revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 10:27 PM

A dama e a vagabunda

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Gravadoras que precisam agora mais do que nunca de estrelas reluzentes, para explorar ao limite do insuportável as reservas finais de oxigênio de um negócio moribundo. Norah Jones e Amy Winehouse atenderam as solicitações como se fossem profecias de um passado longínquo
 
 
O sucesso fez mal para a intimidade de Amy Winehouse. O seu processo de autodestruição tornou-se um incômodo público. Ela não pode mais se drogar à vontade, sem ser incomodada pelos fotógrafos que a perseguem. No dia seguinte, sua imagem tatuada e bêbada será estampada nos canais sérios de notícias e outros nem tanto. O público afoito ou não por consumir esse tipo de imagem não tem lá muita escolha. Amy Winehouse tropeça na nossa frente e nós quase escorregamos nos detritos que ela deixa por onde passa. Quando era desconhecida, ela não tinha tantos problemas para se divertir ou purgar sentimentos contraditórios. Era simplesmente ignorada como junkie. Bastou seu primeiro disco estourar para que seu inferno particular atingisse dimensões extraordinárias. Amy Winehouse não pode mais definhar em paz. Ela é um alvo tão redundante e óbvio para a indignação da moral conservadora que deveria ser poupada desse tipo de constrangimento. Assim como deveria nos poupar de seus momentos trôpegos.
 
É o tipo de inconveniência que não agride Norah Jones. Esta tem o pedigree de uma paternidade nobre. Afinal, o indiano Ravi Shankar deu aulas de cítara para George Harrison. O sucesso imediato de seu lançamento como cantora não abalou os alicerces de uma vida equilibrada. Norah Jones não é vista todos os dias nem por aqueles que desejariam ardentemente provar uns nacos da sua fama internacional. Calorosa, porém discreta e absolutamente simples, ela evita os holofotes quando está fora do palco. Uma lição a ser aprendida por todos que fazem de tudo para sair na foto, inclusive cair na sarjeta.
 
Amy Winehouse e Norah Jones, confortavelmente instaladas entre os maiores vendedores de discos do planeta, ajudaram a reverter a lenda de que a música eletrônica iria acabar de uma vez por todas com o império da canção. A lenda foi plantada com outros slogans (“o rock morreu”, “o futuro chegou”) no começo dos anos 90, usurpados em nome de uma nova ordem: o dono da festa, agora, é o DJ. Entidade máxima das noites em ebulição, o DJ comandava as pistas com toca-discos, sem banda, sem instrumentos, sem composições. Sua arte, na verdade, era uma técnica, uma habilidade: costurar fragmentos de trabalhos alheios com uma base rítmica digital. Claro que extrair sonoridades esdrúxulas de expressões matemáticas é algo que vai além da mera apropriação de dados de arquivo. Mas o princípio da (re)mixagem pouco representou fora do exótico remanejamento da ordem original das coisas. E atingiu o esgotamento no caso da new bossa.
 
O hip hop, herdeiro da malandragem do funk, encarregou-se de mesclar o pancadão sintético e a extrema agilidade do equipamento com as rimas assanhadas, provenientes dos guetos. O que adubou e impulsionou uma nova geração de artistas lotados no R&B americano, o rhythm´n´blues (que, de blues, não tem nada). Foi o atalho que a música eletrônica pegou para dominar o mercado mais robusto do mundo. Só que os DJs, entronizados como demiurgos na Europa e no Brasil, tiveram que ceder os lugares para os produtores. Estes gatos pardos da música negra direcionam a carreira de pupilos que saracoteiam em coreografias elásticas durante a execução de seus números. Clipes minuciosamente encenados ao vivo servem a senha para espetáculos que padecem de uma flagrante ausência de espontaneidade.
 
O rock labutou em veredas alternativas. O grunge, como a Camélia, caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. O britpop implodiu na concorrência interna para eleger a banda mais arrogante e derivativa. Os baladeiros lamentaram suas perdas em falsetes acabrunhantes. O nu-metal levou a sério, repetiu e amplificou a trombada dos galhofeiros enrugados do Aerosmith com os gordinhos de preto do Run DMC, além de costurar a palavra atitude numa etiqueta de street-wear. Os emos engrossaram o coro dos descontentes com descomunal afetação maquiada. O U2 manteve sua caravana irlandesa de hedonismo cristão para as massas em constante movimento. O Radiohead prefere agradar os leitores de Philip K. Dick a satisfazer a massa. Bjork sempre fez a alegria dos hippies estilizados. Nesse bate-cabeça, a música eletrônica, em uma década, de promessa avassaladora da mentalidade urbana cibernética refluiu para o território das raves legalizadas por patrocínios oficiais, sem caráter subversivo, clubes fechados e comerciais de rádio e TV. Descobriram sua irrevogável vocação artificial para jingles frenéticos e perecíveis num piscar de olhos.
 
Passada a fase excitante da multiplicação dos rótulos programados e da ilusão dos sentidos, ouvidos cansados voltaram seu interesse para a música de artistas de carne, osso e fragilidades, bem como virtudes, humanas, ainda que compartilhadas no universo virtual. Universo que sugou, como um buraco negro, as faíscas que cintilaram impunemente ao longo do século passado sob a lucrativa gerência das gravadoras multinacionais. Gravadoras que precisam agora mais do que nunca de estrelas reluzentes, para explorar ao limite do insuportável as reservas finais de oxigênio de um negócio moribundo. Norah Jones e Amy Winehouse atenderam as solicitações como se fossem profecias de um passado longínquo. Com uma pequena distância entre elas, a imprensa que dita a pauta para as redações periféricas flexionou os joelhos e determinou que os louvores fossem publicados com a convicção algo aparvalhada de quem mergulha num oásis depois de muito caminhar pelo deserto. As sugestões foram prontamente acatadas.
 
Unanimidades indiscutíveis, Norah Jones e Amy Winehouse trouxeram de volta para o cenário das paradas lembranças envelhecidas como harmonias e melodias, além dos ritmos, e vozes personalizadas no lugar dos tratamentos envernizados e metalizados como robôs que simulam cio. No antigo posto ocupado por uma ininterrupta freqüência de batidas sincronizadas e efeitos luminosos ensandecidos, surgem novamente em cena bandas completas e pausas providenciais entre canções de poucos minutos, capazes de abrigar o silêncio ou (heresia suprema) a comunicação com a platéia em apresentações abertas à contemplação. Não que estes ingredientes tivessem sido varridos do palco por um furacão que odiasse a música vestida em seus modelos tradicionais, mas eles foram soterrados por toneladas de pick-ups ensurdecedoras e suas variações tonitruantes e espasmódicas, que ainda providenciavam o tédio sob medida nas salas de lounge (que, como todos sabem, é um lugar que não existe).
 
Mas por que Norah Jones e não, por exemplo, Diana Krall, presente no mercado há mais tempo? E por que Amy Winehouse e não Joss Stone, que deu as caras como revelação precoce? Tenho minhas teorias fraudulentas. Diana Krall freqüenta o circuito do jazz erudito, domina o repertório, toca piano com desenvoltura e procura, deliberadamente, ouvintes ajuizados e bem servidos de informações histórias relevantes. Norah Jones navega num oceano de imprecisão. É meio jazz, meio pop, meio country, meio isso e meio aquilo. Se fosse para ser indigesto, diria que não fede nem cheira. É a namoradinha da novela das oito. Um ideal de pureza, candura e melancolia plácida. Uma sussurrante noviça new age. Não oferece nenhuma surpresa. É bem comportada às raias do enjôo. Joss Stone colheu pimenta na lavoura de seus três discos até agora. Ganhou uma feição menos juvenil e um pouco mais enfática, mas transmite a certeza de que precisa comer farinha na tentativa de chegar perto de se tornar uma cantora de soul. Amy Winehouse é da laia de Pete Doherty, Britney Spears, Courtney Love e uma vasta linhagem de rebeldes cascudos, teleguiados ou não, decadentes e debochados.
 
Ela chama atenção pelo anti-profissionalismo. Sua música fica a dever a Diana Ross, Aretha Franklin, Stevie Wonder, Ray Charles e outros gênios que procura evocar. O comportamento, no entanto, é muito parecido com certas fases degradantes dos ídolos citados. Se, como dizem, muitos assistem corridas de Fórmula 1 na esperança de ver acidentes terríveis, não seria de todo ingênuo afirmar que Amy Winehouse desperta, como José Dirceu em Roberto Jefferson, os sentimentos mais primitivos em gente frustrada. Ao contrário de Norah Jones, Amy Winehouse é um vulcão imprevisível, prestes a explodir. No caso dela, ainda podemos contar com mudanças de estilo. Já no caso dos DJs, eu espero somente manter uma distância considerável. 

 
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