revista bula
POR EM 14/06/2012 ÀS 05:46 PM

Três poemas de Juan Carlos Onetti

publicado em

"A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em 'sonhos diurnos', por meio de um 'impulso onírico'. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do 'boom' era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação."

Abaixo, uma faceta pouco conhecida do romancista e contista uruguaio — o Juan Carlos Onetti poeta. Os três poemas publicados, são seus únicos poemas conhecidos. A tradução é da escritora Nina Rizzi.

 

E o pão nosso

Só conheço de ti
o sorriso monalisa
com lábios separados
o mistério
minha teimosa obsessão
por desvendá-lo
e avançar obstinado
e surpreendido
tateando seu passado
Só conheço
o doce leite de seus dentes
o leite brando e zombeteiro
que me separa
e para sempre
do paraíso imaginado
da impossível manhã
de paz e da felicidade silenciosa
de abrigo e pão compartilhado
de algum objeto cotidiano
que eu pudesse chamar
nosso

Querida Litty

Há meses
com inusitada frequência
não me deixa o carteiro cartas tuas.
Será amnésia de homem
ou talvez as empilhe
em um canto limpo
de seu quarto de solteiro
solteirão
e em algum dia me traga
numa fita rosa
todas juntas
como um banquete
para o esquecido faminto
que se pode imaginar
desde agora
uma clara catarata
de ternuras e recordações.

Balada do ausente

Então não me dê um motivo, por favor,
Não dê consciência à nostalgia,
Ao desespero e ao jogo.
Pensar-te e não ver-te
Sofrer em ti e não alçar meu grito
Ruminar sozinho, graças a ti, por minha culpa,
No único que pode ser
Inteiramente pensado
Chamar sem voz porque Deus quis
Que se Ele tem compromissos
Se Deus mesmo te impede contestar
Com dois dedos a saudação
Cotidiano, noturno, inevitável
É necessário aceitar a solidão,
Confortar-se irmandado
Com o cheiro de cachorro, nesses dias úmidos de sul
Em qualquer regresso
Em qualquer hora mutável do crepúsculo
Teu silêncio
E o passo indiferente de Deus que não vê nem saúda
Que não responde ao chapéu de luto
Golpeando os joelhos
Que teme a Deus e se preocupa
Pelo que opina, condena, resmunga, impõe
Não me dê consciência, grito, necessidade, nem ordem.
Estou nu e longe, o que me deixaram
Girou para o mundo e seu segredo de musgo,
Até a claridade dolorosa do mundo,
Nu, sozinho, desarmado, rolou meu corpo magro
Tropeço e avanço
Aproximo-me talvez de uma fronteira
A um ódio inútil, à sua crescente miséria
E tampouco é consolo
Essa doce ilusão de paz e de combate
Porque a distância
Não é já, se dissolve na espera
Graciosa, incompreensível, de ajudar-me
A viver e esperar.
Nenhum outro país é para sempre
Meu pé esquerdo na barra de bronze
Fundido com ela.
O moço que compreende, ajuda a esperar, acredita que pode ignorar.
Aceitam-se todas as apostas:
Eternidade, inferno, aventura, estupidez
Mas sou maior
Já nem sequer creio
Em romper espelhos
Na noite
E lamber o sangue dos dedos
Como se tivesse traído desde lá
Como se a salobra mentira se engrossasse
Como se o sangue, pequena dor afiada,
Aproximasse-me ao que resta vivo, brando e ágil.
Morto pela distância e o tempo
E eu a perco, dou minha vida,
Mudo de velhices e ambições alheias
Cada dia mais antigas, vilmente desejosas e estranhas.
Voltei e não voltarei, não posso cair.
Apoiarei o sapato na viga de bronze
E espero sem pressa sua velhice, sua singularidade, seu minúsculo não ser.
A paz e depois, afortunadamente, em seguida, nada.
Lá estarei. O tempo não tocará meu pelo, não inventará rugas, não me inchará as bochechas
Aí estarei esperando uma nomeação, um encontro
Que não se cumprirá. 

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