revista bula
POR EM 22/06/2008 ÀS 05:21 PM

O Filho Bastardo

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Otto Klemperer nunca quis ser agradável, nunca submeteu a obra do mestre ao gosto da platéia. Não teve ligações com o nazismo como o filho pródigo da música erudita, pelo contrário, Klemperer foi perseguido e obrigado a exilar-se na Inglaterra 



Valney Natividade
           
Neste ano comemora-se o centenário de nascimento do idolatrado
Herbert von Karajan. Nascido, exatamente, em 05 de abril de 1908. Provavelmente, veremos as gravadoras entulharem as prateleiras das lojas de discos com velhas gravações repassadas por uma nova remasterização, talvez a terceira ou sexta.
           
Os melômanos que quiserem antecipar-se aos seus pares, olhem os sites da EMI e Deutsche Grammophon. Trata-se de uma justa homenagem ao filho pródigo que tornou a música erudita um produto vendável e aprazível para um público diverso.  Porém, neste ano completa-se 35 anos da morte do filho bastardo,
Otto Klemperer. Homem de temperamento difícil até mesmo para os seus amigos.
           
Bastardo porque não foi coroado por Mahler. Este escolheu outro, como bem disse Norman Lebrecht, sua “antítese tratável”, Bruno Walter. Walter trataria de amenizar e dar um status agradável às obras de Mahler. Os méritos da divulgação da obra de Mahler nos Estados Unidos são dele, não há como negar.
           
Mas o bastardo, quais são os seus méritos?    

Klemperer nunca quis ser agradável, nunca submeteu a obra do mestre ao gosto da platéia. Não teve ligações com o nazismo como o filho pródigo da música erudita, pelo contrário, Klemperer foi perseguido e obrigado a exilar-se na Inglaterra. Não encontrou uma orquestra pronta, foi obrigado a dar forma a uma de segunda linha. No caso, a Philharmonia Orchestra. O filho pródigo de Mahler sempre se mostrou generoso para o público, mas negava dinheiro para os amigos em apuros fugindo do nazismo.
           
O modernismo sempre esteve presente na vida de Klemperer. Ele regia a “famosa” “The Threepenny Opera” de Kurt Weill, já em 1931. Suas encenações das óperas de Wagner eram inovadoras por despojá-las de todo o luxo até então exibido. Nas obras de Mahler, poucas ficaram para posteridade em disco, há uma presença única de seu estilo de regência.
           
Amigo de Stravinsky, Klemperer não conseguia fazer-se palatável, na presença deste gênio. Robert Craft, pupilo de Stravinsky, dá-nos um relato da amargura de Klemperer:
 
“29 de outubro [1950]. I.S. completa o esboço da partitura do segundo ato e levo-o para assistir ao concerto de Klemperer na USC: Brandemburgo n.° 1, com Adolph Koldofsky tocando o violino piccolo, e n.° 5, com Alice Ehlers no teclado. Klemperer não agradece aos aplausos no início, limitando-se a lançar um olhar irritado para a platéia. No final, recusa-se a inclinar-se junto com Ehlers, executando apenas uma única mesura numa das laterais do palco. Seus andamentos são muito rápidos, mas pelo menos a música, nova na época em que foi composta, não soa artificialmente arcaica.” (Stravinsky, crônica de uma amizade.Robert Craft) 
           
A rapidez dos andamentos sempre foi uma constante de Klemperer, as suas execuções de Beethoven e Mahler são exemplares, mas o amor pela música o impedia de ser delicado com os seus solistas, e Klemperer era rápido conforme a necessidade. Veja o caso Dietrich Fischer-Dieskau e a gravação da Paixão de São Mateus de Bach. O diálogo abaixo teria ocorrido entre Klemperer e Fischer:           
           
“Dr. Klemperer!!           
‘Sim, Fischer?
           
‘Dr. Klemperer, eu tive um sonho na noite passada, e no meu sonho Johann Sebastian Bach me agradecia por cantar a Paixão, mas ele disse, ‘por que tão lento?’
           
‘Fischer?’
           
‘Sim, Dr. Klemperer.’
           
‘Eu também tive um sonho na última noite. E no meu sonho, Johann Sebastian Bach agradecia-me por conduzir esta Paixão, mas ele disse, fale-me, Dr. Klemperer – quem é esse Fischer’” ( Life and Death of Classical Music.Norman Lebrecht)
 
             
Aquela gravação está entre as melhores existentes. Não preciso falar da importância de Fischer-Dieskau, porém a presença de espírito de Klemperer é espetacular.
           
Neste ano de 2008, não quero lembrar do pródigo da indústria de discos, pois este deu muitos frutos, mas proporcionalmente muito inferiores ao do bastardo. Lamento, sim, a morte do bastardo ... Klemperer!!!!
 
 
Valney Natividade é historiador.

 
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