revista bula
POR EM 14/04/2009 ÀS 01:56 PM

O sambista Ataulpho Alves era um gênio popular sofisticado

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Um dos me­lho­res crí­ti­cos de mú­si­ca do Pa­ís, Ruy Cas­tro, es­cre­veu, na bi­o­gra­fia “Car­men — A Vi­da de Car­men Mi­ran­da, a Bra­si­lei­ra Mais Fa­mo­sa do Sé­cu­lo XX” (Com­pa­nhia das Le­tras, 597 pá­gi­nas), que “Ó seu Os­car”, de Ata­ulpho Al­ves e Wil­son Ba­tis­ta, can­ta­da por Ci­ro Mon­tei­ro, é um “su­per­sam­ba”. Nou­tro li­vro, Cas­tro diz que An­dré Mi­da­ni, ao as­su­mir o co­man­do de uma gra­va­do­ra, que­ria ar­ran­car o “ran­ço” de Ata­ulpho. Co­me­ça­va aí o Es­ta­do No­vo da mú­si­ca bra­si­lei­ra, com a he­ge­mo­nia de no­vo ran­ço, o de Jo­ão “Var­gas” Gil­ber­to.

En­tre suas músicas mais fa­mo­sas es­tão “Ai, que sa­u­da­des da Amé­lia” (com Má­rio La­go), “Ati­re a pri­mei­ra pe­dra”, “La­ran­ja Ma­du­ra” (de cer­to mo­do, um con­tra­pon­to pa­ra “Amé­lia”), “Pois é”, “Mu­la­ta as­sa­nha­da”, “Meus tem­pos de cri­an­ça”, “O bon­de de São Ja­nu­á­rio”, “Er­rei, Er­ra­mos”, “A vo­cê” (com Al­do Ca­bral). Al­guns dos in­tér­pre­tes de su­as mú­si­cas: Ci­ro Mon­tei­ro, Or­lan­do Sil­va, Car­los Ga­lhar­do, Nel­son Gon­çal­ves, El­za So­a­res, Eli­zeth Car­do­so, Emi­li­nha Bor­ba, Fran­cis­co Al­ves, Car­men Mi­ran­da, Al­mi­ran­te, Au­ro­ra Mi­ran­da. Era um gê­nio po­pu­lar, mas tre­men­da­men­te so­fis­ti­ca­do.

No ex­ce­len­te “Uma His­tó­ria da Mú­si­ca Po­pu­lar Brasileira — Das Ori­gens à Mo­der­ni­da­de” (Edi­to­ra 34), Jai­ro Se­ve­ri­a­no es­cre­ve: “A par­tir dos anos 40, me­lho­rou a pro­du­ção de sam­bas — são des­ses anos obras-pri­mas co­mo ‘Ai, que sa­u­da­des da Amé­lia’ e ‘Ati­re a pri­mei­ra pe­dra’ (Ata­ulpho Al­ves e Má­rio La­go). (...) Ata­ulpho [o his­to­ri­a­dor pre­fe­re a gra­fia Ata­ul­fo] es­tá en­tre os com­po­si­to­res bra­si­lei­ros de obra mais ex­ten­sa, com cer­ca de 400 can­ções gra­va­das, sem que­da de qua­li­da­de e po­pu­la­ri­da­de”. Jai­ro Se­ve­ri­a­no é um dos mai­o­res, se­não o mai­or, his­to­ri­a­dor da mú­si­ca po­pu­lar patropi.

Na obra-pri­ma “A Can­ção do Tem­po — 85 Anos de Mú­si­cas Bra­si­lei­ras” (Edi­to­ra 34, 366 pá­gi­nas), Jai­ro Se­ve­ri­a­no e Zu­za Ho­mem de Mel­lo di­zem que o ver­so “eu era fe­liz e não sa­bia”, da mú­si­ca “Meus Tem­pos de Cri­an­ça”, é “an­to­ló­gi­co”. Não há ra­zão pa­ra discordar. Ho­je, to­dos ci­tam o ver­so, mas não se lem­bram que é uma cri­a­ção de Ata­ulpho. Na bi­o­gra­fia “No Tem­po de Ari Bar­ro­so” (Lu­mi­ar Edi­to­ra, 467 pá­gi­nas), Sér­gio Ca­bral diz que Ari Bar­ro­so con­si­de­ra­va Ata­ulpho “o me­lhor com­po­si­tor bra­si­lei­ro”.

A bi­o­gra­fia “Ata­ulpho Al­ves — Um Bam­ba do Sam­ba” (272 pá­gi­nas), de Lu­i­zi­to Pe­rei­ra, não é um “Ba­rack Oba­ma”, mas for­ne­ce os da­dos bá­si­cos da vi­da do com­po­si­tor e, me­nos, can­tor, além de con­tar his­tó­ri­as de­li­cio­sas.

No Es­ta­do No­vo, o go­ver­no de Ge­tú­lio Var­gas en­co­men­dou mú­si­cas po­si­ti­vas, com o ob­je­ti­vo de con­ter a ma­lan­dra­gem e in­cen­ti­var o tra­ba­lho — uma es­pé­cie de éti­ca pro­tes­tan­te pa­tro­pi. Ata­ulpho, que­ri­di­nho de Var­gas, e Wil­son Ba­tis­ta com­pu­se­ram “O bon­de de São Ja­nu­á­rio”. Um tre­cho diz: “O bon­de de São Ja­nu­á­rio/Le­va mais um ope­rá­rio,/Sou eu quem vou tra­ba­lhar”. A mú­si­ca, em­bo­ra oti­mis­ta, foi ve­ta­da pe­lo De­par­ta­men­to de Im­pren­sa e Pro­pa­gan­da (DIP) do go­ver­no. Var­gas, ir­ri­ta­do, con­vo­cou Ata­ulpho pa­ra se ex­pli­car. O com­po­si­tor foi ao Ca­te­te e exa­mi­nou a le­tra. Wil­son Ba­tis­ta, no lu­gar de “ope­rá­rio”, es­cre­veu “otá­rio”.

O breque que mudou uma música

O pesquisador Luizito Pereira conta a interessante história da feitura de “Ó, seu Oscar”. “Wilson Martins entregou a Ataulpho a primeira parte do samba com a letra e a música prontas. O mestre [Ataulpho] mostrou ao parceiro que havia um buraco muito grande da frase ‘logo a vizinha me chamou’ até ‘está fazendo meia hora’, pedindo um breque neste espaço. Wilson Batista ficou bravo, discordou do mestre, dizendo para ele não mexer na música, e que fizesse a segunda parte com a mesma perfeição que ele fez a primeira. Ataulpho ficou aborrecido com a resposta do parceiro e no bonde que o levava ao Méier, cantava repetidamente a melodia, achando que faltava o breque”.

Já em sua casa, Ataulpho pegou o violão e começou a tocar, pensando na música de Wilson Batista e acrescentou um trechinho que mudou tudo: “Cheguei cansado do trabalho/Logo a vizinha me chamou:/Ó seu Oscar”. Luizito Pereira diz, com razão, que “o encaixe do ‘Ó seu Oscar’ era o que faltava, o breque certo, ao ponto de o samba, que deveria chamar ‘Está fazendo meia hora’, passou a ser ‘Ó seu Oscar’. Ataulpho procurou Ciro Monteiro, ensaiou com ele a música, foi feita a gravação que resultou no maior sucesso do ano [1940], mas Wilson Batista nunca tocou no assunto, nem para parabenizar o parceiro”. O caso é interessante, pois, como costuma dizer o brilhante músico Joachim Decker, as pessoas tendem a pensar que a letra é tudo e que a música é apenas o colorido. Não fosse o breque, uma frase com nove palavras, o destino da música de corno teria sido outro.

Ataulpho também fez mudanças acertadas em “Amélia”, deixando Mário Lago, inicialmente, contrariado. Feministas entenderam a música de modo errado. Não se trata de um hino à submissão, e sim à solidariedade e à compreensão mútua entre um casal. Já a belíssima “Laranja Madura”, que as feministas deveriam ter adotado como hino, é uma crítica ao machismo, ao fato de o homem dizer que sustenta a mulher.

Em turnê pelo Brasil, Louis Armstrong foi convidado para um almoço com o presidente Juscelino Kubitschek, no Palácio das Laranjeiras. Entre os convivas Ataulpho.
 

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