revista bula
POR EM 20/12/2012 ÀS 08:17 PM

Eu sou a mãe de Adam Lanza

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(Texto publicado no San Francisco Chronicle. Traduzido especialmente para Revista Bula por Carolina Mendes).

Liz Long

Três dias antes de Adam Lanza, de 20 anos, matar sua mãe, depois abrir fogo contra uma classe cheia de alunos da primeira série de Connecticut, meu filho de 13 anos, Michael (não é o nome verdadeiro dele), perdeu o ônibus porque ele estava usando calças da cor errada.

“Eu posso ir com essa calça”, ele disse, com o tom de voz cada vez mais beligerante, e o buraco negro do centro das pupilas de seus olhos engolindo a íris azul.

“Ela é azul marinho”, eu respondi. “A sua escola permite apenas calças pretas ou caqui.”

“Eles me disseram que eu posso usar esta”, ele insistiu. “Você é uma puta burra. Eu posso usar a calça que eu quiser. Estamos na América. Eu tenho direitos!”

“Você não pode usar a calça que você quiser”, eu disse, em tom afável e racional. “E definitivamente você não pode me chamar de puta idiota. Você está de castigo sem eletrônicos pelo resto do dia. Agora entre no carro, e eu te levo para a escola.”

Eu vivo com um filho que tem problemas mentais. Amo meu filho. Mas ele me apavora.

Algumas semana atrás, Michael pegou um faca e ameaçou me matar e depois a si mesmo porque eu pedi que ele devolvesse na biblioteca os livros que já estavam atrasados. Os irmãos de 7 e 9 anos sabiam qual era o plano de emergência — correram para o carro e se trancaram antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Eu consegui tirar a faca de Michael, e depois metodicamente recolhi todos os objetos cortantes da casa e os coloquei dentro de uma sacola gigante que agora anda sempre comigo. Depois de tudo isso, ele seguiu gritando, me insultando e ameaçando me matar e me machucar.

O conflito terminou com três policiais corpulentos e um paramédico lutando com o meu filho para colocá-lo em um maca e levá-lo para a emergência do hospital local. A ala psiquiátrica não tinha nenhum leito livre no dia. Michael foi atendido no pronto socorro e nos mandaram de volta para casa com uma prescrição de Zyprexa e um retorno agendado com um psiquiatra infantil.

Ainda não sabemos o que há de errado com Michael. Espectro do Autismo, TDAH, Transtorno Explosivo Intermitente foram mencionados em reuniões com assistentes sociais, terapeutas, professores e pedagogos. Michael tem tomado uma enorme quantidade  de antipsicóticos e drogas alteradoras de humor. Nada parece funcionar.

No começo da sétima série, Michael foi aceito em um programa avançado para alunos com talento em Matemática e Ciências. Seu QI é altíssimo. Quando está de bom humor, ele ocupa seu tempo com assuntos que vão de mitologia grega às diferenças entre a física Newtoniana e Einsteiniana. Eles está bem a maior parte do tempo. Mas quando não está, cuidado. E é impossível prever o que o desequilibra.

Algumas semanas depois de começar no novo colégio, Michael passou a exibir um comportamento cada vez mais estranho e ameaçador. Decidimos transferi-lo para programa comportamental mais restrito, um ambiente escolar onde crianças que não podem ficar em turmas normais tem acesso a uma guarda vigiada gratuita das 7h30 da manhã a 13h50 da tarde. De segunda a sexta até que completem 18 anos.

Na manhã do incidente da calça, Michael estava discutindo comigo enquanto eu dirigia. Ele ocasionalmente se desculpava e demonstrava remorso. Um pouco antes de chegarmos no estacionamento da escola, ele disse, “Olha mãe, eu sinto muito. Posso ter de volta meu videogame hoje?”

“De jeito nenhum”, eu respondi. “Você não pode fazer o que você fez esta manhã e achar que vai recuperar seus privilégios assim tão depressa.”

O rosto dele ficou frio, e seus olhos cheios de ódio. E disse: “Então eu vou me matar, eu vou pular deste carro agora e vou me matar”.

Eu não respondi, só fiz a conversão.

“Para onde você está me levando? Onde estamos indo?”, perguntou preocupado.

“Você sabe para onde estamos indo”, respondi.

“Não! Você não pode fazer isso comigo! Você está me mandando para o inferno!”

Eu encostei no hospital e chamei um atendente que estava do lado de fora. “Chame a polícia, depressa.”

Michael estava fazendo um escândalo, gritando e se debatendo. Eu o abracei com força para que não fugisse do carro. Ele me mordeu diversas vezes e deu cotoveladas nas minhas costelas. Eu ainda sou mais forte que ele, mas não serei por muito tempo.

A polícia chegou e carregou meu filho aos chutes para as entranhas do hospital. Eu comecei a tremer, e as lágrimas encheram meus olhos enquanto eu preenchia a papelada. “Houve dificuldade com... Em qual idade seu filho começou a... Houve problemas com... Seu filhou já vivenciou... Seu filho tem...”

Pelo menos nós temos agora seguro saúde. Eu recentemente aceitei um emprego em uma faculdade local, abrindo mão da minha carreira independente porque quando você tem um filho assim, você precisa de benefícios. Você faz qualquer coisa por benefícios. Nenhum plano de saúde individual vai cobrir esse tipo de coisa.

Durante dias meu filho insistiu que eu estava mentindo — que eu tinha inventado a coisa toda para me livrar dele. No primeiro dia quando eu liguei para saber como ele estava, ele me disse,  “eu te odeio e eu vou me vingar assim que sair daqui”.

No terceiro dia, ele era o meu calmo e doce garoto de novo, se desculpando e prometendo melhorar. Eu escutei essas promessas durante anos. Eu não acredito mais nelas.  No formulário de internação, na pergunta “O que você espera do tratamento?”, eu escrevi, “preciso de ajuda”.

E eu preciso mesmo. Esse problema é grande demais para eu administrar sozinha. 

Eu estou dividindo essa história porque eu sou mãe de um Adam Lanza. Eu sou mãe de um Dylan Klebold e um Eric Harris. Eu sou mãe de um James Holmes. Eu sou mãe de um Jared Loughner. Eu sou mãe de um Seung-Hui Cho. E esses rapazes — e suas mães — precisam de ajuda.  No despertar de mais uma tragédia nacional, é fácil falar sobre armas. Mas é hora de falarmos sobre doenças mentais.

De acordo com uma revista especializada, desde 1982 —, 61 assassinatos em massa envolvendo armas de fogo aconteceram no país. Desses, 43 dos assassinos eram homens brancos, e apenas uma era mulher. A revista voltou seu foco para a questão dos assassinos terem obtido ou não suas armas legalmente (a maioria sim). Mas esse visível sinal de problema mental deveria nos levar a considerar quantas pessoas nos Estados Unidos vivem com medo, como eu vivo.

Quando eu perguntei para o assistente social que cuida do meu filho quais eram as minhas opções, ele respondeu que a única coisa a fazer é acusá-lo de um crime. “Se ele estiver no sistema, eles vão criar um rastro de documentos”, disse. “Essa é a única forma de conseguir que algo seja feito. Ninguém vai te dar atenção a menos que você tenha uma queixa formal.”

Eu não acredito que meu filho deva ir para a cadeia. Mas parece que os Estado Unidos estão usando as prisões como uma solução opcional para doentes mentais. De acordo com entidades de Direitos Humanos, o número de internos mentalmente doentes quadruplicou entre 2000 e 2006, e continua aumentando — na verdade a proporção de doentes mentais entre prisioneiros é cinco vezes maior que entre a população não encarcerada.

Ninguém quer mandar o gênio de 13 anos que ama Harry Potter e seu bichinho de pelúcia para a cadeia. Mas nossa sociedade, com o estigma que as doenças mentais provocaram o declínio do sistema público de saúde, não nos dá outra opção.

Aí então outra alma torturada atira em um restaurante. Um shopping. Uma classe de primeira série. E nós cerramos nossas mãos e dizemos: “Algo tem que ser feito”.

Eu concordo que algo tem que ser feito. É hora de uma significativa e abrangente discussão nacional a respeito da saúde mental. É o único jeito de realmente curarmos o país.

Deus me ajude. Deus ajude Michael. Deus ajude nós todos.

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