revista bula
POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

Um relato pessoal sobre a guerrilha

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A guerrilha brasileira ganhou pelo menos uma batalha: a bibliográfica. A esquerda contou sua versão em vários livros e os militares, os vencedores, perderam a guerra do texto. Entretanto, a maioria dos livros dos ex-guerrilheiros não tem qualquer espírito autocrítico

O trabalho histórico mais abrangente sobre a esquerda em armas continua sendo, mesmo depois da publicação de “A Ditadura Escancarada”, de Elio Gaspari, “Combate nas Trevas”, de Jacob Gorender. Mas os livros continuam saindo e pelo menos um deles merece ser lido com atenção, não como um rigoroso estudo histórico — caso da obra de Gorender —, e sim como o que é: memórias. Sinceras, dolorosas e nada heroicas.

“Uma Tempestade Como a Sua Memória — A História de Lia, Maria do Carmo Brito” (Editora Record, 179 páginas), de Martha Vianna, de tão bem escrito lê-se numa tarde (ou numa noite). Conta-se, com delicadeza, a história de Maria do Carmo Brito, a Lia, que comandou a VPR, uma organização de esquerda que lutou contra a ditadura civil-militar. Alguns livros — como “Mulheres Que Foram à Luta Armada”, de Luiz Maklouf Carvalho — apontam Lia com um problema não resolvido. Quer dizer: na prisão, barbaramente torturada, Lia não segurou a barra e falou sobre companheiros e sobre o dinheiro roubado do cofre de Adhemar de Barros. Lia também não cumpriu o pacto de suicídio com o marido, o líder guerrilheiro Juares Guimarães de Brito, o Juvenal. (No livro de Gorender, a grafia é Juarez.) Encurralado, Juares se matou. Lia preferiu ficar viva ou não teve tempo para se matar. Ela foi presa.

Maria do Carmo poderia ter usado o livro para se justificar, para se defender, mas não o faz. Ela admite que, sob tortura, que a fazia ficar menstruada o tempo todo, fez revelações, a maioria sem importância. Conta que, pressionada, foi obrigada a torturar o guerrilheiro Ladislas Dowbor. E revela que, mesmo espancado, Dowbor não aceitou torturá-la. É preciso coragem e seriedade para admitir e dizer isto.

A história do cofre de Adhemar “Rouba Mas Faz” de Barros está documentada, mas merece um livro especial. O político paulista, supostamente corrupto incorrigível, guardava um cofre na casa da amante, Ana Benchimol Capriglioni. A Var-Palmares descobriu, por intermédio de um sobrinho de Ana Capriglioni, e organizou um assalto. A Var esperava 100 mil, mas, quando o cofre foi aberto, havia 2,6 milhões de dólares. “Tinham acabado de dar o maior golpe da história do terrorismo mundial”, diz Elio Gaspari (página 54 de “A Ditadura Escancarada”).

Baseado em outras publicações e fontes, Gaspari explica para onde foi todo esse dinheiro. “Um pedaço, que pode ter variado entre 800 mil e 1 milhão de dólares, foi entregue a um diplomata argelino. Outro, estimado entre 250 mil e meio milhão, foi depositado na Suíça. Assim, algo entre 1 e 1,6 milhão de dólares ficou no Brasil. É certo que um espertalhão francês embolsou parte da poupança externa do grupo. Segundo o CIE (Centro de Informação do Exército), em 1974 restavam na Europa 120 mil dólares.” Maria do Carmo sabe o nome de quem ficou com o dinheiro, mas não o revela em suas memórias. Luís Mir, em “A Revolução Impossível”, revela alguns nomes.

O livro reserva detalhes que vão interessar o leitor goiano. Dois dos principais líderes da esquerda armada, Juares Guimarães e Maria do Carmo, moraram em Goiás, em 1963. Eles eram militantes da Polop (Política Operária). O relato de Martha Vianna: “Os dois tinham uma atividade oficial: ele trabalhava no governo do Estado de Goiás [governo de Mauro Borges] e dava aulas de Sociologia na Universidade Federal de Goiás, enquanto ela trabalhava na Comissão Interestadual do Vale dos Rios Araguaia-Tocantins (Civat). Mas os dois tinham outra função paralela: cuidavam da criação de Sindicatos Rurais”. Eles foram presos quando organizavam um sindicato rural em Nazário.

Há uma referência também ao ex-marinheiro José Duarte, que ocupou cargo de proa no governo de Marconi Perillo. O relato de Maria do Carmo: “José Duarte dos Santos e o brasileiro desconhecido se abraçaram como amigos de longa data”. O encontro ocorreu no Chile e o desconhecido era o Cabo Anselmo, que, ao passar para o lado do delegado Sérgio Paranhos Fleury, devastou a esquerda. José Duarte, que nada tinha a ver com as delações do Cabo Anselmo, ficou desesperado ao saber que o companheiro era um traidor. A versão de Maria do Carmo (que chama José Duarte de “Faca Grande”): “Aí o Duarte entrou em parafuso, porque tinha sido ele, ainda no tempo do PC, quem tinha recrutado o Anselmo. E se sentia diretamente responsável”. O relato de Martha Vianna: “Maria do Carmo e Faca Grande resolveram então que voltariam ao Brasil, no melhor estilo dos comandos suicidas, para acabar com o Cabo Anselmo”. Não voltaram e o Cabo Anselmo fez um estrago definitivo na esquerda armada.

O leitor decerto perceberá que Maria do Carmo mostra o ridículo da guerrilha e debocha de si própria, que, a partir de certo momento, não acreditava mais na luta armada, mas não tinha como sair. Maria do Carmo foi casada com Ângelo Pezutti e, depois, casou-se com Chizuo Osava, o Mário Japa. Seu livro é um portentoso ajuste de contas com o passado, o seu e o do país, ainda que lacunar.
 

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