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POR EM 23/06/2011 ÀS 01:31 PM

O novo livro de Joyce Carol Oates

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Joyce Carol OatesSe a poeta Emily Dickinson é a grande rival de Walt Whitman, no século 19, a prosadora Joyce Carol Oates, de 73 anos, é a principal rival de William Faulkner no século 20. (Ian McEwan é seu par inglês.) Joyce escreve literatura de qualidade (tida como sombria, quando, na verdade, sombrios são a vida e o mundo) e crítica literária. E escreveu um bom livro sobre boxe. Sua obra-prima, o romance “A Filha do Coveiro”, conta a história de sua avó Blanche Morgenstern. A autora tem o hábito de vasculhar os segredos de família e ficcionalizá-los. Agora, com “Memórias de uma Viúva” (inédito no Brasil), conta um drama pessoal — a morte do marido, o editor Raymond Smith, em 2008. “É o livro mais pessoal e impactante de Joyce Carol Oates, firme candidata ao Prêmio Nobel de Literatura”, diz a “Revista de Letras” do jornal “La Vanguardia”, de Barcelona. O livro contém “agudas reflexões e, às vezes, humor negro”. Sobretudo, “narra uma comovente história de amor, lírica, moral e implacável, como as que povoam suas novelas, e oferecem um inédito retrato de sua intimidade, até agora zelosamente protegida”.

A “Revista de Letras” transcreve trecho da resenha de Ann Hulbert, publicada no suplemento “The New York Times Book Review”: o livro, diz a crítica, “hipnotizará e comoverá o leitor... Um livro mais dolorosamente auto revelador do que a Oates novelista ou crítica se atreveria a publicar”. Joyce ficou casada por 47 anos e 25 dias com Ray. Quando ele morreu, em 2008 — oito anos mais velho do que Joyce, Ray não se recuperou de uma pneumonia —, o mundo da escritora desmoronou. Ao se recompor, escreveu “Memórias de uma Viúva”. “La Vanguardia” publicou um capítulo do livro (a tradução para o espanhol é de María Luisa Rodríguez Tapia), do qual dou notícia e traduzo trechos.

Na parte um do primeiro capítulo, “A mensagem”, Joyce relata uma visita que fez ao marido, que estava internado no Centro Médico de Princeton. Ray, já melhor, iria ser transferido para uma clínica de “reabilitação”. “A esperança é nosso consolo ante a mortalidade”, anota Joyce. Ao voltar da visita, vê, preocupada, que havia um papel no para-brisa do Honda Accord da família. Acreditou que era uma multa e pensou: “Nada direi a Ray. Pagarei secretamente”. Não era uma multa. Era um bilhete com um xingamento porque a autora havia deixado o carro mal estacionado. O texto dizia: “Aprenda a estacionar, animal estúpido” (a palavra “zorra” também significa prostituta).

Segunda parte do mesmo capítulo, “O acidente”, Joyce volta a 2007. A escritora conta a história de um acidente de automóvel sofrido por ela e Ray. “Em retrospectiva, parece irônico que este acidente, no qual Ray poderia ter falecido, mas não morreu, tenha ocorrido a menos de dois quilômetros do Centro Médico de Princeton”, relata. A ironia é que, mais tarde, ele foi internado neste hospital, com pneumonia, e morreu. O carro, atingido por outro veículo, ficou inteiramente destruído. Era dirigido por um jovem.

Os airbags, dispostos nos automóveis para salvar vidas, quase mataram Ray e Joyce. “O impacto que Ray recebeu no rosto, nos ombros e peito pareceu um murro de um boxeador peso-pesado.” Joyce ficou com dores no corpo por vários meses. Mas, ao sair do carro, disseram, com alívio: “Estamos vivos! Saímos ilesos!” O casal rejeitou a recomendação da polícia de que deveriam ir para um hospital. “Nós queríamos ir para a nossa casa.” Depois, tomaram apenas aspirina. Ray disse, tranquilamente: “Amanhã vou comprar um carro novo”. “Raymond, o sábio protetor”, escreve Joyce. Ele queria deixá-la tranquila, e conseguiu.

Ray nasceu em março de 1930 e Joyce em junho de 1938. Casaram-se em 1961. Um casamento feliz. Joyce diz que, em 47 anos de casamento, não se conheciam inteiramente, foram se conhecendo aos poucos. Os dois queriam preservar o “território” físico e psíquico de cada um. “Havia muitas coisas que não queríamos dizer nem compartilhar com o outro.” O relativo grau de autonomia, longe de esfriar o relacionamento, fortaleceu o casamento e o amor.

Mas nem tudo é perfeito num casamento, e, com um pouco de mágoa, Joyce admite que Ray, seu marido querido, não era leitor de sua prosa. “Meu marido não leu quase nenhum de meus romances nem meus relatos curtos [contos]. Lia meus ensaios e minhas resenhas para o ‘New York Review of Books’ e a ‘New Yorker’. Ray era um editor excelente, sagaz e culto, como disseram inumeráveis escritores que colaboraram com o ‘Ontario Review’, mas não lia quase nada de minha ficção, e, nesse sentido, pode-se afirmar que Ray não me conhecia por completo ou, num aspecto importante, nem sequer em parte.” Trata-se de uma reclamação, que certamente não pôde ser feita a Ray, mas é apresentada num contexto de muito carinho e respeito pelo marido.

“Eu lamento”, acrescenta Joyce. “Porque escrever é um trabalho solitário, e um de seus perigos é a solidão. Mas uma vantagem da solidão é a intimidade, a autonomia, a liberdade.” O que Ray diria, por exemplo, sobre a história sombria do romance “A Filha do Coveiro”? Certamente se perguntaria: “Como pode a minha mulher, a doce Joyce, ser a autora desta história tão aterradora?” Os demônios interiores de Joyce — ou de todos nós, por meio do que lemos, quando não podemos expressá-los — aparecem, vigorosamente, na sua prosa. Recentemente, o escritor V. S. Naipaul disse que as mulheres escrevem uma prosa sentimental, irracionalista. No caso de Joyce, não há sentimentalismo e, mesmo, algumas de suas histórias parecem escritas por um homem. Claro, há a percepção feminina, sobretudo porque constrói muito bem as personagens femininas — os homens às vezes são meio caricatos —, mas há também certa secura que lembra a prosa masculina de um Ian McEwan.

Ray e Joyce formavam um casal apaixonado, com uma vida individualmente rica e complementar. Mas não há relacionamento sem certa dependência mútua. Por isso, quando do acidente, do qual escaparam bem, Joyce pensou: “Se Ray morrer, ficarei totalmente abandonada”. Por isso, frisa, “seria melhor morrer com ele do que sobreviver sozinha”. Joyce diz que, nesse momento, “não estava sendo escritora acima de tudo, e sim uma esposa. Uma esposa que tinha pânico de ser convertida em viúva”. Quando Ray estava vivo, logo depois do acidente, Joyce queria dizer-lhe: “‘Te quero, sou agradecida por estar casada com você’. Mas as palavras não saíram”. A vida é assim mesmo: às vezes queremos dizer alguma coisa à pessoa que a gente ama, mas a inibição — ou orgulho, medo de ser debitado como fraco ou piegas — não permite. “Quantas coisas queria dizer ao meu marido, quantas não disse. Uma razão é que haveria outros instantes, outras ocasiões. Anos.” O fato é que não há. Hoje ou amanhã, como somos mortais, poderá ser o fim da linha.

Joyce diz que, depois do acidente, viveram “um ano e seis semanas juntos — o tempo que nos restava — que foram um presente. Obrigado!” Trata-se de uma Joyce diferente, mais emotiva, vívida. Ainda assim, boa escritora, com sua prosa segura, perspicaz e atenta aos detalhes (a morada dos deuses).

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