revista bula
POR EM 20/03/2012 ÀS 09:44 AM

Da imortalidade

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Um dos mais antigos sonhos do ser humano é provavelmente o de vencer a morte. E com a morte, o esquecimento. As buscas do elixir da longa vida, da fonte da eterna juventude são a evidência dessa aspiração. O homem inventou deuses imortais, Camões chegou a dizer que em seus versos a bela amada nunca seria esquecida. E realmente, os versos continuam até hoje, mas a mulher amada só sobreviveu em forma de palavras. 

Pois isso que não passa de uma aspiração fantasiosa, entre os acadêmicos é tido como certo. Pertencer a uma academia significa tornar-se um imortal. E batem-se muitos deles, espada em punho, por um lugar no panteão da glória. É preciso conquistar um lugar entre as múmias, entre as muitas outras múmias, para se lembrado pelos pósteros.   

É claro que o termo “imortalidade” deve ser entendido em seu sentido conotativo, apenas uma figura de linguagem. Morte, nesse caso, deve-se entender como esquecimento. A convicção, no caso, é de que o ingresso na galeria dos acadêmicos não vai deixar que o dito cujo seja esquecido jamais. 

Isso tudo não passa de uma pitada de arrogância, combinada com outro tanto de vaidade. Academia nenhuma imortaliza, e se o termo é tomado em seu sentido conotativo, então, o que mais se vê são imortais que nunca pertenceram a academia nenhuma, assim como a multidão de acadêmicos que a caliça do tempo já encobriu.  


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POR EM 16/03/2012 ÀS 12:59 PM

Já pulou o muro?

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Faço das crônicas que redijo um meu Muro das Lamentações, mas está difícil lamentar. Ao lerem-nas, os amigos declaram certa perplexidade, reclamam que ando muito amargo, assim, de secar roseiras. Alguns reclamam do humor negro, da ironia excedente, do palavrório chulo e de suposto mau gosto. 

Outros suspeitam estaria eu padecendo de algum tipo de transtorno do humor, quem sabe, depressão, síndrome do pânico, histeria, frescura, pití... Então me indicam médicos, psicólogos, benzedeiras, uísques, chás, hinos, livros de autoajuda, templos, gurus, casas da luz vermelha e até masturbação. Cada qual tem o Muro das Lamentações que merece. 

Muros. Quero então falar dos muros. Causou a maior excitação no seio daquela família o fato de Benzinho (codinome do bancário Alcebíades) ter traído a esposa. “Mas logo o Benzinho?!” era o que mais se ouvia nos comentários a respeito da flagrante escapulida. “Eu bem que desconfiava dele”, alguém alfinetou. “Acreditem, estes homens sonsos são os piores”, diagnosticaram as mulheres já calejadas no assunto. 

Um dia me perguntaram se eu já tinha pulado o muro e eu disse “sim, sim, várias vezes”. Mal supunha que a expressão “pular o muro” não se referia às minhas peraltices da infância, quando invadia o quintal da casa da Dona Elza para furtar mangas ou resgatar a bola de cobertão desastrosamente chutada às alturas. Carecia fugir em tempo do cão doberman e de Dona Elza. 


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POR EM 12/03/2012 ÀS 07:43 PM

A hipocrisia nossa de cada dia

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A história da acumulação primitiva do capital é uma história do coração das trevas — o horror, o horror, o horror. Tanto do ponto de vista humano — vidas são sacrificadas — quanto da corrupção e da violência.

O banqueiro J. P. Morgan acertou quando disse que poderia justificar sua fortuna, mas não seu primeiro milhão. A acumulação primeva é quase sempre brutal.

A fortuna de um poderoso empresário brasileiro, praticamente visto como aristocrata, tem origem na venda de escravos. Naturalmente, sua biografia, hoje exemplar, omite a “mancha” dos negócios do avô.

No filme “O Poderoso Chefão 3”, de F. Ford Coppola, o mafioso Michael Corleone tenta “limpar” seus negócios buscando alianças com empresários e banqueiros legais — inclusive financistas do Banco do Vaticano.

Entretanto, ao se envolver com os homens dos negócios “limpos”, Corleone descobre que seus negócios são tão “limpos” quanto os das organizações criminosas ítalo-americanas. O mafioso tinha uma ideia equivocada do mundo real. O que “mata” Corleone não é apenas uma doença, mas sobretudo a percepção de que sua inteligência prática, o pragmatismo herdado do pai, rico em frases de efeito, o enganara no confronto com o mundo dos homens “normais”. O filme sugere um elogio da máfia, por causa de certa glamourização. Na verdade, Coppola anuncia, no terceiro filme, a morte da máfia que tentou ser inteiramente “legal”. Devolve, por assim dizer, a máfia ao crime mais banal, à violência. A máfia de smoking não funciona — é o recado dos “mafiólogos” Mario Puzo e Coppola.


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POR EM 10/03/2012 ÀS 08:30 PM

A base do governo e a TPM (tensão pró-monetária)

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Leio nos jornais que a base do governo, da extrema direita à extrema esquerda, está tensa. A base exige aprovação de verbas para projetos e emendas. Não que esses projetos e essas emendas venham trazer benefícios para o povo que os parlamentares representam. Não. Não é nada disso. 

A base do governo está tensa e a psicologia do poder já diagnosticou o quadro clínico. É preciso liberar grana, grana da grossa, para aplacar a neura que acomete as senhoras e os senhores parlamentares que estão tensos. Senão a rebordosa pode atingir o governo de cabo a rabo. Os políticos foram atacados por uma epidemia: a famosa síndrome de abstinência de recursos do erário. Doença grave, crônica e de tratamento caríssimo. Mal complexo engendrado por patologia multidisciplinar: falhas do caráter, ambição desmedida e ignorância da plebe. 

A base do governo está que nem um cônjuge desatinado: quer trair. Quer trair a todo custo e não importa com quem nem por quê. Quer trair. E não apenas trair: quer satisfazer suas fantasias monetárias. Coisas que talvez nem Freud explique. Quer prevaricar com o suado dinheiro do povo. Quer dinheiro pra campanha nas eleições que se avizinham. Quer dinheiro pra sobra de campanha. Afinal, é preciso se segurar no banquete para a orgia do poder. É preciso nutrir as empresas Offshore, as ONGs de araque. É preciso engordar as contas secretas nos paraísos fiscais. Por tudo isso e por algo mais é que a base está assim tão tensa. 


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POR EM 08/03/2012 ÀS 11:34 PM

A mulher é o negro do mundo

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No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Se as fontes de pesquisa não me traíram, a data remonta de um levante de mulheres russas no início do século passado, durante a 1ª Guerra Mundial, a reivindicarem melhores condições de vida e de trabalho. Notem: há tempos as mulheres reclamam dos homens... 

Aguarda-se, a qualquer momento, um levante contrário ainda mais substancial, no qual as mulheres hão de exigir uma trégua à modernidade, metendo o pé no freio, engatando uma marcha a ré, dosando os inúmeros afazeres, a fim de proporcionar um cotidiano mais razoável, menos estressante. Em matéria de infarto do miocárdio, elas estão empatando com a gente... 

Mulher, única criatura do universo capaz de sustentar as multi-tarefas: trabalho fora do lar, trabalho dentro do lar, estudo, procriação, cuidados aos rebentos e ao parceiro (leia-se “com ele ter intimidades, rotineiramente, ainda que não esteja tão disposta aos jogos amorosos quanto se desejaria”). 

Valadão — mais conhecido nos meios políticos, nos prostíbulos de luxo e nos cassinos subterrâneos da cidade como Dandãozinho das Moças, já sabe bem o que fará para comemorar a data. Aproveitando que a esposa viajou para visitar o pai que está morrendo de câncer, Valadão mandou entregar à esposa, logo cedo, uma completa cesta de café da manhã com um bilhetinho escrito assim “Amo-te”. “É batata”, ele comenta e recomenda. 


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POR EM 02/03/2012 ÀS 01:20 PM

Já queimou o seu mendigo hoje?

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O ser humano é mesmo uma criatura observadora, inquieta. Por conta da curiosidade inata, botou a grande roda da história pra rodar (antes mesmo que ele próprio inventasse a roda e a mentira), adaptou-se às desgraceiras da vida, e não foi dizimado pela força do ecossistema, conforme outros desafortunados seres rastejantes, voadores e aquáticos. 

Porque tem perspicácia, o Homem peitou os vírus, bactérias, seres peçonhentos, ornitorrincos e a própria ignorância. Então, ele descobriu que os trovões no céu não eram as broncas dos deuses, que a Terra não terminava num enorme precipício, e que as sanguessugas não eram mais a melhor opção para se tratar febre ou loucura. 

Um dia, num passado muito remoto, enquanto mirava os fenômenos da natureza inóspita, algum nosso ancestral cabeludo, amuado numa gruta úmida, presenciou um raio atingindo a relva seca, provocando um descomunal incêndio. Ao admirar tal mágica desgraça, cismou: “que maravilhoso seria seu eu pudesse também produzir faíscas flamejantes...” (foi com estas palavras que ele se referiu às descargas atmosféricas). 

Daí começou toda a mística do Homem com o fogo, e que perdura até os dias de hoje. Vejo, por exemplo, pela janela de casa, que Dona Iolanda, minha senil vizinha, utiliza um isqueiro para atear fogo num montinho de lixo que ela juntou sobre a calçada. “Isto aí não pode, Dona Iolanda!”, repreendo a septuagenária incendiária de detritos. 


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POR EM 28/02/2012 ÀS 06:02 PM

Guardados do sótão

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Saí do teatro emocionado e pensando em escrever alguma coisa sobre a execução da nona de Beethoven. Sou assim: se me emociono as palavras começam a circular nas veias aquecidas. Cheguei a estudar piano até certa fase da adolescência, mas não me sinto competente para emitir juízos a respeito do desempenho de uma orquestra sinfônica. Era impossível resistir ao apelo das palavras que se amontoavam dentro da cabeça e pediam passagem. Por isso, quer dizer, pela opção que fiz pelo outro teclado, este aqui, não passo daqueles conceitos bem genéricos que qualquer amante da música erudita consegue emitir. 

Carregado por esses pensamentos fui parar ao lado do Aldo Obino. Não, você não deve conhecer o Aldo Obino. Mesmo em sua terra ele, como pessoa, não deve ter muitas memórias onde se abrigue. Hoje ele é nome de centro cultural, é nome de sala de jornal, mas no meu tempo de jovem, em Porto Alegre, Aldo Obino era o crítico de música erudita mais badalado da cidade. Era nossa referência. E escrevia no “Correio do Povo”, naquela época o principal jornal do Estado. Dizem que entendia muito e escrevia bem. E nós não perdíamos nada do que ele escrevesse. 

Certa ocasião, venderam-se ingressos para o concerto de Yara Bernetti, pianista de São Paulo e uma das melhores executantes de J. S. Bach a que tenho assistido. Nunca assisti à execução de uma fuga como a dela. Nosso grupo de fanáticos por Bach, que não era pequeno, aguardou a noite de sábado com ansiedade. Os jornais deram a biografia da pianista, a opinião de críticos nacionais e estrangeiros sobre ela, enfim, seu concerto era o que se podia chamar de imperdível. 


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POR EM 23/02/2012 ÀS 09:52 PM

Amou daquela vez como se fosse a última

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Combinaram assim: falar-se-iam diariamente, por volta das seis da tarde, a fim de conferir (ele, o filho), checar, assegurar que ele estivesse vivo e passando bem (ele, o pai). Fizeram o acordo sem disfarçarem o profundo embaraço, com os olhos liquefeitos em lágrimas e o coração pelejando em ritmo desembestado. 

Abraçaram-se besta e dramaticamente, como se fosse pela última vez. O pai concedeu a benção ao filho e tocou para a chácara onde residia, nos arredores da cidade. “Esta gleba aqui a Prefeitura não vai lotear nem a pau!”, gaba-se, redondamente enganado a respeito do apetite avassalador da especulação imobiliária que domina as metrópoles e os seus dirigentes. 

Há cinco anos, o velho enviuvara. No começo, o choque da separação compulsória remeteu-o a pensamentos destrutivos, anti-crísticos, conforme ele mesmo dizia numa linguagem empolada. De tal forma que não firmou o propósito de se autoaniquilar. Perdeu a mulher, alguns quilos, mas não perdeu a fé. 

Homem vivido e experimentado nas ene tragédias desta e de outras vidas (ele cria piamente em antibióticos e reencarnações), sabia que o tempo cicatrizava quase todo tipo de ferida. Então esperou. Enquanto isso, mergulhava nos livros, devorava-os como se fossem os comprimidos de vitaminas e de rivotril. O que era pior naquela idade: osteoporose, insônia ou uma saúde de ferro? 


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POR EM 23/02/2012 ÀS 05:19 PM

Gosto é gosto

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Mas quem foi que disse que eu não gosto de futebol?  Quantas vezes fiquei, no domingo à tarde, na frente da televisão para ver um bom jogo de futebol?! Gosto dos lances muitas vezes caóticos do futebol, dos dribles inesperados, dos lances inteligentes, mas gosto também da velocidade, do domínio da bola, das belas e cinematográficas defesas, do sentido de conjunto que é próprio de um esporte coletivo. Gosto, sempre gostei. Quando criança, fiz uma escolha como toda criança faz: movido por alguma razão que nos foge, que não somos capazes de explicar. Pelo menos quando não se tem um pai que dá inteira liberdade de escolha ao filho, comprando camisetas de seu clube, comprando uma bola com suas cores, levando-o ao estádio apenas quando seu time joga. Pois eu, literalmente, não tive um pai assim. Ele detestava futebol, e torcer, lá em casa, era coisa que se fazia meio clandestinamente. Não me lembro como foi, só sei que um dia eu disse: torço para o meu time. E permaneço fiel àquela escolha até hoje. Sou torcedor. 

O que me parece incompreensível é que o mesmo lance que vale para grandes clubes, não valha para pequenos. Você sabe do que estou falando. Se o clube é pequeno, o jogador estava na banheira. Se é grande, estava na mesma linha. Ou no momento do lançamento ... Mas isso quando se trata de comentaristas de futebol. Existe um deles, que transmite jogos e que torce tão desavergonhadamente que ninguém mais lhe dá crédito. E por uma razão muito simples: qualquer torcedor de A vê tudo ao contrário do que vê o torcedor de B quando ambos se confrontam. O primeiro diz que foi pênalti; o segundo jura por todos os santos brasileiros e estrangeiros que o juiz roubou. E não adianta discutir: nunca vão chegar a um acordo. As mesmas evidências vão conservar seus sentidos opostos.  


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POR EM 15/02/2012 ÀS 10:40 AM

Guia prático para fugir, sem culpa, do carnaval

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Nem morto eu sairia pulando atrás de um trio elétrico. Não encontro disposição para me esfregar na quentura suada dos foliões com cachaça até a tampa. Na verdade, falta-me um bocado de paciência para suportar farras carnavalescas em logradouros públicos onde pessoas urinam nos canteiros e calçadas, quando não despejam ali mesmo os seus gametas entreaspernas das moças e dos efeminados no meio da galera. 

Você tem razão. Eu estou exagerando um bocado, que é pra azeitar o texto. Já me explicaram como uma festa consegue estancar um país continental durante quatro dias, no mínimo: tudo não passa de tradição e cultura. 

Por exemplo: na Espanha, o povo se excita com as touradas centenárias e as farras do boi, deixando as cambadas de protetores dos animais com os cabelos em pé. 

Em vários países da África, é o maior barato mutilar as genitálias das meninas, antes da puberdade, para que elas jamais sintam prazer sexual. Há famílias que promovem almoços festivos incríveis para comemorarem a extirpação dos clitóris de suas filhas, algo parecido com as farofadas de testículos que os nossos antepassados faziam nas fazendas do interior do Brasil, após um dia inteiro de castração bovina. No Brasil — reduto planetário onde o povo é pacato, generoso e também ignorante — prevalecem o samba, o carnaval, o futebol, muito séquissi-apiu e um bocado de corrupção. Exagerei novamente? Fiz uma comparação grosseira e deselegante? Eu mereço cinquenta chibatadas sauditas? Simplesmente, não dá pra remar contra a cultura de um povo, né verdade?! 


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