revista bula
POR EM 05/03/2010 ÀS 06:12 PM

Os trapalhões

publicado em

Os Espiões“Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer.” É assim, com ar deprimente, que começa “Os Espiões”, novo romance de Luis Fernando Veríssimo (Alfaguara, 142 páginas). Escrito de forma simples, direta, muitas vezes redundante e com algumas passagens repetitivas, o livro conta a história de um funcionário de uma pequena editora, mal-humorado e de ressaca nas segundas-feiras, com alguma boa-vontade nos dias restantes. Ele recebe exatamente numa terça-feira, em seu resquício de mau humor e dores de cabeça, o primeiro capítulo de um misterioso original com remetente de uma pequena e desconhecida cidade: Frondosa. É Ariadne quem assina o texto ausente de vírgulas, com graves erros gramaticais, texto este que desperta a curiosidade, o fascínio e até uma certa admiração exagerada — antes por parte do editor e depois de seus amigos e conhecidos de bar, porque tudo o que a misteriosa escritora quer com o romance é vingar-se do marido ciumento que, diz ela, matou seu amante. 

Tanto o protagonista, o deslumbrado narrador, quanto seus amigos de bar, vão aos poucos sendo envolvidos pela imagem ao mesmo tempo interessante e irritante de Ariadne. Ela não só pretende mandar o livro em partes, esquiva e secretamente, como também suicidar-se quando o livro estiver pronto. Seria dramática e bela, poética até, se não fosse tão forçada e novelesca a personalidade desse quase-fantasma com fome de vingança. Depois de fatos sondados, ligações familiares descobertas através de nomes conhecidos, os personagens não mais têm curiosidade sobre seu objeto de mistério, mas real atração e um tanto de pena dele. Chega a ser quase cafona o modo como todos os amigos se reúnem, deslocando-se, desdobrando-se, alterando o próprio cotidiano, para, heroicamente, salvar Ariadne das mãos do marido que praticamente a deixa trancada dentro de casa. 

Num certo ponto da história, quando membros da “Operação Teseu”, nome dado ao plano de “roubar” Ariadne de Frondosa, inspirado no Teseu da mitologia grega, ajudado por Ariadne a sair do labirinto depois de matar o minotauro, há suspense, há tensão, Veríssimo consegue segurar o leitor e fazê-lo ansiar por um desfecho, mas por poucas páginas. O jogo de palavras é pobre, o ritmo dos fatos sofre uma forte aceleração que quer desesperadamente chegar ao clímax, porém não consegue. Toda a apressada narração do romance a partir da metade mostra-se mais como uma desculpa para terminá-lo logo do que causar alguma boa reação final. É exatamente quando todos estão em Frondosa, hospedando-se em hotéis, esquivando-se mais como trapalhões do que como espiões, que o enredo fica bobo, debochado, perde a boa ideia criada pelo autor. Porque é isso que “Os Espiões” se revela: uma excelente ideia, com uma trama interessante, juntando literatura e personagem (quase) ausente, suspense e crime, paixões e atos heroicos, mas muito mal-escrita, malpensada; um prato que aos olhos faz salivar, embora não tenha qualquer tempero quando provado. 

Leitores que procuram por um texto fácil vão ficar muito satisfeitos com “Os Espiões”, mas pouco se também quiserem entretenimento. Se Veríssimo queria entreter, consegue em pouquíssimas partes, com um suspense suave e um tanto óbvio, mas não “anima” o plot, enterrado nas entrelinhas ou no imaginário de um leitor com mais expectativas. O romance termina tão monótono como começou: explicações, lugares-comuns, a vida seguindo do mesmo jeito porque nada parece alterável demais, ou digno de alterações grandiosas, a não ser uma morte aqui, outra li, tornando uma cena e outra dos últimos capítulos exemplos de clichês, coisa que não falta — aliás, sobra. Desde os nomes, propositalmente irônicos ou não, que vão de Joel, passando por Julinha e João (mulher e filho do protagonista), um cachorro de nome Black (também do protagonista), até chegar em Mandioca, Professor Fortuna e Fulvio Edmar. Claro que entre os nomes há piada gratuita, marca e intenção de Luis Fernando Verissimo de parecer engraçado, o que não arruina a obra; alguns nomes são a própria resposta ao contexto em que foram inseridos, mas em certos momentos, assim acumulados, ficam saturados e um tanto ordinários. 

O melhor de “Os Espiões”? A capa, vencedora do concurso “Melhor Capa de Livro de 2009”, da Getty Images, com foto de Amanda Friedman. Além do nome já conhecido do autor (em vermelho), é ela, a capa, quem atrai o leitor, com seu chamativo espião que não consegue passar despercebido atrás de um poste. Mas o que a história tem de espionagem? Quase nada. Ela é mais um pretexto para uma trama que dificilmente quer acontecer, que não vem à tona; é o desespero do mocinho (outro clichê que vende bem, tanto na literatura quanto no cinema) em salvar a mocinha do bandido, se é que existe mesmo um. “Espionar é esperar”, começa o capítulo 7 citando John le Carré, e “Os Espiões” carrega muito mais essa longa espera do que a fraca espionagem proposta em título e capa.

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