revista bula
POR EM 14/04/2012 ÀS 07:29 PM

Os Assassinos, de Ernest Hemingway

publicado em

A simplicidade dos recursos estético-literários e o talento narrativo e conciso de Ernest Hemingway fazem do conto “Os Assassinos” uma das obras-primas do conto moderno


A porta do restaurante “do Henry” se abriu e entraram dois homens que se sentaram ao balcão.

— O que vão pedir? — perguntou-lhes George.
— Não sei. — disse um deles —. O que você quer comer, Al?
— Como vou saber? — respondeu Al — Não sei.

Lá fora estava escurecendo. As luzes da rua entravam pela janela. Os dois homens liam o menu. Do outro extremo do balcão, Nick Adams, que tinha estado conversando com George quando eles entraram, observava-os.

— Eu vou pedir costeletas de porco com molho de maçãs e purê de batatas. — disse o primeiro.
— Ainda não está preparado.
— Então por que diabos o põem no cardápio?
— Esse é o jantar. — explicou-lhe George — Pode-se pedir a partir das seis.

George olhou o relógio na parede detrás do balcão.

— São cinco horas.
— O relógio marca cinco e vinte. — disse o segundo homem.
— Adianta vinte minutos.
— Ora, dane-se o relógio. — exclamou o primeiro — O que tem para comer?
— Posso lhes oferecer qualquer variedade de sanduíche, — disse George — presunto com ovos, toucinho com ovos, fígado e toucinho, ou um bife.
— Para mim, suprema de frango com ervilhas e molho branco e purê de batatas.
— Esse é o jantar.
— Será possível que tudo o que pedimos seja o jantar?
— Posso lhes oferecer presunto com ovos, toucinho com ovos, fígado...
— Presunto com ovos — disse o que se chamava Al. Vestia um chapéu de feltro e um sobretudo preto abotoado. Sua face era branca e pequena, seus lábios estreitos. Levava um cachecol de seda e luvas.
— Me dê toucinho com ovos. — disse o outro. Era mais ou menos da mesma estatura que Al. Embora de rosto não se parecessem, vestiam-se como gêmeos. Ambos usavam sobretudos muito justos para eles. Estavam sentados, inclinados para frente, com os cotovelos sobre o balcão.
— Há algo para beber? — perguntou Al.
— Refrigerante de gengibre, cerveja sem álcool, e outros refrigerantes. — enumerou George.
— Diga se tem algo para beber.
— Só o que nomeei.
— É um povo caloroso este, não? — disse o outro — Como se chama?
— Summit.
— Alguma vez ouviu falar nele? — perguntou Al a seu amigo.
— Não — respondeu-lhe este.
— O que se faz aqui à noite? — perguntou Al.
— Janta—se. — disse seu amigo — Vem-se para cá e janta-se muito bem.
— É isso mesmo. — disse George.
— Então acredita que é isso mesmo? — Al perguntou a George.
— Certamente.
— Então é um menino esperto, não é?
— Certamente. — respondeu George.
— Pois não é. — disse o outro homenzinho — Não é mesmo, Al?
— Ficou mudo. — disse Al. Girou para Nick e lhe perguntou: — Como se chama?
— Adams.
— Outro menino esperto — disse Al — Não é, Max, que ele é esperto?
— O povo está cheio de meninos espertos — respondeu Max.

George pôs as duas bandejas, uma de presunto com ovos e a outra de toucinho com ovos, sobre o balcão. Também trouxe dois pratos de batatas fritas e fechou a portinhola da cozinha.

— Qual é o seu? — perguntou a Al.
— Não se lembra?
— Presunto com ovos.
— Que menino esperto — disse Max. Aproximou-se e pegou o presunto com ovos. Ambos comiam com as luvas postas. George os observava.
— O que está olhando? — disse Max, observando George.
— Nada.
— Como nada? Estava me olhando.
— De repente, o fazia por brincadeira, Max. — interveio Al.

George riu.

— Você não ria. — cortou-o Max — Não têm nada do que rir, entende?
— Está bem — disse George.
— Então acha que está bem? — Max olhou Al — Pensa que está bem. Pois sim, que está bem.
— Ah, ele acha. — disse Al. Seguiram comendo.
— Como se chama o menino esperto que está na ponta do balcão? — perguntou Al a Max.
— Hei, menino esperto, — Max chamou Nick — vá com seu amigo do outro lado do balcão.
— Por? — perguntou Nick.
— Porque sim.
— Melhor que passe para o outro lado, menino esperto — disse Al. Nick passou para o outro lado do balcão.
— O que vão fazer? — perguntou George.
— Nada que o interesse. — respondeu Al — Quem está na cozinha?
— O negro.
— O negro? Como o negro?
— O negro que cozinha.
— Diga que venha.
— O que vão fazer?
— Diga que venha.
— Onde pensam que estão?
— Sabemos muito bem onde estamos. — disse o que se chamava Max — Parecemos tolos, por acaso?
— Por dizer isso, pareceria que sim. — disse-lhe Al — Por que têm que discutir com este menino? — e então disse a George — Escute, diga ao negro que venha para cá.
— O que vão lhe fazer?
— Nada. Pense um pouco, menino esperto. O que faríamos a um negro?

George abriu a portinhola da cozinha e chamou: — Sam, venha um minutinho.

O negro abriu a porta da cozinha e saiu.

— O que há? — perguntou. Os dois homens o olharam do balcão.
— Muito bem, negro. — disse Al — Fique aí.

O negro Sam, com o avental posto, olhou os homens sentados ao balcão: — Sim, senhor. — disse. Al desceu de seu assento.

— Vou à cozinha com o negro e o menino esperto. — disse — Volte à cozinha, negro. Você também, menino esperto.

O homenzinho entrou na cozinha depois de Nick e Sam, o cozinheiro. A porta se fechou atrás deles. O que se chamava Max se sentou ao balcão em frente a George. Não olhava George a não ser pelo espelho que havia atrás do balcão. Antes de ser um restaurante, o “do Henry” tinha sido um botequim.

— Bom, menino esperto. — disse Max com a vista no espelho — Por que não diz algo?
— Do que se trata tudo isto?
— Hei, Al. — gritou Max — Este menino esperto aqui quer saber do que se trata tudo isto.
— Por que não lhe conta? — ouviu-se a voz do da cozinha.
— Do que acredita que se trata?
— Não sei.
— O que acha?

Enquanto falava, Max olhava todo o tempo o espelho.

— Não o diria.
— Hei, Al, o menino esperto aqui diz que não diria o que pensa.
— Está bem, posso ouvir. — disse Al da cozinha, que com uma garrafa de ketchup mantinha aberta a portinhola pela qual se passavam os pratos — Me escute, menino esperto, — disse a George da cozinha — se afaste do balcão. Você, Max, vá um pouquinho à esquerda. — parecia um fotógrafo dando indicações para uma tomada de grupo.

—Diga-me, menino esperto. — disse Max — O que pensa que vai acontecer?

George não respondeu.

— Eu vou contar. — seguiu Max — Vamos matar um sueco. Conhece um sueco grandão que se chama Ole Andreson?
— Sim.
— Deve comer aqui todas as noites, não é?
— Às vezes.
— Às seis em ponto, não é?
— Se vier.
— Já sabemos, menino esperto. — disse Max — Falemos de outra coisa. Vai ao cinema?
— De vez em quando.
— Devia ir mais seguido. Para alguém tão esperto como você, é bom ir ao cinema.
— Por que vão matar Ole Andreson? O que lhes fez?
— Nunca teve a oportunidade de nos fazer algo. Jamais nos viu.
— E vai nos ver uma só vez. — disse Al da cozinha.
— Então por que vão mata-lo? — perguntou George.
— Fazemos isso por um amigo. É um favor, menino esperto.
— Cale-se. — disse Al da cozinha — Falam demais.
— Bom, tenho que divertir o menino esperto, não é, menino esperto?
— Falam demais. — disse Al — O negro e meu menino esperto se divertem sozinhos. Tenho-os atados como um casal de amigas no convento.
— Tenho que supor que esteve em um convento?
— A gente nunca sabe.
— Em um convento judeu. Aí você esteve.

George olhou o relógio.

— Se vier alguém, diga que o cozinheiro saiu, se depois disso ficar, diga que você cozinha. Entendeu, menino esperto?
— Sim. — disse George — O que nos farão depois?
— Depende. — respondeu Max — Essa é uma das coisas que nunca se sabe no momento.

George olhou o relógio. Eram seis e quinze. A porta de rua se abriu e entrou um condutor de bondes.

— Olá, George. — saudou — Servem-me o jantar?
— Sam saiu — disse George — Voltará em torno de uma hora e meia.
— Melhor eu ir à outra quadra. — disse o chofer. George olhou o relógio. Eram seis e vinte.
— Esteve bem, menino esperto — disse-lhe Max — É um verdadeiro cavalheiro.
— Sabia que lhe voaria a cabeça — disse Al da cozinha.
— Não, — disse Max — não é isso. O que acontece é que é simpático. Eu gosto do menino esperto.

Às cinco para as sete, George falou: — Não vem mais.

Outras duas pessoas tinham entrado no restaurante. Em uma oportunidade George foi à cozinha e preparou um sanduíche de presunto com ovos “para levar”, como tinha pedido o cliente. Na cozinha viu Al, com seu chapéu de feltro para trás, sentado em um banco junto à portinhola com o cilindro de uma arma apoiado em uma saliência. Nick e o cozinheiro estavam amarrados costas com costas, com toalhas em suas bocas. George preparou o pedido, envolveu-o em papel manteiga, o pôs em uma sacola e o entregou, o cliente pagou e saiu.

— O menino esperto pode fazer de tudo. — disse Max — Cozinha e faz de tudo. Faria de alguma garota uma linda esposa, menino esperto.
— Sim? — disse George — Seu amigo, Ole Andreson, não vai vir.
— Vamos dar outros dez minutos — respondeu Max.

Max olhou o espelho e o relógio. Os ponteiros marcavam sete em ponto, e então sete e cinco.

— Vamos, Al — disse Max — Melhor sairmos daqui. Não vem mais.
— Melhor esperamos outros cinco minutos — disse Al da cozinha.

Nesse meio tempo entrou um homem, e George lhe explicou que o cozinheiro estava doente.

— Por que diabos não conseguem outro cozinheiro? — repreendeu-o o homem — Por acaso isto não é um restaurante? — então partiu.
— Vamos, Al. — insistiu Max.
— O que fazemos com os dois meninos espertos e o negro?
— Não vai haver problemas com eles.
— Tem certeza?
— Sim, já não temos nada que fazer por aqui.
— Eu não gosto nada disso — disse Al — É imprudente, você fala demais.
— Ah, Qual é o problema? — replicou Max — Temos que nos entreter de algum jeito, não é?
— Mesmo assim, falam demais — insistiu Al. Saiu da cozinha, a arma lhe formava um ligeiro volume na cintura, sob o sobretudo muito ajustado que ajeitou com suas mãos enluvadas.
— Adeus, menino esperto — disse a George — Na verdade, teve sorte.
— Com certeza. — adicionou Max — Deveria apostar em corridas, menino esperto.

Os dois homens se retiraram. George, através da janela, viu-os passar sob o poste da esquina e cruzar a rua. Com seus sobretudos ajustados e esses chapéus de feltro pareciam dois artistas de variedades. George voltou para a cozinha e desatou Nick e o cozinheiro.

— Não quero que isso volte a me acontecer. — disse Sam — Não quero que volte a me acontecer.

Nick se levantou. Nunca antes tinha tido uma toalha em sua boca.

— Que diabos...? — disse pretendendo segurança.
— Queriam matar Ole Andreson — contou-lhes George — O matariam com um tiro nem bem entrasse para comer.
— Ole Andreson?
— Sim, ele.

O cozinheiro apalpou os cantos da boca com os polegares.

— Já foram? — perguntou.
— Sim, — respondeu George — já se foram.
— Eu não gosto. — disse o cozinheiro — Eu não gosto nada disso.
— Escutem — George se dirigiu a Nick — Tenho que ir ver Ole Andreson.
— Está bem.
— Melhor que não tenha nada que ver com isso. — sugeriu-lhe Sam, o cozinheiro — Não convém se intrometer.
— Se não quiserem não venham. — disse George.
— Não vai ganhar nada se envolvendo nisso. — seguiu o cozinheiro — Mantenha-se à distância.
— Vou vê-lo. — disse Nick — Onde vive?

O cozinheiro se afastou.

— Os jovens sempre sabem o que querem fazer. — disse.
— Vive na pensão Hirsch. — George informou a Nick.
— Vou para lá.

Lá fora, as luzes da rua brilhavam por entre os ramos de uma árvore nua de folhas. Nick caminhou pela beira do meio-fio e perto do poste de luz seguinte tomou uma rua lateral. A pensão Hirsch se achava a três casas. Nick subiu os degraus e tocou a campainha. Uma mulher apareceu na entrada.

— Ole Andreson está?
— Quer vê-lo?
— Sim, se estiver.

Nick seguiu a mulher até um patamar da escada e então ao final de um corredor. Ela bateu na porta.

— Quem é?
— Alguém que vem a vê-lo, Sr. Andreson — respondeu a mulher.
— Sou Nick Adams.
— Entre.

Nick abriu a porta e ingressou no quarto. Ole Andreson jazia na cama com a roupa posta. Tinha sido um boxeador peso pesado e a cama ficava pequena. Estava deitado com a cabeça sobre dois travesseiros. Não olhou Nick.

— O que aconteceu? — perguntou.
— Estava no “do Henry”, — começou Nick — quando dois tipos entraram e ataram a mim e ao cozinheiro, disseram que foram mata-lo.

Soou idiota dizê-lo. Ole Andreson não disse nada.

— Colocaram-nos na cozinha — continuou Nick — disparariam logo que entrasse para jantar.

Ole Andreson olhou a parede e seguiu sem dizer uma palavra.

— George acreditou que o melhor era que eu viesse e lhe contasse.
— Não há nada que eu possa fazer — Ole Andreson disse finalmente.
— Vou lhe dizer como eram.
— Não quero saber como eram — disse Ole Andreson. Voltou a olhar para a parede — Obrigado por vir me avisar.
— Não é nada.

Nick olhou o grandalhão que jazia na cama.

— Não quer que vá à polícia?
— Não. — disse Ole Andreson — Não seria uma boa ideia.
— Não há nada que eu possa fazer?
— Não. Não há nada a fazer.
— Talvez não o dissessem a sério.
— Não. Falavam sério.

Ole Andreson voltou-se para a parede.

— O que acontece — disse-lhe falando com a parede — é que não me decido a sair. Fiquei todo o dia aqui.
— Não poderia escapar da cidade?
— Não — disse Ole Andreson — Estou farto de escapar.

Seguia olhando a parede.

— Já não há nada a fazer.
— Não tem nenhuma maneira de solucioná-lo?
— Não. Equivoquei-me. — seguia falando monotonamente — Não há nada a fazer. Dentro de um momento vou me decidir a sair.
— Melhor voltar para o “do Henry”. — disse Nick.
— Tchau. — disse Ole Andreson sem olhar para Nick — Obrigado por vir.

Nick se retirou. Enquanto fechava a porta viu Ole Andreson totalmente vestido, atirado na cama e olhando a parede.

— Esteve todo o dia em seu quarto. — disse-lhe a encarregada quando ele desceu as escadas — Não deve sentir-se bem. Eu lhe disse: “Senhor Andreson, deveria sair para caminhar em um dia outonal tão lindo como este”, mas não tinha vontade.
— Não quer sair.
— Que pena que se sente mal. — disse a mulher — É um homem muito bom. Foi boxeador, sabia?
— Sim, já sabia.
— Não se perceberia a não ser por sua cara. — disse a mulher. Estavam junto à porta principal — É tão amável.
— Bom, boa noite, Sra. Hirsch. — saudou Nick.
— Eu não sou a Sra. Hirsch. — disse a mulher — Ela é a proprietária. Eu me encarrego do lugar. Eu sou a Sra. Bell.
— Bom, boa noite, Sra. Bell. — disse Nick.
— Boa noite. — disse a mulher.

Nick caminhou pela vereda às escuras até a luz da esquina, e então pela rua até o restaurante. George estava lá, atrás do balcão.

— Viu Ole?
— Sim. — respondeu Nick — Está em seu quarto e não vai sair.

O cozinheiro, para ouvir a voz de Nick, abriu a porta da cozinha.

— Não quero ouvir nada. — disse e voltou a fechar a porta da cozinha.
— Contou-lhe o que aconteceu? — perguntou George.
— Sim. Contei-lhe, mas ele já sabe do que se trata.
— O que vai fazer?
— Nada.
— Vão mata-lo.
— Suponho que sim.
— Deve ter se metido em alguma confusão em Chicago.
— Suponho. — disse Nick.
— É terrível.
— Horrível. — disse Nick.

Ficaram calados. George se agachou para procurar um pano de prato e limpou o balcão.

— Pergunto-me o que terá feito — disse Nick.
— Deve ter traído alguém. Por isso os matam.
— Vou sair daqui. — disse Nick.
— Sim — disse George — É o melhor que pode fazer.
— Não suporto pensar nele esperando em seu quarto sabendo o que lhe vai acontecer. É realmente horrível.
— Bom. — disse George — Melhor parar de pensar nisso.


Publicado no livro “Contos de Ernest Hemingway”, editora Bertrand Brasil, tradução de Enio Silveira.

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