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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:10 PM

A encarnação do Motorhead

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Embora no papel de vira-lata, enquanto os cisnes intelectualizados eram, entre outros, Lou Reed e David Bowie, o Motorhead vestiu a armadura para combater a integração ao mercado e foi comer o pão que o diabo amassou no underground

Os shows que o Motorhead farão no Brasil, no mês de abril, confirmado no site oficial da banda inglesa, abre as portas de uma discussão que abrange, entre roqueiros, temas como fé cega e faca amolada. Fé cega entendida como idolatria, doença que leva um adulto a agir como criança. Faca amolada, como os argumentos que divergem da fé cega. Idolatria baseada no fato de que não existe Motorhead sem Lemmy Kilmister (baixo e vocal de urso).

Os clássicos do Motorhead foram gravados com Fast Eddie Clarke na guitarra e Phil Animal Taylor na bateria, de 1975 a 1982. O trio que vem ao Brasil formatou-se em 1996. Phil Campbell está com Lemmy, na guitarra, desde 1984. Mikkey Dee, na bateria, desde 1992. Campbell dividiu solos com Wurzel até 1995. Nada disso importa.

Há Sepultura sem Max Cavalera, Iron Maiden sem Bruce Dickinson, Black Sabbath sem Ozzy Osbourne e Deep Purple sem Ritchie Blackmore. Não há Motorhead sem Lemmy. Como não haveria AC/DC sem Angus Young e Nirvana sem Kurt Cobain. Não seria, portanto, exagero deixar como epitáfio para Lemmy: “aqui jaz o Motorhead”. Como poderia ser escrito no túmulo de Phil Lynott: “aqui jaz o Thin Lizzy”.

Lemmy representa o espírito incorruptível do rock. Ele foi roadie ou ajudante de palco de Jimi Hendrix e passou pelo Hawkwind antes de formar o Bastard, que virou Motorhead. Intensificou uma artimanha que deu certo em 20 discos de estúdio mais seis ao vivo. O recente “Motorizer” serve de referência para os shows no Brasil (Curitiba, dia 12, Belo Horizonte, dia 15, Recife, dia 17, e São Paulo, dia 18).

O Motorhead não muda nunca. Lemmy, sempre de preto, bigode e costeletas, menos na capa de “Overnight Sensation”, é refém de si mesmo. A incorruptibilidade o aprisiona como se fosse uma camisa de força. O herói que mostrou que é possível sobreviver sem alugar os ideais não pode, sob a condição de ser considerado um traidor, afastar-se do limite que lhe molda a vida. Lemmy, hoje, luta para conservar a fama de proscrito.

O culto à sua personalidade é um paradoxo que mantém viva a lenda e o processo de corrosão da lenda. A única saída é a aposentadoria. Lemmy gastaria os dias que lhe restam como produtor. Manteria a dignidade bebendo cerveja. Mas prefere dirigir uma das bandas mais intempestivas do mundo. Ídolo de uma legião de headbangers, na terceira idade, aos 63.

No Motorhead, o grotesco é convertido em símbolo viril. A arrogância dos manifestos bélicos, ilustrados pelo logotipo da banda (uma caveira com raiva), ganha uma aura de conversão dos valores em apelos de rebeldia. As músicas repetidas são transformadas em sinais evidentes de integridade estética. As platéias vibram com essas manifestações de adolescência tardia.

Mas a energia é canalizada para a diversão. O Motorhead não aponta caminhos, não orienta para um fim. O propósito é o escapismo. Não difere da maioria das bandas de metal pesado. As fantasias de ódio e destruição encaminham os ouvintes para a catarse coletiva. O esgotamento físico é a melhor maneira de garantir a tranqüilidade. Como num orgasmo.

Os instintos violentos são diluídos numa comunhão de intenções. Descarga de sentimentos reprimidos contra algo vago como o sistema ou alvos displicentes como bruxos, tiranos e guerreiros mitológicos. Como o desempenho do vocalista é raramente compreendido, o trovão provocado pela música introduz os cenários apocalípticos na percepção alheia.

A voz rude, áspera, apelativa e bárbara de Lemmy é o meio adequado para a condução de idéias mórbidas, emolduradas por uma instrumentação nunca menos que selvagem. A técnica é reduzida à capacidade de fazer barulho com velocidade. A isto, comumente, dá-se o nome de heavy metal.

Há, no entanto, escolas de heavy metal que privilegiam o virtuosismo. O Motorhead privilegia a transmissão direta de mensagens cruas, a partir de recursos bastante simplificados. Não à toa, ele atrai para seu centro de gravidade tanto metaleiros quanto punks. Lemmy, quem diria, aglutinava bandos que costumavam se atracar.

Os punks queriam destruir o mundo. Ao contrário dos hippies, que almejavam uma felicidade lisérgica, e dos yuppies, que reivindicavam todo hedonismo que o dinheiro pudesse comprar. A nova ordem preconizada pelos punks seria alimentada pelo caos e pelo desprezo à normalidade.

Natural que o desejo infantil fosse embalado por uma espécie de anti-música, feita por quem não sabia e não queria afinar os instrumentos. Qualquer um podia montar uma banda e gritar palavras de ordem. O rock estava, novamente, ao alcance das ruas. Fator que legitimava a guerra contra as estrelas megalomaníacas das corporações musicais.

O Motorhead se apropria desse sentimento e o amplifica, junto com as lições de riffs poderosos aprendidas com o Black Sabbath, ícone maior de batalhões que marchavam pelas vias carrancudas da existência. Depois dos hippies e antes dos yuppies, a ressaca foi cruel e desumana. Aturdido pelo fim do sonho impossível, o rock passou a ser defendido por artistas que tinham uma visão pouco esperançosa do futuro.

Embora no papel de vira-lata, enquanto os cisnes intelectualizados eram, entre outros, Lou Reed e David Bowie, o Motorhead vestiu a armadura para combater a integração ao mercado e foi comer o pão que o diabo amassou no underground.

Demorou a ser aceito como um divisor de águas. Passou muito tempo ignorado, reforçando seu time de admiradores. O Motorhead, é possível admitir depois da tempestade, foi ponta de lança de subdivisões do heavy metal que sobrecarregaram as tintas do pessimismo.

Difícil não qualificá-lo como influência determinante, precursor de radicalismos como death, black, trash e congêneres. Lemmy pontifica como alguém que perseverou e ultrapassou as dificuldades até atingir o patamar histórico de desbravador. Mesmo criticado por sua uniformidade, vulgaridade e incapacidade de reagir à mudança.

Por essas e outras, os shows no Brasil, até certo ponto, é previsível. Não se espera do Motorhead o que se espera do Radiohead, que também virá ao Brasil. O Radiohead é a antítese perfeita do Motorhead. Não vale sequer a pena compará-los, para não despertar paixões ardentes e contraditórias.

Uma das bandas mais importantes da atualidade, o Radiohead sobrepõe texturas e camadas cheias de paranóias urbanas e variações de temperamento. O Motorhead é compacto, denso e inexpugnável. Seu espetáculo segue o efeito ensurdecedor do começo ao fim. Modificar o roteiro seria decepcionar o público.

A platéia do Motorhead sabe exatamente quais são os seus desejos, o que pode esperar e o que paga para receber. Não há surpresas no show do Motorhead, como há uma infinidade de possibilidades abertas no show do Radiohead. Eis a diferença entre futuro e passado, criatividade e repetição de maneirismos.

Bandas mais refinadas, na época em que o Motorhead enfrentava a negligência, apostavam em longas performances, regadas a improvisos, como forma de hipnotizar a audiência. Complicado imaginar que tipo de improviso o Motorhead poderia oferecer à turba enlouquecida. Os Ramones tampouco improvisavam. Mas os Ramones eram, pelo menos, divertidos, engraçados. O Motorhead é apenas impermeável como um búfalo.

O profissionalismo deve ser a tônica na encenação da brutalidade. Trinta anos de convivência com a turbulência preenchem o currículo do mestre. Imagino um desfile de militantes satisfeitos depois de uma belíssima e aterradora demonstração de amor à causa.

Nada que impeça de avisar que os holofotes concentrados no personagem totêmico de um líder carismático, que adora canibalizar os impulsos primitivos da multidão exaltada, remetem a perigosas alternativas de condução da massa para objetivos moralmente condenáveis. Pense nas caravanas adolescentes que irão aos shows.

Pessoas inteligentes separam fantasia da realidade. Mas como o excesso é moeda corrente no meio, tomara que nenhum recalcado seja induzido a um delírio de poder. A segurança nunca é preparada o bastante para resolver as dificuldades com diplomacia. O cheiro de sangue no ar excita os abutres. Logo, todo cuidado é pouco.
 

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