revista bula
POR EM 19/06/2012 ÀS 09:25 PM

As diatribes de Roberto Bolaño contra Roberto Arlt, Ricardo Piglia e César Aira

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É possível que “El Secreto Del Mal” seja o mais irregular dos livros póstumos de Roberto Bolaño. É impossível saber que destinação ele ia dar pros excertos encontrados em seu computador. O texto foi escrito no último ano de vida, quando já era famoso por suas controvérsias, mesmo assim, fica claro que o texto não estava pronto para publicação. Justamente por ser inacabado e ad hoc, supostamente secreto, a tradução do ensaio não foi fácil, algumas frases não batem, perdem o referente, argumentos morrem na praia, por aí vai; tratei tudo com literalidade, em especial os coloquialismos, que poderiam se beneficiar de algumas preparações básicas de texto. Em sua obra de prosa, as diatribes contra contemporâneos aparecem acolchoadas por outras camadas de enredo, é raro encontrar uma peça assim, declarativa. Nem em entrevistas e conferências Bolaño adota tão abertamente este teor de manifesto que deixa transparecer convicções estéticas. Leio isto mais como um desabafo do que como um exercício deliberado de crítica. (Hugo Crema)
 
 


Derivativos da pesada

Roberto Bolaño

É curioso que tenham sido uns escritores burgueses os que elevaram “Martín Fierro”, de Hernández, ao centro do cânone da literatura argentina. Este ponto, é claro, é discutível, mas o certo é que o gaúcho Fierro, paradigma do espoliado, do valente (mas também do capanga), se alça no centro de um cânone, o cânone da literatura argentina, cada vez mais enlouquecido. Como poema, “Martín Fierro” não é uma maravilha. Como romance, em compensação, está cheio de significados por explorar, isso é, conserva sua atmosfera de vento ou, melhor, de ventarola, seus cheiros de intempérie, sua boa disposição para golpes do acaso. Mas é um romance da liberdade e da sujeira, não um romance sobre educação e bons modos. É um romance sobre a coragem, não um romance sobre a inteligência, muito menos sobre a moral.

Se “Martín Fierro” domina a literatura argentina e seu lugar é no centro do cânone, a obra de Borges, provavelmente o maior escritor que já tenha nascido na América Latina, é apenas um parênteses.

É curioso que Borges escrevesse tanto e tão bem sobre “Martín Fierro”. Não só o jovem Borges, que em algumas ocasiões costuma ser, no âmbito puramente verbal, nacionalista, mas também o Borges adulto, que em algumas ocasiões fica extasiado (estranhamente extasiado, como se contemplasse a gesticulação da Esfinge) diante das quatro cenas mais memoráveis da obra de Hernández, e que em algumas ocasiões inclusive escreve contos, argumentalmente epigonais à obra de Hernández. Quando Borges glosa Hernández, não o faz com o carinho e a admiração com que se refere a Guiraldes, nem com a surpresa e a resignação que usa para invocar aquele monstro familiar que foi Evaristo Carriego. Com Hernández, ou com o “Martín Fierro”, Borges dá a impressão de estar atuando perfeitamente, em uma peça de teatro que ele acha, por outro lado, mais do que detestável, errada. Mas, detestável ou errada, ele também a acha irremediável. Sua morte silenciosa em Genebra é, nesse sentido, mais do que eloquente. Que isso; não é só eloquente, na verdade, sua morte em Genebra fala pelos cotovelos.

Com Borges vivo, a literatura argentina se transforma no que a maioria dos leitores conhece como literatura argentina. Isso é: tem Macedónio Fernández, que às vezes parece um Valéry portenho, tem Guiraldes, que está doente e é rico, tem Ezequiel Martínez Estrada, tem Mare­chal, que logo vira peronista, tem Mujica Láinez, tem Bioy Casares, que escreveu o primeiro romance fantástico e o melhor da América Latina, por mais que todos os escritos da América Latina se apressem a negar isso, tem Bianco, tem o pedante Mallea, tem Silvina Ocampo, tem Sábato, tem Cortázar, que é o melhor, tem Roberto Arlt, que foi o mais negado de todos. Quando Borges morre, tudo acaba de uma vez. É como se o Mérlin morresse, embora os círculos literários de Buenos Aires não fossem exatamente Camelot. Acaba principalmente o reino do equilíbrio. A inteligência apolínea dá lugar ao desespero dionisíaco. O sonho, um sonho muitas vezes hipócrita, falso, oportunista, covarde, se transforma em pesadelo, um pesadelo muitas vezes honesto, leal, valente, que atua sem rede de proteção, mas pesadelo, no fim das contas, e, o que é pior, literário, literariamente suicida, literariamente beco sem saída.

Embora com a passagem dos anos seja legítimo se perguntar até que ponto o pesadelo ou a pele do pesadelo é tão radical como diziam seus cultores. Muitos deles vivem melhor que eu. Nesse sentido, posso me permitir afirmar que sou um rato apolíneo e que eles a cada dia se parecem mais com gatos angorá ou gatos siameses devidamente desinfetados por uma coleira de marca Acme ou de marca Dionisos, o que a esta altura da história vem a ser a mesma coisa.

A literatura argentina atual, lamentavelmente, tem três pontos de referência. Dois deles são públicos. O terceiro é secreto. Os três, de alguma maneira, são reações antiborgeanas. Os três, no fundo, representam um retrocesso, são conservadores e não revolucionários, embora os três, ou pelo menos dois deles, se apresentem como alternativa de um pensamento de esquerda.

No primeiro reina Osvaldo Soriano, que foi um bom ro­mancista menor. Com Soriano tem que ter a cabeça cheia de matéria fecal para pensar que a partir dali se possa fundar um ramo literário. Não quero dizer que Soriano seja ruim. Já disse, é divertido, é, basicamente, um autor de romances policiais ou vagamente policiais, cuja principal virtude, amplamente elogiada pela crítica espanhola, sempre tão perspicaz, foi seu comedimento na hora de adjetivar, comedimento que por outro lado perdeu lá pelo quarto ou quinto livro. Não é muito para iniciar uma escola. Suspeito que a raiz da influência de Soriano (além de sua simpatia e generosidade, que dizem que foi grande) está na venda de seus livros, no seu fácil acesso nas massas de leitores, por mais que falar de massas de leitores quando na verdade estamos falando de vinte mil pessoas é, sem dúvida, um exagero. Com Soriano os escritores argentinos percebem que eles também podem ganhar dinheiro. Não é preciso escrever livros originais, como Cortázar ou Bioy, nem romances totais, como Cortázar ou Marechal, nem contos perfeitos, como Cortázar ou Bioy, e acima de tudo não é preciso perder tempo e saúde em uma biblioteca mequetrefe para que ainda por cima nunca te deem o prêmio Nobel. Basta escrever como Soriano. Um pouco de humor, muita solidariedade, amizade portenha, algo de tango, boxeadores musculosos e Marlowe velho e firme. Mas firme onde? Me pergunto de joelhos e soluçando. Firme no céu? Firme na privada do seu agente literário? Mas você é besta, picaretinha, você tem agente literário? E um agente literário argentino, para maior escárnio?

Se o escritor argentino responde afirmativamente a essa última pergunta, podemos ter certeza de que ele não vai escrever como Soriano e sim como Thomas Mann, como o Thomas Mann, de “Fausto”. Ou, já com enjoo pela imensidade do pampa, direto como Goethe.

A segunda linha é mais complexa. A segunda linha começa em Roberto Arlt mas é muito provável que Arlt seja totalmente inocente deste mal entendido. Digamos, modestamente, que Arlt é Jesus Cristo. Logo, a Argentina é Israel e Buenos Aires, Jerusalém. Arlt nasce e vive uma vida curta. Se não me engano, quarenta e dois anos. É um contemporâneo de Borges. Este nasce em 1899 e Arlt nasce em 1900. Mas, ao contrário de Borges, a família de Arlt é uma família pobre e quando vira adolescente não vai a Genebra e sim começa a trabalhar. O ofício mais frequentado por Arlt é o jornalismo e à luz do jornalismo é possível ver muitas de suas virtudes, mas também muitos de seus defeitos. Arlt é rápido, corre riscos, maleável, um sobrevivente nato, mas também um autodidata, não um autodidata no sentido que Borges foi: o aprendizado de Arlt transcorre na desordem e no caos, na leitura de péssimas traduções, nos esgotos e não nas bibliotecas. Arlt é russo, um personagem de Dostoiévski, enquanto Borges é um inglês, um personagem de Chesterton ou de Shaw ou de Stevenson. Inclusive, às vezes, a contragosto dele mesmo, Borges parece um personagem de Kipling. Na guerra entre os grupos literários de Boedo e Florida, Arlt está com Boedo, mas tenho a impressão de que seu ardor guerreiro nunca foi excessivo. Sua obra está composta de dois livros de contos e de três romances, embora o certo seja que escreveu quatro romances e que os contos não recolhidos em livro, contos que apareceram em jornais e revistas e que Arlt era capaz de escrever enquanto falava de mulheres com seus colegas de redação, dão pelo menos para mais dois livros. Também é autor de umas Águas-fortes portenhas, dentro da melhor tradição impressionista francesa e de umas Águas-fortes espanholas, estampas da vida cotidiana na Espanha dos anos trinta, onde abundam ciganos, pobres e pessoas generosas. Tentou ficar rico com negócios que não tinham nada a ver com a literatura argentina da época, embora sim com a ficção científica, e fracassou sempre, e sempre de maneira inapelável. Depois morreu, aos quarenta e dois anos, e, como ele teria dito, acabou de vez.

Mas nem tudo acabou porque, igual Jesus Cristo, Arlt teve seu São Paulo. O São Paulo de Arlt, o fundador de sua igreja, é Ricardo Piglia. Sempre me pergunto, o que teria acontecido se Piglia, ao invés de se apaixonar por Arlt, tivesse se apaixonado por Gombrowicz? Por que Piglia não se apaixonou por Gombrowicz e sim por Arlt? Por que Piglia não se dedicou a divulgar a boa nova gombrowicziana ou não se especializou em Juan Emar, esse escritor chileno semelhante ao monumento ao soldado desconhecido? Mistério. Em qualquer caso, é Piglia quem eleva Arlt dentro de seu próprio caixão, sobrevoando Buenos Aires, em uma imagem muito pigliana ou arltiana, mas que, tecnicamente, só acontece na imaginação de Piglia e não na realidade. Não foi um guindaste o que desceu o caixão de Arlt, a escada era larga o suficiente para manobrar, o cadáver de Arlt não era o de um campeão dos pesos pesados.

Com isto, não quero dizer que Arlt seja um mau escritor, pelo contrário, é excelente, nem quero dizer que Piglia seja, pelo contrário, Piglia me parece um dos melhores narradores atuais da América Latina. O problema é que eu acho difícil engolir o desvario — um desvario mafioso, da pesada — que Piglia tece ao redor de Arlt, provavelmente o único inocente nesse assunto. Não posso ficar, de jeito nenhum, a favor dos maus tradutores do russo, como disse Nabókov a Edmund Wilson enquanto preparava seu terceiro martini, e não posso aceitar o plágio como uma das belas artes. A literatura de Arlt, considerada como armário ou como porão, é boa. Considerada como a sala de estar da casa, é uma piada macabra. Con­siderado como cozinha, promete o envenenamento. Considerada co­mo lavabo, vai acabar nos passando sarna. Considerada como bi­blioteca, é uma garantia da destruição da literatura.

Ou o que é a mesma coisa: a literatura da pesada tem que existir, mas se só ela existir, a literatura acaba.

Como a literatura solipsista, tão em voga na Europa, hoje que o jovem Henry James voltou a cavalgar a vontade. Uma literatura do eu, da subjetividade extrema, claro que tem que existir e deve existir. Mas se só existissem literatos solipsistas toda a literatura acabaria virando um serviço militar obrigatório do minimim ou um rio de autobiografias, de livros de memória, de diários pessoais, que não demoraria em virar esgoto, e a literatura também então deixaria de existir. A quem interessaria as idas e vindas sentimentais de um professor?  Quem pode dizer, sem mentir como um gambá, que o dia a dia de um professor madrileno, por mais relevante que seja, é mais interessante do que os pesadelos e os sonhos e as ambições do insigne e ridículo Carlos Argentino Daneri? Ninguém com três dedos de testa. Cuidado: não tenho nada contra autobiografias, desde que quem escreva tenha um pênis de ereção de trinta centímetros. Desde que a escritora tenha sido uma puta e seja moderadamente rica na velhice. Desde que o perpetrador de tal artefato tenha tido uma vida singular. Nem preciso dizer que, entre os solipsistas e os garotos da pesada, fico com os últimos. Mas só como um mal menor.

A terceira linha no jogo da literatura argentina atual ou pós-Borges é a que Osvaldo Lamborghini inicia. Essa é a corrente secreta. Tão secreta quanto foi a vida de  Lam­borghini, que morreu em Barcelona em 1985, se lembro bem, e deixou como testamenteiro seu discípulo mais querido, César Aira, o que vem a ser a mesma coisa do que se um rato deixasse como testamenteiro a um gato com fome.

Se Arlt, que como escritor é o melhor dos três, é o porão da casa que é a literatura argentina, e Soriano é um jarro no quarto de hóspedes, Lamborghini é uma caixa colocada em cima de um guarda-roupa no porão. Uma caixinha de papelão, pequena, com a superfície cheia de poeira. Agora, se alguém abre a caixinha, vai encontrar no interior dela o inferno. Me perdoem por ser tão melodramático. A obra de Lamborghini sempre me provoca isso. Não há como descrevê-la sem cair em exageros. A palavra crueldade cai nela como uma luva. A palavra dureza também, mas acima de tudo a palavra crueldade. O leitor desavisado pode descortinar um jogo sadomasoquista próprio dessas oficinas literárias que as almas caridosas e de vocação professoral organizam em manicômios. É possível mas não é suficiente. Lamborghini sempre vai dois passos à frente, ou atrás, de seus perseguidores.

É estranho pensar em Lam­borghini agora. Morreu aos quarenta e cinco anos. Às vezes abro algum dos seus dois livros, editados por Aira, o que não faz diferença, podem ter sido editados pelo tipógrafo ou pelo porteiro do prédio onde fica a editora, a editora Serbal, de Barcelona, e a duras penas consigo lê-lo, não porque eu ache ruim, mas porque me dá medo, principalmente o romance “Tadeys”, um romance insuportável, que eu só leio (duas ou três páginas, nada mais) quando me sinto particularmente corajoso. São poucos os livros que eu digo que cheiram a sangue, a vísceras a fluidos corporais, a atos sem perdão.

Hoje que está tão na moda falar dos niilistas, embora quando se fala deles as pessoas se refiram aos terroristas muçulmanos, que justamente de niilistas não têm nada, não seria mau visitar a obra de um verdadeiro niilista. O problema de La­mborghini é que errou de profissão. Teria se dado melhor como matador de aluguel, lanterneiro ou como coveiro, ofícios menos complicados do que tentar destruir a literatura. A literatura é uma máquina couraçada. Não se preocupa com os escritores. Às vezes nem percebe que eles estão vivos. Seu inimigo é outro, muito maior e muito mais poderoso, e que no final a acabará derrotando, mas essa é outra história.

Os amigos de Lamborghini estão condenados a plagiá-lo ad nauseam, o que poderia deixar o próprio Lamborghini feliz, se pudesse vê-los vomitar. Tam­bém estão condenados a escrever mal, péssimo, exceto Aira, que mantém uma prosa uniforme, cinza, que em ocasiões, quando é fiel a Lam­borghini, cristaliza em obras memoráveis, como o conto “Cecil Taylor” ou o romance “Cómo me Hice Monja”, mas que em sua deriva neovanguardista e rousseliana (e absolutamente acrítica) na maioria das vezes só é chata. Prosa que se devora a si mesma sem solução de continuidade. Falta de crítica que se traduz na aceitação, com nuances, decerto, dessa figura tropical que é a do escritor latino-americano profissional, que sempre tem um elogio para quem lhe peça um.

Destas três linhas, as três linhas mais vivas da literatura argentina, os três pontos de partida da pesada, temo que terminará vencedora aquela que representa com maior fidelidade a patota sentimentalista, nas palavra de Borges. A patota sentimentalista, que não é a direita (em grande parte porque a direita se dedica à publicidade e ao proveito da cocaína e a planificar a fome e os “corralitos”, e em matéria literária é analfabeta funcional ou se conforma em recitar versos do “Martín Fi­erro”), mas a esquerda e que o que pede a seus intelectuais é soma, o mesmo, justamente, que recebe de seus amos. Soma, soma, soma, Soriano, me desculpe, teu é o reino.

Arlt e Piglia são ponto e vírgula. Digamos que é uma relação sentimental e que o melhor a fazer é deixá-los em paz. Ambos, Arlt sem dúvida, são parte importante da literatura argentina e latino-americana e o destino deles é cavalgar sozinhos pela pampa habitada por fantasmas. Apesar de que ali não há escola possível.

Corolário: é preciso reler Borges de novo.

 

Hugo Crema é ficcionista. Autor de “Finisterra”. Edita o blog http://calopsitaescapista.wordpress.com.
 

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