revista bula
POR EM 15/12/2012 ÀS 08:04 PM

Se a praça é do povo e o céu é do condor, os cadernos de cultura são dos cinéfilos

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A leitura vai se transformando em atividade de excêntricos. Apesar disso, o mundo editorial ainda gira. Para desgosto dos jornalistas culturais que pretendem explicar as engrenagens do mundo com o último filme argentino ou com a mais recente coletânea de algum quadrinista do Cazaquistão

Para Bárbara Gigonzac e Heyne Leyser, ávidas leitoras.

Do alto das minhas pilhas de livros, trinta e nove anos de leituras atrasadas me contemplam. Os montes inexplorados — meus himalaias particulares — me fitam e eu, planejando viver mais oitenta e cinco invernos, peço calma a eles e paciência aos deuses para com este humilde pecador.

Meu motor de explosão necessita de livros como carburante, o que me levou a juntá-los desde criança. Lá pelos meus 10 ou 12 anos, confrontado com a dura realidade do mundo cruel, tragicamente deixei de lado um futuro como desbravador do Velho Oeste ou astronauta e passei a me dedicar a uma das poucas atividades em que tenho tido sucesso, a acumulação indiscriminada de livros (isso depois de brevemente também ter considerado tornar-me poeta tuberculoso para viver cercado de belas mulheres sempre dispostas a atender aos meus desejos de moribundo, pois que compungidas com a minha situação de artista incompreendido e privado de leituras por ter colocado os livros no prego). Aos 20 anos, a coisa já era patológica (escreveu Paul Nizan: “Eu tinha vinte anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”). Por ter 20 anos, porém, em algum momento os livros disputaram espaço com os líquidos olhos verdes de Patrícia, mas o excesso de leituras desordenadas me deixara ciente de que eles viriam, causariam os estragos costumeiros e inescapáveis dos líquidos olhos verdes e iriam embora — portanto, a ordem natural das coisas seguiu o seu curso próprio: os olhos verdes se esfumaram, os livros permanecerem e depois houve outras Patrícias. De qualquer modo, tudo ficou ainda mais fácil quando me convenci de que, naquela trágica idade de 20 anos, já tinha os 39 que só alcancei efetivamente neste ano (e agora, supostamente com 39, sei que tenho na verdade 54 anos).

Creio modestamente que tenho sido bem-sucedido nesta faina — síndrome de Diógenes literária — de acumulação: diariamente verifico as novidades e faço as minhas compras. Compro, logo existo, e cada livro que há no mundo é uma espécie de baleia branca pessoal que perseguirei até o fim dos meus dias — tratem-me por Ishmael. E vocês sabem: se o trabalho é a perdição das classes bebedoras, a internet é a nêmesis das finanças das classes ledoras — compro livros, novos e usados, dos mais estranhos países e nas mais extravagantes línguas (li em algum site na internet que há até uma palavra japonesa para o ato de empilhar livros ainda não lidos, “tsundoku”. Não sei se confere, mas, se non è vero, è ben trovato). Em suma, compro livros como um hipocondríaco compra remédios. Não exagero, pois falo ex cathedra: sendo eu mesmo hipocondríaco, adquiro livros com um furor que só igualo quando me automedico. Meu ideal, confesso, seria uma livraria ao lado de uma farmácia para que eu pudesse checar as mais recentes publicações da Companhia das Letras e em seguida conferir os lançamentos da Aché e da Pfizer (fazendo crescer, inclusive, a minha lista de leituras com bulas de remédios, sempre instrutivas — sabem vocês que o uso de medicamento “por via de administração não-recomendada gera a não-obtenção do efeito desejado”?). Mas tudo isso é digressão: comprados patologicamente ou não, os livros aí estão e é preciso lê-los e comentá-los. (Se os comedidos leitores por acaso se perguntam como alguém se converte em bibliomaníaco ou bibliólatra, respondo: por azar, é claro. Vejam o meu caso: não posso afirmar se tantos livros me desasnaram, mas com certeza sei que me levaram à bancarrota. Mas que fique bem claro: os livros são o meu refúgio e não uma fuga da vida, pois que vivi, estudei, amei e até cri.)

Neste mundo moderno, contudo, se é certo que a praça é do povo e o céu é do condor, os cadernos de cultura dos jornais são dos cinéfilos e dos aficionados aos quadrinhos. A leitura vai se transformando em atividade de excêntricos. Mas, dito isso, ou apesar disso, espanto-me: há livros — e há leitores! O mundo editorial ainda gira. Sim, caros e panglossianos leitores: eppur si muove. As editoras seguem publicando seus livros e as livrarias vivem atulhadas (com todos se amontoando, nas ditas megastores, nos três únicos banquinhos colocados à disposição dos distintos fregueses, que em tempos de outrora sempre tinham razão — mais où sont les neiges d’antan?). Tudo isso, claro, para desgosto dos jornalistas culturais que pretendem explicar as engrenagens do mundo com o último filme argentino ou com a mais recente coletânea de algum quadrinista (existe essa palavra?) do Cazaquistão ou de Chatne.

O problema é que toda essa turma que lota as livrarias às vezes parece frequentá-las apenas para comprar revistas ou tomar despreocupadamente os escassos assentos, o que me leva a crer que caminhamos a passos largos para o inevitável dia em que alguém nos dirá, como Henry Morton Stanley a David Livingstone e com indisfarçável estranheza, “Um leitor, I presume”. Mas por ora, como esse dia apocalíptico ainda não se nos apresentou (gostaram do uso dos pronomes, acacianos leitores?), podemos ainda nos dedicar a esta atividade prazerosa e que tanta irritação causa aos chatos: fazer listas dos melhores lançamentos do ano. E em verdade vos digo: coletando dados para este artigo, posso afirmar (estupefato, registro), com base nas minhas inspeções empíricas, que ainda não somos um deserto de homens e de ideias (e se houver a mínima possibilidade de viramos um deserto de mulheres, a opção viável será o suicídio). Com isto em mente, fiz para você, pródigo leitor, a lista dos melhores livros publicados em 2012: sim, você aí, com livros amontoados pela casa, parentes irritados com a falta de espaço, rombo nas finanças por causa de tantos volumes comprados, doenças respiratórias causadas pelo acúmulo de poeira nos livros e tiques nervosos em razão do excesso de informações inúteis. Você, que há não muito tempo seria louvado pela cultura, mas que hoje é apenas considerado obsessivo-compulsivo e faz tratamento psiquiátrico. Você, o incompreendido.

Começo com livros sobre guerra. Faço parte daquele time que, mesmo sendo incapaz de decorar os nomes dos donatários das capitanias hereditárias, sabe dizer a ordem cronológica das conquistas militares dos Aliados depois do Dia D. Pois saibam que foram excepcionais os livros sobre a Segunda Guerra publicados em 2012 — e a propósito, já que este tema é o primeiro da lista, pergunto-me: por que nós homens somos visceralmente ligados à Segunda Guerra? (Essa pergunta me foi feita por B., a quem vivo querendo impressionar — será que tenho conseguido?) Bem, tenho muitas teorias a respeito, confusas e contraditórias, mas as deixarei para outro momento, pois o fato é que a Segunda Guerra é uma história, teorias complexas à parte, fascinante por conta dos seus muitos momentos de heroísmo e canalhice, o que é uma resposta satisfatória ao problema posto (q.e.d, se me permitem). Percebam sua magnitude: homens brilhantes como Churchill, Roosevelt, De Gaulle, Stálin e Hitler, todos com sua húbris (o brilhantismo não exclui a canalhice, é evidente). Generais da estirpe de Patton e Rommel. Resistência, como no gueto de Varsóvia e nos últimos dias da ocupação alemã em Paris. A orgulhosa França batida e vendo a ignomínia dos franceses que colaboraram com os nazistas, mas também sabendo honrar aqueles que resistiram, muitas vezes apenas com pequenos atos cotidianos (não percam, francófilos leitores, o discurso — está no YouTube — de André Malraux recebendo o corpo de um dos líderes da Resistência no Panthéon: “Entre ici, Jean Moulin, avec ton terrible cortège. Avec ceux qui sont morts dans les caves sans avoir parlé, comme toi; et même, ce qui est peut-être plus atroce, en ayant parlé; avec tous les rayés et tous les tondus des camps de concentration, avec le dernier corps trébuchant des affreuses files de Nuit et Brouillard, enfin tombé sous les crosses; avec les huit mille françaises qui ne sont pas revenues des bagnes, avec la dernière femme morte à Ravensbrück pour avoir donné asile à l’un des nôtres. Entre, avec le peuple né de l’ombre et disparu avec elle — nos frères dans l’ordre de la nuit...”).

Como devem ter percebido os meus nietzschianos leitores, tudo muito humano, demasiado humano. Mas houve mais, muito mais: Anne Frank no seu esconderijo, durante anos, em Amsterdã. Von Choltitz, o general alemão que desobedeceu à ordem de Hitler para destruir Paris. Pessoas que deram fuga aos judeus; judeus vivendo em florestas, formando comunidades clandestinas. Londres resistindo heroicamente durante meses sob bombardeios diários. Sim, foi qualquer coisa de grandioso, principalmente se tudo é comparado às nossas medíocres vidinhas. E Churchill, anglófilos leitores, quase vencido, sofrendo as pressões do próprio gabinete para aceitar a dominação da Europa por Hitler em troca da sobrevivência da Grã-Bretanha, mas ainda assim tentando convencer — e convenceu — os britânicos e o mundo de que deveriam lutar e que, se perdessem, teriam lutado por uma boa causa, teriam defendido a civilização contra a barbárie. Impossível não se emocionar com os seus discursos (que o ajudaram a ganhar o Nobel de Literatura): “Eu diria ao Parlamento, como disse para aqueles que se juntaram a este governo: nada tenho a oferecer exceto sangue, trabalho, lágrimas e suor”. Ou: “Mas, se nós falharmos, o mundo inteiro — inclusive os Estados Unidos, inclusive todos os que conhecemos e com quem nos importamos — irá afundar no abismo de uma nova era de trevas, tornada mais sinistra e talvez mais prolongada pelas luzes da ciência pervertida. Vamos, portanto, nos unir em torno de nossos deveres. E saber que, se o Império Britânico durar ainda mil anos, os homens ainda dirão: ‘Este foi o seu melhor momento’”. (Tenho certeza, belicosos leitores, de que fui soldado britânico ou maquisard em outra vida.) Em resumo: a Segunda Guerra é como um grande livro (já que estamos a falar de livros), o melhor e o pior do ser humano estão nela.

Mas me perdi. Perco-me sempre, isso é uma constante em minha vida. Aonde eu estava indo? Ah, sim, os livros sobre guerra publicados em 2012. De volta à vaca fria, pois não. O ano foi pródigo nesta área, e dois livros são absolutamente indispensáveis para quem se interessa pelo assunto: “Inferno: O Mundo em Guerra, 1939-1945”, de Max Hastings (Intrínseca), e “O Terceiro Reich em Guerra”, de Richard J. Evans (Planeta), este fechando uma fenomenal trilogia sobre a Alemanha de Hitler (foi antecedido por “A Chegada do Terceiro Reich”, de 2010, e “O Terceiro Reich no Poder”, publicado no ano passado). Se quiserem informação completa fornecida em prosa viva e competente, fiquem com esses livros dos ingleses Hastings e Evans, que dão a impressão de terem presenciado os eventos que narram. Entretanto, é preciso registrar que houve outras publicações de altíssimo nível no ano, tantas que a lista completa é de leitura inviável; assim, com dor no coração por excluir algumas, menciono “Mestres e Comandantes” e “A Tempestade da Guerra”, ambos de Andrew Roberts (Record); os dois volumes de “A Alemanha Nazista e os Judeus”, de Saul Friedländer (Perspectiva); “Churchill Vai à Guerra”, de Bryan Lavery (Lafonte); e ainda “Fim de Jogo, 1945: o Capítulo Que Faltava da Segunda Guerra Mundial”, de David Stafford, lançado pela Objetiva no apagar das luzes do ano. Reconheço que esses livros são leitura um tanto barra-pesada: além do próprio tema desgastante, somam mais de 5 mil páginas — mas quem é que anda ocupado da meia-noite às 6 da manhã? (A propósito, percebo que mencionei apenas livros sobre a Segunda Guerra, o que imagino que seja uma espécie de compensação por não ter lutado, à maneira de Drummond, com o russo em Berlim.)

Romances. A cada ano aparecem supostos novos fenômenos da literatura incensados pelos resenhistas, geralmente autores jovens e estreantes e também geralmente de parcos talentos. Estimulados por essa crítica sabuja, os leitores reagem como o cão de Pavlov: babam. Em 2012, por exemplo, houve, entre muitos outros, “Rostos na Multidão”, da mexicana Valeria Luiselli (Alfaguara), e “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra (Cosac Naify). Leio-os e me pergunto: agora é regra causar bocejos nos leitores? Não sei se todos os novos escritores cursaram as ditas oficinas de escrita, mas o fato é que seus textos são muito semelhantes, quase intercambiáveis entre si, o que não os impede de assim mesmo sempre ganhar resenhas favoráveis. E não é preconceito contra autores jovens: Jonathan Safran Foer, por exemplo, publicou um livro notável antes de completar 30 anos, “Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” (Rocco, 2006). Quiçá perguntem os meus leitores, que sabem a importância de ser prudente e talvez estejam agastados com minha intolerância a tanta sabujice, se quero impor minha opinião ao mundo. Sim, quero, do contrário não a publicaria, mas com certeza eu não gostaria de debater sobre isso: detesto toda espécie de debates, são sempre vulgares e, o que é pior, muitas vezes convincentes, já o disse minha tia Bracknell. De qualquer maneira, ressalvo que não sou crítico de literatura e que, como escrevi anteriormente em outro artigo, classifico os livros de acordo com minhas preferências estéticas nas categorias “Não Entendi”, “Gostei”, “Não Gostei” e “Não Sei Se Gostei”. Os livros de Luiselli e Zambra, apesar de que não achey nelles cousa algûa escandalosa nem contrária â fe & bôs costumes, foram classificados em “Não Gostei”, subcategoria “Definitivamente Ruim”. E não só de adulação aos autores estreantes vivem os moderninhos e descolados: também houve muito oba-oba por conta do primeiro volume da trilogia “1Q84”, de Haruki Murakami (Alfaguara), livro que coloquei por ora em outra categoria, “Suspeito Que Não Vou Ler”. (Dizem que Murakami é forte candidato ao Nobel — credo quia absurdum.)

A ficção de qualidade estaria mesmo cumprindo a profecia de morte que lhe fizeram tantas vezes? Já soou realmente o sempre anunciado dobre fúnebre do romance? Não sei, caras cassandras, mas me ocorreu que em 2012 tivemos melhores relançamentos que primeiras edições, como a “Trilogia Snopes” — “O Povoado”, “A Mansão” e “A Cidade” —, de William Faulkner, que saiu pela Benvirá. Faulkner vai se firmando, na minha lista de preferências, como o maior escritor do século 20 (Proust é, por assim dizer, um escritor do século 19). A Cosac Naify andou prometendo uma nova tradução de “Absalão, Absalão”, para mim o melhor livro — uma escolha difícil — de Faulkner, mas, até o momento em que alinhavo estas mal traçadas, neca de publicá-la. Para compensar a promessa não cumprida, tivemos “Ulysses”, marco literário canônico de James Joyce que ganhou a terceira grande tradução no Brasil, agora de Caetano W. Galindo, depois das anteriores e competentíssimas versões de Antônio Houaiss e Bernardina da Silveira Pinheiro. Foi publicado em conjunto pela Penguin e pela Companhia das Letras, parceria notável surgida neste ano (ou teria sido no ano passado?), e é imperdível mesmo para quem já tem as outras versões. E por que cargas d’água alguém teria três traduções do mesmo livro? Ora, realmente não sei bem, mas, para de algum modo explicar isso, digamos que insondáveis são os caminhos do Senhor. Há quem toque berrante como hobby, há quem tenha aquários e se divirta alimentando peixes, existe até quem gaste os tubos para montar verdadeiras boates nos seus carros. Já eu tenho as três traduções brasileiras de “Ulysses” e uma espanhola, além do texto original em inglês.

Outro relançamento é o da monumental “A Comédia Humana”, de Balzac, que está voltando à praça pela Biblioteca Azul (uma divisão da Globo, creio). Contudo, para não dizer que não houve nada de novo no front, lembro “Sôbolos Rios Que Vão”, de António Lobo Antunes (Alfaguara), que vem publicando um livro por ano há muito tempo, todos de altíssima qualidade. E ainda não li, mas estou curioso em relação a “Os Destituídos de Lódz” (há um tracinho no “L” e acento no “z”, mas minha incompetência em matéria de informática — da qual me orgulho — me impede de conseguir a grafia correta da palavra), de Steve Sem-Sandberg (Companhia das Letras). Já a Cosac Naify lançou uma tradução feita diretamente do russo de “Oblómov”, de Ivan Gontcharóv, o que deve ser comemorado, pois li a versão anterior, da Germinal, com espírito um tanto, digamos, contrafeito — o original, diria Jorge Luis Borges, não é fiel a essa primeira tradução.

Pausa para reler o que escrevi — canso-me e com certeza canso os leitores. E o que é pior, lembro-me do Eclesiastes: “No acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quem aumenta a ciência, aumenta a dor”. Mas não me penitencio e, se é verdade que não há nada de novo sob o sol, continuo depois com a segunda parte deste texto. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

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