revista bula
POR EM 17/09/2012 ÀS 09:23 PM

Sho­sha, de Isaac Bashevis Singer

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Todo romance é sobre literatura. Todos os que contam, pelo menos, como nos lembra “Sho­sha”, de Isaac Bashevis Singer, lançado originalmente em 1978, o mesmo ano em que o autor ganhou o Prêmio Nobel. A linhagem é conhecida. “O Qui­xote” que se debruça sobre si mesmo na segunda parte do texto de Cervantes é o exemplo canônico da ficção com autoconsciência. O jogo não tem fim e chegou ao auge com as experiências do século 20, de James Joyce a Guimarães Rosa.

Mas, longe de ameaçar a sobrevivência da arte, monumentos da conflagração literária como “Ulisses” e “Grande Sertão” be­beram na fonte dos clássicos, sinal de que a criação literária, há tempos, alimenta-se da reflexão sobre o que se escreve e dela faz sua principal trama. Nas “Mil e Uma Noi­tes”, o núcleo do drama não são as histórias contadas por Sherazade, mas sim o fato de contá-las, o que representava a anulação da pena de morte decretada pelo rei. Em Rosa, o livro é o confronto entre o contador e o ouvinte fictício. O objetivo é nobre. A arquitetura da narração, por mirar-se no espelho, torna-se real, só para contaminar os personagens. Riobaldo e Diadorim tornam-se de carne e osso, enquanto acontece o reverso no projeto, pois não existe nada mais inventado do que o doutor que chega de longe para escutar o velho jagunço. Esse é o segredo do romance, que jamais se entrega ao que quer contar, antes denuncia a sua impossibilidade. Ao desistir (sem se entregar) ele consegue atingir a essência da produção de um escritor de verdade.

Não há disfarce maior do que o romancista confessar que é apenas um contador de histórias. A crítica costuma embarcar nessa canoa, achando que o inventor deixou para os outros o principal da obra. Não é preciso ler um ensaio para conhecer as intenções de um romancista e a certeza que ele tem de não conseguir enganar ninguém com seus truques. A não ser que desvie a atenção do leitor para as paragens do mural que constrói, até levá-lo pela mão para ver o que existe atrás da parede pintada (quando acontece, então, a revelação). Quem conta uma história diz como e por que conta, pois todo escritor aspira à eternidade, e não há alma imortal na literatura que se enrede na própria teia. O escritor sabe: quando o livro acabar e a vítima acordar de seu devaneio, e tardiamente descobrir a cama-de-gato preparada, voltará as costas para a obra (essa é a origem dos livros datados e esquecidos). Mas se o próprio livro disser do que se trata, então a fidelidade é absoluta. Amor ou amizade precisam da verdade, e a verdade são letras sobre papel. À parte isso, “Moby Dick” nos espera para nos engolir.

As ciências da linguagem fizeram uma abordagem dúbia sobre essa vocação, pois descobrir o truque implicava, muitas vezes, dissecar a cobaia. O romance seguiu em frente graças à insistência do gênio de autores como Jorge Luis Borges, que reinstaurou a magia do livro dentro do livro, do autor fictício, do narrador que terceiriza a autoria para deflagrar o eterno retorno do maior dos encantamentos, o da leitura. No fundo, os livros inventados dentro dos livros reais são o que pensam ser a literatura, enquanto a própria vai sendo desenrolada, como um novelo de surpresas, enquanto avançamos nas páginas.

Singer, em “Shosha”, tem a seu favor um tempo específico, a Varsóvia dos anos 1930, antes da invasão de Hitler. Uma cultura que se presta a todos os equívocos, a dos judeus, e que em “Shosha” revela toda a grandeza da sua universalidade, já que nada escapa ao olho clínico e crítico dos próprios judeus, não só sobre Deus, o mundo e o universo, mas sobre os limites da vivência inspirada nos textos sagrados. Com esses instrumentos, Singer nos brinda com o pesadelo do escritor que tentou viver de seu ofício enquanto o mundo desmoronava.

O umbigo desse mundo é a Rua Kro­chmalna, onde o narrador, inventado, passou a infância. A metáfora dessa época é a pequena Shosha, o espírito infantil que se recusou a crescer e a amadurecer e que funciona como um ímã para o escritor, que tenta escapar da ética (que num tempo de chacais é a maior das maldições, mas a única que leva à grandeza). A obra inverossímil, que sustenta as aspirações do escritor-personagem, é uma peça iídiche, encomendada por um milionário americano, casado com uma artista judia e desencantada. Não são as intenções do autor que fazem fracassar o projeto, é o seu destino. O embate entre o que está escrito e o livre-arbítrio é a linha que costura o livro. Conseguirá o escritor o sucesso para escapar da ameaça de invasão de Hitler? Poderá mentir e fazer concessões o suficiente para tornar-se um profissional do ramo? Ou terá que arrostar seu pecado original (a vocação legítima) como um fardo, como quem carrega uma criança doente nos braços, com a qual assume núpcias criticadas por todos?

Singer tenta nos seduzir com seu jogo de infinitas possibilidades para o jovem escritor que tem estrela e pode sair rico da empreitada. Mas nos carrega de volta para a rua da infância, onde tudo está condenado, não apenas os mortos que assombram os sótãos, mas os vivos que aguardam o Holocausto. A mes­tria do autor, o verdadeiro, constrói não só uma rua, inesquecível, mas uma cidade, impressionante pela diversidade, e um mundo, em colapso evidente. Deveríamos já conhecer essa história, mas é como se fosse contada pela primeira vez. O escritor fictício derrama-se em literatura verdadeira enquanto tenta compor a peça ditada pelos interesses financeiros. Um outro romance irreal entra pelas frestas da sua escrivaninha como um fantasma que se desdobra em mistérios.

Poderia ser uma história sem surpresas, mas essa é a parte principal da leitura. O morto que continuou dando comida aos pobres, a irmã defunta que visita a casa materna, a neve seca iluminada em meio ao ermo de uma viagem de trem convivem com seus opostos: os prazeres com muitas mulheres, os restaurantes de mesas fartas. As limitações religiosas chocam-se com o deboche, a modernidade penetra as escrituras, o mal rola na cama com a inocência.

Ao assumir suas origens, o escritor que quase caiu na tentação do dólar recompõe a humanidade que perdeu, mas descobre que a vida são páginas de um livro que jamais voltam para trás. As cenas continuam lá, escritas, mas não podem ser revisitadas. O universo simultâneo cerca Singer com suas garras de ferro e só há um jeito de escapar de tantas fronteiras: o deixar-se levar pelo inevitável e assim descobrir que não há respostas quando a consciência está desperta.

O que fica não são as perguntas, mas um livro que abraçamos porque não mente. E que deveria ser sobre uma cidade ainda viva onde podemos aportar. Mas sabemos que jamais chegaremos à Varsóvia re­criada por Singer. Ele nos diz com todas as palavras que isso é impossível. A única coisa que nos resta é entender o poder da literatura, a que serve a refeição depois de nos mostrar a feira. E que acende a vela sem chama suficiente para resistir ao sopro misterioso do divino.

Trecho do livro Shosha, de Isaac Bashevis Singer

Fui criado em três línguas mortas — hebraico, aramaico e iídiche (alguns não consideram esta última uma língua, absolutamente) — e numa cultura que se desenvolveu na Babilônia: o Talmude. Acheder em que eu estudava era uma sala na qual o professor comia e dormia e sua mulher cozinhava. Ali não estudei nada de aritmética, geografia, física, química ou história, mas sim as leis que regem o ovo botado num feriado e os sacrifícios em um templo destruído há dois mil anos. Embora meus ancestrais tenham se estabelecido na Polônia uns seiscentos ou setecentos anos antes de eu nascer, só aprendi algumas palavras da língua polonesa. Vivíamos em Varsóvia, na rua Krochmalna, que bem podia ser chamada de gueto. Na verdade, os judeus da Polônia ocupada pelos russos eram livres para viver onde quisessem. Eu era um anacronismo em todos os sentidos, mas não sabia disso, assim como não sabia que minha amizade com Shosha, a filha de nossa vizinha Bashele e seu marido, Zelig, tivesse qualquer coisa a ver com amor. Romances aconteciam entre rapazes mundanos que raspavam a barba e fumavam cigarros no shabat e garotas que usavam blusas de mangas curtas e vestidos decotados. Essas loucuras não tocavam um menino de cheder de sete ou oito anos, pertencente a uma casa hassídica.

Mesmo assim, sentia atração por Shosha e sempre que podia passava pelo escuro corredor que havia entre o nosso apartamento e o de Bashele. Shosha tinha mais ou menos a minha idade, mas enquanto eu era considerado um prodígio, sabia várias páginas do Gemara e capítulos do Mishná de cor, era capaz de escrever em iídiche assim como em hebraico e já havia começado a ponderar sobre Deus, a providência, tem­po, espaço e infinito, Sho­sha era considerada um pouco boba em nosso edifício, o nú­mero 10. Aos nove anos, ela falava como uma criança de seis. Ficou dois anos para trás na escola pública onde seus pais a matricularam. Shosha tinha cabelo loiro que caía até os ombros quando ela soltava as tranças. Seus olhos eram azuis, o nariz reto, o pescoço longo. Ela puxou à mãe, conhecida pela beleza na juventude. A irmã dela, Yppe, dois anos mais nova que Shosha, era mo­rena, como o pai. Usava um aparelho na perna esquerda e mancava. Teibele, a mais nova, ainda era bebê quando comecei a visitar a casa de Bashele. Ti­nha acabado de ser desmamada e dormia em um berço.

Um dia, Shosha voltou da escola chorando — havia sido dis­pensada pelo professor, com uma carta dizendo que lá não havia lugar para ela. Trouxe dois livros para casa — um em russo, um em polonês —, além de cadernos de exercícios e uma caixa com canetas e lápis. Não tinha aprendido nada de russo, mas conseguia ler polonês bem devagar. O livro polonês tinha as figuras de uma vaca, um galo, um gato, um cachorro, uma le­bre e uma cegonha dando de comer aos filhotes recém-nascidos em seu ninho. Shosha sabia de cor alguns poemas do livro.

O pai dela, Zelig, trabalhava em uma casa de couros. Saía de casa de manhã cedo e voltava tarde da noite. A barba preta de­le era sempre curta e redonda e os hassidistas do nosso prédio diziam que ele aparava a barba — uma violação à prática hassídica. Usava uma capa curta, colarinho duro, gravata e sapatos de pelica com arremate de borracha. Aos sábados, ia à sinagoga frequentada por comerciantes e trabalhadores.

Embora Bashele usasse uma peruca, não raspava a cabeça como minha mãe, esposa do rabino Menahem Mendl Greidinger. Mamãe sempre me dizia que era errado um filho de rabino, estudante do Gemara, ser companheiro de uma menina, e além disso frequentar uma casa comum como aquela. Ela me alertava para nunca comer nada lá, uma vez que Bashele podia preparar carne que não fosse estritamente kosher. Os Grei­dinger vinham de gerações de rabinos, autores de livros sagrados, enquanto o pai de Bashele era um peleteiro e o marido dela havia servido no Exército russo antes de se casarem. As crianças de nossa casa imitavam a fala de Shosha. Ela cometia erros bobos no iídiche; começava uma frase e raramente terminava. Quando era mandada ao armazém para comprar comida, perdia o dinheiro. Os vizinhos de Bashele diziam que ela devia levar Shosha ao médico porque o cérebro da menina parecia não estar se desenvolvendo, mas Bashele não tinha nem tempo, nem dinheiro para médicos. E como poderiam eles ajudar? A própria Bashele era tão ingênua como uma criança. Michael, o sapateiro, dizia que era possível fazê-la acreditar que estava grávida de um gatinho e que uma vaca havia voado por cima do telhado e botado ovos dourados.

Como o apartamento de Bashele era diferente do nosso! Não tínhamos quase nenhuma mobília. As paredes eram forradas de livros do chão ao teto. Meu irmão, Moishe, e eu não tínhamos brinquedos. Brin­cávamos com os volumes de meu pai, com uma caneta quebrada, um frasco de tinta vazio, pedaços de papel. Nossa sala de estar não tinha sofá, nem poltronas estofadas, nem arca de gavetas — apenas uma arca com os rolos, uma mesa comprida e bancos. As pessoas rezavam ali, no shabat. Meu pai passava o dia inteiro na bancada de leitura e consultava livros grandes que ficavam abertos em uma grande pilha. Ele escrevia comentários, tentando responder às contradições que um comentador encontrava na obra de outro. Ele era baixo, tinha a barba vermelha e os olhos azuis, fumava um ca­chimbo comprido. Desde que me lembro, sempre o ouvi repetir a frase “É proibido”. Tudo que eu queria fazer era transgressão. Não podia desenhar nem pintar uma pessoa — isso violava o Segundo Mandamento. Não podia dizer uma palavra contra outro menino — era calúnia. Não podia rir de ninguém — era caçoada. Não podia inventar uma história — isso representava uma mentira.

Nos shabats, não podíamos nem tocar em uma vela, uma moeda, nenhuma das coisas com que nos divertíssemos. Papai nos lembrava constantemente de que este mundo era um corredor no qual era preciso estudar a Torá e realizar feitos virtuosos, de forma que, quando se fosse para o palácio que era o outro mun­do, houvesse recompensas à espera de serem colhidas. Ele costumava dizer: “Quanto tempo se vive, afinal? Você mal se vira e tudo acabou. Quando uma pessoa peca, seus pecados se transformam em diabos, demônios, diabretes. Depois da morte, eles perseguem o corpo e o arrastam por florestas e desertos esquecidos onde as pessoas não vão e nem o gado pisa”.

Mamãe às vezes se zangava com papai por nos falar coisas tão deprimentes, mas ela própria era moralizadora. Era magra, com rosto encovado, queixo pontudo e grandes olhos cinzentos que expressavam, ao mesmo tempo, dureza e melancolia. Meus pais haviam perdido três filhos antes de eu nascer.

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