliminado porque se trata apenas de um corpo.  

Esse estado de exceção, Agamben chamou-o de “vida nua”, corpo sem serventia que pode se descartado a qualquer instante. São os mortos-vivos que vagam pelo campo de concentração – onde eram denominados de muslims. Quem seriam os homo sacer da globalização e guerras preventivas? Palestinos são bons candidatos, pois os israelenses os submetem aos mais variados de tipos de aniquilamento: confinamento em territórios, massacres de crianças e bombardeios. Com menos recursos de artilharia, eles palestinos reagem freqüentemente e daí são acusados de terrorismo. Sem mais nem menos, árabe vira sinônimo de fundamentalista e terrorista.    

Candidatos também fortes a homo sacer são os asiáticos que vivem nas zonas de processamento de exportação. Eles trabalham 16 horas diárias, sem direitos trabalhistas e previdenciários, em fábricas que possuem todas as isenções fiscais possíveis e operam em puro regime de exceção econômica. Os iPods e tênis Nike são desenhados nos Estados Unidos e produzidos de maneira quase servil na China e Taiwan. É o sonho daqueles que criticam o Custo Brasil. Quem quiser maiores detalhes de como é o homo sacer oriental e hiper-produtivo pode ler
Sem Logo — A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, da canadense Naomi Klein.

Sobre o modelo capitalista asiático, Slavoj Zizek fez uma pergunta intrigante: a China é o passado ou o futuro da economia de mercado?  Caminhamos para um trabalho no estado de exceção, sem qualquer proteção, ou para a prosperidade? O universo do trabalho fornece uma infinidade de exemplos de como o humano é muslim (seria um muçulmano?). Há um reality show nos Estados Unidos (devidamente tropicalizado por aqui) cujo prêmio é um emprego ao vencedor. Ao longo dos capítulos, os participantes são demitidos um a um, e o apresentador aponta o dedo para dizer “você está demitido”. O homo sacer vai assumindo características assustadoras.


O Brasil sempre foi muito bom para operar o biopoder. Basta lembrar que fomos uma das últimas nações a abolir a escravidão no século XIX. Mas não somos racistas, gritam os intransigentes. O
homo sacer brasileiro de hoje é negro, jovem, homem e pobre. Segundo as estatísticas, ele tem bem mais chances de morrer do que os brancos. Qual a explicação? Predisposição genética? Desigualdade de renda? Louvado em prosa medíocre na mídia e premiado no Festival de Berlim, o Capitão Nascimento tem uma resposta baseada na teoria dos jogos e já nos mostrou o que é a vida nua nessas bandas. Certo mesmo é que, para ele, a vida é mesmo besta. 
 
 

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