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POR EM 14/06/2012 ÀS 12:54 PM

Ricardo Guilherme Dicke: a reparação de uma injustiça literária

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Ricardo Guilherme Dicke, que morreu em 2008, deixou uma obra respeitada por intelectuais, mas ao mesmo tempo ignorada pelas grandes editoras e, por extensão, pelo leitor

 

Em algum lugar, este articulista já escreveu — e repete-o agora — que, daqui a cem anos, o historiador literário que pretender traçar um inventário da melhor literatura produzida no Brasil na segunda metade do século 20 e nas primeiras décadas do século 21 não poderá se limitar a consultar as listas dos livros mais vendidos das revistas semanais nem os catálogos das grandes editoras.

Se o fizer, correrá o risco de cometer equívocos, tal como o investigador que se satisfaz ao compulsar apenas a documentação oficial de de­ter­minado período histórico — porque acaba por ficar com a visão de apenas um lado da História e exatamente o mais forte e opressivo. Afinal, boa parte da literatura de melhor qualidade vem sendo publicada no Brasil por pequenas editoras fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Basta ver que nenhuma das casas editoriais paulistas e cariocas de hoje ocupou o vácuo deixado pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, que, da década de 1940 até meados da década de 1980, cumpriu exemplarmente o papel de incentivar os jovens talentos, revelando um grande número de romancistas, contistas e poetas que hoje fazem parte da história da literatura brasileira.

Uma prova do que se escreve aqui é o romance “Deus de Caim”, de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), que agora sai em terceira edição pela editora Letra Sel­vagem, de Taubaté-SP, depois de ter sido publicado pela E­dinova, do Rio de Janeiro, em 1968, e pela Gráfica Sereia, de Cuiabá, em 2006. Se tivesse sido lançado à época pela José Olympio, teria seguido um percurso natural, ganhando maior divulgação na imprensa e adquirido o foro de gran­de revelação literária. A­final, em 1967, o romance con­­quistara o 4º lugar do Prê­mio Nacional Walmap, o mais importante do País à época, depois de analisado por um júri integrado por Guimarães Rosa, Jorge A­mado e Antonio Olinto.

O primeiro lugar ficou com “Jorge, um Brasileiro”, de Oswaldo França Júnior (1936-1989). Olhando-se a uma distância de 45 anos, é de reconhecer que o júri não andou mal ao escolher o livro de Fran­ça que, talvez até em função da premiação ou do ativismo literário do próprio autor, tornou-se mais conhecido e teve melhor fortuna crítica, assim como boa parte da produção do escritor mineiro, ainda que se possa dizer que, literariamente, o romance de Dicke é mais bem trabalhado e cerebral. Por isso, mereceria ter tido melhor sorte.

Ao contrário de Oswaldo França Júnior, que, morando em Belo Horizonte, teve al­guns de seus livros publicados pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, e, dentro das limitadas dimensões da literatura num país ainda extremamente inculto, tornou-se um nome conhecido nacionalmente, Dicke teve uma carreira literária, praticamente, ignorada, ainda que tenha sido citado por alguns raros autores e es­tudiosos, que conheciam a sua obra e reconheciam sua im­portância. Entre aqueles que se referiram com entusiasmo à obra de Dicke estão Hilda Hilst, Nélida Piñon e até o cineasta Glauber Rocha, que chegou ao exagero de afirmar que Dicke era “o maior escritor vivo do Brasil, mas que ninguém o conhecia”.

Quem consultar hoje o Google talvez venha a concluir que foi preciso que Dicke morresse para que seu nome passasse a se tornar mais co­nhecido. De fato, hoje, já não é tão desconhecido assim. E até já ultrapassou os muros da universidade. Em 2005, Ju­lia­no Moreno Kersul de Carva­lho, mestre em História pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), apresentou a dissertação “Do sertão ao litoral: a trajetória do escritor Ricardo Guilherme Dicke e a publicação do livro ‘Deus de Caim’ na década de 1960”. Para escrevê-la, teve a oportunidade de consultar o arquivo particular do autor. É de sua autoria o prefácio da segunda edição, reproduzido também nesta terceira edição.

Em 2011, Luciana Rueda Soares, professora de Língua Portuguesa, também obteve o seu mestrado em Letras pela UFMT com a dissertação “A configuração das personagens em ‘Madona dos Páramos’, de Ricardo Guilherme Dicke”, mas, antes disso, já escrevera o artigo “Ricardo Guilherme Dicke e a marginalização do sistema literário tradicional brasileiro”, fruto das pesquisas para a sua tese de mestrado, em que aborda a questão da ausência de escritor no cânone literário nacional.

Luciana afirma que essa constitui apenas uma das muitas injustiças que ocorrem em uma sociedade em que uma elite intelectual determina o que tem valor estético ou não. Para ela, “são muitos os excluídos da lista canônica, mas com o avanço e a globalização das informações é só uma questão de tempo e oportunidade para que essa questão seja revista”. Ainda bem. Aliás, a reparação dessa injustiça começa a ser feita pela terceira edição de “Deus de Caim”, pela Letra Selvagem, que vem alcançando grande repercussão nos jornais que ainda dedicam espaço à literatura. Com essa (re)descoberta do grande autor que Dicke sempre foi, o que se espera é que as dissertações de Juliano Moreno Kersul de Carvalho e Luciana Rueda Soares também sejam publicadas em livro em breve.

Sem contar que a terceira edição de “Deus de Caim” traz também uma apresentação de Nelly Novaes Coelho, professora titular da Universidade de São Paulo, em que a renomada crítica literária diz que este labiríntico romance “deu início à grande obra que Ricardo Guilherme Dicke realizou durante toda a sua longa vida”.

Dicke nasceu em Chapada dos Guimarães, em Mato Gros­so, onde passou a infância. Era filho de um alemão que viveu no Paraguai e mudou-se para o Brasil. Já adulto, passou a morar em Cuiabá, onde chegou a escrever o seu primeiro livro, “Ca­minhos de Sol e Lua”. Ainda bastante jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se licenciou em Filosofia e especializou-se em Merleau-Ponty (1908-1961) e fez mestrado em Filosofia da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudou pintura e desenho e participou do Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1966.

A essa época, trabalhou como revisor, redator e tradutor e foi repórter de “O Globo”. Depois da publicação de “Deus de Ca­im”, em 1968, resolveu voltar a Cuiabá, onde trabalhou como professor e jornalista e fez várias exposições de seus quadros. Ao morrer, aos 72 anos, deixava uma obra respeitada por alguns intelectuais, mas ao mesmo tempo ignorada. Seus livros, na maioria, foram publicados por editoras pequenas, em tiragens reduzidas, e repercutiram pouco na imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo. Ao que parece, deixou ainda algumas obras inéditas nas mãos da viúva, Adélia Boscov, com quem casara aos 26 anos de idade.

Publicou ainda “Como o Silêncio” (1968), “Caieira” (1978), “Madona dos Páramos” (1981), “Último Horizonte” (1988), “A Chave do Abismo” (1986), “Cerimônias do Esque­ci­men­to” (1995), “Rio Abaixo dos Vaqueiros” (2001), “Salário dos Poetas” (2001), “Conjun­ctio Oppositorum no Grande Sertão” (2002) e “Toada do Esquecimento & Sinfonia Equestre” (2006).

Inspirado em conhecido mito bíblico, “Deus de Caim” conta a história de dois irmãos gêmeos, Jônatas e Lázaro, que se apaixonam pela mesma mulher, Minira, localizando-os em Pasmoso, cidade inventada assim como a Yokna­pa­taw­pha, de William Faul­kner, a Macondo, de Gabriel García Már­quez, e a Santa Maria, de Juan Carlos Onetti, imaginada no interior do Mato Grosso. Com estilo denso, Dicke leva o leitor para um mundo dominado pelo ódio e pela incompreensão, em que todos parecem condenados ao inferno.

Na apresentação que escreveu para o romance, o escritor e crítico Ronaldo Cagiano diz que “Deus de Caim” “se converte numa escritura das paixões e desatinos humanos; é também fruto de uma catarse do autor e de seus personagens, tal o fluxo desordenado, eruptivo e fulminante com que sua narrativa, tecnicamente apurada, vai se processando”. E observa que, “ao traçar um painel da vida rural e urbana do Mato Grosso, ‘Deus de Caim’ desvela também as tensões sociais da época, o garroteamento da liberdade, a relação entre a civilização e a barbárie, entre o campo e a cidade, entre a descrença e a utopia, entre o imperativo da modernidade e os grilhões do atraso”.

Já no prefácio que escreveu para a primeira edição de “Deus de Caim”, o acadêmico Antonio Olinto comparou o estilo de Dicke com o de Louis-Ferdinand Céline, em­bora soubesse que o escritor matogrossense nunca havia entrado em contato com a obra do francês. E observou que “o estilo e os temas de Céline andavam no ar e outros escritores os pegavam sem precisar de leitura”. Para o crítico, ambos os escritores usam “uma linguagem de ódio”, embora Dicke use também “uma linguagem de amor, não o romântico, o de puro sentimento, mas o erótico, o da loucura de Eros que, felizmente, o mais civilizado dos homens e a mais industrial das sociedades ainda são capazes de ter”.

O que é de admirar é que um romance dessa qualidade tenha passado, praticamente, despercebido pela crítica e pelas grandes editoras (e, por extensão, pelo leitor) durante tanto tempo. A culpa, com certeza, não cabe ao autor.
 

Leia um trecho do primeiro capítulo

Na rede Lázaro. Zumbidos. O irmão morto na rede. O mundo rodeando sua roda indiferente. As moscas voavam lentas e pousavam na cara dele. Não se importava, Lázaro morto, narinas paradas. Todos os telégrafos diziam: Lázaro morreu e vai ser enterrado. Para sempre. Antigamente, diziam, havia a ressurreição. Agora não. Agora a sombra que abandona este reino de sombras, caminha para sempre só, num outro reino de sombras ainda mais solitárias. Só, como um rei perdido, só, sem reinado, na essência redonda da morte. Tão fácil, morrer. Como acontecera que guiara aquele ferro frio nas entranhas de outro filho, o mais querido de sua mãe? Lázaro, morrer e ser enterrado.

Agora, se entristecia a pensar. Homem morto. Rato morto. Um cheiro de figos maduros incendiava-lhe as narinas, forte, penetrante, morcegos andavam de dia?

Andavam ficando diurnos, co­mendo os frutos da figueira. Lembrou-se de quando morrera a mãe. Fora o mesmo. Ficara assim cinco dias e assim mesmo, sem caixão, na rede, sem nada, aquele fedor decomposto — coitada, a mãe, que fizera para terminar com um cheiro daqueles? Qualquer cachorro morto, ao sol, no meio da estrada, fedia do mesmo jeito. Pois, agora, dois anos se passaram que ela estava morta, respiração da morte no fundo da terra. O velho se fora primeiro, quando ainda não nascera. Nunca soubera como foram o velório, o enterro. Devia ter sido chato, como sempre. Até ele mesmo, que se precavesse, ia ser assim também, não pensasse grandezas. No enterro da mãe, as amigas da velha vieram de dez léguas por redor. Era conhecida. Neste, só ele cuidava o morto. Seu irmão Lázaro. No fundo não se assustava. Sabia o que era a morte. Viviam dentro dela, respirando vida, mas tudo era estar-se para morrer, nada mais. Tinha de ser. E quem o soubera? Pé da serra do Juradeus, por perto de Cuiabá.

Nem sertão, nem arrabalde. Mais ou menos. Viviam da vendinha que lhes deixara, mambembe, uma merda, o pai. O vizinho mais próximo era longe. E todo fim de semana ir à vila do Pasmoso, comprar mantimentos e voltar com o jeguinho carregado, o estirão queimando as alpercatas como fogo. Era uma vidinha até que agradada. Tão manso. Dava pra imaginar. Imaginar no quê? Qualquer coisa, ora bosta, mandar o irmão pros quintos, por exemplo. Mas era doloroso. Doloroso, o diabo. Mas sem remédio. Como um buraco. Depois que se caiu, está caído. Dane-se.

A tarde começava a cair. Sebo se esfregava em suas pernas procurando carinho.

Que andava adivinhando esse gato? Era um gato muito velho, de três patas, diziam que do tempo do pai. Jônatas não lhe fazia caso. Olhava de olhos semifechados, por entre os fios compridos de cabelos escorridos na cara, a paisagem familiar que anoitecia no retângulo da porta de tábuas mal formadas. Brilhava debilmente à última luz a cerca de taquaras da pequena horta.

Um pé de maracujá trepava pelo esteio da varanda: frutas como enormes melões pendiam entre as folhas. Ou porque a terra batida refletia o céu ou porque emitia uma claridade muito própria nessas horas, o terreiro de barro estava claro como banhado de luar. Jônatas olhava procurando a alma de Lázaro, entre as nuvens que corriam como um rio de roxos e vermelhos, além do recorte das árvores que se limitavam com o céu.

A figueira enorme parecia um guarda-chuvas ou um cogumelo e tapava uma parte do céu. Mamoeiras se esparsavam no terreno. Inúteis. Qualquer dia as poria abaixo.

Mamonas lhe chamaram a infância.

Ele e Lázaro se banhavam sob uma corredeira de espumas brancas, ambos guris. No alto do barranco, frei Oswaldo, gordo e vermelho como um Papai Noel, de pé, lendo seu breviário. De repente gritava na sua língua enrolada: Hei, meninos, famos que chá está ficando tarde.

— Um pouquinho mais, frei Oswaldo — pediam. Ele, bondoso, assentia e voltava ao livro. — Zô mais um pouquinhas.

A água caía de uns dois metros de alto, larga e pesada, num jato branco desparramando pérolas e ouros, gotas de todas as cores, sobre as pedras negras e escorregadias. Estava longe, longe como o irmão. A morte dele? Não sabia direito.

Quando fora, ontem, hoje? Uma briga por acaso, por nada. Lázaro lhe dera um sopapo, ele vira sangue, sacara da faca e se arremessara sobre o irmão. Giraram como doidos, agarrados, dentro de casa, derrubando coisas, depois saíram rolando encrespados como gafanhotos, por entre os arbustos, no mato, e durou um tempo infindável. Ao fim, quando se deu de si, o irmão, no chão estendido, olhos no céu, imóvel, possessão da morte, a faca pingando.

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