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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

O pop não poupa ninguém

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Tom Jobim dizia que “na minha época de rapaz, artista era Van Gogh”. Depois, as estrelas eram os Beatles, Michael Jackson ou Madonna. Hoje, com a internet, qualquer um pode virar a nova celebridade

Capa de Andy Warhol para The Velvet Underground & Nico  

Nos velhos tempos, o rock era uma distração que afastava você dos estudos; agora pode bem ser o que você esteja estudando.

Terry Eagleton


Raul Seixas já dizia que o rock´n´roll acabou com o surgimento dos Beatles, no começo dos anos 1960. O quarteto fabuloso de Liverpool inovou ao reunir o melodioso Paul McCartney com o roqueiro John Lennon, porém a novidade estava mesmo no esquema de produção e distribuição da música. Virou lenda a história de que o empresário deles comprou todas as cópias do compacto “Love me do”, em 1962, só para colocar o grupo entre os dez mais vendidos da Inglaterra. Havia os cortes de cabelo, os filmes, as relações amorosas, as viagens à Índia e as declarações bombásticas, como aquela de que seriam mais famosos que Jesus Cristo.

A ascensão dos Beatles foi acompanhada de uma perda de inocência quanto ao funcionamento do campo cultural no século XX. Dali em diante, não bastava fazer boas canções e ter talento. A visibilidade pública passou a contar muito, num esquema que alimenta, por exemplo, a mídia de celebridades ávida por separações conjugais, drogas, confissões. Que o digam os Rolling Stones, que rivalizavam os holofotes com os Beatles na mesma época. Eles perderam o guitarrista Brian Jones, encontrado morto dentro de uma piscina. Tinham o cantor (Mick Jagger) que jogava com a ambigüidade sexual, com seus trejeitos entre o grosseiro e a delicadeza.

Nos anos 1960, o rock vira pop. A carga pesada de marketing, no entanto, foi contraditoriamente acompanhada por uma sofisticação. O clima da época estimulou a aproximação com sons orientais, descoberta de novos instrumentos e influência de temas políticos. Bob Dylan começou aquela década apenas com violão e voz, seguindo o estilo rural dos cantores folk dos Estados Unidos. Mais à frente, passou para os sons elétricos. Causou a fúria de seguidores, mas buscou novos caminhos e influenciou os Beatles. A virada para a década de 1970 registra aos poucos uma impressionante onda de inovações e de radicalização desse pop.

Os Estados Unidos e a Inglaterra tornam-se o centro de uma nova cultura global para a juventude. Apareceram Kinks, Who, Pink Floyd, Love, Yardbirds, Jefferson Airplane, Doors, Jimi Hendrix e, sobretudo, Velvet Underground. Este último havia sido apadrinhado por Andy Warhol, expoente da Pop Art. Liderado por Lou Reed, o Velvet  resgata os sons de Bob Dylan para juntá-los aos tons da vanguarda de Nova York, os chamados minimalistas. Em meio ao lema de paz e amor dos hippies, da espera pela Era de Aquários, surge esse grupo que fala da cidade sombria, drogas, sadomasoquismo, filmes do submundo.

O movimento rumo à sofisticação se acentuou no começo da década de 1970. O pop rock sonhou em alcançar o estágio de grande música. Canções se estenderam na duração, e os instrumentais tentaram seguir o padrão de uma sinfonia. Nomes como o do grupo King Crimson são a novidade que chama a atenção pela extrema elaboração musical. Perdem-se as melodias, e o pop vira algo sinfônico, com alto grau de abertura para inovações estranhas. Os mais populares nessa linha são os ingleses do Pink Floyd, que fazem até trilha sonora para o filme “Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni. É a época do som viajante.

“A day in the life” (1967), dos Beatles, representa uma síntese da capacidade de sofisticação da música pop. Primeiro, entra um violão com a voz de John Lennon. Aos poucos, vão aparecendo o piano, a bateria e as cordas de uma orquestra. De repente, há um corte. Ressurge a batida acelerada, o som de um despertador, mais violinos e uma nova interrupção. O ouvinte acompanha a montagem e a desmontagem de uma canção. Desfaz-se a ilusão de uma música pronta, surgida do nada e com perfeita harmonia e unidade. É como se pudéssemos ver os encanamentos de um prédio; eles ficariam de fora das paredes expondo a estrutura.

Sem futuro

Foi contra essa sofisticação que, em 1977, se insurge o movimento punk na Inglaterra. Com boas doses de marketing, a rapaziada não tem mais o frescor e a leveza dos Beatles. O período é de alto desemprego e dos primeiros passos da onda reacionária de Margaret Thatcher, que assume o poder em 1979 e espalha pelo mundo a praga do novo liberalismo. Enquanto ela rosnou “there is no alternative”, o Sex Pistols gritou “no future”. Começam aí tempos sombrios que, no universo pop, reaparecem anos depois no niilismo do grunge norte-americano de Nirvana, Soundgarden e Mudhoney. O som é rudimentar, e as letras expressam muito pessimismo.

A cultura suburbana dos punks tinha um companheiro em outro extremo: a cultura do heavy metal. Desde a década de 1960, grupos como Black Sabbath e Led Zeppelin fazem um som mais pesado, influenciado pelo blues norte-americano e muito bem tocado. Havia uma preocupação em fazer músicas no sentido da alta elaboração. O rock e depois o pop, diga-se de passagem, sempre se caracterizaram pela produção à base de guitarra, contrabaixo e bateria. O metal, o hard rock e os progressivos queriam ir além dessa estrutura elementar, o que rendeu a pecha de pretensiosos. Nesse clima, o movimento punk se coloca como a reação e defendia a simplicidade por meio do lema “faça você mesmo”. Bastava aprender meia dúzia de técnicas musicais.  

À margem da disputa entre sofisticados e simplificadores, aparecem algumas manifestações que terão forte impacto no pop mundial nas décadas seguintes. Os alemães do Kraftwerk faziam música eletrônica antes mesmo da popularização dos computadores. Foi caminho aberto que vai ser desenvolvido em seguida por David Bowie (o camaleão e talvez o maior criador pop da época), Joy Division (que se tornaria New Order) e Brian Eno. Este último atua como produtor de grupos como U2 e vem dando esse toque europeu e eletrônico ao pop. Seria impensável o tecno de hoje sem o trabalho pioneiro dos criadores de “Autobahn” e “Robots”.

Outra manifestação fundamental foi o aparecimento em cena do jamaicano Bob Marley. Ele populariza a hibridização de sons, em nível global. O pessoal da Jamaica pegou um ritmo de país (o ska) e misturou-o ao soul norte-americano, criando o reggae. Aquele período é também a fase da “diáspora pós-colonial”. Diante da crise, habitantes de antigas colônias européias vão buscar a sorte nas metrópoles e levam a cultura negra, caribenha e africana para o centro do mundo. A chegada dos jamaicanos a Londres é um acontecimento sem igual, pois fazem a cabeça do exilado brasileiro Gilberto Gil e desencaminham os punks do The Clash e os roqueiros do The Police.    

A influência da música negra é outra onda crescente nesses anos preciosos e vão servir de base para a explosão futura do rap. A gravadora Motown Records já havia colocado no mercado dos Estados Unidos uma série de grupos e cantores, como os Jackson Five e os Temptations, nos anos 1960. O ponto alto dessa onda black foi o surgimento da Marvin Gaye, que fundiu sons dançantes do soul com a experimentação de efeitos sonoros que vinha do pop inglês. Nessa trilha de inovação, aparecem Sly and the Family Stone e George Clinton com Parliament/Funkadelic. É possível ver essas ousadias no rap de hoje e em grupos brancos como o Red Hot Chili Peppers.

Tudo ao mesmo tempo

O hibridismo foi uma das principais heranças daquele período. A música da diáspora negra e os sons black dos norte-americanos dão uma liberdade grande de criação e revigoram a música pop. No entanto, a contribuição maior ocorreu na inversão do movimento de influência cultural. Tradicionalmente, as formas culturais dos países centrais viajavam para a periferia do mundo. Com a hibridação, há a contaminação de influências que não permite mais definir quem é o criador. Os ingleses do The Clash foram os mais bem sucedidos aos fundir o reggae jamaicano ao punk europeu.

Os Talking Heads entenderam bem a importância do hibridismo. Nascido na vanguarda de novaiorquina, o grupo de David Byrne juntou o punk, a eletrônica e a música africana. Hoje, ele é capaz de dialogar intensamente com o brasileiro Tom Zé, uma das figuras mais importantes do Tropicalismo, que ainda revelou aos estrangeiros a criatividade dos Mutantes de Rita Lee e os irmãos Baptista. A cidade de Nova York viveu na virada para os anos 1980 um período muito fértil que variava dos punks dos Ramones ao pop do Blondie, passando por Television, Patti Smith e, mais tarde, o minimalismo do Sonic Youth.

Na Londres dos anos 1980, o pop começou a olhar para trás. Os novos grupos se voltaram ao passado para resgatar a psicodelia dos anos 1960 e misturá-la à urgência dos punks e da vanguarda novaiorquina. Da Liverpool dos Beatles, veio o Echo and the Bunnymen. A cidade de Manchester teve New Order e The Smiths. Este último buscou os sons bem melódicos do pop britânico de 20 anos antes, adotou a pulsação punk e se deu o direito de cantar sobre os “doces hooligans” (torcedores de futebol fanáticos e violentos), além de desafiar o conservadorismo de Thatcher, que estava jogando a ilha na irrelevância e tornando-a um satélite dos Estados Unidos.

A contrapartida do pop rock norte-americano teve duas vertentes nos anos 1980. Primeiro foi o surgimento da música produzida por universitários e a criação de um circuito alternativo no país, cujo nome maior foi o R.E.M. e seu som influenciado pela vanguarda de Nova York e o rock caipira dos Byrds. Mais para o final da década, os Pixies saem de Boston e se lançam em Londres. Todos pensam que se trata de mais um conjunto inglês. O que os dois grupos sinalizam, na verdade, é o nascimento de um ambiente que vai resultar no grunge a partir da década seguinte. Será o casamento do mercado alternativo com um retorno ao espírito livre dos punks.

Nesse mesmo período, a abertura de novos espaços foi crucial para a música negra. Com a hibridação, o pop da classe média branca descobre e passa a consumir o rap de grupos como o Public Enemy. Qualquer jovem de periferia poderia fazer sua própria música e “cantar falando” à maneira de Bob Dylan. Essa explosão negra teve o estímulo de dois grandes músicos ao transformar o funk e o soul: Michael Jackson e Prince. O primeiro colocou o mundo para dançar com músicas bem populares, e o segundo retomou a capacidade de experimentação dos anos 1960 para usá-la dentro da mais alta tecnologia. Prince abriu inúmeros caminhos para a música.

Sociedade das redes

Os anos Reagan e Thatcher foram catastróficos em termos políticos, sociais e comportamentais. Foi o período de trevas, do “não há alternativas”. A resposta musical veio pelo grunge nos Estados Unidos e pela popularização da cultura das raves na Inglaterra. Garotos de Seattle, no noroeste americano, usaram o mercado de música alternativa para divulgar um som que misturava o heavy metal dos anos 1970 com o rock mais novo de Pixies, Jesus and The Mary Chain e Sonic Youth. O pop voltou a ter a agressividade e vigor. O niilismo, no entanto, levou a principal figura (Kurt Cobain) do movimento ao suicídio, repetindo a vida breve de muitos astros.

Na virada para os anos 1990, os ingleses se esbaldavam em festas (as raves) com ecstasy e músicas que mesclavam eletrônica, funk, punk e Beatles. Nomes como Happy Mondays, Soup Dragons e Stone Roses começam uma nova onda que vai se consolidar em seguida com Oasis e Blur. O pop inglês recuperava sua importância e refletia o momento de mudança política com a chegada do primeiro-ministro Tony Blair, uma figura mais humana que rompia com os anos de fundamentalismo liberal. Houve um revigoramento inglês, já bem modernizado pela eletrônica e com referências constantes a Beatles e Rolling Stones.

Ao longo daqueles anos, a eletrônica ganhou terreno. No lugar de grupos com formações de guitarra-baixo-bateria, os DJs usam pedaços de músicas, sons gravados na rua, e realizam colagens. A canção tocada por pessoas desaparece, e nasce uma nova forma feita de retalhos de outras músicas. Fat Boy Slim e Chemical Brothers inovaram ao recuperar os experimentos do Kraftwerk, que fazia tudo em computadores 30 anos antes. Com uma base instrumental pré-gravada e também feita de pedaços de outras músicas, os rappers também avançam ao criar letras sobre o cotidiano difícil das metrópoles e viram os trovadores modernos pelo mundo.

A síntese entre pop rock e eletrônica veio com o Radiohead – o nome do grupo foi inspirado numa canção dos Talking Heads. A banda começou na trilha do grunge, com instrumentos tradicionais e muito barulho. Aos poucos, as músicas de Thom Yorke assimilam sons estranhos, computadores e chegam a uma hibridação eletrônica em “OK Computer” (1997). O último lançamento, “In Rainbows” (2008), foi o pioneiro de um grande grupo ao ser lançado apenas para download na internet. A rede mundial de computadores acabou entrando em todas as fases da música pop, da produção à comercialização. Muitos apostam que não haverá mais campeões de venda. 

Cauda longa

Chris Andersen fez uma análise que ficou popular na era da internet. Segundo ele, a indústria fonográfica se construiu na venda de milhões de cópias de alguns poucos artistas. Foi o tempo dos big hits. A partir dos downloads, o cenário muda para poucas vendas de muito artistas. Essa é a teoria da “cauda longa”, que faz brilhar os olhos dos fanáticos por redes sociais (Orkut, Facebook, My Space). Os músicos passam a ganhar dinheiro nos shows, e o CD e as canções baixadas por computador tornam-se material de divulgação e até podem distribuídos de graça – uma vez que a luta contra a pirataria já é considerada uma derrota certa.

Tom Jobim dizia que “na minha época de rapaz, artista era Van Gogh”. Depois, as estrelas eram os Beatles, Michael Jackson ou Madonna. Hoje, com a internet, qualquer um pode virar a nova celebridade, bastando estar metido num esquema de comercialização por meio de redes sociais e lojas virtuais para downloads. Se vai ser considerado um gênio ou um grande músico, isso pouco importa. Pois o pop não poupa ninguém e deglute tudo.
 

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