revista bula
POR EM 10/12/2008 ÀS 07:58 PM

Revolução Russa de Stálin devorou Maiakóvski

publicado em

 

A Edi­to­ra Re­cord lan­ça, de­pois de lon­ga de­mo­ra, Mai­akóvski — O Po­e­ta da Re­vo­lu­ção (559 pá­gi­nas), do rus­so Aleksandr Mikhai­lov, com pre­fá­cio de Ale­xei Bu­e­no e tra­du­ção esmerada de Zoia Pres­tes.
 
No pre­fá­cio, Bu­e­no no­ta “a ri­que­za me­ta­fó­ri­ca e rít­mi­ca da po­e­sia de Vla­dí­mir Mai­akóvski, sua mes­tria no uso de hi­pér­bo­les, seu hu­mor cáus­ti­co, seu vir­tu­o­sis­mo no jo­go de pa­la­vras”. Àque­le lei­tor que não quer ape­nas sa­ber os fa­tos da vi­da do po­e­ta, que di­zia de­tes­tar fo­fo­cas, re­co­men­do três li­vros: Po­e­mas, de Mai­akóvski, com tra­du­ções de Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to e Ha­rol­do de Cam­pos, Po­e­sia Rus­sa Mo­der­na, com tra­du­ções do mes­mo trio, e An­to­lo­gia Po­é­ti­ca, de Mai­akóvski, com tra­du­ção de E. Car­re­ra Guer­ra.
 
Mai­akóvski ma­tou-se, aos 36 anos, em 1930, quan­do Stá­lin, se­nhor do po­der, ha­via ex­pur­ga­do ad­ver­sá­rios de pe­so co­mo Li­ev Trotski e en­qua­dra­va aque­les que pen­sa­vam di­fe­ren­te­men­te da or­to­do­xia do par­ti­do.
 
Por que Mai­akóvski se ma­tou, com um ti­ro no pei­to, se ha­via con­de­na­do o su­i­cí­dio do poeta Sier­guéi Ies­siê­nin, em 1925? Mikhai­lov es­cre­ve, com per­ti­nên­cia: “A pes­soa que dei­xa vo­lun­ta­ria­men­te a vi­da le­va con­si­go o mis­té­rio de sua de­ci­são. Ne­nhu­ma ex­pli­ca­ção (in­clu­si­ve as de Mai­akóvski) pe­ne­tra na es­sên­cia re­al da ati­tu­de to­ma­da. Elas so­men­te en­tre­a­brem a cor­ti­na so­bre o se­gre­do, mas o pró­prio se­gre­do per­ma­ne­ce es­con­di­do atrás do fi­nal tris­te da vi­da. (...) En­con­tra­mos os mo­ti­vos, mas o se­gre­do per­ma­ne­ce em se­gre­do”.
 
Há dois pon­tos cen­tra­is. Pri­mei­ro, a Re­vo­lu­ção que Mai­akóvski ha­via co­la­bo­ra­do pa­ra cri­ar e for­mu­lar saía dos ei­xos e tra­ba­lha­va pa­ra en­qua­drar, cer­car e subordinar a li­te­ra­tu­ra, su­ge­rin­do que só a li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria era li­te­ra­tu­ra. O po­e­ta ten­tou se en­qua­drar, fez po­e­mas en­ga­ja­dos-proletários, pro­du­ziu car­ta­zes re­vo­lu­ci­o­ná­rios, mas sua cri­a­ti­vi­da­de, ti­da co­mo ex­ces­si­va e con­ta­gi­an­te, cho­ca­va os co­mu­nis­tas re­tró­gra­dos e não era en­ten­di­da pe­las mas­sas. Es­cri­to­res ge­ni­ais co­mo Mai­akóvski têm seu es­to­que de in­ge­nui­da­de po­lí­ti­ca e acre­di­tam que po­dem in­flu­en­ciar as re­vo­lu­ções e os po­lí­ti­cos, sem per­ce­be­rem que, adi­an­te, as re­vo­lu­ções, co­mo a Bol­che­vi­que, co­me­çam a de­vo­rar seus pró­prios fi­lhos. O sa­tur­no co­mu­nis­ta de Lê­nin e Stá­lin de­vas­tou es­cri­to­res, ma­tan­do-os, en­vi­an­do-os pa­ra mor­rer no Gu­lag ou exi­lan­do-os. Mai­akóvski ava­liou, er­ra­do, que po­de­ria se adap­tar. Aca­bou re­jei­ta­do pe­la po­lí­ti­ca da li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria, mais pro­le­tá­ria, em ter­mos de qua­li­da­de, do que li­te­ra­tu­ra.Che­ga­ram a boi­co­tar a en­ce­na­ção de sua pe­ça te­a­tral Os Ba­nhos. O bi­ó­gra­fo Mikhai­lov diz: “...as cir­cun­stân­cias de sua vi­da pes­so­al eram-lhe in­con­tor­ná­veis. Vi­via em pro­fun­do es­ta­do de de­pres­são e pas­sa­va por uma cri­se de cri­a­ção em fa­ce de con­fron­to com o po­der so­vi­é­ti­co, mes­mo sem ain­da ter a con­sci­ên­cia do que se­ria no fu­tu­ro, mas sen­tin­do uma enor­me pres­são que pri­va­va a li­te­ra­tu­ra do ar de li­ber­da­de”. Ima­gi­ne, pa­ra um cri­a­dor do por­te de Mai­akóvski, ter de pro­du­zir uma po­e­sia de bai­xa qua­li­da­de, pa­ra ser com­pre­en­di­do pe­las mai­o­ri­as e acei­to pe­la bu­ro­cra­cia, que ele abo­mi­na­va. Es­sa bu­ro­cra­cia me­dí­o­cre não acei­ta­va a sua sá­ti­ra, seu mo­der­nis­mo.
 
Se­gun­do, Mai­akóvski nu­tria pai­xão por du­as mu­lhe­res ca­sa­das — Lí­lia Brik e, nos úl­ti­mos anos, Ve­rô­ni­ca Vi­tol­dov­na Po­lonskaia, a No­ra. Quis se ca­sar com No­ra, che­gou a pro­cu­rar um apar­ta­men­to, mas sua de­pres­são e cer­ta vi­o­lên­cia, as­sus­ta­do­ra num gi­gan­te co­mo ele, in­co­mo­da­vam a atriz, que o ama­va. Pro­va­vel­men­te, ao sen­tir que a Re­vo­lu­ção não era o pa­ra­í­so li­ber­tá­rio que ima­gi­na­ra e que era in­fe­liz no amor, roí­do pe­la de­pres­são, Mai­akóvski op­tou por ma­tar-se. Ti­nha cer­ta con­sci­ên­cia de que o fu­tu­ro o aguar­da­va... pa­ra en­ten­dê-lo. Mas, de­pois de sua mor­te, quan­do não mais in­co­mo­da­va, Stá­lin o trans­for­mou no po­e­ta da re­vo­lu­ção e, nu­ma car­ta a Ie­jov, es­cre­veu: “Pe­ço que dê aten­ção à car­ta de Lí­lia Brik. Mai­akóvski foi e con­ti­nua sen­do o me­lhor e mais ta­len­to­so po­e­ta da épo­ca so­vi­é­ti­ca. A in­di­fe­ren­ça com a sua obra é um cri­me”.
 
Só não en­ten­do por­que Zoia Pres­tes não acen­tua o no­me Mai­akóvski, se ou­tros tra­du­to­res ga­ba­ri­ta­dos, co­mo Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to de Cam­pos e Ha­rol­do de Cam­pos, acen­tuam. No ca­so de Stá­lin, tam­bém não acen­tu­a­do, a fi­lha de Lu­iz Car­los Pres­tes, óti­ma tra­du­to­ra de Dou­tor Ji­va­go, o ro­man­ce-vin­gan­ça de Bo­ris Pas­ter­nak, se­gue o in­glês, lín­gua sem acen­tos. Em por­tu­guês, Stá­lin tem acen­to.

A Vladimir Maiakóvski
MARINA TZVIETÁIEVA
 
Acima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo —
Salve, pelos séculos, Vladímir!
Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.
Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.
Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta — e ligeiro
Toma o timão, rema no teu vôo
Áspero de arcanjo carreteiro.
(Poema de 1921)
Tradução de Haroldo de Campos
 

O bilhete do suicida
 
Vladímir Maiakóvski matou-se no dia 14 de abril de 1930 e deixou um bilhete.
 
"A todos
"De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.
"Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.
"Lília, ame-me.
"Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.
"Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
"Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer.
´Como dizem:
caso encerrado,
O barco do amor
espatifou-se na rotina.
Acertei as contas com a vida
inútil a lista
de dores,
desgraças
e mágoas mútuas.´
Felicidade para quem fica.
 
Vladímir Maiakóvski
12/IV/30
 

Não entendem nada
MAIAKÓVSKI
 
Entrei na barbearia e disse, sem espera:
"Por gentileza, penteie-me as orelhas."
O meloso barbeiro ficou cheio de abelhas,
seu rosto se alongou com uma pêra.
"Mentecapto!
Palhaço!" —
saltaram as palavras.
Insultos relincharam pelo espaço,
e l-o-o-o-o-ngamente
ouviu-se o rinchavelho
de uma cabeça que brotou por entre a gente
como um rabanete velho.

(O poema é de 1913, quatro anos antes da Revolução Russa de 1917. Mas a burocracia soviética, que queria poemas úteis à causa, podia compreender a sátira de Maiakóvski? Não, certamente.)
Tradução de Augusto de Campos
 

Hino ao crítico
MAIAKÓVSKI
 
Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no , com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil com um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhe de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Púchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa brancos nos artigos?

(poema de 1915)
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

 


A plenos pulmões
VLADÍMIR MAIAKÓVSKI
 
Primeira introdução ao Poema
 
Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merca fóssil
de agora,
perscrutando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim. Ora,
começará
vosso homem de ciência,
afogando os porquês
num banho de sabença,
conta-se
que outrora
um férvido cantor
a água sem fervura
combateu com fervor. (1)
Professor,
jogue fora
as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
de mim
de minha era.
Eu — incinerador,
eu — sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo "front"
a horticultura airosa
da poesia —
fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
virgem
vargem
sombra
alfrombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim".
Este verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, —
bonifrates encapelados,
descabelados vates —
entendê-los,
ao diabo!,
quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles —
mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
escarra a tuberculose;
putas e rufiões
numa ronda de sífilis.
Também a mim
a propaganda
cansa,
é tão fácil
alinhavar
romanças, —
Mas eu
me dominava
entretanto
e pisava
a garganta do meu canto.
Escutai,
camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
dos melífluos enxurros:
por cima
dos opúsculos líricos,
eu vos falo
como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
à Comuna distante,
não como Iessiênin,
guitarriarcaico.
Mas através
dos séculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com labor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
versos como ossos,
Se estas estrofes de aço
Acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
mas terrível.
Ao ouvido
não diz
blandícias
minha voz;
lóbulos de donzelas
de cachos e bandos
não faço enrubescer
com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
— tropas em parada,
E passo em revista
o "front" das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
Prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhões,
rígida coorte,
apontando
as maiúsculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.
Dialética, não aprendemos com Hegel. Invadiu-nos os versos
Ao fragor das batalhas,
Quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
— glória —
se arraste
após os gênios,
merencória.
Morre,
meu verso,
como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
Sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
sobre o mármore, viscoso.
Partilhemos a glória, —
entre nós todos, —
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
na refrega
e no fogo.
Vindouros,
Varejai vossos léxicos:
do Letes
brotam letras como lixo —
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrício".
Por vós, geração de saudáveis, —
um poeta,
com a língua dos cartazes,
lambeu
os escarros da tísis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
fossilcoleante.
Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
pelo qüinqüênio afora. (2)
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
Lavada e clara,
e basta, —
para mim é tudo.
Ao
Comitê Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.
 
[Dezembro, 1929/janeiro, 1930]

Notas
1 — Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária.
2 — Alusão aos Planos Qüinqüenais soviéticos.
(Provavelmente, como não tenho controle da página do jornal na internet, o poema vai perder a forma na qual foi escrito. Espero que, pelo menos, ao se ter preservado o conteúdo, o leitor se contente com a poesia de Maiakóvski, com um de seus poemas mais conhecidos. A tradução é de Haroldo de Campos. Onde está "saudáves", pus saudáveis. E. Carrera Guerra usa, na sua versão, "ágeis e robustos".)   
 

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