revista bula
POR EM 06/07/2010 ÀS 03:49 PM

Os Malaquias

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Os MalaquiasPara quem conhece Andréa del Fuego, escritora nascida em São Paulo mas quase mineira, com um olho de cada cor e as mãos encharcadas de palavras, sabe de seu trabalho visceral e divergente na literatura contemporânea. Na via principal da escrita há quase sete anos, Andréa se tornou a mãe dos minicontos, começando nessa escrita aparentemente fácil, mas que em poucas linhas, ou numa linha só, revela e esconde, mostra-se rasa no tamanho, mas profunda na possibilidade quase absurda de muitos sentidos. O que sua literatura traz, antes de qualquer coisa, é mais do que o palco à mostra, as cortinas descerradas e os atores curvando-se para a ovação; ela traz o que o espectador de alma observadora consegue absorver do urdimento, das pateras, da ribalta, do proscênio. O conjunto nunca é objetivo, e por isso torna-se mais encantador.

Depois de publicar quatro livros de contos e minicontos, um de crônicas e dois romances, um juvenil e outro infantil, Andréa fugiu dos atalhos e se enredou na trilha tortuosa e às vezes íngreme que pode ser o romance adulto, sempre de maior peso, de tempo mais largo e que pede concentração e foco redobrados. “Os Malaquias” (Língua Geral, 272 páginas) veio como prato de entrada e dependendo de leitura e leitor, pode satisfazer todo o jantar e dispensar o resto, inclusive bebida, garçom e bons modos à mesa onde nossos olhos derramam nos 73 capítulos: curtos como já é marca da escritora, mas longos na representação literária, na simbologia linguistica e acima de tudo na qualidade.

Resgatando seus antepassados e fatos verídicos que foram sendo amassados e ficcionados, “Os Malaquias” conta a história da vida de três irmãos que perdem seus pais para um raio, num lugar chamado Serra Morena e que se mostra cada vez mais enigmático ao longo das páginas. Durante uma tempestade, descrita com a lenidade de um poema, a família Malaquias está deitada, dormindo, quando um raio cai sobre a casa e fulmina o casal que tem seus corações na sístole, instante em que a aorta se fecha, não permitindo o raio passar e aterrar-se. Ao contrário dos pais, os três filhos, deitados juntos numa mesma cama em outro quarto, estão no momento da diástole, permitindo a passagem da descarga e sofrendo assim “queimaduras ínfimas, imperceptíveis”. A partir daí o romance é vertigem e tempo. Cada criança tem seu destino arranjado por Geraldo Passos, dono da Fazenda Rio Claro, na mesma serra, lugar onde se passa boa parte do romance. Nico, o mais velho, fica com ele para ajudar no trabalho rural, ao passo que Antônio e Júlia vão para um lar de irmãs francesas, que cuidam de crianças órfãs, educando-as e alimentando-as. Nico cresce longe dos irmãos, conhece o amor, deixa o espírito de Serra Morena o tomar e guiar seu caminho, ele próprio vertiginoso como o romance se apresenta do meio para o fim. Júlia, a mais nova, é adotada por uma mulher rica, enquanto Antônio, o irmão do meio, continua no lar das irmãs, crescendo na idade, mas não na altura, por ser finalmente diagnosticado com nanismo.

Durante boa parte da narrativa, Andréa vai desvelando as histórias paralelas dos irmãos e de seus conhecidos, mostrando um sonho aqui, uma dor ali, uma descoberta mais adiante, os amigos, os confiáveis, os mesquinhos, os impacientes, os deslumbrados, e os que se podem ser chamados de família – afinal tudo, enfim, se trata de família, amar como se é, aceitar o que se tem, não por comodismo, mas exatamente porque o amor pede compreensão.

A leitura também pede compreensão, e mais que isso: pede coração. Andréa del Fuego não brinca na escrita, cada frase é uma oração, literalmente, que é necessária antes e depois da refeição-leitura. Há um uso extremo de metáforas e poesia, mas nada em excesso. A narração só brilha mais com essa poesia, mas há o lugar dela, há o lugar certo para a objetividade, outro para a subjetividade, e quando se chega ao cerne da história, você pode levar um susto, do bom. Se no começo você tinha as vidas separadas dos irmãos e seus cotidianos complicados, depois você se depara com o inesperado, o realismo fantástico, o possivelmente impossível e toda a genialidade de uma escritora que não vai na maré do óbvio, mas que se entrega ao maremoto sem medo, nas profundezas do improvável desconhecido – fantasmas, pessoas que se entregam às águas impacientes da construção de uma hidrelétrica, um curioso e maravilhoso “lado de lá”, alguém sugado por um bule de café.

Mais do que a vida, há a morte sempre presente, e se ela chega, é sem pedir licença como todo o resto. Na literatura de del Fuego você encontra a medida certa da metáfora, da poesia, das orações que comem verbos para tornar a ideia mais clara, mais agreste, mais esculpida, comprimido engolido sem água. “Os Malaquias” é um verdadeiro mergulho no ser humano e no que ele quer ver, no que sente, como sente. Todos os sentidos cumprindo um papel mágico, em massa, imagens líricas, fortes, uma surpresa acontecendo atrás da outra e de repente você tem um filme na mente, com direção de Fernando Meirelles e fotografia de Tim Burton.

Andréa del Fuego nos brinda com um belíssimo “primeiro romance”, trabalhado por anos, lapidado até o último brilho que reflete seu interior mais etéreo e misterioso. Como não gostar de um livro em que “a gargalhada salpicava a grama”, em que uma letra rabiscada não é somente isso, mas um “eletrocardiograma de um gato em salto”?  Como não gostar de Nico, que “com os olhos escuros absorvia quem chegava” e que “nele pesava a escuridão de quem o encarasse”?

Cada página, cada cena, cada pulsação da escrita de Andréa é uma interpretação, um ângulo da vida visto por quem quer ver, por quem enxerga além do tocável ou até onde o toque da visão alcança, e “Os Malaquias” chega para mostrar que a literatura brasileira está cheia de ótimas surpresas.

Abaixo, uma breve entrevista com a autora sobre o livro:

Andréa del FuegoDe onde surgiu a ideia para o romance? Qual foi a primeira centelha da história que queimou você, mostrando que ela poderia virar um incêndio?

A ideia do romance surgiu em Minas Gerais, durante um passeio numa serra onde parte da minha família nasceu e cresceu. As personagens Júlia e Antônio são meus tios-avós e Nico, meu avô. Dos pais eletrocutados por um raio, passando pela consequente orfandade, até o nanismo de Antônio, são fatos reais. Não podia deixar essa história para trás, o romance é uma oferenda aos meus antepassados. A partir desse ponto, tudo é invenção.

Numa entrevista do período em que ainda lapidava o romance, você disse que ele já estava na décima versão. Por que tantas versões? São os cortes, o cuidado com as palavras, dificuldades técnicas, ou com a própria história? Você se considera rígida com sua escrita?

Tudo isso junto: cortes, cuidado com as palavras, dificuldades técnicas e a própria história. Ao relê-lo agora, depois de impresso, deu vontade de cortar mais, mudar uma e outra palavra, afinar um ritmo acolá. Esse trabalho não tem fim. Espero, futuramente, aprender a fazer isso com menos angústia, a ansiedade e a dúvida paralisa o texto, pior, o escritor.

Qual foi a maior delícia e a maior dificuldade do processo criativo?

A delícia foi a ideia inicial, as primeiras páginas, as grandes certezas, e a maior dificuldade foi terminar, perder as certezas, tentar resolver os problemas, pelo menos os mais evidentes.

Com um olhar mais profundo sobre “Os Malaquias”, percebe-se não uma dose de poesia, mas uma garrafa dela, além de inúmeras metáforas e várias referências biológicas, químicas e físicas, que na sua escrita, particularmente, enriquecem o texto e se camuflam na linguagem sem que pareçam um estudo exato do fato narrado. Por que esse gosto tão incomum, e talvez por isso tão interessante, pelas ciências exatas dentro da literatura?

A descrição química de um fantasma me perseguiu até o fim do romance, muitas vezes parecia pertinente abrir mão dessa obsessão, e cortei muitos delírios nesse setor.  Pensar nas cadeias moleculares de uma mesa não traz problemas, mas inventar as ligações elétricas entre uma memória sem corpo e um outro sujeito, traz muitos. Inventar as reações físicas de um encosto foi uma teimosia que não soube me livrar.

Além das variadas figuras de linguagem, o romance brinca com o realismo fantástico, algo que seus leitores já conhecem de seus contos e minicontos. O que significa esse tipo de realismo no seu trabalho? Quanto dele é espontâneo e quanto é programado?

Não procuro o realismo fantástico, nem é o tipo de literatura que mais leio, sempre sou arrastada por uma linguagem realista e materialmente possível. No caso de “Os Malaquias”, o ponto de partida saiu de minha realidade familiar, mas o desdobramento fantástico foi espontâneo, não foi calculado. Pelo contrário, todo o trabalho de corte foi sobre o realismo fantástico. Pensando agora, o realismo fantástico usado na construção de uma história familiar é uma boa defesa, sua origem passa a ser mágica, você pode colocar em suspensão leis do mundo e inventar outras.

Tem alguma expectativa específica com a publicação deste seu primeiro romance adulto?

O livro, enquanto esteve comigo, na minha gaveta, estava seguro. Olho para o objeto e tenho vontade de protegê-lo. Nunca senti isso antes, sempre quis exibir os livros o mais que pudesse, até mesmo lancei prematuramente o primeiro livro de contos, que ainda não estava maduro. O romance tem uma aura particular, uma convivência maior na escrita. Assim que essa sensação infantil passar, voltarei as forças para o próximo romance, já iniciado.

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