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POR EM 29/04/2012 ÀS 11:43 PM

Uma biografia do Câncer

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“O Imperador de Todos os Males — Uma Biografia do Câncer” (Companhia das Letras, 634 páginas, tradução de Berillo Vargas), do oncologista Siddhartha Mukherjee, professor da Universidade Columbia, é um livro brilhante. Conta a história da doença desde o seu “início” — há milhares de anos — e nota que sua expansão se deve à civilização. Mukherjee, que ganhou o Prêmio Pulitzer com o livro, escreve muito bem, sem usar, em nenhum momento, o impenetrável jargão acadêmico. Trata-se de uma obra séria, que certamente não desagrada o especialista e agrada muitíssimo o leigo. “O câncer”, diz Mukherjee, “é uma das doenças mais antigas já vistas num espécime humano — muito provavelmente a mais antiga”.

Há registro em documentos provando que o câncer era conhecido há centenas de anos. Arqueólogos descobriram, em 1914, uma múmia egípcia de 2 mil anos “com um tumor invadindo o osso da bacia”. Louis Leakey “descobriu um maxilar datado de 2 milhões de anos atrás que traz os sinais de uma forma peculiar de linfoma encontrada endemicamente na África meridional”.

Ante as informações de que os índices de câncer crescerem no Estado, os goianos suspeitam que tem a ver com o acidente do césio 137. A causa tende a ser outra. “O câncer é uma doença relacionada com a idade — às vezes exponencialmente. O risco de câncer de mama, por exemplo, é de cerca de um em quatrocentos numa mulher de 30 anos e aumenta de um para nove numa de setenta. Nas sociedades mais antigas, as pessoas não viviam o suficiente para desenvolver o câncer. Homens e mulheres eram consumidos bem antes por tuberculose, hidropsia, cólera, varíola, lepra, peste ou pneumonia” (nos Estados Unidos, no século 19, a pessoa vivia em média 47 anos).

O câncer “só se torna comum quando todas as outras doenças mortais são combatidas”, diz Mukherjee.

No século 19, pensava-se que a civilização, com sua pressa e excessos, era uma das causas do câncer. Mukherjee contesta: “A civilização não é a causa do câncer, mas, ao prolongar a vida humana, ela o desvela. (...) O câncer é uma doença relacionada com a idade”.

O câncer “apareceu” mais, afirma o oncologista, também por outro motivo. “Nossa capacidade de detectar o câncer cada vez mais cedo e de lhe atribuir mortes com precisão também espetacularmente no século passado. (...) E as técnicas de cirurgia, biópsia e autópsia aguçaram ainda mais a nossa capacidade de diagnosticar o câncer. A introdução da mamografia, para detectar o câncer de mama mais cedo em sua evolução, aumentou drasticamente sua incidência.”

Mukherjee preocupa-se inclusive em explicar a origem da palavra câncer. “Foi na época de Hipócrates, por volta de 400 a. C., que um termo para câncer apareceu pela primeira vez na literatura médica: karkinos, da palavra grega para ‘caranguejo’. O tumor, com os vasos sanguíneos inchados à sua volta, fez Hipócrates pensar num caranguejo enterrado na areia com as patas abertas em círculo. A imagem era peculiar (poucos cânceres, a rigor, se parecem com caranguejos), mas também vívida.”

A história do nascimento da quimioterapia, uma criação do patologista Sidney Farber, é um dos pontos altos do livro. Mukherjee conta que, errando às vezes, provocando até mortes de crianças, Farber foi decisivo para criar a quimioterapia.

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