revista bula
POR EM 19/07/2012 ÀS 10:37 PM

Eva Perón

publicado em
Tradução inédita de um conto de Juan Carlos Onetti, publicado no terceiro volume de suas obras completas

Juan Carlos Onetti

De modo que ali estávamos amontoados e re­lativamente imóve­is, olhando através das ja­­nelas as dissimulações, revelações, leves intoxicações de olhos inimigos, conversando com astúcia, com simulada ênfase, tateando entre as frases vagas e nosso vazio adequado por onde ia a deslizar o toque do telefone negro, trazido até o centro da mesa redonda que cercávamos, respeitando e amaldiçoando como um deus.

Falsamente lentos, mecânicos, analisando falatórios, deduções, pressentimentos, mais numerosos à medida que iam crescendo as noites, quase nos entorpecendo na sala enquanto chegava do vizinho de baixo o ruído de dilúvio das máquinas de escrever e, mais tarde, quando o único morto era a esperança da morte adiada e esquiva. A agitação da imprensa anunciava outra edição de “O Liberal” sem nota de luto, nem fotografia da Senhora, nem o editorial já escrito por mim, que falava de truncamento, inescrutáveis desígnios, caridade cristã e perene exemplo luminoso. O editorial havia sido feito, semanas atrás, quando começou uma manhã cínica, alcoólica e insone; eu incomodado pelo casaco e as luvas, colocados sob os enormes retratos severos, protetores, de meu pai e meu avô. Muitos mais, e também de passos desconhecidos, nas horas noturnas, abandonadas à superstição de que a história se escreve à noite e às três da manhã morrem todos os doentes. Assim, naqueles dias, a imprensa começava a funcionar às quatro, às três, para deixar uma hora de espaço, de chance, à notícia que não queria chegar. E a Maria Inês só a acariciava no cochilo — cuidados como a um feto agitado — com fúria escorregadia e imaginativa, buscando apaziguar nela, nas sempre recém-nascidas velhas sabedorias mútuas, a inquietude de cada longa espera anterior, apalpando suas ancas, cega, a forma, os ossos de seu rosto. E também lá, junto da cama, sempre, outro telefone que não queria falar; e distantes, do outro lado da cidade, no Palácio do Governo em frente à Praça Brausen com seus canteiros cinza e brilhantes, com seus discutidos cavaleiro e cavalo que avançavam impávidos através da chuva e o frio e a ausência de pombas, a Senhora, já morta, que não se queria morrer.

O inverno sem fim, o pensamento luxurioso nas tardes ansiosas das esperas noturnas. Até que iniciei, para me distrair, os ataques zombeteiros a Mauri, ditos corretamente em minha melhor linguagem editorial traduzido do galego pela minha cortesia.

— Há momentos em que duvido não só de tão lamentado fim da Senhora, mas também da mesma existência de nossa primeira dama. Abandonando-me, também desacredito da Santa Maria, capital novinha em folha. Não há nada fora desta sala onde um grupo de dementes faz a guarda noite após noite, a uma garrafa e um telefone. Naturalmente, tampouco estão os gringos da frente se esquentando com o verdadeiro uísque numa espera infinita. Não há nada, digo, salvo nosso sonho ou pesadelo. Não há, por exemplo, ainda que jurem, um Palácio do Governo. E este palácio, apesar do não-ser, tampouco contém um sepulcro com seus inevitáveis agonizantes, médicos estrangeiros, enfermeiras, morfina e máscara de oxigênio. Nada. Olhando bem, só nos resta a conspiração catalã tramada pelo ingênuo Mauri; ingênuo que se permitiu criar uma quinta coluna, também rigorosamente separatista, batizada caprichosamente com o nome de Bosh, suposto médico catalão, embalsamador por venturosa vocação e, como corresponde a seu nome emboscado para glória de “O Liberal” em algum suposto corredor labiríntico do já desvirtuado Palácio do Governo.

Falei somente por excitação e curiosidade. Uma noite depois Mauri me trouxe a Bosch.

II

Bosch entrou em uma pequena fração de minha vida, das incontáveis lembranças, não, como eu esperava como teria sido harmonioso e razoável, em uma das úmidas madrugadas de hipnotismo rodeando o telefone e a garrafa. Também acreditava, suponho, nas horas fundamentais da noite e da madrugada, também eu temia ser surpreendido se abandonava a guarda já envelhecida em um mês, dos instantes escuros, pontualmente repetida de sol a sol.

Entrou em meu escritório, precedido por um Mauri sorridente e irônico, às seis da tarde, com vento, chuva e frio, de um dia sem data daquele junho implacável, de expectativas e talvez definitivo que havia sido disposto para Santa Maria e nós. Alto, fraco, um pouco curvado para olhar melhor por cima dos óculos, negro desde os sapatos até o guarda-chuva gotejante, entrou envolto em um abrigo, mistura convoluta de casaco e capa de chuva, um abrigo grande demais para sua magreza insalubre e pálida. E durante menos de um minuto, durante a cerimônia de apresentação e cumprimentos, no quarto fechado, e quente pelo aquecedor, o abrigo escuro, misteriosamente flutuante e agitado, reproduziu, quase lascivo, a paisagem dura de frio do vasto largo, da cidade da província e o inverno.

Sentado, mas com alguma distância, como cercado e defendido por uma fronteira invisível, por um circulo imaginário de giz, Bosch, médico e embalsamador, fornecedor exclusivo de S.M., estirou seu sorriso misterioso, e abaixou seu queixo para do cigarro que estava fazendo. Levantou depois, sobre o fumo, uma mão grande e forte

— Espere — disse —, espere um momento.

Eu não havia lhe perguntado nada, Mauri estava com as pernas cruzadas, silencioso e feliz. O embalsamador, com o cigarro malfeito na boca, esteve me olhando um momento, o tempo justo para ficar sem sorriso e oferecer em troca uma expressão humilde e entristecida, uma cara grande absurdamente branca, chupada, na qual os pequenos olhos míopes, nublados, ofereciam sinceridade em troca de compreensão. E quanto aos olhos, o doce filho da puta já os tinha usado para impor o hábito da palavra senhor em diálogos ou monólogos.

— Espere — repetiu, e o resto do que disse pode ser, com maior ou menor exatidão, assim: — Tenho que lhe dizer, antes de tudo, compreenda e perdoe que não posso esquecer nem um momento, e estou seguro, senhor, de que você tampouco, suspeita disso tudo. Mauri? Sim, claro. O Mauri já pode chamar amigo e eu dei minha palavra e, através dele para você. Estou minucioso, vivo, em estado de alarme, não durmo, espero. Espero. Para mim é sagrado. Vale dizer, as coisas são sagradas. Eu disse cinco mil, ou Mauri disse. Não posso mudar a fábrica da casa, há sempre três portas que me separam da sala. Ah, tampouco posso, seria impróprio, pedir que me mudem o dormitório. E é verdade que minha atenção se divide entre a suspeita dos ruídos e as vozes e o telefone para avisar a você. Sim, senhor, já me falou Mauri sobre reuniões centradas por outro telefone. Já está dito. Primeiro no mundo d'O Liberal. Cinco mil. Mas não falava disso. Quando falei do que suspeitava disso tudo... Apenas, raras vezes, faço espiar e olhar. E graças a uma das mulheres. Sou um homem de ciência, mas não deixo, senhor, de ser um homem seco. — Então extraiu os folhetos de propaganda que havia trazido no indeciso abrigo, agora sem gestos, e os pulsos em cima da escrivaninha para simular de imediato o desinteresse e o esquecimento. — Dezenas de vezes, e com invariável sucesso, pratiquei a intervenção que me trouxe a Santa Maria, para o que fui chamado. Meu nome é conhecido, sem vaidade, em todo o mundo. Não me ofereci, senhor, não estive buscando esta oportunidade. Chamaram-me e vim. Um convite, um pedido oficial. Não, não me fale, eu rogo, dos faraós. É um erro comum e você, senhor, não tem porque se desculpar. Muitas outras pessoas se obrigam, a saber, mais por disciplina e vocação, claro são relações absurdas. Não há tal. Como me falaram de Jíbaro1, Amazonas e o Orinoco. Como se eu improvisasse antes de você teorias e opiniões sobre Bodoni2  e Memphis. Você, senhor, sabe melhor. — Fez-nos interromper para enrolar, lamber e acender outro cigarro. — O que comovia era vê-la agonizar com um pássaro, a pobre, tão consumida e rodeada em vão. Quase toda de pele e ossos, nervos, cartilagens, cordões que foram músculos. Tão nua e grave, senhor, que não devo demorar muito para buscar e lhe dar a primeira injeção sempre que não tramam, me escondam ou enganem.

Quando se colocou de pé o mau tempo se instalou outra vez no escritório, agitando a infelicidade do abrigo negro. Fiquei como um rato com Mauri e os folhetos que não quis tocar. Fiquei, ademais, lutando sem forças contra o arrependimento de ter buscado o rosto e as palavras do embalsamador, contra a convicção torturante de não compreender, lá no fundo, debaixo dos pobres homens e a farsa sem sentido de seus atos e suas diferentes formas de ser.

III

Por que todos, nós e os que tomam uísque nos escritórios, limpos, pelas ruas, estávamos juntos na competição de conseguir a notícia com uma vantagem de minutos. Eles eram vinte e milionários; nós confiávamos em astúcias, trapaças, palpites. Eles, nós e todo o mundo esperávamos a notícia com impaciência purificada de sentimentos. Nada mais que isso, sempre éramos os primeiros.

A Senhora, a mulher do Governador Mandamás estava morrendo. Era, já, uma agonia, uma morte de seis meses. Todos os diagnósticos haviam falhado, todos os segredos foram substituídos, nada mais eram que firmes promessas, novas datas definitivas, postergações. A Senhora, já morta, não se movia, não se morria; e os empregados de Mandamás haviam feito, à força de revólveres e patadas, o milagre de suprimir não só a morte, antes também sua enfermidade.

O calunioso câncer não passava de um resfriado, pego de um quase inverno. E na verdade converteram o milagre em algo miraculoso. Por que toda a cidade pode vê-la ao meio-dia de domingo se inclinando para fora do grande balcão do Governador e saudar, tocada por um sol intempestivo. Estava apenas resfriada e com um braço de marionete, lento, desanimado, contestava os aplausos e os gritos junto ao sorriso brilhante de Mandamás. Estava envolta num casaco de visón; os entendidos sabiam também que estava cheia de morfina.

Notas: 1— Termo comumente usado em Porto Rico para designar a montanha-moradia de camponeses. 2  Bodoni é o nome de uma fonte tipográfica, criada por Giambattista Bodoni, considerado um dos maiores tipógrafos do século.

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