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POR EM 12/08/2010 ÀS 05:37 PM

Uma história cruenta da imprensa brasileira

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José Carlos Bardawil tenta demolir o mito de Midas de Mino Carta, ataca os jornalistas-assessores e aponta as razões do fracasso inicial da revista "Veja" e do fracasso total do "Jornal da República" 

O Repórter e o PoderLivro de jornalista sobre jornalismo e jornalistas invariavelmente é desinteressante. Ficamos sabendo, em geral, da parte rósea da profissão, que estimula tantos garotos a prestarem vestibular para o curso de Jornalismo. Nas obras cor-de-rosa, os jornalistas contam que falaram com as eminências de seu tempo, contam maravilhas sobre suas viagens e, para atrair mais leitores, uma pitada de sexo é inescapável. Experiências próprias e de gente famosa. Não é o ocorre com o livro “O Repórter e o Poder” (Editora Alegro, 271 páginas), as memórias de José Carlos Bardawil. Trata-se, na verdade, de uma longa entrevista, não muito bem editada (e com vários erros), feita por Luciano Suassuna (diretor de Jornalismo do portal iG). O livro não tem nada de chato e pode ser lido de uma sentada. Conta uma história, digamos, quase cruenta de parte da imprensa brasileira. Bardawil morreu ainda novo, aos 54 anos, vítima de câncer. Suas memórias têm um tom de mágoa, de ajuste de contas. Percebe-se, também, que o jornalista transforma fatos irrelevantes em fatos decisivos. Como obra de maledicências, não deixa de ser muito interessante, lembrando, quem sabe, Humberto de Campos. 

O Brasil, talvez até o mundo — para José Carlos Bardawil —, devia ser bardowilcêntrico. O jornalismo político dependia dele, ou deveria depender. Bardawil teve, em toda a sua vida de profissional, duas obsessões: ser chefe de uma redação e ser o melhor jornalista político do país. Conseguiu, na sua opinião. E aqui reside uma falha do livro: seu organizador, Luciano Suassuna, não faz sequer uma introdução ou posfácio para nuançar as opiniões do jornalista. No posfácio, escrito pelo senador e escritor José Sarney, uma informação é  corrigida, ou pelo menos se apresenta outra versão, plausível até. Sarney nega que tenha sido lobista, ao lado do ex-governador paulista Abreu Sodré, em São Paulo. “Nunca tivemos escritório nenhum”, garante Sarney. Inimigo de Vitorino Freire, Sarney passou pelo crivo de sua língua faca só lâmina. “Era a política do vale-tudo. A tal fórmula da República Velha: ‘Se teu inimigo não tem rabo de palha, ponha um de fogo’”, acrescenta Sarney. A “denúncia” foi passada a Bardawil por Petrônio Portela, uma das figuras mais interessantes (e quase nada analisadas) da República civil-militar nos governos de Geisel-Figueiredo.  

É provável que outras histórias, se checadas por Suassuna, poderiam produzir versões diferentes das apresentadas. A nossa verdade costuma não ser a verdade, e, sim, a nossa verdade, uma verdade, um pedacinho da realidade. Aliás, Suassuna erra também ao manter suas perguntas, absolutamente descartáveis. O livro ficou sem costura, apesar da divisão em capítulos, para facilitar a leitura. Pode-se dizer que, como reportagem, faltou ouvir o outro lado. Mas livro de memórias é assim mesmo: parcial. O que não o torna desinteressante. 

Mino Carta apanhou para fazer a Veja

Mino CartaJosé Carlos Bardawil começou sua vida de jornalista no Ceará, inventando histórias, depois passou pelo Rio Grande do Sul e começou a fazer fama no “Notícias Populares”. “Quando saí de lá, em 1968, o jornal já vendia 145 mil em banca, o que era a maior tiragem de São Paulo. Nem o ‘Estadão’ vendia isso.”

Mas boas mesmo são as histórias do início de “Veja”, lançada em 1968 pela família Civita. Bardawil solta a língua. O editor da revista, Mino Carta, não queria contratar jornalistas “viciados”. Queria gente nova, com formação acadêmica diferenciada. A Abril organizou um curso, que teve mais de 3 mil inscritos. No final, ficaram 50. Silvio Lancellotti, que depois se destacou como comentarista de futebol e “analista” de culinária, era arquiteto. 

Entre os professores do curso estavam Tão Gomes Pinto, Matsumoto, Ulisses Alves de Souza, Armando Salem e Carlos Souliê do Amaral. Segundo Bardawil, Souliê “era um poeta, que não sabia nada de jornalismo e que o Mino botou na cabeça que tinha de ser jornalista”. 

Segundo Bardawil, Souliê era uma completa incompetência como jornalista. Então ele abria o dicionário e pegava: “‘caminhão’. ‘Vai fazer uma matéria sobre caminhão’. E pra mim ele dizia: ‘Babá’. ‘Vá fazer uma matéria sobre babá’. Era assim, ele nem lia jornal”, embora fosse editor de “Veja”. 

As contratações na “Veja” não eram só “técnicas”, na avaliação de Bardawil. “O Mino era declaradamente italianófilo e então todo mundo que tinha sobrenome italiano se saiu bem. Era o caso, por exemplo, do Gilberto Paoletti. Também se destacou o Silvio Lancellotti, que era um arquiteto que queria ser jornalista, e logo entrou como editor-assistente. Logo em seguida já era editor. Depois o Silvio chegou a ser o segundo do Mino, no começo da ‘IstoÉ’.” 

A “Veja” surgiu como uma cópia da “Time”. A versão de Bardawil: “A ‘Time’ naquela época era uma revista de editor, pouco de reportagem, uma revista de texto. (...) Só que eles [os editores da Veja] não sabiam fazer revista. Não sabiam de jeito nenhum. Não tinham a menor ideia do que era uma revista de informação. (...) Nenhum deles. Nem o Mino. O Mino tinha ido fazer uma visita à ‘Time’, mas não se aprende o que é uma revista numa visita. Então ele viu mais ou menos como era o organograma, estudou um pouquinho como era a ‘Time’, e resolveu que a ‘Time’ era uma coisa fantástica, com repórteres em profusão, que traziam informações e o redator mexia no texto. Depois o editor dava outra mexida. E, na verdade, isso transformava a ‘Veja’, em seu começo, num elefante, um negócio muito lento. Toda matéria de ‘Veja’, nos primeiros tempos, tinha umas cento e tantas páginas para serem transformadas em cem, 200 linhas. Porque vinha matéria do Amazonas ao Chauí. E, nesse jogo, o trabalho dos repórteres ia embora. No início da ‘Veja’ o grande problema que o pessoal tinha era que o repórter não conseguia ver a matéria dele. Quando ela era finalmente publicada, às vezes saía uma linha do repórter e eles ficavam lá: ‘Cadê? Ah, tá aqui, a minha linha’...” Um editor da “Veja”, Almyr Gajardoni, dizia: “Repórter não existe na ‘Veja’. Repórter é bosta! (...) Aqui editor é o que vale”. 

Brasília, na época, não era “importante” para a “Veja”, segundo Bardawil. Paulo Cotrim, que dirigia as sucursais, teria dito a Bardawil que todas as sucursais já estavam ocupadas: “...só tem aquela merda de Brasília. Aquela bosta de Brasília”.

Sem experiência na cobertura política, mas com medo de ser demitido, Bardawil procurou encontrar saídas originais. Indicado por Pompeu de Souza, o diretor da sucursal da “Veja”, para cobrir uma reunião da Arena, Bardawil encontrou a porta fechada. “Bom, normalmente você iria pro Pompeu e diria: ‘A porta fechada, não dá pra fazer a reunião. Mas pra mim aquilo já significava que ia ser demitido. Então voltei pra pensão em que morava, peguei uma roupa velhíssima, coloquei uma gravata de quinta categoria e peguei uma chave de fenda. Chego lá na reunião e havia aquele contínuo da Arena, que era o Valdo, negrão de dois metros de altura. Aí eu olhei pra ele com a chave de fenda na mão e disse: ‘Telefônica’. (...) Quando eu entro tá o Filinto Müller, que era o presidente da Arena, o Petrônio Portela, o Batista Ramos, o Bonifácio de Andrada e o Ronan Pacheco. (...) Aí comecei a abrir um telefone e ninguém mais olhou para mim. A reunião continuou e eu lá assistindo. Tinha sido ator de teatro e tinha uma memória muito boa. (...) fui pra redação, escrevi o texto e entreguei ao Pompeu. (...) Ele gostou da matéria, mas pensou que fosse uma reunião pública. Nisso ele telefona pro D’Alembert [Jaccoud], e fica sabendo que ninguém tinha nada porque a reunião tinha sido fechada. O Pompeu mandou me chamar: 

— Que houve, garoto, a reunião era fechada, tá inventando?

— Não, eu entrei na reunião, assim, assim, assado.

— Que repórter fantástico!!! Entrou disfarçado!!! 

Bardawil não parou aí. Ele gostava de se esconder num banheiro para escutar as reuniões da Arena. “Era um banheiro enorme e uma vez eu fui para fazer xixi e notei que se você ficasse nos WCs do banheiro e prestasse atenção, ouvia tudo o que se falava na reunião.” 

Mário Covas era líder do MDB e Pompeu mandou Bardawil colar nele. Bardawil colou mesmo e Covas saiu de uma reunião e disse: 

— Não, não, não Bardawil, não.

— Como não?

— Não, porque não é possível. Eu estou indo ao banheiro, você quer ir até pro banheiro comigo, porra. 

Uma história surrealista

Há uma história fantástica (que Luciano Suassana poderia ter ampliado, se quisesse) contada por José Carlos Bardawil. Durante o processo de cassação de Márcio Moreira Alves, Bardawil colou no deputado, mas acabou sendo chamado por Pompeu de Souza. A história: 

“—...você tem uma missão muito mais importante agora? 

— Qual?

— Nós temos uma foto que o Afonsinho [Afonso de Souza, editor da “Veja”] descobriu, uma foto antiga que ele descobriu aí, que mostra o Costa e Silva sentado no Congresso, sozinho, posando de ‘Dono do Congresso’, e eu falei com o Mino e o Mino concordou comigo que a foto pode ser a capa da revista. Só que está tudo bloqueado, o Correio não está mais funcionando, o aeroporto não está mais funcionando (isso já foi depois da votação), e você tem de fazer esse negócio chegar lá até amanhã, meio-dia no máximo, que é o fechamento da revista. E é um risco de vida, porque se te acharem com essa foto, não sei o que pode acontecer com você. 

E isso era sexta-feira à tarde e a revista fechava no sábado ao meio-dia. 

— Pompeu, eu chego lá com esse negócio.

— Então tá com você. 

Eu tinha a foto pronta, revelada e ampliada. Botei uma camiseta por baixo da camisa, na barriga. Tive essa inspiração. Porque depois realmente se mostrou uma inspiração. O Pompeu disse: ‘Você vai levar como? Num envelope?’. E eu disse: ‘Não, num envelope não. Eu vou botar no meu próprio corpo, porque envelope você carrega na mão, se eu for revistado a primeira coisa que o cara vai revistar é o envelope. Pasta também não adianta que também vai ser revistada. Eu acho que no meu próprio corpo talvez passe’. E telefonei pra todas as empresas aéreas, e todos os voos pra São Paulo estavam fechados. (...) Fechados pelo regime já, porque logo depois do Márcio Moreira Alves veio o AI-5. Houve aquela reunião famosa, no Rio, quando decidiram fazer o AI-5. Então, o AI-5 já tinha sido até decretado, e não me engano, ou ia ser anunciado. Nós perguntamos que voo tinha, e soubemos que havia um voo especial só pra levar deputados pro Rio de Janeiro, que ia sair às oito da noite. E Pompeu telefonou para um deputado e disse: ‘Pelo amor de Deus, deixa ele viajar, dá esse lugar pro Bardawil’. E o deputado, que era nosso amigo, me deu o lugar. (...) quando descemos (do avião), fomos revistados. E, para sorte minha, o cara pegou dos lados, e não na frente, né, e a foto estava na frente. O cara pegou até nos meus testículos.” Do Rio de Janeiro, Bardawil foi para São Paulo. “No meio do caminho, fomos parados por soldados, e novamente fomos revistados.” Em São Paulo, Bardawil escreveu parte da matéria. “Então, essa matéria eu considero um furo meu, porque eu levei a foto, ajudei a escrever e foi a primeira grande matéria da ‘Veja’, o grande sucesso inicial da ‘Veja’.” 

A edição com Costa Silva na capa acabou apreendida. “Ela saiu na rua, circulou umas duas, três horas, e foi apreendida na banca. Foi, assim, o primeiro grande sucesso da ‘Veja’. A ‘Veja’ aconteceu ali, porque, até então, a revista não tinha pegado. A revista estava trôpega. O primeiro número teve uma tiragem fantástica, mas depois foi caindo. Esse número do Costa e Silva foi histórico porque foi o primeiro número da ‘Veja’ que repercutiu. E eu não só levei a foto como escrevi a matéria praticamente toda. Essa história foi gloriosa pra mim durante uma, duas semanas. Logo depois começou pra valer o tempo pós-AI-5 e aí acabou a matéria política.” 

A “Veja” começou com 600 mil exemplares, caiu para 300 mil no segundo número e, no terceiro, para cem mil. “No final de 1968 a ‘Veja’ estava na faixa de 30, 40 mil exemplares. Era um desastre editorial. (...) Então ‘Veja’ entrou numa fase tão ruim que, segundo eu soube na época, chegou a 9 mil exemplares. Só não fechou porque os Civita resolveram bancar o prejuízo, que era monumental. Era pra fechar. Se estivesse na mão de uma empresa mais fraca, fechava. Foi aí que eles começaram a criar o departamento de assinaturas. E o departamento de assinaturas deu a primeira injeção em ‘Veja’, que logo chegou a 20 mil assinantes.” 

Com a demissão de Raimundo Pereira, Mino contratou Elio Gaspari, que havia começado na profissão escrevendo a coluna social do Ibrahim Sued. Gaspari, conta Bardawil, foi quem mais o incentivou a cultivar as fontes. “Pô, esse Petrônio (Portela) gosta de você. Vai lá, conversa com ele. Não deixa de conversar com ele. Toda semana você vai lá e pega coisa com o Petrônio.” 

Pompeu de Souza x Mino Carta: as razões da demissão

Pompeu de SousaO fulgurante Mino Carta foi afastado da revista “Veja” e até agora sua história não está devidamente esclarecida. A versão de Mino está em suas memórias romanceadas — “O Castelo de Âmbar”. José Carlos Bardawil, se não esclarece, coloca mais lenha na fogueira. 

Mino Carta, diretor de redação da “Veja” de 1968 a 1975, e Pompeu de Souza, diretor da sucursal de Brasília, travaram uma guerra. No governo de Geisel, “o Pompeu tornou-se amigo do Armando Falcão e o Falcão acabou falando pra ele que o Mino estava atrapalhando. Em 1975 a ‘Veja’ estava na oposição. O Mino tinha assumido uma atitude política por causa da censura. Ele ficou puto porque sentiu pela primeira vez o que era ditadura. E ficou contra a ditadura pela primeira vez, porque o Mino, até 1974, era um cara blasé”, diz Bardawil. Quer dizer: não tinha muito interesse por política enquanto não pisaram no seu calo. 

Segundo Bardawil, “naquela época [1975], a Abril tinha altos negócios, como os hotéis Quatro Rodas, por exemplo, que receberam dinheiro do governo. A Abril a essa altura estava virando um império e ter um diretor que não era bem-visto pelo governo realmente atrapalhava. Aí houve uma negociação entre o Civita e o Armando Falcão pela qual o Mino sairia. E a ‘Veja’, a Abril principalmente, ficaria muito de bem com o governo”. 

Na versão de Bardawil, Mino sempre achou que o responsável por sua demissão foi mesmo Pompeu de Souza. Mino não teve o apoio da redação para resistir. Um de seus protegidos, Silvio Lancellotti, teria dito, chorando: “Eu acabei de pedir empréstimo para construir uma casa. E não posso perder o meu empréstimo e a minha casa. Se eu ficar sem dinheiro para pagar o empréstimo, estou liquidado”. 

Mino se gaba de ter criado a entrevista das páginas amarelas. Bardawil discorda: “A minha maior contribuição à ‘Veja’ foi que eu sugeri as páginas amarelas”. Ele teria dito a Mino: “Olha, eu acho que essa revista tinha de ter pelo menos uma grande entrevista da semana”. Resposta de Mino: “Ah, meu caro Bardawil, infelizmente essa sua sugestão não será atendida porque não existem 52 pessoas no Brasil que mereçam ser entrevistadas por ano... (...)... esse é um país de merda”.

“E alguns meses depois, para meu espanto, surgem as Páginas Amarelas”, relata Bardawil. Mino tinha o hábito de copiar as ideias dos outros e, sobretudo, gostava de copiar outras publicações, notadamente as estrangeiras. “A ‘IstoÉ’, na verdade, foi uma revista que no começo pretendia ser um ‘L’Observateur’. Era a fórmula: até a paginação era parecida. Depois a ‘Senhor’ foi uma cópia da ‘The Economist’. Mino virou capitalista e se tornou dono da ‘IstoÉ’ e do ‘Jornal da República’, mas fracassou nos dois projetos. Perdeu a ‘IstoÉ’ para o grupo dono do Unibanco e fechou o ‘Jornal da República’.” Mino “queria fazer a cópia do ‘La República’, um jornal italiano”. 

No “Jornal da República”, depois de Mino Carta, o chefão era Claudio Abramo. Um dia ele pegou um texto de André Gustavo Stumpf, na versão de Bardawil, e teria dito: “Venham ver todos. Todos venham aqui ver essa desgraça!”. “E todo mundo foi lá onde estava o velho com um telex na mão — a coluna do André. E esticou aquele telex na mesa e nós vimos que as linhas do telex estavam todas riscadas. E por cima de cada linha ele tinha reescrito a mão o artigo inteiro. Depois, apontando dramaticamente para aquele telex, ele disse: ‘Vejam o que eu faço com uma matéria de merda! De um redator de merda! Reescrevo linha por linha’.” Quando lia as matérias de André, segundo o relato de Bardawil, Mino Carta ficava possesso. “E, de repente, ouvíamos aquele barulho na sala do Mino. Todo mundo ia lá, e o Mino tinha quebrado o telefone, estava quebrando mesa, chutando a parede. De raiva. ‘Matéria de merda’. Um dia ele ficou tão furioso que deu um soco na parede e machucou o braço. Ficou uns dois dias usando tipoia”. 

Quando o “Jornal da República” estava quebrando, Armando Salem, um dos diretores, “fez acordo com (Paulo) Maluf, acordo que jamais se pensaria que o Mino faria. O Mino começou a apelar e deu matéria na primeira página do Maluf para o Maluf pagar a folha. (...) Maluf pagou uma ou duas daquelas folhas”. 

O “Jornal da República” saiu, no primeiro número, com 400 mil exemplares. “Mas só no primeiro. Depois já começou a cair para 100 mil, foi para 80 mil e ficou um tempo com 60 mil.” No final, só tinha 3 mil exemplares. 

Sobre Mino, Bardawil ainda dá outra estocada: “Toda vez que ele saiu de uma publicação, aumentou a tiragem dessa publicação. (...) ...o Mino é uma pessoa muito refinada, muito sofisticada e tende a fazer jornais sofisticados, revistas refinadas, que só agradam uma minoria. (...) quando ele saiu da ‘Veja’, a ‘Veja’ atingiu píncaros de vendagem. O próprio ‘Jornal da Tarde’, depois que ele saiu, chegou a 120, 140 mil exemplares”.  

Mino, repete Bardawil, não era um jornalista original. Mino teria dito: “Tudo é cópia, tudo é cópia. Vamos chupar, vamos chupar. Chupar bem é que faz o bom jornalismo”. Mino escrevia bem? Bardawil diz que viu redatores bem melhores. Bardawil não viveu o suficiente para ver outro sucesso editorial de Mino, a revista “CartaCapital”. Pode ser tachado de “neo-petista”, de “pró-Lula”, mas é um grande fazedor de revistas. 

Sobre Elio Gaspari

José Carlos Bardawil conta histórias do arco da velha sobre a política das redações. “A do (Elio) Gaspari, que faz uma espécie de política de redação aberta: ele se declara o melhor, combate os outros e acaba ganhando ou, pelo menos, tendo um cargo de destaque na redação. Eu vi o Pompeu que fazia aquela política melíflua. Mas de alto nível. Eu vi o Mino (Carta), que também fazia política de redação de uma maneira muito discreta, elegante. Claro que às vezes dava porrada na mesa”. 

O sindicato do óbvio

No fim da década de 60, havia em Brasília, segundo José Carlos Bardawil, uma espécie de sindicato. “Eram os sete grandes repórteres, que naquele tempo só havia sete. Era um do ‘Estadão’, o outro era do ‘Globo’, o outro era do ‘Jornal do Brasil’ e por aí vai. Era o Evandro Carlos de Andrade, o Benedito Coutinho, o Rubem de Azevedo Lima, que era da ‘Folha’, o Edison Lobão, do ‘Correio Braziliense’, e outros.” 

O “sindicato”, garante Bardawil, tinha um pacto: ninguém traía ninguém. Daí a cobertura era mais ou homogênea. Mas ele conta um fato que prova que não havia tanta harmonia assim. O relato de Bardawil: “... entramos no gabinete do Krieger [Daniel Krieger, líder da Arena no Senado], e ele recebeu a gente fumando aquele charuto. Ele falou umas coisas lá, mas eu não achei nada importante, e não liguei. No fim do dia fui pro telex e disse: ‘Meu caro Mino, não tenho nada. (....) não está acontecendo rigorosamente nada’. No dia seguinte, para o meu desconsolo, estava lá como manchete do ‘Estadão’: ‘Problemas no horizonte, Krieger prevê crise’, por Evandro Carlos de Andrade. E eu fui lá ver e tinha uma puta matéria, que começava com a fumaça do charuto do Krieger, o Krieger baforando o charuto para o teto, um negócio bem cifrado. E então o Evandro disse: ‘Ah, quando ele fala isso, isso significa aquilo, lembremos tal dia que aconteceu aquilo outro, e aí somando isso mais aquilo outro, significa aquilo outro’. Foi quando eu vi que a reportagem política era muito mais complicada do que poderia pensar. Era um troço que exigia conhecimento anterior, que exigia ligar os fatos anteriores, que exigia que você conhecesse o cara, até para decifrar frases”. 

A história do bolo

Como José Carlos Bardawil era um jornalista egresso do sensacionalista “Notícias Populares”, os jornalistas da “Veja” faziam gozações com ele o tempo todo. O próprio Bardawil conta um trote engraçado que pregaram nele:

“Um dia eu chego lá, depois de ter feito uma matéria, e tem uma multidão na sala do Mino. 

— Que houve?

— Você não sabe? Aniversário do Mino. Tá tendo bolo lá, se você não aparecer, tá cortado. 

Aí me deu aquele desespero. Ou eu ficava naquele curso, ou aos 23 anos, mais uma vez, ia ter de começar tudo de novo. Então eu estava nervosíssimo. Acreditei piamente que se não fosse lá no aniversário seria cortado e saí correndo. Comecei a dar cotoveladas nas pessoas e fui entrando, fui entrando, e a sala do Mino estava cheia de gente. De repente quando eu vi, estava pisando nos pés das pessoas já dentro da sala, e tinha um bolo e o Mino lá sentado. E eu não estava mais conseguindo me equilibrar, tentei me apoiar colocando a mão em alguma coisa sólida, e a mão, a minha mão, foi direto no bolo. Entrou a minha mão direto no bolo e todo mundo riu. O Mino olhou e disse assim: 

— É rapaz, uma entrada triunfal! Você é aquele, né, o Bardawil. 

Depois que ele disse isso, me senti liquidado. Já pensou o cara que entrou direto com a mão no bolo do Mino? Eu estava me sentindo morto e enterrado. Mas graças ao Tão [Gomes Pinto], que conseguiu vender lá nas reuniões que eu era um talento fantástico, acabei ficando.” 

Os jornalistas tinham medo de Mino. “Você não conseguia falar com ele, era o Deus, o Mino era o Deus”, disse Bardawil. Exagero? Mágoa? Ou retrato de um editor? Um pouco de tudo.

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