A mãe da bossa nova
Elisete Cardoso — Uma Biografia, de Sérgio Cabral, é produto de uma pesquisa meticulosa, mas a edição da Lumiar Editora é descuidada. Há vários erros (a cantora nasceu em 1920 e morreu em 1990, mas teria sido entrevistada em 1893) e algumas palavras saíram faltando letras, possivelmente por defeito de impressão
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Num país sem grandes novidades musicais de qualidade, o relançamento do disco “Canção do amor demais”, de Elizete (Elizeth ou Elisete) Cardoso, que bancou a bossa nova, deveria merecer páginas e páginas dos jornais. O disco volta ao mercado com a capa original (música: Antônio Carlos Jobim; poesia: Vinicius de Moraes), agora mencionando João Gilberto como violonista, com texto de Vinicius (escrito a mão) e, no canto direito, a fotografia de Irineu Garcia, o jornalista que, dono do selo Festa, avalizou o disco.
Gravado em 1958, “Canção do amor demais” é tido como o primeiro disco da Bossa Nova, pois João Gilberto só lançou seu primeiro disco três meses depois. Na sua esplêndida bíblia, “Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova” (Editora Companhia das Letras, 461 páginas), Ruy Castro escreve: “‘Canção do amor demais’ é o famoso LP que Elizete Cardoso gravou em abril de 1958 para um selo não-comercial chamado Festa. No futuro, iriam festejá-lo como o disco que inaugurou a Bossa Nova, por ser todo dedicado às canções de uma nova dupla, Tom [Jobim] e Vinícius [de Moraes] — e, principalmente, porque João Gilberto acompanhava Elizete ao violão em duas faixas (‘Chega de saudade’ e ‘Outra vez’), fazendo pela primeira vez o que seria a ‘batida da Bossa Nova’”. No ótimo mas hagiográfico “Elisete Cardoso — Uma Biografia” (Lumiar Editora, 402 páginas), Sérgio Cabral escreve: “A faixa do disco que mais repercutiu, através do tempo, foi ‘Chega de saudade’, apontada como a primeira gravação em que se ouve a famosa batida de violão de João Gilberto, sendo, assim, o primeiro sinal da existência da Bossa Nova”.
Lançado em maio de 1958, o disco não fez sucesso, “não foi sequer um sucessinho”, diz Ruy Castro. Elizete e João Gilberto não se entenderam. João, segundo Ruy Castro, “não estava gostando da gravidade com que a Divina tratava as músicas, como se fossem peças de algum repertório sacro — talvez porque as letras fossem de um poeta importante, Vinicius de Moraes. João queria que Elizete as cantasse mais para cima, principalmente os sambas, e às vezes se metia a dar palpites. Mostrou-lhe como fazia com ‘Chega de saudade’, atrasando e adiantando o ritmo de acordo com o que achava que a letra pedia, e tentou induzi-la a tentar algo parecido. Mas Elizete não se interessou muito por suas sugestões e, pela insistência, deu a entender que não precisava dos seus palpites”. Há, por assim dizer, certa má vontade com Elizete, porque era uma artista tradicional cantando uma música não tradicional. A tradição às vezes revela o novo. O que seria da Bossa Nova sem uma cantora célebre como Elizete? Se João Gilberto é o pai da bossa nova, Elizeth Cardoso é a mãe. Indiscutida.
Como não tem má vontade com Elizete Cardoso, pelo contrário, tem uma boa vontade não raro excessiva, Sérgio Cabral é justo: “Para 12 das 13 faixas do disco, Elisete Cardoso teve interpretações definitivas e consagradoras. (...) São músicas que mereceriam depois dezenas de gravações com muitos outros intérpretes. Nenhuma delas, porém, superou as que Elisete fez no ‘Canção do amor demais’ ou em outras oportunidades, pois a própria cantora achou que poderia cantá-las melhor e cantou, de fato, em discos gravados posteriormente”.
Menos joão-gilbertiano (ma non troppo) do que Ruy Castro, Sérgio Cabral realça o caráter precursor do disco de Elizete Cardoso: “... a faixa ‘Chega de saudade’, com Elisete, serviu como uma espécie de ensaio para o arranjo que Tom Jobim escreveria, logo depois, para a gravação de João Gilberto, esta, sim, a definitiva”. Sérgio Cabral aponta um problema na gravação de ‘Chega de saudade’: “Elisete errou a letra. Em vez de cantar ‘para acabar com esse negócio de você viver sem mim’, cantou ‘pra acabar com esse negócio de jamais viver sem mim’ — que não sei como os autores deixaram passar. O disco, aliás, só não é perfeito por causa de ‘Chega de saudade’ e do baião ‘Vida bela’. Mas é uma alegria ouvi-lo agora como será daqui a 100 anos. O violão de João Gilberto também aparece, com destaque, em ‘Outra vez’, esta, sim, uma excelente faixa. Os arranjos de Tom Jobim são de uma criatividade e de uma delicadeza exemplares. Na faixa ‘Estrada branca’, em que apenas o piano de Tom acompanha Elisete, a vontade do ouvinte é de aplaudir de tão bonita. E nas canções mais lentas, como ‘Serenata do adeus’, ‘Modinha’, e ‘Canção do amor demais’, Elisete absorveu com extrema competência e extraordinário talento o clima camerístico das próprias músicas e dos arranjos”.
O poeta e compositor Vinícius de Moraes escreveu, com acerto: “A diversidade dos sambas e canções exigia também uma voz particularmente afinada; de timbe popular brasileiro mas podendo respirar acima do puramente popular, com um registro amplo e natural nos graves e agudos e, principalmente, uma voz experiente, com a pungência dos que amaram e sofreram, crestada pela pátina da vida. E assim foi que a Divina impôs-se para uma noite de serenata”.
Segundo Sérgio Cabral, “foi por causa de sua atuação” na gravação das músicas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes “que, seis anos depois, o maestro Diogo Pacheco a convidaria para interpretar as ‘Bachianas número 5’, de Villa-Lobos, no Teatro Municipal de São Paulo e do Rio de Janeiro” .

O espírito de Policarpo Quaresma
"Elisete Cardoso — Uma Biografia", de Sérgio Cabral, é produto de uma pesquisa meticulosa, mas a edição da Lumiar Editora é descuidada. Há vários erros (a cantora nasceu em 1920 e morreu em 1990, mas teria sido entrevistada em 1893) e algumas palavras saíram faltando letras, possivelmente por defeito de impressão.
Quanto as grafias dos nomes, Sérgio Cabral, meio Policarpo Quaresma, decidiu adaptá-las. Tenho por mim que justo é indicar o nome com o qual a pessoa foi registrada. O nacionalista Sérgio Cabral pensa diferente. Sua explicação: "Optei pela grafia Elisete pelas mesmas razões que me levaram a escrever ´Ari´ — e não ´Ary´ — no livro ´No Tempo de Ari Barroso´, escrito anteriormente para esta mesma Editora Lumiar: a língua não pode ser submissa ao arbítrio dos cartórios. Antes deste livro, as enciclopédias já haviam grafado Elisete, como recomenda o bom português. Creio apenas colaborar para que o nome dela assuma a sua grafia definitiva, pois, registrada como ´Elizette´, assinou algumas vezes ´Elizete´ e só na segunda metade da década de 60 o th no final de Elizeth apareceu na capa dos seus discos".
Jacob do Bandolim, no livro, vira Jacó.
Pai de Elisete quis surrar o jogador Lêonidas Silva
Há histórias muito boas em "Elisete Cardoso — Uma Biografia". Sérgio Cabral conta-as com graça.
Elisete Cardoso ficou conhecida como a Divina e algumas pessoas se disseram pais da criação. Sérgio Cabral esclarece, com base em depoimento da própria cantora, que Divina foi uma criação do jornalista e homem de shows Haroldo Costa. Depois de um espetáculo, Haroldo Costa decidiu inventar que o sucesso havia sido tão grande que "um grupo" aparecera "portando" uma faixa que dizia: ´Elisete, a Divina". Haroldo tirou o Divina do fato de um amigo, o intelectual negro Ironides Rodrigues, chamar a atriz Greta Garbo de Divina.
Jovem, Elisete apaixonou-se pelo jogador de futebol Lêonidas da Silva, o inventor da "bicicleta". O jogador foi levá-la em casa, de automóvel (caso raro, na época), e o pai perguntou:
— Você veio de automóvel?
Elisete respondeu:
— Bem... eu... quer dizer...
— (gritando) Quem era aquele camarada? Quem era?
— Leônidas.
— Que Lêonidas é esse?
— Leônidas da Silva, o jogador de futebol.
— Quem? Não é possível! Não é possível! Você vai me prometer uma coisa: nunca mais vai encontrar com esse crioulo, entendeu?
Seriamente apaixonada, Elisete fingiu que aceitava a ordem do pai, mas continuou namorando com o craque da seleção brasileira de futebol.
"Informado da oposição paterna, Leônidas passou a entender-se com Elisete através de códigos especiais. Passava pela casa dela e dava três buzinadas. Ela saía e o encontrava na esquina seguinte.
Jaime Moreira Cardoso não era bobo e descobriu que o namoro continuava. Ameaçou surrar Elisete com vara marmelo. Ao saber que o Flamengo jogaria com o América, num campo próximo de sua casa, "Jaime anunciou que estaria no estádio para dar uma surra em Leônidas, em pleno gramado e na frente da imensa torcida que, certamente, ocuparia as arquibancadas do estádio da Rua Campos Sales. Seria uma surra daquelas, para que ele nunca mais namorasse a sua filha. Elisete desabou numa choradeira danada, tão preocupada com o vexame que estaria para acontecer. Imaginava o pai [um mulato de 1,90m] invadindo o campo de jogo para agredir o jogador a pauladas, numa cena que, certamente, envolveria os demais jogadores, o árbitro da partida, torcedores e policiais. Um escândalo! Chorou tanto que fez Jaime mudar de idéia:
— Trate de ir à padaria e telefonar para aquele crioulo, para aquele cafajeste, dizendo para ele sumir da sua vida.
— Mas estou de camisola!
— Vá assim mesmo e manda aquele moleque para o diabo que o carregue!
Chorando muito e morrendo de paixão e de constrangimento, foi ao telefone e comunicou a Leônidas que o romance chegara ao fim".
Embora tivesse ciúme da filha, Jaime era mulherengo, não conseguia sustentar a casa e, depois, abandonou a família. Elisete começou a trabalhar aos 10 anos, como babá, e depois numa charutaria.
Ao ouvi-la, na década de 1950, no Brasil, a cantora francesa Edith Piaf levantou-se e cumprimentou a colega brasileira: "C´est merveilleuse! C´est merveilleuse!" Sérgio Cabral relata "que, sem saber o que responder", Elisete "abriu o berreiro". Foi chamada de maravilhosa por Edith Piaf, elogiada por Sarah Vaughan e cantou para Louis Armstrong e Nat King Cole.
"A maior cantora de sua geração"
No livro "Uma História da Música Popular Brasileira — Das Origens à Modernidade" (Editora 34, 501 páginas), o crítico e historiador Jairo Severiano escreve (página 294): "Embora sem jamais ter alcançado o grau de popularidade de Dalva [de Oliveira] e Ângela [Maria], Elizeth Cardoso (Rio de Janeiro, RJ, 11 de julho de 1920 — 7 de maio de 1990) foi uma cantora maior — a maior de sua geração, na opinião de muitos, que a chamaram de Divina. Dona de uma sensual e melodiosa voz de contralto, quase ´mezzo soprano´, cuja qualidade era realçada por uma técnica apurada, Elizeth cantou de tudo, podendo-se classificar seu repertório como uma síntese do que se fez de melhor na música popular brasileira de seu tempo, com uma importante fase dedicada ao samba-canção, iniciada com ´Canção de amor´ (de Chocolate e Elano de Paula, 1950), o grande sucesso que a revelou. Isso pode ser apreciado em sua vasta discografia de mais de cinqüenta LPs, na qual se destaca especialmente um álbum que registra o recital realizado pela cantora, o Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro, no dia 19 de fevereiro de 1968, produzido pelo Museu da Imagem e do Som, na época sob a direção de Ricardo Cravo Albin. Dirigido e roteirizado por Hermínio Bello de Carvalho, o espetáculo cobriu trinta anos de música brasileira, com Jacob e o Época de Ouro representando a tradição, o Zimbo Tribo, a modernidade, e Elizeth atuando como traço de união entre as épocas focalizadas. Com sua versatilidade, a Divina cantou na ocasião um repertório que ia de Pixinguinha, Ary Barroso, Noel Rosa, Orestes Barbosa e o próprio Jacob a Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Chico Buarque e Milton Nascimento, entre outros".
Ao visitar o Brasil, Carmen Miranda ouviu Elizeth Cardoso e, já nos Estados Unidos, revelou ao ex-namorado Aloísio de Oliveira: "Conheci no Rio de Janeiro uma mulata que canta pra chuchu. Chama-se Elisete Cardoso".


