revista bula
POR EM 03/05/2012 ÀS 08:22 PM

Um guia mínimo de leitura sobre a ditadura civil-militar

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O livro “Brasil: Nunca Mais” não esgota a discussão sobre a tortura no país, apesar do levantamento exaustivo. Há muito a se pesquisar.

Não basta ler livros sobre tortura. Para compreender o golpe de Estado de março/abril de 1964 e os governos militares é preciso ler vários livros, como “1964: A Conquista do Estado” (Vozes, 899 páginas), do uruguaio René Armand Dreifuss. É um trabalho bem documentado. Talvez ajude a “espantar” a tese de que a ditadura instaurada em 1964 foi só militar. Para se obter informações mais gerais, numa exposição didática e simples (às vezes simplista), pode ser consultado “Brasil: De Castelo a Tancredo” (Companhia das Letras, 483 páginas, tradução de Berilo Vargas), do brasilianista Thomas Skidmore.

O jornalista Elio Gaspari escreveu a série Ilusões Armadas, em quatro volumes. “A Ditadura Envergonhada” (417 páginas), “A Ditadura Escancarada” (507 páginas), “A Ditadura Encurralada” (525 páginas) e “A Ditadura Derrotada” são obras fundamentais para compreender do golpe de 64 ao governo de Ernesto Geisel. Os livros são bem-escritos e, sobretudo, contêm uma pesquisa exaustiva em documentos inéditos dos governos militares. Eles superam, com folga, a síntese de Skidmore. Alfred Stepan, um brasilianista competente, escreveu “Os Mili­tares: Da Abertura à Nova Re­pública”. Stepan faz o que os estudiosos brasileiros em geral não fazem: estuda os militares sem preconceito, objetivamente. Mostra, por exemplo, que Geisel seguia as teses de Maquiavel de como conservar o poder. Bernardo Kucinski fez um estudo radical em “Abertura — A História de uma Crise”. O jornalista perdeu a irmã, vítima dos militares. A pesquisa mais criteriosa sobre a Abertura é “História Indiscreta da Ditadura e da Abertura — Brasil: 1964-1984” (Record, 517 páginas), tese de doutorado do economista e historiador Ronaldo Costa Couto apresentada na Universidade de Paris.

Maria Helena Moreira Alves faz um ótimo, ainda que não muito nuançado, balanço das relações conflituosas (óbvio) entre Estado e oposição em “Estado e Oposição no Brasil (1964-1984)”.

O historiador Carlos Fico é autor de três livros importantes para compreender a ditadura e o pós-ditadura: “O Grande Irmão: Da Operação Brother Sam aos Anos de Chumbo — O Governo dos Estados Unidos e a Ditadura Militar Brasileira” (Civilização Brasileira, 334 páginas), “Como Eles Agiam — Os Subterrâneos da Ditadura Militar: Espionagem e Polícia Política” (Record, 269 páginas) e “Além do Golpe — Ver­sões e Controvérsias Sobre 1964 e a Ditadura Militar” (Re­cord, 391 páginas).

O historiador Jorge Ferreira escreveu uma biografia equilibrada de Jango, que não o torna santo nem demônio. “João Gou­lart — Uma Biografia” (Civi­lização Bra­sileira, 714 páginas) resulta de uma pesquisa exaustiva sobre a vida do presidente deposto em 1964 e sobre o período em que atuou politicamente.

“Combate nas Trevas”, de Jacob Gorender, é o clássico sobre a atuação da esquerda na ditadura civil-militar. Gorender, embora esquerdista, tem independência suficiente para mostrar os erros da esquerda e, mesmo, a sua violência. A esquerda, nota-se pela exposição de Gorender, não era “santa”, embora, no geral, fosse de uma falta de visão impressionante. Faltavam, possivelmente, vivência e experiência política, militar e estratégica aos guerrilheiros. “A Revolução Impossível”, de Luís Mir, é outro livro relevante sobre a esquerda.

“Confissões de Generais”, do goiano Eurico Barbosa, é uma boa síntese sobre a intervenção militar na política brasileira. Prova como o golpe de 64 foi bagunçado.

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