revista bula
POR EM 29/02/2012 ÀS 09:24 PM

A propósito de Roman Polanski

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Yasmina Reza é uma dramaturga brilhante. Sua peça "Arte" equivale a um tratado sobre a estupidez humana diante do mercado de arte contemporânea. Uma outra peça sua eu quase assisti (a histeria mundial causada pela gripe suína não deixou) em Nova York certa vez, o que foi uma enorme perda (pra mim), pois acabou ganhando o Tony Award de 2009 — "Deus de carnificina". Dois anos depois, essa peça seria adaptada para o cinema por Roman Polanski, com um elenco estrelado (Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Rilley e Cristoph Waltz, esse último revelado ao mundo por Quentin Tarantino, em "Bastardos Inglórios", por cuja participação ganhou Oscar). Pois foi em 2009, pouco depois de ganhar o Tony, que seu amigo Roman Polanski foi preso por conta de um caso antigo de estupro (presumido) ocorrido numa festa na Califórnia. Ela, então, concedeu uma entrevista a Jérôme Garcin, no periódico francês "Le Nouvel Observateur", que traduzo, resumidamente, abaixo. 

Le Nouvel Observateur — Quando a senhora viu Roman polanski pela última vez? 

Yasmina Reza — Dois dias antes dele ser preso, 26 de setembro. Jantamos juntos para conversar sobre a adaptação de "Deus de carnificina". Ele tinha visto a peça em Paris em 2008. No verão seguinte, na Suíça, onde, por ironia, passamos nossas férias no mesmo lugar, ele me perguntou com delicadeza, pois trata-se de um homem sem qualquer vaidade, se os direitos cinematográficos estavam ainda disponíveis. Eu já tinha recusado outras propostas, mas disse sim pra dele na hora. 

N.O. — Por quê? 

Y.R. — Porque ele é um gênio, tem um senso poderoso da montagem dramática e uma veia humorística que não é explorada há bastante tempo. Outra ironia é que concordamos rapidamente em situar a ação em Nova York, com intérpretes americanos. (...) Propus começarmos a trabalhas imediatamente, mas ele me respondeu que precisava ir a Zurique, a uma homenagem que lhe fariam. Não fazia a menor ideia do que o esperava no aeroporto. 

N.O. — A senhora o conhece desde há muito? 

Y.R. — Há mais de vinte anos. Ele tinha visto minha primeira peça e tinha pedido para adaptar "A Metamorfose", da qual ele participou. 

N.O. — A senhora compreende que ele tenha de responder por seus atos perante a Justiça, mesmo que 32 anos depois de acontecidos? 

Y.R. — O que compreendo ou não particularmente não tem importância, e eu não qquero me intrometer num problema judiciário, pois não tenho competência pra isso. Mas estou chocada por ouvir falarem dele, pessoas que nada sabem, como um estuprador, um pedófilo. Se não me engano, acusação seria de "desvio de menor". Ninguém está acima da lei, claro, mas as pessoas não tem qualidade para julgar, advogar ou testemunhar, pois não conhecem as peças complexas e contraditórias do dossier, nem a história real dos protagonistas. Que entusiasmo é esse de condenar publicamente? O que me deixa desolada é o clamor vociferante sem a menor legitimidade. 

N.O. — Vocês são amigos. Que impressão a senhora tem dele? 

Y.R. — Não reconheço de forma alguma como o homem descrito nesse momento. O que conheço leva uma vida exemplar. Sei que essa é uma expressão ridícula, mas sinto-me na obrigação de contrapor às palavras duras usadas por seus detratores. Você bem o sabe, sempre escrevo que creio no amor, não tanto na felicidade de um casal; ora, pois cito sem hesitar Emmanuelle e Roman como um exemplo raro de sucesso nesse campo. É um casal profundamente unido e sólido. Eles têm dois filhos, de 16 e 11 anos, que educam sem permissividade. As crianças são extremamente educadas, adoram o pai, e estão hoje bastante tristes [com tudo o que está acontecendo com ele]. Roman tem 76 anos, está em boa forma, mas não é mais eterno que ninguém. Eu vi as crianças prepararem a valise que enviariam ao pai, na prisão. Não a queriam muito pequena, para que coubesse o máximo de coisas possível. Mas também não muito grande, para não dar a impressão de um encarceramento longo. Não conto essas coisas para comover, mas apenas para mostrar a distorção entre a vida real e o fantasma sobre o homem [Roman]. 

N.O. — Muitos franceses, entretanto, consideram legítima essa prisão... 

Y.R. — Pois é isso mesmo que me inquieta. Porque um homem respeitado durante 30 anos, de cuja presença nosso país sempre se orgulhou, que recebeu vários prêmios, que foi feito membro de várias instituições francesas prestigiosas, e, ainda por cima, cuja razão de seu exílio aqui nunca foi ignorada, de repente se torna um criminoso? 

Roman PolanskiN.O. — A senhora não ignora que vão reprovar [em sua atitude] a defesa de um privilégio para um artista, a partir de outra artista privilegiada... 

Y.R. — Meu privilégio é o que você mesmo me concede, o de me exprimir, que já é muito. [Essa é o tipo de resposta que deixa um jornalista arrependido de ter feito a pergunta]. Quanto ao suposto privilégio concedido a ele, não tenho o sentimento que seu nome o está ajudando. Pelo contrário, seu nome o desumanizou e o deixou sem a menor proteção [Aqui sou obrigado a discordar de Yasmina]. Há nesse caso uma total negação de singularidade. A justiça popular é exímia em reduzir o ser a seu mínimo. Pois os homens utilizam sua liberdade de expressão que se transforma rapidamente em liberdade de acusação. Desaparece a compaixão, a tentativa de compreensão, que são também formas de inteligência. Escrevi um pequeno texto a propósito de um outro caso violento sobre a virtude do silêncio. Fiquei confusa e escandalizada pelas palavras de Luc Besson. Em nome de que ele se precipitou, sem nada saber do caso, para piorar ainda mais a situação de um home já fragilizado? (...) 

N.O — A senhora mantém contato com Roman Polanski? 

Y.R. — Contato direto não, é impossível. Mas eu lhe escrevi algumas linhas, e Emmanuelle me transmitiu uma mensagem dele. Sua mensagem foi positiva, mas sei que ele está enfraquecido. Está angustiado por Emmanuelle e as crianças. E tem a impressão de reviver aquilo que mais gostaria de evitar: a publicidade e o linchamento midiático. Não nos esqueçamos que após o assassinato selvagem de sua esposa Sharon Tate, oito meses depois, ele foi acusado, por conta de seu modo de vida e seus filmes, de ter tido parte da responsabilidade desse drama. 

N.O. — A senhora fala dele como de um personagem de tragédia grega... 

Y.R. — Roman tem um destino realmente fora do comum. E todo homem que foge à regra é, pobre dele, um alvo. Se nos debruçarmos sobre os eventos de sua vida, o que sofreu, suportou, criou, venceu, rebateu, podemos nos perturbar profundamente. Teve de fugir da América, que nunca deixou de amar. Exilado por toda vida, uma situação dolorosa. Já pagou caro por essa história, ao contrário do que pensam as pessoas que o julgam agora. Pagou tanto no plano pessoal quanto profissional. E quaisquer que sejam seus documentos, as terras que o recebam, suas recompensas, Roman permanece sendo um judeu da Europa central. Há como que um princípio de não-pertença eterno. (...) 

N.O. — Qual poderia ser, de acordo com a senhora, o resultado desse caso? 

Y.R. — Meu desejo é primeiramente que sua prisão seja relaxada para uma prisão domiciliar sob vigilância, pela Justiça suíça. Que ele possa ver suas crianças e esposa. E que o deixem em paz, quero dizer, com as acusações verbais. (...) 

N.O. — Sua peça "O Deus de carnioficina" triunfa em Nova York. A senhora conhece bem os Estados Unidos. O que pensa de sua Justiça? 

Y.R. — Como eu disse antes, não falarei de algo sobre o que não tenho competência. Uma reflexão, entretanto: na América, o juiz é eleito, ele se encontra numa situação de homem político, precisa dar satisfação a seu eleitorado. Este é um conceito que nos é estranho. 

N.O. — Se Roman Polanski puder ler o "Nouvel Observateur" na prisão, que mensagem a senhora gostaria de lhe transmitir? 

Y.R. — Duas. A primeira, mais geral: saiba, Roman, que há bastante gente, que nem são artistas, nem privilegiados, que te dão apoio. A segunda, mais pessoal: prossigamos com nosso trabalho comum, mesmo separados, eu o aguardo. 
 

[Nota: em julho de 2010 o governo suíço libertou Roman Polanski]

Pra quem quiser conferir a entrevista no original e na íntegra. Aqui vai o link.

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