revista bula
POR EM 01/12/2011 ÀS 06:07 PM

Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis

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Livro de Fernando Jorge diz que, além de copiar textos alheios, o jornalista cometeu vários erros de informação tanto nos jornais quanto ao participar da elaboração da Delta Larousse

Paulo Francis

Desperdício. É palavra mais precisa para definir a biografia (se é mesmo possível defini-la como biografia) “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis — O Mergulho da Ignorância no Poço da Estupidez”, do indefectível Fernando Jorge, que já passou a limpo a vida de Getúlio Vargas e Olavo Bilac (um estudo bem-feito). Fernando Jorge não escreve mal, mas a revisão do livro poderia ser um pouco mais cuidadosa, sobretudo porque o autor se diz tão exigente em relação ao jornalista-escritor criticado. Exemplo de desleixo: “diconário” (dicionário). Um problema, ainda que menor — numa obra de crítica tão acerba, de uma virulência implacável, Fernando Jorge mostra-se indulgente: chama dom Pedro II de “bondoso” e o Estado do Maranhão de “terra fértil sob todos os aspectos”. Só faltou chamar o senador-escritor José Sarney de Shakespeare do Nordeste. 

Este texto começa com a palavra desperdício porque, em 501 páginas (putz!), Fernando Jorge não cumpre o que promete e, assim, não desconstrói o jornalista e o escritor Paulo Francis (1930-1997). A agressividade irracional (redundância) de Fernando Jorge impede que conheçamos mais o célebre jornalista que escreveu na “Senhor”, no “Correio da Manhã”, na “Folha de S. Paulo” e em “O Estado de S. Paulo” e foi comentarista da TV Globo e debatedor do “Manhattan Connection”. O sr. Massacre perdeu uma grande oportunidade. Poderia ter provado, ou pelo menos tentado, o fracasso literário de Paulo Francis. Não mostrou nada convincente. Bastava consultar pelo menos uma crítica arrasadora de José Guilherme Merquior — infelizmente, apenas esboçada. Antes de se tornar “amigo” do jornalista, Merquior disse que, depois de “Cabeça de Negro”, o jornalista certamente publicaria o romance “Cabeça de Vento”. Paulo Francis tentou ser o Thomas Mann do Brasil, ao publicar romances de ideias, mas não chegou aos pés de Heinrich Mann. Toda a obra literária do brasileiro, descendente de alemães, não chega aos pés do menor romance de Thomas Mann. Paulo Francis tinha informação, escrevia bem, mas faltava-lhe imaginação literária. 

Outro fracasso, talvez até maior: Paulo Francis não escrevia propriamente reportagens — e não era mesmo sua intenção; tudo indica que planejou ser uma espécie de messias-guia cultural da nação patropi (li alguns autores indicados em sua coluna, como Muriel Spark) —, e sim “recortagens”. Ele lia muitos jornais e revistas (não perdia um exemplar da “New Yorker”, a grande revista norte-americana) e, daí, fabricava suas “notícias” ou, na maioria das vezes, meras opiniões sobre vários assuntos, como economia, que não dominava com precisão. O “recórter” é conhecido, nas redações, como o gigolô do repórter. Correspondentes estrangeiros são useiros e vezeiros em copiar, com traduções precisas ou estropiadas, jornais americanos, ingleses e franceses — sem citar a fonte. Recentemente, o jornalista, escritor e tradutor Janer Cristaldo denunciou um correspondente da revista “Veja” na Europa. Acusou-o abertamente de plágio. Um plágio escancarado. O fato é que Paulo Francis não era e jamais quis ser repórter da estirpe dos notáveis Seymour Hersh, Robert Fisk e Jon Lee Anderson. Era um comentarista — inteligente e divertido, ainda que não se preocupasse com precisão — de cultura, sua verdadeira esfera, de política e, pretensiosamente, de economia. 

Depois do petardo de Merquior e da polêmica com Caetano Veloso, que o chamou de “bicha travada” (o jornalista não era homossexual), a interpretação que mais incomodou Paulo Francis foi uma crítica do jornalista Caio Túlio Costa, ex-ombudsman da “Folha de S. Paulo”. Caio Túlio Costa, numa polêmica memorável, ressaltou que Paulo Francis era mais cronista que o típico jornalista que investiga e apura e não diminui nem amplia os fatos. O brilhante colunista e polemista seria, digamos assim, como Eberth Vêncio e Edival Lourenço (estrelas da “Revista Bula”) — quer dizer, cronista. Paulo Francis ficou particularmente irritado, além da tese de que era mais cronista do que jornalista, por ter sido tachado de “irreverente”. Devolveu um fogo cerrado. O xingamento mais leve foi: Caio Túlio Costa teria “cara de lagartixa”. Não era o objeto da discussão e o xingatório mostrou um vezo pueril. Mas em polêmica, como sugeria o próprio Paulo Francis, vale tudo. Até a desqualificação do adversário. 

A pobreza filosófica de Paulo Francis é outro aspecto que Fernando Jorge evita examinar. Em filosofia, a sua cultura era claramente de almanaque, de orelha ou de biografias. Ele tinha formação acadêmica para sustentar um debate a sério, não palavroso e virulento, a respeito de Kant ou Ludwig Wittgenstein? Não tinha, mas fingia ter, dando opiniões de segunda sobre os mais variados filósofos e intelectuais. Mas ninguém ousava contestá-lo — com medo do xingatório destrambelhado mas prazeroso (para o leitor). Nesse aspecto, o livro de Fernando Jorge também é fraco. Na parte cultural, Paulo Francis era, insisto, um vulgarizador de primeira. Hoje, com a internet, com a possibilidade de acesso facilitado às publicações internacionais, não seria mais tão necessário. Mas aquele estilão bravio, informando as novidades culturais (os lançamentos de livros, o teatro, a música) da “Corte”, faz mesmo falta. 

Quando discute plágio, Fernando Jorge parece errar. Francis detestava a tal intertextualidade. A grosso modo, esse palavrão acadêmico significa que um autor “deixa” que a angústia da influência (a influência de outro autor, às vezes trechos de sua obra, ainda que adaptados ou distorcidos) apareça claramente em sua obra, sem que necessariamente seja preciso citar a fonte. Ocorre que, muitas vezes, nos textos de jornalistas que lidam com cultura, é impossível mencionar todas as referências. É uma forma de evitar notas de rodapé, que são afeitas apenas aos trabalhos acadêmicos. Pois bem: se odiava a intertextualidade, Paulo Francis era, na prática, um de seus adeptos. E por isso, quem sabe, escapa de ser tachado de plagiário. Fernando Jorge pensa completamente diferente. 

Paulo Francis escrevia muito em jornal, publicava livros, trabalhava na TV Globo e era a estrela do “Manhattan Connection”, o cult-emergente do Globo News. Era o azedume e o charme do programa. Fernando Jorge está mais interessado no Paulo Francis que escrevia nos jornais e procura rastrear seus “erros”. Quem não escreve não erra. Quem escreve erra. É elementar. Dizer isso não é perdoar Paulo Francis. Pelo contrário. Ele devia ter sido mais cuidadoso. 

Em tom de blague, pode-se dizer que Paulo Francis era o Ronaldinho Gaúcho do jornalismo. Como o jogador do Flamengo, “chutava” até bem, mas às vezes a sua pontaria era avariada. E é quando mostra os erros de Paulo Francis que Fernando Jorge mais acerta e, até, diverte o leitor. 

“Paulo Francis é a ignorância mais bem paga do Brasil”, conclui Fernando Jorge. Ele até apela: “Os textos de Paulo Francis não são atuais. Eles são fecais”. Em que a agressão explica alguma coisa? Quase transforma, se não transformou, o jornalista em vítima. Vítima, sim, de um crítico alucinado, que escreve 501 páginas atabalhoadas. Mas vejamos os erros. 

Em “O Pasquim”, em 1971, Paulo Francis escreveu que “‘Tora, Tora, Tora’ [filme] é um curioso ato de masoquismo... Pearl Harbor foi uma traição japonesa... Darryl F. Zanuck os apresenta [os japoneses] quase sempre nobres, caindo até no ridículo. Exemplo: o almirante Yamamoto, que comandou o ataque (e foi convidado, comparecendo à première do filme nos Estados Unidos, putz), fica danado...”. 

Fernando Jorge replica, com violência: “É um absurdo, um golpe mortal de caratê no bom senso, esta informação do Paulo Francis. A morte de Yamamoto, episódio dramático da batalha das ilhas Salomão, ocorreu em abril de 1943, quando o avião no qual viajava tombou no oceano Pacífico, abatido pelos americanos. Portanto, o almirante não poderia ter comparecido à estreia do filme ‘Tora, Tora, Tora’, realizada em 1971. O convidado foi o japonês Minoru Genda, capitão-de-corveta, que participou do ataque aéreo a Pearl Harbour”. O minucioso Fernando Jorge escreve “Harbor” e “Harbour”. O certo é Harbor. A repórter do “Pop” Rosângela Chaves garante, contra as evidências, que o filme “O Grande Gatsby”, baseado no romance de F. Scott Fitzgerald, foi dirigido por F. Ford Coppola. 

Alguns erros de Paulo Francis são até mais graves, pois foram publicados numa obra de referência. Ele chefiou, a pedido de Antônio Houaiss (do qual se tornou inimigo fidagal. Fernando Jorge cita Ramón y Cajal: “Existem três classes de ingratos: os que silenciam diante do favor, os que o cobram e os que se vingam”), as seções de teatro, rádio e televisão da “Grande Enciclopédia Delta Larousse”. 

Segundo Fernando Jorge, há dezenas de erros cometidos por Paulo Francis. “A atriz Eugênia Infante de Câmara, a musa de Castro Alves, não faleceu em 1879, como a ‘Delta Larousse’ registra, e sim em 28 de maio de 1874, segundo esclarece o seu atestado de óbito, assinado pelo doutor Luiz Manuel Pinto Neto. Outro erro: o ator João Caetano não estreou em 1831, mas sim em 24 de abril de 1827. E no verbete sobre o dramaturgo Antônio José da Silva, o Judeu, o descuidado Paulo Francis permitiu a fusão de duas peças desse autor, transformando-as numa só comédia. ‘Esopaida ou Vida de Esopo”, peça de 1734, e ‘Os Encantos de Medeia”, peça de 1735, passaram a ser, mescladas, a comédia “Esopaida ou Encantos de Medeia”. 

Mais falhas: “A peça ‘Le Demi-monde’, de Alexandre Dumas Filho, foi representada em 20 de março de 1855 e não em 1885. Pierre de Larivey, um dos criadores da comédia francesa, morreu em 12 de novembro de 1612 e não em 1619. Veio ao mundo em 1829 o autor dramático espanhol Manuel Tamayo y Baus, e não no ano de 1819. Até esse disparate o Francis deixou escapar: a comédia ‘Os Acarnianos’, de Aristófanes, escrita no ano 425 antes de Cristo, só nasceu em 1425, muitos séculos depois, na época de Joana D’Arc...”. 

Tido como expert em literatura, Paulo Francis escreveu no “Estadão”: “Charlotte Brontë morreu com 37 anos. Foi a que viveu mais dos seus irmãos. Sua irmã gêmea, Emily, morreu com 30 anos, depois de nos dar a obra-prima ainda insondável, ‘Wuthering Heights’, ‘O Morro dos Ventos Uivantes’”. Ocorre que Charlotte nasceu em 1816 e Emily em 1818. Portanto, não eram gêmeas. Fernando Jorge tripudia: Charlotte morreu em 1855, com 39 anos. Confira a linguagem do “biógrafo” acidental: “Francis é bondoso como a aranha-cuspideira, quando ela arremessa a sua rede de veneno grudento em cima das moscas velozes”. 

Paulo Francis era tido como leitor voraz, mas isso, avalia Fernando Jorge, é falso (as evidências provam o contrário). “A história mais engraçada de Anatole France é ‘Crainquibille’, sobre o estupro por um soldado alemão de uma mulher francesa com o marido debaixo da cama, na guerra franco-prussiana”, constata Paulo Francis. Fernando Jorge contesta: “O conto ‘Crainquibille’, publicado em 1903, não tem nada de engraçado, é uma história trágica, comovente, e nela não aparece nenhum soldado alemão estuprando uma mulher francesa, cujo marido fica debaixo da cama, conformado ou a tremer de medo”. 

O campeão do plágio, segundo Fernando Jorge 

Fernando JorgeNa questão do plágio talvez resida a maior inconsistência do livro de Fernando Jorge. Se bem que o erro maior está na própria concepção de vindita da obra. Fernando Jorge é o vingador de todos os “oprimidos” e “humilhados” pelo jornalista Paulo Francis (que, dizem os amigos, era um doce de pessoa — fora do mundo da polêmica). 

Paulo Francis escreveu, em 1991, no “Estadão”: “... tudo na guerra é muito simples. Mas o simples, na guerra, é muito difícil”. Ganhou elogios dos leitores. Depois explicou: “Waal. Dou a fonte porque sofri alguns encabulamentos com elogios recentemente. Me cumprimentaram por escrever ‘tudo na guerra é muito simples. Mas o simples, na guerra, é muito difícil’. Agradeci, mas devolvi a autoria a Clausewitz”. Fernando Jorge está certo: é uma das raras vezes em que o jornalista explicou a origem de uma citação. 

Outra espirituosidade — “Bebo para tornar as (outras) pessoas interessantes” —, Paulo Francis também explicou: o autor é um de seus pais intelectuais, o crítico teatral George Jean Nathan. Francis acreditava, certamente, que, como eram cultos, seus leitores saberiam distinguir as citações, independentemente de se explicitar o autor. Fernando Jorge acha que não. Trata-se de “plágio”: “Valendo-me de uma expressão de Agrippino Grieco, seria melhor ele pôr aspas nos cantos da sua boca, ou usar bigodes-de-arame, bigodes retorcidos com o formato de aspas, pois dela, de tal boca, não param de sair, como se houvessem nascido do seu crânio, dezenas e dezenas de pensamentos alheios”. 

O risco das citações sem mencionar a fonte pode ser comprovado num caso anotado por Fernando Jorge. No livro “O Poder de Mau Humor”, organizado por Ruy Castro, há citações “de” Paulo Francis que não são dele. As frases “o nacionalismo é uma doença infantil. É o sarampo da humanidade” não são criações de Paulo Francis, mas de Albert Einstein, registra o “Dicio­nário Universal de Citações”, organizado por Paulo Rónai (pai da jornalista Cora Rónai). Ruy Castro dançou. 

Na extinta revista “Status” (de volta às bancas, parece uma morta-viva, um simulacro), em 1985, Francis publicou: “...gente demais e a canoa está furada há muito tempo. Se queres um monumento, olha em volta”. A última frase, nota Fernando Jorge, “é um plágio do epitáfio em latim (“Si monumentum requiris, circumspice” = “Se lhes procuras o monumento, olha em redor”) do túmulo de sir Christopher Wren”. Fernando Jorge ironiza: “A alma de Wren fumegou, abespinhou-se. Senti até a impressão de ter ouvido os seus gritos: — Paulo Francis, você roubou meu epitáfio! Deixe a minha alma descansar em paz! Devolva meu epitáfio! Eu quero o meu epitáfio!” Um médium teria contado para Fernando Jorge como será o epitáfio de Paulo Francis: “Aqui jaz Paul Heilborn Francis, plagiário nascido no Brasil e enforcado pelas almas do seus plagiados num poste da East 66TH Street de Nova York, durante uma horrorosa tempestade de neve”. O nome verdadeiro de Paulo Francis (tirado do teatro de revista por Paschoal Carlos Magno) era Franz Paul Trannin Heilborn. 

Brincadeiras à parte, até de mau gosto, Fernando Jorge aponta novo “plágio” de Paulo Francis: “Em casa, tomo um fósforo, acendo meu cigarro, o beijo, amigo, é a véspera do escarro”. O comentário de Fernando Jorge: “Tal frase é um plágio cínico, despudorado, do soneto ‘Versos íntimos’, escrito por Augusto dos Anjos em 1901, no sombrio engenho de banguê Pau d’Arco. O referido soneto, um dos mais característicos do poeta paraibano, foi incorporado ao livro ‘Eu”, cuja primeira edição é de 1912”. Trata-se mesmo de plágio? Tudo indica que não. Paulo Francis não era nenhum idiota de pensar que pelo menos parte de seus leitores não perceberia que se tratava, na verdade, de uma citação indireta, ou “incorporada” à cultura da língua portuguesa quase que como senso comum, ou melhor, ditado popular. 

Noutra crítica, Fernando Jorge denuncia plágio e até o pouco domínio da língua. “Aqueles a quem os deuses querem destruir, primeiro enlouquecem”, publicado no “Estadão”, como se fosse de Paulo Francis, é de Eurípedes. A tradução também “está errada”, segundo Fernando Jorge: “São os deuses que enlouquecem ou os fulanos condenados por eles? Incapaz de se expressar de maneira correta em nossa língua, o senhor Francis omitiu o ‘os’ antes do terceiro verbo, indispensável na frase, pois lhe fornece a clareza e o sentido lógico. É esta a tradução certa: ‘Aqueles a quem os deuses querem destruir, primeiramente os enlouquecem’”. Fernando Jorge entende tudo de gramática, mas a vírgula, depois de “destruir”, é mesmo necessária? 

O “plágio” que parece ter mais irritado Fernando Jorge teve como “vítima” Machado de Assis, um dos ícones de Paulo Francis. O jornalista, acometido de “plagionite aguda”, escreveu: “Nesse mundo de incerteza, ideologias confortam, ou nos ajudam a passar o tempo. Matamos o tempo, o tempos nos mata”. Machado de Assis escreveu, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Matamos o tempo; o tempo nos enterra”. 

Até o diretor de cinema Louis Malle, Paulo Francis “plagiou”. O título brasileiro de “Le Feu Follet” (“O Fogo Fátuo”), filme de Louis Malle baseado no romance do suicida Drieu de la Rochelle, foi “surrupiado” por Francis no livro que escreveu sobre 1964 — “Trinta Anos Esta Noite”. Se Paulo Francis é atacado por ter “roubado” o título de um filme, imagine os editores de revistas e jornais. Seriam surrados. Todos amam editar reportagens e artigos com títulos retirados de filmes e, em menor escala, de livros. 

Winston Churchill também é “garfado” por Francis: “Quando vejo o sangue, suor e lágrimas que são gastos nessa tirinha de terra que é Israel, fico pensando no que aconteceria se aquele aspone de D. Pedro II tivesse dado a Theodor Herzl, pai do sionismo, o Maranhão, digamos”. No célebre discurso pronunciado na Câmara dos Comuns, em 1940, Churchill destacou: “Eu digo a esta Casa, como disse aos que integraram o governo: só lhes posso oferecer sangue, fadiga, lágrimas e suor”. 

Mesmo Shakespeare, o pai da literatura ocidental, “sofreu” nas mãos do plagialista (substantivo inventado por Fernando Jorge). Está em “Hamlet”: “The rest is silence”. Paulo Francis escreveu: “... pertence às ciências naturais. O resto é silêncio”. O que é uma citação culta vira, na crítica de Fernando Jorge, plágio. 

O poeta John Donne, mais conhecido por ter sido citado por Hemingway, é vítima de Paulo Francis Plágio da Silva (apelido criado por Fernando Jorge): “... não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por você, brasileiro, que ganha a vida trabalhando”. John Donne escreveu, em 1624: “... a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isto não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. 

Resta provado que Paulo Francis é plagiário? Não. A biografia “Paulo Francis — Brasil na Cabeça” (Relume Dumará), escrita por Daniel Piza, ainda que o autor seja fã e discípulo (moderado, diga-se) do jornalista, é um trabalho mais sério, equilibrado e distanciado do que o estudo imenso (em tamanho) de Fernando Jorge. “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis” é um livro vingador que, desnecessário, não vingará. 

Hermano Alves mandou Paulo Francis segurar o planeta 

No livro “O Relógio de Pascal”, citado por Fernando Jorge, Caio Túlio Costa relata um encontro entre Paulo Francis e o jornalista Hermano Alves, em Londres. Os dois estavam cobrindo a viagem de um presidente dos Estados Unidos à Inglaterra. O diálogo entre os dois: 

— Olá, Herrrmano, você por aqui?

— Sim, meu caro. Estou indo cobrir o ‘briefing’ do secretário de Estado...

Puxando sempre os erres, Francis assegurou:

— Não perca tempo, Herrrmano. Este sujeito não tem a menooorrr imporrrtância. Já mandei despacho dizendo que nada de importante será discutido.

Hermano Alves foi em direção à porta da sala, fez meia-volta e falou, a fim de ser ouvido por todos:

— Francis, me faça um favor?

— Pois não, Herrrmano!

Aí o outro pediu amavelmente:

— Enquanto eu vou lá, segura o planeta para ele não cair!
 

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